Existe
a minha dor, existe o meu prolongado e indizível martírio. Sim,
existe, e bem penoso. Sofro, ai quanto sofro! Mas o meu corpo, não
sei se existe. Quantas vezes vivo na dor, como se não possuísse
corpo; parece-me que ele foi destruído, desapareceu. E a minha vida,
não sei se a tenho nem sei se a possuo. Foi para esse mundo, para
essa região, que eu desconheço. E aqui estou eu sem mundo, sem céu.
Que penar, que não sei explicar! Que vida, que não sei dizer! Eu
anseio por uma nova vida. Rompo por entre as minhas trevas, para a
possuir.
— Ó meu
Deus, que profundeza e escuridão as do meu espírito! E eu sozinha,
de todo sozinha, em tanta cegueira. Posso bradar vidas e séculos;
posso pedir socorro à terra e ao céu; para mim não há socorro, não
há ninguém. A minha cegueira a tudo deu a morte. O abandono é só
para mim. Meu Jesus, quereis-me assim? Quereis que eu assim sofra? A
Vós me entrego toda e inteiramente, contanto que eu não Vos perca,
contanto que a perda, que eu sinto, não seja a realidade. Reinai,
Jesus, reinai no mundo, reinai no meu coração, dai-me amor à cruz,
dai-me força para tudo.
É a
vida da minha dor que arde no inferno, que lá ouve os maiores
horrores entre os maiores tormentos. É a vida da dor, porque outra
não tenho. É a dor que sofre na dor. Sinto-me quase a desesperar.
Quero ver e não vejo, quero viver e não vivo. Não posso
convencer-me, quero abraçar essa vida que desejo. Sinto-me na mais
alta montanha de trevas, e sobre mim um céu de trevas, um céu de
tremenda escuridão, um céu da mais rigorosa justiça. Sinto que Jesus
espreme o meu coração no meio desta montanha e deste céu. Ele
espreme, espreme, mas pobre coração que não dá nada! É palha seca,
que Jesus aperta na prensa das Suas divinas mãos. Sinto-me
envergonhada, não ter que dar a Jesus. Sinto-me deveras aterrada, ao
ver a vida da minha dor manchada, envolta no lodo mais nojento. Mas
o coração em tantas horas arde, arde em vivas chamas e quer voar à
procura de nova vida, da vida real, da vida que é divina. Que sede
de me dar a Jesus, e que vergonha de me aproximar d’Ele!
O
demónio ou demónios trabalham com canseira para conseguirem que eu
ofenda o meu Jesus, que caia no desânimo, no desespero. Vêm sempre
com novas formas de pecar, vergonhosas e descaradas. Que horrorosas
feras, à minha frente com feias cenas, como se fossem pessoas e a
fazerem-me pecar também. Tudo me leva a crer que pequei. Num grande
ataque na noite passada, em que lutei aproximadamente uma hora,
sempre banhada em suor e sempre na maior aflição do coração,
repetidas vezes ele falhava-me, parecia-me no mesmo momento morrer.
— Entrega-te a mim, entrega-te ao prazer – repetia muitas vezes o
maldito. – Se queres viver alegre, se queres uma eternidade feliz,
entrega-te a mim, renuncia a tudo o que é de Deus. Revolta-te contra
Ele, não tem mais nada para te dar a não ser essas trevas e
sofrimentos. Se queres possuir a luz, ama-me. Só amando-me, sairás
dessas trevas e sofrimentos.
Fiquei
triste com o medo de ter ofendido a Jesus e, sem querer, vi, vi a
minha grande vida de sofrimentos. Tudo me estava presente: a data da
minha primeira crucificação; sete anos passados, tudo vivi, hora a
hora, momento a momento. Senti os medos, os pavores dessas horas
amargas. Senti grande aflição do meu Pai espiritual nessa ocasião
junto de mim. Senti as lágrimas dos meus, que vi chorar também
aterrados. Se Jesus me mostrava todos este martírio de uma vez só,
vencia a morte. Sem um milagre teria morrido. E tudo isto sofri na
grande cegueira do meu espírito.
O
demónio tudo aproveitava para os fins que desejava, que era o
pecado, o desespero. A noite ia alta, e alta estava a minha dor e
agonia do corpo e da alma. Jesus veio. A um gesto da Sua mão
santíssima, fez cessar a luta infernal.
— Pára,
não vences, a vitória é da minha vítima.
E,
tomando-me nos Seus santíssimos braços, estreitou-me docemente.
— Minha
filha, venho afirmar-te que não pecaste. Esta grande reparação sou
eu que a exijo. Só a um coração puro a posso pedir. Quero
levantar-te do teu desfalecimento, quero suavizar o peso da tua
cruz.
Vi
Jesus com ela em Suas mãos, e eu, liberta do seu peso, pude respirar
e continuar a ouvir a doce voz de Jesus.
— Minha
filha, tu és o mimo dos pecadores. Ai deles sem ti, ai deles sem a
tua crucificação, dolorosa crucificação! Depois desta luta, não
podia deixar-te em tão grande desfalecimento e não podia deixar
passar as últimas horas deste dia ditoso do aniversário em que pela
primeira vez te crucifiquei. Tem confiança. Nunca te enganaste nem
enganarás. A tua crucificação é a mais real, a mais semelhante à
minha. Oh! quanto te amo e quanto amo as almas! Tudo faço por elas.
Vai para as tuas trevas, toma a tua cruz, leva-a alegre e por amor.
As
palavras de Jesus são para mim como uma aragem que passa, luz que
desaparece. A minha cruz! O meu penar! É quinta-feira, e já sinto
nas mãos, nos pés e no coração como se as chagas estivessem abertas.
Todos os tormentos se anteciparam. Vieram tantos veados a beberem o
meu sangue, o sangue que banhou o horto. Levantei-me da terra depois
de o regar com ele. O silêncio convidava ao descanso. Alguém dormia,
mas eu estava como que desnorteada. Foi o cansaço, a agonia, a perda
de sangue. Os olhos levantava-os ao céu. Suspiros e mais suspiros,
dor e mais dor. Voltei a unir o rosto à terra nua. Voltei a orar ao
Pai, mas ser ouvida e sem conforto. Levantei-me novamente, ou
melhor, levantou-se Jesus dentro de mim. E a minha alma viu o Seu
rosto divino cadavérico, coberto de sangue e suor e os olhos
amortecidos. O que sofreu Jesus! Pobre de mim, pobre do mundo, que
não compreende, continua a ofendê-Lo. Queria morrer muitas vezes
para o fazer conhecer e compreender tudo isto.
Não
tenho forças, só vindas do céu. Se eu pudesse deixar de escrever os
muitos sentimentos da minha alma, parece-me que então podia gozar
alegria. Que grande sacrifício o meu! De manhãzinha e cedo, ainda
descia das escadas da prisão. Que cansaço o meu! Ao fundo delas, já
tropecei e caí, não podia levantar-me. Fui logo maltratada. Fui para
a flagelação e para a coroação de espinhos. Não via com o sangue,
que em grande abundância me corria pelo rosto. Não podia mover-me
com as minhas carnes despedaçadas. Recebi a cruz. Esmagada, curvada
com o seu peso, caí debaixo dela no mesmo lugar. Fez-me lembrar as
minhas crucificações, senti o mesmo peso que me fazia desfalecer.
Segui com ela, mas quantas vezes voltei a cair! No caminho do
calvário, na grande subida para a montanha, não pude mais.
Desfaleceu o corpo, desfaleceu a alma. O meu cireneu foi Jesus.
Tomou Ele a cruz, e eu, a custo, atrás d’Ele, fui seguindo o Seu
caminho. Eu já sentia e via tudo o que no calvário me esperava. Fui
despida e crucificada. Senti, já lá vão umas horas, e ainda sinto as
chagas das mãos, dos pés e do coração; causaram-me imenso
sofrimento. Quando foram retalhados os vestidos, não foi em mim, mas
senti como se fosse dado no coração um grande corte com a espada
numa capa roxa. Não feriu o pano, mas feriu-me a mim. Vi leiloar
tudo: vestidos verdes e também vermelhos ou cardinais. Os curiosos,
que desciam o calvário, quando ele foi escurecido, como se já fora
noite, iam aterrados. Eu senti o seu terror. Desciam timidamente a
ver quando eram pela terra engolidos. Como o solo estremecia e
parecia abrir-se! Meu Deus! Mas no cimo da montanha a dor era mais,
infinitamente mais. Jesus crucificado dentro de mim, e de mim
passavam para a Mãezinha, que estava ao pé, e d’Ela passavam para
Jesus, por uns fios, como se fossem eléctricos, dor, agonia e amor.
Aqueles fios prendiam os dois Corações e faziam-Nos viver um do
outro. Jesus não via com os Seus santíssimos olhos o pranto da
querida Mãezinha, porque os tinha ora fechados ora levantados ao
céu. Mas tudo via e ouvia com os Seus ouvidos e olhares divinos. Ó
triste e dolorosa agonia! Ó abandono mais aterrador! Dentro do meu
peito estava o calvário, Jesus e a Mãezinha a sofrerem com
sofrimento inigualável. Eu era o calvário; Jesus e a Mãezinha,
n’Eles e com Eles sofria. Um mundo de misérias, de podridão e crimes
esconderam-me o céu. O meu sangue tinha de apagar tudo aquilo que me
cobria e revestia. Por aquele mundo tão nojento é que eu tinha de
responder e por ele mesmo é que eu era abandonada pelo Eterno Pai.
Bradei, mas sem ser ouvida. Vi a esponja, vi a lança. Tinha sede,
estava a arder. Os meus lábios foram molhados, e o coração
murmurava: não é essa a minha sede, a minha sede é das almas.
Continuei a bradar no meio do abandono e da minha cegueira. Veio
Jesus a dar a luz a tanta escuridão, dar a vida a tão grande morte.
— Minha
filha, no fontenário do teu coração está plantada a flor fina do
amor. Nasceu, cresceu, subiu à maior altura. É à sombra dela que
estão as outras mais finas flores das tuas virtudes: a flor da
pureza, a da caridade e todas as outras. É o amor que conserva e
guarda a pureza. Oh! como tu és pura! É o amor que faz praticar a
caridade. Possui-la no mais alto grau. É o amor que aceita a dor. Se
não amasses, não sofrias; se não amasses, não eras crucificada. E,
porque amas o meu Divino Coração e as almas, entregaste-te ao
sacrifício. O amor é tudo, o amor tudo a si atrai. O fontenário da
fina flor do amor está cheio de mim, das minhas riquezas. Sou eu
quem cuida e rega essa flor. Possuis as minhas maravilhas, o meu
perfume. E tudo isto é para as almas. Deixa que elas venham todas a
ti purificarem-se, enriquecerem-se. Minha filha, minha filha,
repara, consola o meu Divino Coração. O mundo peca, não cessa de me
ofender. Depressa, depressa, está a ser tarde. Ele está em tanto
perigo! Ecoe em toda a humanidade a voz do seu Pastor, a voz do
Santo Padre. Que a sua voz se faça ouvir dum pólo ao outro. Jesus
falará em seus lábios, a luz do Divino Espírito Santo o iluminará.
Depressa, depressa, o momento é de perigo. Um fogo de justiça quer
abrasá-lo. O seu rigor quer destruí-lo.
Via
descer do alto uns fios de fogo, e com esses fios parecia o mundo a
arder, as pedras estalarem, a terra abrir-se.
— Minha
filha, que mais posso eu fazer para salvar o mundo? Eu não quero
castigar, mas não posso mais. Esta é a justiça de meu Pai. Salva-mo,
salva-mo, confiei-to. Continua a minha obra, nova redentora.
— Meu
bom Jesus, como poderei salvá-lo, se ele está em tanto perigo?
Salvai-o comigo, salvai-o, se ainda é tempo.
— Filhinha amada, tu és o remédio, a salvação das suas almas. É por
ti, sempre por ti que elas são salvas, mesmo que o mundo seja
castigado. No momento de elas expirarem, lá irás tu com a tua
medicina, medicina dada por mim, medicina divina. Serás o seu
conforto e guia na vida e luz na hora da morte. És toda de Jesus, és
toda das almas. Vou agora, pomba querida, dar vida ao teu coração,
dar-lhe umas gotas do meu divino sangue. É o sangue virginal de
Cristo, é o sangue que gera as virgens. É o sangue que vai correr em
tuas veias, é o sangue que perdes por amor às almas. É uma redenção
contínua. Peca-se como nunca se pecou. São contínuos os crimes da
humanidade. Aceita umas gotinhas apenas. Sou o médico da tua alma. É
medicina divina. Enquanto a aplico, opero milagre, para conservar-te
a vida. Não pode dilatar-se o coração.
Jesus
uniu os nossos corações e os nossos lábios. De longe a longe deixava
cair no meu uma gota do Seu sangue divino. Ao mesmo tempo com os
Seus lábios acalentava-me. Senti mais vida e disse:
— Jesus, arde-me tanto o coração, mas não sinto alegria no que
recebo de Vós. Estás na cruz amado, estás na cruz sofrendo, estás na
cruz gozando. São gozos dolorosos.
— O
fogo do teu coração é sinal da minha passagem em ti. Tem coragem! Eu
não fujo. Escondo-me nas tuas trevas, nelas vejo o teu penar.
Abraça, abraça a cruz. Vai para ela. Sofre alegre, contigo estou
sempre.
— Obrigada, meu Jesus.
Ai de
mim! Deixei Jesus, entrei logo nas minhas trevas, na minha cegueira
tremenda. Sinto-me na cruz, mas oh! que madeiro! Estou presa a ela
da cabeça aos pés. São inquebráveis as cadeias que me prendem. Ah!
se eu nela amasse o meu Jesus!
Não
parece sábado, não parece o dia da Mãezinha. Quantos espinhos me
ferem! Quantos mundos de trevas me atormentam! O meu espírito não
vê, não sossega, não descansa. Curvei-me sob o peso da cruz.
Caminhar não posso. Sinto o coração destruído, oprimido pela dor. Só
a morte reina. Não encontro a vida que anseio. Perdi o céu, deixei a
terra. No meio desta amargura foi que me preparei e recebi Jesus
esta manhã. Que ânsias tão grandes de O amar, de Lhe dar graças, de
O conhecer melhor. Nada consegui. A cegueira do meu espírito nada
mais deixa viver nem reinar em mim. As palavras de Jesus, o Seu
conforto divino quase só valem nos momentos em que Ele vem. Pouco
depois de Ele baixar às minhas dores e trevas, disse-me:
— Minha
filha, tu és a vítima que maiores encantos tem, para mim e minha
Bendita Mãe. És a criatura na terra mais enriquecida por nós. Eu
amo-te, Ela ama-te, e com loucura e amor. Porque muito recebeste,
muito nos dás. Fiz-te a entrega dos nossos corações cheios de amor e
riquezas. Que ditosa é a tua vida, cheia das maiores maravilhas e
prodígios! Nunca o mundo viu nem volta a ver. O meu perfume divino,
o de minha Bendita Mãe, irradia em ti, espalhar-se-á pelo mundo com
o perfume das tuas virtudes. Que perfume celeste! És o nosso anjo em
carne. Dei-te muito, tudo te dou. Pedi-te muito, tudo te peço. Olha,
pombinha amada, já que por amor a ti e da humanidade te fiz a
entrega dos nossos corações, quero que repares no coração da tua
querida Mãezinha. Ela é tão ofendida! É ferida gravemente, falando
da Sua pureza virginal, pureza sem igual. Que pecados graves se
cometem! Tiveste a graça, minha filha, de conheceres e compreenderes
como estão unidos os nossos corações, na mesa dor e amor. Recebeste
toda a luz do Espírito Santo e com ela tudo vês. Estão unidíssimos
os nossos corações e, nesta união, compartilham a mesma dor e amor.
Podes tu, virgem amada, suavizar a dor da Virgem das virgens, da Mãe
celeste, da Mãe bendita. A tua virtude e pureza atraem os corações e
as almas. És, como já disse, o bálsamo que as cura, a medicina
delas. Repara, repara. Com os ataques violentos do demónio, que
incendeia no mundo o mal da impureza, repara, repara pelos
sacerdotes. Quanto sofro, quanto vou ferido por eles!
— Não
sei o que hei-de fazer, meu Jesus. Eu aceito esses ataques, eu quero
reparar tudo, mas o meu temor sabeis bem que é só o de Vos ofender.
Não quero poupar o meu corpo, mas, sim, uma ofensa ao Vosso Coração
Divino.
— Confia, minha filha, flor mimosa, confia, que estou contigo;
confia que não me ofendes. És vaso de amor, és o meu instrumento de
reparação, és o farol luminoso, que no centro da humanidade eu
coloquei, para a salvar. És guia das almas, és o caminho que as
conduz ao céu. Dá, minha filha, ao teu Paizinho o meu Divino Coração
e o da minha Bendita Mãe. Dá-lhos cheios da abundância do nosso amor
e da nossa graça. São prova do nosso amor a ele, tudo é para ele
distribuir às almas. Dá-lhos escritos com estas letras: vitória,
vitória, triunfo, triunfo. Só vence o amor de Jesus. Hoje, minha
filha, diz ao teu médico que está nele o meu coração e o meu divino
amor. Dá-lhe a certeza de todo o amor, de todas as graças, de toda a
protecção, a ele, à esposa e filhinhos, que lhe confiei. Por ti
recebeu tudo, por ti tudo receberá. Os cuidados dele por ti, não por
mim; é de mim que ele cuida. Diz-lhe que não descanse, que vá com os
amigos da minha divina causa contra as prisões, desprender os voos
daquele que está preso, inocente e só por amor. Vou retirar-me, não
esqueças as palavras do teu Jesus. Vai para a cruz, vai para a
cegueira inigualável, tormento que o mundo ainda não viu. Confia,
que a tua cegueira, a tua cruz são a maior glória para mim, o maior
meio de salvação para as almas. Dá aos que amas a abundância das
minhas graças e do meu amor. São todos por mim amados. Vai dar às
almas, vai espalhar ao mundo o perfume das virtudes: é perfume de
salvação. Tenho de abreviar, vou esconder-me, e depressa, para
aproveitar-me do teu martírio para curar tantas chagas e feridas.
Anima-te, vai em paz.
Não
recebi carícias de Jesus nem da Mãezinha. Perdi logo toda a alegria
da Sua companhia divina. Sinto a necessidade de correr o mundo, a
animá-lo a não pecar, a vir a Jesus e à Mãezinha. Mas as trevas não
me deixam. Parece-me bradar desesperada:
— Tudo
perdido, tudo perdido! Jesus, aceita o meu sacrifício. Que peso tão
grande, causado por ser obrigada a ditar tudo o que vai na minha
alma!
Sob
este ponto, levo de rasto a minha cruz. Tento desobedecer. Não sei
se são coisas minhas, se do demónio.
— Perdoai-me, meu Jesus! Não quero ferir-Vos. Venci a minha maldade!
Vejo,
sinto que aqui na terra nunca mais poderei ter alegria, desta
alegria que no vem das criaturas, que nos dá o mundo. A minha
alegria está simplesmente, e isso basta, em aceitar e cumprir a
vontade de Jesus. É a alegria da alma. Mas aceitarei eu e cumprirei
com perfeição o que Jesus de mim exige?
— Ó meu
Deus, nisto estão os horrores da minha alma.
Eu não
quero as alegrias do mundo nem nada que a ele pertença. O que eu
queria era fazer em tudo a vontade do Senhor. Sinto que nada faço;
sinto que não tenho vida para O servir e amar.
— Não
posso suportar esta vida que em mim existe: horrores e desesperos,
meu Jesus. As minhas trevas! A noite tremenda do meu espírito!
Sinto-me mergulhada nos abismos infernais, como quem se mergulha de
cabeça para baixo no fundo do mar.
O meu
espírito é atormentado por todas as maldades do demónio, e todo meu
ser por eles está revestido. Passa um dia, dia que, para a minha
alma, não tem um momento de luz. Chega a noite, e eu neste estado de
alma, coberta de misérias, de mãos vazias para a eternidade. E
sozinha, sem ter um guia que me aproxime de Jesus. Não sinto, mas
confio que, por este viver, só uma força vinda do alto pode
resistir. Confesso, por mim não posso. Vejo sobre mim todas as
misérias da humanidade. Sinto-me envergonhada e confundida até
diante das criaturas. Como não me hei-de sentir diante de Jesus? É
impossível descrever.
Na
madrugadinha de ontem, vi Jesus à minha frente, prostrado por terra
na atitude do horto. Não estava com o rosto pousado em terra, como
costuma estar, mas sim de cabeça levantada e o rosto voltado para
mim. A Sua face santíssima não era aquela desfigurada e cadavérica,
como costumo ver e sentir, mas sim bela e formosa. Os Seus lábios
não se abriam para me pronunciarem palavra, mas os Seus olhares
convidavam-me a tomar eu aquele lugar. Esta visão não me deu o mais
pequenino momento de alegria, não senti nenhuma consolação, porque
aqueles olhares de tanto convite ao horto encheram-me de grande
pavor. Forçada a dizer a Jesus que sim, pois sentia em mim uma força
que me obrigava a não dizer que não, disse:
— Jesus, o meu coração não Vos pode ver por terra. Tomo eu o Vosso
lugar, tomo-o alegremente, para não sofrerdes Vós, para só ocupardes
no Vosso trono o lugar de honra, para só Vós serdes consolado. Não
sois Vós Jesus, e eu a maior miséria, a mais indigna criatura Vossa?
Aqui me tendes, sou a Vossa vítima.
Jesus
desapareceu, e eu fiquei como se me cravassem no coração um grande
punhal, que o atravessasse dum lado ao outro, punhal que ainda não
saiu. De vez em quando sinto-o, ferindo-me como se lhe tocasse já
com o fim de ele ferir. Esta ferida, pelo punhal causada, escorre
sangue e causa-me sofrimento em todo o corpo. Parece que faz tremer
o céu e a terra, quando este punhal corta e remexe o coração.
Sinto-me sempre abismada nos grandes sofrimentos do horto. Sorrio,
mas não sou eu. Tudo em mim é morte, tristeza e dor, trevas e
abandono, perda de Jesus e desespero de inferno.
E o
demónio, meu Deus, que grande consumição! Tenho sido por ele
atormentada raivosamente, com tal furor que só vindo do inferno, do
inferno. Num pequeno intervalo de tempo, lutei com ele por duas
vezes. Sentia ter o conhecimento da ofensa a Deus, mas nada temia,
dizia:
— Quero
pecar, quero satisfazer meus gostos, quero-me entregue às paixões.
Momentos angustiosos, horas de grande desalento. Perdia as forças da
alma e do corpo. Quando eu estava no auge do perigo, bradei:
— Jesus, valei-me. Quem sois Vós, e quem sou eu? Que será de mim sem
Vós?
A luta
cessou, mas fiquei por muito tempo entregue ao desejo do prazer, sem
pensar na morte e na ofensa feita a Jesus. Dúvidas sobre dúvidas,
dor sobre dor, e o coração sempre sequioso por dar a Jesus aquilo
que não tem: o amor de que Ele é digno, as almas que tão caras Lhe
são. Por nada possuir, caio com a cruz, fico debaixo do seu peso,
abandonada à borda da estrada. A escuridão não deixa que eu seja
vista. A morte não deixa ouvir meus brados e gemidos. Quando
deixarei esta vida?
Estou
cansada de tanto sofrer e envergonhada de tantos queixumes. Tenho
que dizer as grandes agonias e torturas da minha alma e não tenho
coragem para o fazer.
— Ó meu
Deus, que cruz levada com tanta repugnância! Levo-a arrastada e
forçada, não queria conduzi-la ao seu lugar. Será este tormento útil
às almas? Será de glória para Vós, meu Jesus?
Tenho a
utilidade que tiver, eu tenho de obedecer. Não posso falar em
consolações e alegrias, pois não são esses os sentimentos da minha
alma. Abro o meu coração, só a verdade quero dizer. Desconheço a
alegria e a luz, a vida e o amor. Ai de mim, não tenho nada, sou a
morte, a morte, que não conhece a vida; a cegueira, as trevas, que
não sabem o que é a luz. Não sei o que se passa, não sei o que me
espera. Estou esmagada, sinto-me a infundir na terra com o peso das
humilhações; tudo o que me pertence é destruído pela dor. Não posso
suportar tanto abandono, e a cegueira do meu espírito não pode
vencer mais. Quero quem me guie, quero quem me acuda e não tenho
ninguém.
Na
manhã deste dia, quando comunguei, como não sabia dizer nada ao meu
Jesus, nada de alegria e consolação para Ele, disse-Lhe:
— Meu
Jesus, quero ser toda Vossa e amar-Vos tanto quanto mereceis e
quereis ser por mim amado.
Tornei-me tão pequenina e tão cheia de misérias que me senti
desaparecer diante de Jesus. E Ele estreitou-me fortemente ao Seu
Divino Coração e disse-me:
— Já
toda me pertences, já possuo de ti o amor que desejo.
Esta
voz terna saiu tão do íntimo do meu coração que me tranquilizou e
fez sentir por uns momentos que estava nos braços do meu Jesus,
muito unidinha a Ele. Logo depois, veio a dor destruidora consumir
meu corpo e alma. Não posso, ai não posso lembrar-me que é
quinta-feira, que a sexta me espera. Tudo leva uma eternidade, só
estes dias se aproximam. Sinto que sobre o meu corpo, da cabeça aos
pés, cai uma chuva de sangue. Os mesmos ouvidos ouvem palavras, os
meus olhos vêem gestos rancorosos contra mim. Os olhos, mas não os
do corpo, só os da alma é que vêem tudo isto: movimento de pessoas,
que caminham apressadas para um e outro lado a prepararem-me a
traição, o laço para me prenderem. Sinto que tudo me foge, e eu vou
ficar sozinha no horto na minha grande agonia. E o cálice da
amargura é de vez em quando por Jesus oferecido ao céu. Ele é quem
sofre, é quem oferece; eu sou sempre o encaixe d’Ele.
O
demónio, o maldito demónio, abre sob mim um medonho inferno: estava
mesmo a cair nele. Eram tantas, tantas as serpentes; eram monstros
aterradores. Chegaram quase a tocar-me. Veio depois o demónio
malicioso obrigar-me a ofender a Jesus. O meu corpo, o meu pobre
corpo, oh! que instrumento de tantos pecados. Eu não queria pecar,
mas parecia-me que todos os lugares do meu corpo eram mundos de
crimes e dos mais maliciosos. Ele fingia que não era o causador de
tanto mal; que era eu e só eu. E de verdade que eu sentia tanta
vontade de me entregar àquela maldade! Que montão de malícias! Venci
aqueles desejos, que espero não fossem meus, e bradei:
— Pecar
não, pecar não. Meu Deus, a quem tanto devo! Meu Deus, a quem tanto
devo, valei-me, valei-me.
Fugiu o
demónio, e a dor ficou com o receio de ter pecado.
— Amo-te, amo-te, minha cruz bendita.
Ao
romper do dia, saí da prisão. Mas desta vez diferente das outras
prisões. Sinto que saí da prisão do Coração Santíssimo de Jesus;
senti que era o amor às cadeias que a Ele me prendiam. Senti que
n’Ele reparei as minhas forças; cobrei ânimo e coragem para suportar
as grandes amarguras, as grandes dores da alma e do corpo. A
lembrança daquela prisão e amor de Jesus forçava-me a caminhar e a
esquecer tanta dor.
Bem
depressa veio ao meu encontro a Mãezinha das Dores. Preciso foi que
Jesus me enchesse d’Ele, para A poder fitar tão dolorosa e para
poder suportar mais a dor que Ela por mim sentia. Ela seguiu os meus
passos de rua em rua, ou para melhor se compreender, seguia os de
Jesus, que levava a cruz aos Seus ombros dentro de mim. Os olhos da
alma, os olhos que possuíam os olhares de Jesus, viam-na caminhar
atrás, lacrimosa e com o coração atravessado de setas e mais setas.
Que dor a d’Ela! Dor, que nenhuma criatura seria capaz de suportar,
não poder aproximar-se de Jesus e levantá-Lo das Suas quedas. Ela
queria beijá-Lo, limpá-Lo, lavar-Lhe as feridas mesmo com as
lágrimas dos Seus santíssimos olhos.
Tudo
isto a minha alma viu, o coração sentiu. Foi o quadro mais doloroso
e triste, que o mundo pode observar.
— Ó meu
Jesus, eu pensar que tudo isto foi por amor da minha alma, e eu que
tão mal correspondo, nada sofro com perfeição!
A
Mãezinha viu o sangue de Jesus, que Ele derramava em grande
abundância pelos caminhos do calvário. A esse sangue misturava Ele
as Suas lágrimas. Custa-me tanto sentir que Jesus e a Mãezinha
sofrem tanto! Eu vou com Ele. Ele leva a cruz. O sangue corre, é
d’Ele, não é meu. Contudo, sinto-me apavorada. Os sofrimentos do
calvário são como balas de chumbo e de um e outro lado a
desfazerem-me e a despedaçarem o meu corpo. Sinto que todo o mundo
cai sobre mim com todas as maldades e barbaridades. Não vejo
ninguém, mas sinto que todos os da pobre humanidade maltratam o meu
corpo. Com este medo pavoroso fui obrigada a chamar alguém para
junto de mim. Não podia estar sozinha.
— Meu
Deus, tanta dor e tantas trevas!
Fui no
calvário tão apressada e bruscamente! Os olhos com o sangue não
podiam abrir-se, mas a vergonha obrigava a conservá-los mais
profundamente fechados. Ser despida em público! Senti logo que a
Mãezinha queria com o Seu manto cobrir Jesus, revestido em mim. E,
como não Lhe foi permitido, as espadas, que Lhe atravessavam o
Coração, feriram-Na ainda mais. Eu estava presa à cruz, e a cruz ao
calvário. Sentia em mim duas vidas: uma, que não resistia a tanta
dor; outra, que tudo vencia. Ou fossem duas naturezas. O coração ia
perdendo a vida, e no meio de tanto abandono e tão dolorosa agonia
bradava:
— Jesus, Jesus, valei-me.
Disse
isto por grande espaço de tempo. Jesus não se apressou, veio
devagarinho. Quando veio, disse-me:
— O
calvário e a cruz são a moeda de mais alto preço para comprar as
almas. É a moeda real, é sangue derramado, é o que há de mais caro.
Minha filha, minha filha, criei-te para dares vidas, muitas vidas, ó
rainha do mundo, mãe dos pecadores e guia e salvação. Dá-me as
almas, dá-me as almas. Consolo-me, esposa amada, consolo-me,
avezinha branca e pura, de ver e ouvir bater as tuas asas de
arminho, à procura de nova vida. Voas, voas, minha avezinha celeste,
voas sem descanso, voas sem parar e não encontras ou desconheces
essa vida, que desejas. É a vida que tens, é a vida que vives, vida
que não compreendes, vida que te prepara a verdadeira vida, a pátria
celeste. Só lá compreenderás a vida que agora te faço viver.
Deixa-me beber na tua fonte, deixa-me saciar a minha sede, deixa-me
esquecer em ti as minhas mágoas. É para mim fonte de alegria,
consolação e reparação e para o mundo fonte de purificação e
salvação; é medicina divina, que neste fontenário preparei para as
almas. Deixa-me beber, ó pastorinha divina. Divina, porque foste
enriquecida; divina, porque possuis toda a riqueza que é divina.
Ouvia
Jesus a beber como quem está sequioso, que não acaba de saciar-se. E
com os olhos da alma via um numeroso rebanho beber também. A fonte
dava para tudo.
— Bebei, Jesus, e fazei que todos bebam. Vós bebeis do que é Vosso,
e as almas bebem o que Vosso é. Por isso podem ser salvas.
Jesus
deixou de sorrir como sorria, quando dizia consolar-Se ao ouvir
bater as asinhas brancas. Agora estava triste, muito triste. E
continuou.
— Em
que perigo está o mundo! Em que grande perigo estão as almas! Em que
grande perigo está Portugal! Depressa, depressa, a humanidade
inteira a ouvir a voz do seu pastor, a voz do Santo Padre, que é a
voz de Jesus. Escuta, ó mundo, a sua voz, como trombeta que alguma
coisa vem anunciar. Oração, oração e penitência, se não queres ser
carbonizada, pastorinha, minha pastorinha. Guia ao meu Divino
Coração o meu rebanho.
— O que
quereis que eu faça, meu Jesus?
— O que
até aqui tens feito, esposa querida. Coragem! A tua morte é vida, as
tuas trevas são luz, por cada gota do teu sangue perdido. Perdido,
porque sentes a falta, mas não perdido, porque dás a vida e a
salvação. São salvas centenas, milhares e milhares de almas. Vê que
riqueza! Alegra-te e tem coragem! É o teu sangue, transformado no
meu, e o meu no teu; é uma transformação divina. És a nova
redentora, derrama-o em vez de mim, já que eu agora não posso.
— Tudo,
tudo, meu Jesus, é tudo por Vosso amor. Aceitai-me o sacrifício. Só
por Vós pode ser avaliado e conhecido.
— Sossega, sossega, meu encanto, minha loucura. São sacrifícios, é a
reparação o que te peço. Só de pureza se pode tirar pureza. Os anjos
louvam-me, não pecam; os anjos amam e guiam para mim as minhas
almas. Tu és o meu anjo em carne. Vou para o meu esconderijo, mas
mais que nunca estou em ti. Quero deixar-te quase por completo ou
fingir deixar-te para mais depressa te levar para mim, mas não o
faço sem que tenhas junto quem ocupe o meu lugar, nem que te ampare
aquele que te escolhi. Será um amparo e não luz, será um conforto e
não alegria. É por mim tudo, é pelas almas. Que dias, que fim da
vida doloroso te espera! Mas que morte de amor, que grande glória,
poder sobre as almas lá na pátria celeste te esperam também.
— Obrigada, meu Jesus. Meu Deus, com quem se passou tudo isto?
Em tão
poucos momentos tudo esqueci. Só vejo as minhas trevas e sinto a
minha dor. Não vejo nada do céu, não sinto nada de Jesus. Sou
miséria, mas oh! que tremenda miséria.
Não sei
sofrer, não sei viver esta vida que Jesus me dá. Não posso
compreender: passando eu o dia e a noite, o mais que me é possível,
unida a Jesus, chegue ao fim do dia, chegue ao fim da noite de mãos
vazias e numa morte total de todas as coisas. Chego ao fim do dia e
da noite como se não vivesse e nunca me lembrasse de Jesus, sem nada
fazer por Ele, pelo meu próximo, pelas almas. Que vida triste,
embora a finja alegre! Parece-me enganar a mim mesma, enganar a
todos. Mudou-se o cenário das minhas trevas: até agora infundia-me
nelas, nelas caminhava, mas sempre em terreno duro.
— Agora, ó meu Jesus, são mares universos delas, mas mares sem
fundos, e eu sem saber nadar. Aprofundo-me nelas, queira não queira,
mas tenho que caminhar sempre, sempre para a frente. Vou
mergulhando, mergulhando como peixe que não pode nadar e como
avezinha sem voos que ao chão tem de vir cair.
Caminho
nesta horrorosa escuridão de espírito, como criancinha tímida que
não pode nem sabe andar. No meio deste sofrimento, veio repetidas
vezes a Mãezinha ao meu encontro. Umas vezes, a Mãezinha do Carmo
com o Menino Jesus ao colo, de bracinhos abertos, virado para mim;
outras vezes, sozinha, sendo a Imaculada Conceição. Duma vez, tanto
a Mãezinha como Jesus pareciam feitos de ouro luzente. Que
formosura! E sempre cheios de luz. Só esta luz do céu me podia
iluminar em tanta cegueira. Estas visões nunca foram demoradas nem
me falaram. Naqueles momentos, ficava apenas como a criancinha que,
estando assustada, ao ver sua mãe, lhe estende os braços e já não
teme.
— Ó meu
Deus, eu nada temia, mas só naqueles momentos.
Bem
depressa me senti curvada e caída sob o peso da minha cruz. Mas logo
sentia que Jesus a tomava em Seus ombros e caminhava com ela. Isto,
para maior vergonha e confusão minha.
— Ó meu
Jesus, se havia de ser eu que sofria, por Vosso amor, sois Vós que
continuais ainda a sofrer por mim. Compadecei-Vos da minha miséria e
não permitais que a perda que sinto de Vós seja a realidade. Sede a
luz do meu espírito, pois bem sabeis que outra não tenho.
Veio,
nesta noite, o demónio, mas veio tão disfarçado! Assim é que ele
podia provar-me que só eu, e não ele, era causa de tanto pecado. Não
quero pensar em tantas maldades dele.
— Eu
não te toco. Para que fazes tu isso? Pecas tu só e queres pecar.
— Meu
Deus, em que aflição eu me vi. Não podia mais. Estava toda entregue
àquela vontade infernal. Não queria pecar e sentia não querer deixar
o pecado. Quando pude chamar pelo nome de Jesus e da Mãezinha,
parecia-me que Os invocava só com os lábios e que nada me saía do
coração. Quando a luta terminou, sentia ter pena por ter terminado
para satisfação dos meus maus desejos. E sentia-me tão presa ao
pecado que não podia sair dele. E sentia que aquela maldade era
causa de muitas e muitas mortes, muitas vidas perdidas, da alma e do
corpo. Que horrores, que desordens eu sentia na minha alma! Que
rancores de morte! Parecia-me que de mim, pedra de tantas maldades e
tão grandes escândalos, saíam espadas que iam ferir e matar. E,
depois disto, depois de tantas maldades, não ter um guia, não ter
uma luz. Poderá ser, sair livre de pecado?
— Confio, Jesus, confio.
Deixei
cair dos ombros a minha cruz e caí também desfalecida, não capaz de
poder levantar-me. E não me atrevo a levantar os olhos ao céu. E
para quê, se não vejo? Cegou o meu espírito, e sinto como se
cegassem também os olhos do meu corpo. A minha cegueira só vê morte
e miséria por toda a humanidade. E toda esta humanidade eu vejo
representada dentro de mim. Apavoro-me ao vê-la. O meu coração
sente, e os meus ouvidos ouvem o eco estrondoso de trovões
destruidores, e os olhos da alma vêem o relampejar faiscante de
nuvens negras, que caem do alto, saídas das mãos do Eterno Pai. É
justiça, é justiça divina. Jesus vem aflitivo ao meu coração, tira
dele um cálice amargurado, transforma-o, junta-o ao d’Ele e
oferece-o ao Seu Pai. Mas Ele já não quer aceitar. Vejo-O a desviar
d’Ele Seus olhares e a Sua santa face. O quadro é tristíssimo. Que
amargura a de Jesus! Ai pobre de mim! Tudo isto me leva ao
abatimento. Jesus quer acudir ao mundo e já não pode. Vem a mim
buscar a minha dor. Sinto-O a levar das minhas veias todo o sangue
para, assim unidos, satisfazer Seu Pai, e nada consegue.
— Ó meu
Deus, ó meu Deus, o que posso eu fazer por esta pobre humanidade?
O meu
corpo está como o linho no sedeiro: está dilacerado, dilacerado. O
meu sedeiro são espinhos, posso dizê-lo, por vezes insuportáveis. Se
Jesus não se apressa a terminar os meus dias, só se for Ele. Eu, por
mim, não resisto a este martírio, não venço tanta cegueira. Estou
esgotada de tanto me infundir nos mares das minhas trevas, sem saber
nadar. Tenho de caminhar. E é por esta cegueira que hoje mesmo tenho
de chegar ao horto. Eu já o vejo, é para mim. Vejo-o, porque é de
dor, é de amargura. E a minha cegueira mostra-me tudo o que é dor.
Por detrás de mim já fica a cidade, cidade de crueldades, cidade de
ingratidões. À frente o horto, ao lado o calvário, onde hei-de dar a
minha vida.
— Ó
horto, cheio de agonia! Ó horto, cheio de tristeza. Ó gruta, onde
vou orar. Ó solo, onde vou prostrar-me.
A alma
tudo vê e tudo sente. Sente já o rasgar das veias deste corpo. Vê a
terra, que vai beber o sangue; sente a dor do beijo ingrato, que
este rosto vai levar. Ai, ai, ai o que é a dor! O que são os
sofrimentos do horto! O mundo não os conhece, não sabe o que sofreu
Jesus. Mas eu sinto-O sofredor dentro de mim. É em mim que a Sua
sagrada paixão é renovada. Que mistura num só corpo! Jesus e eu, eu
e Jesus. Eu queria poder desenhar num painel os sofrimentos de
Jesus, que sinto na minha alma, e poder gravá-lo em todos os
corações, para eles sentirem e compreenderem o que sofreu Jesus,
para não pecarem mais, para não mais O ofenderem, para só O amarem,
para só o amor divino ser o fogo de todos os corações, de toda a
humanidade.
— Ó meu
Deus, eu queria salvá-la. Meu Jesus, sou vítima dela. Ó meu Jesus,
procurai, a ver se encontrais mais alguma coisa que eu Vos possa
dar.
Quando,
nesta manhã, fazia a minha preparação para a vinda de Jesus, o
primeiro sentimento mais doloroso da minha alma foi ver e sentir
dentro do meu peito Jesus coroado com agudos espinhos. Apesar da
minha cegueira assustadora, eu vi o Seu rosto divino banhado em
sangue e a cabeça coberta de medonhos espinhos, que bem profundo a
penetraram. Neste sentimento doloroso, recebi Jesus e percorri o
calvário. De um lado e do outro surgiam espinhos dispersos, que
vinham ferir-me até ao mais íntimo. Os meus lábios cerrados nada
diziam. Só um Deus, só a Sua força divina podia vencer em mim.
Chegou
o calvário, aquele calvário tão doloroso e triste. Ao ser
crucificada na cruz, senti as marteladas e vi os braços, que
cruelmente se levantavam com o martelo na mão, para de novo e com
mais fúria o deixarem cair. Vi as línguas blasfemadoras, que
blasfemavam contra mim. O coração sentia tudo aquilo; a dor era
dolorosíssima. E, dentro do meu peito, estava o mundo, o mundo mais
duro que um rochedo. Nenhum sofrimento sensibilizava, nem o sangue
de Jesus amolecia tal dureza.
Veio ao
encontro destes sofrimentos o demónio. Assaltou-me em forma de
homem. Quando o pressenti, quis apertar o crucifixo e a Mãezinha,
mas já não podia. Nos sofrimentos da manhã, não tinha sentido a
prisão e vim a senti-la na cruz e presa pelo demónio. Queria
levantar os olhos ao Sagrado Coração de Jesus e não fui capaz. A
cegueira do meu espírito não me deixou ver, e também o maldito não
me deixou abrir os olhos. Parecia-me estar completamente presa por
ele. Nos momentos que foram de maior angústia, soltou-se-me a
língua.
— Ó meu
Deus, que medo de pecar! Ó luta, ó luta infernal. Ó Jesus, venha já
o inferno, se Vos hei-de ofender.
Fiquei
na dúvida, dolorosa dúvida de ter pecado. E continuei na cruz. Nos
meus olhos e no meu rosto estavam os olhos e o rosto de Jesus.
Lágrimas de sangue rolavam por ele. Vi descer o Eterno Pai, todo
envolvido numa grande nuvem. Fora dela vi a Sua face e um braço
levantado ao alto com uma enorme foice; descarregava-a sobre mim com
raios de fogo faiscante. As minhas trevas não me deixavam ver o céu
nem sentir que o meu brado de agonia ia ter a ele. Ele estava
próximo de mim, para descarregar a Sua justiça, mas estava longe,
longe, para ouvir o meu brado e ter de mim compaixão. Quando Lhe
bradava, Ele voltava para o lado a face e não Se dava por
satisfeito, descarregando mais a Sua foice de justiça. As lágrimas
de sangue continuavam, e eu não podia resistir mais a tanta dor e
agonia. Eu assim esperei por Jesus, que não se apressou. Quando
veio, disse-me:
— Dá-me, minha filha, toda a tua sede de amor, que eu dou-te toda a
minha sede das almas. Dá-me a tua dor e cegueira de espírito, que eu
dou-te a minha luz, sem que a vejas. São trevas e dor, que dão a
vida. Dá-me tudo, tudo quero transformar em mim, para oferecer ao
meu Eterno Pai. O que te fiz sofrer, eu o sofri também. A reparação,
que Ele de ti exige, de mim exigiu também. És a nossa vítima amada.
Repara, repara agora tu, já que eu não posso. Em que perigo está o
mundo! Olha como as almas nadam nesse mar, nesse universo de
misérias.
— Ó meu
Deus, o que eu vi de almas, nadando loucas, sujas, nojentas,
enlameadas. Era um mar de podridão.
— Minha
filha, esse mundo pertence-te. Tem coragem! Não são inúteis os teus
sofrimentos. As tuas trevas, o teu calvário, a tua imolação sem
igual são para elas motivo de salvação. Tem coragem, chaveira do meu
coração divino e do de minha Bendita Mãe, depositária e senhora
deles. Entra, entra com a humanidade, guarda-a nestes Corações, que
são de amor.
— Entro, entro, meu Jesus, com todos os que me são queridos.
Devo-lhes tanto! Entro com todos os meus, entro com o mundo inteiro.
Quero salvar a todos.
— Coragem, flor de amor, que o meu coração adorna. Flor de pureza,
flor de caridade, que sempre o asseia. Coragem, rainha das flores,
rainha das rainhas. Acabaram para ti as minhas consolações. Acabou
para ti a minha luz e tudo o que é gozo. É para salvares o mundo. Ao
ser conhecida a tua vida, os meus prodígios, as minas maravilhas em
ti, o poder que tens sobre os pecadores, muitos dos que têm feito
sofrer hão-de sentir remorsos quase desesperadores. És a vítima das
vítimas, a alegria dos meus olhos, o amor do meu amor.
— Eu
sinto-me humilhada e confundida!
— Escuta o que te digo. Não te tenho dito que nas tuas misérias é
que eu me escondo? Não posso fazer nas almas o que quero e como
quero?
Jesus disse-me estas palavras em tom de quem ralha e
ralha seriamente. Fiquei logo tímida. E Jesus, sorrindo, disse-me:
— Queres ouvir meus ralhos, e a sensibilidade do teu coração não
aguenta com nada. Olha a criancinha tímida diante de seu pai…
Alegra-te, não temas. Não te ralho, porque sofres como eu quero;
amas-me como eu desejo. É por isso que saem dos meus lábios as
palavras mais encantadoras. És minha e és das almas. Não temas a tua
cegueira, a tua vida sofredora. Tudo vai a caminho do seu fim, venho
em breve. Recebe agora três gotas do meu divino sangue em honra das
três horas da minha agonia. Recebe-o antes que percas todo o sangue
tens em tuas veias. Quero sempre esta mistura: o sangue da vítima
deste calvário, da maior vítima da humanidade com o sangue da vítima
do gólgota, de Cristo Redentor. Assim tens todo o poder e tudo
vencerás. O céu é teu. A tua morte sem luz será de amor.
Jesus
tomou em Suas mãos o Coração, introduziu-o no meu e, como quem
aperta uma mola, deixou-me cair três gotas do Seu sangue divino.
Depois disto beijou-me, acariciou-me, estreitou-me ao Seu peito
santíssimo e disse-me:
— Descansa aqui por um pouco, toma conforto, minha pomba amada, para
continuares depois o teu sofrimento inigualável de levares ao termo
final a tua cruz. Descansa sem as minhas alegrias e consolações. E
vai depois pedir ao mundo oração e penitência.
Descansei encostada a Jesus, como quem descansa fatigada à sombra de
uma árvore. Não sentia alegria nem sentia dor. Estava como quem
dormia. Momentos depois, senti-me sem Jesus, e continuou a dor. Ele
não se demorou como de costume, apressou a visita. Veio logo a minha
cruz, e, até ao terminar deste dia, das coisas mais pequeninas às de
maior importância, nas quais devia sentir alegria, tudo foi tristeza
profunda e o navegar da minha cegueira. Bendito seja Jesus! Sou a
Sua vítima.
Tenho
medo, muito medo. Oh que medo!
— Meu
Jesus, meu Amor, vede como estou apavorada. Quero fugir do mundo,
quero esconder-me. A vida que possuo aterra-me.
É vida
de dor, é vida de cegueira. Mas oh que cegueira! Não vejo os
caminhos que me levam a Jesus; não vejo o amor d’Ele, de que tenho
imensa pena. Em todas as coisas sinto e vejo perdê-Lo e em nada
aproximar-me d’Ele. Quero ir ao Seu Santíssimo Coração e não posso.
Morro por saciar-me n’Ele e não consigo. Sou ceguinha e sempre
mergulhada na mais triste cegueira. Quero dar almas a Jesus, sinto
que Ele as quer e está louquinho por elas. Sinto que Ele anda como
um mendigo a mendigar.
— Meu
Deus, que dor a minha!
Com
esta cegueira não consigo apanhar uma alma para Jesus. E com os
olhos da alma vejo-os a fugir d’Ele, loucas para o pecado. Sinto que
Jesus chora em meu coração, e a minha alma vê-O nele de mãos
estendidas a pedir-me para eu Lhe dar as almas, que com tanta
amargura Ele vê fugir, e para O deixar saciar no meu coração.
Pobre
de mim! Sinto que Jesus não pode beber. Está seca, sequíssima, esta
fonte. Não Lhe dou o amor que Ele deseja, não Lhe dou nenhum, não o
tenho, não o tenho. Não Lhe dou as almas, por quem Ele suspira; não
sou capaz de as prender. Ai a minha cegueira! Ai a minha morte! A
minha perda de Jesus e os grandes horrores do inferno!
— Ó
vida, como suportar-te! Ó dor, como vencer-te! Ó Jesus, ó céu, vinde
a mim.
Sinto
grandes tentações contra a fé. Por vezes parece-me não acreditar na
vida de Jesus, nas Suas coisas, nas Suas grandezas, maravilhas e
prodígios.
— Meu
Deus, parece-me que nada é verdadeiro. Tende dó de mim, quero
confiar e confiar cegamente.
Parece-me que não estou no mundo, que desapareci dele para tudo, que
só nele ficou a minha dor, a minha cegueira, a minha miséria com uma
vergonha sem fim. O susto de ver junto de mim todos os que me são
queridos. Tenho medo. Se eu pudesse esconder-me de todos! É noite,
nunca mais é dia para mim. Nunca mais neste mundo poderei ter um
momento de alegria.
— Perdoai-me, Jesus, os meus desabafos. Alegro-me em sofrer por
Vosso amor, sem possuir esse amor.
O
demónio consome-me o meu espírito e rodeia-me de várias formas: em
forma de cães e feras raivosas, com cena feiíssimas à minha frente.
Outras vezes, para prenderem-me mais a eles, vêm em forma de cães
festeiros, engraçados, mas com olhares maliciosos e enganadores.
Cansam-me tanto estas coisas. Tive um ataque tão violento com este
maldito! Fez-me lembrar a morte. O coração quase que estalava, e me
rebentava o peito: era um palpitar demasiado. O suor banhava-me o
corpo. E eu, entregue àquelas maldades, que ele dizia serem só
minhas, não me esforçava por chamar Jesus. Só no momento do transe,
quando o fogo parecia queimar-me tudo, bradei:
— Jesus, Mãezinha, pecar não, pecar não. Valei-me.
Fiquei
libertada. Foi de noite a luta e noite quase sem dormir e sempre
unida a Jesus. Mas, depois de tão tremendo combate, tinha vergonha
de me unir a Ele e de com Ele viver nas Suas prisões de amor. Ai com
que humilhação eu me preparei para O receber! Depois da comunhão,
que me pareceu ser sem fervor nem amor, recebi de Jesus a graça de
me fazer desaparecer esta vergonha e esquecer que tinha tido tão
grande combate. Fiquei na cruz, ferida com espinhos variados.
— Bendita cruz! Bendito Jesus!
Sofri e
não soube sofrer. Não me aproveitei do sofrimento. Vivi e não soube
viver. Não compreendi a minha vida, não foi minha. Senti o meu corpo
todo esfacelado pela dor, todo ferido de espinhos, parecendo-me
ficar com a alma num banho de sangue, só sangue. Mas nada disto me
aproveitou. Fora do céu, fora do mundo, vivi nessa região
desconhecida, mas mesmo nela despida de tudo, envergonhada e
confundida. A minha alma queria gritar, mas estes gritos, que sinto
em mim, são gritos desesperadores.
— Não
venço, Jesus, não venço. Tende dó de mim. Ai quem me acode em tão
grande dor! Eu tenho medo e sede de Vós. Eu tenho vergonha, mas
ânsias ardentes de Vos possuir eternamente. Já não posso estar aqui
por mais tempo, Jesus. O céu, o céu! Oh quando chegará o céu! Quero
ir, Jesus, quero voar, mas temo comparecer, temo dar-Vos as minhas
contas.
Vejo um
mundo de vergonhosas misérias sobre mim, pelas quais eu tenho de
responder. Não posso caminhar, não sei nadar, afogo-me nas minhas
trevas, nesta cegueira de espírito. Ouço os gemidos do inferno,
sinto-me neles.
— Perder-Vos para sempre, Jesus! Mas mesmo lá queria ver-Vos, queria
abraçar-Vos e não posso. Oh que desespero!
Sinto
que a verdadeira morte, a que eu quero chamar vida, se aproxima.
Sinto que espadas de fogo, espadas de amor vêm dar-me esses cortes
no momento derradeiro. Estas espadas vêm de Jesus. Este amor d’Ele
vem também. Este último momento, causado por essas espadas, será de
amor. Mas não é meu, não vem para mim este amor. A ele se uniram as
minhas trevas, trevas que me assustam, cegueira que me mata. Esta
cegueira tudo esconde e tudo parece afastar de mim.
— O
demónio, meu Deus, o maldito demónio, quer vencer-me, quer
obrigar-me ao mal.
— Que
lutas tão tristes e tão perigosas! Ele quer que eu diga, nos
momentos mais graves, que eu quero pecar, que não me importa de
ofender a Jesus. Desprendeu-se-me a língua e eu disse:
— Sou a
Vossa vítima, meu Jesus. Não, não quero pecar.
Mas,
por muito tempo, fiquei a sentir grandes desejos de pecar e estava
entregue à vontade do demónio. Quando ele ouvia a minha oferta de
vítima a Jesus, enchia-se de raiva e queria assaltar-me e
despedaçar-me. Não há nada mais triste do que parecer e sentir que
se ofende a Jesus e não querer ofendê-Lo. É um espinho que penetra
sempre, uma espada que sempre corta.
— Ai,
meu Jesus, e eu sem conforto e sem luz. Parece-me que sou ferida por
todos e por todos abandonada.
Sinto
na minha alma os preparativos para a grande ceia, para a ceia do
amor. Sinto que Jesus vai dando aos Seus as Suas ordens e, parando,
de passos a passos, olha com os Seus olhares divinos a cidade
ingrata, o horto de tanta amargura, o calvário que O espera. Tudo
isto está representado dentro de mim. E toda a dor de Jesus se faz
sentir em minha alma. Que olhares tão ternos, que palavras tão doces
Ele tem para aqueles que O atraiçoam e O vão prender! Já vejo o
sangue de Jesus, que vai correr no horto, o cálice da amargura, que
ao Eterno Pai se vai levantar. E o anjo, que vai descer para
conforto do seu Rei. Jesus sofre comigo, e eu com Ele. Sinto que é
das minhas veias que o sangue vai sair, e que sou eu com Ele quem
todo o sofrimento do horto vai aguentar. O mundo não sabe quanto
sofre a minha alma, mas é por ele que eu sofro e por amor de Jesus.
Quero sofrer e sofrer sempre para Lhe dar glória e salvar-Lhe as
almas.
Esta
noite, juntaram-se dois hortos ao mesmo tempo. Não o esperava.
Parecia-me que o que era permitido por Jesus bastava. Mas não, veio
outro causado pelas criaturas.
Como
resisto a tanto sofrimento e à compreensão de tudo? Não sou eu que
resisto, é Ele em mim, e isso basta para aumento da minha cruz.
Sofrer Jesus! Não posso com esta dor. Queria que Ele vencesse
comigo, mas não sofresse. Sinto-me tão esmagada, tão desfeita com o
peso dos sofrimentos, como Satanás debaixo do santíssimo pé e poder
da Mãezinha. Logo de manhã, tomei a cruz, não a coloquei eu, mas
senti que ma colocaram aos meus ombros, e caminhei para o calvário.
Que gritos e algazarras de escárnio atrás de mim! Era um eco só. A
minha cabeça era uma só ferida. Parecia um só espinho. O meu corpo
senti-o como um esqueleto sem carnes e tão desfalecido, como se nele
já não houvesse uma única gota de sangue. A dor da chaga do ombro
tirava toda a vida ao coração. A força que resistiu, a vida que
viveu, foi a força e a vida de Jesus. Oh! como eu O senti também,
como Ele estava bem gravado em meu coração e em minha alma! Ai, como
a Sua santíssima paixão é renovada tão repetidas vezes! O Seu
santíssimo pescoço e cinta tinham regos profundos, em ferida,
causados pelas cordas, e sem haver das criaturas um acto de amor e
compaixão. Houve e há ingratidão, só ingratidão. Caminhei sempre,
mas sempre numa cegueira mortal. Se houvesse milhões de mundos, com
este sentir da minha alma eu poderia dizer:
— Todos
estes mundos são trevas e habitados por trevas. Ó morte, ó tremenda
morte! Ó cegueira de espírito, ó aterradora cegueira!
Despedaça-se de dor a minha pobre alma. Não vem do alto uma luz, não
vem do céu um conforto.
— Meu
Deus, meu Deus, se é assim, como poderei recebê-lo das criaturas? Ó
amor vencedor da dor e da morte! Se tu fosses meu, se me
pertencesses!...
Estava
na cruz. Parecia-me que de cada cabelo da minha cabeça caíam bastas
gotas de sangue, mas sentia que o meu corpo já não tinha nenhum.
Parecia-me que de um e outro lado de toda a humanidade atiravam para
ele pedradas, escarros e tudo quanto podia causar dor. E eu sempre
na cruz, em tanto abandono e cegueira. Senti e vi com os olhos da
alma aquela nuvem, que vi há oito dias com o Eterno Pai. Não O vi a
Ele, vi só por fora da nuvem à espécie de forcas, guilhos e
instrumentos de suplício. Tudo isto saía das mãos do Eterno Pai. A
nuvem era mais carregada e feia e estava mais baixa ainda do que da
outra vez. Tudo isto descarregava sobre mim. Era assustador. Em
tamanho abandono, esmagada por tão grande peso, bradava ao céu, mas
o brado não era ouvido, passava ao lado da nuvem, e eu sentia que o
Eterno Pai mais Se escondia e virava para o lado a Sua divina face.
Veio então Jesus.
— Minha
filha, o Eterno Pai já não é o mesmo que até agora, já subiu à Sua
glória, não descarrega neste momentos sobre ti e sobre mim, que
estava em ti, o peso da Sua justiça. Voltarás a senti-Lo logo que
voltares à tua cruz.
Vi
então no alto essa nuvem muito branca e formosa, e nela, cheio de
luz, o Eterno Pai. Que grande transformação! Jesus continuou.
— Ele
descarrega sobre ti a Sua justiça, porque és a Sua vítima. Há oito
dias, viste-Lo, mostrando a Sua justiça, mas convidando e chamando
ao mesmo tempo: era convite e chamamento de quem quer salvar. Hoje,
desceu mais perto com o Seu peso vingador. Os instrumentos que viste
são instrumentos supliciosos para o mundo, se ele não se converter.
Desceu mais perto, porque mais perto está a hora. Escondeu-Se, para
mostrar que todo aquele que se envergonhar de nós que também nós nos
envergonhamos dele.
— Ó meu
Jesus, então o mundo não vai ser salvo? Não valem nada os meus
sofrimentos? Que mais posso fazer, meu Jesus?
— Sossega, sossega, filhinha. Se o mundo não se vencer pelo amor,
há-de salvar-se pela dor e pelos pavores horrorosos dos suplícios.
Tem coragem! O que eu quero são as almas. Ele é teu, confiei-to, e
por ti será salvo. Tu és a maior vítima, a vítima mais querida e
amada do meu Divino Coração e da minha Bendita Mãe. Quero que
sofras, necessito que sofras, mas fito-te, contempla-te todo o céu
com paixão. Penitência, penitência, oração, oração. O teu sangue,
vítima querida, flor mais pura do meu jardim, vai dar um mundo novo,
um mundo de pureza. Coragem, coragem, estrela luzente! A rainha fiel
ao seu Rei, que sofre por vê-Lo ofendido, sofre por ver perder-se o
povo do seu reinado. O teu Rei sou eu, o teu povo, o teu reinado é o
mundo. A mãe, que dá a vida a seus filhos, dá-lha pela dor. Tu, a
quem elegi mãe da humanidade, é pela dor inigualável que a salvarás.
Tudo te fere, muitos te ferem? Alegra-te, é a dor a moeda das almas.
É a dor e sangue o preço do resgate. Tu és a porta-voz de Jesus para
o Santo Padre. Tu és o eco da voz e desejos de Jesus para toda a
humanidade. Penitência, oração, e sem demora.
— Jesus, prometeis-me então pelos meus sofrimentos as almas?
— Sim,
minha filha, dei-tas para mas dares. És poderosa, é poderosa a tua
dor, poderoso é o teu sangue. És a semente de nova geração, és o
bálsamo e salvação das almas. Anima-te, tem coragem um pouco mais. O
teu sofrimento chega ao auge, assim como a cegueira do teu espírito.
É sinal de proximidade do teu céu. Será tal a tua cegueira que
deixarás de saber dizer quanto sofre a tua alma. Dispenso-te então
de escrever. Apenas uma coisa ou outra saberás dizer por alto ao teu
director. As espadas de amor, que sentiste ferir-te, serão a tua
morte. Será aquele amor que te arrebata ao céu. Mas nesse momento a
tua cegueira não te permitirá vê-lo nem senti-lo. Vai para a tua
cruz, que te espera. Desta vez não demoro tantos dias a vir
confortar-te. Necessitas. Recebe por último um estreitado abraço.
Jesus
apertou-me contra o Seu Divino Coração. Fez isto com tanta lesteza,
mostrava estar com pressa. Fiquei logo na cruz a sofrer, por me
parecer que Jesus se queria retirar de mim. Sinto-me tão longe d’Ele
e tão sobrecarregada pela justiça divina.
— Bendita seja tão pesada cruz! Sou a Vossa vítima, sempre, sempre,
Jesus.
29
de Outubro de 1945
— Ouvi,
Senhor, a minha voz. Ouvi o meu clamor.
O meu
coração não pode resistir a tanta dor. Aterra-me a minha cegueira,
aterra-me o abandono em que estou e a minha vida, que me parece só
enganos, só de enganos. Tomo a cruz, mas é tal o desfalecimento que
a não sustento, caio para um lado e deixo-a cair para o outro. Há
dias, Jesus me dizia:
— Vai
para a tua cruz que te espera.
Pensei
ser a mesma, que deixei para falar com Jesus, mas não. Aumentou o
seu peso e não sei como aguentar. Parece-me desfazer debaixo dela.
Que tremenda é a minha amargura! Queria fugir dos olhares de toda a
gente, amigos e inimigos, se os tenho, mas mais ainda dos amigos.
Fugiu a luz, escondeu-se, e com ela escondeu-se e fugiu a minha
alegria. Nunca mais a poderei ter na terra. Os meus sorrisos são
forçados, até esses são enganadores. São arrancados do meio das mais
dolorosas dores, agonias e trevas mais profundas.
— Que
fazer a isto, meu Jesus? Como aguentar, querida Mãezinha, sem o
auxílio do céu? Mas esse mesmo fechou-se, escondeu-se, não chegam cá
abaixo os Vossos olhares, os Vossos sorrisos.
Morreu
o céu, morreu Jesus, morreu a Mãezinha, morreu tudo o que é vida,
morreu tudo o que é amor. Sá as maldades me cobriam e me vestiam,
só a morte assustadora existe com a dor, deixem-me dizer, com a dor
insuportável.
— Ó meu
Deus, ó meu Deus, anda o meu espírito a navegar nas trevas e quase
desesperadamente. Compaixão, compaixão, meu Jesus, peço-Vos
compaixão.
Hoje,
logo após a visita ao meu coração, principiei a desabafar com Ele,
não com o fim de obter resposta, mas para desafogar as minhas
mágoas, e só com Ele o podia fazer, pois não tinha ninguém, mais
ninguém, depois de Lhe dizer que a minha via me parecia só de
enganos, que não queria enganar-me nem enganar ninguém e muitas mais
coisas ainda. E, para provar que confiava n’Ele, disse-Lhe:
— Juro-Vos, juro-Vos, meu Jesus, que confio em Vós.
Ele
apressou-se a responder-me:
— Confia, confia, minha filha, e isso basta, nada mais é preciso. Cá
estou eu para justificar toda a verdade. Já te disse muitas vezes
que não te enganas, que nunca enganaste nem enganarás. A tua vida
não é de enganos, é de loucuras de amor por mim e pelas almas. É
verdade que a tua vida é de enganos, porque são raros, muito raros,
quase nenhuns que compreendem o amor com que me amas, o amor com que
amas as almas. Por essa razão é que é vida de enganos. Confia, não
esperes outra vida, é vida de maior cruz, das maiores trevas. Todo o
sofrimento, que te venha, é para te firmar sempre no mesmo amor e
não para te aumentar mais, porque mais não podes amar-me. Firmo-te,
seguro-te, sempre no mesmo amor até que me possas amar à luz clara
do Paraíso, à luz consoladora da eternidade. O meu divino amor é
força da tua cruz, é a vida de que vives, é a vida da tua vida.
O
sofrimento da minha alma foi suavizado com estas palavras de Jesus.
Não foi visita de consolação nem de luz nem de alegria, mas foi de
união e de conforto. Mas tão pouco duradoiro! Pouco depois voltou a
cruz a sobrecarregar-me com o seu peso e todas as dores, e espinhos
voltaram a ferir o meu coração tão pouco resistível à dor.
— Fazei, Jesus, que eu suba o restante calvário e não me deixeis
vacilar na fé, na confiança e no amor. Serei sempre Vossa, Jesus, e
sempre a Vossa vítima. |