4 de
Janeiro de 1945
– Jesus, quais são os miminhos que de Vós vou receber neste novo
ano? Estou cheia de medo, ou mais ainda, cheia de pavor. Venha o que
vier, pelo muito que eu seja ferida, humilhada e abatida, com a
Vossa graça divina a tudo direi: “Seja bem-vindo, faça-se a vontade
de Jesus; sou vítima do meu amor, vítima das almas”. Confesso, meu
Jesus, que o meu maior receio é a minha fraqueza, temo ofender-Vos.
Confio em Vós; seja firme o meu amor e subirei alegre o meu
calvário. Reparai e vede, Jesus, as ânsias que tenho; se não fôsseis
Vós, tiravam-me a vida. Queria nascer agora, mas já Vos conhecer
para nunca manchar o meu corpo. Queria que comigo nascesse o mundo
inteiro e que todo ele já Vos conhecesse também para não se deixar
manchar. Queria um coração novo, mas que sempre Vos tivesse amado
para nunca deixar de Vos amar. O mesmo querer tenho para todas as
criaturas, para assim Vos amarem com o mesmo amor que para mim
desejo. Onde hei-de esconder-me e comigo esconder o mundo? Onde
hei-de purificar-me e purificar o mundo a não ser em Vós?
Escondei-me, purificai-me. Fazei-me nascer agora para a graça e para
o amor e comigo nascer o mundo, mas de tal forma como se eu nem ele
Vos tivesse ofendido. Não sei onde estou; não vivo neste exílio nem
vivo no Céu. Parece-me viver entre ele e a terra. Fui para esta
morada, comigo levei o mundo, morada sem luz, sem vida e sem nada. A
minha alma rasga-se de dor, é indizível o que sinto em mim. Meu
Deus, que derrota! Não tenho luz, e roubaram-me os guias de tão
tremendos caminhos. Morro na escuridão, Jesus, morro desfalecida.
Vinde, vinde com a Mãezinha, dai-me força, dai-me vida.
Não
posso pensar nos combates do demónio, tremo de horror. Ele arma
tantas ciladas para prender-me! Forma tantos assaltos à minha alma!
Parece-me morrer de dor. Ouço a sua voz maldita desafiadora. E
quando fica só assim! O que mais me aflige é quando ele faz o que há
de pior. Na manhãzinha de ontem, preparava-me para comungar e logo a
alma principiou a sentir os seus assaltos. A minha preparação foi um
terrível combate. Que vergonha a minha à chegada de Jesus ao meu
coração! À voz de chamada do demónio vieram muitos demónios. E o
maldito dizia-me:
– Tu és
o manjar mais delicioso para todos os demónios do inferno. Olha como
te preparas para comungar. É assim que és uma esposa de Jesus! Não
és, não és, Ele não te quer, és minha, dá-me o teu coração. Se mo
deres por vontade, dou-te o mundo com todos os encantos, grandezas e
prazeres.
Nesta
altura, consegui renovar a Jesus a minha oferta de vítima e escrava.
– Não
quero o mundo nem nada que lhe pertença, meu Jesus, o que eu quero é
não pecar. Amar-Vos só e não magoar o Vosso Coração divino.
O
demónio redobrou de raiva. Sentia que o que ele queria era que eu
lhe desse de boa vontade o meu coração e com ele o mundo. O meu
corpo estava desfeito com o cansaço. O momento era grave. Ao
parecer-me estar tudo perdido, não haver remédio para mim, bradei ao
céu de alma e coração:
– Pecar
não! Valei-me, Jesus!
Cessou
a luta, mas ficaram-se na alma uns tristes efeitos. Uma tristeza tão
grande por não ter pecado, parecia-me que gostava ter ofendido a
Jesus. Que aflição a minha! O demónio, mais retirado, continuava
raivoso; queria voltar a arrancar-me a alma e a despedaçar-me o
corpo. A pouco e pouco, uma suavidade e paz apoderaram-se de mim,
invadiram-me toda. Jesus fez-me sentir que tudo o que se passava na
minha alma eram efeitos do demónio. Era ele que tinha pena de eu não
ter pecado e estava raivoso por não o ter conseguido. Chegou logo
Jesus para eu O receber; gozava uma grande paz, mas muito triste,
tímida e envergonhada. Logo que O recebi, esqueci por algum tempo
tão tremenda e feia luta.
Hoje,
voltou o maldito com outro ataque infernal. Só Jesus vê a dor que me
vai na alma. Disse-me que eram as pessoas cúmplices do meu crime,
ensinou-me a pecar.
– Meu
Deus, como sair disto sem Vos ofender? Só com a Vossa graça. Por
misericórdia Vossa, só nos momentos da luta eu sei e compreendo as
lições do mafarrico. É mais uma prova do Vosso infinito amor. Só Vós
sabeis quanto eu quero amar-Vos e reparar as ofensas feitas contra o
Vosso divino coração e nunca manchar o meu corpo nem a minha alma.
Triste quinta-feira que me dás a sexta!
A minha
alma está cansada de tantos sofrimentos, de tanta dor que a espera.
Temo as horas que se aproximam, temo a morte. O céu está revoltado
com tanta ingratidão da terra. Temo tudo, mas por tudo quero passar;
quero morrer para dar a vida!
5 de
Janeiro de 1945 – Sexta-feira
Sinto
necessidade de escrever e não queria dizer nada do que me vai na
alma. Faço-o por obediência. Que tristes horas correm para mim, que
grande agonia se apoderou da minha alma. Sinto que tantas ruas são
banhadas com o meu sangue. Vejo tanta revolta e indignação. Estou
tão humilhada! O meu corpo está como uma só chaga. O sangue da
cabeça causado pelos espinhos banha-me todo o corpo. Eu de braços
abertos entrego-me à cruz, deixo-me crucificar. Estou num brado
contínuo:
– Pai,
meu Pai, também tu me abandonaste! Sou a tua vítima, dou-me a ti
pelas almas. Ó meu Deus, se eu tivesse querer, preferia o inferno a
este sofrimento e ao tempo dos meus colóquios conVosco. Sim, meu
Jesus, se eu estivesse no inferno, em vez de Vos falar e Vós a mim,
não temia enganar-me nem enganar ninguém e não seria tão perseguida
do mundo. Perdoai-me, Jesus, o meu desabafo! É o horror que tenho ao
engano, à mentira; é o temor que tenho de mim mesma, é o medo das
sextas-feiras. Se elas desaparecessem e eu desaparecesse também no
Vosso amor infinito! Venha todo o sofrimento, venha a cruz, venha a
morte, tudo abraço, sou a Vossa vítima, Jesus.
Destes
sofrimentos passei para um inundamento de luz, paz e doçura. Jesus
demorou a falar-me, deixou-me por bastante tempo gozar daquilo que
era d’Ele. Falou-me depois.
– Minha
filha, cheia de graça, pureza e amor. Minha filha, rico tesouro
daquilo que é divino. És cheia de graça, pureza e amor, és rica do
que é divino, porque guardaste em ti com todo o cuidado, esmero e
amor, o que do céu te foi dado. Correspondeste à graça, és cheia de
graça. Minha filha, fonte divina, fonte de toda a humanidade. És
fonte divina, porque em ti existe tudo o que é divino. És fonte da
humanidade, porque a ti vem ela beber e purificar-se; és água pura,
és fonte salvação. Minha filha, hino de louvor, de amor e reparação.
Se pudesses ver o louvor que recebi, a vassalagem e homenagens
angélicas que me foram dadas no céu pela reparação que me deste,
pelas almas que salvaste com a dor com que te deixaste imolar! Foi
um ano cheio de amor, foi um ano cheio de salvação. Minha filha,
flor angélica, mimo da Trindade divina, mimo de Maria, mimo de toda
a corte celeste.
— A dor
que sofreste embelezou o céu, está adornado com ela, está escrita a
letras de oiro e pedras preciosas. Está escrita também a ingratidão
e a maldade dos homens contra ti e contra a minha divina causa.
Espera-te um ano cheio de amarguras e também cheio de alegrias, por
ti só experimentadas como sol brilhante que aparece para rapidamente
se esconder entre as nuvens. Nada temas, é esta a tua vida. É vida
que dá a vida, é dor que dá amor. Não te preocupes por nada veres do
que fizeste, do que sofreste, do que amaste. Não sofreste, não
deste, não amaste por ti, tudo me deste a mim. Nada poderás ver no
mundo, tudo passou para a pátria celeste; tudo está de posse do teu
Rei, do teu Esposo. Tudo verás, quando tiveres comigo o teu encontro
eterno. Sofre tudo, aceita tudo com alegria. As tuas asinhas
brancas, as tuas asas de alvura como a pombinha canseirosa voa ao
longe à procura de alimento que dá a vida aos seus filhinhos. Tu és
a vida das almas, a mãe dos pecadores, a rainha do mundo, a rainha
do amor. Minha filha, espelho cristalíssimo onde toda a humanidade
há-de ver-se e à tua imitação transformar-se. Anseio, anseio por te
ver na minha Pátria, para que todo o mundo conheça e aprenda na tua
vida, minha filha, escola sagrada das ciências divinas. Coragem,
vida que dás a vida, dor que dás amor. Recebe o meu amor divino para
levantar-te do teu desfalecimento e para receberes a vida de que
vives.
O meu
coração recebeu uma infusão de amor, senti as ânsias que Ele tinha
de me ver no céu e senti as homenagens que os anjos davam a Jesus ao
entoar-Lhe um prolongado hino de grande louvor e agradecimento. Ó
quanto me custou separar-me de Jesus para viver aqui. Que diferença
o céu da terra, o amor de Jesus do das criaturas.
6 de
Janeiro de 1945 – Primeiro sábado
Durante
a noite rodearam-me tantos, tantos demónios! Era aterrador! Nenhum
me tocou, mas vinham para perto de mim em tão grande número, de asas
negras, olhares feios, cornos tão compridos, quase me tocavam. Uns
de boca aberta como dum grande animal, língua de fora, deixavam sair
à espécie dum fumo escuro que formava como que labaredas da mesma
cor. Outros apresentavam-se em figuras de animais desconhecidos para
mim; eram feios e aterradores.
Cansada
desta prolongada visão, passei por um ligeiro sono. Mal despertei,
logo me veio à lembrança o primeiro sábado. Para mim estes dias são
de grande confusão.
– Meu
Jesus, se eu pudesse fugir para onde o sábado não existisse!
Perdoai-me, meu Amor, bem sabeis a causa de tudo isto. Eu podia
amar-Vos com grande amor e sem me falardes. Ó Mãezinha, não fiqueis
triste comigo. Tenho medo, muito medo, mas só quero a Vossa vontade
e a do meu Jesus.
Ai que
dia sem luz, que noite sem luar. O coração aniquilava-se, a dor
despedaçava-o. Veio o meu Jesus, pus-me a nadar no mar do Seu
infinito amor. Desapareceu a dor, o medo, o aniquilamento, e logo a
Sua divina voz se fez ouvir.
– Minha
filha, estrela luminosa, venho ao mar da tua dor buscar para mim
consolação e alegria, reparação que dá a salvação. Tu és fonte de
vida e de salvação. Espalha pela humanidade os aromas divinos,
aromas celestes das tuas angélicas virtudes. Ó planta tenra do teu
jardim celeste, ó flor angelical que eu neste calvário plantei. O
teu perfume delicia-me, irradia o céu, irradia a terra. És flor que
sai de entre os espinhos, és perfume que sobressai por entre o
sangue. Abraça a tua cruz, leva-a por amor. O sangue corre? Deixa-o
correr, é sangue de banho salutar para os pecadores. A cruz é sinal
de redenção. O teu sangue corre e correrá sempre, enquanto estiveres
na terra. É com esse sangue que desempenhas a missão que te dei. A
dor não sairá do teu corpo, a amargura da tua alma.
— O
amor divino em ti é superabundante, são cadeias do mais fino oiro
para prenderes os pecadores. Minha filha, esposa querida, que
mereceste ser por Jesus elevada à maior altura, dei-te os mais
honrosos títulos, dei-te toda a riqueza do meu divino coração. És
rainha, eu sou rei. Dei-te o reinado, dei-te a humanidade, filha do
meu sangue. Dei-te o meu amor: possui-lo no mais alto grau e
perfeição.
– Basta, basta, meu Jesus. Eu sei que falais de Vós, de mim não
podeis falar assim. Eu humilho-me e envergonho-me ao ver a minha
miséria, gostava mais que mostrásseis que a conheceis e que
dissésseis o muito que Vos ofendi.
– Sossega, minha pomba bela, a minha paz é contigo. Com a consolação
e alegria que me dás esqueço as tuas faltas, faltas que permito para
esconder as minhas maravilhas, o tesouro das minhas riquezas, o meu
amor infinito. Coragem, estou contigo! O rei está sempre ao lado da
sua rainha, não abandona o seu trono. Diz, minha filha, ao teu
paizinho que o inferno nada pode contra o céu nem os homens contra o
seu criador. Dá-lhe o meu amor com toda a abundância. Diz-lhe que é
grande a consolação que me dá pela sua obediência e grande
humildade. A sua libertação chega, a minha divina palavra não falta.
Ele vem junto de ti antes da tua morte. Tenho-vos mais unidos do que
se ele sempre estivesse ao teu lado a guiar-te e a dar luz à tua
alma. A vossa união é do céu e não da terra. Que esteja firme,
sempre firme. Esta recomendação de firmeza para ele e para quem a
tenho dado não quer dizer que não estão firmes, é uma prova de que
estão na verdade e que neles nada deve haver de medo nem temor. Diz
ao teu médico que os combates do demónio concorrem para o
agravamento dos teus males. Haja, pois, da parte dele toda a
vigilância. Temos de conservar-te a vida até que raie o dia para
nunca mais se escurecer. Diz-lhe que a ele e a todos os que com ele
coloquei a teu lado para te ampararem e defenderem a minha causa dou
o nome de vassalos. São eles que defendem a guerra contra o rei
divino e contra a sua rainha e esposa.
— Coragem a todos, o que é de Deus não morre; é certo o triunfo. Vou
dar-te o sangue do meu divino coração, a minha vida divina da qual
só vives e dás às almas. Dou a tua irmã como prémio da sua dor junto
à tua cruz a promessa do céu sem o purgatório. Ainda darás essa
alegria a mais alguém. Não te digo tudo hoje pelo muito que te
custa.
Dito
isto, do Coração divino de Jesus saíram muitos raios doirados que
vieram ligar-se ao meu coração. O sangue de Jesus principiou a
passar para mim, senti-me viver. Jesus cobriu-me de carícias e
chamou pela Mãezinha.
– Dá,
minha mãe, à tua filhinha a vida da graça, da pureza e amor.
Levanta-a, que está caída. Dá-lhe tudo o que é teu para ela dar às
almas. Guarda-a, que é tua e minha.
A
Mãezinha tomou-me em seus braços. Ao tempo que me acariciava, juntou
os lábios delas aos meus. Foi um sinal de alimento celeste;
encheu-me, fiquei forte.
– Minha
filha – dizia ela – dá ao mundo a vida que de mim recebes. A ti o
confiei, eu e Jesus, em ti o guardamos, está fechado em teu coração.
Não temas, não te é roubado por satanás. Dás às almas que te rodeiam
e a quem amas a graça, a pureza e o amor que de mim recebes.
Diz-lhes que tudo lhes manda a Mãe de Jesus. Assim como passa dos
meus lábios para os teus, tudo passará dos teus para os deles. Com
um beijo teu tudo receberão. Quando, com este pensamento de dares o
que te dou, beijares alguém, é o Espírito Santo que te inspira, é
para essa alma receber o que agora te dou.
Neste
momento veio Jesus, fiquei entre Ele e a Mãezinha como numa fornalha
de fogo vivo. E dizia-me:
– Vive,
vive, filha amada, vive com esta vida do céu. Recebe e ama. Sofre e
dá amor. A dor e o amor são o triunfo de todo o combate. Coragem, o
teu calvário é o de maior salvação. Nenhuma gota do teu sangue se
perderá; é por meu amor, é para as almas.
Deixei
Jesus e a Mãezinha. Passados uns momentos, voltei para Eles e fiquei
por algum tempo como que a dormir naquela fornalha de amor. Com as
horas que passaram já tudo fugiu. Sinto-me no cimo do meu calvário a
bradar ao céu:
– Estou
sozinha, estou sozinha. Sustentai-me, Jesus, amparai-me, Mãezinha,
não me deixeis cair.
8 de
Janeiro de 1945
Sinto
na minha alma como se me estivessem a preparar alguma traição. Estou
cheia de medo e em tantas trevas que me parece que até o sol foi
encerrado numa nuvem negra para nunca mais aparecer, para nunca mais
brilhar.
– E o
dia, meu Jesus, o dia nunca mais raia para mim. Ah! E se mesmo assim
eu Vos amasse! Se eu fosse Vossa e vivesse só para Vós! Vede, meu
Jesus, o meu coração sequioso de Vós. Eu quero dizer ao céu que caia
sobre mim e me esconda e guarde e comigo esconda e guarde toda a
humanidade. Ai o mundo, meu Jesus, o mundo que tanto me preocupa.
Queria mares, universos de sangue para derramar por ele. Queria
mundos e céus de amor para Vos amar por ele. Não cesseis, meu Jesus,
a minha imolação, para que não cesse para ele a Vossa graça e o
Vosso perdão. Se me permitissem, meu Jesus, queria penitenciar o meu
corpo, queria fazer dele o mais doloroso escravo para toda a
humanidade salvar. Pobre de mim, temo fazê-lo sem licença e não
tenho um guia. Jesus, espero em Vós, em Vós confio, faça-se a Vossa
vontade; sede a minha luz, o meu caminho.
Que
tremendas são as manhas do demónio. Como posso eu dar honra e glória
ao meu Deus! Parece-me mentira, mas não quero duvidar das divinas
palavras do meu Jesus. Sofro tanto com estes ataques! Se o mundo
soubesse o que é o inferno e a maldade e a fúria do demónio, com
certeza não pecaria tanto. Veio esta noite numa fúria desastrosa
contra mim. Maldades, mais maldades, palavras e lições feias. O meu
corpo parecia já estar desfeito de tanto cansaço. Ele queria que eu
dissesse:
– Busco, quero e amo os prazeres; troco tudo por um só prazer, até o
próprio Deus. Não quero o céu, quero o mundo, quero pecar.
– Pecar
nunca – disse eu.
– Quero
o inferno, meu Jesus, prefiro uma eternidade de inferno e não quero
gozar um só momento, não quero o prazer, não quero o mundo. O que eu
quero é não perder um momento de consolação e reparação para Vós e
de salvação para as almas. Valei-me, Jesus, dai-me o inferno, mas
não me deixeis pecar. Amar-Vos, sim, só, só amar-Vos.
Tudo
isto disse a Jesus só com o pensamento, porque não podia mais. Foi o
bastante para a fúria do demónio aumentar. Lutei, murmurando sempre,
dizendo a Jesus que não queria pecar. A minha luta era sobre um
grande abismo, nem podia respirar. O meu coração tinha a aflição da
morte. O demónio fugiu à voz de Jesus, que disse:
– Desempenha, anjo meu, a quem sempre obedeceste, desempenha a
missão que eu dei sobre a minha Alexandrina, o meu anjo em carne;
leva-a ao seu lugar.
Senti-me levada como por uma aragem suave para a minha posição. E
Jesus continuou:
– Se
pudesses ver, minha filha, como sou ofendido nesta hora contra a
virtude da santa pureza, morrias de pasmo ou antes de dor. Mas a tua
reparação consolou-me, fez-me esquecer o muito que me ofendem. Esta
consolação só podia ser tirada duma de pureza angélica.
Dito
isto, Jesus estreitou-me com muito amor ao seu Divino Coração e
repetiu por três vezes:
– Amo-te, amo-te, amo-te, meu amor; não pecaste, não me ofendeste.
Fiquei
confiada nas palavras de Jesus, mas triste, tão triste, o coração em
tanta dor, mais, muito mais do que uma ferida dolorosa depois do
tratamento.
– Jesus, já que assim o quereis, seja a minha vida como Vos consolar
e agradar mais. Aqui me tendes pronta para tudo, meu Senhor.
Mal
posso confiar. Envergonha-me a minha vida. A virtude que eu mais amo
e na que mais sofro. Só por muita graça e misericórdia de Jesus não
O tenho ofendido gravemente.
– Ó meu
Deus, tenho vergonha de mim mesma, como a não hei-de ter de Vós?
Perdão, meu Jesus, perdão, meu Amor.
11 de
Janeiro de 1945
Continuo a sentir na minha alma e mais forte ainda uma grande
traição, negra, cruel traição.
– Serão, meu Jesus, ciladas armadas para mim, ou será a traição que
para Vós foi preparada e por amor dos filhos Vossos Vós tudo
sofreste? Ó meu Deus, valei-me, tende dó de mim; mal posso respirar
com a minha dor. Será por hoje ser quinta-feira?
Será a
traição que traz a morte. Sinto o martírio que me espera, sinto que
o brado dos que se compadecem da minha dor é abafado pela multidão
contrária e revoltosa contra mim.
– Eis
aqui a escrava do Senhor. Sim, Jesus, sou a Vossa escrava. Se eu
pudesse passar de hoje para amanhã no inferno, não para fugir à dor,
mas sim aos colóquios que tenho conVosco… Perdoai-me, por quem sois,
ó Jesus. Perdoai-me pelas dores da querida Mãezinha. Tenho tanto
medo desta vida, vida que sinto não ser minha. Passa o tempo, vem a
eternidade e eu sem dar um passo para o céu, sem aumentar no Vosso
divino amor. Jesus, Jesus, o dia não raiou, mergulhei-me nas trevas
para sempre, para sempre. Vem um espinho, vem outro espinho, eu tudo
aceito, tudo sofro com o fim de Vos consolar e dar almas e sou
sempre a mesma; sempre a mesma frieza, sempre a mesma miséria,
sempre a mesma morte.
É dor
que destrói o coração. Eu, sem dar a conhecer o que sinto, ofereço a
Jesus o meu sacrifício e vou murmurando sozinha:
– Comprai com ele, Jesus, comprai com ele as almas. Poderá esta
minha dor servir de utilidade para elas? Vede, Jesus, é dor que só o
Vosso divino amor pode vencer. Ai, meu Jesus, tenho tanta vergonha
de Vós! É tão grande a minha miséria! Quero viver na Vossa divina
presença e não posso, tenho vergonha, tenho medo, medo das criaturas
que me são mais queridas, a quem mais amo. Tenho medo de todas e de
todas vivo separada.
É a
guerra do demónio. Ó tormento, tormento aterrador. Que raiva
infernal. Se lhe fosse possível tirar-me a vida, quantas ele já me
tinha tirado, se eu mais do que uma possuísse. Depois de principiar
com as suas manhas, diz-me:
– Queres escrever e não tens quê. Fazes isto quando queres e dizes
que sou eu para teres que escrever. Mil demónios num só pecam
contigo. Dá-te a mim como te deste a Deus, beija-me com amor como
beijas o crucifixo. Olha que eu não te faço como Ele, não te dou que
sofrer. Olha que Deus não tem céu para te dar. Goza, goza comigo,
goza os prazeres do mundo.
E não
me deixa bradar ao céu. Mete-se entre mim e Jesus, para Ele não me
ouvir, e dança à minha frente. Dá-me as suas ordens criminosas e,
quando não cedo prontamente, enraivece-se e sinto como se ele
estrancinhasse e patanhasse toda. O meu corpo parece ficar todo
esmigalhado por ele. São só os efeitos, porque ele não se aproxima
de mim a ponto de me tocar. As palpitações do coração não dão vez
umas às outras, as pancadas fazem grande barulho. Depois das lutas,
umas vezes sinto que passa uma aragem que me levanta e põe na minha
posição. Nesta noite não foi assim; estava caída ao lado das
almofadas e sem poder levantar-me nem ao menos mover-me para nada,
já não podia mais estar naquela posição. Muito triste, só
repetia:
– Valei-me, valei-me, Jesus.
Senti-O
a meu lado.
– Minha
filha, esposa querida, amor do Amor, esposa que conhece nem quer
outro amor, outro amado. O meu sopro divino basta para levantar-te
às alturas, transportar-te ao teu lugar.
Senti o
sopro de Jesus e, no mesmo instante, estava nas minhas almofadas.
Continuou Jesus:
– Diz,
minha filha, o que queres de mim?
Respondi:
– O
Vosso amor.
– Que
queres que eu faça?
– A
Vossa divina vontade.
Jesus
estreitou-me ao seu Divino Coração docemente e acrescentou:
– A
minha vontade é que tenhas coragem nos sofrimentos que te peço, é
que me desagraves assim desta forma. Repara, repara, minha virgem
pura, minha virgem louca de amor por mim.
Pouco
depois, adormeci num leve sono e ligeiro. Vi S. José, vi a Mãezinha
com uma criancinha ao colo agarrada ao seu pescoço santíssimo. Ela
sorria alegremente para mim. Por detrás dela e acima um bocadinho
estava um quadro riquíssimo cheio de luz. Continha duas pessoas no
meio e em cima uma pomba branca. Aos lados, umas cabecinhas
pareciam-me anjos. Com esta visão não me parecia viver na terra. O
que será a vida do céu sempre, sempre a ver a Deus!
12 de
Janeiro de 1945 – Sexta-feira
Que dor
a minha, ó meu Deus, se não sois Vós quem poderá compadecer-se dela.
Que horror aos sofrimentos e êxtases das sextas-feiras, que horror
aos ataques do demónio. Já tive hoje momentos que me parecia que a
tudo ia dizer a Jesus que não. Senti-me sozinha na prisão, de mãos
atadas, olhos cerrados na tristeza mais profunda, de lábios mudos
sem dar resposta a nada. Senti o meu corpo despedaçado pelos açoites
e as carnes calcadas aos pés. Ao sentir-me assim, lembrei-me do
sofrimento de quando Jesus permitia a minha crucifixão. Sentia
também o meu sangue a correr e o coração como que calcado aos pés.
Sentia na minha alma olhares de terna compaixão pelos que me faziam
sofrer. Era tal o horror que me causava o inferno, a perda das almas
eternamente que, em vez de os aborrecer, queria-os, amava-os para
salvar as almas. Via que só a dor os podia salvar. Veio o demónio ao
encontro destes terríveis sofrimentos. Combati com ele, banhei-me em
suor. Quando ele tentava instruir-me no pecado, pedia-me que lhe
desse o meu coração com amor, ao menos enquanto pecava com ele e com
quem ele lhe apetecia dizer-me. Horror, horror, horror! Momentos de
tanto perigo. Levantei os meus olhos ao céu a pedir socorro, e
cessou a luta. Mas parece-me, se viesse naquele momento todo o céu a
dizer-me que não tinha pecado, quase não acreditaria. Meu Jesus,
estar tantas vezes num fogo vivo e não me queimar! Faltou-me a minha
respiração. A dor quase me desnorteou. Fiquei com os olhos
levantados e firmes no céu a dizer a Jesus que não queria pecar, e o
meu corpo ficou na cruz, e ia murmurando sempre:
– Jesus, sou a Vossa vítima. Mas, se assim vou neste aumento de dor,
de horror e medo, não venço, não resisto a tanto. Tendes de sofrer e
resistir só Vós, meu Jesus, bem sabeis por mim que nada posso.
Veio
Jesus, falou-me tão meigamente:
– Minha
filha, flor solitária, mimo da humanidade, dor que salva, amor que
tudo vence. Minha filha, jardim do paraíso, em ti semeei, a ti vem o
mundo colher flores de virtudes, flores de amor. Minha filha,
tesouro escondido, em ti se encerram as riquezas divinas. Tesouro
escondido, porque quase tudo desconhece o que em ti depositei. Minha
filha, pomba branca, pomba angélica, a tua vida é um trinado de
louvor a Jesus, a toda a Trindade divina e à minha Mãe santíssima.
Venho a ti, estou em ti, deste palácio não posso ausentar-me. O réu
não deixa a sua rainha. És porto de abrigo, és porto de salvação, és
o abrigo dos pecadores, a salvação da humanidade. É aterradora a
guerra? Nada temas. O rei com a sua rainha, rainha com o seu rei
poderoso, tudo vence. Os soldados estão firmes, combatem pelo seu
rei, obedecem aos seus mandados.
– Ó meu
Jesus, sou tão pequenina, como podeis encontrar-me! Sou só miséria,
como podeis fitar em mim os Vossos divinos olhares! Tenho vergonha,
não posso levantar os meus para Vós. Compadecei-Vos de mim. Eu sou
flor, eu sou jardim, sou tudo o que dizeis, porque Vós semeais, Vós
cultivais; sois Vós o jardineiro, sois Vós a flor, sois Vós tudo,
tudo, tudo, meu Jesus. Sois o porto de salvação, porque a mesma
salvação sois Vós. Reparai e vede a minha dor, tende dela compaixão.
Quero amar-Vos e não sei como, quero sofrer pelo mundo para o salvar
e não sei sofrer. Temo o meu desfalecimento, temo cair para não mais
me levantar.
– Não
temas, flor mimosa, adorno do meu divino Coração, não temas, porque
não estás só, os anjos acompanham-te dia e noite, fazem sentinela ao
palácio da minha rainha. S. José veio visitar-te. Viste-lo com a
minha bendita Mãe? A criancinha que ela tinha ao colo, de braços
atados ao seu pescoço, eras tu mesma, minha filha. És a criancinha
de Jesus, és a mesma de Maria. Com Ela salvarás o mundo que te foi
confiado, o mundo que hás-de salvar. Dei-te, é teu, não temas, que
não te é roubado. Viste o painel que por detrás e acima da minha
bendita Mãe e de S. José pudeste contemplar? Era o da Trindade
Divina, Trindade que te ama, Trindade que se consola em ti. É o céu
a contemplar-te, é o céu a dar-te a vida, vida de que vives e para
quem vives. É teu o céu e é de muitas almas a quem salvares, almas
que sem os teus sofrimentos nunca se salvariam. Vão gozar de mim,
vão gozar do céu, a ti o devem, à tua imolação, ao teu sacrifício, ó
minha querida redentora. Recebe o meu amor, ó amor meu, dá-o,
distribui-o com abundância por toda a humanidade. Em breve, será
conhecida, em breve, será espalhada a tua dor, o teu amor
inigualável.
– Obrigada, meu Jesus. Que todo o mundo se salve, que todo o mundo
Vos ame louca e apaixonadamente: são os meus desejos, são as minhas
ânsias. É essa e só essa a causa do meu sofrer. Tenho tantas, tantas
ânsias e saudades do céu! Queria voar para lá e, quando não pudesse
entrar para dentro, queria ao menos arrancar do meu peito o coração
e metê-lo dentro do Paraíso e dizer: Jesus, Mãezinha, aqui tendes o
meu coração, dentro dele está o mundo, guardai-o, que é Vosso; vou
para a terra sofrer e amar, enquanto esse mesmo mundo for mundo. Ah!
Se eu pudesse fazer assim! Se eu pudesse dar esta consolação a
Jesus! Entregar-Lhe o mundo todo, todo salvo! Ó meu Jesus, não
deixeis ir mais almas para o inferno: são Vossas, é o Vosso sangue,
não o deixeis perder.
13 de
Janeiro de 1945
Há dias
que principiei a ter um sofrimento indizível (embora diga alguma
coisa, mas não digo nada) pelas criancinhas que estão no limbo e que
morreram sem baptismo. Não posso pensar que elas passem uma
eternidade sem ver a Nosso Senhor, sem gozar d’Ele, e ao mesmo tempo
não sei se sinto pena ou saudade que Nosso Senhor tem pelas
criancinhas. Com os olhos no meu crucifixo, cheguei a dizer a Jesus
se me deixasse ir ao limbo baptizá-las; à falta de água, abria o meu
peito, tirava sangue do meu coração para um vaso; depois de as
baptizar a todas, deixava o restante do sangue. As criancinhas iam
para o céu, eu voltava para a terra, enquanto o mundo for mundo,
para de vez em quando ir lá baptizá-las.
16 de
Janeiro de 1945
Lembro-me do tesouro que Jesus e a Mãezinha guardaram no meu
coração, mas já não tenho aquelas ânsias de o guardar e de tudo
fazer por ele. Agora já não me preocupa. Estou como que cansada de
tudo por ele ter feito. O que agora me faz sofrer, e sofrer deveras,
é sentir que tudo o que podia fazer fiz e agora mais nada posso
fazer para o salvar.
– Ó meu
Jesus, que hei-de eu fazer, que hei-de eu sofrer? Eu quero a todo o
custo salvar a humanidade, e a minha alma sente que não tem mais que
dar, que não tem mais que fazer, que não há sofrimento o qual não
sofresse por ela. Ó meu Deus, que penoso martírio! Remediai Vós, meu
Jesus, remediai este mal. Tendes o meu corpo, tendes o meu sangue, é
Vosso, utilizai-Vos, para que o mundo seja salvo. Não o deixeis mais
sair do meu coração. Não me deixeis ter mais um momento de vida que
não seja para Vos amar e para o amar a ele. O mundo, Jesus, as
almas, o preço do Vosso sangue não quero que ele seja calcado aos
pés, não quero que sirva de condenação para as almas. Estou pronta,
meu Jesus, a dar a minha vida a cada momento, enquanto o mundo for
mundo, se isso for possível, para as salvar. Jesus, sou vítima do
mundo, primeiro que tudo do Vosso divino amor.
No dia
13, entre visitas de muita estima, veio uma que eu já esperava e que
muita falta tinha feito à minha alma. Esperava-a e recebi-a
friamente; tudo me era indiferente. Olhava-a e por vezes parecia-me
não a ver, não ser a realidade. Era um preso, saído da prisão,
visitar um cadáver que lhe pertencia. Ó dor, ó amargura, ó trevas
aterradoras. Já é tarde para me darem alegria, já é tarde para
receber consolação a minha pobre alma. Os meus olhos pareciam não
verem o segundo roubo que me foi feito. O que será ao ser-me
restituído o primeiro?
– Jesus, sou a Vossa vítima, o Vosso amor, a salvação das almas, a
todo o custo, a todo o custo. Agora sofro pela minha frieza, a minha
indiferença por essa visita a quem tanto devo. Parece-me que a
desgostei, que a feri. Ó Jesus, sempre tudo pelo Vosso amor.
Durante
a noite, que passei quase sempre alerta e unida a Jesus e no meio
dum mar de dores de corpo e da alma, fui assaltada cruelmente pelo
demónio. Lutei com ele perto de duas horas. Nuns momentos, dizia-me
pecar com um, noutros, dizia-me pecar com outros. Chamava pelos
camaradas para virem pecar comigo. Quando eu conseguia não dizer nem
fazer aquilo que ele queria, enraivecia-se muito mais ainda e, para
despedaçar-me, formava saltos desesperados. Quando podia, bradava ao
céu; quando não podia, lutava só. Nuns momentos muito assustadores,
disse:
– Mãezinha, Mãezinha, vede o perigo em que estou, valei-me, não me
deixeis pecar nem manchar o meu corpo nem a minha alma.
Só se
morre, quando Jesus quer. Se assim não fosse, neste combate teria
morrido. Fiquei caída, banhada em suor e sobre um abismo medonho sem
um pequenino fio que me sustentasse. Olhava-o assustada, ouvi Jesus
a dizer-me assim:
– Este
abismo, minha filha, é o abismo dos viciosos, entregues ao prazer e
à carne. Ai deles sem a tua reparação. Anjo meu, anjo querido,
apressa-te a desempenhar a tua missão.
No
mesmo instante, uma suave aragem levou-me às minhas almofadas.
Continuou Jesus:
– Vamos, minha filha, desabafar os dois. Eu contigo as minhas mágoas
e tu comigo as tuas. Coragem, tu não me ofendes. Sais destes
combates com a tua alma cada vez mais pura e mais brilhante aos meus
divino olhos. Que grande consolação dás com isto ao meu Divino
Coração tão ferido.
– Ó meu
Jesus, custa-me tanto este sofrimento! Tenho tanto medo de pecar!
Velai por mim, eu quero só o que Vós quiserdes. Vede todo o
sofrimento que me vai na alma. Que triste agonia.
–
Anima-te, minha amada. Tiro da tua agonia toda a consolação para
mim. A tua morte dá a vida às almas. Não te deixei sentir consolação
da visita do meu querido Padre Humberto nem a ele de te ver
consolada; foi para tirar todo o proveito para as almas. Foi para
que os homens vejam o que é a alma abraçada à cruz e firme no amor
de Jesus, para que não levem as coisas pelo lado do entusiasmo. Dá
ao meu Padre Humberto os meus agradecimentos por ter vindo dar vida
à alma da minha esposa, da minha vítima amada. Dá-lhe as minhas
graças, bênçãos e amor, a ele e a toda a congregação. Ele está preso
duma só asa, só um voo lhe foi cortado. Eis porque lhe mando bênçãos
e graças para toda a congregação. É o prémio que lhe dou com minha
Bendita Mãe a quem ele ama, e Ela o ama tanto. Com os seus olhares,
em união com ele, tanto bem tem feito às almas. Quero que te ampare,
já que te não pode amparar aquele que anseia voar junto de ti, o teu
paizinho, a quem cortaram os voos e, não satisfeitos, por todos os
lados o ataram. Quanto isto tem ferido o meu Divino Coração! Mas, oh
quanta consolação para o meu Divino Coração e proveito para as almas
do sofrimento dele eu tenho tirado. Coragem, pois, para combater
tudo o que vier. Coragem e firmeza, como os soldados que no meio do
maior combate nem ao menos estremecem. Dou a todos os que cuidam da
minha divina causa a certeza da vitória. Minha filhinha, eu não
demoro a vir com minha Bendita Mãe a dar-te a nossa vida divina.
Necessitas dela, é dela que vives, a tua é-te roubada pelos
pecadores e pelos perseguidores da minha causa divina.
– Sinto-me desfalecida, Jesus, sinto-me inclinar para a morte, não
para esta morte que sinto, mas para a morte que é a vida que me dá a
eternidade, que me dá o céu, onde não poderei ter receio de Vos
ofender. Venha a dor, venha o amor, eu bendirei tudo o que vier das
Vossas mãos divinas. Conto só conVosco, por mim só tenho dúvidas e
receios.
Retirou-se Jesus ou escondeu-se; ficou silencioso na minha alma, na
minha alma tão ferida, tão receosa de ter pecado. Aproximava-se a
hora da visita de Jesus Sacramentado e não se apagava da minha
memória a luta de satanás. Que tristeza receber a Jesus depois de
ter passado por tão feias coisas. Passei o dia morta para tudo, só
viva para a dor. Ai, meu Jesus, como é triste a minha vida; só seria
alegre, muito alegre, se, no meio de tudo isto, eu Vos amasse, e as
almas fossem salvas.
18 de
Janeiro de 1945
– Ó meu
Deus, fugir para onde, se não há esconderijo para mim. Tristes horas
me esperam. Sinto em mim um mar imenso de sofrimentos. Estou como se
a morte estivesse para bater-me à porta. Apesar da ingratidão contra
mim, ingratidão sem limites, quero todos os sofrimentos, quero
abraçá-los. Só a dor e a morte serão o remédio de tantos males.
Sinto de joelhos, inclinada na presença do Eterno Pai para ser
imolada como a mártir que de boa vontade se entrega e inclina diante
do carrasco para ser degolada. A minha alma está triste até à morte.
À vista de tantos sofrimentos, não pode ter alegria. Se a minha
morte fosse a vida para toda a humanidade! Ó trevas, ó horror, ó meu
Deus, que para tantos tudo é perdido, tudo é inútil; de nada valem
as minhas dores, o meu martírio, a minha morte. Estou louca. Agora
levanto-me, estendo os meus braços e com olhares de quem tudo pode
fito-os no Eterno Pai. Pai, ó meu Pai, aqui tendes a Vossa vítima,
vítima que a todos quer salvar, mas não me abandoneis, não me
deixeis envolta nas trevas, entregue ao demónio. Pobre de mim, meu
Jesus, que ânsias consumidoras. Quero meios, mais meios para salvar
o mundo. Não os encontro, não os conheço; nada mais posso fazer por
ele. O meu coração está louco, louco pela humanidade, louco por
todas as almas. Se eu tivesse vítimas que por mim se deixassem
imolar, para que eu com elas pudesse salvar as almas que se perdem,
e perda irremediável! Ó Jesus, nada tenho, nada posso conseguir.
Queria ir ao limbo baptizar as almas. Queria ir ao inferno arrancar
de lá as que lá estão condenadas. Impossível! Ó Jesus, tende dó,
tende compaixão, dai ao menos remédio que evite a perda de mais
almas. Abrasai corações em zelo de amor por elas, corações que Vos
amem por todos os corações, vítimas que só pensem em se deixarem
imolar por Vosso amor e por toda a humanidade. Que sede, que sede,
Jesus, eu tenho de almas. É sede insuportável. Ai que saudades do
céu! Sinto-me caída sobre a terra nua, desfalecida, sem força para
resistir a tudo isto. Valha-me o Vosso amor, Jesus, sim, só ele será
a minha força.
O
demónio, sem dizer palavra, andava como o leão enfurecido, de dentes
descarnados, a arrancar-me as entranhas e a deixá-las retalhadas
pelo solo. O mesmo queria fazer-me ao coração, formava assaltos para
ele, mas sem lhe tocar. Eu sentia a raiva que ele lhe tinha e as
ânsias que tinha de o apanhar. Depois principiou com uma
desencadeada de palavras e lições feias.
– Vamos
pecar, vamos gozar – dizia ele. Dá-me tudo o que eu te peço, peca
por vontade, peca por amor. Dá-me o teu coração. Se o possuir,
possuo tudo.
Pelo
meio disto entremeava palavras e gestos feíssimos. Parecia-me estar
a ele entregue inteiramente, só a ele entregue. Por algumas vezes
pude fitar a Jesus Crucificado, Jesus pequenino, a Mãezinha e S.
José. Raras vezes lhes pude pedir que me valessem. Na tremenda luta,
no auge da aflição, a minha língua ficou como que destravada, e eu
exclamei:
– Pecar
não, pecar não. Valei-me, Jesus, não quero manchar a minha alma.
Serenou
tudo por alguns momentos. Depois voltou o maldito, mas mais de
longe, mostrando-se satisfeito, a dançar e a afirmar-me que eu tinha
pecado. Fiquei tão triste! Sentia o meu coração numa bola de sangue.
Sozinha desabafei com Jesus:
– Ó meu
amor, quando terminará tudo isto? Tudo me aterroriza, temo
ofender-Vos, temo falar-Vos, temo não Vos amar. Que será de mim,
Jesus! Corre para mim a sexta-feira a passos de gigante. Bem vindo
seja o que é por Vós. Velai por este nada, compadecei-Vos desta
miséria, miséria sem igual. Sou sempre a Vossa vítima, meu Amor.
19 de
Janeiro de 1945 – Sexta-feira
(Durou
três quartos de hora)
– Para
onde caminho, Senhor? Que será de mim, meu Jesus?
Tudo é
medo, tudo é pavor. Caminho apressadamente por entre ruas escuras e
estreitas. Caio desfalecida, esmaga-me o peso das humilhações. Sou
arrastada por duas cordas. Sinto o meu rosto por terra, as faces
muito feridas. A dor dos agudos espinhos vem penetrar-me até ao
coração; dor que parece dar-me a morte. Sinto os joelhos, os ombros
e mais partes do corpo em dolorosas chagas. Envergonhada de tanta
curiosidade, na tristeza mais profunda que se pode imaginar, a custo
vou caminhando, caindo repetidas vezes. Neste caminho vem ao meu
encontro a mulher, a mulher querida, compadecida da minha dor. Com
que ternura e amor limpa do meu rosto o suor, o sangue e o pó. Os
laços da mais estreita amizade prendem os nossos corações. É
indizível o que queria dizer dela, os louvores que queria dar-lhe.
Oh! como queria que ela fosse falada por este acto tão heróico. No
alto da montanha, que desespero sinto em mim, é desespero de amor.
Tudo me causa horror: a morte, a morte, o abandono, ó meu Deus. De
joelhos, levanto os olhos para o Eterno Pai, dou-Lhe o meu sinal de
aceitação a tudo. Baixo os olhos, entro em mim e num abraço mais
íntimo estreito tudo ao meu coração. Entrego-me à morte. Os algozes
continuam o seu bárbaro papel. Quadro horroroso! Que nojo e vergonha
de mim mesma. O meu corpo e a minha alma a desfazerem-se em lepra.
Espero a minha hora.
Passei
da dor ao amor, do calvário, da cruz ao tabor. Principiei a sentir o
amor de Jesus fortemente no meu peito e no coração e a Sua divina
presença em mim; e logo ouvi a Sua voz, doce e suave:
– Vem o
céu a prestar homenagens ao Rei do céu, à rainha da terra no seu
encontro demorado. Era meu desejo, minha amada, minha pomba querida,
que o mundo conhecesse a forma como me dou à minha esposa, à alma
virgem. Queria que o mundo conhecesse e compreendesse este amor: o
amor com que te amo, o amor com que me amas a mim, o amor às almas,
o amor à cruz. Era meu desejo, desejo, grande desejo que o mundo
conhecesse a tua vida, vida do amor mais puro, vida de heroicidade,
vida de heroísmos com toda a abundância. A tua vida é um painel
riquíssimo onde está retratada a vida divina, a vida mais completa
de Cristo crucificado. Os homens, os homens, minha filha, opõem
barreiras escandalosas a esta vida que eu desejava fosse conhecida
para glória minha e bem das almas.
– Ó meu
Jesus, por eu não ter querer quero o que Vós quereis; se assim não
fora, queria viver escondida, viver como se não vivesse, viver como
se nunca tivesse existido, contanto que Vos amasse e as almas
fossem salvas. Mas, se assim o quereis, o remédio está nas Vossas
divinas mãos; fazei que os homens procedam doutra maneira.
– Não,
não, minha amada querida, não é assim.
– Perdoai-me então, meu Jesus, perdoai-me, se Vos ofendi.
– Sossega, não me desgostaste. Onde estão as graças que lhes dei?
Não se utilizaram delas, desprezaram-nas, calcaram-nas a seus pés.
Utilizaram-se da sua vontade própria, do seu orgulho, dos seus
juízos, das falsas luzes. Que mágoa para o meu divino coração.
Coragem, filhinha, vence a minha divina causa e com ela vencem os
que por ela lutam. Tu és o verdadeiro caminho, estrada de oiro,
estrada real, cercado de um lado e do outro das pedras mais
preciosas, das maravilhas do Senhor. Felizes almas, felizes
pecadores que nela entrarem que vão a porto de salvação. Os teus
olhares, os teus carinhos, as tuas ternuras, tudo leva ao céu. São
olhares, ternuras e carinhos atraentes que atraem a ti as almas. Por
ti vêm a mim. Vais agora, minha filha, receber a vida divina, a vida
que te alimenta e dá vida, a vida que dás às almas. Vais receber o
meu divino sangue.
Jesus
uniu o Seu divino Coração ao meu assim como o Seu santíssimo rosto e
lábios se uniram aos meus. O meu coração parecia-me estar colado ao
de Jesus e do Seu Coração divino passava para o meu sangue. Sentia o
meu a dilatar-se, a dilatar-se, era grande, muito grande. Sentia
também receber vida dos lábios de Jesus para os meus. Ele cobria-me
de carícias e dizia-me:
– Dou-te o meu sangue, a minha vida por onde eu quero e como quero.
Esta
união foi demorada. Depois de algum tempo, Jesus chamou:
– Vem,
minha Mãe, minha bendita Mãe, dá a tua vida celeste, dá as tuas
graças e riquezas a esta minha filha e esposa e também tua filhinha
querida.
Jesus
desuniu de mim o Seu santíssimo rosto e lábios, mas deixou sempre
ligado o Seu divino Coração. Tomou a Mãezinha o lugar de Jesus; uniu
o seu santíssimo rosto ao meu, estreitava-me, cobria-me das suas
carícias e bafejava-me com tanta doçura. Senti que d’Ela recebi
muita vida, e dizia-me:
– Minha
filha, esposa do meu Jesus, tabernáculo do meu Jesus, sacrário do
meu Jesus, onde Ele habita sempre, sempre.
E Jesus
dizia-lhe:
– Dá-lhe, minha Mãe, as riquezas do céu, dá-lhe todo o teu amor. Ao
menos tu e eu a darmos-lhe a sentir o nosso amor e consolação, já
que das criaturas, a quem ela ama e que estão a seu lado, não recebe
consolação, não sente que elas a amam e até delas tem medo.
Tirei-lhe tudo, tudo, tirei-lhe para minha glória, tirei-lhe para a
salvação das almas, tirei-lhe para abrilhantar a escora que sustenta
o braço do meu Eterno Pai, para ela, ao ver tal brilho, tais
encantos, se esqueça do seu poder e use de misericórdia, só de
misericórdia para o mundo. Tirei-lhe tudo, espremi-a, espremi-a,
dela consegui os licores deliciosos.
– Desprende-te de nós, minha filha, vai para a tua cruz, para a tua
vida de amor.
O meu
coração estava cheio, cheio; Jesus fechou-o para não sair dele o
sangue, e disse:
– Este
é o sangue que germina, gera e dá a vida às virgens como tu.
– Obrigada, meu Jesus, obrigada, Mãezinha. Custa-me tanto
desprender-me de Vós, sair deste amor! Sim, por Vosso amor
desprendo-me, mas antes dai-me este amor para dar às almas que eu
amo e me são tão queridas; dai-mo para eu dar a todos os meus,
dai-mo para eu dar àquela alma que está em perigo e por quem Vos
ofereci hoje os meus sofrimentos. Quero que ela se salve e como
sinal disso não quero que morra sem todos os sacramentos. Dai-mo
para eu dar às almas que tanto me fazem sofrer, para que Vos
conheçam melhor e Vos amem cada vez mais. Dai-mo para dar ao mundo
inteiro, para que ele seja salvo.
– Vai,
ó nova redentora, salvadora dos pecadores, vai, obedece, escreve
tudo, faz esse sacrifício, dá o nosso amor como desejas, com toda a
abundância.
– Obrigada, Jesus e Mãezinha, obrigada sempre na terra e no céu.
Voltei
à minha cruz, ao mar imenso das minhas dores. Já lá vão algumas
horas e o meu coração ainda arde como uma grande fornalha.
– Bendito seja Jesus e o Seu amor.
22 de
Janeiro de 1945
– O meu
sofrimento, o que se passa na minha alma, nem eu sei dizê-lo; mas
sabe Jesus, conhece-o, sabe que não minto, que não vivo para
enganar. Ao menos isto: Jesus conhece e só Ele poderá pedir-me
contas. Sinto que sou um mundo de pecados, de podridão. Sinto que
sou um mundo de frieza e de ingratidão. Sinto que sou um mundo de
esquecimento e desprezo por Jesus e sinto que sou um mundo de
sangue. Que dor para mim ao sentir que tudo fiz e nada mais posso
fazer pelo mundo. Mas, meu Deus, o que fiz eu, se tudo o que sofro e
tudo o que faço não me pertence! Como posso sentir que tudo fiz pela
salvação do mundo! Não dei por ele a minha vida, mas essa mesma já a
ofereci a Jesus. O que é este mundo de sangue que eu sinto que sou?
Vós o sabeis, ó meu Deus, isso basta. Parece-me que toda a
humanidade é banhada nele. Ai, se eu soubesse o que podia fazer para
a salvar! E as pobres criancinhas do limbo? Não desisto da minha
oferta, dos meus pedidos a Jesus para as ir lá baptizar. Oh! se eu
pudesse! Se Jesus o consentisse! Eu queria estar de joelhos,
enquanto o mundo fosse mundo, claro está, sempre com a graça e força
de Jesus, para obter d’Ele esta graça: baptizar as criancinhas. É
insuportável a dor que me causa a lembrança de elas ficarem uma
eternidade inteira sem amarem a Jesus, sem O verem, sem O louvarem.
Que pena, que pena, meu Jesus, parece que morro de compaixão por
elas. E as almas que estão no inferno! Ó meu Jesus, não ter ele fim!
Não sei se me faço compreender. A minha alma sente uma dor indizível
não tanto pela dor que elas lá sofrem, mas sim por não poderem mais
ver a Deus. Oh! que negro sofrimento, parece-me mais do que
desespero. Meu Jesus, nem sei o que digo: queria sofrer tudo, tudo e
remediar todos estes males. Ó meu Amor, ó meu Amor, Vós, sim, Vós
vedes, Vós acreditais na sinceridade das minhas palavras; não saem
só dos meus lábios, saem do mais íntimo do meu coração, do meio da
maior dor e agonia da alma. Sim, meu bom Jesus, sabeis que não é
intrujice, como alguém diz que a minha vida o é. Por graça e
misericórdia Vossa nunca pensei em tal. Há em mim alguma coisa de
bom, de louvável? Não o sinto, não o conheço. Mas, se o há, a Vós
pertence, não é meu. Oh! quantos espinhos ferem este coração que já
não existe senão para sofrer. É do fundo da alma que Vos peço perdão
para os que tão cruelmente me ferem. Sou ferida por aqueles de quem
menos devia ser, mas também eu procedo assim por Vós, meu bom Jesus.
Perdoai-me. A minha alma sente que muitos dos que me têm ferido
querem agora limpar-se, mas a mim não podem, sou trapo imundo, ainda
se sujam mais. Ai, como estou magoada, mas antes milhões de vezes
sofrer inocente do que uma só vez culpada. Não quero perder um
momento a minha união com Deus.
Passei
a noite alerta, muito alerta; pedi tantas coisas ao meu Jesus!
Repetidas vezes renovei-Lhe a minha oferta de vítima. agradeci-Lhe
mais o benefício que me concedia de eu não dormir, pois assim melhor
Lhe podia fazer companhia e conversar mais a sós com Ele, viver mais
a vida d’Ele e só com Ele desabafar. Sem eu querer, vinham-me ao
pensamento tantas, tantas coisas que me fizeram e fazem sofrer, e
dizia:
– Jesus, passam-se semanas, meses e anos e eu encerrada dentro
destas pobres paredes. Elas e Vós sois testemunhas das minhas
agonias e lágrimas. Fiz alguma coisa para parecer bem, para merecer
louvores ou para enganar? Por grande misericórdia e graça Vossa
nunca o fiz, meu Jesus. Sou a Vossa vítima, aqui me tendes
prisioneira neste quarto, por Vosso amor e pelas almas. Nunca gozei
o mundo nem as suas falsas alegrias. O meu gozo, a minha alegria é o
Vosso amor e a salvação das almas.
Nesta
conversa e unida a Jesus, fui assaltada pelo demónio. Usou das suas
manhas, das suas malícias, dizia-me:
– Hoje
é só comigo que tu pecas, é para pecares com mais amor, abraça-te a
mim.
Dizia
coisas vergonhosas que não posso dizer. Não me deixava recorrer a
Jesus; só ao terminar da luta o pude conseguir deveras. E, neste
momento, uma multidão de anjos em torno cercavam a minha cama. De
repente, fiquei na minha posição e o demónio retirou-se para longe,
de onde me afirmava alegremente que eu tinha pecado. a visão dos
anjos, o brilho da sua luz aliviaram-me a minha dor. Eles estavam
como que admirados de tal tragédia, mas compadecidos de mim. Mas as
palavras afirmativas do demónio causaram-me tal ferimento e
impressão que de verdade parece-me que, quando chamei por Jesus, já
era tarde e só por graça d’Ele não O teria ofendido. Já passaram
tantas horas, e este receio, esta dor cá estão em meu coração
vivamente. Recebi o meu Jesus tão cheia de medo e com tanta pena e
receio de ter pecado. Ai, meu Deus, que vida a minha. Na noite
anterior a esta, combati por muito tempo com o maldito; combati
sempre sobre abismos, mas variados, alguns eram aterradores.
Sobressaíam sobre mim as labaredas de fogo quase preto e faziam tal
estrondo, tal ruído que pareciam de cascas verdes de lenha. Dizia-me
o demónio:
– Este
é o prazer desordenado, este é o prazer mais delicioso. Goza, goza
comigo, é tão bom gozar, etc.
Ofereci
a Jesus os meus suores, o medo de pecar por aqueles que nada temem e
nada sofrem por ofender e ver Jesus ofendido. Sinto que a minha
oferta nada vale. A dor que me causa todo este martírio tira-me a
alegria e a consolação de tudo.
– Ó meu
Deus, se eu pudesse convencer todas as almas do que se sofre no
inferno! Se eu pudesse fazer-lhes conhecer o que é uma ofensa feita
a Vós, a dor que causa ao Vosso amantíssimo Coração! Sinto-me
envergonhada, meu Jesus, por nada fazer por Vós e por nada saber
dizer da dor que sinto ao saber-Vos ofendido e por não Vos amar nem
Vos fazer amado. É a verdade pura que me sai dos lábios e do
coração. Não é assim, meu Jesus? Que grande graça ao menos Vós
saberdes que não minto, que não intrujo. Por tudo isto dai-me amor,
amor, almas, sempre almas.
25 de
Janeiro de 1945
Deixaria o sol e a luz do dia de existirem no mundo? Parece-me que a
noite mais tormentosa e escura o invadiu todo. Não há luz, não há
alegria, não há vida. Morri eu e sinto que morreram todos os que me
são queridos. Tive o meu médico junto de mim, parecia-me que não o
via, era como um cadáver ao pé doutro. Ele, como sempre, na sua
bondade e santidade, procurou levantar-me do meu desfalecimento,
infundir-me coragem e confiança.
– Ó meu
Deus, que indiferença! O que ele dizia parecia não ser para mim.
Tinha até medo dele, muito medo. Jesus, tirais-me tudo, dai-me o
Vosso divino Amor em troca desse tudo que me tirais. Dai-me um mundo
de almas e dai-me mundos e mundos do Vosso amor infinito. Quero
amar-Vos com esse amor e amar-Vos por esse mundo de almas que Vos
peço. Tenho sede, Jesus, tenho sede, sede que me abrasa e consome,
sede que aqui na terra nunca mais pode ser saciada. Tenho sede de
amar-Vos e ver-Vos amado por esse mundo de almas que Vos peço. Tenho
sede de sofrer, sofrer a mais não poder, para conquistar e salvar
para Vós esse mundo.
– Ó
mundo, ó mundo, sem querer pertencer-te, sem querer amar-te, amo-te
loucamente, quero-te a todo o custo, não posso deixar-te, ó mundo
querido, sem ver-te salvo, inteiramente salvo. Estas ânsias, estes
desejos não me pertencem, não nascem de mim; eu sou morte, só morte.
Sejam de quem forem, pertençam a quem pertencerem, são para Jesus,
são para O consolar, são para O amar.
– Ligai, meu Jesus, o meu coração ao Vosso, que nada haja que nos
possa separar. Ligai também a Vós os corações do mundo inteiro; não
quero que haja outra coisa nesta pobre humanidade a não ser amor,
amor puro ao Vosso coração divino. Quero que esta vida seja uma vida
só de louvor para Vós. Que mais posso desejar, Jesus, que mais posso
sofrer? Queria arrancar o meu coração e entregá-lo a arder nas
chamas mais fortes e do amor mais ardente e poder dizer-Vos: este é
o amor de toda a humanidade, este é o amor de todos os filhos
Vossos. Amor, Amor, meu Amor, quero dizer-Vos tudo pelo mundo e por
ele sofrer tudo sem excluir ninguém. É verdade, meu Jesus, isto que
Vos digo, são sinceras as minhas palavras, não é intrujice minha,
por graça Vossa não sei intrujar. Quando, nestes dias, Vos oferecia
as minhas dores quase insuportáveis, os ardores da febre e
frequentes vezes me oferecia como vítima, sem eu querer, quantas
vezes me vinha ao pensamento: não é intrujice, Jesus, é a verdade
para a minha oferta, e todos os sofrimentos os suporto por Vosso
amor e pelas almas.
Que
amargura, que triste amargura esta frase causou à minha alma: tudo
sem uma intrujice. Nosso Senhor não tem permitido, nestes dias de
sofrimento indizível, que eu seja atacada pelo demónio. Só uma vez
ou outra ele lá vem com as suas falsas palavras:
– Não é
verdade que pecas quando tu queres? Agora que a doença te aflige
mais não queres o gozo, não queres o prazer.
Cobrindo-me de insultos, retira-se.
– Ó meu
Deus, que mar de sofrimento à minha frente! Que triste quinta-feira!
Quanta falsidade me preparam!
É já
noite; sinto-me numa grande reunião, num convívio de grande
intimidade, as conversas são animadoras. Dois quadros tão diferentes
se apresentam na minha alma: uma traição sem igual e um amor sem
igual. Um amor, uma doçura, uma ternura sobre essa traição que não
há corações, não há lágrimas que o possam explicar. Quantos convites
cheios de doçura a essa traição. O traidor resiste, a nada se rende,
não se sente bem ao pé do cordeirinho, vítima inocente. Não sei
dizer as bondades e delicadezas de Jesus. Queria que a minha alma
fosse um livro onde todos pudessem aprender as bondades, ternuras e
o amor de Jesus.
28 de
Janeiro de 1945
Jesus
hoje pede-me dois sacrifícios, um da alma, outro do corpo. Da alma,
por ter de ditar tudo o que ela sente e sofre; do corpo, por ser tão
grave o meu estado que nem posso mover os meus lábios para falar.
Parece-me que com cada palavra que pronuncio me vem arrancado o
coração e as entranhas. Confio em Jesus que me vai auxiliar ao menos
para dizer as suas divinas palavras. Resumo os sentimentos da minha
alma. De manhã logo, quando me sentia correr para a morte e a morte
correr para mim, corria porque impulsos de amor me obrigavam a
correr. Só o sangue e a morte seriam a salvação do mundo, e eu
queria salvá-lo. Quantas vezes, no trajecto que percorri, caí
desfalecida, e parecia mesmo, mesmo perder a vida. Perder a vida
para dar vidas dava-me forças, voltava a caminhar. No calvário, na
cruz, sentia o meu sangue sair de mim a jorros. Calma e serena, com
o espírito só em Deus, esperava o momento da maior felicidade, o
momento da salvação. Veio depois Jesus, tão cheio de ternura e amor
por mim.
– Minha
filha, tabernáculo divino, sacrário onde habito, prisão de doçura e
amor. Prendi o meu coração ao teu, ataram-nos os laços do mais santo
amor; prenderam-me, prenderam-me os teus laços encantadores, laços
brilhantes, laços do mais puro e fino oiro. Minha esposa, minha
esposa, nada há que possa separar-nos, nada há que possa cortar os
laços matrimoniais que nos prendem. Ó minha pomba bela, minha
rainha, meu palácio. Rainha do Rei Celeste, palácio da Sua
habitação. Minha filha, vida de amor, língua de louvor, pureza
angélica. Por ti o mundo será puro; pela tua língua o mundo Me
louvará; pelo teu amor seráfico o mundo me amará. Ó pomba, ó bola, ó
jardim divino, és tu o jardim, eu o jardineiro. És jardim de
virtudes de encantos, encantaste o meu Coração. És e serás sempre o
encanto dos pecadores.
– Isso,
sim, meu Jesus, isso quero eu encantá-los para Vós, custe o que
custar, meu amor. Peço-Vos a grande graça de os fechardes a todos em
Vosso Divino Coração; não quero que nenhuma alma se perca, não
quero, não quero, meu Jesus. Eu não Vos nego os sofrimentos, não me
negueis também as almas.
– Filhinha, filhinha, heroicidade do mundo, heroicidade sem igual,
assim como sem igual é a tua dor, o teu amor. És rica, és poderosa.
Preparei em ti um armamento forte, armamento de guerra; não é de
armas nem fogo destruidor, é armamento das virtudes mais heróicas,
da pureza mais angélica, de amor de Querubins e Serafins. Preparei
em ti o que preparam as nações para combater as guerras. O armamento
que em ti depositei não é só para combater Portugal, mas sim o mundo
inteiro. Combaterás, minha filha, e vencerás. Partes para o céu e na
terra ficará sempre o armamento divino que em ti guardei, e tu, ó
pomba branca, ó pomba angélica, recolheste-o em ti, abraçaste-o
sofrendo, abraçaste-o amando. Tu és, minha esposa amada, um novo
evangelho assim como és a nova redentora. Novo evangelho, onde está
escrita, gravada, bem gravada a vida de Cristo crucificado. Vida de
dor, vida de amor, vida de loucura pelas almas, vida de caridade,
vida das ciências e doutrinas de Cristo Redentor. Assemelhei-te a
mim, retratei-te em mim, ó vítima querida, ó inocente salvadora
deste ditoso calvário. Salva-me as almas, põe-nas ao abrigo do manto
que por minha bendita Mãe te foi dado. Coragem, filhinha. Já que
tanto te amei, tanto a mim te assemelhei. E, porque assim a mim te
assemelhei, à semelhança minha és caluniada, perseguida e
desprezada. Nada temas. Dias de sol brilhante e resplendoroso se
aproximam, sol que nunca mais se escurecerá, brilho que nunca mais
desaparecerá. A causa é minha, o triunfo é certo. Será esta minha
causa destruída, quando destruída para sempre for a minha Igreja, a
minha doutrina. Descansa, minha filhinha, descansa em meus divinos
braços. Sofres muito? Sofres ao máximo? É o meu divino amor.
Alegra-te, são salvas muitas almas. Toma conforto em meu Divino
Coração.
Senti-me nos braços de Jesus, por Ele fui muito acariciada. Sentia a
ternura do Seu Divino Coração e a compaixão pelos meus sofrimentos.
Teve-me em Seus divino braços por espaço de algumas horas. Fez-me
lembrar a mãe que não abandona o seu filhinho, quando ele está
moribundo. Eu sofria muito, é certo, mas confortada com os miminhos
de Jesus e as Suas ternas carícias. Humilha-me, aterra-me tanta
bondade de Jesus para comigo. |