Alexandrina de Balasar

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CAPÍTULO 22

Trata de quão seguro caminho é para os contemplativos não levantarem o espírito a coisas altas se o Senhor o não levanta, e como a Humanidade de Cristo deve ser caminho para chegar à mais alta contemplação. Fala dum engano em que andou algum tempo. É muito proveitoso este capítulo.

1.  Uma coisa quero dizer, segundo julgo, importante; se parecer bem a V. Mercê, servirá de aviso, pois poderá ser que lhe seja útil. Nalguns livros que tratam de oração, diz-se: que embora a alma não possa por si chegar a este estado, porque tudo quanto o Senhor opera nela é obra sobrenatural, ela poderá contudo ajudar-se, levantando o espírito de tudo o criado e elevando-o com humildade, depois de ter andado muitos anos pela via purgativa e aproveitado na iluminativa. Não sei bem porque dizem iluminativa; julgo ser a dos que vão aproveitando.

E avisam muito nestes livros que apartem de si toda a imaginação corpórea e se acheguem a contemplar na Divindade; porque, segundo dizem, embora seja a Humanidade de Cristo, embaraça ou impede, nos que vão já tão adiante, a mais perfeita contemplação.

Trazem, a este propósito, o que o Senhor disse aos Apóstolos quando da vinda do Espírito Santo, digo, quando subiu aos Céus. Parece-me a mim que, se eles tivessem então a fé que tiveram depois da vinda do Espírito Santo e cressem que o Senhor era Deus e Homem, não lhes seria impedimento ― para a mais alta contemplação ― o pensar na Sagrada Humanidade; pois isto não foi dito à Mãe de Deus, ainda que O amasse mais que todos.

É que a estes lhes parece ― como esta obra é toda espírito ― que qualquer coisa corpórea a pode estorvar ou impedir. E assim, o que se há-de procurar, é considerar que Deus está em todas as partes e ver-se engolfado n'Ele.

Isto parece-me bem, algumas vezes; mas apartar-se, de todo, de Cristo e fazer entrar na mesma conta a este divino Corpo com as nossas misérias e com tudo o criado, não o posso sofrer! Praza a Sua Majestade que eu me saiba dar a compreender.

2.  Eu não o contradigo, porque são letrados e espirituais e sabem o que dizem e, por muitos caminhos e vias, leva Deus as almas. Como tem levado a minha é o que eu quero agora dizer, e no perigo em que me vi por me querer conformar com o que lia, que no mais não me intrometo. Creio bem que, quem chegar a ter união e não passar adiante ― digo, a arroubamentos e visões e outras mercês que Deus faz às almas ― terá o dito como o melhor, como eu fazia. Mas se eu me tivesse atido a isso, creio que nunca teria chegado ao ponto em que estou presentemente. Pois, a meu parecer, isto é engano; bem pode ser que seja eu a enganada; mas direi o que me aconteceu.

3.  Como eu não tinha mestre, lia por estes livros, por onde, pensava eu, iria pouco a pouco entendendo alguma coisa. Depois entendi que, se o Senhor não me ensinasse, eu poderia depreender pouco dos livros, porque não era nada o que entendia até que Sua Majestade mo dava a entender, por experiência, nem sabia o que fazia. E começando, pois, a ter um pouco de oração sobrenatural ― digo de quietude ― procurava desviar toda coisa corpórea, conquanto não ousasse ir levantando a alma, porque ― como fui sempre tão ruim ― via que era atrevimento. Parecia-me, no entanto, sentir a presença de Deus, e assim é, e procurava ficar-me recolhida com Ele. É oração saborosa, se Deus ali ajuda, e o deleite é muito. E como vi aquele lucro e aquele gosto, já não havia quem me fizesse voltar à Humanidade, pois que, de facto, me parecia em verdade, que me era impedimento.

Oh! Senhor da minha alma e meu Bem, Jesus Crucificado! Não me recordo vez alguma desta opinião que tive, que não me dê pena e me pareça que Vos fiz uma grande traição, ainda que por ignorância.

4.  Tinha eu sido muito devota de Cristo toda a minha vida. Porque isto foi já para o fim (digo no fim, antes que o Senhor me fizesse estas mercês de arroubamentos e visões), e era-o em tanto extremo que durou muito pouco o permanecer nesta opinião e assim sempre eu voltava ao meu costume de folgar com este Senhor, em especial quando comungava. Quisera eu sempre trazer diante dos olhos Seu retrato e imagem, já que não podia trazê-Lo tão esculpido em minha alma como quisera. Será possível, Senhor meu, que coubesse em meu pensamento ― sequer, uma hora ― que Vós me havíeis de impedir um maior bem? De onde me vieram a mim todos os bens senão de Vós?

Não quero pensar que nisto tivesse tido culpa porque me magoa muito. Decerto que era ignorância e assim Vós quisestes, por Vossa bondade, remediá-lo, dando-me quem me tirasse deste erro e que depois eu Vos visse tantas vezes ― como adiante direi ― para que mais claramente entendesse quão grande era o erro e o dissesse a muitas pessoas, como tenho feito e agora o escrevo aqui.

5.  Tenho para mim que a causa de muitas almas não aproveitarem mais e de não chegarem a uma muito grande liberdade de espírito, quando chegam a ter oração de união, é por isto mesmo. Julgo haver duas razões em que posso fundar a minha opinião; e bem pode ser não diga nada, mas o que disser, tenho-o visto por experiência, pois se encontrava muito mal a minha alma até o Senhor lhe dar luz; porque todos os seus gozos eram como que a sorvos e, saindo deles, não se achava com a Sua companhia, como depois a teve para os trabalhos e tentações.

Uma, é que há um tanto de pouca humildade, tão solapada e escondida, que não se sente. E, quem será o soberbo ou miserável, como eu, que embora houvesse trabalhado toda a sua vida com quantas penitências e orações e perseguições se possam imaginar, não se dê por muito rico e muito bem pago, quando o Senhor lhe consentir estar ao pé da Cruz com S. João? Não sei em que juízo cabia não se contentar com isto, a não ser no meu, que de todas as maneiras se perdia no que havia de ganhar.

6.  Se todas as vezes ― por condição da natureza ou enfermidades ― não se pode pensar na Paixão por ser penoso, quem nos impede de estar com Ele depois de ressuscitado, pois tão perto O temos no Sacramento, onde já está glorificado? E não O vemos tão fatigado e feito em pedaços, escorrendo sangue, cansado pelos caminhos, perseguido daqueles a quem fazia tanto bem, não acreditado pelos Apóstolos. Sim, porque, certamente, nem há quem sofra o estar a pensar sempre em tantos trabalhos como os que passou. Ei-Lo pois aqui sem dor, cheio de glória, esforçando a uns, animando a outros, antes que subisse aos Céus, companheiro nosso no Santíssimo Sacramento, que parece não estava na Sua mão apartar-se de nós um só momento! E que tenha estado na minha o apartar-me eu de Vós, Senhor meu, para melhor Vos servir!... Que, enfim, quando Vos ofendia não Vos conhecia... Mas que, conhecendo-Vos, pensasse ganhar mais por este caminho! Oh! que mau caminho levava, Senhor! Bem me parece que ia sem caminho, se Vós não me voltásseis a pôr nele; pois vendo-Vos junto de mim, logo vi todos os bens. Não metem vindo trabalho que, olhando-Vos a Vós, tal estivestes diante dos juízes, não se torne fácil de sofrer. Com tão bom amigo presente, com tão esforçado capitão, que foi o primeiro no padecer, tudo se pode sofrer. É ajuda e dá força; nunca falta; é Amigo ver dadeiro. E vejo eu claramente e vi depois que, para contentar a Deus e para Ele nos fazer grandes mercês, quer que seja por mãos desta Humanidade Sacratíssima, na qual Sua Majestade disse que Se deleita. Muitas, muitas vezes o tenho visto por experiência e tem-mo dito o Senhor. Tenho visto claramente que por esta porta temos de entrar, se queremos que a soberana Majestade nos mostre grandes segredos.

7.  Assim, V. Mercê, senhor, não queira outro caminho, embora esteja no cume da contemplação; por aqui vai seguro. É por este Senhor nosso que nos vêm todos os bens. Ele o ensinará; olhando a Sua vida, é o melhor modelo. Que mais queremos com um tão bom Amigo ao nosso lado, que não nos deixará nos trabalhos e tribulações, como fazem os do mundo? Bem-aventurado quem de verdade O amar e sempre O trouxer ao pé de si. Vejamos o glorioso São Paulo que, dir-se-ia, ter sempre na boca Jesus, como quem O tinha bem no coração. Eu tenho reparado com cuidado, depois que isto compreendi, em alguns santos grandes contemplativos, e não iam por outro caminho. São Francisco dá mostras disto nas Chagas; Santo António de Pádua no Menino; São Bernardo deleitava-se na Humanidade; Santa Catarina de Sena e outros muitos que V. Mercê saberá melhor do que eu.

8.  Isto de apartar-se do que é corporal bom deve ser certamente, pois gente tão espiritual o diz; mas, a meu parecer, há-de ser estando a alma muito aproveitada, porque até isto, claro está, se há-de buscar ao Criador por meio das criaturas? Tudo é conforme à mercê que o Senhor faz a cada alma: nisso não me intrometo. O que eu queria dar a entender é que não há-de entrar nesta conta a Sacratíssima Humanidade de Cristo. E entenda-se bem este ponto, em que eu quereria saber-me explicar.

9.  Quando Deus quer suspender todas as potências, como temos visto nos modos de oração que ficam ditos," claro está que, embora não o queiramos, se nos tira esta presença. Que se vá então em boa hora! Ditosa tal perda que é para se gozar mais do que nos parece se ter perdido; porque então se emprega a alma toda em amar a Quem o entendimento tem trabalhado por conhecer. Ama o que não compreendeu e goza do que não poderia tão bem gozar se não se fosse perdendo a si mesma para, como digo, mais ganhar.

Mas que nós, de propósito e com cuidado, nos acostumemos a não procurar, com todas as nossas forças, trazer sempre diante de nós ― e prouvera ao Senhor que fosse sempre ― esta Sacratíssima Humanidade, isto digo que não acho bem: é andar a alma no ar, como dizem; porque me parece não tem arrimo, por mais que imagine andar cheia de Deus. É grande coisa, enquanto vivemos e somos humanos, trazer a Deus humanado diante de nós. Não O querer trazer assim presente, é o outro inconveniente que há. Do primeiro, já comecei a falar; há um pouco de falta de humildade, em querer levantar a alma antes que o Senhor a levante e em não se contentar com meditarem coisa tão preciosa e querer ser Maria antes de ter trabalhado como Marta. Quando o Senhor quer que o seja, até mesmo logo desde o primeiro dia, não há que temer; façamos por ser comedidos, como creio já ter dito outra vez. Este argueirito de pouca humildade, embora pareça que não é nada, causa muito dano a quem quer aproveitar na contemplação.

10. Voltando ao segundo ponto, não somos anjos, temos corpo. Querermos fazer de anjos estando na terra ― e tanto na terra como eu estava ― é desatino. Pois que, normalmente, o pensamento precisa de arrimo, se bem que algumas vezes a alma saia de si, e em muitas outras ande tão cheia de Deus que não tenha necessidade de coisa criada para se recolher. Isto, porém, não é tão habitual: e no meio de negócios e perseguições e trabalhos, quando não se pode ter tanta quietação, e em tempo de aridez, mui bom amigo é Cristo, porque O vemos Homem e com fraquezas e trabalhos, e serve-nos de companhia. Havendo costume, é muito fácil supô-Lo ao pé de nós, ainda que haverá ocasiões em que nem uma nem outra coisa se poderá fazer.

Para isto, é bom o que tenho dito: não nos apresentarmos a procurar consolações de espírito. Abraçar-se com a cruz, venha o que vier, é grande coisa. Desamparado ficou este Senhor de toda a consolação; sozinho O deixaram nos trabalhos. Não O deixemos nós que, para mais subirmos, Ele nos dará melhor a mão, do que a nossa própria diligência. Ausentar-se-á quando vir que assim convém e o Senhor queira arrancar a alma a si mesma, como já disse.

11. Muito contenta a Deus ver uma alma que, com humildade, mete por terceiro a Seu Filho e O ama tanto que, mesmo querendo Sua Majestade elevá-la a muito grande contemplação ― como tenho dito ― se reconhece indigna, dizendo com São Pedro: Apartai-Vos de mim, Senhor, que sou um homem pecador.

Isto tenho-o eu experimentado; desta arte tem Deus levado a minha alma. Outros irão ― como tenho dito por outro atalho. O que eu tenho entendido é que todo este edifício da oração vai fundado em humildade e, quanto mais se abaixa uma alma na oração, mais a levanta Deus. Não me recordo de haver-me Ele feito mercê muito assinalada, das que adiante direi, que não fosse estando eu desfeita por me ver tão ruim. E ainda procurava Sua Majestade dar-me a entender coisas para me ajudar a conhecer, que eu nem saberia imaginar.

Tenho para mim que tudo quanto a alma faça de sua parte para se ajudar nesta oração de união, embora lhe pareça que logo, logo lhe aproveita, como coisa mal fundada, virá muito depressa a cair. E tenho medo que assim nunca chegará à verdadeira pobreza de espírito, que consiste não em buscar consolo e gosto na oração ― que os da terra já estão deixados ―, mas sim em ter consolação nos trabalhos, por amor d'Aquele que sempre viveu neles, e ficar aquietada no meio desses trabalhos e securas. Pois, ainda que algo se sinta, não é para inquietar e dar pena, como têm algumas pessoas que, se não estão sempre trabalhando com o entendimento e sentindo devoção, julgam que tudo vai perdido; como se, pelo seu trabalho, merecessem tão grande bem!

Não digo que não procurem isto e não estejam com cuidado diante de Deus, mas que não se matem se não puderem ter nem sequer um bom pensamento, como de outras vezes já tenho dito. Somos servos sem proveito; o que é que julgamos poder?

12. Mais quer o Senhor que conheçamos isto e andemos feitos uns asnozitos a puxar à nora da água, que fica dita, porque, embora tapados os olhos e não entendendo o que fazem, tirarão mais água do que o hortelão com toda a sua diligência. Com liberdade se há-de andar neste caminho, entregues às mãos de Deus. Se Sua Majestade quiser subir-nos a ser dos da Sua câmara e segredo, vamos de boa vontade; se não quiser, sirvamos em ofícios baixos e não nos sentemos no primeiro lugar, como tenho dito algumas vezes. Deus tem mais cuidado do que nós e sabe para o que cada um é. De que serve governar-se a si quem tem já dada toda a sua vontade a Deus?

A meu parecer, isto muito menos se pode sofrer aqui do que no primeiro grau de oração e prejudica muito mais, pois são bens sobrena turais. Se alguém tiver má voz, por muito que se esforce por cantar, não se lhe tornará boa; se Deus quiser dar-lha, não necessita dar vozes primeiro. Supliquemos-Lhe, pois, que sempre nos faça mercês, rendida a alma, mas confiando na grandeza de Deus. E visto que lhe dão licença para estar aos pés de Cristo, procure não se tirar dali; esteja como quiser; imite a Mada lena que, quando estiver forte, Deus a levará ao deserto.

13. Assim, V. Mercê, até que encontre quem tenha mais experiência do que eu e o saiba melhor, fique-se nisto. Se são pessoas que começam a gostar de Deus, não as acredite, porque a estas lhes parece aproveitarem e gozarem mais ajudando-se? Oh! quando Deus quer, como vem a descoberto, sem estas ajudazitas! Por mais que façamos, arrebata o espírito, tal como um gigante pegaria numa palha, e não há resistência que valha! Como, pois, acreditar que, quando Deus quer, fique à espera que voe o sapo por si mesmo! E ainda mais dificultoso e pesado me parece levantar-se o nosso espírito, se Deus o não levanta, porque está carregado de terra e de mil impedimentos. Aproveita-lhe pouco o querer voar; embora, por seu natu ral, tenha mais capacidade para isso do que o sapo, está porém tão metido em lama que a perdeu por sua culpa.

14. Pois quero concluir com isto: sempre que pensarmos em Cristo, lembremo-nos do amor com que nos fez tantas mercês e quão grande no-lo mostrou Deus em nos dar tal penhor do amor que Ele nos tem, pois amor gera amor. E ainda que seja muito no princípio e nós muito ruins, procuremos ir sempre vendo isto e despertando-nos para amar; porque, uma vez que o Senhor nos faz mercê de que este amor se nos imprima no coração, ser-nos-á tudo fácil e aproveitaremos muito em breve e mui sem trabalho.

Dê-nos Sua Majestade ― pois sabe o muito que nos convém ― pelo muito que Ele rios teve e pelo Seu glorioso Filho, que, tanto à Sua custa, no-lo mostrou. Amen.

15. Uma coisa quereria eu perguntar a V. Mercê: como é que o Senhor, em começando a fazer mercês tão sublimes a uma alma, como é pô-la em perfeita contemplação, não a deixa logo perfeita de todo como, em boa razão, havia de ficar? Sim, de certo, em boa razão, porque quem tão grande mercê recebe, não mais havia de querer consolos da terra. Pois, no arroubamento, que parece traz consigo efeitos muito mais subidos e quanto mais, mais desapegada a alma fica, e estando ela já mais habituada a receber mercês, porque motivo não a deixa então logo o Senhor com perfeição nas virtudes, como depois fará com o andar do tempo, se num momento o mesmo Senhor, quando chega, a pode deixar santificada?

Isto quero eu saber, pois não o sei. Mas bem compreendo que é diferente a fortaleza que Deus infunde a princípio, quando a mercê não dura mais que um abrir e fechar de olhos e quase só se sente pelos efeitos que deixa, ou quando ela vem mais à larga. Muitas vezes, parece-me que talvez seja por a alma não se dispor então de pronto e totalmente, até que o Senhor, pouco a pouco, a vai criando e faz com que ela se determine e lhe dá forças de varão para que de todo dê com tudo no chão. E tal como fez com a Madalena, num breve instante, fá-lo com outras pessoas, na medida em que estas deixam operar Sua Majestade. Não acabamos de crer que, ainda nesta vida, dá Deus cem por um.

16. Também me vinha ao pensamento esta comparação: ainda que seja o mesmo, o que se dá aos que vão mais adiantados e aos que estão no princípio, no entanto, é como um manjar de que comem muitas pessoas: as que comem pouquito, ficam só com o bom sabor por pouco tempo; às que comem mais, ajuda a sustentá-las; às que comem muito, dá vida e força. E tantas vezes se pode comer e tão abundantemente deste manjar de vida, que já se não coma de outra coisa, que saiba bem, afora ele. É que vêem o proveito que lhes faz e têm já tão afeito o paladar a esta suavidade, que mais quereriam não viver, a terem de comer outras coisas, que não servem senão para tirar o bom sabor que o bom manjar lhes deixou.

Assim, também uma santa companhia não produz, com a sua conversação, tanto fruto em um dia como em muitos; e tantos podem estes ser, que fiquemos como ela, se Deus nos favorece. Enfim, tudo depende do que Sua Majestade quer dar e a quem o quer dar. Mas vai muito no determinar-se quem já começa a receber esta mercê, a desapegar-se de todo, tendo-a no que é de razão.

17. Também me parece que Sua Majestade anda a experimentar, ora a um, ora a outro, a ver quem Lhe tem amor. E descobre-lhes Quem é, com um deleite tão soberano, capaz de avivar a fé, se esta estiver amortecida, daquilo que um dia nos dará, dizendo: «Vede, que isto é uma gota do grandíssimo mar de bens». Não deixa nada por fazer àqueles a quem ama. Tal como vê que O recebem, assim dá e Se dá a Si mesmo. Quer a quem Lhe quer. E como sabe querer bem! e que bom Amigo!

Oh! Senhor da minha alma; quem tivesse palavras para dar a entender o que dais aos que se fiam de Vós, e o que perdem os que chegam a este estado e se ficam apegados a si mesmos! Não queirais Vós isto, Senhor; pois, mais do que isto fazeis Vós, vindo a uma pousada tão ruim como a minha. Bendito sejais para sempre.

18. Torno a suplicar a V. Mercê que, se tratar estas coisas de oração, que escrevi, com pessoas espirituais, que elas o sejam de verdade. Porque, se não sabem mais do que um caminho ou se nele se ficaram a meio, não poderão atinar. E há algumas almas a quem Deus leva desde logo por caminho muito subido e parecer-lhes-á que assim os outros também ali poderão tirar proveito, aquietando o entendimento sem se aproveitarem do auxílio de coisas corpóreas, e quedar-se-ão secas como paus. E algumas, tendo já gozado um pouco de quietude, logo pensam que, assim como têm uma coisa, podem fazer a outra, e em lugar de aproveitar, desaproveitarão, como tenho dito. Assim, para tudo é preciso experiência e discrição. O Senhor no-las dê por Sua bondade.

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