1º de
Setembro de 1945 – Primeiro sábado
De nada
me serviram os sofrimentos desta noite da alma e do corpo, a união
com o meu Jesus, para reparação da Sua vinda ao meu coração, esta
manhã. Sofri tanto, tanto me uni a Ele, para me sentir vazia no
momento em que Ele baixou a mim. Não tinha um coração de amor para O
receber, não tinha peito para O hospedar. Tudo eram trevas, de
trevas era todo o meu corpo. Os meus esforços para me preparar bem
foram baldados. Isto era o que eu sentia. Chegou Jesus e encontrou
entrada, mas senti que Ele trouxe com Ele céu de trevas, que mais me
infundiam nos mundos delas. Sem O ouvir, sem O sentir, mergulhada
apenas naquela negra escuridão, presa até ela por fortes cadeias,
negras também, passaram-se alguns minutos. Não Lhe pedi que me
falasse nem que me consolasse; entreguei-me a Ele e d’Ele era o meu
querer, a minha vontade. Dum momento para o outro, abriram-se àquela
multidão de trevas, àquela escuridão tão assustadora, para
aparecerem uns raiozinhos de luz, não clara e brilhante como noutros
tempos, mas sim o bastante para eu conhecer a grande transformação
da minha alma. E logo Jesus principiou a falar-me assim:
— Que
alegria, que consolação para mim poder dizer: desci do céu, deixei a
companhia dos anjos, para vir viver no meu anjo em carne. Estou no
teu coração, minha filha, no palácio da minha realeza. Minha esposa,
minha esposa, minha rainha, vives de mim, a tua via é a minha, estou
transformado em ti. Eis porque a tua vida é divina. Todos aqueles
que tocarem teu corpo, contemplarem teus olhares, teus sorrisos, de
ti receberão a minha vida divina em toda a abundância. No teu corpo
está Cristo, nos teus olhares, nos teus sorrisos Cristo está. Todos
os que te tocarem e contemplarem, recebem riquezas divinas para as
suas almas. Os sequiosos de mim abrasam-se no meu amor; os pecadores
lavam e purificam as almas. Tu és a fonte, e eu a água que corre
nela, que lava e purifica.
Enquanto Jesus dizia isto, senti como se Ele tirasse todas as veias
do Seu corpo e as colocasse no meu. Todo o meu ser era outro. Sentia
correr em mim um sangue que não me pertencia, uma vida que não era
minha. E Ele continuou:
— Minha
filha, lírio casto, flor angélica, tudo o que opero em ti é por
loucura, é por amor às almas. Vê o que faço para as possuir, para as
salvar. Minha filha, minha filha, vai brilhar a luz, vão quebrar-se
as prisões que prendem o teu Paizinho de vir junto de ti.
Quebraram-se umas, e enleiam-se outras mais fortes que só com a tua
morte serão quebradas. São cadeias duras, que te prendem às maiores
dores, às maiores trevas. Ele virá confortar-te. Diz-lhe, repete-lhe
muitas vezes no pouco tempo que te resta de vida; diz-lhe que é
Jesus quem lho afirma: que o amo, amo loucamente, que o criei para
as almas, que o criei para honra e consolação do meu Divino Coração;
que o seu prolongado martírio tem sido um maná celeste a cair sobre
as mesmas almas. Diz, minha filha, ao teu médico, à prenda
amadíssima do meu Divino Coração que ampare fortemente a tua alma,
assim como ampara com cuidado o teu corpo. Vives milagrosamente.
Vigilância, muita vigilância. Criei-o para sustentar esta causa,
esta causa bendita. Como recompensa do seu cuidado, trabalho e
canseira, ninguém como ele receberá de ti a minha vida divina, para
que ele a possa dar, infundir fortemente a quem lhe querido e ao
bando amado que lhe confiei. Dá esta vida divina aos que te são mais
queridos e mais cuidam de ti e de mim. Vem, minha Mãe, vem agora, dá
o nosso conforto e a nossa vida, unida a esta filhinha.
Veio a
Mãezinha, tomou-me em seus braços, abraçou-me, acalentou-me com
amor, bafejou-me fortemente por espaço de alguns momentos e
disse-me:
— Minha
filha e filha do meu Jesus, recebes por mim a vida d’Ele e por Ele a
minha vida e assim vives de Jesus e de Maria. Que encantos tem a tua
vida, que rica que ela é! Ele é tão ofendido! Quando ferem o Seu
Divino Coração, ferem-me também o meu.
— A
Mãezinha principiou a chorar e mostrou-me o Seus Santíssimo Coração
atravessado por uma forte lança. Condoí-me tanto! Parece que
estremeci.
— Mãezinha, Mãezinha, cessai lá as Vossas lágrimas, estai alegre,
não dolorosa, e deixai-me tirar do Vosso Santíssimo Coração essa
lança.
Tirei-lha com amor, tirei-lha serenamente. O coração ficou sem
ferida, em vez de sangue ficou luz, ficaram flores; e as lágrimas
cessaram em Seus olhos santíssimos. A Mãezinha chamou por
Jesus. Ele aproximou-se.
— Estou
pronta para sofrer, Jesus. Estou pronta para sofrer, Mãezinha.
Consolai-Vos, consolai-Vos.
— Minha
filha, pomba adorada, para não estarem feridos os nossos corações,
dá-me a reparação que te pediu minha Bendita Mãe. Dá-ma pelos
sacerdotes, dá-ma pelos conhecidos que te tenho recomendado, dá-ma
pelos desconhecidos. É tão grande, tão grande o número que me
ofende!
— Jesus, Mãezinha, está aceite. Dai-me coragem, dai-me amor, dai-me
confiança.
Fui
acariciada por Jesus e pela Mãezinha, enquanto um bando de anjos
descia sobre nós. Jesus acrescentou:
— Vêm
os anjos do céu adorar na terra o seu Rei, a sua Rainha e com Eles o
seu anjo em carne. Vai, filhinha, toma a tua cruz. Vai, filhinha,
submete-te às trevas, vai confiante. A causa triunfa, os humilhados
serão exaltados.
— Aceitai, Jesus e Mãezinha, um nunca terminar dos meus
agradecimentos.
Estou num martírio, estou presa, fortemente presa às
minhas trevas, à minha cruz. Foi o amor, são essas as paixões, mesmo
sem o sentir, mesmo sem o gozar. Prendeu-me Jesus, prenderam-me as
almas, e eu aceitei e quero.
6 de
Setembro de 1945
O que
sou eu? O insecto mais vil, o trapo mais imundo, sem proveito para
nada. Perdi-me, perdi-me, a minha vida é inferno, a minha cama é
inferno, a minha morte é inferno, a minha eternidade é inferno.
Inferno, inferno, sinto-me nele a arder, sinto-me nele atormentada
em todos os sentidos pelos demónios. Que cabanas tão feias e
atormentadoras! Que cheiros imundos, que atormentam mesmo a alma. E
a perda do meu Deus! Nunca mais ver aquela formosura que encanta o
céu e a terra! E perdido para sempre! Só o Seu poder, só a Sua
justiça, ainda mesmo no inferno, esmaga-me, aniquila-me. E a minha
revolta contra esta injustiça é desesperadora. Não sei palavras que
me satisfaçam, para poder amaldiçoar tudo. Tudo é maldito: inferno,
céu e o próprio Jesus. E a própria Mãezinha também ouve a sua
revolta de maldição. O inferno, ai o que é o inferno, o que se lá
sofre! Sinto, e tão frequentemente, que é ferido, apunhalado, um
coração que está dentro do meu. Sei que é coração do meu Jesus.
Atormenta-me tanto! Como pode ser ter hóspede mais querido hospedado
dentro de mim e ter coragem de O tratar assim desta maneira, de O
encher de espinhos, e O pôr todo em sangue! Estas punhaladas, estes
espinhos vão de fora para dentro e saem de dentro para fora. Vêm do
Coração Divino de Jesus cravarem-se no meu, feri-lo, transformá-lo
numa massa de sangue. E assim está este ferimento, esta dor, num só
coração unidos. E o céu desce e junto de mim abre-se como um vulcão
de fogo; desce como bomba destruidora que tudo incendeia. É a
justiça do Pai Eterno que não pode ver Seu Filho assim ferido. Tenho
medo, porque estou sozinha. Deixaram-me, abandonaram-me. Odeiam-me
os inimigos, abandonaram-me os amigos.
— Ó
dor, ó sofrimento indizível! Que medo, meu Jesus! Vacilarei? Fazei
que eu confie, obrigai-me a confiar.
Cresce
a minha cegueira, aumentam as minhas trevas. Não vejo, escureceu-se
o mundo, parece que Deus não criou a luz. Submergi-me nos mundos
imensos das minhas trevas. Que tristes são os sentimentos da minha
alma!
— Meu
Jesus, não me dais o meu santo director para meu guia? Sou a Vossa
vítima, vença sempre o Vosso amor.
Jesus
pediu-me e não faltou, na noite em que me pediu, buscar a reparação
que desejava. Foi do sábado para o domingo, das duas horas às três
da manhã. Lutei com os demónios, que vieram em forma de cães. Foi
violento e assustador o ataque. Fiquei em grande desfalecimento e
mais triste que a noite. Murmurava baixinho:
— Que
tristeza, meu Jesus, que tristeza! Que receio de Vos ofender.
Ouvi só
estas palavras.
— Minha
filha, minha filha, e como não há-de ser triste para mim! Vê que não
tarda a hora em que os meus discípulos me obrigam a descer do céu à
terra, às suas indignas mãos, depois de me terem ofendido assim.
Repara e confia que não pecaste.
Nestes
dias que passam foram frequentes os ataques do demónio, de dia e de
noite, conforme Jesus o tem exigido. Só Ele conhece o meu duro e
triste penar. Vieram em forma de cavalos, leões, cães e homens. Não
sei como podem inventar tanta malícia e saberem tantas maldades e
tantas palavras feias. Ontem ao terminar do ataque, atormentada com
o susto de ter pecado, dizia a Jesus:
— Que
triste vida! Tende compaixão de mim, tende compaixão de mim!
No
mesmo momento, Jesus respondeu-me:
— Tem
tu, minha filha, compaixão de mim! Não posso tanto, sou ferido, sou
ferido. Que grande maldade! Rasgam o meu Divino Coração. Repara-me,
repara-me por tanta imodéstia. A impureza! Que gravidade o pecado da
impureza! Confia, não pecaste, consolaste o meu Divino Coração. Nas
minhas exigências divinas quero que te vença sempre o amor ao meu
amor, o amor às almas. Vai com a minha força divina, toma a tua
posição.
Fiquei
nas minhas almofadas a ser por um pouco acariciada por Jesus. Mas as
trevas encobriam essas carícias, e a dor, a dor imensa continuou.
Fiquei triste e desfalecida a esforçar por resistir às dúvidas de
ter pecado. De repente, apareceu à minha frente Jesus, pregado numa
cruz luminosa. No meio das trevas, Jesus brilhou com a cruz. Esta
visão foi duradoira, fortaleceu-me, deu vida à minha alma, pude
vencer a vergonha que tinha de Jesus e fitar o Seu Divino Coração e
a querida Mãezinha. Hoje, ao terminar outro ataque, bradei com toda
a força:
— O
inferno, o inferno, e já neste momento, Jesus, se com isto Vos
ofendo. Não quero pecar, não, não quero.
Pareceu-me que desafiei a Jesus. Mas Ele bem sabe que não. Serviu-me
esta frase para sobrecarregar-me mais de sofrimentos. Não tenho
coração para resistir a tanta dor. Que pavor tremendo ser
quinta-feira! Sinto que os sofrimentos da paixão, que me esperam,
surgem de todos os lados como leões, e a engolirem a sua presa.
Estou no meio deles e sinto que o meu sangue por aquela fúria vai
ser derramado. E o cálice da minha amargura na noite silenciosa do
horto vai sendo oferecido ao Eterno Pai, enquanto, despreocupados,
dormem os amados do meu coração. Sofro eu, sofre Jesus. Rasgam-se as
minhas veias, o sangue corre, e o pavor aumenta.
— Ó
paixão, ó dor e amor de Jesus, que não sois conhecidos! A dor não
cabe em mim. O peito abre-se, o corpo desfaz-se. Que será de mim,
meu Deus? Tenho medo e tenho sede, medo de tudo e sede de todos.
quero dar-Vos todas as almas.
7 de
Setembro de 1945
Que
medo de Jesus, que pena de Jesus, que saudade de Jesus! Medo, porque
sinto aproximar-se a morte e temo dar-lhe as minhas contas. Pena de
O ofender e ver ofendido. Saudades de O ver e gozar eternamente. Ai
a minha dor, os sofrimentos da minha alma! Sofro sofrendo e sofro
sorrindo. Os desesperos continuam, os desesperos do inferno e a
perda de Jesus, e não posso conformar-me com O perder para sempre.
Estou sempre acompanhada com a cruz. Nesta manhã, quando redobrava
de esforços para me preparar para bem receber a Jesus, senti que
dentro de mim Ele era açoitado cruelmente e continuou a sê-lo
durante a acção de graças depois de O ter recebido.
— Meu
Jesus, ó meu Deus, sou eu que maltrato assim o Vosso Corpo
Santíssimo? São os meus pecados?
Que
grande tristeza! Continuei a vê-Lo a caminhar com a cruz aos ombros.
Com que dó O contemplei! Ele tinha saído tão triste da prisão,
prisão onde tinha estado sozinho. E logo Lhe preparavam a cruz, que,
depois de ser açoitado, levava a custo, desfalecido. De poucos em
poucos passos Jesus caía, mas então já caía dentro de mim, porque o
caminho do calvário era eu mesma. Ao ser limpo o Seu Santíssimo
Rosto, Ele deixou-o impresso vivamente, e eu sentia que aquele Rosto
Santíssimo, aquele retrato sem igual havia de ser visto, enquanto o
mundo existir. Se o meu coração tivesse a generosidade como o
daquela mulher que se aproximou de Jesus… Que grande foi a
recompensa que ela d’Ele recebeu! Estava no calvário, na agonia da
cruz e sentia-me também no inferno, os demónios e as labaredas sobre
mim. Subiam as labaredas consumidoras, mas não consumiam nem
destruíam a cruz em que eu estava pregada; não faziam desaparecer os
sofrimentos da paixão. A cruz brilhava com eles. Uma montanha de
trevas levantou-se da terra ao céu, e eu, mergulhada nos mundos
delas, e ainda sobre mim estava essa montanha. Podia bradar e bradar
sempre, e essa montanha impedia que os meus brados fossem ouvidos
pelo Eterno Pai. E eu sozinha, abandonada, sem ninguém! Tive um
forte assalto dos demónios. Vieram como cães raivosos e diziam-me:
— Não
te vale a pena sofrer tantos sofrimentos nem teres tantas visões,
porque afinal estás condenada. De nada te aproveita. Ofende a Deus,
anda para o prazer, goza ao menos aqui.
Sempre
que podia, jurava não querer pecar e implorava o auxílio do céu. Ao
terminar da luta, sempre disse a Jesus:
— Perdoai-me, meu Amor, mas custa-me a crer consolar-Vos desta
maneira. Que medo eu tenho de Vos ofender!
Continuei na cruz e num abandono irresistível. Os olhos do meu corpo
não viam ninguém à volta de mim, mas dentro de mim estavam bem
unidos dois corações feridos pela mesma lança, pelos mesmos
espinhos. Compartilhavam da mesma dor: era o de Jesus e o da
Mãezinha. Que alegria seria a minha, se eu soubesse fazer
compreender quanto estes dois corações sofreram e a grandeza do meu
abandono e da minha agonia. Morria, morria sozinha sem o auxílio do
céu. E, neste momento, desceu Jesus pela montanha das trevas e veio
ao meu encontro. Veio com os Seus santíssimos braços e o Coração
abertos.
— Venho, minha filha, de braços abertos, para te abraçar, e Coração
aberto, para nele te receber. Significa a tua entrada no céu. Os
braços abertos para te abraçarem e levarem, o Coração, a Pátria que
vais habitar. Virei depressa, pomba querida, a conduzir-te ao
paraíso. Venho com sede, deixa-me beber no teu coração, nessa fonte
cristalina, que é minha. É água celeste, é fonte divina.
Jesus
bebia com canseira, parecia não se saciar mais.
— Deixa-me beber, esposa amada, beber em teu coração, porque no
mundo não posso beber. Ando pedindo entrada de coração em coração,
como andei no ventre da minha Mãe, na cidade de Belém. À semelhança
dela, quase nenhuns corações me querem beber. Em ti sacio a minha
sede, e o supérfluo aplico-o para as almas, é supérfluo de salvação.
Com ele esqueço as minhas dores, com ele deixo de sentir os espinhos
que me ferem. Vou dar-te agora, minha filha, o meu divino sangue.
Vou fortalecer-te para a tua cruz; vou encorajar-te e levantar-te do
teu desfalecimento; sou o teu médico divino. Aplico com tanto
cuidado a minha ciência, como o médico da terra tem cuidado com o
teu corpo. Dou-te o meu divino sangue e amor por gotas, não podes
resistir a mais. Aplico-te sete gotas em honra das dores da minha
Mãe Santíssima.
Tomou
Jesus em Suas mãos o Coração, fez dele como que um vaso
formosíssimo, do qual deixou cair para o meu coração as gotas do Seu
preciosíssimo sangue e outros tantos raios doirados do Seu amor.
Principiei a sentir-me grande e forte. Jesus cuidadosamente levantou
a Sua divina mão como sinal de paragem e logo deixei de sentir
aquela fortaleza e grandeza com a qual não aguentava.
— Minha
filha, és a luz do mundo, tens em ti toda a luz do Espírito Santo,
és a salvação das almas, tens todo o poder sobre os pecadores. Esta
luz vai-lhes penetrar e perscrutar nos corações. A graça, a luz, o
amor brilham em ti, irradiam em ti e à volta de ti e por ti hão-de
brilhar e irradiar dum pólo ao outro do mundo. Por ti vou entrar
nos corações mais endurecidos, por ti vou afervorar os tíbios, por
ti vou incendiar mais e mais todos os que estão sequiosos de mim.
Minha filha, flor mimosa do jardim divino, canteiro do paraíso
celeste, continua a dar-me e a dar-me com alegria e amor os combates
que vou pedir-te, a reparação pelas almas. Coragem, coragem, se as
queres salvar. Coragem, coragem, se não me queres ver ferido.
— Sim,
meu Jesus, não posso consentir uma ofensa feita a Vós. Mas como
podeis tirar da minha miséria alguma doçura e consolação? Custa-me
tanto reparar-Vos desta forma.
— Ó
pura, ó bela, só da tua pureza posso tirar pureza, só do teu coração
posso tirar amor. Não sabes tu que só das flores se tira o néctar?
Em ti recebo tudo, e por ti todos os corações receberão. Deixa-me
mais uma vez transformar-te em mim, envolver-te no sangue de Cristo,
no amor de Cristo, para que a tua vida seja só e sempre a vida de
Cristo.
Tomou
Jesus o meu corpo, uniu-o ao d’Ele, fez dois uma massa de carne,
sangue e amor. Jesus continuou.
— Todo
o teu ser é de Cristo, vida, corpo, olhares, sorrisos e amor. Dá-te
às almas por amor de mim. Coragem! Sempre que eu venho depressa,
venho breve dar-te a recompensa.
— Jesus, vindes de certeza? Queria perguntar-Vos, mas perdoai-me a
minha curiosidade, não Vos, não Vos digo mais nada.
— Pergunta, pergunta, minha filha, tem confiança em mim. Já sei
tudo, mas diz-me lá.
— Vindes depressa levar-me para o céu ou continuais sempre com os
Vossos breves?
Um
sorriso de Jesus à minha pergunta, e respondeu-me:
— E são
sempre apressados os meus breves por muito que eles demorem. Mas
não, lírio casto, não, pomba adorada, não trato mais contigo desses
breves demorados. Virei buscar-te. E o que vais tu fazer no céu?
— Vou
amar-Vos e bendizer-Vos eternamente.
— E as
almas? Que fazes por elas?
— Imploro junto de Vós. Não posso eu no céu junto de Vós salvá-las
da mesma forma?
— Sim,
minha filha. Digo isto, para experimentar-te. Não é para mim, mas
para o mundo ver e compreender a alma louca pelo seu Deus e pelas
almas, a alma que vive a vida de Cristo, seu Senhor. Vai agora, toma
a tua cruz, segue-me sorrindo, segue-me com amor.
Tomei a
cruz, coberta de dores e amarguras, mas encobrindo-as o mais
possível; sorri alegremente, sorri e fiz sorrir os que me rodeavam.
E ao mesmo tempo ia dando tudo a Jesus e às almas. Só pelo céu podia
ser compreendido o meu sacrifício.
11 de
Setembro de 1945
No dia
da Mãezinha, quanto me esforcei para A consolar e provar-Lhe o meu
amor! E nada consegui. Escrevi por minhas mãos tudo quanto ia no
coração e na alma, tudo o que Lhe queria dizer, e sem nada saber
dizer. Fui colocar-me a Seus pés com um vaso de flores, mostrava-me
alegre e com grande entusiasmo, mas dentro de mim tudo era morte,
parecia enganar e mentir a mim mesma. Ao recomendar-Lhe de novo o
que na carta dizia, sentia como que ela o rejeitasse e não fosse
aceite. E desde então fiquei como se a minha alma vagueasse entre o
céu e a terra. Não sou do mundo nem sou do céu. Estou como se não
habitasse nem um nem outro lugar, mas a dor e as tremendas trevas
acompanham-me sempre essa vida vagueante. Não sei como hei-de vencer
e resistir! Continua a minha crueldade a dar punhaladas no Coração
Divino de Jesus, que possuo dentro de mim. E depois de assim O
maltratar, sinto uma sede insaciável de O possuir, amar e consolar.
Sinto desejos indizíveis de só a Ele pertencer. Mas tudo isto é
morte, e tudo em mim é podridão. Não posso aguentar estes
sentimentos ao mesmo tempo. Ferir e depois dar-me cegamente Àquele
que feri! Que atrevimento o meu! Mas Ele tem sede das almas, e eu
quero dar-Lhas! Ele quer possuir o mundo, e eu quero entregar-Lho
inteiramente, mas a vergonha apoderou-se de mim. A minha vida nada
condiz com estas ânsias e desejos. As minhas trevas por vezes não
deixam ver com os olhos do corpo a Jesus, e a vergonha que sinto
obriga-me a querer desaparecer diante da Sua divina presença. Não
quero que Jesus me veja, temo a morte, não sei como comparecer
diante d’Ele para ser julgada! As saudades do céu derretem-me o
coração, mas temo ter de passar pela morte. Aterroriza-me e
entristece-me. A alma continua a sentir os horrores do inferno e os
horrores da vida que me levou a ele. A revolta contra Jesus, a perda
d’Ele. Que horror e que triste é o meu viver. E sinto que não tenho
uma única pessoa na terra a quem hei-de recorrer. Não há quem possa
dar-me uma palavra de conforto. Pedi a todos, e todos me
abandonaram. De cada vez sinto mais necessidade dum guia, do meu Pai
espiritual. Meu Deus, foge o tempo, e ele não vem. Tenho tantas
saudades de voltar a ter no meu quarto o santo sacrifício da Missa.
Não terei essa dita. Fugiram de mim todas as ditas e todas as
consolações. Há dois dias que não recebo o meu Jesus, o meu coração
morre de saudades. Nuns momentos de grande ansiedade de o possuir
para saciar a minha fome, pensava: se estivesse junto do sacrário,
pedia tanto a Jesus para vir ao meu coração, que tenho a certeza que
Ele deixava o sacrário e vinha para mim, ao ver a minha ansiedade.
Em pensamento posso fazer o mesmo aqui, para Ele não há distâncias.
Receosa que houvesse uma confusão da minha parte, desviei de mim
este pensamento. Jesus sabe os meus desejos e há-de enriquecer-me e
como Ele quiser e Lhe aprouver. O demónio atormentou-me por duas
vezes, forte e desesperadamente, porque senti, porque senti em mim a
primeira reparação: foi por todos em geral, por todos os que ofendem
a Jesus, contra a castidade. A segunda, que foi hoje mesmo, foi
pelas famílias, pelos esposos ingratos para Jesus. Digo isto, pelas
cenas tristes que observei, as quais só pelas famílias me têm sido
pedidas. Que coisas tão horrorosas, que maldade a dos demónios!
Lutei por tanto tempo! Só pensava perder a vida. O coração parecia
estalar, e o corpo banhou-se em suores. Invoquei tanto e tão
repetidas vezes o nome de Jesus e o da Mãezinha. Pedi-Lhes tanto que
me acudissem, porque não queria pecar. O demónio raivoso dizia-me
que pecava e queria satisfazer meus gostos. Parece que fiquei doida
e perdida, em região diferente. E, na incerteza de ter pecado, que
tristeza se apoderou de mim! Veio o meu Jesus, estreitei o meu ao
Seu peito, e disse-me:
— Minha
filha, minha estrela luminosa, não pecaste, lírio casto, açucena
pura.
A
tristeza e a dúvida de pecar desapareceram por um pouco. Apesar de
este abraço de Jesus não ser como costumava ser, desapareceu aquele
calor, aquela união de amor que Jesus usava para com a minha alma.
Mas só com estas palavras fiquei mais forte. Vou rompendo por entre
as minhas trevas, sobrecarregada, mas abraçada por amor à minha
cruz. Sorri, porque Jesus o quer, amo-a por Ele, amo-a pelas almas.
Sinto que não tenho nada a receber do céu, mas confio que é de lá
que tudo hei-de receber.
13 de
Setembro de 1945
Trevas
em mim e à volta de mim. Trevas no corpo, no coração e na alma.
Vejo, sinto que é impossível atravessá-las sem um guia, sem uma luz.
Esse guia, essa luz não aparecem.
— Deverei morrer sozinha, sem ninguém? Sozinha vivo, sozinha, sem
ninguém. Deus, meu Deus, morro sem chegar ao fim destes mundos, tão
negros, tão aterradores! A minha vida tornou-se-me quase
insuportável. Quanto mais sofro mais despida me sinto, mais pobre e
miserável me vejo diante de Jesus, mais indigna do céu, do céu que
perdi pela vida que não soube aproveitar; não segui os caminhos de
Jesus, não O amei, não soube viver. Que horrores! Que revoltas e
desesperos em minha alma! Tudo quero amaldiçoar, quando os meus
ouvidos ouvem os uivos e ruídos infernais, quando a alma sente os
horrores do inferno. Que tremendos tormentos! São insuportáveis com
a perda de Jesus. E, depois destes sofrimentos, continuo a sentir
que não vivo, só os sofrimentos vivem; não estou na terra nem no
céu.
— Meu
Jesus, ai que vida esta!
Muitas
vezes, quando estou caída e por mais esforço que faça, não posso
levantar-me, a minha alma tem a visão da cruz; e quem a leva é
Jesus, Jesus de poucos anos ainda. Tão pequenino e tão curvado
debaixo do seu peso! O meu coração enche-se de compaixão. Jesus
pequenino e inocente vai por amor de mim tão sobrecarregado. Não
hei-de eu caminhar, pequenina ou mesmo nada de virtudes, mas grande
de misérias, de pecados. Por amor d’Ele submeto-me a levar a cruz
com todo o peso.
— Meu
Jesus, quero seguir-Vos, à Vossa semelhança quero caminhar. Não sois
Vós que me animais, não é a Vossa formosura, pois a minha alma não
sente nisso consolação, mas sim a Vossa inocência, o Vosso amor ao
sofrimento animam-me e levam-me à compaixão.
Quando
assim vejo Jesus, não me alegro, mas sinto-me viver. Ele leva a cruz
dentro de mim, e eu, unida a Ele, levanto-me, estreito de novo ao
meu coração a cruz e caminho. Veio hoje o demónio com um ataque
aterrador. Tudo à minha volta eram cães, todos me queriam saltar
raivosamente; todos me convidavam ao mal, todos praticavam as mais
feias acções. Lutei com eles. No meu rosto e no meu corpo sentia a
maldade do homem e do inferno; todo o meu corpo era maldade, todos
os meus gestos e olhares eram maliciosos. Queria chamar por Jesus e
pela Mãezinha, e o maldito não me deixava. Só desde que me parecia
ter pecado e ele me afirmava que sim é que se quebravam as cadeias
que me prendiam a língua. Chamei por Jesus e pela Mãezinha. Fiquei
libertada, mas abismada num mar de dores, tristezas e receios, sem
haver nada no mundo que alegre a minha alma. É a minha cruz. Nova
visão apareceu aos olhos da minha alma. A cruz de amanhã. E então
Jesus, já homem, para a levar. É para Ele e é para mim, pois Ele
sofre em todos os membros do meu corpo. Vejo o que me espera. Sinto
como se estivesse na mais alta montanha, e todo o mundo contra mim a
inventar à porfia novos meios par atormentar meu corpo. Sou
escândalo no meio da multidão. A alma chora, o corpo estremece, as
veias tendem a rasgarem-se; já vejo o horto onde o sangue vai
ensopar a terra. Ao meu coração ligou-se o Coração da Mãezinha. Que
triste adeus ao terminar da ceifa! Sinto que vou para a morte, e a
Mãezinha sente que vou; está já de dor o Seu Santíssimo Coração. Ele
encobre ainda Sua dor, o Seu pranto.
14 de
Setembro de 1945
Não há
na terra quem possa alegrar-se. Parece-me que todo o mundo tem tanta
luz como eu tenho, tantas trevas como tem a minha alma. A alma nada
vê, e sinto que o mundo está na mesma cegueira. Caminhei para o
calvário, desfalecida, caindo repetidas vezes e repetidas vezes por
cordas arrastada. Tive quem me ajudasse a levar a cruz, mas esse
auxílio não era voluntário, não recebi dele consolação. A sede
ardente, que no coração levava, era a força do meu caminhar. O meu
corpo foi todo salpicado por bolas de chumbo; as carnes e o sangue
ficavam espalhados no caminho da montanha. Um número de curiosos
contemplava essa carne e esse sangue; contemplava por escárnio e não
por amor. A sede continuava, uma sede eu o meu corpo humano não
podia aguentar. Já estava na cruz e em grande abandono e agonia. Dum
lado e do outro e uns atrás dos outros vieram sobre mim furiosos
cavalos; relinchavam furiosamente. Eram demónios a convidarem-me ao
mal. Obrigavam-me a dizer que queria pecar e satisfazer as minhas
paixões. Não sei se sim ou não o disse, mas creio que não. Terminou
a luta só depois de me parecer ofender a Jesus gravemente. E eu pude
exclamar:
— Jesus, é a minha cruz. Valei-me, valei-me, ai de mim!
Não
pensava nem pedia a Jesus a visão da cruz, mas Ele apareceu à minha
frente, cravado nela, luminoso, cercado de flores. Com esta visão
fugiram todos os cavalos, relinchando novamente, muito alegres por
terem satisfeito seus gostos. E Jesus pronunciou estas palavras:
— Aceita, aceita, minha filha, se te queres assemelhar a mim e seres
a minha crucificada sem igual.
E
desapareceu da cruz. Fiquei mais forte, é verdade, mas a parecer-me
que estava no inferno, pena merecida por tão grande pecado. E
continuou o abandono e a agonia da cruz e a mesma sede ardente do
caminho do calvário, com a diferença: no caminho do calvário, a sede
era de Jesus, sede de possuir as almas; na cruz, era minha, era sede
de Lhas dar. Sentia Jesus em todo o meu corpo a sofrer comigo. Eu
era o encaixe no qual Ele se revestia. Sentia-O todo inteiramente;
até na minha cabeça sentia a d’Ele com os Seus cabelos ensopados em
sangue.
— Ó meu
Deus, ó meu Deus – eu exclamava – oh quanto se sofre, e o mundo não
conhece! Aceitai o meu abandono e agonia; aceitai os meus medos, a
minha dor.
Que
pavor eu não poder resistir mais! Esperava a vinda de Jesus, mas Ele
demorou tanto! Quando veio, disse-me:
— Para
longe de ti, minha filha, as tuas trevas, dúvidas e temor, para que
saibas que sou o teu Esposo, o teu Jesus. Venho beber, venho saciar,
na tua fonte, a minha sede; venho retocá-la, abrilhantá-la,
enriquecê-la, para que toda a água dela se aproveite, água que é
tirada, transformada do sangue das minhas veias. O meu sangue é
sangue que gera as virgens, germina, dá a vida. Eu sou a tu vida, e
é por ti que as almas recebem a minha vida divina. Deixa-me
enriquecer essa fonte, a fonte do teu coração; deixa-me despejar
nela o cofre do meu amor e das minhas riquezas: são as minhas
últimas maravilhas em ti.
Jesus
abriu o Seu Divino Coração e abriu também o meu; despejou tudo o que
o d’Ele continha, deu-se todo ao meu, selando depois o meu coração.
— Minha
filha, minha pomba, meu encanto, isto é a minha vida, a minha força;
são riquezas para dares às almas. É o meu poder divino para levares
a tua cruz. Quero-te pequenina para seres grande; pequenina, mas
comigo caminhas sem vacilar. É por isso que pequenino me apresento a
ti, levando a cruz. Sou pequenino, sou inocente, e tu, pequenina e
inocente, leva-la por amor de mim, ó nova redentora das almas. Não
receies a cruz, não temas o seu peso, venha o que vier, fira-te o
que te ferir. Vencerás comigo; seguirá a barquinha, firme no mar,
mesmo que a tempestade, por todos os lados, a cerque. Vence a minha
divina causa; triunfa, triunfa.
Sentia
que eu era a barquinha, que caminhava por entre as ondas, cercada
até às alturas de horrorosas tempestades. Não estremecia a
barquinha, não mergulhava nas águas, não temia, porque dentro dela
ia Jesus.
— Minha
filha, vou diminuindo os meus colóquios e diminuindo o tempo deles
para glória minha, proveito das almas. O meu amor e a minha divina
luz em ti serão como sol que rompe as nuvens e mal chega a alumiar e
a aquecer. Tudo vai a caminho do seu fim, até mesmo as minhas
maravilhas e o sentires o meu amor. Tem coragem! Mais do que nunca
me amas, mais que nunca estou em ti. Vou dar-me agora a ti na
Eucaristia. Como prova de que és a minha verdadeira crucificada,
prometo-te, minha filha, não deixar-te sexta-feira nenhuma sem me
dar a ti, sacramentado, ou pelas mãos dos meus discípulos ou pelos
meus anjos ou eu mesmo, como agora vou fazer.
Tomou
Jesus em Suas santíssimas mãos uma hóstia e disse:
— Corpus Domini Jesu Christi. Sou eu
mesmo sacramentado, sou a tua vida, o teu alimento. Pede-me agora o
que quiseres, confias que sou eu?
— Confio, porque confio na Vossa palavra; não por me parecerdes
aquele Jesus, cheio de luz e amor.
Contudo, aqueceu Jesus o meu coração e fez-me gozar uma grande paz.
— Jesus, peço-Vos para ser santa, como Vós o quereis, se o quereis.
Peço-Vos para amar-Vos tanto como o Vosso Divino Coração deseja;
peço-Vos para não Vos ofenderem gravemente todos os que me são
queridos e me pertencem; peço-Vos para não Vos ofender; deixai-me
entrar com todos no Vosso Santíssimo Coração e lá viver e morrer.
Deixai-me entrar com o mundo inteiro, para que ele seja salvo.
Enquanto eu dizia isto a Jesus, estavam anjos em tamanho natural de
joelhos e inclinados diante de Jesus. Não cantavam, mas eu ouvia um
toque harmoniosíssimo, que arrebatava. Jesus disse-me:
Entra,
entra no meu Coração, na tua morada, entra com quem desejas;
fecha-te lá dentro. Os anjos vão colher as flores do teu amor e das
tuas virtudes, vão levá-las para junto do trono divino; o seu aroma
é para as almas, é o bálsamo que vai curar-lhes a lepra.
Vi os
anjos com posta de flores levantarem voo e desaparecerem. E
desapareceu também Jesus a dizer-me:
— A tua
missão são as almas. Salva-mas, salva-mas. É pela dor, é pelo amor,
é pela cruz.
Fiquei
forte, sim, mais forte, mas a sentir horrorosas dores no meu corpo e
a lutar, a combater os mundos das minhas trevas, ceguinha da alma e
do corpo.
16 de
Setembro de 1945
Não
vejo, não sei onde estou, não há céu nem terra para mim. Não vivo e
vivo, não sinto e sofro. Temo viver, temo morrer. Quero Jesus, perdi
a Jesus e tenho medo de morrer e de comparecer na Sua divina
presença. A minha vida é vergonhosa. Ai de mim, mas não quero
perdê-Lo, não quero condenar-me.
— Ó
inferno, ó inferno, que tremendo és!
Ai
quantas vezes sinto lá arder o meu corpo, o meu espírito, e todo o
meu ser é atormentado pelos demónios. E não tenho quem me guie, não
tenho quem acuda à minha pobre alma. Não há luz que a ilumine; todo
o céu, todo o mar e terra são trevas. Em cima de mim e debaixo de
mim. E de dia e de noite este tremendo martírio. Que abandono e
incertezas, que vida tão duvidosa! De alma e coração feridos,
preparei-me para a vinda de Jesus a esta pobre morada; preparava-me
com tristeza; esperava-O com dor e ansiedade. Logo que Ele entrou no
meu peito, disse-Lhe as minhas mágoas. Sem grandes efeitos do Seu
amor, ouvi que Ele me dizia:
— São
puros os teus caminhos, minha filha, são caminhos verdadeiros,
caminhos reais, escolhidos por mim. É grande o teu amor, é grande a
tua reparação. Sou eu o teu conforto, o teu alimento, a tua vida.
Amo-te tanto, tanto, amo-te a mais não poder amar-te; por isso te
escolhi os caminhos mais espinhosos, difíceis e delicados, e te
escolhi a maior missão, a mais bela e sublime. Dá-me tudo com santa
alegria, com alegria de alma, isso me basta. Não penses, minha
filha, que me entristeces por dares a conhecer a tua dor. Não disse
eu: “a minha alma está triste até à morte?!” A tua tristeza mostra a
tua dor e amargura e a sensibilidade do teu coração, mas não quer
dizer que deixas de viver alegre no teu martírio. Tu dás-me o maior
amor, a maior reparação, a maior alegria. Confia em mim. As tuas
trevas dão luz ao mundo.
Fiquei
umas horas mais forte. Após este alívio, voltei ao mesmo penar, a
sentir a alma dilacerada de dor, com os tormentos mais aterradores.
Queria conhecer Jesus, amá-Lo, fazer tudo por Ele e nada fazia. Que
vida de perdição!
— Meu
Deus, que arrancos tão desesperadores!
Sentia-me em tudo perdida e condenada. Por vezes apertava as minhas
mãos como para segurar-me e ficava quase sem saber o lugar onde
estava. Que trevas, que cegueira a do meu espírito!
— Valei-me, Jesus, é Vosso o meu coração, é Vossa a minha vida,
tende dó.
20 de
Setembro de 1945
O que
será de mim sem Jesus e sem ninguém?
— Não
comungo, ó meu Deus, que falta me faz. Sinto-me desfalecer e morrer
de fome. Perdi todos os que me são queridos, não tenho ninguém por
mim.
Perdi a
Jesus para sempre e sinto grande revolta na alma com esta perda. É
perda desesperadora. Quantas vezes sinto todo o meu corpo a arder no
inferno. Sinto e vejo aquelas feias cabanas, os urros e maus tratos
dos demónios, as suas cenas maliciosas atormentando-me por aqueles
pecados que me levaram à perdição. Todos os meus sentidos sofrem. De
que me serviu a vida tão leviana, cheia de loucuras e prazeres, para
depois condenar-me! Que pecaminosa e horrorosa vida, que tremenda e
assustadora eternidade! Reconheço que mereci o inferno, mas isso não
basta, tenho que, desesperada, amaldiçoar tudo. Nesse abismo eterno,
sinto que os demónios maltratam tanto a minha alma e atormentam
todos os meus sentidos, a parecerem cães que põem pano em tiras,
destruindo tudo, fio a fio.
— Ó meu
Deus, se o mundo conhecesse o que se sofre no inferno e o que é uma
ofensa ao seu Deus! Não sei dizer o que vai dentro de mim. Meu Deus,
que pena tenho! Queria saber dizer mais, queria poder mostrar a
região onde habito, a região das trevas. Ando a vaguear entre elas.
Que escuridão a da minha alma! Que cegueira a do meu espírito! Não
vejo, não vejo nada, não sei onde estou. Toda a minha vida deixou o
corpo, para viver das trevas. Pobre espírito, que não sossega,
batalha com elas. Não habita o céu nem habita a terra; perdeu-se,
perdeu-se. Parece-me estar cravada na cruz, e a violência da dor
separa-me dela, deixando assim de serem úteis todos os meus
sofrimentos. É para melhor sentir que nada vale a minha existência
aqui. Que vida de tanto penar! Se eu pudesse convencer-me que
consolava Jesus e salvava as almas!
— Jesus, Jesus, quero confiar, obrigai-me a confiar. Ai de mim sem a
graça do céu.
Os
demónios assaltam-me, caem sobre mim, sobre o meu leito,
desesperados, como para estrancinharem o meu corpo. Que feras tão
feias, e que eu desconheço! Parece lançarem-se aos meus ombros,
fazem-me estremecer. Maldito ele seja! Perdeu-se e quer perder-me a
mim também. Veio mais que uma vez em forma de homem, para obrigar-me
a pecar e ensinar-me a blasfemar contra Deus. Quer que eu diga que
quero pecar, que quero o prazer. Não quer que eu pronuncie o nome de
Jesus. Para isso parece apertar-me a garganta e cerrar meus lábios.
Eu, antes de chegar ao auge da luta e aflição, disse:
— Já
sabeis, meu Jesus. Se Vos hei-de ofender, dai-me já o inferno.
Que
mundo de dúvidas e incertezas. Pobre de mim, em que dor eu fico. Que
medo de ter pecado. Que vergonha que não me deixa levantar os olhos
para Jesus. O coração consome-se. A sede redobra. Quero amar a
Jesus, tritura-me ver que O não amo. Cai sobre mim a chuva dos
sofrimentos. Já me sinto no horto. O coração é espremido para o
cálice da amargura e em mim a oferecê-lo ao Eterno Pai. Sinto e vejo
que deste cálice sai fogo e grande fragrância. O Eterno Pai
satisfaz-se nesse fogo e fragrância no cálice de tanta dor. Apesar
de Se satisfazer, não vem consolar-me, deixa-me ao abandono,
esmaga-me com a Sua justiça. O Seu peso divino rasga-me as veias,
obriga-me a dar o meu sangue. Sinto-me com os lábios em terra, a
falar com o peso esmagador.
— Ó
horto, ó triste horto. Ó Jesus, aceitai-me tudo e salvai as almas.
21 de
Setembro de 1945 – Sexta-feira
Passei
triste a noite, mas em união com Jesus. Saí da prisão, prisão que
eram trevas, e as ruas, que passeava, trevas eram. O meu espírito
não via, mas pôde ver através das trevas uma grande multidão de
judeus que sobre o meu corpo descarregavam fortes açoites e varadas.
E o coração segredava-lhes ao receber estes sofrimentos:
— Tenho
sede das vossas almas, quero possuí-las.
E
sentia dentro de mim Jesus a romper por entre a multidão, louca de
amor, só em ânsias de lhes dar o céu. Só o amor de um Deus podia
vencer tão grande martírio. Ele caminhava dentro do meu corpo, e eu
a senti-Lo cair por terra, e os olhos da minha alma a verem o Seu
rosto santíssimo pisado, ferido, com olhar de compaixão e profunda
tristeza. Que olhares que tão docemente convidam e atraem as almas.
Eu não podia suportar em mim aquele convite de Jesus; não podia
sentir aquela dor, tinha que desfalecer. Vi-O em visão bem clara com
a cruz aos ombros, com um joelho em terra e o outro no ar a fazer
grande esforço para se levantar. Atrás d’Ele caminhava uma mulher;
não lhe vi o rosto, vi-lhe uma farta cabeleira estendida. Um pouco à
frente de Jesus e suspenso no ar, estava um coração com uma grande
chaga; essa chaga estava em sangue. O coração, era o Coração Divino
de Jesus, senti-o bem. Quando cheguei ao calvário e fui despida,
foram as carnes coladas; foram tais as dores dos nervos, ou não sei
de quê, que foram bater-me ao coração, que me deixaram sufocada e
quase sem vida. A minha língua, retalhada de tanto que inchou,
parecia não caber-me dentro da boca. E o meu rosto não era rosto;
sentia que não tinha forma humana. O meu brado era contínuo, brado
que ecoava em todo o calvário; só ao céu é que não chegava, não era
ouvido pelo Eterno Pai. Que doloroso e tremendo abandono! Sentia o
coração falhar-me, ia a perder a vida. Queria dizer ao Eterno Pai
que Lhe entregava o meu espírito e não podia. A um brado fortíssimo,
entreguei-Lho e expirei no abandono. E neste abandono esperei tanto
tempo por Jesus! Veio e disse-me:
— Minha
filha, vaso sagrado, onde habita o Rei do Céu e da terra. É o teu
coração esse vaso; o Rei sou eu, o teu esposo, o teu Jesus. O teu
amor é a lâmpada que me dá luz e luz tão forte; se eu assim o
quisera, iluminava o mundo. As tuas virtudes são as flores que
adornam esse vaso no teu coração; o seu perfume enche-me,
consola-me. Vais agora receber-me pelo teu Anjo da Guarda.
Não vi
o meu anjo, vi só a sagrada hóstia, bastante grande e branca, muito
branca. Por três vezes ouvi dizer as palavras ecce agnus Dei.
E depois todas as palavras que dizem os sacerdotes. Não via os
anjos, mas ouvia o bater das asas e o zunir como que a cortar o ar.
E ouvia-os cantar:
Veio
do Seu trono, prisão de amor,
dar-se em alimento o nosso Rei e Senhor.
Veio
do Seu sacrário o bom Jesus
Dar a vida e suavizar tão pesada cruz.
Veio
à Sua esposa, veio o nosso Rei,
Reverentes O adoramos como em Seu trono,
como em Seu seio.
Glória, glória a Ti, nosso Deus,
A Ti, Rei do Amor.
Sem os
ver, deixei de os ouvir, para continuar a ouvir Jesus.
— Minha
filha, sou a tua vida, força e amor. Prometi e não faltei, vim a ti.
Não venho mais vezes para saborear as tuas ânsias, a tua sede de mim
na Eucaristia. Dou-me a ti para te dares às almas. Encho-te o teu
coração com as riquezas do meu para por ele elas serem distribuídas.
És a vida das almas mortas, és a vida das vidas, és o amor dos
corações. Levanta-te, levanta-te do teu desfalecimento. Vou pedir-te
muita reparação daquela que me dás com o maior dos sacrifícios. Não
ma negues, não queiras ver o meu Divino coração ferido. Dá-me todos
os sofrimentos, para serem salvas as almas.
Principiei a ver tantas, tantas, era uma chuva delas, era impossível
contá-las. Estavam tão luminosas, já me parecia o céu. Jesus
disse-me:
— Vê,
minha filha, foram todas salvas por ti. Se soubesses por cada dia do
teu sofrimento o número de almas que salvas! O que será a vida toda
do teu martírio! E toda a vida do céu a desempenhares a tua missão,
enquanto o mundo for mundo! Alegra-te, no céu o verás. Todas estas
almas te esperam lá e para breve. Olha o valor o sofrimento. Tem
coragem. Eu sou o guia nas tuas trevas; sou a força no teu calvário;
confia em mim; desagrava-me com as tuas dores, desagrava-me com o
abandono e a cegueira do teu espírito. O fim está perto. Pede-me o
que quiseres agora que me tens sacramentado em teu coração.
— Meu
Jesus, meu doce Amor, vinde ao meu corpo e à minha alma buscar tudo
quanto Vos agrada e consola. Estou pronta para continuar a ser a
Vossa vítima. Já que prometeis dar-me tudo o que Vos peço, dai-me
força e graça para sofrer e amor para Vos amar. Libertai, libertai,
meu Jesus, o meu Paizinho. Não Vos demoreis mais. Dai, meu Jesus, ao
meu extremoso médico, hoje, no dia do seu aniversário, tudo quanto
para ele Vos pedi e não soube pedir. Enchei de bens todos os que me
são queridos e salvai todo o mundo, que é Vosso.
— É
teu, porque to confiei, ó luz atraente dos meus olhos. Salva-o e
confia que tudo recompense por ti. Vai em paz. Vou abreviar o meu
colóquio, vou esconder-me. Os mundos das tuas trevas são mundos de
luz, são mundos de amor, para as almas e para os corações.
Bem
depressa a minha alma esqueceu o conforto, a luz e o amor que Jesus
me deu no momento em que O recebi. Bem depressa os meus ouvidos
perderam a suave música dos anjos. Esqueci tudo o que era alívio e
luz, para viver só na cegueira do meu espírito, na dor angustiosa do
corpo e da alma. Ai de mim! Temo o meu viver. Que o Senhor seja
comigo!
24 de
Setembro de 1945
Voltei
a receber o meu Jesus. E onde baixou Ele? À cegueira do meu
espírito, às trevas horrorosas, ao mar imenso e pavoroso de
podridão. Não posso pensar nem consentir que Jesus desça a esta
imundície vergonhosa e nojenta. Este mar de podridão sinto-o em mim
e ao mesmo tempo separado de mim. Causa-me horror e não me pertence.
Não posso deixar Jesus descer a ele e não sei como. Ele deixa-se
levar e vai ferir-se neste lodo tão envenenado. É imundície que tem
espinhos que ferem sempre e sempre fazem sangrar. Queria com as
minhas mãos amparar Jesus, para Ele não pousar neles, e não consigo.
Estou louca de vergonha e louca de amor. De vergonha, ao sentir-me
assim; de amor, procurando todos os meios possíveis, para sustentar
Jesus sem O deixar poisar no que tanto O fere. Mas esta loucura de
amor envolve-se na noite tenebrosa do meu espírito, nas trevas que
me envolveram toda a alma. O pobre espírito, sem ser aceite no céu e
na terra, anda vagueando na região que nunca viu luz. Anda como a
avezinha sem pousar, que bate as asas dia e noite sem conseguir
repousar. Se sobe ao ar, não encontra saída; se desce e mergulha,
não a encontra também. Não há caminhos por onde eu possa sair das
trevas. O coração e a alma tremem e choram apavorados. Que horror,
que horror, ó meu Deus! Que desesperos dentro em mim! Mas são
desesperos que me fazem estar calma e serena.
— É a
Vossa vontade divina, meu Jesus, eu aceito.
Quantas
vezes sinto e ouço beber, mas beber sofregamente dentro do meu
coração. Ó que beber com tanta canseira! Quem bebe bebe com tanta
doçura, saboreia tanto, mas nunca está saciado. Eu também não me
sacio, nada há que me satisfaça e console. Por mais que eu sofra,
nada sofro e nada tenho para oferecer e consolar Jesus. E as minhas
almas morrem de fome, e eu quero salvá-las, não as posso ver morrer.
Os ataques dos demónios têm sido frequentes e tormentosos. Têm vindo
em forma de homens. Um pelo menos durou cerca de uma hora. O meu
corpo foi todo banhado em suores, e o coração batia como uma fábrica
apressada. Quando já lutava com eles, de repente vi à minha frente o
Menino Jesus dos seus cinco para seis anos, com o coração aberto no
centro do peito. Fitou-me como quem convidava a entrar nele.
Retirou-se. Era formoso, formosíssimo, e o coração estava todo
cercado e iluminado por raios doirados. A luta continuou e bem
triste e dolorosa. Depois de muitos convites e palavras feias
segredava-me uma voz:
— Já
que te entregas aos prazeres, já que tanto feres o meu coração,
retiro de ti as minhas luzes, as minhas graças. És condenada
eternamente.
Sentia
em mim uns grandes desejos de pecar e, ao terminar da luta, tinha
uma pena de morte, por não ter satisfeito os meus gostos.
— Meu
Deus, sentia tudo isto, mas nada disto queria.
Aquela
visão de Jesus levou-me quase a acreditar que era Ele quem me
falava, quando me dizia que retirava de mim as suas luzes e graças e
que era condenada. Oh! como eu fiquei triste! E o demónio, contente,
ou mostrava-se contente. Parece-me que era ele que assim me falava,
para me levar ao desespero. Nos outros combates tem usado sempre as
mesmas manhas. Que tremendos horrores! Muitas partes do meu corpo
são instrumentos do pecado. Todos os sentidos do meu corpo são
instrumentos de ofensa para o Senhor. Mas tudo se refere ao pecado
da impureza. Que malditos conselhos, malditas acções, malditos
pecados! Hoje, num assalto aterrador, em que me parecia que o meu
corpo era instrumento para pecar com muitos demónios, o coração
batia-me com tanta força que parecia rebentar e morrer.
— Meu
Jesus – disse com o pensamento – a cada pancada do meu coração quero
arrancar uma alma das garras do demónio e tantos actos de amor para
os Vossos Sacrários, como de areias tem o mar. Parecia-me não ser
mais livre dos demónios, e eu não podia mais resistir às suas
maldades. Veio Jesus e disse:
— Pára
e aparta-te, maldito, vai, príncipe infernal, e leva contigo todos
os demónios. Aquele que teve poder para te precipitar nos abismos
obriga-te a retirar. Aparta-te, aparta-te, deixa a minha vítima.
Minha filha, sossega, que não pecaste. Inclina-te no meu Coração
para descansares. Ai dos impuros sem esta reparação!
Eu
estava numa tristeza e numa desconsolação doida.
— Aceitai, Jesus, esta tristeza e desconsolação. Consolai-Vos e
alegrai-Vos.
— Coragem, filhinha, é minha essa tristeza, pertence-me essa
desconsolação, sofre-a por amor, para que eu a não sofra. Anima-te
no meu amor.
Dito
isto, acariciou-me e escondeu-se, mas já os demónios tinham fugido.
Eu não sei dizer as amarguras da minha alma e as trevas em que
estou. Parece-me que tudo em mim é pecado e é inferno. Parece-me que
não poderei mais ver o céu nem ver Jesus.
27 de
Setembro de 1945
Bendito
seja Deu! Adormeci nas minhas trevas, para não mais acordar; morri
na cegueira do meu espírito, para nunca, nunca mais viver; tremo com
pavor, quero respirar e não posso. Tenho medo, estou sozinha, não há
quem me acompanhe nesta cegueira. Perdi o céu, só o inferno me
resta. Perdi Jesus, sou o entretimento dos demónios. Esta vida, esta
vida não é minha, não é uma vida que se viva, não a compreendo. E
quantas vezes não posso suportá-la. O demónio enreda-me,
atormenta-me. Põe à minha frente homens, mulheres com feias acções,
a pecarem gravemente. E depois vem ele pecar comigo e obriga-me a
dizer que assim o quero. Quer que eu diga que não quero a Deus; que
quero satisfazer meus gostos. E, como o pecado nunca satisfaz a
alma, ele deixa em mim e, por espaço de tempo, uns desejos ardentes
de pecar e com grande satisfação. Sinto-me nas mãos dele, com as
malícias dele revestida.
— Que
horror, meu Jesus! Custa-me a convencer que não Vos ofendo. Não sei
como acreditar, tende dó de mim.
No
último combate, que foi de noite, eu lutava com ele, e sob mim mesma
estava o inferno. Que feio e horroroso ele era! Que moinha de almas
em seus tormentos! Que tremenda aflição a do meu coração! Que afecto
e loucura eu sentia pelo pecado! Não podia pensar que era vítima de
Jesus e que repetidas vezes a Ele me oferecia. Que vergonha! Depois
disto, acompanhou-me uma pena irresistível das ofensas a Jesus e um
desejo ardentíssimo de O amar e ver todo o mundo incendiado no Seu
amor divino. Pode lá ser eu amar a Jesus assim tão cheia de
misérias! Pode lá ser Ele aceitar-me para Sua vítima! Que vida de
tanta incerteza! É quinta-feira, e dentro da minha alma passam-se os
maiores horrores. Que medo ao sofrimento! O horto aproxima-se,
sinto-me prostrada nele. Sinto em mim o ensopo do sangue. A justiça
divina esmaga-me; as veias rasgam-se. Não vi ninguém, mas senti que
do céu desce alguém que viesse fortificar a minha alma, levantar-me
da terra nua, aliviar-me da minha agonia, para depressa continuar.
Quem me aliviou a minha alma! Senti que foi um enviado do Eterno
Pai. Mas o Seu abandono continuou, e a Sua justiça pesou sempre
sobre mim. A terra treme à vista de tanta dor. Chegou o momento da
prisão, sobre o meu corpo caiu uma chuva de pontapés. O amor venceu;
fui para a prisão. A tristeza e o medo bastavam para dar-me a morte.
28 de
Setembro de 1945 – Sexta-feira
Seja
feita a vontade do Senhor. A minha alma chora. Quero bradar por
socorro e não posso. São irresistíveis os tormentos que ela sofre. O
calvário! Que penoso! Quantas golfadas de sangue pela minha boca e
quanto sangue vertido pelas feridas dos espinhos da cabeça, olhos e
ouvidos! Que caminhos tão manchados! Caminho com a cruz, nadando num
mar de dores e de sangue. Que ingratidão a do mundo fazer-me sofrer
assim! Ou antes. Que ingratidão a do mundo ferir de tal modo a
Jesus!
— Ó
céu, ó céu, sê, e depressa, o meu conforto.
Cheguei
ao calvário. Ao serem-me tirados os vestidos, foram tirados com
tanta pressa que chegaram a rasgarem-se. Que dores violentas ao irem
com eles pedaços de carne! Senti a Jesus no alto da Cruz, na cruz
que era eu, e em mim era Ele também como que a esforçar-se para
arrancar do madeiro os braços, para levantá-los ao Eterno Pai. Era
precisa uma escora, era necessário um conforto. Os braços não saíram
da Cruz, e, em vez dessa escora e conforto, senti como se o céu
baixasse com todo o peso da justiça a esmagar-me fortemente no
grande madeiro da cruz. A agonia aumentou, e com ela o abandono. O
Eterno Pai não queria dar conforto, só exigia a reparação. Era o
Juiz a pedir-me contas de todos os males da humanidade.
— Meu
Pai, meu Pai, dei-Te tudo, já perdi todo o meu sangue.
O
Eterno Pai não se dava ainda por satisfeito. E o fim aproximava-se
cada vez com mais agonia. Dentro do meu peito estava a montanha do
calvário. Sentia que ela estremecia, e por ela descia apavorado um
grande número dos que me tinham feito sofrer. Iam uns atrás dos
outros a esconderem-se como formigas no seu celeiro, ficando junto à
cruz uns corações que eram todos amor e um que em tudo compartilhava
da mesma dor de Jesus. Era o da Mãezinha, que no meu coração se
apresentava como Mãezinha das Dores. As Suas lágrimas pareciam
correr em meu peito. E Ela, ao ver que Jesus ia expirar, levantava
os Seus braços santíssimos para Ele como para O receber. Toda a
montanha estava escurecida, mas aquela escuridão em nada se
comparava com a escuridão do meu espírito. E, nesta angústia, veio o
meu Jesus.
— Venho, minha filha, com um raio da minha luz, para te iluminar, e
com as cadeias do meu divino amor, para mais e mais te prender. É
com esta luz que iluminas as almas, é com estas cadeias que as vais
prender a mim. Não vês, com esta luz não sentes este amor, porque
não podes, meu lírio casto, açucena pura, sem um milagre da minha
parte. Eu não o quero fazer, quero mostrar que chegaste ao auge da
tua dor nesta cegueira e à maior altura de amor nesta frieza.
Amas-me, amas-me, minha filha, e a cegueira do teu espírito ilumina
o mundo. A tua frieza encadeia nos corações o meu fogo divino. És a
rainha do amor, a rainha dos poderes. Possuis o amor de Jesus e de
Maria e tens os poderes e as riquezas dos nossos corações. Já sabes,
pomba querida, que é alta, alta, sublime, sublimíssima a tua missão.
Já sabes, já te prometi, começa já aqui na terra: quando quiseres
que algum pecador seja salvo, diz-me com confiança: “Meu Jesus,
quero que esta alma Vos pertença, quero que ela seja salva.” E isso
basta, nada te negarei. O mesmo farás no céu junto do meu trono
divino. Pede, pede, ó rainha dos poderes. Pede, pede, rainha da dor
e do amor.
— Ó meu
Jesus, mas eu quero que todo o mundo se salve. Posso então pedir-Vos
por todos os pecadores que nele habitam?
— Pede,
filhinha. Mas, para ser realizada a minha divina promessa, é preciso
que eles a ti se recomendem, ou outros o façam por eles. Tu és um
mundo de maravilhas, um mundo transformado num jardim de flores. São
flores de virtudes. Repara: vê as almas neste jardim a colherem as
flores da graça, da pureza e do amor e todas as mais virtudes. Cada
uma colhe a seu gosto. Só assim serão salvas.
Eu
estava transformada num formoso jardim. As flores eram cultivadas
por uma massa luminosa.
— Coragem, minha filha, pertencem-te as almas. Só serão salvas por
este martírio incomparável, martírio que não dei em todos os séculos
nem voltarei a dar. Só o pode suportar uma alma forte. Sou sempre
contigo.
Principiei a ver despirem a Jesus, a açoitá-Lo, a coroá-Lo de
espinhos. Não pude resistir.
— Meu
Jesus, sofrer assim não. Não sou eu a Vossa vítima?
— Dá-me, alegre, toda a reparação, minha filha. Se assim não
sofreras, era eu continuamente maltratado assim. Dá-me às almas, dá
amor às que querem o meu amor. Dá luz às que estão nas trevas; rouba
a Satanás as que estão nas suas garras, as que estão em pecado. Vai
confiada para a tua cruz. Por ti encho de mim todos os que te
amparam, rodeiam e cuidam da minha divina causa. E por ti sou o
remédio e a salvação dos pecadores. Coragem! O teu fim aproxima-se,
o céu é chegado, e tudo em ti se realiza. Canta, canta com amor,
minha filha.
Coração puro, coração de amor,
Vem ao teu Jesus, vem ao teu Senhor.
Coração de amor, corpo de pureza,
É da salvação terem a certeza.
Depois
destes momentos ditosos com Jesus, não pela grande consolação que
sentia, mas pelo conforto que deu à minha alma, voltei mais forte
para a cruz. Recebi uns mimos de Jesus. Tenho a certeza que foram
por Ele enviados. E, logo após eles, um desânimo tão grande que me
levou às lágrimas. Venci-me, pedi perdão a Jesus pela minha falta e
eis-me de novo deveras abraçada à minha cruz. |