Sinto
que o fogo do inferno me atormenta todos os membros e sentidos do
meu corpo. Sinto-me cansada com o ouvir o rumor das labaredas. Por
vezes parecem-me passar por todo o corpo. Até as próprias entranhas
com o espírito são queimadas. Sinto-me revoltada, revolta
desesperadora contra o fogo e contra Deus. Sofro mais com a perda de
Jesus do que com todos os sofrimentos do inferno. Não posso
conformar-me. Parece-me que o demónio faz do meu espírito uma bola
de entretimento e de destruição. Traz-me tudo à imaginação, faz um
conjunto de todas as coisas da minha vida e todas me apresenta como
falsas e enganadoras.
— Ai,
meu Jesus, eu não posso resistir. É certo que nunca pensei enganar
ninguém, mas o demónio tem mais força do que eu. Valei-me por
misericórdia, doce Jesus. Vinde, Mãezinha, num pronto socorro.
Que
desprezo sinto por mim! Que abandono o das criaturas! Que vergonha a
minha vida! Vergonhosa para o mundo, vergonhosa para diante de
Jesus. É só miséria, é só miséria. Não encontro em mim nada digno de
louvor, nada de grande para o céu. Sou podridão, sou miséria, sou
nada, sou vergonha, sou morte, morte triste e tormentosa.
— Ai,
Jesus, ai, Jesus, a minha cegueira. Não Vos vejo, não vejo o Vosso
amor nem os caminhos que conduzem a Vós.
Quero
um guia, necessito dele. Morre a minha alma, morre sem luz, morre,
não tem quem lha dê. E de verdade sinto-me morrer, sinto que a morte
está bem perto. Temo-a, temo-a, pelas contas que hei-de dar a Jesus,
pela vida tão horrorosa que se me apresenta. Quero confiar, custa-me
a confiar. Mas confio na bondade do meu Senhor, na misericórdia de
Jesus. Queria, antes de Lhe dar as minhas contas nos meus últimos
momentos, poder falar ao mundo:
— Morro
por teu amor, porque és filho de Jesus. Morro para te dar a vida.
Depois de tanto sofrer por ti, ficarás satisfeito de me veres
morrer? Cessarás de caluniar-me, abandonar-me, perseguir-me? Estarás
satisfeito de tanto ferires o meu coração? Mas, mesmo assim, juro
que te amo, juro-te que vou junto de Jesus interceder por ti.
Juro-te que te quero no mesmo lugar em que quero estar. Amo os que
me amam, amo os justos e os pecadores, amo todos os que me ferem,
porque em todos vejo Jesus e a todos amo por amor de Jesus. Adeus, ó
mundo, não sejas mais ingrato, não peques mais. Vou para Jesus, mas
continuo a velar por ti.
— Meu
Jesus, que sede eu tenho de Vós, que saudades do céu!
Mas
como chegar lá com esta cegueira e com esta vida de misérias? O
coração despedaça-se de dor, e a alma momento a momento continua a
rasgar-se como um trapo imundo, fio a fio. A minha dor, a minha
agonia não são compreendidas.
— O que
fazer, meu Jesus, a não ser esperar e confiar no Vosso Divino
Coração, que é amor, só amor, misericórdia e compaixão?
É
quinta-feira e dia de Todos os Santos. A lembrança do que será no
céu abate-me ainda mais.
— Meu
Deus, não conheço senão o dia de sofrimento.
E
dentro de mim tenho dum lado o calvário e do outro o horto. A vista
de tantos sofrimentos, se não fosse por milagre, causava-me a morte.
Sinto que o mesmo aconteceu com Jesus. Se não fosse a Sua vida
divina, Ele teria morrido antes de os sofrer. Vejo os cravos e o
martelo que me vão pregar. Vejo os caminhos por onde hei-de cair com
o peso da cruz. Sinto a crueldade com que hei-de ser despida. Sinto
sair nos vestidos a pele e pedaços de carne. Tudo isto é dor que se
antecipou. Sinto-me esmagada no horto pelo peso da justiça divina.
Sinto que este peso vem do alto a esmagar-me, a desfazer-me contra o
duro chão. O coração é que recebe todos os maus-tratos. Parece-me
que ele, desfeito em sangue, rasteja pelo solo do horto. Rasteja
como se fosse uma serpente venenosa sobre a qual todos descarregam
as maiores barbaridades, para lhe tirarem a vida. E sinto que o
Eterno Pai, revoltado contra mim também, não me poupa aos Seus
suplícios. Que tremenda cruz! Oh! Como Jesus sofre dentro de mim!
Que lágrimas tão amargas os Seus divinos olhos derramam dentro dos
meus! Jesus sofre, porque o mundo O faz sofrer, e eu sofro, porque
vejo e sinto Jesus a sofrer dentro de mim.
Não
posso falar, não sei como hei-de escrever. Que Jesus abençoe o meu
sacrifício, que Se utilize dele para as almas. Sinto o meu corpo tão
varejado pelo sofrimento, como um ramo verde varejado pela fúria do
vento numa tremenda tempestade. Sinto que o meu pobre corpo
necessita de dormir o sono dos mortos na sepultura, para a alma
poder descansar em Jesus para sempre. Não sei como é, não sei pelo
quê, que sinto a alma querer separar-se do corpo, e é com toda a
violência que ela o quer fazer, para o poder deixar. Esta vida não é
minha. Este mundo, apesar de tão querido ao meu coração, não me
pertence. Tenho de o deixar. É-me querido não por ele mas pelas
almas, almas que são de Jesus, almas que quero salvar.
— Ó meu
Deus, quanto eu sofro!
Ai de
mim, se me falta o céu com a sua graça e a sua força. Eu não vejo,
não vejo nada. Morro, mergulhada nestes tantos mundos de medonhas
trevas. Durante esta noite, vi o grande ingrato que se atreveu a
esbofetear Jesus, vi o rancor com que ele Lhe deu a bofetada, e
deu-Lha, e Ele em meu coração. Era alto, magro, moreno, mal
encarado. E Jesus recebeu-a na maior serenidade e mansidão. Muitas
vezes senti na minha face a bofetada, enquanto tive a paixão, mas
nunca tinha visto quem Lha dava, nem aquele rosto tão mal encarado.
De manhãzinha, foram descarregados sobre mim muitos e muitos
açoites. Era uma chuva deles. Depois de coroada de espinhos, segui
ao calvário. Na viagem, senti que Jesus, dentro do meu peito,
desandou ao lado o Seu divino rosto a fitar alguém. Era a Mãezinha,
que Ele fitava. E, em todo o trajecto do calvário, eu sentia como se
Ele fosse sempre de rosto ao lado, de olhos fitos sempre n’Ela e a
Ela preso de alma e coração. Quanto isto me custou a mim! Que
indizível dor! Já na cruz, sem poder desprender os braços, senti que
Jesus o queria fazer, para apontar o Seu Divino Coração ao mundo e
dizer-lhe: “antes de ser aberto pela lança, está aberto pelo amor e
é para te receber”. Jesus esquecia toda a ingratidão e
desculpava-nos a Seu Eterno Pai, mas sem que Ele se desse por
satisfeito. Que agonia, que agonia! Jesus, em tanto abandono, tinha
de responder por por toda a humanidade. Esperava a morte, pois só
com ela Ele Se dava por satisfeito. Sentia que peso da justiça
divina descarregava sobre o madeiro, sobre mim e Jesus. Esmagava
tudo. Dos meus lábios saía um brado contínuo ao Eterno Pai, e dos
olhos corriam-me lágrimas de sangue. No meio desta agonia, dentro de
mim expirava Jesus. Só de longe a longe sentia a Sua respiração. Ele
não morreu, viver para mim, pois nestes momentos principiou a
falar-me.
— Venho
depressa, minha filha, a dar-te a vida. Só recebendo-a de mim,
poderás viver. E, para que vias, opero milagre. Vou dar-te mais três
gotas do meu sangue divino. É com ele que tu vives. Vou fazer esta
transformação sagrada, transformação divina. Transformar-me em ti,
transformar-te em mim. És o fontenário das almas. É este sangue o
maná que lhes preparo, o maná que vem do céu. Dá-o, dá-o ao mundo. É
este sangue o sangue da pureza, o sangue de nova geração. O sangue
de Cristo, o sangue da minha esposa e virgem. Estudem, estudem os
doutores de Igreja, estudem os sábios. Repito-o: estudem os doutores
e sábios das ciências divinas. Que maravilhas! Que prodígios opero
na tua alma! Que riquezas dou por ti ao mundo, ao mundo que é meu,
ao mundo que é teu, porque to confiei.
Jesus
injectou do Seu Divino Coração para o meu as gotinhas do Seu sangue.
Vi-as cair. E, quando Ele me dizia: que maravilhas, que grandezas
opero em ti, sorria e fez-me compreender a grande riqueza do Seu
sangue divino, as maravilhas que em mim operava. Conheci que era
grande como Deus o que d’Ele recebia.
— Meu
Jesus, com sou pequenina diante da Vossa grandeza. Queria dizer-Vos
tanta coisa, mas não sei falar-Vos.
— Falas, minha filha, com os teus desejos. O teu silêncio diz-me
tudo. De cada vez me saberás dizer menos. Tem coragem! Tudo passa,
tudo muda, só eu não. As minhas divinas palavras cumprem-se.
Anima-te no meio das tuas trevas, no meio das tuas dores. A dor é
para a mãe que dá a vida a seu filho. Tu és mãe que dá vida a tantos
filhos. Dás a vida à humanidade. Descansa sobre o meu Divino
Coração, inclina-te, toma um pouco de conforto. A criancinha que
dorme nos braços de sua mãe, quando dorme, não sabe que é nela que
descansa. Ao despertar e ver-se acalentada em seu seio,
tranquiliza-se e nada teme. Agora não sentes a doçura do meu Divino
Coração. Mas, uma vez que voltes às tuas trevas, quando despertares
de mim, recorda o que de mim recebeste, para poderes aguentar a tua
cegueira, venceres as tuas dores e caminhares sem temeres. Recorda o
que opero em ti. Vê a minha loucura de amor, e que vejam a minha
loucura pelas almas, e o que por ti a elas dou. Salva o mundo,
acode-lhe em tanto perigo. Quero-te firme, firme na tua cruz,
abrasada de amor, de amor escondida nas tuas trevas, na cegueira do
teu espírito. Queria falar-te de umas almas que muito me ofendem,
mas não me demoro, toma a cruz.
Levantei-me do lado de Jesus. Sobre o Seu Santíssimo Coração tinha
descansado. Custou-me a deixá-lo, não pela alegria, mas pelo
conforto. Pareceu-me dormir n’Ele um sono, um sono que me deu vida e
me fez reparar algumas forças. Saí d’Ele, para cair logo aos mundos,
aos abismos das minhas trevas, bem curvada sob o peso da cruz e com
o coração a sangrar de dor.
Continuo a sentir-me ferida daquele amor de que já falei: do amor,
vindo do alto. E a alma continua na mesma violência, a querer deixar
o corpo, para ir ao encontro desse amor.
— Mas,
meu Jesus, se não vejo nada? A cegueira do meu espírito tudo
encobre, e o peso da dor tudo destrói. Só a vontade de Vos seguir,
de Vos amar, de Vos imitar, de Vos pertencer, de ser-Vos fiel até à
morte permanece firme, mesmo com a cegueira a esconder tudo.
Fiz a
minha preparação para receber Jesus, mas oh! como a fiz eu tão
triste e amargurada! Recebei-O, não Lhe sabia falar. Mas Ele, na Sua
infinita bondade, não olhou a isso. Logo me fez sentir a Sua união e
presença real em minha alma. Demorou-Se a falar-me. Só depois de
alguns minutos me disse assim:
— Minha
filha, paraíso de delícias aqui na terra para o meu Divino Coração,
jardim celeste, jardim divino, onde me delicio. É nestas flores
divinas, no jardim deste calvário que eu esqueço a ingratidão do
mundo. São flores divinas, porque as semeei, fiz crescer e
desabrochar neste terreno, que é meu, que só a mim pertence. São
divinas, porque saíram do divino. É jardim formoso e encantador; é
jardim de perfumes e de delícias. Está guardado e cercado de
espinhos. Os espinhos, com suas dores, são para ti; as flores, com
seu perfume, são para glória e consolação minha; são para as almas.
Dá o teu sangue, sacia as almas com esse fontenário de prodígios.
Converte os pecadores, dá-lhes esse remédio: é sangue de Cristo nas
veias da sua vítima, é o sangue de Jesus, transformado no da sua
vítima amada. Que loucura a minha pelas almas! O que faço por elas!
Dá o teu sangue, dá o teu sangue, minha filha, e nada temas. Não
pode naufragar a barquinha, de que o leme e o piloto são Jesus.
Coragem, coragem, sempre firme e confiada que passará tudo, menos as
minhas palavras. Cumprir-se-ão sem nada faltar.
Jesus
falou-me de certas almas da minha família, ainda. Disse-me que O
ofendiam muito, mas prometeu salvá-las. E, para desagravar o Seu
Divino Coração, pediu-me para por elas suportar três ataques do
demónio. Pediu-me mais dois para completar cinco em honra das Suas
cinco chagas, sendo um para O desagravar pelas famílias e outro por
certas almas da freguesia e de fora dela, homens e mulheres de
avançada idade.
— Minha
filha, a medida está cheia. Vê como elas me ofendem. A sua salvação
está em risco. Repara, repara por elas.
— Custa-me tanto, meu Jesus, saber-Vos ferido por todas as almas,
mas mais ainda por aquelas que me pertencem. Queria lançar-me às
feras, por elas ser devorada. Queria arrancar do peito o coração,
para ser esmagado aos pés, aos pés de todas as criaturas. Enfim,
queria sofrer tudo, tudo para não Vos ver ferido e para as almas
serem salvas.
— Alegra-te com o teu sofrimento, minha pomba bela, para com ele
elas se poderem salvar. E agora, filhinha, diz ao teu Paizinho que
os homens nada vencem. Nas minhas divinas mãos estão os seus
corações, posso obrigá-los a fazerem o que me aprouver. Não é só ele
que é massacrado e ferido. Sou-o eu também pela forma como eles
procedem. Que grande glória ele me dá com o seu sofrimento inocente,
e que grande proveito para as almas. Dá-lhe toda a luz do Divino
Espírito Santo, para ele facilmente as conhecer. Dá-lhe o meu Divino
Coração com toda a intensidade do meu amor, doçuras, riquezas e
graças, em recompensa da sua dor. Dou-lhe tudo por ti. Apresenta,
filhinha querida, ao teu médico o centro do meu Divino Coração com
todas as iguarias celestes, com todas as riquezas divinas. São para
ele, são para todos os que lhe são queridos. É o prémio do seu
trabalho, é a recompensa da sua defesa pela minha causa divina. Que
ampare o teu corpo, que ampare a tua alma. o que ti faz a mim o faz.
Velar por ti é velar por mim. Tudo o que de mi tem recebido e vai
receber pelas tuas mãos passou e vai passar. Vem, ó bendita Mãe, dar
força à nossa filhinha, para que ela possa subir o calvário. Vem
comigo a confortá-la, vem depressa, para não demorarmos.
Veio a
Mãezinha, tomou-me em Seus braços, apertou-me ao Seu santíssimo
rosto, acariciou-me e disse-me:
— Nada
temas, filhinha amada do meu Jesus. Estou contigo no teu martírio,
assim como Jesus está. Sofre como nenhuma outra vítima? É a prova do
nosso amor. Jesus ama-te. És amada como nenhuma criatura da terra.
Eu amo-te. És enriquecida como nenhuma outra alma. Nunca o mundo
viu, não viu nem volta a ver Jesus operar numa esposa Sua tão
grandes maravilhas, nem dispensar tão grande amor.
Veio
Jesus e acrescentou:
— Minha
filha, a tua cruz espera-te. Vai para ela, vai para o teu martírio,
para a tua dor. Vai confiada que o céu não demora, e a minha causa
triunfará. Triunfarei eu sempre nela com todos os que são queridos
do meu coração e que dela cuidam. Não temas a escuridão, não demora
a luz eterna.
Logo
caíram sobre o meu corpo as dores, as amarguras, com a noite mais
carregada como um chuveiro fortíssimo. Aceitei e bendigo a Jesus e à
Mãezinha, porque Eles assim o querem. Ao deixar os braços da
Mãezinha, Ela ainda me disse estas palavras:
— Repara, repara, minha filha, os nossos corações, o de Jesus e o
meu.
6 de
Novembro de 1945
Não sei
fugir das minhas trevas nem tão pouco salvar-me delas. Infundo-me de
braços abertos, a saber-me perdida sem me esforçar por saber nada.
São mundos e mundos, mares e mares de cegueira. Mas ah! bendito seja
o Senhor. Não quero fugir à minha cruz. Ela é toda de espinhos, e
neles me sinto cravada da cabeça aos pés. Todo este pobre corpo, que
já não é meu, é uma chaga viva. São tais as ânsias de me dar a
Jesus, são tantas e tão grandes de O amar e salvar-Lhe as almas que,
para esses fins, queria ver este mísero corpo num esqueleto
desfeito: sem sangue, sem carne, sem vida.
— Meu
Jesus, nem sei o que quero. Não sei o que sofro, não sei o que vivo.
Sou ceguinha, Jesus, e não Vos vejo. Não sei onde habitais nem onde
posso encontrar-Vos. O que sei, Jesus, ai isso sei, é que este pobre
coração, com esta vida que tem, com a vida da alma, quer ir ao Vosso
encontro, ao encontro da Vossa luz. Quer deixar o corpo e o mundo,
porque aqui não pode existir. Que revolta! Que revolta! Quero
separar-me deste lodo, desta lama e quero ir para Vós. Mas ai, meu
Jesus. Vede o sentir da minha alma de Vos ter perdido e
compadecei-Vos de mim. Sofro com todos, e parece-me que a todos faço
sofrer. Sofro com a presença das almas que andam por caminho errado.
E, se eu assim sofro, quanto não sofreis Vós! Sofro com a sua
presença, mas quero consolá-las e prendê-las ao Vosso Divino
Coração. Mas não sei como e não vejo. Não sei como e não tenho quem
me ensine e me dê luz. Tudo me roubam, fico sozinha. Ficou o meu
santo médico, mas sinto como se não o tivesse. Ele diz-me palavras
de conforto, e por vezes parece-me que o não ouço nem vejo. Cobri-o
de glória pelo que tem feito por mim. Eu não queria ser ingrata para
o Vosso Divino Coração nem para ninguém. Mas para ele sinto que sou
ingrata e por vezes lhe falo bruscamente. Enchei-o do Vosso amor,
recompensai-o por mim
Já dei
a Jesus duas lutas com o demónio. E que dolorosas elas foram!
Parece-me ficar tanto tempo entregue ao pecado! Não posso pensar que
haja tanta maldade da parte dos homens e que tenham coragem para
dizerem palavras tão feias e tão cheias de malícia.
No
primeiro destes ataques, que foi ontem, quando pude bradar
fortemente ao céu a pedir socorro e dizer a Jesus que não queria
pecar, Ele apressou-se a vir, pois eu parecia-me que estava perdida.
— Não
pecaste, não, minha filha. Confia em mim. A tua luta foi como a vida
e a morte; foi o pecado com a virtude. Lutaste, lutaste e não me
ofendeste. Peço esta reparação a quem posso pedir. Alegra-te,
acredita em mim. Desagravaste mais o meu Divino Coração do que se
durante um ano sofresses, jejuasses e orasses. Vê que valor! Vê a
minha loucura de amor pelas almas, o que exijo da minha virgem pura
para as salvar. Acreditas, acreditas em mim? Sou Jesus.
— Acredito, meu Jesus, confio em Vós cegamente. Acredito que não me
enganais, como sabeis também que não quero enganar-Vos.
Fiquei
a acreditar em Jesus, mas com a minha alma tão dorida! Que
pena saber que Ele é tão ofendido, e ainda para maior dor ser pelos
meus!
Não
posso falar, não tenho forças. Confio e temo. Confio a custo, mas
confio cegamente. Jesus não falta, mas pobre de mim que tenho tanto
medo de Jesus e medo de vacilar, medo de não confiar como devia.
Disse muitas vezes a Jesus:
— Quero
dar-Vos até à última gota do meu sangue pelo Vosso divino amor e
para acudir aos pecadores, assim como Vós o destes por mim.
Mas não
pensava que Jesus tomava as coisas tanto a sério. Só ontem é que me
lembrei da minha oferta a Jesus. E, como me sinto sem sangue, sem
vida, temo de um momento para o outro deixar o mundo sem a
realização das promessas de Jesus. Temo, temo, é a minha fraqueza.
Mas Jesus, o meu querido Jesus, não falta. E eu, no meio da cegueira
horrorosa do meu espírito, hei-de confiar n’Ele e Ele há-de
perdoar-me os meus desfalecimentos, os meus desânimos, que por vezes
me parecem serem desgostosos para o meu querido Jesus, porque sinto
em alguns momentos que estou como que arrependida das minhas ofertas
e entrega total a Jesus. Mas não é verdade este meu sentir de alma.
Eu sou e quero ser sempre de Jesus e das almas. Não quero viver
senão para O consolar e salvar-Lhe os filhos Seus.
— Mas
como, meu Jesus, se eu não vejo nem sei o que é verdade nem acredito
em mim nem nos meus sentimentos? Ó meu Deus, ó meu Deus, ai de mim,
se deixo de confiar em Vós! Ó céu. Se a ti não recorro, quem poderá
valer-me?
Das
criaturas nada espero, e parece-me que até as aborreço. Mesmo
daquelas, a quem eu mais amava, sinto que as desprezo, e elas a mim.
Sou sozinha, sozinha e ceguinha sem ninguém. Perdi tudo por não ter
um coração para amar, um coração para sofrer. Não tenho utilidade
nem para o céu nem para a terra. Perdi-me na minha cegueira, estou a
falar com as trevas, com a morte. Ah! Se eu soubesse mendigar amor e
nesta cegueira o pudesse mendigar! Não fazia outra coisa a não ser
mendigar amor das almas para Jesus.
— Ó
minha cruz, beijo-te e abraço-te mesmo assim coberta de espinhos,
porque em ti está Jesus. É nestes espinhos tão agudos que eu quero
passar da terra ao céu, já que assim o quereis, meu Jesus.
O
demónio atormenta-me, assalta-me. Repetiu por algumas vezes as suas
ameaças, mas não veio fortemente. Mas uma vez venceu, tive que lutar
com ele. Se Jesus não me acode, quem poderá fazê-lo? Ninguém, só
Ele. Antes queria estar no inferno nos momentos da luta. Que receio
de ofender o Senhor! Pareceu-me que só pedi socorro ao céu depois de
não ter remédio. Sentia-me estar toda entregue ao vício e uma grande
criminosa diante de Jesus. Ao tempo que eu chamava por Ele e
terminava o combate com o malvado, eu vi no abismo medonho, que sob
mim estava, aqui e ali, umas grandes rosas brancas. E Jesus
disse-me:
— Sossega, não pecaste. Olha, são flores de virtude. A tua reparação
fez penetrar a luz naquelas almas, por quem te pedi este combate.
São para ti estes momentos, momentos de dor, mas também de amor. E
para elas hora de graça, momentos de salvação. Coragem, coragem,
pois! É contigo o meu amor.
Deixei
Jesus muito dolorosa e tímida com o medo de ter pecado. Deixei-O,
para seguir ao horto. Ele seguia dentro de mim, a ver, como no
momento, os sofrimentos que lá O esperavam. Ia com peito aberto, e
do Coração saía-Lhe uma grande fornalha de fogo. Era aquele amor que
O levava a tanto sofrer. Senti lá o beijo traiçoeiro de Judas, o
prender das mãos, o cair por terra dos soldados. Não posso igualar a
inocência e mansidão de Jesus e a maldade deles. Oh! Com que custo
subimos a subida que se seguia ao horto.
Ai
tanto pontapé e maus tratos, e quantas vezes Jesus já caiu por terra
com os empurrões que Lhe davam. Não sei dizer o que mais senti e nem
posso falar.
Caminhei morta para o calvário e sobre a minha morte levei a morte
de toda a humanidade. Que peso sobre mim! O meu coração ia dentro de
um ouriço de espinhos. No meio deles tinha que dar a vida com grande
prova de amor. O coração não era meu, era de Jesus, a mim nada
pertencia senão uma frágil teagenzinha. Em todo o percurso do
calvário não tiveram conta as varadas que o meu corpo levou. Apenas
chegada ao lugar, o verdadeiro e doloroso calvário representou-se
dentro de mim. Que corações aflitíssimos rodeavam a cruz! Mas o da
Mãezinha, o da Mãezinha em nada se parecia com os outros. Nem toda a
dor unida se podia comparar à d’Ela. E, por entre aquelas nuvens
negras da morte, rompeu Jesus, sobressaiu, foi brilhar mais além.
Venceu tudo e de tudo triunfou. Mas eu não O acompanhei naquele
vencimento, naquele triunfo, naquela luz. Fiquei sempre na minha
dor, amargura e agonia. Ele foi, mas ficou sempre comigo no meio do
gozo, da luz triunfal; unido a mim e transformado em mim sofria.
Queria
saber falar desta separação de Jesus para o gozo e ao mesmo tempo da
união dolorosa dentro do meu corpo, mas não sei. O que sei é que a
agonia continuou, o sangue corria das minhas chagas, e as trevas
ficaram sempre a cegar todo o meu espírito. O brado foi contínuo,
sem o Pai ceder a confortar-me. Bradava mais forte para ser ouvida,
mas apenas aumentava ainda mais a agonia. Ia a morrer. Veio Jesus.
— A
minha paz é contigo, minha filha. Contigo está sempre o teu Esposo,
o teu Rei, o teu Pai, o teu Senhor. Sempre velei por t i e continuo
a velar até ao fim. Tem coragem! Faltava ainda nisto assemelhar-te a
mim. Eu temi os sofrimentos, temi a morte. Foi o pavor que no horto
me abriu as veias. És a vítima mais semelhante a Cristo. A perda do
teu sangue é uma crucifixão contínua, é nova obra de resgate.
Milagre, milagre! Prodígio, prodígio, ó grande maravilha! Bastava
isto, não era preciso mais nada, minha pomba querida, para que os
homens compreendessem a minha grandeza divina na tua alma. É a maior
das minhas maravilhas. Calvário, ditoso calvário, lugar bendito, que
possuis a rainha do mundo, és abençoado por mim. Minha filha, os
dias, as horas que passam são graves, são de grande perigo para a
humanidade. Pede oração, penitência e reparação. Depressa, ainda é
tempo. Se assim o fizessem, poderiam dizer: “a nossa rainha não só
nos acudiu às almas mas também aos corpos; foi ela que, em nome de
Jesus e com Maria, nos veio salvar”. E não são as almas, filhinha
querida, a quem queres acudir? Diz-mo com toda a simplicidade do teu
coração.
— Sim,
meu Jesus, primeiro as almas, mas, se puder ser tudo, poupar-lhes os
corpos à justiça divina. Perdoai-lhes, Jesus, e imolai-me sempre.
— Vem
cá, louquinha do meu amor, louquinha das almas. Quero pertencer-te
todo como tu a mim pertences. Fiz-te a entrega do meu Divino Coração
e faço-te agora a entrega de todos o meu corpo.
Neste
momento, Jesus abriu o Seu peito santíssimo. Era como um sacrário: o
peito de Jesus, o sacrário, o coração, o sagrado vaso. Jesus
disse-me:
— Entra, minha filha, com umas almas para dentro do coração, que é
cofre, tesoiro infinito, e deixas outras fora, mas dentro do abrigo
desse cofre de riqueza. Entra com elas para o peito até que as
prepares para entrarem no coração. És poderosa, e dou-te mais outro
poder: às almas, às quais disseres que lhes dás todo o meu amor, ele
será dado. Mas mais ainda: àquelas, às quais disseres que Jesus lhes
dá o céu, têm-no de certeza; e às que disseres que Jesus lhes perdoa
os seus pecados ser-lhes-ão perdoados. Sim, não as dispensando do
sacramento da penitência. Isto é para as almas tímidas e receosas do
meu perdão. As tuas palavras servir-lhes-ão de grande conforto.
Coragem, filhinha. Terás os dons do Espírito Santo: a Sua luz
divina, para nos outros tudo veres e compreenderes; o da fortaleza,
para tudo suportares e venceres. Coragem nos teus desfalecimentos.
Coragem até que chegue o céu. No meio dos maiores sofrimentos e
trevas terás uma morte de amor. A tua passagem será como o adormecer
dum anjo. Vou dar-te, minha filha, uma transformação de sangue:
outras três gotas, mas mais pequeninas ainda. Assim, irei diminuindo
até que terminem.
Injectou-me Jesus numa veia sobre o coração as gotinhas do Seu
sangue divino. Era pouquinho, mas o coração ia a dilatar-se. Jesus
não deixou, disse:
— Não,
isso não, não aguentarias com essa dilatação, sou o teu médico
divino. Faço milagre, para não castigar; espero, para não punir.
— Obrigada, meu Jesus.
— Sinto-me desaparecer à vista de tanta bondade, de tantas grandezas
para comigo. Sinto-me menos ainda do que a poeira que se espalha nos
ares, o fumo que desaparece para nunca mais ser visto. O Senhor do
céu e da terra inclinou-Se sobre o que há de mais vil e miserável.
— Bendito sejais, meu Jesus. Aceitai o meu grande esforço e enorme
sacrifício. Quando voltarei, Jesus, a dizer o que me vai na alma?
Quando for da Vossa vontade. Eu já pouco sei dizer.
N.B.
– Há três meses que a doentinha tem diariamente perda de sangue.
Atendendo a isso, ordenei que, até nova ordem, não ditasse os seus
sentimentos de alma senão nos dias em que não perdesse sangue.
Assina: o médico assistente.
O
aumento dos meus sofrimentos físicos fizeram-me aumentar os morais.
Desfaleci, desfaleci. Desgostaria a Jesus? É a minha maior pena.
Sofri tanto, tanto! Sei que sofri. Foi este pobre corpo e alma que
sofreram, mas não sou capaz de dizer essa espécie de sofrimento. É
indizível. Eles vieram dum lado e doutro, apressadamente, como rios
de água a correrem para o mar. Vieram esses rios de dor parar ao mar
infindo da minha cegueira, e ali toda a dor se mergulhou e morreu. É
por isso que não sei falar da dor, só sei falar da negra escuridão.
Não sei e não posso. O meu peito não tem vida.
— Ajudai-me, Jesus, se desta vez assim o quereis.
Na
noite de onze para doze, no meio dos meus tremendos sofrimentos,
ouvi repetidas vezes uma doce voz, que me dizia:
— Convite para o céu, convite para o céu.
O meu
espírito levantava-se, a pensar nessa Pátria. Ficava ainda mais a
suspirar por ela: o horto de ontem, o calvário de hoje, a cruz e
todo o meu corpo. Todo o meu corpo foi uma massa de sangue com a
mistura dos sofrimentos, que não sei dizer, de que acima falei.
Nesta agonia triturante, veio Jesus ao meu encontro e disse-me:
— Minha
filha, quando for conhecida a tua vida de inigualáveis sofrimentos,
o que dirá o mundo, o que vão dizer muitas almas, almas que nada
conhecem e nada compreendem de mim? Que não te amava com amor de
Pai, com amor de Esposo; que não te amava como digo. Grande engano!
Deviam dizer: “Oh, como Jesus amou esta alma e como nos amou também
a nós! O que Ele fez para nos salvar!” Sim, minha filha amada, tudo
o que faço é para acudir aos pecadores. E, assim, como és
inigualável às outras almas no sofrimento, assim és também no amor e
no poder. Amo-te como nunca amei; dei-te poder como nunca dei;
enriqueci-te das minhas divinas riquezas como nunca tinha
enriquecido nem voltarei a enriquecer. És grande no poder, és grande
na graça, na pureza e no amor. És grande, porque possuis a grandeza
do que é grande e poderoso. O aumento dos teus sofrimentos nestes
dias foi para bem do mundo, foi para bem do teu e meu querido
Portugal. Pesaram, pesaram na balança do Bem. Foi para ele não
sofrer aquilo que devia sofrer. Aumentei-te os sofrimentos, para te
ouvir repetir muitas vezes por ele a oferta de vítima. Fiz-te sofrer
muito, para não haver aquela injusta ingratidão àquele que, com a
tua imolação e auxílio da minha Bendita Mãe, foi guia da Nação,
escolhido por mim. Foi instrumento manejado pela mão divina, mas com
a dor nunca igualada deste calvário.
— Meu
Jesus, acudi, acudi a Portugal. Não é por mim que ele pode ser
salvo, mas por Vós e pela Mãezinha, à qual me entrego de alma e
coração com todos os sofrimentos, para que Vos utilizeis deles para
salvar a minha pobre Pátria, para salvar o mundo inteiro. Sou
miséria e nada posso, mas em Vossas divinas mãos está o poder. Sou a
Vossa vítima, Jesus.
— Ai de
Portugal, minha filha, se não corresponde! Ai do mundo, se não se
emendar. Penitência, penitência! Depressa, já penitência! Coragem,
minha filha, confia: não te abandono. Confia, estou contigo. És a
glória do mundo.
— Meu
Jesus, estou esgotadíssima, não posso falar. Não Vos sinto a Vós nem
sinto a ninguém por mim. Não sei como hei-de ditar.
— Toma
ânimo. Não o sentes, mas estou em ti e a teu lado. Tens muito quem
seja por ti e pela minha divina causa. Não podes falar, mas tudo
continua, enquanto dura a tua pequena vida na terra. Quero-te assim
enfraquecida, mas continuam a falar às almas os teus olhares, os
teus sorrisos, a tua doce tranquilidade e resignação no sofrimento,
o teu amor à cruz. Tudo isso fala e diz tudo. Tudo isso convida as
almas a virem a mim. Quero que o teu médico, ou alguém que em pouco
te compreenda, faça um relato do que em ti se for passando, para
provar que a minha vida divina na tua alma não acabou, continua, e
continua sempre, até à realização das minhas promessas. Só te
deixarei, para no mesmo momento te receber na Pátria celeste. És
minha, só minha, rainha do mundo, mãe da humanidade.
Há
catorze dias que eu recebi a visita dum senhor padre desconhecido e
de longe. Não sabia nada como era o seu viver. Senti logo que ele
tinha bom fundo e boas qualidades. Mas, apesar disso, sofri muito.
Nos primeiros momentos em que fiquei a sós com ele, não ouvi uma
voz, mas tive uma luz que me fez ver tudo, tudo, meu Deus. Dei-lho a
entender. Ele, cheio de boa vontade, só queria saber o que era a
vontade do Senhor, para a cumprir. Hoje mesmo, Jesus falou-me nele.
Prometeu perdoar-lhe, prometeu salvá-lo, indicou-me o caminho que
ele devia seguir. Oh! Como Jesus é bom!
Há dois
dias que senti, como nunca, que o meu Pai espiritual vai ser
libertado. Os olhos da minha alma viram como que cadeias cortadas,
portões abertos, para poder sair. Mas dum e doutro lado saíam
teiazinhas de aranha, que punham estorvo à sua sida. E então muitas
mãos amigas tudo desfaziam e faziam desaparecer. O sol quer romper
as nuvens e raiar com toda a força. Com ver e sentir tudo isto, nada
me alegrei. Em trevas estava, em trevas fiquei.
— Meu
Jesus, para mim já é tarde, nem ao menos posso falar-lhe. Mas,
apesar disso, de nada poder, quero-o, Jesus, para Vossa glória, para
bem das almas. E esta ânsia de o ver e de pouco a pouco dizer-lhe o
que foi a minha vida destes quatro anos consome-me o coração, fá-lo
chorar cá por dentro. Jesus, quando chegará esse dia?
Quando
eu podia ditar, embora muitas vezes com enorme sacrifício, fazia-o
obrigada: não o queria fazer. E agora que nada posso queria ditar.
Tenho pena de o não fazer. Bendito seja o Senhor!
Sinto o
meu corpo a dar os últimos arrancos de vida. É como uma máquina que
não tem forças para arrastar o peso das carruagens. Este peso, de
que falo, são os meus sofrimentos.
— Ó meu
Deus, ó meu Deus! Ai, o que me fere! Ai, quem me fere! Não tenho
forças para mais. Tomai a minha cruz, Jesus. Deixo-a cair, não
resisto, não posso mais. Ó ingratidão, negra ingratidão! Ó bom
Jesus, quanto sofrestes com ela! Até mesmo nisso me assemelhais a
Vós. Houve ingratidão para o Vosso amantíssimo Coração até aos
últimos momentos, e eu para lá caminho, meu Jesus, sobrecarregada de
ingratidão também.
— Cruz,
cruz bendita, eu te abraço como a maior prenda do meu Jesus.
A minha
alma sente e dorme o sono do corpo na sepultura. Tudo é noite, tudo
é morte, tudo é silêncio. Podem bradar o que bradarem por ele, que
ele não ouve. Mas a alma sofre com esta surdez, com esta prisão de
lábios, com este silêncio. Sofre, sofre, não sei dizer o que ela
sofre. Quanto mais quero dizer, menos sei, e menos ela sente. Que
cegueira! Que cegueira! Sofro e não sei sofrer! Quero amar e não sei
amar!
— Ó
morte destruidora do meu corpo e da minha alma! Ó morte, ó cruel
morte, como eu te temo, e me causas horror!
Jesus
já está entregue dos ataques do demónio, que me pediu. As últimas
duas reparações foram-me pedidas em forma de cães. Que cenas
dolorosas e tristes! Atormentou-me o espírito com várias falsidades,
mostrando-me o meu médico e pessoas, que estimo, de ventre aberto e
cabeças degoladas. Isto era para me mostrar que de nada valiam os
meus sofrimentos e a renovação da oferta de vítima pela minha
Pátria. Sou inútil ao céu e inútil à humanidade.
Estou
no horto, horto que se desfaz para o meu corpo em mantos de dor e da
mais extrema agonia. E, com todo este sofrimento, sinto as veias a
rasgarem-se-me no meu corpo. Sinto-me morrer com o peso da justiça
divina. Estou por terra, e sob os meus lábios o cálice da amargura.
— Jesus, para Vós e para as almas o meu enorme sacrifício.
Não
posso ditar mais nada.
— Não
posso falar, meu Jesus. O que hei-de eu fazer para cumprir a Vossa
santíssima vontade? Dizer alguma coisa do muito que me vai na alma,
deste muito que já tão pouco sei dizer?
Se
milhões de mundos houvesse, eu diria que todos caíram sobre mim,
para me encobrirem toda a luz e mais me mergulharem na cegueira do
meu espírito. Não posso com mais escuridão. Não posso com mais dor.
Que enleios de sofrimentos! Não lhes vejo o princípio, o meio nem o
fim: vêm-me de todos os lados, estão enleados uns nos outros. Os
açoites de hoje senti-os na alma e não no corpo. No caminho do
calvário, queria levantar-me depois de ter caído e não podia. Ainda
com o joelho em terra, caía novamente para a frente, ficando-me o
rosto todo esfacelado e em sangue. E todos os sofrimentos, que mais
senti, foram na alma e não no corpo, dos sofrimentos que dizem
respeito ao calvário. No meio da tremenda agonia, o meu brado
contínuo era escondido na cegueira do meu espírito. É indizível o
meu desfalecimento.
Jesus
apressou-Se a vir confortar-me e apressou-Se também a retirar-Se de
mim.
— Minha
filha, amada minha, quando quiseres encontrar-me, entra dentro do
teu coração. É nesta doce morada que eu estou sempre. E como me
encontras tu? Todo deliciado com as tuas virtudes, cheio de glória e
amor, daquele amor que tu dás às almas, daquele amor de que tu és
incendiária. Fujo do mundo, não posso habitar nele. Escondo-me no
tabernáculo do teu puro e rico coração. Tem coragem! O teu martírio
sem igual é a minha maior consolação e alegria. É também reparação
sem igual. A tua cegueira e trevas de espírito são a luz mais
luminosa para a cegueira das almas. Alegra-te com as palavras do teu
Jesus.
— Parece-me, sinto, meu Amor, que nada há que me alegre, que nada
faço por Vós. Vejo-me tão sozinha e sem saber o que hei-de fazer!
— Escuta, esposa minha. Todas as palavras das ofertas que me fizeste
não foram deitadas ao vento: aceitei-as todas. Fui eu que te
inspirei, para que mas fizesses, e o Espírito Santo que te iluminou,
pois encontramos em ti uma generosidade sem igual. Não querias tu
ser junto de mim como a lampadazinha que se extinguia? Assim vai
ser: vais-te extinguindo dia a dia. Não és só a lâmpada dos
sacrários, és a lâmpada do mundo, és a lâmpada dos tabernáculos das
almas, és a sua luz e vida. És lâmpada que não chega a apagar-se. No
mesmo momento em que fores amortecida, acender-te-ás com novo
brilho, com nova vida, com a vida da eternidade. Filhinha, filhinha
querida, as tuas forças não voltam mais. Vais ser, momento a
momento, a lampadazinha de que falei. As tuas falas aumentam de
grandes sacrifícios, mas nada temas, que a tua vida de amor, a tua
vida de bem para as almas continua nos teus olhares, sorrisos e
doçuras até ao último momento. Que vida de encantos e maravilhas
divinas! Quero que tomem nota da minha contínua vida de acção divina
na tua alma, rica e encantadora. Tem coragem! Deus não muda.
Coragem! Coragem! Não voltam atrás as minhas divinas palavras.
Jesus
disse-me isto em tempo muito breve. Retirou-Se ou fez que Se
retirou, e eu fiquei por algum tempo com a alma mais forte, mas
parada no meio da cegueira, sem ver ninguém, num lugar desconhecido.
Queria abraçar com toda a força a minha cruz, coberta de espinhos, e
não posso, não tenho força.
— Abraçai-a por mim, meu Jesus, e não permitais que eu deixe de Vos
amar e deixe de amar as almas!
Tenho
que desistir, não tenho forças, não posso falar para dizer os
sentimentos da minha alma. E, agora que o não posso fazer,
apetece-me chorar.
— Meu
Deus, que cegueira a do meu corpo e a da minha alma!
E, no
meio desta noite tormentosa, sinto dores horrorosas. Sinto na alma e
no corpo um tormento inexplicável. Por maior que seja o meu esforço,
nada digo, porque não sei. Não posso pensar que o meu corpo há-de
ser tocado ou poisar na minha cama ou por ele passar qualquer
aragenzinha. Queria poder sustentar-me no ar, onde nada pudesse
tocar-me. Que tremendo horror! Ai, como tenho o corpo e a alma
feridos! Tenho nojo e medo da minha cama. Quantas vezes, de repente
me apetece chamar-lhe maldita e excomungada. Queria abandoná-la, não
posso estar nela. Tenho medo, tenho medo!
— Sim,
meu Jesus, quem há-de resistir a isto? Só Vós, só Vós. Oh! Se eu
neste ponto soubesse dizer o que sinto!
Tive um
novo ataque do demónio, violento, mas pouco demorado. O coração
estava aflitíssimo e o peito ofegante. Ao ouvir as suas feias
palavras, mais em espírito do que com os lábios, oferecia-me a Jesus
e à Mãezinha e pedia-Lhes para não pecar. Ao terminar da luta,
fiquei aterrada na minha escuridão e no receio de ter ofendido a
Jesus. Não resistia, se Jesus não viesse. Ele apressou-Se a vir e
disse-me:
— Não
pecaste, não, amada filha. É à sombra da Eucaristia que a alma,
louca de amor por mim, se consola e delicia. É à sombra da tua
pureza que o mundo se purificará. É da tua pureza que eu recebo a
reparação das suas maldades e crimes. Dá-me tudo, dá-me tudo o que
te peço, para que as almas tudo possam receber. Coragem, estou
contigo.
Desisti, não posso. Vou a caminho do horto. Vejo todos os
sofrimentos que lá me esperam. Tenho de sofrer em silêncio sem um
desabafo. No meio deste sofrimento não peço a Jesus o céu, mas
lembro-Lho. Fico em espírito por muito tempo a repetir:
— Jesus, o céu, o céu, o céu…
Sei
dizer que sofri e pouco mais. O meu calvário de hoje foi como um
sarilho que em si enrola fortes cordas. Enrolei-me no sofrimento e
na mais tremenda cegueira. Montanhas, montanhas e mais montanhas,
que chegaram ao céu e o encobriram. Abafaram também os meus gemidos
e os meus brados: tudo era abandono. Mas, mesmo assim, sentia dentro
de mim um coração, que se abria para receber a pobre humanidade
ingrata. Não posso falar, vou apenas dizer as palavras de Jesus. Ele
veio ao encontro da minha cegueira, tirou-me dela, suavizou a dor da
minha alma e disse-me:
— Anda,
minha filha, ao meu encontro, entra no palácio real, onde habito
sempre, que é o teu coração. Sim, escuta-me, estou aqui, mesmo
quando o abandono não te deixa sentir-me, e com a cegueira do teu
espírito não consegues ver-me. Estou aqui, não te deixo. Vem, diz-me
o que queres de mim, o que de mim queres receber.
— Meu
Jesus, quero o Vosso divino amor, a graça de levardes comigo a minha
cruz e a realização das Vossas divinas promessas.
— O meu
amor já o possuis todo. Sou louco por ti, amo-te como nunca amei a
nenhuma das minhas esposas e vítimas. A tua cruz levo-a contigo, não
temas, confia em mim. Auxilio a todos e como poderia eu deixar de te
auxiliar a ti, se o teu sofrimento atingiu toda a altura, e a tua
generosidade é sem igual?
Quando
Jesus falou dos sofrimentos, levantou ao alto as Suas divinas mãos,
como que não pudesse subir mais. E, quando falou de generosidade,
abriu os braços e o peito, como quem deu tudo e não tem mais que
dar, e continuou:
— À
realização das minhas promessas nada vai faltar. Não duvides, por
mais que te pareça morreres. É verdade que a lampadazinha se vai
extinguindo, a luz vai baixando o seu clarão. Sim, filha, porque a
tua vida já é do céu, a vida da terra é quase só fingida. Mas, para
continuares a viver, para o meu milagre continuar a operar-se, vais
receber mais três gotinhas do meu sangue, mas mais pequenas ainda.
E, como
quem injecta, Jesus deixou cair sobre o meu coração, muito
devagarinho e espaçosas, as três gotinhas do Seu divino sangue, mas
tão pequeninas que mal as via cair. Ao cair a última, Jesus veio
logo com Sua divina mão sobre o meu coração e disse-me:
— Pronto, pronto, não podes sentir a minha força. Sou médico divino,
mas tenho de ter o cuidado do médico humano, que, para não matar,
aplica os remédios com brandura. Oh! Maravilhas divinas! Que loucura
de amor tenho por ti e que loucura tenho pelas almas! O que faço
para as salvar! Vai em paz, flor bela de Jesus, pastorinha do Pastor
divino, confia, confia sempre. |