Alexandrina de Balasar
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CAPÍTULO 19Prossegue na mesma matéria. Começa a declarar os efeitos produzidos na alma, neste grau de oração. Aconselha a que não tornem atrás nem deixem a oração, ainda que, depois desta mercê, tornem a cair. Diz os danos que há em não se fazer isto. E de grande consolo para os fracos e pecadores. 1. Fica a alma, desta oração e união, com uma grandíssima ternura, de maneira que se quereria desfazer, não de pena, senão de lágrimas de gozo. Encontra-se banhada delas sem sentir nem saber quando nem como as chorou; mas dá-lhe grande deleite ver aplacado aquele ímpeto de fogo com água que mais o faz crescer. Isto parece algaravia, mas é assim mesmo. Acontecia-me algumas vezes, neste grau de oração, estar tão fora de mim, que não sabia se era sonho ou se em verdade se dava aquela glória que tinha sentido; e ao ver-me inundada daquela água que sem custo corria com tanto ímpeto e presteza, que parecia a destilava aquela nuvem do céu, via, que não tinha sido sonho. Isto era nos princípios, quando esta mercê passava com brevidade. 2. A alma fica tão animosa que, se naquele momento a fizessem em pedaços por Deus, ser-lhe-ia grande consolo. Ali são as promessas e determinações heróicas, a viveza dos desejos, o começar a aborrecer o mundo, e ver muito claramente sua vaidade. Está muito mais aproveitada e elevada de que nas orações passadas e a humildade mais crescida. É que vê nitidamente que, para tão excessiva e grandiosa mercê, não houve diligências suas nem teve parte em a atrair ou a possui-ia. Com clareza vê-se indigníssima, e vê a sua miséria porque, em aposento onde entra muito sol, não há teia de aranha escondida. Vai tão longe a vanglória, que nem lhe parece a poderia ter, porque já tem à vista de olhos o pouco ou nada que pode, pois não houve ali quase consentimento; dir-se-ia até que, embora não quisesse, lhe cerraram a porta a todos os sentidos para que mais pudesse gozar do Senhor. Fica-se a sós com Ele; que há-de fazer senão amá-Lo? Não vê nem ouve, a não ser à força de braços; pouco há que lhe agradecer. Representa-se-lhe depois a sua vida passada e a grande misericórdia de Deus, com grande verdade e sem o entendimento ter necessidade de andar à caça, pois vê ali guisado o que há-de comer e entender. Vê que merece o inferno e que a castigam dando-lhe glória. Desfaz-se em louvores de Deus, e eu me quisera agora desfazer neles. Bendito sejais, Senhor meu, que duma lama tão suja como eu, fazeis água tão clara que sirva para a Vossa mesa! Sede louvado, ó delícia dos Anjos, que assim quereis levantar um verme tão vil! 3. Permanece algum tempo este aproveitamento na alma. Esta já pode, com entender claramente que não é sua a fruta, começar a reparti-Ia sem lhe fazer a ela falta. Começa a dar mostras de alma que guarda tesouros do Céu, e a ter desejos de os repartir com outros e a suplicar a Deus não seja ela só a ser rica. Começa a aproveitar aos próximos quase sem o entender, nem fazer nada de per si; eles é que o entendem, já as flores têm tão crescido o olor que lhes dá que desejo de se achegarem a elas. Compreendem que têm virtudes e vêem a fruta que é apetecível. Gostariam de a ajudar a comer. Se esta terra está muito cavada com trabalhos e perseguições e murmurações e enfermidades ― que poucos devem aqui chegar sem isto ― e, se está bem solta por andar muito desapegada do próprio interesse, a água embebe-se tanto nela que quase nunca seca. Mas se é terreno que ainda é terra por lavrar e com tantos espinhos como eu estava ao princípio, e ainda não apartada das ocasiões, nem tão agradecida como merece tão subida mercê, a terra volta a secar. E se o hortelão se descuida, e se o Senhor, por Sua bondade somente, não torna a querer mandar chuva, dai por perdido o horto. Assim me aconteceu algumas vezes, que certo é me espanto e, se isto se não tivesse passado comigo, não o poderia crer. Escrevo-o para consolo de almas fracas como a minha, para que nunca desesperem nem deixem de confiar na grandeza de Deus. Ainda que caiam. depois de tão encumeadas como é o trazê-las o Senhor até aqui, não desfaleçam, se não se querem perder de todo. As lágrimas tudo alcançam; uma água traz outra. 4. Esta foi uma das razões por que me animei - sendo a que sou - a obedecer a escrever isto e a dar conta da minha ruim vida e das mercês que me tem feito o Senhor, apesar de não O servir senão com ofensas. Certo é que eu quisera ter aqui grande autoridade para que nisto me acreditassem; e suplico ao Senhor que ma dê Sua Majestade. Digo pois, que não desfaleça ninguém, dos que começaram a ter oração, dizendo: Se hei-de tornar a ser mau, é pior continuar a levar por diante o seu exercício. Se se deixar a oração e se não se emendar do mal, assim o creio; mas se não a deixar, creia antes que ela o levará a porto de salvação. Deu-me nisto tanta bateria o demónio e passei tanto, por me parecer pouca humildade ter oração sendo tão ruim, que -como já disse- deixei-a ano e meio, pelo menos um ano, pois do meio não me recordo bem. Isto mais não era, nem foi, que meter-me eu mesma no inferno, sem necessidade de demónios que lá me fizessem cair. Oh! valha-me Deus, que cegueira tão grande! E, quão bem acerta o demónio - para conseguir seus fins -em carregar aqui a mão! Sabe o traidor que alma que tenha oração e nela perseverar, está para ele perdida e que todas as quedas que lhe fizer dar a ajudarão, por bondade de Deus, a dar depois maior salto no serviço do Senhor. Isto muito lhe importa. 5. Ó Jesus meu! o que é ver uma alma que aqui tem chegado e depois, caída em um pecado, quando Vós, por Vossa misericórdia, lhe tornais a dar a mão e a levantais! Como ela reconhece a multidão das Vossas grandezas e misericórdias e a sua miséria! Aqui é o desfazer-se deveras e conhecer Vossas grandezas; aqui o não ousar erguer os olhos; aqui o levanta-los para reconhecer o que Vos deve; aqui se faz devota da Rainha do Céu para que Vos aplaque; aqui invoca os santos que caíram depois de Vós os terdes chamado, para que a ajudem; aqui o parecer-lhe que lhe chega à larga tudo o que dais, porque vê que não merece a terra que pisa; o acudir aos Sacramentos, a fé viva que lhe fica de ver a virtude que Deus pôs neles, o louvar-Vos por terdes deixado tal medicina e unguento para as nossas chagas, que não só as cura mas as tira de todo. Disto se espantam e quem, Senhor da minha alma, se não há-de espantar da misericórdia tão grande e de mercê tão acrescida, em paga de traição tão feia e abominável? Não sei como se me não parte o coração quando isto escrevo, porque sou ruim. 6. Com estas lagrimazitas que aqui choro, dadas por Vós ― água de muito mau poço no que é da minha parte ― ; parece que Vos tenho dado satisfação por tantas traições, pois ando sempre fazendo mal e procurando desfazer as mercês que Vós me tendes feito. Dai-lhes, Senhor meu, valor; aclarai água tão turva, sequer ao menos para não dar tentação a alguém, como a mim metem dado de fazer maus juízos, pensando por que deixais, Senhor, a pessoas muito santas que sempre Vos têm servido e trabalhado por Vós, criadas em Religião e dela sendo-o de verdade e não como eu que não tenho mais de que o nome, vendo claramente que não lhes fazeis mercês como a mim. Bem vejo, Bem meu, que lhes guardais o prémio para lho dar por junto, e que minha fraqueza disto necessita. A eles, que como fortes Vos servem sem isso, os tratais como a gente esforçada e não interesseira. 7. Contudo, Vós sabeis, Senhor meu, que eu clamava muitas vezes diante de Vós desculpando as pessoas que contra mim murmuravam, por me parecer que lhes sobejava razão. Isto era já, Senhor, depois que me seguráveis, por bondade Vossa, para que não Vos ofendesse tanto e eu já me ia desviando de tudo quanto me parecia poder desgostar-Vos. Em fazendo eu isto, começastes, Senhor, a abrir Vossos tesouros à Vossa serva: Dir-se-ia não esperardes outra coisa, senão que houvesse em mim vontade e preparação para os receber, tal a brevidade com que começastes, não só a dá-los, mas a querer que se entendesse que mos dáveis. 8. Entendido isto, começou-se a ter boa opinião daquela de quem todos ainda não tinham compreendido quanto era má, embora muito transluzisse. Mas logo começou também a murmuração e perseguição e ― a meu parecer ― com muita razão; e assim não tomei inimizade a ninguém, mas suplicava-Vos que olhásseis à razão que tinham. Diziam que eu me queria fazer passar por santa e que inventava novidades, não tendo ainda chegado então a cumprir, em grande parte, com toda a minha Regra, nem a igualar às muito boas e santas freiras que havia na casa. Nem creio chegarei se Deus, por Sua bondade, não fizer tudo de Sua parte! Da minha, antes era capaz de tirar o que havia de bom e meter costumes que não o fossem; ao menos, fazia o que podia para os introduzir e no mal era muito o que podia. Assim, sem culpa sua, me culpavam. Não digo que fossem só as freiras, mas também outras pessoas; descobriam-me verdades, porque Vós assim lho permitíeis. 9. Uma vez, rezando as Horas, como eu tinha algumas vezes esta tentação, cheguei ao versículo que diz: «justus es, Domine e Teus juízos...». Comecei a pensar como era grande esta verdade; porque nisto, o demónio jamais teve força para me tentar de modo a eu duvidar terdes Vós, meu Senhor, todos os bens, nem em verdade alguma de fé. Antes me parecia que, quanto mais as verdades iam sem caminho natural, mais firme era a minha fé e dava-me grande devoção. Em serdes Todo-Poderoso ficam incluídas, para mim, todas as grandezas que Vós fizerdes, e nisto ― como digo ― jamais tive dúvida. Pensando, pois, como permitíeis com justiça que muitas servas Vossas, que as havia ― como tenho dito ― não tivessem os regalos e mercês que me fazíeis a mim, sendo eu a que era, respondeste-me, Senhor: «Serve-Me tu a Mim, e não te metas nisso». Foi a primeira palavra que eu entendi que Vós me dizíeis e assim espantou-me muito. Porque depois declararei esta maneira de entender, com outras coisas, não o digo aqui, pois que é sair do assunto e creio já muito tenho saído; quase não sei o que tenho dito. Nem pode deixar de ser assim, meu filho, e V. Mercê há-de suportar estas interrupções; porque quando vejo o que Deus me tem sofrido e me vejo neste estado, não é muito que perca o tino do que digo e hei-de dizer. Praza ao Senhor que sejam sempre estes os meus desatinos e não permita Sua Majestade tenha eu ainda poder para ir contra Ele num só ponto que seja. Antes me consuma Ele neste em que estou. 10. Já basta para se ver as Suas grandes misericórdias, não uma senão muitas vezes em que tem perdoado tanta ingratidão. A S. Pedro, uma vez; a mim, muitas. Com razão me tentava o demónio para não pretender amizade tão estreita com Quem usava de inimizade tão pública. Que cegueira tão grande a minha! Onde pensava eu, Senhor meu, encontrar remédio senão em Vós? Que disparate fugir da luz para andar sempre tropeçando! Que humildade tão soberba inventava em mim o demónio: apartar-me de estar arrimada à coluna e ao báculo que me havia de sustentar para não dar tão grande queda! Agora me persigno e julgo não ter passado perigo tão grande como esta invenção que o demónio me ensinava por via de humildade. Punha-me no pensamento como é que coisa tão ruim e tendo recebido tantas mercês, me havia de chegar à oração? Bastava-me rezar aquilo a que estava obrigada, como todos, e pois que até isto não fazia bem, como queria fazer mais? Era pouco respeito e ter em pouco as mercês de Deus. Bem era pensar e entender isto, mas o pô-lo por obra foi grandíssimo mal. Bendito sejais Vós, Senhor, que assim me remediastes. 11. Princípio da tentação com que o demónio perdeu a Judas isto me parece, senão que o traidor não ousava andar tão a descoberto; mas, pouco a pouco, teria vindo a dar comigo aonde deu com ele. Atendam a isto, por amor de Deus, todos os que tratam de oração. Saibam que no tempo em que vivi sem ela, andava muito mais perdida a minha vida. Veja-se que bom remédio me dava o demónio e que perigosa humildade! Era um grande desassossego. Mas, como havia de sossegar a minha alma? Apartava-se a infeliz do seu descanso, tinha em si bem presentes as mercês e os favores, via que os contentos aqui da terra são asco. Como pude passar por isto, me espanta. Era na esperança de voltar à oração. É que não pensava ― ao que agora me recordo, porque isto deve ter sido há mais de vinte e um anos poder deixar de estar determinada a isso, mas esperava o ficar mais limpa de pecados. Oh! que mal encaminhada ia nesta esperança! Até ao dia do juízo, disso me livraria o demónio para de ali me levar ao inferno! 12. Pois se tendo oração e leitura ― conhecendo verdades e o ruim caminho que levava ― e importunando muitas vezes ao Senhor com lágrimas, era tão ruim que não me podia valer, afastada disto, metida em passatempos com muitas ocasiões e poucas ajudas ― e ouso até dizer nenhuma, a não ser para me ajudar a cair ― que esperava senão isso? Creio que merece muito diante de Deus um frade de São Domingos; grande letrado, que me despertou deste sono. Fez-me comungar, como creio ter dito, de quinze em'quinze dias. Foi menos então o mal. Comecei a cair em mim; embora não deixasse de fazer ofensas ao Senhor. Como, porém, não tinha perdido o caminho, caindo e levantando-me, ia por ele, embora pouco a pouco; e quem não deixa de andar e vai para a frente, ainda que tarde, sempre chega. Perder o caminho não me parece ser outra coisa senão deixar a oração. Deus nos livre disso, por Quem Ele é. 13. Fica daqui entendido ― e note-se isto muito, por amor do Senhor que, embora uma alma chegue a receber de Deus tão grandes mercês na oração, não fie de si, pois pode cair, nem se meta de nenhuma maneira em ocasiões de queda. Olhe-se muito a isto, que importa muito. Pois, embora a mercê tenha sido certamente de Deus, o demónio pode depois causar aqui enganos: aproveitando-se o traidor da mesma mercê naquilo que lhe é possível e enganar a pessoas não crescidas nas virtudes, nem mortificadas, nem desapegadas. É que não ficam aqui fortalecidas tanto quanto baste - como depois direi para se meterem em ocasiões e perigos, por grandes que sejam os desejos e determinações que tenham... É excelente doutrina esta; não é minha, senão ensinada por Deus, e assim quisera que pessoas ignorantes, como eu, a soubessem. Porque, ainda quando uma alma se ache neste estado, não há-de confiarem si mesma para sair a combater; já fará muito em se defender. Aqui tem necessidade de armas para se defender dos demónios e não tem ainda forças para pelejar contra eles e os trazer debaixo dos pés, como fazem os que estão no: estado que depois direi. 14. Este é o engodo com que o demónio colhe a alma: como esta se vê tão chegada a Deus e. a diferença que há entre os bens do Céu e os da terra e vê o amor que o Senhor lhe tem mostrado, nasce-lhe desse amor e confiança e segurança de não decair do que goza. Parece-lhe antever claro o prémio e que já não lhe é possível deixar o que, até nesta vida, é tão deleitoso e suave, por coisa tão baixa e vil como é o deleite cá de baixo. Com esta confiança faz-lhe o demónio perder a pouca que há-de ter em si, e ― como digo ― mete-se em perigos e começa, com bom zelo, a dar a fruta sem conta nem medida, julgando que não tem já nada a temer de si mesma. E isto não é soberba ― pois bem percebe que de si mesma não pode nada ― senão pela muita confiança em Deus, mas sem discrição. Não olha a que ainda tem fracas asas. Pode sair do ninho e Deus tira-a dele para fora, mas ainda não é para voar; porque as virtudes não estão fortes, nem tem experiência para enfrentar os perigos, nem sabe o mal que faz em confiar em si. 15. Isto foi o que a mim me arruinou. E para isto, como para tudo, há grande necessidade de mestre e trato com pessoas espirituais. Bem creio eu que alma que Deus traz a este estado ― se ela não deixa de todo em todo a Sua Majestade ―, Ele não a deixará de favorecer nem a deixará perder. Mas quando cair, como tenho dito, olhe, olhe por amor do Senhor, não a engane o demónio levando-a a deixar a oração — como fez a mim ― por uma falsa humildade, como já tenho dito e muitas vezes o quisera dizer. Confie na bondade de Deus, que é maior de que todos os males que podemos fazer e não se lembra da nossa ingratidão, quando, reconhecendo o que somos, queremos voltar à Sua amizade. Nem se recorda das mercês que nos tem feito para por elas nos castigar; antes ajudam a, perdoar-nos mais depressa, como a gente que já era de Sua casa e tem comido ― como dizem ― o seu pão. Lembrem-se das Suas palavras e vejam o que fez comigo: mais me cansei eu de O ofender, que Sua Majestade de me perdoar. Nunca Ele se cansa de dar nem se podem esgotar Suas misericórdias; não nos cansemos nós de receber. Seja bendito para sempre, amen, e louvem-nO todas as criaturas. |
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