Viva
Jesus !
Balasar, 21
de Janeiro de 1934
Reverendíssimo Senhor Doutor :
Tomei
a pena na mão para escrever a Vossa Reverência, eram nove horas da
noite, mas as lágrimas quase que me cegavam, que mal via para seguir
direito, mas tinha razão de sobra para assim fazer, porque se acabaram
quase todas as minhas esperanças de Va Rev.cia
aqui voltar dar-me alguma consolação espiritual. Ai de mim ! Só Nosso
Senhor sabe como eu esperava esse dia feliz ! Tornará o meu bom Jesus a
conceder-me esta tão grande graça ? Não Lha mereço ; mas Nosso Senhor
que tudo conhece e sabe bem todos os meus desejos, há-de ter
misericórdia de mim.
Senhor Doutor, no dia 8 do corrente tive aqui a visita da Candidinha
Almeida juntamente com um Senhor Padre que, por algumas palavras,
entendi que Vossa Reverência me tinha recomendado a ele. Mais uma vez
lhe agradeço a caridade que teve para comigo. Ele consumiu-se para que
eu ficasse bem e perguntava-me se eu ficava contente, e eu dizia-lhe que
sim. Nem mentia, nem falava verdade : ficava contente porque não tem
comparação com o nosso, mas ficava muito triste porque de Vossa
Reverência para ele tem uma distância que nem posso comparar. E mais
motivos tinha para me causar tristeza, mas fica para lhe dizer, se tiver
a alegria de o ver outra vez ao pé de mim, pobre pecadora. Ou Vossa
Reverência vai esquecer-me de todo, não voltando a visitar-me e a
escrever-me ? Oh ! peço-lhe, por amor de Jesus e de Maria, que isso não
pense, porque para mim seria como tirar-me a luz dos meus olhos, o
tirar-me a luz da alma. Oh ! como eu preciso de quem me auxilie na
santificação, para assim no Céu poder viver mais junto de Nosso Senhor !
Senhor Doutor, já lá vai um mês sem que eu tenha tido umas palavrinhas
de Vossa Reverência para meu conforto. Bem sei que tem muito trabalho e
muito em que pensar, mas já acho uma demora grande. Será por estar
melindrado comigo ? Se assim for, peço que me perdoe, que não fiz nada
com o fim de o ofender.
Então
como passou o dia de anos ? Eu há meses que tinha este papel para lhe
escrever no dito dia 16, juntamente com este santinho que tinha mandado
comprar para este fim, a final não escrevi porque estava tão triste e
tão desanimada, que não me senti com coragem de escrever. À vista lhe
contarei quanto tenho sofrido nestes tristes dias, mas não o esqueci de
um modo especial, assim como a minha irmã e a minha mãe. Elas se
recomendam muito.
Adeus, até não sei quando.
Peço
desculpa por ir muito mal escrita, mas nem sei, nem posso melhor. De
saúde continuo na mesma : dias pior, dias melhor, mas sempre fraquinha.
Peço para pedir muito a Jesus por mim e também para me abençoar com uma
benção muito grande.
Esta
que não o esquece em minhas pobres orações.
Alexandrina
Maria da Costa
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 8
de Março de 1934
Senhor Padre Pinho :
Ontem
mesmo tive a grande consolação de receber uma carta de Vossa Reverência
que há muito tempo desejava, porque me via abandonada de tudo. Só pedia
a Nosso Senhor que me não abandonasse também, porque então seria para
mim um caso de desanimar de todo, de conseguir o que tanto desejo, que é
de ser santa. Pois, a não ser as cartas de Vossa Reverência, não tenho
ninguém que me ajude a ser de cada vez mais do meu querido Jesus.
Senhor Padre Pinho, faz um mês no dia 10 que me confessei e, se Deus
quiser, fazê-lo-ei outra vez para o dia 13, mas tenho que mandar pedir,
porque se assim não fizesse nunca me confessava, porque ele nunca me
fala de confissão. Não sei o que será de mim.
Agradeço imenso o dizer-me que comunga por mim, porque apesar de ser o
Santíssimo Sacramento o meu maior Amigo, com grande mágoa o digo, poucas
vezes O recebo. De primeiro, trazia-me a Sagrada Comunhão nas primeiras
sextas-feiras e primeiros sábados e domingos e nos dias 13, e agora já
ma não traz nos primeiros domingos. Algumas vezes tenho chorado de pena.
Que hei-de fazer no meio disto ? Sofrer por amor do meu querido Jesus.
Já Vossa Reverência pode fazer ideia quanto me custou passar este tempo,
e quanto são de agradecer todas as palavrinhas que me escreve.
Senhor Padre Pinho, vi por o que me mandava dizer que só para o verão,
se eu for viva, terei a consolação de o ver. Não imagina quanto fiquei
triste, porque ainda tinha algumas esperanças de lhe poder falar antes
desse tempo — o que muito precisava — pois no estado em que me encontro
temo não chegar a essa ocasião. O meu sofrimento tem-se agravado muito.
Ainda agora fico simplesmente a águas por não poder comer com um
inchacinho que tenho dentro da boca. Pode ser, assim como cresceu,
depressa também desaparecerá ; se assim for, no estado de fraqueza em
que estou, é-me impossível poder viver, porque o pouco que comia me faz
muita falta, porque, só águas, passados dias principio a vomitar. Mas
não são os sofrimentos que me afligem, porque todos os dias os peço a
Nosso Senhor e Lhe peço também que me não abandone nem um momento,
porque bem sei que sem Ele nada podia sofrer ; o que me aflige mais é o
muito e muito que O tenho ofendido.
Quanto ao eu pedir por Vossa Reverência, em todas as minhas orações e em
todos, todos os meus sofrimentos o recomendo logo de manhã ; portanto eu
seja ouvida diante do meu amado Jesus.
Também senti muito dizer-me que fica com a gripe ; peço para logo que
esteja livre dela possa fazer o grande sacrifício de me escrever, desde
já lho agradeço, que era para meu sossego.
Envio-lhe muitas lembranças de minha mãe e da escrevente, que anda com
uma terrível tosse a caminho de dois meses. Não sei no que resultará ; e
parece que também anda desconsolada em todo o sentido.
Fará
a grande caridade de me abençoar e de pedir por mim, que tanto preciso.
Alexandrina
Maria da Costa
Já me
esquecia de lhe agradecer as duas estampazinhas que me mandou ; dei uma
à Deolinda. Muito obrigada.
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 7
de Abril de 1934
Meu
bom pai espiritual :
Agradeço do íntimo da minha alma mais uma cartinha que me enviou e um
lindo santinho e umas estampazinhas, assim como tudo que fez por mim no
dia dos meus anos. Queria-lhe agradecer por minhas mãos. Com grande
sacrifício o faço, escrevendo estas poucas linhas ; com certeza serão as
últimas. Peço desculpa ; não posso mais. A Deolinda lhe dirá o resto.
Senhor Padre Pinho, o meu sofrimento tem aumentado muito, mas muito. É
por essa razão que eu digo que serão as últimas linhas que lhe escrevo.
Está-me quase a ser impossível segurar a pena no mão por alguns minutos.
São tantas, tantas as dores, que me fazem sentir essa impressão. Mas no
meio de todos os meus sofrimentos, eu sinto grande consolação
espiritual, porque vejo que de todos os pedidos que faço a Nosso Senhor
conheço que neste sou bem atendida. Oxalá o meu querido Jesus se digne
conceder-me todos os mais que Lhe peço e que O não ofenda pedindo-lhe
graças tão grandes, sendo eu a maior de todas as pecadoras.
Senhor Padre Pinho, estimo que tenha passado umas festas da Páscoa muito
alegres, mais do que foram as minhas. O que tive que mais me consolou
foi um bom folar com que o meu Jesus me presenteou nesse dia com uma
oferta de grandes sofrimentos. Tudo o mais se me apresentava triste,
porque além dos sofrimentos do corpo, tenho também sofrido muito
espiritualmente. Essa doença da alma só me será curada se Nosso Senhor
me conceder a graça de o tornar a ver ao pé de mim, porque então
desabafarei à minha vontade.
Senhor Padre Pinho, sabe uma coisa que me tem esquecido de lhe falar ? É
que todos os dias tenho ouvido Missa de Vossa Reverência aí em Lisboa.
Desde que me mandou dizer, me tenho unido em espírito, e peço a Nosso
Senhor que me faça participar dos frutos da Santa Missa. Nem a
Quinta-feira Santa me escapou ; estavam para dar oito horas, quando me
recordei que não havia Missa nesse dia.
Agora
peço-lhe que me perdoe todas as minhas faltas, e que por caridade não me
esqueça junto de Nosso Senhor, que muito preciso das orações de Vossa
Reverência, que eu da minha parte nunca o poderei esquecer nem na terra
nem no Céu.
Muitas lembranças de minha mãe e da Deolinda.
Peço-lhe, por amor de Nosso Senhor, que me abençoe.
Sou a pobre
Alexandrina
Maria da Costa
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 15
de Maio de 1934
Senhor Padre Pinho :
Principio por lhe agradecer uma cartinha que recebi há dias e que me
veio trazer a boa nova de que ia celebrar a Santa Missa por mim em
Fátima. Da minha parte, confesso, que sou indigna de tantas atenções que
Vossa Reverência tem para comigo. Eu nada lhe posso pagar, mas Nosso
Senhor o recompensará por mim. E a minha Mãezinha do Céu não deixaria de
nesse momento o abençoar e de pedir ao seu querido Jesus muitas e muitas
graças para aquele que tanto se tem sacrificado pela alma desta
probrezinha, que é e que nada vale.
Senhor Padre Pinho, agora vou contar a Vossa Reverência como passei a
noite de 12 a 13 e durante o dia. O programa foi o seguinte : foi aqui a
inauguração da nova imagem de Nossa Senhora de Fátima, oferecida pela
Maria Machado. No sábado à noite houve procissão de velas e veio a
imagem de casa dela para a igreja. Logo que principiei a ouvir cantar,
eu chorava. Chegou enfim a meia noite. Já tinha feito a Nosso Senhor
todos os meus pedidos. Acendi uma vela, tomei um livro na mão, e unida
em espírito a Vossa Reverência, li a Santa Missa. Já não ouvi bater uma
hora de noite porque estava com muita falta de descanso, e não pude
resistir mais tempo. Pela manhã, o Senhor Abade trouxe-me Nosso Senhor.
Já havia um mês que não me confessava. Não pedi para o fazer por ser dia
de pressa, mas mesmo assim fiquei contente por receber Nosso Senhor.
(O
resto da carta foi rasgado pelo destinatário)
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 2
de Julho de 1934
Senhor Padre Pinho :
Não
calcula a consolação que me veio trazer a cartinha de Vossa Reverência.
Recebia-a no dia de S. Pedro, mas não foi ele que ma veio trazer...
Tinha passado uns dias tristes, tristes, que não lhe posso explicar. Mas
no meio de tanta tristeza, graças a Nosso Senhor, estava conformada com
a sua santíssima Vontade.
Senhor Padre Pinho, não tinha falado já há mais tempo num assunto que
hoje vou falar, porque fazia com que as cartas fossem muito longas e
isso seria abusar demais. Nosso Senhor não deixou sem recompensa as
minhas lágrimas do dia 13 de Maio.
Há
tempos que eu me esforçava quanto podia para que uma família — casal dum
filho — da minha aldeia, se confessassem — o que há muitos anos não
faziam. Tudo como se passou só à vista lhe poderei contar. Tinha-lhe
dito que no dia que eles se confessassem, eles que comungavam na igreja
e eu que havia de comungar em casa, já não podia ir à igreja. A resposta
que me deram foi que vinham eles comungar aqui. Eu respondi-lhes
certamente que não podia ser. Mas continuei sempre a pedir ao meu bom
Jesus, e sempre que me vinham visitar, lhes falava sobre o caso. Até que
enfim, no dia 13 do dito mês, veio-me visitar o pai e o filho ; e
depois, estando a sós com o pai, ele me deu a certeza que se confessava
e me disse algumas coisas que faziam comover. Está resolvido a ser para
o tríduo, prometeram-me isso ; só se o demónio se vier intrometer, mas
confio em Nosso Senhor que tudo pode.
Senhor Padre Pinho, não me admiro Vossa Reverência não me entender no
que lhe falava na minha última carta, porque eu não me pude explicar nem
poderei, por escrito. O caso é bastante complicado : só pessoalmente
terá explicação, tal é o seu enredo. Foi caso para me afligir muito,,
mas não para me deixar desassossegada sobre este assunto.
Continuam a ser muitos os meus sacrifícios, mas reconheço que não são
nada em comparação do que eu mereço a Nosso Senhor. Digne-se Ele, por
sua infinita misericórdia, que eu viva até ao tríduo. Quer saber uma
coisa que me consolou muito ? Foi dizer-me que já no dia 21 vem para o
Norte ; portanto que vem para mais perto de mim e eu já posso dizer : o
nosso tríduo é para o mês que vem.
Agradeço-lhe a grande caridade que faz em pedir por mim que tanto
preciso. Eu de Vossa Reverência nunca o esqueço em minhas pobres orações
e em todos os meus sofrimentos.
Muitas lembranças da minha mãe e da Deolinda : ela deixa tudo para lhe
dizer para o tríduo.
Fará
a caridade de abençoar esta pobre doentinha.
Alexandrina
Maria da Costa
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 16
de Julho de 1934
Senhor Padre Pinho :
Meu
bom pai espiritual.
Esta
tem por fim dizer a Vossa Reverência que tenho sofrido muito, muito, mas
— louvado seja Nosso Senhor ! — sempre muito resignada. Mas o meu bom
Jesus não me tem abandonada no meio de tão grandes sofrimentos, mas
quando os peço a Nosso Senhor, também é isso o que Lhe tenho pedido, que
me não deixe sofrer sozinha nem um momento, porque isso seria o bastante
para eu desesperar. Reconheço que não sou nada, e que nada podia sem o
meu amado Jesus, a quem tudo devo.
Senhor Padre Pinho, no domingo, dia 18, piorei muito, e assim tenho
continuado nesse estado de tal sofrimento que me não sei explicar.
Figura-se-me que se juntam as costelas do peito com as das costas, e
dão-me uma aflições tão grandes que não sei como hei-de estar. Quando me
dá mais forte, passo alguns minutos, metade do corpo na cama e metade no
regaço da Deolinda, o que a tem obrigado a passar as noites na minha
companhia. Também me custa muito a falar ; enfim, se não fosse a
confiança que tenho em Nosso Senhor, já tinha perdido as esperanças de
viver até ao tríduo.
Senhor Padre Pinho, Quer saber uma coisa ? No dia 13 confessei-me. Tudo
correu às mil maravilhas. Ontem [o Sr Abade] perguntou à Deolinda se eu
estava melhor, que achou que eu gemia muito e que me torcia, que se
lembrava se seria por causa do nevoeiro.
Termino para me não cansar mais e para não roubar tempo a Vossa
Reverência. Perdoe-me por lhe escrever já, mas depois não sabia para
onde havia de escrever.
Peço-lhe de toda a minha alma para não se esquecer de pedir por mim
muito, muito, que tanto preciso. E se vier para perto de mim e me puder
mandar dizer, para, se eu vir que não chego ai tríduo, pagávamos-lhe a
viagem e não queria morrer sem me confessar com Vossa Reverência.
Lembranças de minha mãe e da Deolinda. Peço para abençoar esta que o não
esquece em minhas pobres orações.
Alexandrina
Maria da Costa
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 15
de Agosto de 1934
Senhor Padre Pinho :
Por
caridade perdoe-me por eu já hoje lhe mandar escrever. Mas é para ver se
melhor posso passar estes dias que Nosso Senhor me tem dado de vida,
pois não calcula como me têm custado a passar, com tantas saudades.
Senhor Padre Pinho, hoje fico muito doentinha, talvez como dia nenhum
dos que Vossa Reverência aqui passou, mas estou contente com isso por
ser hoje dia de Nossa Senhora da Saúde, que se venera em S. Pedro e no
dia de hoje fazem-Lhe uma festa em que Nosso Senhor é muito ofendido. E
como não hei-de eu estar contente ? Quantos mais sofrimentos tiver, mais
tenho que oferecer a Nosso Senhor, e por isso hoje lhe tenho repetido :
“Mandai, meu Jesus, o que quiserdes, contanto que Vos desagrave das
ofensas que recebeis”.
Meu
bom pai espiritual, já tenho mandado alguma coisa para o meu procurador
e, graças ao meu querido Jesus, têm ido sem grande demora.
Senhor Padre Pinho, bem queria ir esta tarde a Cavalões, mas não posso ;
estou presa por Nosso Senhor, mas seja sempre feita em tudo a sua
santíssima Vontade, porque também é a minha.
Peço-lhe, por caridade, que hoje, de um modo particular, me consagre a
Nossa Senhora, que eu também sou filha dela.
Adeus, sim ? Fará a caridade de abençoar esta que nunca o esquece, em
minhas pobres orações.
Alexandrina
Maria da Costa
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 30
de Agosto de 1934
Senhor Padre Pinho :
Agradeço-lhe do fundo da minha alma a rica cartinha da qual minha irmã
foi a portadora. Que o meu bom Jesus lhe pague tanta generosidade que
tem tido para comigo e espero que Ele lhe dará disso uma grande
recompensa.
Meu
bom pai espiritual, quando me ponho a pensar nos favores que tenho
recebido do meu amado Jesus, não sei como agradecer-lhos, e de cada vez
mais me sinto confundida ao olhar para a minha grande indignidade. Que
teria sido de mim se no meio de tantas contrariedades e de todos os meus
sofrimentos não tivesse quem me ajudasse e ensinasse a amar cada vez
mais o meu Jesus, e a abraçar de todo o coração a cruzinha que Ele me
enviou ?
Senhor Padre Pinho, não sei se é pelo muito que Vossa Reverência pede
por mim, que me sinto de cada vez mais animada no meio dos meus
sofrimentos. Parece-me ter coragem ainda para sofrer mais e espero em
Nosso Senhor que a pouco e pouco mos há-de ir aumentando até que eu
morra abrasada no seu divino Amor, cravada na cruz com Ele.
Não
tenho recebido a Nosso Senhor. Tenho tanta pena ! Mas que lhe hei-de
fazer ? Ao menos faço por me lembrar muito dele, e vou fazendo as minhas
comunhões espirituais e pedir-Lhe que opere em mim tantas graças como se
eu O recebesse sacramentalmente.
Por
hoje não digo mais nada. Só lhe peço que, pelas alminhas, não parta para
Lisboa sem fazer mais o sacrifício de me vir visitar. Quem sabe se será
a ultima vez ?
Por
caridade, não se esqueça de pedir a Jesus por mim, que eu também me não
esqueço de pedir por Vossa Reverência, mas sabe bem quanto eu sou
indigna de pedir favores a Jesus
Fará
a caridade de abençoar a pobre
Alexandrina
[Maria da Costa]
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 8
de Setembro de 1934
Senhor Padre Pinho :
Cá
estou eu, no dia aniversário da minha querida Mãezinha do Céu, a
escrever a Vossa Reverência. Não esperei para o dia 12, porque tenho
muitas saudades ; ainda está muito de fresco e também me parece ter
necessidade de lhe dizer daqui alguma coisa.
Que
tal foi a viagem para Lisboa ? E não lhe fez mal a visita que me veio
fazer, com uma tarde de tanta chuva ? Sei que veio fazer um sacrifício
muito grande, mas penso que outras coisas lhe custaram mais do que a
chuva, mas paciência ! Quanto maior é o sacrifício, maior será a
recompensa de Nosso Senhor ; é esta a minha confiança.
Vou
também fazer um grande sacrifício. Nosso Senhor bem o sabe, e Vossa
Reverência também faz ideia o quanto me custa ; mas antes de o fazer,
ofereci-o ao meu bom Jesus.
Quinta-feira, dia 6, o Sr. Abade veio trazer Nosso Senhor a uma doente
minha vizinha, e ao mesmo tempo trouxe também para mim. Depois de
comungar não sei como fiquei ; estava fria, parecia-me que não sabia dar
graças. Mas, louvado seja o meu bom Jesus ! não olhou para a minha
indignidade, nem para a minha frieza. Parecia-me ouvir dizer :
—
“Dá-me as tuas mãos que as quero cravar comigo ; dá-me os teus pés que
os quero cravar comigo ; dá-me a tua cabeça que a quero coroar de
espinhos, como me fizeram a mim ; dá-me o teu coração que o quero
trespassar com a lança, como me trespassaram à mim ; consagra-me o teu
corpo, oferece-te toda a mim, que te quero possuir por completo e fazer
o que me aprouver”.
Foi
isto o bastante para me ter tido muito preocupada. Não sabia o que havia
de fazer ; calar-me e não dizer nada, parece-me não ser a vontade de
Nosso Senhor, parece-me que o meu bom Jesus não queria que eu ocultasse
isto. Isto repetiu-se na sexta-feira, e hoje, dia de Nossa Senhora,
assim como também a obediência em tudo, como já expliquei a Vossa
Reverência. Será isto uma ilusão minha ? Ai, meu Jesus, perdoai-me se
Vos ofendo ! Eu não Vos queria ofender ; faço por obediência, e a não
ser calar-me, não sei como pudesse proceder doutra forma.
A
minha saúde continua na mesma, sempre com muitos sofrimentos, mas tudo
vai bem : Nosso Senhor ajuda-me.
Muitas lembranças de minha mãe e muitas saudades da Deolinda.
Fará
a caridade de me abençoar e de pedir a Jesus por mim, que eu também não
o esquecerei nas minhas pobres orações.
Adeus, adeus !
Alexandrina
Maria da Costa
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 14
de Setembro de 1934
Senhor Padre Pinho :
Cá
fico abraçada à Cruz de Nosso Senhor, e sinto-me tão abrasada no amor do
meu querido Jesus ! Bendito Ele seja, que tanto tem atendido aos pedidos
de quem tanto, tanto, O deseja amar.
Peço-lhe perdão de ainda ontem receber uma carta de Vossa Reverência e
já hoje lhe tornar a escrever. Não era para ser assim, mas, como verá,
tinha necessidade de o fazer. Mas prometo-lhe, se Nosso Senhor me
ajudar, que não tornarei a proceder assim, porque bem sei que tem que
fazer do que aturar-me.
Senhor Padre Pinho, confessei-me no dia 13 e fiquei contente. Sabe pelo
quê ? Por praticar um acto de obediência. Recebi a Nosso Senhor,
conversámos muito, e Ele fez-me todos os pedidos como já lhe mandei
dizer, e como lhe disse quando Vossa Reverência aqui veio. Convidou-me
para os sacrários abandonados, para me entristecer com Ele e para
reparar tanto abandono : que O deixam sózinho e que vivem como se Ele lá
não estivesse. Até os próprios sacerdotes, a quem Ele deu o poder de
transformar o pão no Seu divino Corpo, até esses O esqueciam e
ofendiam ! Disse-me também : cada vez que me oferecia aos sacrários que
me eram aumentados muitos graus de gloria no Céu. E quando eu Lhe pedia
o aumento do Seu divino Amor, que me era embelezada de dia para dia a
minha coroa no Céu, e que era Ele mesmo quem ma preparava. Nosso Senhor
diz-me que diga tudo e que não duvide que é Ele mesmo quem me fala.
Disse-me assim :
—
“Manda dizer ao teu pai espiritual que no dia que fores para o Céu que
há-de lá ser uma festa por ir uma crucificada, minha esposa, da terra
para o Céu. Diz-lhe que é o teu Jesus quem te manda”.
Eu
disse à Nosso Senhor : porque é que me falava assim, sendo eu tão
pecadora. Ele disse-me que o não fazia só às almas santas, que também se
comunicava às pecadoras como eu para lhes infundir confiança, que também
elas podiam amar a Nosso Senhor e ser santas. Se assim o não fizesse,
seriam motivos para elas desesperar.
Eu
estava muito atenta para saber bem como havia de falar a Vossa
Reverência porque a minha cabeça não me ajuda. Mas Nosso Senhor disse-me
que o divino Espírito Santo viria sobre mim e me inspiraria como eu
havia de dizer. Mas isto dá-se mesmo com a comunhão espiritual. Eu
faço-a com muito amor e fervor, mas não como Nosso Senhor merece. Mas é
o melhor que eu posso, e o meu Jesus bem sabe que eu o queria receber
sacramentalmente e que não posso ; por isso me vai dando recompensa.
Senhor Padre Pinho, quer saber o que o “cara negra” do inferno — porque
só ele o podia fazer — me veio trazer à cabeça ? Isto que eu mandava
dizer para Vossa Reverência ia ser a causa da minha condenação, e que
não havia “veremos”. Fez-me chorar e fiquei nervosa. A Deolinda, depois
de eu lhe dizer do que se tratava, fez o possível para me sossegar. Veja
Vossa Reverência como eu hei-de viver se Nosso Senhor me não ajuda.
Estar eu a fazer uma coisa que tanto me custa e ser para a minha
condenação, como me diz aquele maldito.
Agradeço-lhe muito, muito, a linda santa Teresinha que me mandou.
Eu já
sabia que a minha querida amiguinha tinha aí ido e como lhe tinha
sucedido em não dar com a rua ; mas também me disse que foi embora muito
satisfeita.
Lembranças da mãe e da Deolinda. Por caridade não se esqueça de pedir a
Jesus por esta que vai ver se pode assinar o nome,
Alexandrina
Maria da Costa
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 27
de setembro de 1934
Senhor Padre Pinho :
Está
próximo o fim do mês e já que me dizia que queria pelo menos uma carta
minha, em lugar duma foram duas, e não me parece demais.
Agora
vou-lhe contar o que se tem passado comigo desde a última vez que lhe
escrevi. Com grande mágoa e saudade lhe digo que ainda não tornei a
receber Nosso Senhor. Se eu pudesse pagar, e me trouxessem Nosso Senhor
por dinheiro, quanto não daria eu ! Mas paciência ; tenho feito muitas
comunhões espirituais com o maior fervor que tenho podido, e Nosso
Senhor vai-me dando a recompensa. Vai ver como o bom Jesus tem sido meu
amigo.
Disse-me o meu amado Jesus que será Ele o meu Director e o meu mestre
contínuo, frequente e habitual, e Vossa Reverência lá de longe, mas que
tenho que lhe obedecer primeiro em tudo do que a Ele. Disse-me também
para dizer a Vossa Reverência que a minha peregrinação na terra não será
muito longa, mas que grandes coisas me esperam.
Nosso
Senhor não cessa de me pedir todas as coisas que já lhe tenho dito.
Convida-me muito para os Sacrários :
—
“Anda, minha filha, entristecer-te comigo, participar da minha prisão de
amor, e reparar tanto abandono e esquecimento. Manda dizer ao teu pai
espiritual que quero que seja pregada e propagada a devoção aos
sacrários, muito mas muito que quero que acenda nas almas a devoção para
com esta prisão de amor e que não ficou”.
Ele
lá só por amor dos que O amam, mas sim por todos ; e que em todos os
trabalhos o podem consolar. Disse-me também Nosso Senhor que não lhe
recusasse nunhuns sofrimentos, nem sacrifícios pelos pecadores ; que
estava prestes a cair a justiça de Deus sobre eles eternamente, e eu que
ainda lhes podia acudir. Disse-me para eu pedir pelos sacerdotes, que
eram cultivadores da sua vinha e que deles dependia ser boa ou fraca a
colheita.
—
“O que por aí vai, minha filha ! o que por aí vai !”
Diz-me Nosso Senhor que não atribua nada disto a mim, porque não sou
mais do que o pó, e o que tenho eu que me não fosse dado por Ele ? Olhe,
tenho ocasiões que me sinto tão abrasada no amor de Nosso Senhor, e
outras ocasiões que parece que tudo me desaparece. Tenho momentos que me
sinto tão abatida e sem nenhum fervor ; e pensando eu a minha
indignidade ! Mas diz-me Nosso Senhor que escolhe os fracos para os
tornar fortes e que é debaixo das minhas faltas que Ele esconde o seu
Poder, o seu Amor e a sua Glória. Pede-me para eu esquecer o mundo e me
entregar toda a Ele.
—
“Abandona-te nos meus braços, que eu te escolherei os caminhos”.
Eu
nunca lhe recuso nada, nem sei mais que Lhe hei-de oferecer. Quer saber,
às vezes quando Nosso Senhor me principia a falar, como me diz ?
—
“Minha filha, minha querida filha, minha amada, minha esposa, minha
predilecta, cá estou Eu no íntimo da tua alma”.
E
depois, lá me vai fazendo todos os pedidos. Nosso Senhor não quer que eu
oculte nada a Vossa Reverência. Diz-me que se eu ocultar, desobedeço a
Ele e a Vossa Reverência.
Veja,
por caridade, quanto preciso das orações de Va Rev.cia.
Nunca me esqueça, sim ?
Cá
está a pobre
Alexandrina
Maria da Costa
* * *
Balasar, 4
de Outubro de 1934
Viva
Jesus, Rei da minha alma e do meu coração,
só para quem quero viver
Senhor Padre Pinho :
Agradeço-lhe de toda a minha alma as ricas cartinhas que me enviou,
cheias de tão santas lições. Recebi uma na segunda-feira e outra na
terça. A que recebi na segunda, foi a minha boa amiguinha que ma veio
trazer, poucas horas depois da sua chegada. Nosso Senhor lhe pague tanta
caridade que tem para comigo.
Pouco
antes de mandar escrever esta carta, Nosso Senhor pediu-me o meu coração
para o colocar dentro do dele, para que eu não tivesse outro amor a não
ser o dele e as suas Obras. Disse-me também :
—
“Minha filha, não tens pena de mim ? Estou sózinho nos sacrários, tão
escarnecido e abandonado e tão ofendido ! Anda reparar tudo isto !”
Disse-me assim o meu bom Jesus :
—
“Anda, minha querida filha, para os sacrários ; estou sózinho, e sou tão
ofendido ! Anda consolar-Me e desagravar-Me ! Repara tanto abandono !
Manda dizer ao teu pai espiritual que quero que vós façais que eu seja
visitado, amado e desagravado na Santíssima Eucaristia. Visitar os
presos da cadeia, e consolá-los é boa obra ; Eu estou preso, e preso
pelo amor. Eu sou o preso dos presos”.
Nosso
Senhor diz-me que quer que eu morra para o mundo e o mundo morra para
mim ; Ele que é o mundo para quem eu hei-de viver e em quem hei-de
pensar, amar e imitar ; que nele encontro todos os tesouros. Diz-me
mais :
— “Minha
filha, não duvides que estou contigo e que é o teu Jesus quem te fala.
Escolhi-te para mim : corresponde ao meu amor. Quero ser o teu esposo, o
teu amado e o teu tudo. Escolhi-te também para a felicidade de muitas
almas !”
Diz-me Nosso Senhor eu que sou um templo da Santíssima Trindade ; são
todas as almas em graça, mas eu dum modo particular ; que sou um
sacrário que Ele escolheu para habitar e repousar, e para me saciar mais
a sede que tenho do seu Sacramento de amor. Diz-me que sou um canal por
onde hão-de passar as graças que eu hei-de distribuir às almas e por o
qual hão-de ir as almas a Ele. Diz-me mais o meu Jesus, que se serve de
mim para que por mim vão a Ele muitas almas e por mim sejam excitadas
muitas almas a amá-Lo na Santíssima Eucaristia.
Hoje
de manhã, estivemos aqui as três : minha irmã, a Sra D.a
Çãozinha e eu. Falámos dos desejos que eu tenho de receber Nosso Senhor.
Elas pensavam ir-lhe pedir, mas antes adoçar-lhe o bico com alguma
coisa. Lembrou-se a minha boa amiguinha e disse-me para lhe pedir
explicação sobre o caso : se eu pudesse ter aqui em casa, no meu quarto
ou na sala, que era maior, o Santíssimo Sacramento, que se mandava fazer
um altarzinho e um sacrário ; as despesas que eram com ela para tudo ; a
questão que era poder-se conseguir.
O
demónio continua a consumir-me muito, ora com pensamentos de vaidade —
como se eu pudesse atribuir alguma coisa disto a mim — ora com dúvidas
que não é Nosso Senhor quem me fala. E é o que o meu bom Jesus não quer
que eu tenha nem um momento de dúvida. E eu tanto não queria ofendê-Lo !
Por caridade, peça muito por mim, sim ?
Lembranças da minha mãe, assim como da Deolinda. Ela agradece muito
Vossa Reverência a carta que lhe enviou, e quando eu tornar a escrever,
ela também escreve.
Pedia-lhe, por caridade, se me mandava dizer a hora que celebra a Santa
Missa, para eu me unir a ela em espírito.
Peço
que, por amor de Jesus, abençoe esta que nunca o esquece junto de Nosso
Senhor,
Alexandrina
Maria da Costa
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 11
de Outubro de 1934
Senhor Padre Pinho :
Cá
estou eu, ao fazer os oito dias, de novo a escrever a Vossa Reverência.
E que belo dia, por ser uma quinta-feira, dia em que Nosso Senhor
instituiu o Santíssimo Sacramento.
Quando Nosso Senhor me pede o meu corpo, quando chega à coroação de
espinhos, diz-me :
—
“Que dores horríveis eu senti quando Me coroaram de espinhos ! Perdi
tanto sangue, e tanto inútil ! Fiquei exausto de forças, as minhas
carnes despedaçadas, até a minha beleza desapareceu. E no meio de tantos
algozes queres, minha querida filha, participar comigo de toda a minha
paixão ? Oh ! não me dês uma negativa ! Ajuda-me na redenção do género
humano !”
Diz-me também, quando Lhe trespassaram o Coração com a lança, que deu
até à última gota do seu sangue ; por fim, que deu água, foi uma prova
do Seu amor ; que foi um soldado enfurecido e que tem sido crucificado
milhões e milhões de vezes, e que Lhe não dão a morte porque não pode.
Na
primeira sexta-feira, dia 5, recebi o meu bom Jesus, e Ele me disse :
—
“Que temes tu, minha filha, se Eu estou contigo ? Eu sou o teu Senhor, o
teu Amado, o teu Esposo e o teu Tudo. Fixei em ti a minha morada, sou o
teu mestre, aprende as minhas lições e pratica-as : Eu te darei aquele
amor com que desejo que tu me ames”.
Mas o
demónio que me afligia muito com dúvidas a Nosso Senhor, que tudo
conhece, disse-me mais :
—
“A quem queres obedecer, a Mim e ao teu director ou ao demónio ? Manda
dizer ao teu pai espiritual que te vou modelando e preparando para
coisas mais sublimes”.
Que
união a nossa ! Como eu me sentia bem ! Que momentos tão felizes ! Que
dita tão grande amar a Jesus !
Disse-me também :
— “Anda
minha filha, anda, não descanses, anda pedir-me pelos pecadores. São
tantos ! Está prestes a minha Justiça a cair sobre eles”.
E
depois, mais ainda outra coisa :
—
“Anda, minha filha, para os sacrários. Estou sózinho, lá tão longe !
Anda prostrar-te diante de mim, reparar, reparar ! Tenho sede de almas !
Anda a apagar-me a sede ; dá-me almas, muitas almas !”
Também comunguei no primeiro sábado, e até hoje ainda não tornei a ter
essa dita. Nesse dia, disse-me Nosso Senhor :
—
“Escuta minha filha, o teu Jesus. Estou contigo a enriquecer-te dos meus
divinos tesouros. Como eu te amo ! Escolhi-te para minha habitação.
Estou a preparar-te como é os meus desejos. Vive só para Mim ; ama-Me
muito, pensa só em Mim, e já que tão generosamente te me ofereces como
vítima pelos pecados do mundo, eu colocarei em ti como que canal para
passar as graças às almas para toda a qualidade de crimes, para que tu
me conduzas muitas almas”.
Nesta
ocasião não sei o que sentia em mim, nem bem me posso explicar. Senti um
peso tão grande, tão grande, e figurava-se-me que era tão principalmente
o coração, que me dava a impressão que era o mundo. Mais tarde um
pouquinho, estava despreocupada e fria. Mal ia a reflectir nisso, e
disse-me Nosso Senhor :
—
“Queres ver como eu te abraso ?”
Principiei a sentir uma união tão grande e um calor e uma força que se
me afigurava que me apertava tanto, e disse-me o meu bom Jesus :
—
“Como nós nos amamos ! Que santa união a nossa !”
E
recomendou-me outra vez :
—
“Anda, minha filha, não esqueças os meus sacrários. Eu estou sózinho.
Não descanses a pedir-me pelos pecadores”.
Diz-me que lhe não oculte nada : que lhe mande dizer tudo.
Adeus, por hoje. Perdoe-me todas as minhas faltas.
Por
caridade, peça muito, mas muito a Jesus por mim.
Alexandrina
Maria da Costa
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 15
de Outubro de 1934
Senhor Padre Pinho :
Peço-lhe perdão por já hoje lhe escrever ; mas a razão é esta : a minha
secretária sai hoje de casa, para tratamento, e por isso não sei quando
voltarei a escrever.
No
dia 13, ainda não eram 5 horas da manhã, e eu já estava alerta a fazer
por me preparar o melhor possível para uma boa confissão e santa
comunhão. Eram 8 horas, chegou enfim o que eu desejava. Confessei-me o
melhor que pude, no fim recebi Nosso Senhor e procurei dar-Lhe graças
com o maior fervor que me era possível : bem não, porque é grande a
minha miséria. Por mais que eu escutasse a Nosso Senhor, não foi para
mim naquela ocasião ouvi-Lo. Fiquei triste, mas não me afligi muito
porque, como verá, dias antes tinha sido repreendida por Nosso Senhor.
Mas mais tarde, perto do meio-dia, no fim de fazer a visita e a comunhão
espiritual, ouvi então o meu bom Jesus :
—
“Minha filha, minha querida filha, minha amada, não te entristeças
comigo : sou Eu a penetrar em ti mais o meu amor. Preparaste-te muito.
Fui Eu a experimentar-te e a ver a tua confiança. Amar-me com mimos e
carinhos não custa. Fingi abandonar-te, deixar-te navegar sózinha sem
ser nos braços do teu Esposo, a ver onde ias parar... mas não te
abandono. Como Eu te amo ! Anda, não descanses pedir-me pelos pecadores.
Eu tos entrego para que mos tornes a restituir. Anda para os sacrários
reparar”.
E
disse-me para eu dizer a Vossa Reverência : Ou eu reparava e era pregada
a devoção aos sacrários, ou o mundo ia ser castigado. Mas, ai ! que
tremendo castigo ! Também me diz Nosso Senhor que Lhe fale muitas vezes,
que o procure muito no íntimo da minha alma, que habita lá a Santíssima
Trindade, e que Lhe peça tudo que eu quiser, que vou ser muito
beneficiada. Dias antes do dia 13, passou-se isto que lhe vou contar.
Estava quase a haver dois dias sem que Nosso Senhor me tivesse falado.
Principiei a chorar ; eram dúvidas e mais dúvidas que me tivesse
enganado. Quando, porém, estava mais calma, fiz a visita ao meu Amor
Sacramentado — que ainda lha não tinha feito — e no fim da comunhão
espiritual, falou-me o meu bom Jesus, assim :
—
“Minha filha, estou contigo. Como Eu te amo ! Quando estás fria sou Eu
para penetrar mais em ti o meu amor ; quando te não falo é para te
infundir mais a minha confiança. Não te disse Eu que te não abandonava,
e que me não ausentava de ti ? Como Eu te amo ! Anda para a minha
escola, aprende com o teu Jesus a amar o silêncio, a humildade, a
obediência e o abandono. Anda para os meus sacrários. Estou sózinho, tão
ofendido, tão desprezado e tão pouco visitado. Anda prostrar-te diante
de Mim, pedir-me perdão pelo teu desânimo e pela tua desconfiança”.
Sabe
o que fiz ? Disse o acto de contrição por duas vezes, pus-me em espírito
diante dos sacrários e dizia : “Meu Jesus, misericórdia ! Perdão,
Jesus, perdão !” E estava com o meu crucifixo na mão.
Que
felizes momentos ! Que união tão grande, que força, que me parecia
apertar-me tanto ! E era tal o calor que eu sentia, que me parecia que
me atravessavam labaredas de fogo.
Adeus, sim ? Lembranças da mãe e da Deolinda. A minha santa amiguinha
faz anos no próximo dia 23. Mando dizer, visto a ser eu a encarregada. A
Deolinda fá-los no dia 21. Nesse dia, dum modo especial pede a caridade
de pedir por ela. Mas eu sou a que mais precisa. Nunca se esquece de
mim, sim ?
Alexandrina
Maria da Costa
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 26
de Outubro de 1934
Senhor Padre Pinho :
Aproveitando a ocasião de ter a minha secretária em casa, aqui me tema
agradecer-lhe a santa cartinha que me enviou juntamente a uma linda
santa Teresinha, e a contar-lhe o melhor que me for possível o que se
passa na alma da mais indigna de todas as criaturas.
Falou-me assim, um dia, o meu bom Jesus :
—
“Ó minha filha, estou contigo para te consolar. Que melhor conforto e
consolação podes ter ? Nas tuas aflições e contrariedades e nos teus
sofrimentos e em toda a tua vida ? Melhor que o teu Esposo, o teu Amado
e o teu Jesus ? Em troca, oferece-te toda a Mim e ama-me muito e pede-me
pelos pecadores. São tantos, tantos, os cegos que não querem ver a minha
luz, os surdos que não querem ouvir a voz do seu Criador. A consciência
está como morta, já não lhes fala ; enterram-se na lama e no lodo das
paixões. Eu tas entrego para que faças que elas vejam a minha luz e
ouçam o meu chamamento. Pede-me por eles, não descanses, que grande será
a tua recompensa”.
Num
dia em que eu tinha chorado muito e o demónio tentava afligir-me,
disse-me Nosso Senhor :
—
“É assim que consolas o teu Jesus ? É assim que tu depositas em Mim toda
a tua confiança, como tantas vezes o afirmas ?”
Diz-me o meu Jesus que é o demónio, meu inimigo e dele, que me traz as
dúvidas, mas que não é ele quem me fala, ele que não quer que eu O ame
nem que O console nos sacrários. Disse-me também que quer que me
abandone toda a Ele, que não tenha com o mundo senão o que for
necessidade ; quer que o imite nos seus sacrários.
Outro
dia, disse-me :
—
“Minha filha, minha querida filha, estou contigo, sou o teu Jesus, para
quem tu só queres viver e para quem eu só quero que vivas. Aprende com o
teu Jesus : ama-me muito, anda para os meus sacrários ! Estou sózinho,
tão abandonado ! São tantos, tantos, os que Me ofendem, (como a chuva
miudinha !), e tão poucos os que me amam ! Anda consolar-Me”.
Disse-me o meu Jesus :
—
“Minha querida filha, Eu sempre contigo ! Como Eu te amo ! Se soubesses
quanto te amo, morrerias de alegria. Estou-te a preparar para realizar
em ti os meus desígnios. Nunca te esqueças dos meus sacrários !
Desagrava-me muito, não Me recuses nada, pensa só em Mim ! Vives no
mundo, mas não és do mundo”.
Também me disse :
—
“Dás-me o teu corpo para a crucifixão ? Quero fazer-te participar de
toda a minha Paixão, ainda que por caminhos diferentes”.
Outro
dia, tornou-me Nosso Senhor a pedir o meu corpo para me crucificar, e
disse-me que o Corpo dele foi crucificado com raiva e com furor, e Ele o
meu que mo crucificava com amor e carinho. Disse-me também que estava
comigo e que nunca mais me abandonava ; cada vez era maior a nossa
união, e mais íntima a nossa amizade e o nosso amor. Disse-me Nosso
Senhor que as esposas mais queridas são aquelas a quem Ele dá a cruz
mais espinhosa e pesada. “Eis uma grande prova do meu amor”.
Disse-me também que me entregue toda a Ele, que abrace a cruz que ele me
dá, que os caminhos são pedregosos e estreitos, mas Ele que me auxilia e
me conduzirá pela mão até ao calvário, lugar do suplício, que Ele me tem
destinado.
Eu,
às vezes, digo assim : — Ó meu querido Jesus, eu quero ser toda Vossa, e
só para Vós quero viver. E o meu Jesus diz-me assim :
—
“Ó minha querida filha, e Eu quero que sejas toda, toda minha, e que só
para Mim vivas, e que só a Mim ames, e que só a Mim procures”.
Nosso
Senhor pede-me para eu pedir muito pelo alívio das almas do Purgatório ;
quer que eu faça aquilo que Ele não pode fazer, que tem poder para tudo
e que não tem para as tirar de lá ; que é de infinita misericórdia, mas
que também é de grande justiça ; e disse-me que ansiava pelas ver na
glória que lhes preparou.
Meu
pai espiritual, peço-lhe, por caridade, para me dizer daí alguma coisa a
este fim. Eu não me confesso destas dúvidas que tenho tido, de ser ou
não Nosso Senhor quem me fala. Eu não me confessei nem confesso ao nosso
Senhor Abade. Ó meu Jesus, como hei-de assim viver ? Se eu pudesse ir a
Lisboa !
Meu
padre, ainda não tornei a receber o meu querido Jesus desde o dia 13.
Ai, meu Deus, que pena eu tenho ! Peço muito a Nosso Senhor que por Sua
infinita misericórdia se digne dar algum meio a isto. Cá entreguei à
Deolinda a carta e mandei entregar à Sra D.a
Çãozinha. Ela não respondeu — que está com a gripe — mas já fica melhor.
A Deolinda não respondeu desta vez, que não pode. Agradece e
recomenda-se-lhe muito, e para a outra vez escreve. A minha mãe também
manda muitos cumprimentos.
Peço
para abençoar esta que nunca, nunca o esquece em minhas pobres orações.
Alexandrina
Maria da Costa
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 1°
de Novembro de 1934
Senhor Padre Pinho :
Como
tenho pelas quintas-feiras uma particular afeição, aqui me tem de novo
outra vez a escrever a Vossa Reverência.
Vou
continuar a minha tarefa, expondo tudo conforme Nosso Senhor me
recomenda. Há dias, dizia-me Nosso Senhor assim :
—
“Minha filha, minha filha, escuta o teu Jesus. Estou no íntimo da tua
alma e acho-me bem. Não te entristeças com tudo que encontras em ti. Sou
Eu para te unir mais a Mim e estreitar-te mais ao meu Coração”.
Perguntei ao meu Jesus que havia de fazer para O amar muito ; e Ele
disse-me :
—
“Anda para os meus sacrários consolar-me, reparar. Não descanses em
reparar. Dá-me o teu corpo para o crucificar. Preciso de muitas vítimas
para sustentar o braço da minha justiça e tenho tão poucas ! Anda
substituí-las !”
Por
outras vezes diz-me :
— “Minha filha, que temes tu nos braços do teu Jesus, que podes tu temer
no colo do teu Esposo ?”
Noutra ocasião falou-me assim :
— “Ó minha filha, Eu estou contigo. Como Eu te amo ! Nunca te abandono !
Procura-me em cada uma das tuas necessidades ! Se soubesses os desejos
que tenho em favorecer-te !”
Nosso
Senhor disse-me para eu fazer um contrato com Ele : eu ir consolá-lo e
amá-lo em todos os sacrários, que Ele me consolaria a mim em todas as
minhas aflições e necessidades. Eu disse a Nosso Senhor : — A quem eu
vou consolar ? Ao meu Criador, ao meu Amor, ao Rei do Céu e da terra ? E
Nosso Senhor disse-me :
— “Que tens tu com isso ? Escolhi-te assim. É debaixo da tua grande
miséria e dos teus crimes que Eu escondo a minha grandeza, a minha
omnipotência, os raios da minha glória. Aprende comigo. Anda para os
meus sacrários, repara no meu silêncio, na minha humildade e no meu
abatimento. Faze que Eu seja amado por todos no meu Sacramento de amor,
o maior dos meus sacramentos e o maior milagre da minha sabedoria”.
E
disse-me para eu dizer a Vossa Reverência que queria bem pregada e bem
propagada a devoção aos sacrários ; que não eram só os que não queriam
crer na Sua existência no Santíssimo Sacramento e contra ele blasfema,
mas que eram tantos, tantos os que iam aos templos e lá se demoravam sem
O saudar e nem um momento nele pensavam.
— “Repara, minha filha, tudo isto, e faze que Eu seja amado”.
Num
outro dia disse-me o meu Jesus que pedisse muito pelos pecadores. Eles
já não encontram no mundo coisas com que o possam ofender mais.
— “Pede-me por eles, não descanses. O meu castigo cai, o meu castigo
cai. Ó filhinha querida, estou contigo, habito em ti, como se só tu
existisses no mundo, e só a ti tivesse que beneficiar”.
Mas
que exigia de mim, assim como Ele me era fiel em habitar em mim para me
consolar, que queria que eu Lhe fosse fiel em habitar em espírito em
todos os seus sacrários para O consolar e amar na sua prisão de amor e
que Lhe desse todo o meu corpo para ser vítima. Ainda que tivesse muitos
milhares de vítimas, que ainda era pouco para tantos pecados e crimes. O
que por aí vai !
Por
outra vez Jesus dizia-me :
― “Eu sou o teu consolador”.
Nosso
Senhor disse-me que me havia de mostrar os sacrários em que Ele queria
que eu estivesse com mais frequência. Nosso Senhor disse-me : se eu não
mandasse dizer tudo isto a Vossa Reverência praticaria um grave acto de
desobediência.
― “Minha filha, não estou só contigo quando me pedes para te consolar.
Sou o teu Mestre. Feliz de ti se bem aprenderes as minhas lições e bem
as praticares. Estabeleci em ti a minha morada”.
Disse-me que eu era um sacrário, não construído por mãos humanas, mas
por mãos divinas. Habita em mim para me consolar ; mas que me queria nos
seus divinos sacrários para O amar e consolar ; que me aconchegasse
muito a Ele e que Lhe pedisse muito pelos pecadores para que o seu
divino Sangue não tivesse sido derramado inútil para eles.
Uma
ocasião em que estava sózinha entretida com Nosso Senhor, entrou uma
pessoa, e Ele disse-me :
― “Vai, que não dêem por ela, mas não te distraias. Distrai-te comigo,
que estou contigo para te consolar, mas quero-te comigo em espírito
diante dos meus sacrários”.
Outra
ocasião, dizia eu assim a Nosso Senhor :
― Falai, meu Jesus, falai, que a Vossa filhinha Vos escuta. Anseio por
me instruir na vossa escola.
E
Nosso Senhor respondeu-me :
― “E Eu anseio que tu aprendas todas as minhas lições. Tenho muito que
te ensinar, e tu muito que aprender, para que por ti venham muitas a
aprender as mesmas lições, calcarem as mesmas pisadas e seguirem-te nos
teus caminhos. Ó minha filha, não conheces o efeito da minha presença em
tua alma ? Sou eu a purificar-te cada vez mais e a embelezar mais o
trono da minha habitação. Sê-me fiel, repara-me nos meus sacrários.
Estou sózinho ! Em tantos, tantos, tão desprezado, tão ofendido, tão
escarnecido ! Consola-me ! Tem dó de Mim ! Faz que eu seja amado !”
E
disse-me mais ainda : se eu O consolasse muito nos seus sacrários e Lhe
desse todo o meu corpo, podia ter a certeza que O consolava e amava
muito, que era uma esposa muito fiel ao se Esposo, e uma filha muito
querida do seu Jesus. E disse-me que precisava de muitas vítimas para
reparar. Eu pedi a Nosso Senhor para que me falasse, e Ele disse-me
assim :
― “Como te não hei-de falar, se anseio instruir-te e ensinar-te. Nunca
te deixarei. Sabes quando te deixo ? Quando te chamar à minha divina
presença, para te levar para o Céu. Então é que deixarei o teu corpo.
Sou Senhor da tua alma e do teu corpo. Dás-mo de boa vontade para Eu o
crucificar pelos pecadores ? Por tantos ? A vida deles está por um fio,
e eles em que miserável estado ! Aceitas ? Assim me consolarás muito. E
os meus sacrários ? Nunca será demais a minha recomendação. Ama-me
muito, consola-me muito, faz que Eu seja amado ! Estou na prisão ; dá-me
almas, muitas almas !”
Domingo, dia 28, que tive a felicidade de receber o meu querido Jesus,
mas apesar disso sentia-me fria, sem nenhum fervor, mas mesmo assim tive
a grande felicidade de ouvir Nosso Senhor no fim da Sagrada Comunhão, e
outra vez à tarde. Falou-me Nosso Senhor assim :
― “Estou contigo ; no meio da tua frieza estou a experimentar-te. Assim
aumento em ti mais o meu amor, do que se estivesses sempre abrasada”.
Que
era no meio dos meus gelos que Ele apagava as chamas do seu divino Amor
e que me não afligisse, que tivesse confiança. E disse-me que era a
esposa dele para O consolar nas suas prisões de amor, e que era a esposa
dele, crucificada para reparar pelos pecados do mundo.
― “Minha filha, que horror ! Está quase a tornar-se impossível conter-se
a justiça de Deus. Pede-me por eles, são teus irmãos”.
Deixaram-me impressionada estas palavras, que já estão escritas, de
Nosso Senhor me dizer que era no meio dos meus gelos que Ele apagava as
chamas do Seu vivino Amor. Não sei se as compreendo. Por caridade,
peço-lhe para mas explicar, que não fosse eu compreendê-las mal, depois
vir Nosso Senhor apagar em mim as chamas do Seu divino Amor.
― “Minha filha, ó minha amada, Eu estou contigo. Oh ! como eu te amo !
São tão fortes as cadeias de amor que me prendem a ti que as não posso
quebrar, não te posso abandonar. Sê-me fiel, ama-me muito, deixa o mundo
por completo, que não te pertence. Não queiras aquilo que não é teu. O
mundo a quem deves amar, servir e prestar todas as homenagens sou Eu nos
meus sacrários”.
E
disse-me que estava como aqueles presos que a justiça ainda não
satisfeita com a prisão procuravam mais meios para os castigar. Mas Ele
que era a justiça e os criminosos que procuravam todos os meios para Lhe
aumentarem as penas e ofenderem-no, que ao menos eu O amasse e
desagravasse. Disse-me também Nosso Senhor que queria continuar em mim a
Sua obra, que não queria ficar só nisto que lhe queria dar o remate. Eu
que mandasse dizer isto a Vossa Reverência.
Antes
de Nosso Senhor me falar, eu sentia uma união tão grande, tão grande e
desse-me então :
― “Ainda duvidas que é o teu Jesus que te fala ? Ainda duvidas que
habita na tua alma o amor dos amores ? E os meus sacrários ? Hoje que é
sábado que eu vou ser tão ofendido ! Tantos, tantos, que vão gastar o
que ganharam durante a semana na taberna e no jogo e em tantos e tantos
crimes ! Pede-me por eles, minha filha, são teus irmãos”.
Isto
foi no sábado, dia 27, haviam de ser 6 horas da tarde ; e eram quase 11
da noite e disse-me Nosso Senhor :
― “Olha os meus sacrários nesta hora, que grande chuva de crimes lá
caiem !”
E
disse-me que naquela noite tantas e tantas almas caíram no inferno, que
passariam do pecado para lá. Oh ! como eu fiquei triste ! e então
disse-me Nosso Senhor :
― “Tens razão, que são teus irmãos, mas também são meus filhos , morri
por eles e por eles dei até à última gota do meu sangue, mas pede-me por
eles, que ainda alguns os pouparei”.
Calcule como eu fiquei : rezei algumas coisas o melhor que pude ; se a
Deolinda estava só em casa chamava por ela para vir rezar comigo a ver
se conseguia que o meu Jesus os poupasse. Estava para dar meia-noite e
tornou-me a falar Nosso Senhor e disse-me que dentro daquela hora que já
tinham caído no inferno muitas almas, que não foi Ele que para lá as
levou, mas sim elas, cegas pelas paixões, que lá se meteram. Eu ainda no
outro dia estava triste. Outra ocasião disse-me o meu Jesus :
― “Minha filha, minha querida, ó minha amada. Estou contigo, amo-te
tanto !”
E
pediu-me que O amasse também muito, mas que não queria só o meu amor que
fizesse com que os outros o amassem também. Pediu-me que fixasse a minha
morada nos seus sacrários que queria muitas guardas fieis prosternados
diante dos sacrários para que não deixassem lá cair tantos e tantos
crimes, que ao menos eu O amasse e reparasse.
― Ai minha filha, como Eu estou triste, queres participar da minha
tristeza ? Queres associar-te a Mim ? Se me amas não me dês uma
negativa. Queres associar-te aos meus sacrários ? Alerta e bem firme
para impedires aquela chuva miudinha de pecados que lá caiem, aquele
dilúvio de crimes que nem um momento deixa de cair. Eu mando-lhe avisos,
chamo-os por tantos modos, não fazem caso. Infelizes ! Vão ser
castigados bem breve. Não posso mais, não posso mais !”
Dizia-me Nosso Senhor isto como quem ralha, como quem não está
contente ; e no fim, disse :
― “Ama-me, consola-me”.
No
fim sentia como uma força a abraçar-me e dizia-me o meu bom Jesus :
― “Amo-te, possuo-te, és minha !”
E
disse-me que para mim, foi uma queixa amorosa, que era para me ter
sempre alerta.
― “Minha filha, minha filha, ó meu amor, escuta o teu Jesus, escuta os
meus pedidos. Dás-me o teu corpo para que eu o crucificar ? Mas exijo de
ti muitos e grandes sofrimentos : é dolorosa a paixão. Não me negues por
meu amor, é para acudires aos pecadores teus irmãos, aos ceguinhos, não
de nascença, mas cegos pelas paixões. Por ti espero que muitos venham a
Mim com essa cruz que eu te dei e tu por meu amor abraçaste”.
E
disse-me o meu bom Jesus que me havia de mostrar no Céu os pecadores que
com os meus sofrimentos se salvaram não por mim mas por Ele que me
escolheu para este ofício. Disse-me mais ainda :
― “Alerta nos meus sacrários : estou sózinho em tantos, tantos !
Passam-se dias e dias que me não visitam e não me amam e não me
desagravam ; quando lá vão é por um hábito, por uma obrigação. Sabes o
que nunca lá deixa de cair ? É aquela corrente de pecados e de horrendos
crimes. São os actos de amor que me mandam, “ assim que me consolam, é
assim que me desagravam, é assim que me amam”.
Eu
cada vez me sinto com mais desejos de amar a Nosso Senhor mas não sei se
adianta alguma coisa ou se estou sempre a pisar no mesmo sítio ; o que
me anima um pouco é Nosso Senhor dizer-me que se contenta com os meus
desejos.
Há
muito que desejava explicar a Vossa Reverência algumas coisas que se
passam em mim mas o pouco espaço do papel não me permitia.
O meu
Jesus, ora dum meio ora doutro, faz-me sentir os efeitos da sua divina
presença em minha alma. Umas vezes ainda antes de me falar eu sinto como
que uns fortes abraços, e outras vezes é no fim ; de repente me vem um
calor tão forte, tão forte que nem me sei explicar ; às vezes sinto-me
tão acariciada por Nosso Senhor ! E eu não sei como Lhe hei-de
corresponder a tantos benefícios ; por caridade, agradeça Vossa
Reverência ao meu bom Jesus por mim. Peço-lhe perdão por ir uma
escritura pois foi para poder mandar coisas que tinham já muito
atrasadas.
Muitas lembranças da mãe e da Deolinda ; ela não escreveu hoje porque já
ia demais. Desculpe-me ir datada de quinta-feira e só hoje sábado é que
se deita ao correio. Não se pôde acabar antes, até chorei.
Adeus, peço que abençoe esta pobre
Alexandrina
Maria da Costa
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 8
de Novembro de 1934
Senhor Padre Pinho :
Chegou, enfim, outra quinta-feira e cá estou eu, outra vez, a contar-lhe
como Nosso Senhor me tem beneficiado.
Disse-me Nosso Senhor :
― “Minha filha, minha filha, como Eu te amo, que me não posso separar de
ti !”
E eu
disse para Nosso Senhor :
― Ó meu Jesus, eu quero ser toda, toda vossa.
E
disse-me Nosso Senhor :
― “Se soubesses como me consolas quando me dizes que queres ser toda
minha ! E sabes onde te quero muito unidinha a Mim ? É nos meus
sacrários ; em todos, mas mais naqueles que se passam dias sem Me
consolar e sem Me visitar. E são tantos ! E lá nos meus sacrários me
podes amar, me podes consolar, podes alegrar a minha solidão e podes-te
oferecer pelos pecadores ; lá me podes servir de vítima pelos pecados do
mundo nesta quadra que o mundo se revolta contra mim e contra a minha
Igreja ! Nesta quadra que o mundo não encontra mais meios nem crimes
mais horrendos para praticar contra Mim !”
Disse-me também que me dizia como à Madalena, eu que escolhi a melhor
parte :
― “Amar o meu Coração, amar-me crucificado é bom, mas amar-me nos meus
sacrários, onde me podes contemplar não com os olhas do corpo, mas com
os olhos da alma e do espírito, onde estou em corpo, alma e divindade,
como no Céu, escolheste o que há de mais sublime”.
E
disse-me ainda :
― “O tempo passa, o tempo é breve e Eu te escolho um lugar no Céu, muito
pertinho de Mim, assim como na terra escolheste estar junto de Mim nos
meus sacrários”.
Sexta-feira e sábado passado, tive a consolação de receber o meu querido
Jesus. Sentia uma grande união com Nosso Senhor. O que me parecia é que
não fazia boa preparação nem boa acção de graças, mas fiz o melhor que
eu pude, mas não foi para mim ouvir a voz de Nosso Senhor. Estava muito
triste, mas não perdi a confiança. E então, no sábado à tarde, falou-me
assim o meu querido Jesus :
― “Para quê esse desânimo, essa tristeza ? Já esqueceste o que te tenho
dito, que assim aumento mais em ti o meu amor ? Tem confiança, minha
filha, tem confiança ! Minha filha, cá está o sábado outra vez, dia
destinado à minha Santíssima Mãe, e que é tão ofendida, porque se
associa a Mim”.
E
pediu-me que me associasse também.
― “A esta hora, assim como Judas pensava o meio para me entregar, assim
os pecadores pensam nos crimes com que Me hão-de ofender. Ó dia, ó noite
de pecados, de crimes horrendos para os meus sacrários !”
E
disse-me Nosso Senhor que muitos pecadores estavam já às portas do
inferno, que só faltava entrarem para dentro, que Lhe pedisse por eles e
que reparasse, que me promete grandes recompensas. Das 10 às 11 da noite
do mesmo sábado, tornou-me a falar assim :
― “Minha filha, olha o teu Jesus, olha os meus sacrários a estas horas.
Ai tantos pecados ! Ai tantos crimes ! Olha a paga de todo o meu
Sangue ; olha a paga da minha morte e de toda a minha paixão !”
E
disse-me que eram mais os crimes que naquela hora caíam nos sacrários,
do que as balas nas batalhas das grandes guerras. E eu então ofereci-me
a Nosso Senhor em espírito a todos os sacrários, para que esses crimes
caíssem sobre mim e não em Nosso Senhor. E o meu Jesus disse-me :
― “Pede-me, repara, sustenta o braço da minha justiça que não quer, mas
tem que os castigar”.
Domingo e segunda-feira, nada tenho que lhe contar ; na terça, à
tardinha, falou-me o meu Jesus e disse-me assim :
― “Minha filha, ó amor do meu amor, Eu estava contigo, não te abandonei.
Estava a ver os caminhos que seguias, sem a voz do teu Jesus, mas estou
contente contigo. Amaste-me no silêncio e na minha união, mas ainda não
estou satisfeito, quero mais ainda. Deixa tudo o que é do mundo, o que
não seja da minha obra ; o teu lugar é nos sacrários, sempre nos
sacrários a amar-me muito, a consolar-me, a pedir-me pelos pecadores que
a sua malícia refina !”
E
disse-me Nosso Senhor que à medida que eu fosse reparando o mundo, que
Ele me iria concluindo a minha coroa no Céu, que estava tão linda, tão
linda ! Disse-me mais ainda que precisava não me falar, que assim me
unia mais a Ele e acendia mais em mim o seu divino Amor e que era para
concluir a sua obra.
Disse-me o meu Jesus que me voltava a falar naquela noite, e assim foi :
pelas 10 horas e meia, eu sentia os efeitos de Nosso Senhor em minha
alma : sentia um enorme calor, parecia que me abrasavam, e disse-me
Nosso Senhor :
― “Olha, ó meu amor, quero consumir-te nas chamas do meu Amor. Anda
passar um pouquinho da noite alerta nos meus sacrários, nas minhas
prisões. São tuas e minhas. O que me levou para as prisões foi o amor ;
e para tantos... para quê ? Não crêem na minha existência, não crêem que
Eu habito lá. Blasfemam contra Mim. Outros acreditam, mas não me amam,
não me visitam, vivem como se Eu lá não estivesse. Anda para lá, são
tuas e minhas ; escolhi-te para me fazeres companhia naqueles pequenos
abrigos, tantos tão pobrezinhos ! Mas lá dentro... ó que riqueza ! É a
riqueza do Céu e da terra. Pede-me pelos pecadores, para que ouçam a voz
do seu Criador. Chama-os e diz-lhes : Arrepiai caminho ! Não foi para
isso que Eu vos criei ! Não foi para isso que morri por vós !”
Disse-me Nosso Senhor que amasse muito Nossa Senhora, que também me
amava muito, e que por Ela eu tinha sido muito beneficiada.
Perdão, perdão, meu Padre, por todas as minhas faltas.
Abençoe, por caridade, a pobre
Alexandrina
Maria da Costa
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 25
de Novembro de 1934
Meu
Padre ;
Então
quer V.a Rev.cia que eu lhe diga quando foi que senti mais vivamente
Nosso Senhor ?
Estou
pronta a fazê-lo o melhor que souber. Esta união íntima com Nosso Senhor
comecei-a a sentir poucos dias depois da estada de Vossa Reverência
aqui, por ocasião do tríduo em Rates, foi pouco mais ou menos a 5 de
setembro do corrente ano. Desse tempo até agora tenho tido dias de o
sentir mais vivamente do que na ocasião em que o senti pela primeira
vez. As carícias que Nosso Senhor me faz são assim : Para falar a
verdade, eu mal sei explicar o que sinto, quando Nosso Senhor me fala.
Parece-me que sinto qualquer coisa que me passa pela cara, mas não são
mãos. Além disto, parece-me que me abraçam falando-me docemente como
Vossa Reverência já sabe pelo que lhe tenho dito. Já durante o inverno
do ano passado eu senti Nosso Senhor mas não dava importância nenhuma
porque ignorava tudo isto. Foi por isso que na ocasião do nosso tríduo
não falei nisso a Vossa Reverência. Se o apanhava cá hoje muito teria
que lhe dizer ; assim vou dizendo o que puder por escrito.
Já
fez quinze dias na quinta-feira passada que eu não tornei a ouvir a voz
de Nosso Senhor. Penso que não seria por coisa muito grave que eu
fizesse a Nosso Senhor, mas bem sabe eu que não sou mais do que
miséria : tenho feito por me resignar o mais que tenho podido ; não digo
que não tenho momentos de desânimo, mas confio em Nosso Senhor que há-de
tornar a falar a esta miserável pecadora, porque Ele não pode faltar
àquilo que promete. Senti-lo parece-me que já algumas vezes O tenho
sentido, mas falar não ; espero até quando for da sua SS. Vontade. Nessa
mesma quinta-feira, dia 8, das quatro às cinco horas da tarde, mesmo sem
estar a rezar, senti um calor enorme, parecia-me que me abrasava e
depois ouvi dizer assim :
― “Minha filha, és um trono adornado com o teu Jesus, com o teu Esposo,
com a SS. Trindade, sim, com o Padre, Filho e Espírito Santo. Que beleza
a da tua alma. Escolhi-te para tão alto cargo”.
Assim
como Ele me adornava a minha alma queria que eu adornasse os sacrários,
com o meu amor, com as minhas orações, e com a minha presença de
espírito.
― “Pede-me pelos pecadores. Eu preso e tão desprezado ; Eu preso e tão
ofendido e tão horrorosamente escarnecido. Sabes o que tem valido a
esses infelizes ? São almas que eu escolhi para reparar. Se não fosse
isso, para onde estavam esses desgraçados, desgraçados sim, se se não
converterem. São condenados eternamente”.
Prometeu-me Nosso Senhor que me voltaria a falar naquela noite, e assim
foi : das 10 às 11 horas da noite parecia-me sentir os efeitos de Nosso
Senhor em minha alma, mas não ouvia s sua divina voz. Pensava que
ficaria só assim, e eu nem tanto merecia, mas sempre me lembrava que se
fizesse a vontade de Nosso Senhor. Mas principiei a ouvir que me falava
mas parecia-me que era uma coisa diferente, mais forte que o costume, e
dizia-me :
― “Ne
te fala, nem te tem falado, nem te falará : andas a enganar o teu
director”.
Tomei
água benta e disse como costumo em casos semelhantes :
― Ó meu Jesus eu não vos quero ofender e formo a minha intenção de ser
por não duvidar nem por dizer coisas que assim não sejam.
E
então falou-me Nosso Senhor :
― “E queres consolar-me. E queres consolar o Santificador da tua alma ?
Sabes quem é ? É o teu Jesus. Anda para os meus sacrários. Passarão como
que a voar ; anda praticar uma obra de misericórdia. Anda consolar os
tristes. Estou tão triste ! Sou tão ofendido ! Anda para o teu cargo,
amar e reparar”.
Depois um forte calor me abrasava e dizia-me Nosso Senhor :
― “Estou contigo, sou o teu Jesus, o tudo da tua alma”.
E
disse-me que o demónio estava raivoso, mas que o não deixaria vencer-me.
Tenho
dias que o demónio me consome muito, trazendo-me à cabeça coisas tão
fracas, e tantas, tantas dúvidas, que se não fosse a muita bondade de
Nosso Senhor, e quem sabe, as orações de Vossa Reverência, já ele me
teria vencido.
Cá
tenho pedido muito pelos pecadores que Vossa Reverência me tinha
recomendado e agora mais particularmente por esse que me diz que vive em
muito perigo de pecar : por ele tenho oferecido muitos dos meus
sofrimentos apesar de ser muito indigna de receber favores de Nosso
Senhor.
Adeus, por hoje. Por caridade não me esqueça junto de Nosso Senhor, que
eu também todos os dias me ofereço a Nosso Senhor para que Vossa
Reverência participe em todos os meus sofrimentos e orações.
Muitos cumprimentos da minha mãe, da Deolinda e da D.a Conceiçãozinha.
Alexandrina
Maria da Costa
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 9
de Dezembro de 1934
Meu
Padre ;
Eram
todos os meus desejos escrever-lhe ontem, dia consagrado à minha querida
Mãezinha do Céu a quem eu desejo amar com todas as veras da minha alma,
mas não me foi possível devido ao muito trabalho que a Deolinda teve na
igreja. Ó como eu fiquei triste ! Mas não posso deixar de dizer a Vossa
Reverência a grande alegria e consolação espiritual que eu senti nessa
manhã. Recebi o meu querido Jesus ; no fim de O receber renovei o que
Vossa Reverência me tinha aconselhado que fizesse pelas almas do
Purgatório, tomando por intermediária Nossa Senhora. Renovei também por
toda a minha vida o voto de virgindade e pureza, consagrando-me toda à
minha querida Mãe do Céu, pedindo-lhe que me purificasse de toda a
mancha e depois me consagrasse toda ao meu querido Jesus e me fechasse
dentro do Seu Sagrado Coração. A alegria que eu senti não lhe posso
explicar ; momentos depois disto, falava-me Nosso Senhor assim :
— “Minha filha, estou entregue da oferta que fizeste à minha Mãe
Santíssima. Se soubesses como me consolaste e como alegraste a SS.
Trindade ! Se soubesses a glória que te foi aumentada no Céu, morrerias
de pasmo. De hoje por diante, serás acumulada de muitos e grandes
benefícios, serás uma escora firme para sustentar o braço da minha
justiça divina prestes a cair sobre esses infelizes pecadores. Serás um
poderoso e valioso auxílio para as almas dos pecadores. Anda para os
meus sacrários. Seja a nica morada do teu espírito. É a vítima das
minhas prisões”.
E
disse-me Nosso Senhor que aumentasse no seu divino Amor, que me estava a
experimentar, que não estava bem firme na minha confiança, que não desse
ouvidos ao demónio, que se consumia para me perder. Sentia uma grande
união com Nosso Senhor e um forte calor que me abrasava.
Desde
a última vez que lhe escrevi ainda só duas vezes ouvi a voz de Nosso
Senhor ; tenho feito por proceder sempre como se Ele sempre me falasse,
mas sabe bem até que ponto chega a minha miséria ; sempre tenho tido
momentos de desânimo, e tenho tido dias que o demónio me tem tentado
tanto que parece que todo o inferno vem sobre mim. Ai, meu Jesus,
quantas vezes tenho aqui desejado a Vossa Reverência e confio em Nosso
Senhor que não hei-de morrer sem isso.
No
dia 1, primeiro sábado do mês, depois da Sagrada Comunhão, disse-me
Nosso Senhor :
— “Repara, filhinha, e confia no meu Amor ; Eu tinha-te avisado, não te
enganas nem te enganaste. Não falto ao que prometi. Hei-de fazer em ti
grandes coisas. Vive só para Mim, toda para Mim. Ama a solidão. Anda
para os meus sacrários. É lá onde aprendes. É lá onde ela é mais
praticada, anos e séculos. Ama-me muito. Pede-me o que quiseres. Sabes o
que mais quero que me peças é pelos pecadores. Eu atenderei e os
pouparei às penas do inferno”.
Adeus ; até breve, que hei-de ver se não demorarei tanto a dar-lhe
notícias minhas. Eu continuo sempre a pedir a Nosso Senhor por Vossa
Reverência, mas peço-lhe, por caridade, que se não esqueça de pedir por
mim que sou a maior de todas as pecadoras. Por amor de Jesus, abençoe
esta pobre
Alexandrina
Maria da Costa
Lembranças da Çãozinha.
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 20
de Dezembro de 1934
Meu
Padre ;
Cá
estou eu na quinta-feira a escrever a Vossa Reverência : é o meu dia,
pois não foi numa quinta-feira que Nosso Senhor instituiu o SS.
Sacramento ?
No
dia 9, à tardinha, estava triste : chorei porque parecia-me não caber em
mim mais desejos de amar Nosso Senhor, e achava que O não amava. Depois
de estar mais animada um pouco, fui em espírito para todos os sacrários
do mundo, fazer os meus pedidos, como é meu costume : fiz a minha
comunhão espiritual e no fim, falava-me Nosso Senhor :
— “Minha filha, minha filhinha, se soubesses o bem que te quer a
Providência ! Se soubesses como és amada no Céu pela SS. Trindade !
Corresponde a esta amor. Anda para os meus sacrários ; vive lá. É de lá
que vem a força para tudo. Ama-me muito, pensa só em Mim. Deixa o mundo
e tudo o que nele existe, que é nada. A missão que te confiei são os
meus sacrários e os pecadores : elevei-te a tão alto grau. É o meu Amor.
Por ti serão salvos muitos, muitos, muitos pecadores, não por teus
merecimentos, mas por Mim que procuro todos os meios para os salvar”.
E
disse-me Nosso Senhor que mandasse dizer a Vossa Reverência que já
estavam pecadores no Céu, salvos por mim e que já sabiam a quem deviam a
sua conversão :
— “Não é por ti, mas sou Eu que assim o permito, pois tu sem Mim ficavas
de rastos”.
Sentia então uma grande união com Nosso Senhor. O coração batia com
tanta força e um forte calor me abrasava ; e disse-me o meu bom Jesus :
— “Não duvides, estou contigo, sou o teu Jesus, o teu Amor, o teu Tudo.
Somos uns esposos muito queridos, não nos podemos separar. Satisfaço-me
com os teus desejos. Sei até que ponto chega a tua força. O que temes
tu ? Se Eu sou o Mestre dos mestres, o Director dos directores ?”
No
dia 11, no fim da visita ao SS. Sacramento, fiz a minha comunhão
espiritual : ofereci-me toda a Nosso Senhor presente em minha alma e em
espírito a todos os sacrários do mundo para Ele me sacrificar pelos
pecadores. Principiei a sentir os efeitos de Nosso Senhor ainda sem me
falar. Senti um grande calor, uma força que me abraçava, quase me
parecia que me tirava do mundo. Sentia a impressão que me faziam mimos e
que era beijada. Dizia-me então Nosso Senhor :
— “Anda, filhinha, meu amor, para os meus sacrários ; não posso mais com
tanto esquecimento e tanto abandono e tanto pecado. Prostra-te diante
dos meus sacrários com toda a humildade e amor e pedir-me pelos
pecadores. Se de veras os queres salvar, não me recuses o teu corpo. Eu
ainda não estou satisfeito. Ainda te quero mais crucificada”.
Eu
disse a Nosso Senhor que sim, que não descansasse enquanto me não
destruísse. Disse-me Nosso Senhor que não temesse, que com os
sofrimentos me dava a força, força para tudo. Dizia-me assim :
— “Ainda o Céu te espera : a tua coroa é mais rica que todas as pérolas
preciosas do mundo. Está adornada com os teus sofrimentos e com as almas
dos pecadores que salvaste. Está preparado um lugar muito alto para ti”.
Durante este tempo repetia-se mais que uma vez todo esta abrasamento. Eu
dizia a Nosso Senhor :
— Não Vos sei corresponder.
E Ele
dizia-me :
— “Vejo os teus desejos”.
No
dia 15, eram perto das 6 horas da tarde, depois de ter acabado de fazer
os meus pedido aos sacrários, fiz a comunhão espiritual e dizia a Nosso
Senhor :
— Quero ser toda vossa. O que hei-de fazer para vos amar ?
Parecia-me sentir já os efeitos de Nosso Senhor em minha alma, e então
uma enorme força me abraçava, que me pareceu que por algum tempo fiquei
com os braços presos. E falou-me então Nosso Senhor :
— “Queres consolar e amar muito o teu Esposo ? O Esposo das almas
virgens a quem Eu amo com predilecção ? Anda para os meus sacrários,
vive lá e dá-me o teu corpo para Eu o crucificar, para Eu satisfazer os
meus desígnios. Sê a minha vítima de reparação pelos pecados do mundo, e
assim me consolarás muito”.
Dizia-me mais ainda Nosso Senhor :
— “Peço-te o sacrifício de vires passar parte desta noite comigo nos
meus sacrários. Tem pena de Mim, tem pena do prisioneiro de amor nesta
quadra que sou tão ofendido. Anda formar com as tuas dores um abrigo
sobre os meus sacrários para que não venham sobre Mim os crimes. Eu te
prometo grande recompensa ; Nossa Senhora e a SS. Trindade ficam-te
muito agradecidos”.
E
pediu-me que guardasse silêncio o mais que pudesse. Eu atendi ao pedido
de Nosso Senhor : e que bela noite eu passei. Até depois da meia-noite
estive alerta : cantava, rezava, pedia ao meu Jesus que me desse a
bênção de todos os sacrários do mundo.
Vossa
Reverência quer saber que faz amanhã quatro semanas que não me
confessei ? E não sei quando me confessarei ; hei-de se será breve, se
Deus quiser. Por amor de Nosso Senhor lhe peço que veja se dá algum meio
a isto. Os meus sofrimentos continuam a ser cada vez mais ; eu não temo
porque o meu querido Jesus sofre comigo ; antes pelo contrário, me sinto
alegre e satisfeita porque aumentando-me os sofrimentos, melhor posso
acudir aos pobres pecadores e desagravar a Nosso Senhor.
Estimo que passe umas felizes e santas festas de Natal. Bem queria ter
alguma coisa para lhe oferecer por consoada, mas não tenho outra coisa a
não ser os meus sofrimentos ; por isso no dia 24, tudo quanto sofrer,
oferecerei a Nosso Senhor por Vossa Reverência, já que outra coisa não
tenho.
Termino enviando-lhe muitas lembranças de minha mãe, da Deolinda e da D.a
Conceiçãozinha e pedindo-lhe que nunca esqueça junto de Nosso Senhor
esta pobre pecadora que nunca o posso esquecer em minhas pobres orações,
Alexandrina
Maria da Costa
Não coube
nesta carta o que me disse Nosso Senhor no dia 18, portanto fica para a
semana.
* * *
Viva
Jesus !
Balasar, 27
de Dezembro de 1934
Meu
Padre ;
Causa-me impressão esse silêncio de Vossa Reverência. Já para aí tenho
três cartas e de nenhuma obtive resposta ; mas o que mais me impressiona
é já fazer amanhã 6 semanas que não tornei a ter uma palavrinha de Vossa
Reverência. É por grande excesso de trabalho ? Tem estado doente ? Ou
está zangado comigo ? De tudo lhe peço perdão e, por amor de Jesus lhe
peço que me acredite se em alguma coisa o ofendi que não foi por minha
vontade mas sim por ignorância da minha parte.
No
dia 18, das 6 às 7 horas da tarde, depois de fazer os meus pedidos aos
sacrários, fiz a minha comunhão espiritual. Estava tão fria, tão fria,
sem fervor nenhum ; passava-me pela ideia que Nosso Senhor me não
falaria, mas enganei-me. Dentro em poucos momentos falava-me o meu Jesus
assim :
— “Minha filhinha, minha filhinha, não desprezei a tua frieza. Como a
havia de desprezar se é permitida por Mim ? Sou Eu a elevar-te mais no
meu Amor. Amo-te tanto, tanto, tanto. Oh ! como Eu te amo ! Anda para os
meus sacrários. Vive lá : Eu também lá vivo. Se me queres amar, até mais
não poder, como tantas vezes me pedes, oferece-te toda a Mim, pede-me
numa oração contínua pelos pecadores. Que horror ! Mandei o dilúvio e
destruí as duas cidades com menos causa. Se não queres que venham
castigos assim, dá-me o teu corpo , se não queres que vão pecadores para
o inferno, deixa-me crucificá-lo à vontade. Aceitas ?”
Eu
disse a Nosso Senhor que sim, que me tornasse num farrapo. Nosso Senhor
disse-me :
— “Minha esposa, fiquei contente por me assim falares. Receberás grande
recompensa, mas que grande recompensa ; sou o teu Jesus, não duvides.
Manda dizer ao teu pai espiritual tudo isto. Não lhe ocultes nada, não
temas. Ele te guiará bem. Fui Eu quem to escolhi”.
Durante o tempo que Nosso Senhor me falou, repetiu-se por mais que uma
vez e que já por várias vezes tenho explicado a Vossa Reverência : uma
grande união com Nosso Senhor, sentia um forte calor e uma força que me
apertava ; cheguei a pontos de me parecer que ia perder os sentidos.
Confessei-me no dia 25 de manhã. Não foi por muita vontade, mas um
remédio também se toma : no fim recebi o meu querido Jesus. Logo depois
da Sagrada Comunhão, disse-me Nosso Senhor :
— “Escuta-me, minha filhinha, não podia deixar de te falar hoje. É festa
no Céu, é festa na tua alma. Renasci mais do que nunca hoje em ti, para
que cresças no meu Amor. Sou o teu Jesus. Dás-me o teu corpinho já tão
enfraquecido, para Eu o crucificar hoje muito ? Vou ser tão ofendido
pelo pecado da gula, e por pecados e crimes que tu desconheces. É assim
como me amam e me festejam o meu nascimento. Anda para os meus
sacrários. Vigia-os hoje muito. Anda a aplacar a minha justiça.
Compadece-te de Mim e dos pecadores. Pede-me por eles, que muitos serão
poupados às penas do inferno, mas outros serão lá sepultados”.
Eu
disse a Nosso Senhor que tanto não queria e Nosso Senhor respondeu-me
que também não queria, mas que essas almas é que se iam lá meter.
― “Mas pede-me muito, que muitas serão poupadas”.
Disse-me Nosso Senhor que Vossa Reverência pensava muito em mim, e como
me havia de guiar ; que tivéssemos confiança, que Ele guiaria a Vossa
Reverência para Vossa Reverência me guiar a mim.
Nosso
Senhor recomendou-me que me não distraísse durante estes dias, por
muitas visitas que tivesse e por mais que procurassem distrair-me.
Durante a visita estava tão intimamente unida a Jesus que parecia não
haver nada que me distraísse. Sentia uma força estranha que mal sei
explicar, e um forte calor que me abrasava.
Durante este dia estive o mais do tempo acompanhada, mas graças a Deus,
parece-me que não tive grandes distracções : deixava-os falar e o meu
pensamento estava nos sacrários a fazer companhia ao meu querido Jesus.
Vossa Reverência que saber o que ontem o demónio me queria meter na
cabeça ? O eu não ter recebido carta, que foi Nosso Senhor que disse a
Vossa Reverência as mentiras que eu para aí lhe tenho mandado dizer. Eu
fiz da minha parte por não lhe dar ouvidos.
Termino por hoje, desejando que passe umas festas do ano novo muito
alegres, e dando-me a mim a consolação de o passar com uma cartinha de
Vossa Reverência.
Muitas lembranças da Deolinda, da minha mãe e da minha querida Çãozinha.
Fará
a caridade de me abençoar e de pedir muito a Jesus por mim.
Alexandrina
M. C. |