Alexandrina de Balasar |
Alexandrina Maria da Costa Sentimentos da alma1952II4 de Julho – Sexta-feiraParece-me que já basta de falar de mim, apesar de ter imensa necessidade de desabafar; faço para obedecer, mas representa para mim um enorme sacrifício. Queria esconder-me e fugir aos olhares de todos. Busco a glória do Senhor e o bem das almas; não é a minha glória nem os louvores das criaturas. É por isso que sinto a necessidade de refugiar-me e desaparecer para sempre. É um martírio, é uma humilhação quase constante, ao ver-me rodeada das pessoas. Enquanto elas falam, o coração sangra-se de dor, por reconhecer o que sou, e sentir que sou a alma mais pobrezinha, mais enferma, que Jesus tem na terra. Se todas as criaturas, que se abeiram de mim, me conhecessem, fugiam, nem de longe queriam ver. A minha inutilidade continua a ser um doloroso pavor para a alma. Sofro muito, mas tudo inútil. O meu amor inútil é. Não posso pensar, nem sei como vencer tal inutilidade! Inútil para a vida e para as coisas de Jesus, útil para o pecado e para todas as obras de Satanás; nas minhas tremendas lutas não tenho dó nenhum de Jesus. Falta-me a pena de O ofender, revolto-me contra Ele, contra o Céu, calco aos pés os Seus direitos, a Sua Lei, saio do pecado sempre insatisfeita, desejosa de mais e mais pecar, e sempre presente aos meus olhos e ao meu espírito, as pessoas, o lugar e a maldade do meu pecar. Sou insaciável nos meus prazeres. Parece que nem diminuem de noite; desvio os meus olhos dos instrumentos que me levam ao crime e à morte. E, depois de tudo isto, sofro por não sofrer, sinto dor por me ter faltado a dor na ocasião de pecar. E então é tão grande, tão grande, como o próprio Jesus. É uma dor infinita! Se eu não fosse ignorante, se eu fosse sábia, quantas coisas podia dizer ! Mas até para isto sou inútil, estou morta para todo o bem. Eu sou como um vidro de cristal, quebro por tudo e por nada. Sofro indizivelmente com as mais pequeninas coisas, que com certeza nunca levam o fim de me ofender. Mesmo nesta inutilidade, o coração sangra, a dor é pungente, e tudo me fere ; por todos os lados vêm os espinhos a trespassar todo o meu ser. Chego a pensar que é mimo, e o meu amor-próprio a causa de tudo isto. Ó meu Deus, ó Jesus, ó Mãezinha, compadecei-Vos de mim. Por vezes, o meu coração abre-se como que um vulcão de fogo. Quer queimar a humanidade inteira e absorvê-la toda em si. Mas aqui entra a inutilidade, e nada posso fazer. Não quis saber do Horto, não quis vê-lo nem ouvir o que nele se passava. Com esta cruel ingratidão senti que alguém dele me fitava, e esse Alguém era Jesus. Se eu soubesse dizer a ternura dos Seus olhares ! Que convite tão meigo, que chamamento tão profundo ! Passei o tempo a sentir a Sua dor pelo meu proceder. Hoje, na viagem para o Calvário, não fiz outra coisa senão fugir d’Ele. Tinha em mim como que dois caminhos: um pelo qual fugia e outro que seguia para o Calvário, pelo qual caminhava Jesus escorrendo sangue e conduzindo o pesado madeiro. Ele fitava-me e convidava-me com o Seu silêncio a segui-Lo. A dor infinita continuou a pungir e a aniquilar-me o coração. Desfazia-me em dor, mas sem ser minha esta dor; minha era só a inutilidade. O sangue e o suor banhavam o corpo sacrossanto de Jesus. Ele ia mesmo desfalecido ao terminar a montanha. No alto do Calvário, Jesus estava pregado na cruz. Eu não quis unir-me a Ele; longe, muito longe, não O queria fitar. O Coração Divino de Jesus era para mim um chamamento e um brado contínuo. Fechei os olhos, cerrei os ouvidos, para não O ver nem O ouvir. Jesus expirou, e eu na minha inutilidade não quis aproveitar-me d’Ele, não expirei com Ele. Houve por algum tempo o silêncio da morte. Após esse silêncio, veio Jesus a mim ressuscitado, entrou no meu coração, fez-me viver a Sua vida e falou-me assim : — “Abri o tabernáculo da minha habitação. Abri as portas e sentei-me nele, delicioso, um incêndio de amor, rodeado de inúmeras virtudes. Está certo, minha esposa, convence-te, filha querida, só assim posso esquecer por algum tempo tantos crimes que com tão grande gravidade sou ofendido. Este coração tem a pureza dos anjos, os ardores dos querubins. Estou bem, estou bem, minha filha, não posso ausentar-me de ti. Fugi do mundo, fugi dos pecadores, para em ti viver, descansar. Aqui fico, com que esquecido de tantos, tantos crimes, de tantas, tantas maldades que em si encerram toda a maldade, toda a malícia humana”. — Ó Jesus, ó Jesus, deliciai-Vos, deliciai-Vos, não com o que é meu, mas com o que é Vosso. Eu quisera, sim, Jesus, quisera poder fazer-Vos esquecer de todos os crimes praticados. Primeiro por Vosso amor, porque Vos amo, e amando-Vos não Vos posso ver ofendido; depois, Jesus, depois, para Vos salvar as almas, as almas caríssimas, as almas que custaram o preço infinito do Vosso Divino Sangue. Quero e não posso, Jesus. Ah! Se fosse possível, eu a nada me poupava. Mas, ai de mim, pobre de mim, na minha inutilidade. — “Sofre assim, filha minha, florinha eucarística, sofre assim, porque és vítima. A tua inutilidade é para que o meu sangue divino, toda a minha Paixão e morte seja útil a essas almas. Tu salvas, salvas almas, almas sem conta. São milhões, milhões, milhões por esse mundo além, a quem o teu sofrimento abre as portas do Céu. Há tantas que não querem salvar-se ! Há tantas que desperdiçam os meus dons, as minhas graças ! Sofre, sofre, minha filha. O mundo exige o teu sofrimento. Só as vítimas o podem salvar. Só as vítimas podem aplacar a justiça de meu Pai. Tenho tão poucas ! O número das que se deixam imolar com amor e heroísmo é tão pequenino! Dá-Me, dá-Me, minha filha, o teu coração. Renova a tua oferta. Dá-Mo com todos os corações dos homens. Tenho fome, tenho sede; fome e sede devoradoras, fome e sede infinitas. Sacia-Me, sacia-Me, consola-Me”. — Ó Jesus, ó meu querido Amor, já sabeis que todo o meu coração Vos pertence e não e grande coisa, Jesus. É o mais pequenino e pobrezinho que tendes na terra. Não só Vos renovo a oferta dele, mas a oferta de todo o meu ser. É Vosso o coração e a alma; é Vosso o meu corpo inteiramente. Fazei dele um farrapo humano, fazei dele o que Vos aprouver. Junto à minha pobreza miserável, ofereço-Vos todos os corações dos que mais amo, todos os corações dos que me pertencem, todos os corações dos filhos Vossos. Eu quero, Jesus, quero fechá-los para sempre dentro do Vosso Amantíssimo Coração, justos e pecadores. Uns para mais se afervorarem, mais Vos amarem e santificarem. Outros para se converterem e se salvarem. Tomai conta, Jesus, tudo é Vosso, eu sou a Vossa vítima. — “Vem, minha filha, minha querida filha, receber a gota do meu divino sangue. Estão unidos, estão unidos, não só para passar a gota do sangue que te leva a vida, mas sim para mais te enriquecer, para mais te fortalecer, para mais e mais a Mim poderes dar”. — Ó Jesus, é bem doce a Vossa paz. É bem forte o Vosso amor. Sede sempre comigo e salvai todos os filhos Vossos. — “Vai em paz, minha filha, vai em paz. Fica na cruz, na cruz da vitória, na cruz de triunfo e de salvação. Diz ao mundo, pede às almas, diz-lhes quanto as amo. Pede-lhes que se convertam. Que não pequem, que não pequem, que não pequem e todas venham habitar para sempre no meu Divino Coração. Coragem, coragem, vai em paz e dá a minha paz”. — Obrigada, obrigada, meu Jesus. 5 de Julho – Primeiro SábadoDe ontem para hoje, o meu coração ficou numa tristeza e dor infinitas! Era um abismo de dor sem fim. Nesta manhã, quando me preparava para a vinda de Jesus, o meu coração fez-se como que um leão faminto. Estava aberto pelos punhais, mas mais se abriu com a fome insaciável. Tinha fome de Jesus. Só Ele podia satisfazê-lo. Esperei a Sua vinda na maior ansiedade. Ele veio. Não recusou a entrada. Deu-se todo a mim, sem desprezar a minha grande miséria. Encheu-me, matou-me a fome e falou-me assim : — “Minha filha, minha filha, braseiro de amor, coração em chamas vivas. Eu estou aqui para mais te abrasar, para mais te incendiar, para mais te consumir. Venho saciar a tua sede e fome de amor, como tu sacias a minha. Tu amas-Me, minha filha, amas-Me no gelo, amas-Me nas trevas e na morte, amas-Me, amas-Me mesmo na eternidade. Tu és, à minha semelhança, a vida das almas, como Eu o sou na Eucaristia. Eu dou-Me a elas com o Meu corpo e sangue. Tu dás-te por elas na dor, no martírio. Sofre, sofre, minha filha, a dor é amor. A dor é só isso. Repara, repara o Coração Divino do teu Jesus, o Coração Imaculado da tua Mãezinha. Repara, repara a justiça de Meu Eterno Pai. Sê sempre a escora forte e inabalável. Eu estou triste, muito triste, minha filha. Tenho o Meu Divino Coração a sangrar !” — Ai, meu Jesus, ai, meu Jesus, tantos punhais! Como cabem todos numa só chaga! Já sei, Jesus, bendito sejais, fizeste-me compreender. O coração em si é pequenino para tantos punhais, mas é grande, porque é Vosso, é infinito. Não adianta nada, meu Jesus, nada adianta o meu sofrer. O sangue corre tanto, tanto do Vosso Coração Divino ! Como é que Vos deixais ferir assim ? — “Se tu visses, se tu pudesses ver a crueldade com que Me foram cravados estes punhais! Se tu soubesses, se tu pudesse ver as almas negras e apodrecidas que se abeiram de Mim ! Receberam-Me nos seus corações em inferno, fizeram-Me baixar do Céu à terra. Ó minha filha, minha filha, quanto eu sofro ! Sofre tu agora, sofre tu sempre, arranca-Me estes punhais, cicatriza-Me estas chagas”. — Arranco, arranco, meu Jesus, e cravo-os no meu coração. Deixai-os estar sempre aqui e não sofrereis mais, meu doce Amor. Ofereço-Vos o Vosso próprio e o da querida Mãezinha, para ser o bálsamo dessas feridas. — “Estou curado, estou curado, minha pomba bela, louquinha de Jesus, louquinha das almas, flor tenra e mimosa, flor delicada e perfumada da Eucaristia. Minha filha, diz ao teu Paizinho que o Meu Divino Coração é fonte cristalina, é fonte insaciável de bênçãos, graças e amor para ele. Diz-lhe, diz-lhe que é todo meu o seu coração, e que é todo dele o Meu. Diz-lhe que sou fiel à minhas divinas promessas, não falto, não falto. Hão-de cumprir-se as ordens do Senhor, mas só à custa de muita, muita dor. Tudo é preciso para a missão nobre, para a missão bela, bela que lhe escolheu Jesus. Dá-lhe amor, amor em Meu nome, como o maior mimo, o mimo mais precioso do Céu. Diz, diz ao teu médico que espremo o seu coração como uma uva na prensa do lagar. Quero para Mim todo o suco. Escolhi-o para grandes coisas. Quero torná-lo, pelo sofrimento, digno de tão alta dignidade. Eu amo-o, Eu amo-o com o seu jardim florido. Diz-lhe que todas as suas flores hão-de ser colhidas para Mim, para a minha bendita Mãe. Infunde-lhe coragem e confiança. Dá-lhe todas as bênçãos, graças e amor de Jesus. Vem, minha bendita Mãe. Acaricia, fortalece a nossa filhinha.” — “Minha filha, minha querida filha, aqui no Meu regaço, estreitada por Mim ao Meu Santíssimo Coração, envolvida no Meu manto, escuta as minhas palavras : Meu manto de Rainha transformou-se em manto triste de dor. Olha para o centro do Meu peito. Vês como está o Meu Santíssimo Coração, tão cercado de espinhos ! Todo ele é dor, todo ele é dor, todo ele está em ferida” — Ai, Mãezinha, tantas gotas de sangue por cada ferida desses espinhos! Passai-os para mim, ou deixai, deixai que eu os tire. — “Aqui O tens, filha querida, vítima amada de Jesus. Aqui O tens às tuas ordens. Foi ferido com O de Jesus. As almas, que O feriaram a Ele, feriram-Me a Mim”. — Ai, Mãezinha ! Já estão todos, todos no meu coração. Enleei-os à volta dos punhais. E agora faço-Vos como a Jesus, dou-Vos o Vosso amor e o d’Ele para curar o Vosso Santíssimo Coração. Abraçada a Vós, repito-Vos muitas vezes: amo-Vos, amo-Vos, Mãezinha. Amo-Vos e amo Jesus por todos os que Vos não amam. Ao menos, ao menos com os meus desejos, já que mais não posso. Sede, sede a minha força. — “Ó minha filha, ó esposa predilecta de Jesus, também Eu te amo, amo, amo. Amo-te com todo o amor do Meu Santíssimo Coração. Amo-te e afirmo-te que Jesus te ama com toda a loucura de amor. És a vítima mais querida dos nossos Divinos Corações. És a esposa mais amada de Jesus. És a filha mais predilecta do Eterno Pai. Recebe, esposa minha, todo o amor do teu Jesus, todas as carícias da tua Mãezinha. Enche-te, fortalece-te com toda a fortaleza celeste. Dá a todos os que amas o amor do nosso Divino Coração; dá-lhes todos os carinhos, a nossa paz, força e protecção. Vai, vai fazer cair pelo mundo esta chuva de graças, todo este incêndio de amor e pede, pede aos corações do poder remédio para as praias, remédio para os cinemas e casinos, remédio para as desonestidades, remédio para a devassidão. Haja ordem, haja ordem, haja justiça. Pede-lhes, pede-lhes que não ofendam o Senhor. Pede-lhes, pede-lhes que se reconciliem com Ele, que não pequem mais. O Eterno Pai está irado contra a terra. Haja emenda de vida para haver perdão. Coragem, coragem; Jesus e Maria estão contigo, sempre contigo. Vai em paz”. — Deixai, Jesus, deixai, Mãezinha, que Vos abrace, que Vos estreite na despedida; estreito-Vos ao meu pobre coração. Obrigada, Jesus; obrigada, Mãezinha. 11 de Julho – Sexta-feiraPasso a minha vida, gasto o meu tempo na inutilidade. Quantos espinhos, quantas feridas me nascem daqui! Quanta amargura, profunda e dolorosa amargura, sai desta inutilidade! Tenho sede de me dar, de me consumir no amor de Jesus, de me entregar toda ao Seu serviço; não descansar nem um só momento, sem fazer bem às almas. Tenho fome, fome devoradora, fome infinita de as fechar todas no meu coração, para assim as fechar e introduzir para sempre no Coração Divino de Jesus. Mas, ó meu Jesus, sinto que é em vão todo este sentimento. A minha inutilidade não me deixa nem um momento ser útil para a vida do Senhor, para o bem das almas. Está num mar de sangue o meu coração. Está todo chagado e ferido. Não se lhe pode tocar. A sua dor atinge o Coração Divino do Senhor. A minha pobre natureza não tem coragem nem forças para mais. A vontade quer subir, subir sempre; não quer parar de se dar, de se entregar totalmente à Divina Providência. Mas a inutilidade impede tudo isto. Nada valho, nada sou, a não ser miséria e podridão nojentas. Jesus, Mãezinha, sede a minha força. A Vós me abandono tal qual sou. Toda a minha confiança está em Vós. É neste abandono que está toda a minha entrega e aceitação. Caí no inferno. Foi tremenda a luta. A alma gritou num brado, como se ouvisse a humanidade inteira. Foi um pavor infernal. Estava perdida, sem remédio. Depois de me entregar a todos os vícios, aos crimes mais hediondos, precipitei-me naquele abismo. Senti em mim todo o desespero das almas e maldades dos demónios. Que horror, que horror ! Ninguém me salvou de lá. Precipitei-me só por culpa minha. Premeditei tudo bem, fiz várias tentativas para me entregar ao vício, sem nada conseguir. Sempre levada e faminta das maldades, consegui os meus maus intentos, maldições, tudo ; escarrei no Senhor e calquei aos pés toas as minhas vestes e toda a Sua Lei. Era digna do inferno. Só nele podia receber a punição de toda a minha vida criminosa. Nada disse e nada mais sei dizer. Impede-o a minha ignorância. Terminada a luta, o pavor da alma continuou, até os próprios lábios não queriam calar-se; soltei gemidos. Jesus sou a Vossa vítima. Ai ! Não posso pensar na dor que causei ao meu Jesus, quanto O fiz sofrer. Ai ! Ai ! O que é uma ofensa feita ao meu Senhor ! E o que é o mundo, o mundo do pecado contínuo. Se eu pudesse, à custa de todo o meu sangue, pagá-los todos para alegrar a Jesus e dar-Lhe as almas! Foi triste, dolorosíssimo, o meu Horto de ontem. Sempre na inutilidade e sempre apavorada com o meu viver, com a aproximação do dia de sexta-feira. Queria poder sair de tudo isto, mas não posso. Respirava mais fundo; na minha inutilidade, mais me unia ao Senhor. Era já de noite e o Céu pousou sobre mim. Estava cheio de nuvens negras e era mais duro do que o rochedo. Estava fechado para mim. Não podia lá entrar, só por ele tinha que ser esmagada. Principiei a ser amor, só amor, todo o meu ser era amor, mas este ser, que encerrava amor infinito, não era meu. Entreguei-me ao Céu, para a vida da terra. Hoje tive a Santa Missa no meu quarto. Não soube assistir a ela. Como de costume, pedi à Mãezinha que suprisse a minha falta. A alma seguiu a viagem para o Calvário. Eu inútil e ela sofredora. Eu surda e cega para toda a vida de Jesus, mas ela sentia todas as torturas e sofrimentos do meu Senhor. A noite, a dor, a amargura transformaram-se em pavor com a aproximação da montanha. Eu inútil à volta do mundo, mergulhada na lama, e o coração numa dor infinita sangrava e não cessava o seu brado. Era o brado de Jesus, era Ele quem chamava, era Ele quem por mim sofria. Do alto da cruz Ele continuava a sofrer. Foi tremenda a Sua agonia ! O Seu brado era contínuo. O Seu sangue divino regava o solo, enquanto que eu a fugir d’Ele, como se Ele por mim morrer não fora. De vez em quando o meu coração e a minha alma sentiam os meus tormentos. A agonia de Jesus era a minha, mas logo na minha inutilidade me desviava, parecia que para fora do mundo. Jesus expirou e, logo após a Sua morte, passou pelo meu coração; foi Ele que serviu de escada às almas generosas que O desciam da cruz. Algum tempo depois, senti-O já vivo e triunfante dentro em mim e ouvi a Sua voz : — “Jesus vai falar, Jesus pede como mendigo no Seu tabernáculo de amor. Jesus quer salvar os homens, todo foi por eles. Jesus quer salvar os homens e emprega todos os meios para essa obra redentora. Vim a este Calvário, por intermédio da minha vítima querida. É a continuação da obra do Calvário de há vinte séculos. Estou aqui, estou aqui para chamar, estou aqui para pedir. Vinde, filhos meus, vinde a Mim todos, vinde ao meu divino Coração buscar bálsamo para todas as vossas feridas. Eu quero curar-vos e esquecer-Me do muito que Me ofendestes. Escutai, escutai, fala-vos Jesus : criei o Céu para vosso gozo, o inferno para punição. Vinde a Mim, vinde a Mim, não pequeis mais. Não deixeis perder uma só gota do meu sangue divino. Escutai, escutai, preparai-vos para a batalha. Enchei-vos de Jesus para estardes fortes. O Eterno Pai, o Eterno Pai vai aplicar a Sua justiça sobre a terra com todo o Seu rigor. Pobre mundo que não atende à voz de Jesus e à voz da Sua Bendita Mãe. Pobre Portugal que não corresponde ao amor de Jesus”. — Ó Jesus, ó Jesus, donde vem tanto sangue? Parece um regato a correr! Já vejo, já vejo, é do Vosso Divino Coração. A tanto sangue juntam-se as lágrimas que vejo claramente correr-Vos sobre as faces. Rolam uma após outra. Não choreis, não choreis, Jesus. Venho ao meu pobre coração buscar o meu frio amor. Que ele Vos leve bálsamo, Jesus, para fazer cicatrizar a chaga do Vosso Amantíssimo Coração. Que ele sirva de lenço, de um pobre lencinho, para Vos enxugar as lágrimas. Fazei que chore, Jesus, fazei que eu derrame todo o meu sangue. Basta que Vós o derrameis no Calvário. Agora quero ser sempre a Vossa vítima. — “Coragem, então, minha filha querida. Coragem para todos os espinhos, coragem para todas as setas, que são as de minha Bendita Mãe. Coragem para todos os punhais. Coragem para toda a Paixão. A tua vida é a vida de Cristo. A tua missão nobilíssima é a missão escolhida por Jesus. Deixa, deixa, minha filha, o mundo humilhar-te, caluniar-te, perseguir-te. Assim foi a minha vida. Quero, quero em tudo assemelhar-te a Mim. Quero-te imolada por Meu amor e por amor às almas, assim como Eu fui imolado por teu amor e por amor de todas as almas. Vem receber a gota do Meu Divino Sangue. Jesus uniu o Seu Divino Coração ao coração da Sua vítima querida, ao coração da Sua florinha eucarística. Passou, passou, minha filha, a gotinha do sangue. Levou-te mais vida, mais paz, mais coragem e amor. É o teu alimento. Este alimento levou-te novas graças. Quero que as distribuas. Dá-as, dá-as com abundância. Não cesses de as semear. Fá-las cair sobre as almas, sobre todos os corações, como chuva e orvalho celestes. É sempre o amor de Jesus. É sempre Jesus a atrair, a chamar, a querer perdoar. Fica na cruz, minha filha. Coragem, coragem para tudo. Vai em paz”. ― Obrigada, meu Jesus, por tudo quanto me destes. Não me falteis com a Vossa graça e força. Meu Amor. Lembrai-Vos de todas minhas intenções. Obrigada, obrigada, Jesus. Meu Amor. 18 de Julho – Sexta-feiraQueria desaparecer da face da terra; é a necessidade que sente a minha alma. Não posso ser vista pelo Senhor, tal é a podridão que vejo, tal é o nojo que sinto de mim mesma. O meu coração, a minha alma, quase me fazem outra coisa, a não ser bradar ao Céu. Mas este não fala nem atende. Está fechado, não penetra lá dentro o meu brado. Pavoroso martírio! Retomo coragem, sem saber como, sem o sentimento de onde ela me venha. Em espírito, atiro-me para os braços da Mãezinha e de Jesus e imediatamente esforço-me por me agarrar, por me prender bem nos Seus divinos braços. A luta vem, a tempestade tenta arrancar-me, destruir toda a escora, todo o meu apoio. A minha inutilidade leva-me quase a perder toda a confiança. Se há algum bem, algum acto bom, não me pertence. O pecado, os crimes mais horrendos, são só meus, sou eu a sua autora. Sou útil só para tudo quanto há de mau e criminoso. Tenho medo, muito medo, de descrever os sentimentos da minha alma. Não serei eu a causa da perdição de muitas almas ? Não mancharei eu a castidade dos seus olhos e ouvidos ? Ó meu Deus, ó meu Deus, compadecei-Vos de mim. Com tudo isto, não posso deixar de querer amar, louca e apaixonadamente, a Jesus. Não posso estar por mais tempo na terra, queria voar para o Céu. Mergulhada no lodo e na lama, estou presa à terra, não posso desprender-me dela. Tive uma luta pavorosa ! A minha ignorância não permite eu dizer alguma coisa do que ela foi. Mas também me parece ser mais prudente não me esclarecer. Eu não queria, meu Deus, não queria ofender o meu Jesus, mas parece-me ofendê-Lo tanto que até não queria comungar ! Pude reconciliar-me e consegui ficar mais sossegada. Depois de terminar a grande luta, vi com os olhos da alma o meu Jesus em tamanho natural, muito triste, a fitar-me com ternura e a dizer-me : — “Olha quem eu sou, vê para o que te escolhi, porque me feres assim ?” E eu, por resposta, escarrei-Lhe no rosto. E Jesus caía por terra. Tomou a cruz, transformou-Se em Senhor dos Passos. Caminhava coroado de espinhos, e o sangue a correr-Lhe com toda a abundância. Persegui-O por muito tempo. Atirava-me a Ele com fera. Fi-Lo cair por terra e arrastei-O com as cordas. Compreendi bem a cena de ontem. Logo de manhãzinha, apavorou-me a aproximação do Horto e do Calvário. Era já de noite; senti que fortes cadeias me enleavam ao solo do Horto, e logo medonhas feras principiaram-me a calcar, a levar ao aniquilamento. Desceu a justiça do Senhor sobre mim. Não compreendi o significado de tais feras, mas hoje senti e compreendi claramente que era eu, que eram os pecados que me sobrecarregaram. Só acompanhei hoje a Jesus na viagem do Calvário, para O perseguir e maltratar. No cimo da montanha, Jesus ficou pregado na cruz, e eu na minha inutilidade fugi d’Ele, não O acompanhei na Sua agonia. Rejeitei-O, preferi sempre a Satanás, não quis expirar com o meu Senhor. Morri, sim, mas separada d’Ele. Pouco depois, veio o meu Jesus dar-me a vida e falou-me assim : — “Quem tem fome e sede do amor de Jesus escuta a Sua voz. O Coração Divino de Jesus quer dar-Se, dar-Se inteiramente. O Coração Divino de Jesus vem pedir-vos, pedir-vos com o Seu amor infinito. Pede como um mendigo miserável. O miserável pede o pão para o corpo; Jesus pede-vos amor, Jesus pede-vos, pede-vos com instância ; não pequeis mais, não pequeis mais. Calcai aos pés as vaidades, os prazeres, tudo o que é pecaminoso. É Jesus quem fala, é Jesus quem pede com todo o amor, com toda a ternura do Seu Divino Coração. Arrepiai caminho, arrepiai caminho, segui o Senhor. Tenho sede e quero matar a sede. Dai-me amor, dai-me amor, aquele amor puro, aquele amor santo. Vim do Céu, vim do Céu, desci a este Calvário, entrei neste tabernáculo, é dele que eu manifesto o meu amor infinito. É daqui que eu mostro claramente a minha loucura de amor das almas. Reparai bem e vede se podeis queixar-vos do amor e misericórdia de Jesus. Estou no Calvário das minhas delícias, como outrora no Calvário das dores. Não posso morrer nem sofrer mais. Imolo, faço sofrer a minha vítima; por mim e pelas almas, ela há-de de dar a sua vida. Escolhi-a para mim, mas por amor dos pobres pecadores. É alta, alta, é sublime esta missão. Coragem, coragem, minha filha. O peso das tuas humilhações manifesta grandeza de amor. Tu amas, amas, amas o meu Divino Coração. Amas, amas e conduzes a mim as ovelhas extraviadas. São tantas, é tão grande, é imensamente grande o rebanho a fugir-me !” — Ó Jesus, se eu pudesse, Jesus, correr o mundo, correr toda a humanidade! Queria deitar o laço a todas as almas, a todas as ovelhinhas fugidas. Queria conduzi-las todas ao Vosso Divino Coração. Eu queria, Jesus, à semelhança do pescador, deitar o anzol, mas mais, mais, ser mais feliz do que ele, queria apanhá-las todas, não queria deixar fugir nenhuma. Ai, Jesus, sois Vós, sois Vós, são elas, meu Amor, que me levam a deixar-me imolar, humilhar, a deixar-me sacrificar tanto ! É bem, doce Jesus, é bem doce ser humilhada por Vós. Não repareis nos meus desfalecimentos. Sou a Vossa filha mais pobrezinha. Só a vontade está pronta, só essa quer dar-se, dar-se, desaparecer. Desaparecer sob o peso da dor. Desaparecer, ser esmagada com todas as humilhações. — “Nada mais quero, minha filha, nada mais exijo de ti. Estou à espera, estou à espera e já cansado de esperar. Já é tempo, já é tempo de o sol brilhar para sempre. Tem coragem. Os homens vão contra a vontade do Senhor, opõem-se a ela. Opõem-se à salvação das almas, das almas por quem dei o sangue. Estou desgostoso, estou triste. Eu dou o remédio, não permitem que ele seja aplicado. Minha filha, florinha eucarística, farol do mundo, dá-me a tua dor, deixa-me que te imole, que te sacrifique sempre, sempre, nesta cruz. Recebe a gota do meu Divino Sangue. Reparai bem no prodígio maravilhoso. Jesus alimenta a sua esposa e vítima. Dá-lhe o Seu sangue para que ela seja também a vossa vida. Minha filha, minha filha, é a tua vida o meu Divino Sangue. É o teu alimento a minha Eucaristia. Vive da graça, para que as almas vivam só a graça. Vive do amor, para ateares o amor. És depositária de todas as riquezas do meu Coração Amorosíssimo. Distribui-as. Enriquece todos os corações da humanidade. Vinde a mim, vinde a mim, ó filhos meus. Vai em paz, vai em paz, minha filha. Pede oração e penitência. Não cesses de as pedir. É esta a vontade Jesus. É mais um aviso do Seu Misericordiosíssimo Coração. Coragem, coragem”. — Obrigada, Jesus, muito obrigada. Lembrai-Vos das minhas intenções, perdoai, perdoai ao mundo inteiro. 25 de Julho – Sexta-feiraNão sei como dizer alguma coisa daquele tudo que me vai na alma. É o meu segundo Calvário. Só me obriga a força da santa obediência. Tenho que fazer um grande esforço. Escasseiam-me as forças. As trevas não me deixam ver. A ignorância e a inutilidade põem termo a tudo, são o remate de todo o meu viver. É como que um desenlace. Terminei para tudo como se nunca principiasse. Ó meu Deus, ó meu Deus, se não fosse a minha confiança em Vós, se eu em Vós não esperasse, o que seria já de mim ? O meu coração é como um chafariz. Por maior que seja seca, não deixa de deitar água. Ele sangra, sangra, plantado na maior agonia da alma ; agonizam os dois. O brado é contínuo. O Céu não se abre. A minha voz não penetra no Coração do Senhor, perde-se na vasta podridão e imundice de toda a humanidade. Quando comungo, agarro-me a Jesus, mas só com os olhares e os braços da Fé. Creio, Jesus, creio que sou Vossa, creio que estais em mim. E eu confesso-me a mais pobre e miserável das Vossas filhas. Eu não sou digna de Vós, de Vos possuir, mas não quero desesperar, a Vós me entrego, só confiada no Vosso perdão e misericórdia. Quando os espinhos me penetram mais fundo, quando as contradições e as humilhações me esmagam, eu digo: bendito seja o Senhor, seja tudo por Vosso amor e para salvação das almas. Hei-de vingar-me, meu Jesus, pedindo-Vos na terra e no Céu por todos quantos me faziam sofrer. Ontem, no meio da minha agonia, pude da minha cama divisar um bocadinho do Céu. As nuvens negras e carregadas quase me encobriam. Outras, mais negras e carregadas, estavam na minha alma. Em tudo via o meu Horto, com o transporte para o Calvário. O meu espírito, fortalecido com uma força estranha, foi penetrar além das nuvens que vedavam o firmamento. Queria ver o Céu. Ai, que saudades do Céu ! Se eu pudesse transportar-me lá para fora, para o contemplar melhor! Mas não posso, faça-se a vontade de Nosso Senhor. O Céu que foi criado para mim ! Lá habita a Santíssima Trindade: também eu A tenho na minha alma, e todos os corações em graça. Adorei-A em toda a terra, transportei-me para os sacrários. A minha adoração continuou por toda a parte, onde Jesus habita sacramentado. Ó meu Jesus, eu queria que o meu amor fosse como a luz que não se apaga, como a brisa que não cessa e penetra em toda a parte. Fazei que o meu amor penetre e vá calar em todo o lugar onde habitais sacramentado. Amo-Vos, amo-Vos eternamente. Pareceu-me que acordei de um sono, interrompida pela inutilidade. Vi logo o Horto unido ao Calvário. Pareceu-me não serem para mim os seus frutos. Tinha que sofrer, tinha que aguentar. Prolongou-se o sofrimento pela noite fora. E hoje assim continuei na viagem para o Calvário. Foi avivado por uma tremenda luta, daquelas lutas mais penosas à minha alma, a todo o meu ser. Eu, sempre louca pelo pecado, atirei-me para ele, revoltada contra o Senhor, escarnecendo-O e calcando aos pés a Sua Lei. Eu era a origem de toda a maldade, de todos os vícios. E, ao mesmo tempo, pareceu-me atirar-me a mim mesma, para me salvar. Queria livrar-me de tão irremediável perdição. Quis salvar-me e quis continuar na mesma podridão, mas de tal forma embrutecida que só nela pensava, só dela vivia. Fui caminhando para o fim da montanha, na mesma inutilidade, mas a sentir a dor infinita de Jesus, por me ver assim. Ele mostrava-me o sangue por mim derramado, e eu, mais dura do que o rochedo, fechava os olhos para nada ver. Durante o tempo da agonia, foi só Jesus o mártir da cruz. Eu não quis saber d’Ele. O Calvário foi para mim como se nunca existisse. Jesus expirou e eu expirei fora d’Ele. Não foi, mas pareceu eterna a nossa separação. Passaram alguns minutos nesta separação e morte irremediável. Jesus veio dar-me a vida perdida, remediar aquilo que parecia não ter remédio. Falou-me desta forma : — “Está chagado o meu Divino Coração. Está apunhalado e cercado de espinhos. Reparai, reparai bem, reparai e dizei a quem preferis : quereis Jesus ou Satanás ? Ansiais o Céu, com o seu gozo e amor infinito, ou Satanás, o seu inferno, tormento pavoroso ? Jesus está chagado, profundamente chagado. É sangue, só sangue o seu Divino coração. Ó filhos meus, filhos meus ! Quereis o meu Amor, quereis o Paraíso? Vinde a mim, vinde a mim. Vinde a mim, deixai o pecado. Vinde a mim, deixai o mundo com as suas lições. Deixai o pecado, arrepiai caminho. Satanás não cessa a sua tarefa. E vós, filhos meus, filhos meus, cedeis aos seus enganos. Preferis que ele reine em vossos corações. Expulsais-me a mim, o doce Jesus, do trono em que habitava. Ó minha filha, minha vítima querida, sê sempre generosa. Dá-me a reparação, dá-me a reparação, dá-me o bálsamo para esta coração tão ferido”. — Se eu pudesse, Jesus, se eu tivesse que Vos dar! Se eu possuísse aquele amor digno de Vós ! Nada mais queria na terra : amar a Jesus, sofrer por Jesus, amar a Jesus, salvar todas as almas. Ah ! meu Amor, não queria mais nada. Estou certa, Jesus, estou certa, meu Amor, que todas as feridas do Vosso coração eram cicatrizadas. Se eu Vos amasse, Jesus, e sofresse com perfeição, era o bálsamo suficiente. Encontrava em mim o Vosso Amorosíssimo Coração a alegria e a consolação. É tão mesquinho e frio o meu amor! Chega até a não ser nada. Mas eu quero ver o Vosso Divino Coração sem sangue, sem feridas. Aceitai todo o amor do Paraíso, Jesus, como se esse amor fosse meu. Aceitai todo o amor das almas justas, das almas santas da terra, como se esse amor fosse meu. Estou certa de que assim já não sofreis mais. — “Repara, repara para mim, minha filha. Vê que já sou o teu Jesus, todo belo, todo amor. Vê que já não sangra este coração que tanto amou e ama. Foi no teu Calvário que eu encontrei o meu bálsamo. Foi no teu coração, florinha eucarística, que eu me alegrei. Sofre, sofre, esposa querida. Esconde a tua dor, esconde-te em mim. Fala às almas, fala às almas, diz-lhes quanto as amo. Fala às almas, fala às almas, conta-lhes as tristezas de Jesus. Fala às almas, fala ao mundo, diz-lhes que está irado o meu Eterno Pai. Penitência, penitência, penitência e emenda de vida. Penitência, penitência, amor à Lei do Senhor. Vem, minha filha, vem receber a gota do meu Divino Sangue. Alimento divino, alimento celeste ! É a vida de que tu vives. Jesus cuida da Sua vítima, mais do que das avezinhas do Céu. Minha filha, minha filha, a tua vida está em Cristo, é de Cristo. Vives em mim e eu em ti. É por ti, farol luminoso, que me comunico às almas, que lhes dou as minhas riquezas, os meus tesouros infinitos. O mundo não te conhece. Também a mim não me conheceu, e outros vivem como se não me conhecessem. Vai em paz e dá a minha paz. Vai em paz e dá a minha vida com o meu amor. Deixa que te esmaguem, deixa que te humilhem e sofre por mim. Fica na cruz, fica na cruz”. — Fico, Jesus, e fico contente. É da cruz que eu Vos peço todas as graças para todos os que me são queridos, para os que são meus, para todos os que de mim aproximam e, por fim, para o mundo inteiro, para o mundo inteiro : todo ele é Vosso. — “Vai em paz, minha filha. É aceite a tua prece. Coragem, coragem”. — Obrigada, obrigada, meu Jesus. 1º de Agosto – Sexta-feiraNão posso, é impossível resistir a tanta fome e a tanta dor, a não ser sempre Jesus, o vencedor de todas as coisas, a resistir em mim. Tenho fome de me dar, de me dar toda, inteiramente. Tenho fome de possuir, mas não é qualquer coisa. Quero possuir todos os corações da humanidade inteira. Mas ah ! esta fome não é minha. Todo este sentimento insaciável de me dar e possuir não é meu, é um não sei quê infinito. Este dar dá-se inteiramente e vai penetrar tudo; dá-se com toda a grandeza e dá-se com toda a pureza e amor, dá-se com toda a essência, é um dar divino, é a essência de Deus. Esta fome de possuir tem a mesma infinidade, quer possuir em si tudo aquilo que lhe pertence, quer possuir em si aquilo que quer com a mesma grandeza, com a mesma vida e o mesmo amor. Duas vidas num só ser. Fala, fala, minha ignorância, no nada que sabes dizer, diz tudo o que é de Jesus. Tenho ânsias de que a minha ignorância, muda, falasse sempre. Tenho ânsias de que a minha cegueira, as minhas trevas pavorosas se transformassem só em luz para toda a humanidade, ainda que só eu, só todo o meu ser, ficasse para sempre no medonho abismo das minhas trevas. Estou certa, confio, creio cegamente que Jesus e a Mãezinha, em todos os momentos da minha vida, de dia de noite, hão-de vencer em mim e me conduzem pela mão ao porto da salvação. Parece-me que não só sinto a toda a gente, como sinto a mim mesma. Os sentimentos da minha alma não condizem em nada com o que eu digo. Mas espero na graça do Senhor que só digo a verdade. Jesus é o meu tudo, é a causa do meu viver. Não me importo dos meus sentimentos, nem da minha inutilidade. É a minha cruz, eu a abraço; é o meu Calvário, eu o amo. A minha inutilidade rouba-me tudo sem eu compreender nem ver o que possuo, mas eu, sempre agarrada em espírito aos braços de Jesus e de Maria, a sentir que Eles não me querem pela imensidade dos meus crimes e misérias, não Os largo e digo-Lhes : “Sou tua, Jesus, sou vossa, Mãezinha, e de Vós nem o mundo nem o inferno me podem arrancar”. Tenho punhais e espinhos tão dolorosos a atravessarem-me e a cercarem-me o coração ! Sofro em silêncio, sem mostrar estas feridas. O Céu as vê, o Céu é a minha força. Sinto por muitas vezes o peso da justiça do Senhor a esmagar-me contra a terra. A terra, a podridão, a miséria, sou eu, sou só crimes, toda crimes. Jesus chora e sofre infinitamente ao ver-me assim tão miserável no caminho da perdição. Ontem vivi o pensamento do Horto; recordava-o, ora agora, ora logo, mesmo sem a minha própria vontade, submetida sempre à inutilidade. Ao cair da tarde, sobreveio-me um grande sofrimento, a dolorosa reparação que Jesus por vezes me pede. A princípio, fez-me o meu Amado compreender a classe por quem ma exigia. Meu Deus, meu Deus, como sois tão ofendido ! Em seguida, nova visão e fez-me saber que era por toda a humanidade. Eu era toda inferno, só vivia do inferno. O inferno e os vícios, o inferno e a nojenta podridão eram todo o meu ser. Enfrentei com o Horto. Vi tudo, o Céu e a terra, a inocência de Jesus e a nossa maldade, o Seu amor e as nossas ingratidões. Fui novamente esmagada com todo o peso da justiça, da justiça do Eterno Pai. A minha noite foi Horto e Calvário. Nesta manhã, segui o caminho da montanha. Por um lado fugia dele, envolta só na inutilidade e, por outro, caminhava envolvida com Jesus. Sobre Ele pousava o madeiro da cruz. O seu Santíssimo corpo, todo chagado, derramava sangue; os seus Divinos Olhos vertiam copiosas lágrimas. Tudo isto passava pelo meu coração, que sofria a dor de Jesus. Ofegante, desfalecido, caiu junto à cruz, no mesmo lugar onde foi nela crucificado. Eu fugi sempre d’Ele e ao mesmo tempo com Ele me deixei crucificar. Nas três horas de agonia fiquei sempre a sentir os sofrimentos de Jesus e ao mesmo tempo separada d’Ele. A inutilidade colocou-me ao longe, muito ao longe. Contudo, o sangue das feridas, dos espinhos corria com abundância. As dores eram insuportáveis, a dor do coração infinita ! Num brado verdadeiramente profundo e doloroso, Jesus agonizou, e eu com Ele entreguei ao Céu o meu espírito. Jesus não levou muito tempo a dar-me novamente a vida perdida. Deu-me a Sua luz, a Sua força e falou-me assim : — “Apressai-vos, apressai-vos a deixar o mundo com as suas falsas lisonjas. Apressai-vos, apressai-vos a amar a Jesus, a sofrer por Jesus, a dar a vida por Ele, se preciso for. O mundo, o mundo, o pobre mundo, espera-o a vingança, a ira do Senhor. Minha filha, minha filha, quantas vezes, por quantas formas, convidei os pecadores a virem a mim, a arrepiarem caminho. Minha filha, minha filha, nos teus lábios estão os lábios de Jesus. No teu coração, o Seu coração, com todas as riquezas, sentimentos e Seus desejos. Tu és, minha filha, a esposa amada de Jesus, filha predilecta do Eterno Pai. Tu és a mensageira do Senhor, a porta-voz de Jesus a ecoar no mundo inteiro. O mundo não atende, os pecadores estão endurecidos. O meu divino Coração, o meu Coração de Pai está triste, muito triste. Chamo, convido, não é aceite o meu convite. Chamo, quero perdoar. Os pecadores, o mundo inteiro não aceita o meu perdão. Ó minha filha, tantos crimes! Que onda de crimes, que incêndio de vícios! O fogo ateou-se. Só o orvalho da dor, o sangue da imolação o podem apagar. Está triste, muito triste, tristíssimo, o Coração Divino de Jesus. Quero amar, quero amar, quero ser amado, quero ser amado! Amo e quero reinar! Reinar nos corações e nas almas. Triunfar no mundo inteiro, dum pólo ao outro do mundo. Vinde a Mim, corações frios, vinde a Mim, corações empedernidos! Vinde aquecer-vos, vinde incendiar-vos na fornalha ateadora do meu Divino Coração! Vinde aquecer-vos, vinde modelar-vos no divino modelo que é Jesus !” — Ó Jesus, ó meu querido Amor, se eu pudesse arrancar do Vosso divino Coração essas chamas! Se eu pudesse introduzir em todos os corações esse amor puro, esse amor fortíssimo ! Com certeza, Jesus, com tal alegria, com tal consolação esquecia-me de que sofria. É bem doce, Jesus, é bem doce sofrer por Vós. Mas custa tanto viver e sofrer na inutilidade! Custa mais, meu Jesus, muito mais viver na inutilidade do que na incompreensão. Não me importa, meu Senhor, não ser compreendida. Vós compreendeis todo o meu viver e sabeis que é por Vós. Mas na inutilidade, vejo tudo perdido. Até Vós, meu Jesus, até Vós estais perdido para mim. — “Coragem, minha filha, e dá coragem aos que dela necessitam! A tua vida incompreensível, a tua vida dolorosa, a tua vida que é só de espinhos foi escolhida por mim. Para grandes e inigualáveis crimes, tinha de se grande, muito grande e inigualável a reparação. O mundo nunca pecou com tanta gravidade. No mundo nunca foi precisa reparação de tal ordem. Confia. Confiai. São meios de que o Senhor Se serve para a salvação das lamas. É o amor de Jesus; é a loucura do amor de Jesus pelas suas queridas almas, pelo preço do seu sangue. Vem, minha filha, vem agora receber a gota do meu divino Sangue. Pelo tubo dourado que introduzi no teu coração passou a gotinha do Sangue divino. Passou o Sangue que correu nas minhas veias, que Eu trouxe do ventre de minha bendita Mãe. Passou a vida de que vives. Passou o amor, a graça, a força que te fortalecem. Coragem, coragem, minha filha, na tua cruz! Sê sempre heroína na reparação que te peço. Não Me ofendes, não Me ofendes. Jesus vela na escolha dos teus caminhos. Escolhi-os, velo, amparo-te para que neles triunfes”. — Obrigada, meu Jesus. Não quero separar-me de Vós sem Vos lembrar todos os que me são queridos, todos os que são meus, todos os que se recomendam e por fim o mundo inteiro, todo inteiro. Ficai comigo na minha dor, nas minhas trevas. 2 de AgostoFoi na inutilidade, na dor e nas trevas, que hoje esperei a vinda do meu Jesus. Muito sofro, mas muito ansiava a Sua chegada. Não posso viver sem este doce Amor. Este veio, deu entrada no meu pobre coração, e pouco depois eu já era outra. Com um abraço de Jesus, que nos uniu profundamente e ligou os nossos corações, fiquei iluminada, senti uma nova vida. Passámos uns momentos nesta santa união. E, pouco depois, a Sua voz divina fez-se ouvir assim no meu coração : — “É bem íntima e será eterna a nossa união e o nosso abraço. Felizes, ditosos momentos divinos, momentos da alma com o seu esposo. Minha filha, minha filha, florinha de Jesus, tu és, filha querida, o canal por onde passam as graças do meu Divino Coração, por intermédio da minha Bendita Mãe. Passaram de mim para Ela, d’Ela para ti e de ti para o mundo. Ai do mundo, pobre mundo! Pobres pecadores, se em tanta abundância não tinham recebido as minhas graças ! Avante, avante, sofre, depositária das ternuras do Céu! Coragem, coragem, minha filha, nada negues ao meu Divino Coração. Avante, avante, sempre forte e vitoriosa na tua missão nobilíssima, para a qual te criou o Céu, te escolheu Jesus. O mundo, o mundo, os pecadores exigem a tua cruenta reparação, exigem a tua imolação contínua. Diz, minha filha, ao teu Paizinho que os corações puros e mais amados de Jesus foram os escolhidos para reparar e aplacar a Majestade Divina, nos momentos dos crimes mais graves. Diz-lhe que o meu Divino Coração o escolheu para os caminhos mais árduos e mais difíceis. Diz-lhe que não sou eu, mas o mundo presente que assim o exige. E para tais caminhos só pude escolher os corações mais puros, as almas de elevada perfeição. Dá-lhe, dá-lhe todo o meu amor, a maior infusão de amor, com toda, toda a abundância da minha paz. Diz, diz ao teu médico que a minha alegria e consolação cresce, aumenta na sua firmeza, na sua luta, em defesa da minha divina cruz. Diz-lhe que avance, sempre firme no seu posto, na sua missão pelo Céu escolhida. Como recompensa tem o amor, todo o amor de Jesus e Maria, toda a protecção para ele e para os seus, como a chuva abundante, com todas as bênçãos e graças sobre o seu jardim perfumado e florido. Vem, minha Bendita Mãe, vem fortalecer, vem acariciar a nossa filhinha, continuamente isolada pelos pecados do mundo. Vem, ela repara com o maior heroísmo os Nossos Corações tão feridos, os Nossos Corações tão chagados”. — “Vem, minha filha, esposa do Meu Jesus, vem, minha filha, florinha eucarística, descansar, aqui inclinada ao Meu Santíssimo coração. Eu sou a Mãe de Jesus e sou tua mãe. Velo por ti, cuido de ti, como de nenhuma outra filha. Se tu soubesses como eu e Jesus te amamos! Se tu soubesses quanto os Nossos Corações te querem ! Anima-te, tem coragem no teu doloroso Calvário. É semelhante ao Meu. Alegra-te por Jesus que tanto te quer assemelhar a Nós. O Coração Divino de Jesus e o Meu estão tristes, muito tristes, a sangrar. São tantos, tantos os crimes, tantas as iniquidades! Vês, compreendes este conjunto de maldades ? Vês, compreendes quanto temos que sofrer ?... O Eterno Pai tem que castigar ! O mundo, os pecadores têm que ser punidos. Dá-Nos, dá-Nos com alegria toda a reparação pedida. Estás pronta, florinha perfumada ? Estás pronta, pombinha branca que sempre esvoaças do Coração de Jesus para o Meu ? É n’Eles sempre que tu habitas”. — Estou pronta, Jesus, estou pronta, Mãezinha, estou pronta a sofrer tudo, mas não vos quero ver, nem quero saber que Vós sofreis. Não tenho coração para Vos ver sofrer mais. Dai-me as graças e as graças precisas e mandai-me tudo quanto Vos aprouver. Lembrai-Vos, Mãezinha, lembrai-Vos, Jesus, de todas as minhas intenções. Sede no meu coração. Estão aqui. Perdoai ao mundo, perdoai ao mundo. — “Recebe, minha filha, dos lábios de Jesus, dos lábios de Maria e vai dar tudo o que recebeste; vai dar tudo, vai dar tudo. É bálsamo para ti, é conforto para ti. É bálsamo, conforto, paz e amor para por ti espalhado por toda a humanidade. Coragem, minha filha. Vai em paz. Jesus te ordena. Coragem! Recebe o abraço de Maria, recebe o abraço de Jesus. Estreitamos-te os dois nos Nossas Corações Divinos. Coragem, coragem !” — Obrigada, Jesus, obrigada, Mãezinha ! 8 de Agosto – Sexta-feiraSinto que levei e levo a vida inteira, fazendo o mal, pensando como e onde hei-de ofender a Nosso Senhor. Parece-me que não vivo senão na podridão e para o pecado. A minha vida é vergonhosa, dia e noite desafio a justiça do Senhor. Toda a humanidade se eclipsou, as densas trevas são as mais pavorosas. Parece que a justiça do Céu faz tremer toda a terra. Parece que estou num leito de espinhos, mas este é tão grande que enche toda a humanidade. Os espinhos, tão variados, penetram e ferem todo o meu ser ; parece-me que nem a alma fica intacta ; até esta sangra, sangra, mergulhada num universo de dor. É infinita esta dor, é sobre-humana. Compreende-o bem, Jesus faz-me sentir. Se não fosse Ele a sofrer, a subir o meu calvário, o que seria já de mim ? Tinha sem remédio caído no desespero. É tal a crueldade do mundo para com Jesus, é tal a montanha dos vícios, que toca o Céu, vai ferir o Coração Divino de Jesus. E tudo isto dentro em mim ; sou eu a cruel, sou eu a traidora ; sou eu o carrasco infame que com todos os maus tratos atormento o Senhor. Que contraste tão diferente entre a terra e o Céu! A terra revolta-se contra o seu Deus, e Jesus quer dar-Se, quer perdoar, ama louca e infinitamente. Eu sinto as Suas ânsias de amor, sinto que Ele quer possuir-me e fechar-me no Seu Coração. E sinto como se em mim estivesse o mundo, e, possuindo-me, fechando-me Ele a mim, possui e fecha em Si toda a humanidade. A minha ignorância não me deixa exprimir estes ansiosos sentimentos. Se a Mãezinha ou os Anjos falassem por mim, Jesus com certeza era mais glorificado, mais conhecido e amado, e as almas teriam nisso muito proveito. Eu só queria que todos compreendessem quanto Jesus nos ama, quanto Ele merece o nosso amor e tudo o que devemos fazer e sofrer para que Ele não seja ofendido. Que pena eu tenho! Pobre de mim ! Em tudo entra a minha inutilidade. Penoso Calvário ! Seja em tudo feita a vontade do meu Senhor. Custa tanto abandono em que estou! Sinto desprezo da terra e do Céu, não tenho ninguém por mim, não tenho apoio, não tenho amparo. Abafo, escondo em mim tantas coisas ! Desabafo com Jesus e com Maria, são eles as testemunhas das minhas lágrimas silenciosas, mesmo sem sentir o seu amor, a sua protecção. Uma vez abandonada nos seus santíssimos o braços e terníssimos Corações, ali fiquei para sempre, é ali que quero esperar e confiar, é ali que eu quero, embora mergulhada no abismo dos maiores sofrimentos, que a minha alma conserva aquela paz que só de Deus vem. O que eu não quero é, nem por sombra, ofender o meu Jesus, embora que eu sinta quase constantemente que estou sempre a ofendê-Lo com todo o sentimento, com todo o conhecimento da gravidade dos meus actos. Ontem, passei o dia como sempre passo, na inutilidade. Surgiam-me, já e logo, pensamentos do Horto, mas tudo sempre inútil. Estava já a ser noite, travou-se um doloroso combate, a tremenda reparação que Jesus me pede. Precisava de desabafar, mas não desabafo. Era eu e era em mim. E ao mesmo tempo vi as almas que assim ofendiam ao Senhor. Meu Deus, tanta malícia! Como se podem calcar aos pés os direitos de Deus, as coisas sagradas! Senti-me tão separada de Jesus ! Era uma distância infinita. Mas mesmo assim, a esta distância, ouvia-O chorar, suspirar e gemer. E dizia, sob o peso da sua dor infinita : — “Filhos meus, filhos meus, sou vosso Pai; tratais-Me assim ? Estou aqui nesta prisão só por amor de vós”. Compreendi e senti que era do sacrário que Jesus falava. Sofri por Jesus sofrer ; sentia a sua dor: não é uma dor como a nossa. E ao mesmo tempo, embrutecida nos vícios, sem um momento de arrependimento, fiquei na mesma vida, a vida de pecado, vida de podridão e miséria. Parecia irremediável a minha separação de Jesus. Tudo isto agravou o sofrimento do Horto. Como que num painel, vi todos os sofrimentos de Jesus. Num doloroso martírio, passei a noite. Hoje de manhãzinha, segui para o Calvário. A alma, a agonizar, acompanhou a Jesus; o corpo, sedento pelas coisas do mundo, indiferente; segui por vias diferentes. Foi com todo o custo que a alma conseguia chegar ao cimo da montanha. E ali se deixou crucificar com Jesus, enquanto que o corpo na sua inutilidade de nada se aproveitou. Jesus sofria, bradava e agonizava. A alma, crucificada com Ele, compartilhava de todo o seu martírio. Jesus expirou e a alma expirou com Ele. Passou-se algum tempo; só o silêncio da morte reinava. Jesus veio interromper. Deu-me de novo a sua vida, iluminou-me a alma com a sua luz e dentro do meu coração falou assim : — “Jesus desceu do Céu à terra, Jesus baixou e entrou no seu tabernáculo de amor. Está entre vós e vai fala-vos do coração e pelos lábios da sua esposa e vítima. Estou triste, muito triste. O meu divino Coração está atravessado por duras lanças e cruéis espinhos. Filhos meus, vede se sois capazes ! Vinde arrancar, vinde arrancar estes instrumentos dolorosos que tanto me ferem. Fugi do mundo, fugi do mundo; deixai o pecado, deixai as vaidades. Olhos no Céu, olhos no Céu, coração ao alto, amor à cruz. Tenho sede, tenho sede de me dar, tenho sede de me dar, de a todos possuir. Reparai, reparai ; estai atentos; desagravai o Coração Divino de Jesus. Há tanto tempo que eu venho a pedir reparação! Há tanto tempo que eu venho a pedir emenda de vida! Não sou atendido, não sou atendido. Nada fazem para o muito que me ofendem”. — Ó meu Jesus, ai, meu Jesus, sinto que o meu coração está atravessado pelas mesmas lanças, pelos mesmos punhais que atravessam o Vosso. (Percebeu-se grande agonia). É justo, Jesus, que assim seja. É justo, meu Amor, que eu assim sofra. O que não é justo, não, meu Senhor, é que o Vosso Divino Coração sofra assim!... Eu sofrer, que sou tão pecadora, está bem, Jesus. Mas sofrerdes Vós, que sois inocente, inocentíssimo, meu Amor… Não, não, meu Jesus. — “Sim, minha filha, sim, minha esposa amada. Tu sofres, porque és vítima. Mostro-te os meus sofrimentos, para que com a tua reparação eles sejam evitados. A dor, o calvário das minhas vítimas, evitam os sofrimentos ao meu Divino Coração. Tem coragem, minha filha, tem coragem. Sacia a fome e sede de Jesus. Cicatriza com os teus sofrimentos as minhas chagas. A dor, essa dor que atingiu o seu auge, é bálsamo para o meu sofrer. Deixai o pecado, evitai o pecado. Amai o Coração Divino de Jesus e fazei que muitos corações O amem”. — Ó Jesus, deixastes cair os Vossos braços santíssimos. Parece que estais desfalecido. Desfaleci também. Parece que não tenho vida. Parece que não tenho sangue. Esse Vosso gesto fez-me compreender. Deu toda a luz à minha alma. Estais cansado do mundo, estais cansado dos crimes ? — “Sim, minha filha, estou cansado, muito cansado. E mais cansado ainda de sustentar o braço da justiça de meu Pai. Ele quer destruir o mundo. Ele quer fazer desaparecer da face da terra aqueles que me ofendem gravemente”. — Não Vos canseis, meu Amor. Perdoai sempre. Pedi ao Vosso e meu Eterno Pai perdão e misericórdia para toda a terra culpada. Perdão, Jesus, e misericórdia pelas dores da Mãezinha e pelos méritos da Vossa Santa Paixão. Pedi ao Eterno Pai, pedi, pedi perdão para o mundo. — “É com as tuas preces, minha heroína, com os teus sofrimentos, com os sofrimentos de mais almas vítimas, que o Céu tanto tem esperado, que o Céu tanto tem amado, que o Céu tanto tem convidado. Penitência, oração e emenda de vida. Vem receber a gota do meu Divino Sangue. Maravilha celeste, maravilha, prodígio divino. Pelo tubo dourado passou a gotinha preciosíssima do meu Sangue. Passou a tua vida, o teu alimento, a força da cruz, o heroísmo do Calvário ! Coragem, minha filha ! Vai em paz ! Sempre alegre na tua cruz ! Vai, vai, não cesses de dizer às almas: não pequeis, Jesus vos chama. Jesus vos quer. Coragem, coragem”. — Obrigada, meu Jesus. Obrigada, meu Amor. Ponho no Vosso Divino Coração todas as minhas intenções e a humanidade inteira. 15 de Agosto – Sexta-feiraSó umas palavrinhas para obedecer ; o meu coração não me permite mais. A morte levou-me tudo, só tenho vida par a dor, só a inutilidade permanece em todas as coisas. Todo o meu ser, isto é, o corpo e a alma, parece ser descarnado e desfeito a unhas de ferro. O meu corpo, da cabeça aos pés, está como que coberto de espinhos, que o penetram todo, deixando-o só em ferida e sangue. Estou num universo de podridão, e tão nojenta que não pode ser vista. Crio em mim toda a espécie de vermes, em mim se criam, e eu por eles sou comida. Meu Deus, o que se passa em mim ? Digo que sofro indizivelmente, porque digo a verdade, não é para queixar-me. Mas também sofro por Jesus, só por Seu amor e por amor às almas, e sem o mais pequenino fim na mínima recompensa. Sinto por vezes, muitas vezes, uma dor infinita, que ultrapassa toda a dor da terra, que sempre vai ferindo e faz sangrar o Coração Amantíssimo de Jesus. A dor é grande como o Céu e leva em si tudo quanto pode ferir o Senhor. A alma, mergulhada nesta imensidade de abandono e de trevas, que a fazem tremer e apavorar, grita, grita, brada dia e noite, mas o Céu não ouve, não atende, e toda a terra está morta para mim, parece que não tem folgo vivo para me atender e se compadecer de mim. A inutilidade está sempre presente aos meus olhos, nada existe onde ela não esteja. Mas eu lanço-me às cegas nos braços de Jesus e da Mãezinha, falo com Eles, digo-Lhes muitas coisas, ofereço-Lhes as minhas lágrimas, digo-Lhes que Os amo e n’Eles fico abandonada. A minha ignorância quer falar e não sabe; também não posso. Tudo isto é dor, tudo abraço. Ponho no Céu os olhos da minha Fé, firme nele, confio saber esperar. Ontem, logo de manhã, senti-me presa à coluna. Quando me senti no Horto, já tinha passado algumas horas atada a ela. Nela foi a minha alma açoitada. Do Horto vi o Calvário e a cruz, onde ia ser crucificada, via a minha inutilidade e ao mesmo tempo sentia uma vida que estava ligada ao Céu e tinha um amor tão forte que para o Céu me levava. Passei a noite com muito sofrimento, a fazer companhia a Jesus. E, nesta manhã, ainda antes de comungar, senti-me a caminho do Calvário. A Sagrada Comunhão foi o lenitivo, foi o bálsamo para a minha dor, foi a força para tão dolorosa viagem. Sempre acompanhada da inutilidade, fugitiva dos caminhos de Jesus, era uma das minhas vidas, a minha vida terrena. A outra, que era a vida de Jesus, levava a cruz e a ela ia ligada com prisões de amor. Eram transportes de grande elevação; eram prisões, era amor que não caminhava, mas parecia voar até ao cimo da montanha. Lá, na minha inutilidade, fui crucificada com Jesus. Durante a agonia, enquanto o coração e a alma bradavam, o espírito ia recordando o que se passava no Céu: o grande dia da Assunção da Mãezinha. Pedi-Lhe que em memória da Sua coroação no Céu me coroasse com o Seu amor, com todas as suas graças e fizesse Suas as minhas preces, que as entregasse todas junto do trono divino. Em todo o tempo, em que Jesus agonizava, eu andava ao longe, muito ao longe, com a minha inutilidade, enquanto que o coração crucificado na cruz com Jesus abria-se num vulcão de fogo, dum fogo que era só amor, amor infinito, amor divino. Este amor estava no meu coração, mas não era a mim que ele pertencia, era o amor de Jesus. Era Ele que amava, era Ele que se imolava e dava a vida. Ele fez a entrega ao Pai do Seu espírito. Eu também senti como que se perdesse a vida por algum tempo. Aqueci com o Seu calor, vivi com a Sua vida ao ouvir a Sua voz : — “Minha filha, minha filha, Jesus está no Céu, Jesus está no teu coração. Jesus habita neste tabernáculo de amor, como no Céu, junto do seu Eterno Pai. Estou aqui, estou aqui, filha querida. Hoje sou todo amor, hoje sou todo doçura. Quero confortar-te desta forma, quero preparar-te para com mais fortaleza e heróico heroísmo suportares muita dor, toda a dor que ao Céu aprouver dar-te. Quero tornar-te forte, fazendo-te sentir as alegrias jubilosas do grande dia do Paraíso. Todo o Céu está em festa e em festa está o teu coração. Tens em ti o Céu, em ti está Deus, em toda a Sua plenitude”. — Ó Jesus, ó Jesus, como eu sou grande, como é grande o meu coração. É verdade, Jesus, que eu sinto que sou o Céu, sinto até que tenho em mim o azul claro do firmamento. Vale a pena, Jesus, vale a pena sofrer uma vida inteira para gozar estes deliciosos momentos. O Céu, o Céu, Jesus, como ele é belo ! Oh ! Como os olhos da minha alma vêem o que lá se passa. A Mãezinha subiu, subiu, foi levada pelos Anjos e por eles colocada junto do trono da Santíssima Trindade. Outros Anjos conduziram a coroa, e a Trindade Divina A coroou. A minha Rainha, a minha Rainha, a minha Mãezinha, a minha Mãezinha, a minha querida Mãezinha ! Todo o Céu é festa, todo o Céu é amor, todo o Céu é só um hino! O Céu, o Céu, como ele é lindo, como ele é belo! Como eu estou unida a tudo isto ! — Ó Jesus, parece que estou junto do trono da Santíssima Trindade e do da querida Mãezinha. Sinto até que estou nos Seus braços a receber as Suas carícias. O Céu, o Céu, felizes momentos do Céu ! Ó Mãezinha, ó Mãezinha, é nos Vossos braços que eu imploro, é mergulhada no Vosso amor e no amor da Santíssima Trindade que eu peço, que eu imploro com toda a alma, com todo o coração. Estou num universo infinito de paz e de amor ; é daqui que eu brado, é daqui que eu imploro. Ó Jesus, ó Mãezinha, ó Pai, ó Espírito Santo, atendei, atendei às minhas súplicas, atendei às minhas preces. Não as digo, Jesus, não as digo, Mãezinha, não as digo, minha Trindade adorável, mas mostro-Vos o meu coração. Estão lá todas bem presentes. Atendei, Jesus. Por aquele amor que Vos levou a levar a Mãezinha ao Céu em corpo e alma. Atendei, atendei, pelo amor com que Vos amais nesta união divina e bendita. — “Sim, minha filha, sim, minha filha, o Céu leu no teu coração, o Céu atende os teus desejos, os teus pedidos, as tuas ânsias. Recebe a gota do meu Divino Coração. Sê forte na dor, sê forte na cruz. Sofre, sofre; a dor é a salvação, a dor é o resgate das almas. Coragem, coragem ; foi tudo amor ; foi tudo doçura. Mas não deixes, não cesses de pedir : penitência, oração, emenda de vida. Coragem, coragem, vai em paz e dá ao mundo a minha paz”. — Obrigada, Jesus, obrigada, Mãezinha. Obrigada, minha Trindade Divina, pelos momentos deliciosos, pelo grande amor, pelo grande conforto que deste à minha alma. 22 de Agosto – Sexta-feiraAs minhas poucas palavras são a prova da falha das minhas forças. Estou tão doente ! Só Jesus o sabe. Não posso obedecer melhor. Estou certa de que o meu Senhor não se entristece com isto. É Ele que permite todo este martírio. Não posso dizer nada. Mas o coração quer dizer tanto ! Sinto como se ele fosse por toda a parte da terra a escrever com o seu sangue, a falar sempre e a mostrar tudo o que dentro dele encerra. Sinto-me presa à terra, pesam sobre mim fortes forcas de ferro, que são como universos; prendem-me à lama, à podridão nojenta. Fico em tudo submergida. Numa hora mais dolorosa reparação, daquela reparação de que eu não posso falar claramente, tais as circunstâncias, tal a gravidade com que se ofende ao Senhor. Jesus, coroado de espinhos, curvou-se sobre mim, regava-me com copiosas gotas de sangue, que caíam da Sua sacrossanta cabeça, e deixava vir de encontro ao meu peito como que um chafariz de sangue, vindo da chaga profundíssima do Seu Divino Coração. E, muito triste, em dolorosos suspiros, disse-me : — “Há quanto tempo te chamo e não me escutas ; convido-te por todas as formas e não me atendes, não arrepias caminho. Vê em que estado me pões. Ai de ti, o que te espera !” Não me condoí de Jesus, não temi as Suas ameaças. Quis continuar cegamente a minha vida desregrada. O Horto e o Calvário foram para mim só de inutilidade. Muitos espinhos e cruzes surgiram por todos os lados ! Nada aceitei, tudo me foi inútil. E, ainda hoje, na viagem para o Calvário, caminhei na inutilidade, por caminhos pedregosos, negros e secos. Mas o coração fora da minha vida seguiu a Jesus, caminhou por terra com o Seu sangue regado; a Ele se uniu no Calvário, com Ele se deixou na cruz crucificar. Tinha a mesma sede ardente do Seu Divino Coração, sentia as mesmas ânsias de se entregar ao Pai e de dar a vida por todas as almas. Com Ele tive que expirar. A morte reinou por pouco tempo. Sobreveio-me de novo a vida e, com a luz e o amor de Jesus, ouvi o que Ele me dizia : — “Estou bem, estou bem entre os lírios e as açucenas. Estou bem, estou bem na terra fecunda desses mesmos lírios. Terra que os faz crescer, terra que os faz florescer, terra que os faz perfumar. Estou bem estou bem, minha filha. Aqui é suavizada a minha dor. Aqui cicatrizam as minhas chagas, as chagas do meu Divino Coração e as feridas do Coração da minha Imaculada Mãe. Sofro com Maria, minha Mãe, e Ela sofre comigo, Jesus Seu filho. Os Nossos Corações estão unidos num só coração. Sofremos a mesma dor, os mesmos espinhos nos ferem. Estou bem, estou bem, minha filha, e bem está a minha Bendita Mãe. A seara é loira, oferece grande colheita, abastada colheita. Filhos meus, filhos meus, amai, amai a Jesus, amai, amai a Maria. Aproximai-vos, é urgente. Reparai, reparai os Nossos Divinos Corações. Ai o mundo, ai o mundo, que tanto ofende ao Senhor ! O mundo, o pobre mundo não pode com maior maldade desafiar a justiça do meu Eterno Pai. A hora é grave, a hora é grave. Essa justiça aproxima-se”. — Ó Jesus, ó Jesus, lembrai-Vos, meu doce Amor, das almas que Vos amam, das almas que são caras. Olhai para todos os corações sequiosos de reparação, de sofrerem tudo por vosso amor. Em nome de tudo o que é puro, de tudo o que é santo, de tudo o que é do Céu, pedi, Jesus, pedi ao Vosso Eterno Pai perdão, perdão e misericórdia para o mundo. Olhai, Jesus, olhai para tudo o que é bom, esquecei o que é mau. Olhai para os que Vos amam, esquecei os que Vos ofendem. Bem sabeis, Jesus, esquecei os seus crimes, mas não as suas almas. Salvai-as, salvai-as a todas. São todos filhos do Vosso sangue. Eu sou, Jesus, eu sou, meu Amor, a Vossa vítima, sempre a Vossa vítima até ao fim do mundo, se assim Vos aprouver. Ó Jesus, ó Mãezinha, vejo os Vossos dulcíssimos e amantíssimos Corações, vejo-Os sem nenhum, ferimento. Vejo as Vossas mãos divinas e as mãos da Vossa querida Mãezinha a abençoar-me. Mas compreendo, porque me fizeste compreender, que estas bênçãos não são para mim. Estou contente, estou contente, quero para todas as almas o que quero para mim. Quero que as ameis tanto, como eu desejo ser amada. — “Sabes, minha esposa querida, porque vês sem ferimento os nossos corações? Foi a tua reparação, foi a tua oferta. É o teu amor louco por Jesus, por Maria, pelas almas. As bênçãos foram para ti, para que as espalhes. Foram para todos quantos te rodeiam, para que cresçam na graça, na pureza e no amor”. — Obrigada, meu Jesus, obrigada, Mãezinha, mas eu quero mais uma vez ver as Vossas Santíssimas Mãos levantadas a abençoarem toda a terra, todas as almas, todos os corações do mundo inteiro, justos e pecadores, católicos e infiéis. Todos são Vossos filhos, Jesus. Todos são Vossos, Mãezinha. São filhos do Vosso sangue, Jesus ; são filhos das Vossas dores, Mãezinha. Obrigada, Jesus, obrigada, Mãezinha. Que elas se espalhem, que elas chovam em toda a humanidade como chuva torrencial. — “Vem, minha louquinha, vem florinha eucarística, recebe a gota do meu Divino Sangue. Uni ao teu coração o tubo riquíssimo, o tubo doirado, o tubo das minhas maravilhas. Por ele fiz passar a gotinha do meu Sangue Divino. É o teu alimento, já corre nas tuas veias. Vives do corpo e do sangue de Cristo. Vives a vida de Cristo. Vives o Calvário de Cristo. És a continuadora da obra de Cristo, da obra redentora, da obra de salvação. Coragem, coragem, minha filha, minha vítima amada. Fica na tua cruz. Dá a Jesus toda a reparação, a mais dolorosa reparação. Coragem, coragem, brada ao mundo, brada ao mundo: convertei-vos, convertei-vos, pecadores. Não pequeis mais, não pequeis mais, vinde a Jesus. É Ele quem vos chama. Vai em paz, minha filha, esconde a tua dor, esconde-a no teu sorriso”. — Obrigada, Jesus, obrigada, Mãezinha. 29 de Agosto – Sexta-feiraToda a minha vida foi extraviada, de passos errantes. Toda a minha vida foi uma contradição e revolta contra o Céu. Sinto como que se nunca amasse o Senhor. Eu não posso falar, porque as forças faltam-me, o sofrimento sufoca-me, tira-me a vida que sinto como se não fora vida. Mas o meu coração e a minha alma sentem como que infinita necessidade de se queixarem e mostrarem quanto estão feridos, de fazerem compreender a dor que os punge e os faz sangrar. Quero esconder-me e quero esconder a dor que os punge e os faz sangrar. Quero emendar-me e quero esconder a dor. E ao mesmo tempo estou como se o coração esteja aberto, a mostrar, como se fora um painel, todas as feridas e a gravidade com que foi ferido. Quero viver escondida e ao mesmo tempo queria que este painel fosse posto, pudesse ser visto por todos os olhares humanos, para se compadecerem de mim. Ai, a minha ignorância, que não me deixa falar ! Ai, a minha inutilidade, que não me deixa seguir os caminhos de Jesus, nem ser útil ao seu serviço! Pobre da minha alma, que brada, esmagada sob o peso da dor. Que tormento pavoroso ! A minha sede é ardente. Tenho sede de todos os corações, tenho fome de toda a humanidade. Só a dar-me, a dar-me infinitamente e a possuir imensamente é que eu estou bem. Só assim eu podia dizer : amo e sou amada ; amo e é-me retribuído amor. Tenho olhos que penetram a terra, o Céu e o inferno. Vêem tudo, conhecem tudo. E tenho outros que só vêem o mundo, só vêem o pecado, com todos os seus instrumentos e maldades. O meu coração, na superfície, só isto quer: a loucura e o prazer. No íntimo, muito no íntimo, só quer amar a Jesus com a maior loucura de amor, nunca, nunca ofendê-Lo e dar-Lhe todas as almas. A inutilidade rouba-me todos os desejos, todas as ânsias, tudo o que é bom. Ontem, passei o dia a sentir no meu corpo todas as feridas de Jesus. Até o rosto estava chagado e a cabeça coroada de espinhos. À noite, fiquei envolvida no solo do Horto, como se fosse num manto. Este manto cobriu-me o exterior e o interior. Todo o meu ser ficou Horto, todo o meu ser ficou sangue. Veio a revolta, separei-me do sangue do Senhor. Entrou aqui a inutilidade ; na minha revolta, avancei como que se fosse a mais alta montanha. Na minha inutilidade, fiquei separada de Jesus, como que por uma pavorosa barreira. Durante a noite, estive por vezes na prisão com Jesus, mas depressa fugia pelos caminhos da inutilidade. De manhã, segui para o Calvário. Era eu e não era eu. Duas vidas eu tinha; uma seguia para o Calvário, outra, o mundo inútil. Louca pelo pecado, tive uma tremenda luta. Dizia a Jesus: não quero pecar. E pedia à Mãezinha que oferecesse a Jesus a minha reparação por aqueles que O ofendiam com alegria e prazer. De repente, senti que saiu de dentro de mim Jesus, todo chagado; levava a cruz aos ombros e dizia : — “Deixo-te, porque me expulsaste, crucificaste-me dentro do teu coração”. A um forte ruído, senti que todos os demónios vinham a arrastar-me para o inferno. Alguém se atirou a mim, apertou-me em seus braços com todo o amor, junto ao seu coração. Segui a Jesus até ao cimo do calvário e com Ele fiquei na cruz, crucificado. Sofria, gemia, bradava com Ele. O meu coração formava no d’Ele um só. A dor, que sentia Jesus, sentia-a o meu também. Não sei o que foi. Senti um impulso tal que me pareceu desprender dos braços da cruz, para abençoar toda a humanidade. E o coração abriu-se num abismo infinito de amor e de perdão. Assim entreguei ao Pai o meu espírito. Reinou por um bom espaço de tempo o silêncio da morte. Jesus fez-me viver com a Sua vida. O Seu calor aqueceu-me, a Sua luz iluminou-me, e a Sua Divina Voz fez-se ouvir no meu coração : — “Jesus está triste. Os Seus suspiros abafam-Lhe a voz ; Jesus está triste, muito triste, minha filha. É dentro do teu coração que Ele vai desabafar, contar-te as Suas mágoas. Tenho o peito rasgado, o Coração trespassado, as lanças não cessam. O Meu Divino Sangue corre, corre com toda a abundância. O mundo é ingrato, é cruel. Os pecadores cegos pelas paixões cravam-me lançadas, punhaladas sem conta. Dia e noite sou ferido, a cada momento crucificado. Ó minha filha, ó minha filha, atende ao teu Jesus. Dá, dá a reparação pedida. Enxuga, esposa minha, enxuga as minhas lágrimas. Cura com o bálsamo da tua dor as chagas do Meu Divino Coração. Diz-Me, repete-Me constantemente : amo-Te, Jesus. Sou a tua vítima. Bradei, bradei ; pedi pelos teus lábios penitência e emenda de vida. Pedi, pedi tantas vezes para não ser ofendido. Os pecadores não cederam, continuaram a sua vida de crimes, a onda desregrada das paixões. As almas tíbias não se afervoram. Aquelas almas, que Me amavam, pararam no seu amor. Estou triste, estou triste, minha filha. É grande, é infinita a minha tristeza, a minha dor”. — Ó meu querido Jesus, que posso eu fazer, meu amor ? Onde posso eu encontrar a alegria para Vos dar? Como posso eu ter bálsamo para as Vossa feridas, na minha inutilidade? A que porta, meu Jesus, vieste bater! Em que coração entraste, meu doce Amor ! Não sois Vós a sabedoria infinita ? Não víeis Vós a minha pobreza e miséria ? Lembrei-me, agora, Jesus; deixai-me ir ao Céu. Deixai-me trazer de lá todo o amor dos santos, anjos, arcanjos e querubins. Deixai-me, permiti, Jesus, que Vos dê todo o amor da Santíssima Trindade e da Mãezinha querida. Só assim eu posso dizer: Jesus, Vós sois amado; eu amo-Vos em nome de todo este amor. — “Eu aceito, minha filha. Eu aceito tudo como se assim fora. Eu aceito todo o amor do Céu que me queres oferecer. Mas quero mais, sempre mais a tua dor. Eu imolo-te, crucifico-te, eu permito que recebas toda a variedade de espinhos. Não pareço o Pai, não, minha filha ; pareço para ti um carrasco. Como muito te amei, muito te assemelhei a Mim. Amei-te e amo-te com o maior amor. Assemelhei-te a Mim no mais alto grau de imolação e de dor. Muito te amei, muito esperei e espero de ti. Para a mais sublime missão te escolhi. Vem, minha filha, vem receber a gota do Meu Divino Sangue. Introduzi no teu coração o tubo doirado. A ele estão ligados os nossos corações. Passou a gotinha do sangue divino. Passou a abundância do Meu amor. Pelo mesmo tubo passa para Mim, para o Meu Divino Coração, o teu amor, a tua generosidade, a tua aceitação de vítima. Vítima generosa, vítima heróica, vítima louca pelo serviço de Jesus, pela salvação das almas. Vai em paz, minha filha, sofre, sofre. Não negues a Jesus a tua dor. Dá-me sempre, sempre com um sorriso. Fica na cruz, fica na tua inutilidade. É ela que dá utilidade a tantas almas perdidas. Coragem, coragem, minha filha. A tua cegueira é luz. A tua inutilidade é útil, a tua morte é vida. Coragem, coragem. Brada, brada : ó mundo, ó mundo cruel, ó mundo pecaminoso, deixa de ofender a Jesus, converte-te depressa, vai amar o Seu coração”. — Obrigada, obrigada, meu Jesus. Lembrai-Vos de todos os meus pedidos, compadecei-Vos do mundo inteiro. Perdoai, Jesus, perdoai sempre. Se eu pudesse, se eu soubesse mostrar ao mundo, a todos os corações, a todas as almas, quanto as amais ! Obrigada, meu Jesus, o Vosso amor encheu-me, aqueceu-me, deu-me força. 5 de Setembro – Sexta-feiraJesus muito pede ao meu corpo e à minha alma e muito lhe dá ! Pede ao corpo dores triturantes, dores, por vezes, posso dizer, quase insuportáveis, e à alma tristezas, angústias, agonias mortais. Mas dá ao coração a ânsia, a saudade, o amor de Jesus, por Jesus, e Este dá ao corpo e dá à alma a vida, a força para a tudo resistir. Os sofrimentos da alma são mais dolorosos ainda do que os do corpo. Ai de mim, ai de mim ! Se não fosse Jesus a viver, a triunfar na minha cruz, no meu Calvário ! A inutilidade é para mim o assassino mais cruel. As ânsias de me dar a Jesus, de sofrer por Ele e pelas almas são tão grandes, são mais do que imensas, não são minhas, são infinitas, são de Jesus. E a inutilidade rouba-me a mim, rouba o próprio Jesus, porque rouba tudo o que Ele em mim deposita. Fito os olhos no crucifixo, no Coração Divino de Jesus, e em espírito no Céu o digo : estou aqui, Jesus, para fazer a Vossa Divina vontade. Fazei-a Vós em mim e por mim. Brincai, manejai com este inútil instrumento, como Vos aprouver. A alma chora, o coração sangra. O meu Calvário chega da terra ao Céu. Mas quero, quero a dor, as humilhações, os desprezos e tudo o mais, meu Jesus, tudo o mais, todos os espinhos que me cravam, tudo quanto me leva à agonia e à morte. Quero, porque Vós o quereis ; quero, porque amo as almas, que são Vossas; quero, porque Vos amo sem sentir o Vosso amor. Creio, creio, espero e confio. Parece que não cesso de pensar no pecado e nas formas mais maliciosas de o praticar. Parece que eu mesma sou o mundo, e todo ele está podre, dentro de mim. A minha alma vê-o apavorada. Não posso falar, mas a minha alma também não sabe, na sua ignorância, exprimir este pavor. Todo ele é ruína, todo ele é morte. A quinta-feira de ontem trouxe-me um horto doloroso ao máximo. Jesus veio de encontro a mim, não para me dar consolação, mas para imprimir em mim todas as Suas chagas. Todo o meu ser ficou Cristo, a vida sofredora de Cristo. Os cravos, que trespassavam as Suas mãos e pés, trespassaram os meus. A lança e a dor do Seu Divino Coração foram as minhas. Não eram de ferro os cravos, nem a lança; eram de fogo, fogo que queimava e tudo trespassava. E assim, toda Cristo, caí no solo do Horto, envolvi-me toda nele. Desapareceu toda a vida de Cristo, para ficar a ser o lodo e a podridão mais nojenta. Desceu sobre mim o peso da justiça divina; foi o cálice da mais tremenda amargura ! Pareceu-me chegar ao máximo, não poder ir mais além. Nesta manhã, depois de uma luta, dum combate de vícios e de crimes, em que eu ouvi, não com os ouvidos do corpo, mas com os da alma, um tropel maior do que se fosse dum exército, e era na verdade um exército de demónios, que se lançaram a mim, a despedaçar-me a carne e as próprias roupas, a tentarem levar-me em corpo e alma para o inferno. Quem me libertou deles, só Deus o sabe, mas foi sem dúvida a Sua misericórdia, infinita misericórdia. Vi então Jesus, preso à coluna, a ser açoitado e em seguida coroado de espinhos. Senti as Suas dores, atingiram-me da cabeça aos pés. Em seguida, caminhou com a cruz para o Calvário. Eu também tinha a minha cruz; não a levei, levou-a Jesus por mim, enquanto que eu seguia o caminho da inutilidade. Quanto sofreu o meu Jesus ! Como o Seu sangue divino regava os caminhos da amargura ! O Calvário continua a ser regado com o mesmo sangue divino. E eu, com olhares só do inferno, desprezava toda a Lei do Senhor e todos os méritos do Calvário. No cimo do Calvário, a cruz ficou plantada em mim, e eu sentia-me como se fora uma bola. O sangue de Jesus caía sobre mim, e do Seu Divino Coração saíam raios doirados, brilhantes como o sol. Penetravam toda a bola em que eu estava formada. Davam-me a vida que eles mesmo tinham. Os meus olhares infernais contemplavam a cruz e tudo isto. Jesus, ao ver os meus olhares maldosos, bradava sem cessar e expirou na dor mais dolorosa. Momentos após a Sua morte, Ele veio cheio de luz e vida e falou-me assim : — “Aqui está Deus. Está aqui o Céu. Aqui está Jesus, aqui está o amor. Amei tanto, amei infinitamente, amei sem limites. Amei e não sou amado. Amei e não sou retribuído. Venho pedir amor, venho pedir amor, venho pedir amor. É Jesus o pedinte, é Jesus o mendigante. Peço amor por amor. Quero ser amado, para que o meu Eterno Pai perdoe. Ele está irado, irado contra a terra. É justa, é santa, é divina a Sua indignação. O mundo, o mundo, minha filha, o mundo, os pecadores são a causa do teu martírio, da tua imolação dolorosa, da tua crucifixão sangrenta. Escutai, escutai, atende, mundo cruel. Escutai, escutai, atendei, pecadores ingratos. É o Senhor que vos chama, é o Senhor da terra e do Céu, o Senhor que tudo criou. O Senhor, a quem haveis de dar contas de toda a vossa vida. Minha filha, minha querida filha, Jesus está no teu coração, está sempre, sempre sem te abandonar. Ele habita na tua inutilidade. Ele reina na tua morte. Ele triunfa em ti, em todo o teu sofrer. Alegra-te, alegra-te, o Céu está por ti, muito pertinho de ti”. — Sim, Jesus, sim, meu Amor. Confio, confio. Não está perto, está mesmo em mim, porque o Céu sois Vós. Mas o Céu, meu Jesus, o Céu, a que Vos referi, sinto que ele está tão longe, parece não ser para mim. — “Essa ausência, esse temor, minha filha, não é teu. É uma escolha do martírio, fui Eu quem o escolheu, e sabes para que assim o exijo ? Porque as almas o exigem de Mim. É para que elas o não percam eternamente, é para que elas não se ausentem de Mim para sempre, para sempre, por toda a eternidade. Os crimes são tantos, tantos, ó minha filha ! Eu faço que tu os conheças, para veres a necessidade de reparação, para te encorajares a mais e mais sofrer, a mais e mais reparares”. — Está bem, meu Jesus, eu estou pronta. Pronta para sofrer, pronta para reparar. Quem reparará por mim, Jesus? Eu tenho tantos pecados, meu Jesus! Nunca Vos digo que aceiteis os meus sofrimentos em desconto deles. Perdoai-me, perdoai-me. — “Tu tens, sim, minha filha, muitos, muitos, tens em ti todos os crimes da humanidade, como outrora Eu os tive no Horto e no Calvário. As tuas faltas formam apenas um véu que encobre as maravilhas e grandezas do Senhor. Oh! Como é bela a tua alma, como é encantador o teu viver !” — Está bem, meu Jesus, todos os encantos estão naquilo que é Vosso. Eu, como sou inútil, como nada tenho, nada há em mim que Vos possa encantar. — “Se o mundo soubesse, se o mundo conhecesse a riqueza que aqui está encerrada ! Se as almas bebessem todas nesta fonte cristalina ! Beber nesta fonte é beber em Jesus, é beber no Céu. E Eu quero dar-Me, dar-Me, e é por ti que Eu me dou, minha filha. É pelos teus lábios que Eu falo e peço. Evite o pecado quem o pode evitar. Evite as ocasiões e os lugares do pecado quem tem poder para o fazer. Fale o Santo Padre, fale aos homens do poder. De que vos valem os lugares que ocupais, se condenais a vossa alma, se não defendeis a sério as causas e os direitos do Senhor ? Fale o Santo Padre, fale ao mundo inteiro. Quem ouve o Papa ouve Cristo. Quem atende ao Papa atende a Cristo. Quem atende obedece, salva a sua alma. Recebe, minha filha, a gota do Meu Divino Sangue. Introduzi no teu coração o Meu Divino Coração. Nele deixo ficar uma gota mais forte do Meu Preciosíssimo Sangue. Tens necessidade de mais forte alimento, para mais sofreres”. — Ó Jesus, o Vosso Divino Coração é grande como o Céu e grande deixou o meu. Obrigada, bendito sejais. Jesus, lembrai-Vos de todos os que eu amo, de todos quantos me pertencem, de todos quantos querem as minhas pobres orações. Lembrai-Vos dos meus inimigos que tanto me ferem. Perdoai-lhes, Jesus. Lembrai-Vos do mundo inteiro e ao mundo inteiro perdoai. — “Vai em paz, minha filha, vai em paz; sorri sempre à tua dor, à tua cruz”. — Obrigada, obrigada, meu Jesus. 6 de Setembro – Primeiro SábadoEsperei Jesus numa fome insaciável. Só Ele podia satisfazer o meu coração. Quanto mais O amo, quanta mais fome sentia d’Ele, mais longe O via e sentia de mim. Ele veio. Pareceu-me que encheu toda a casa. Baixou ao meu coração. Logo a minha fome devoradora ficou saciada. Aqueceu-me com o Seu amor, iluminou-me com a Sua luz, e muito unidinhos, numa união que parecia inseparável. Após alguns momentos, ouvi a Sua voz : — “Minha filha, minha filha, sou paz, sou doçura, sou amor. Quero-te mergulhada nesta paz. Quero-te nela, numa inundação completa. Eu não quero, minha filha, que nenhum dos teus sofrimentos te tirem a paz, que só de Deus vem. O Senhor é contigo. Jesus está no teu coração. É o agricultor deste terreno mimoso. É o jardineiro deste jardim formoso. Escondo-me, perco-me entre tão variadas flores. Delicio-me no seu perfume. Ó minha filha, se houvesse muitos corações onde Eu pudesse deliciar-me !... Se houvesse muitos corações que me amassem loucamente! Se houvesse muitas almas reparadoras, o meu Eterno Pai não castigava com todo o peso da Sua justiça divina. A terra é culpada; os pecadores viciaram-se nos seus crimes. O mundo, o mundo é só digno de punição divina”. — Ó meu Jesus, ó meu Jesus, perdoai, perdoai hoje, perdoai sempre. É certo que merecemos sobre nós toda a justiça, mas olhai, meu Jesus, dizei ao Vosso Eterno Pai que olhe para a Sua divina misericórdia. Pedi-Lhe, pedi-Lhe que perdoe, e perdoai Vós também. Usai para nós toda a misericórdia. Utilizai-Vos da vingança do amor. — “Sofre, sofre, minha filha. Dá à Santíssima Trindade toda a reparação. Dá-Nos toda a consolação e alegria. Dá-Nos todo o amor, como se fora o amor de todos os corações. Diz a o teu paizinho que o Senhor é recto e é infalível nas Suas promessas. Eu amo-o e não falho. Amo-o e não falto ao que prometi. Sou recto com os que procedem mal. Sou justo com os que vão contra a minha Santíssima Vontade, com os que se opõem a ela. É justo, é justo o meu castigo. Hão-de ser justas as minas contas. Diz-lhe que o amo, que o amo, que lhe dou todo o amor e que o quero com toda a minha paz. Que se encha de mim, da minha ternura, da minha paz, do meu amor. Que se encha da medicina divina, que é a medicina das almas. Ele é mestre e guia delas. Escolhi-o, escolhi-o para isso. É a missão mais árdua e mais espinhosa. Que tenha coragem, que tenha coragem ! É contado no número dos meus santos. É o eleito do senhor. Diz, minha filha, ao teu médico que mãos à obra, mãos à causa do Senhor. Olhos no Céu, confiança inabalável em Deus. Eu quero, eu quero que se faça a justiça, a justiça divina à causa mais justa, à causa maior que Jesus tem na terra. Haja luz. Faça-se toda a luz. São as almas, são as almas. É Jesus que assim o quer, é o mundo a exigi-lo. Faça-se luz. As almas são minhas, necessitam de luz. Haja luz. Faça-se luz. As almas são minhas. A causa deste Calvário é a de maior salvação. Ai dos que julgam mal, ai dos que se opõem, porque também hão-de ser julgados por mim. Tudo o que eu permito e faço é do mais alto e elevado valor. Dá, dá ao teu médico e Meu queridíssimo filho a chuva das minhas graças, a efusão do meu amor. Que as faça cair sobre o seu jardim florido, que o incendeie em todas as minhas chamas. Vem, minha Mãe bendita, vem, vem ó Virgem das Dores. Une-te à nossa filhinha. Conforta-a, conforta-a. Minha filhinha, minha filhinha, esposa predilecta do meu Jesus, olha para mim. Vê quanto Eu sofro, vê os espinhos que cercam o Meu Santíssimo Coração. Vê as setas que O trespassam. Anima-te, alegra-te comigo. Jesus assemelhou-te a Ele e assemelhou-te também a Mim. Seja essa a causa da tua alegria. O pai e a mãe alegram-se com os filhos que os parecem. E os filhos, se amam verdadeiramente os pais, alegram-se por se parecerem com eles. Une-te, minha filha, une-te às minhas dores. Aceita as minhas setas, recebe os meus espinhos. Suaviza as dores do Meu Divino Coração, suaviza as dores do Coração Divino de Jesus”. — Sou eu, Mãezinha, com toda a alegria que as tiro do Vosso Coração Santíssimo para o meu. Sou eu a enlear em mim os espinhos que cercam o Vosso. Quero sofrer por Jesus. Quero sofrer por Vós, para salvar as almas. Quero alegrar a Jesus e alegrar-Vos a Vós, para que as almas vivam alegres, eternamente. Ó Mãezinha, ó Mãezinha, o Vosso Santíssimo Coração confortou-me tanto! Encheu-me de Vós! Os Vossos lábios puseram nos meus toda a doçura. — “Recebe em uníssono as minhas carícias com as de Jesus”. — Obrigada, Jesus, obrigada, Mãezinha. Não quero deixar, nestes momentos de tanta felicidade, de lembrar aos Vossos Santíssimos Corações todos os corações do mundo inteiro, todos os corações amigos e inimigos, conhecidos e não conhecidos, fiéis e infiéis, o mundo inteiro. — “Coragem, coragem, minha filha, sofre tudo. Dá-Nos, dá-Nos toda a reparação. Dá-Nos tudo quanto te pedimos e em troca leva, como desejas, tudo o que é Nosso, para os que amas, para os que te pertencem, para o mundo inteiro”. — Obrigada, Jesus, obrigada, Mãezinha. 12 de Setembro – Sexta-feiraParece-me que vi cair por terra o próprio Céu, com todas as suas grandezas, maravilhas e riquezas infinitas. Vi como que destruído tudo o que é do Senhor. Tal foi a dor que senti, tal foi o punhal que foi cravado no meu coração ! Saiu certo o pressentimento da minha alma, que já há tempos me consumia. Eu esperava alguma coisa, sem saber o quê. Eu tinha, e tenho medo, de tudo e de todos, e com razão. As coisas surgem, os sofrimentos vêm, muitas vezes daqueles que menos esperava. Apesar de que, desta vez, era daqui que eu os pressentia. Nova proibição me foi feita. Meu Deus, que ódio contra mim ! E a quem eu mais ofendo, meu Jesus, é a Vós. É por fraqueza, porque eu só queria amar-Vos. Ao meu próximo procuro não o ferir. Mas eu quero sofrer inocente toda a vida e não culpada um só momento. No primeiro sábado, depois do colóquio com Jesus e com a Mãezinha, pelas Suas palavras divinas, fiquei convencida de que algum sofrimento de novo ia surgir. Contudo, a minha alma estava forte e cantava à espera do que Jesus lhe enviava. Foi ao cair da tarde que uma carta me veio trazer a notícia da proibição. Foi tão aguda a punhalada que me deixou o coração vazado de um lado ao outro. E mais ainda : senti como se esse mesmo punhal estivesse preso em árvores e eu presa a ele, sujeita ao rigor de toda a tempestade, baloiçada pelos ventos o mais pavorosamente. Não chorei. Com os olhos fitos no Céu, louvava e bendizia ao Senhor. Durante a noite, nas horas mais agitadas, quando a tempestade tudo destruía, quando as ondas do sofrimento me submergiam, eu, só com o coração, porque com os lábios não podia, dizia : meu Deus, meu Deus, valei-me, Jesus, sou a Vossa vítima, Mãezinha, vinde em meu auxílio. Ah ! Se eu sofresse sozinha ! Mas oh ! Quantos sofrem por minha causa ! A minha vida mais parecia aquilo que sempre sinto: só ilusão, engano e mentira. Mas tudo isto sem eu querer. Não tinha ninguém por mim, nem no Céu nem na terra. Depois de tomar a resolução de participar a notícia ao meu santo médico, porque me parecia sentir alívio se ele compartilhasse da minha dor, outra ideia me surgiu ; foi um impulso fortíssimo da alma e do coração. Vou escrever ao Santo Padre e ao sr. Cardeal, vou contar-lhes a minha vida, dizer-lhes quanto sofro, pedir-lhes as suas bênçãos, dizer-lhes que se compadeçam de mim e que me tomem por filha, que me dispensem a sua amizade, que sejam eles por mim. Meu Deus, não quero acusar ninguém. Quero sofrer sozinha, convosco, no silêncio, abandonada e ignorada por todos. Não queria escrever mais, não queria receber mais visitas, viver só, mesmo só nesta noite tenebrosa, na noite total, na inutilidade de tudo. Quando assim sofria, não sentia consolação, mas, no íntimo da minha alma, reinava a paz. Ela nascia como nasce o sol, crescia, enchia-me. E, no meio deste abandono, o meu coração ficava como que preso ao Céu por uma cadeia de fogo. A alma parecia ter braços, os quais se abraçavam fortemente ao Senhor, sem O ver, sem O sentir; baloiçava ao rigor do vento, na brisa da tempestade. Parecia-me que a cadeia do coração e os braços da alma eram levados por uma força infinita para o ar. A alma compreendia que era o sofrimento que mais a aproximava do Senhor. A inutilidade roubava-me todo o sabor que daqui podia tirar. No Domingo, depois da Sagrada Comunhão, quando no mar da minha amargura eu pedia a Jesus que não deixasse enganar-me ninguém, pareceu-me ouvir d’Ele estas palavras : — “Minha filha, não sou Eu o Caminho, a Verdade e a Vida ? Confia, Eu sou a Verdade suma. Vives de mim, vives a minha vida. Não te enganas. Poderia Eu deixar enganar-se uma esposa querida, que tanto assemelhei a Mim ? Confia, tem coragem”. Muitos espinhos surgiram deste sofrimento. Tenho-os recebido por amor a Jesus e às almas, repetindo sempre a minha oferta de vítima. Custou-me a desistir da resolução tomada, de não escrever mais. Obedeci por amor. Continuo a mesma vida, enquanto assim aprouver ao Senhor. Cheguei a dizer a alguém: se é meu amigo, não me obrigue a escrever mais. O amor a Jesus venceu-me. Que Ele me perdoe os meus desânimos e desfalecimentos. A doença inesperada do meu santo médico, a quem tanto devo pelo seu amparo, aumentou-me o sofrimento. Adoeceria por minha causa ? Afligir-se-ia com as minhas coisas ? Ó Jesus, curai-o, Vós sois o médico divino. Tenho tantos desalentos e tentações contra a Fé ! Não só sinto em mim todo o número de pecados com toda a sua maldade, como sinto e quase chego a convencer-me por alguns momentos que não vale a pena sofrer, que nada existe, morrendo eu tudo acaba. Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, criador do Céu e da terra. Aparta-te de mim, maldito, não quero ofender ao Senhor. Creio em tudo o que ensina a Santa Igreja Católica. A custo tenho abatido a minha vontade de escrever ao Santo Padre e a Sua Eminência o Sr. Cardeal, tal é a necessidade que tenho de encontrar um coração amigo, no qual eu possa descansar. Estou sempre a receber espinhos e lançadas para o meu coração. Ai quanto se sofre ! Como Nosso Senhor é grande, como Ele é bom ! Oh ! Quanto eu podia aproveitar, se soubesse amar e abraçar a minha cruz ! A tempestade não cessa. O meu Horto de ontem foi um vendaval derrotador. Fiquei no solo do Horto, presa com fortes grilhões de ferro. Eu caminhava sob o peso da dor, como um pequenino verme sob o peso da terra. Caíram sobre mim toda a espécie de feras, destruíram o meu corpo, chuparam-me todo o sangue. Durante a noite, fiz-me prisioneira com Jesus, e de manhã Ele seguiu sozinho para o Calvário. Vi-O caminhar, levando aos ombros a cruz, mas não O quis acompanhar. Fiquei na inutilidade. Veio a Mãezinha da Dores, tomou-me o coração, fê-lo sofredor como o d’Ela e seguiu a Jesus, lacrimosa. O meu coração chorava também. Juntaram-se no Calvário. Jesus na cruz e eu com a Mãezinha ao pé. Sofríamos a mesma dor e agonia, juntavam-se as nossa lágrimas mo Seu preciosíssimo sangue que regava o Calvário. Os olhos da Mãezinha levavam os meus a fitar Jesus na cruz. As Suas lágrimas passavam pelos meus olhos. A Sua dor no meu coração, ao mesmo tempo que com ela, murmurava : “Tu és meu Filho, Eu sou tua Mãe. A minha agonia é a tua agonia”. Num prolongado brado, agonizei. Ressuscitei da morte com a voz de Jesus, que dizia : — “Do silêncio da morte rompe a voz de Jesus. O que vem Ele dizer, o que vem Ele pedir ? Vem dizer que está triste, muito triste. Vem pedir a uns corações que O amem mais, muito mais, e a outros que deixem de O ofender. Escutai, escutai, é Jesus quem fala pelos lábios da Sua vítima. Escutai, escutai. É Ele quem pede no coração da Sua esposa amada. Eu tenho sede de amor, Eu tenho sede das almas. O meu Coração está triste e muito triste, porque muito é ofendido. Está triste o meu Coração, porque triste está o meu Eterno Pai. Amai a Jesus, amai as coisas de Jesus, amai a Lei do Senhor. Deixai o pecado, detestai o pecado. Odiai, odiai para sempre o pecado. Minha filha, minha filha, estou todo chagado, todo em sangue. Os pecados, os pecados são os meus açoites, descarnam as minha carnes santíssimas. Sou descarnado, sou despedaçado. Ó minha filha, ó minha filha, as maldades, os crimes abriram-Me o peito, alancearam-Me o coração. Olha como ele sangra! Repara nesta chaga tão profunda !” — Eu vejo, Jesus, vejo o peito e sinto as Vossas chagas. Sinto as minhas carnes despedaçadas, como vejo as Vossas. Sinto o meu coração aberto e a sangrar, como vejo o Vosso. Que fontanário de sangue ! De nada vale o que eu tenho sofrido, nem o que sofro, meu Jesus. Se valesse alguma coisa o meu sofrimento, Vós não sofreríeis assim ! — “É isso mesmo, minha filha, é isso que Jesus quer que tu compreendas. Tudo isto Eu tinha sofrido, se tu não tivesses desta forma reparado. Sofre, sofre com alegria e heroicidade. Repara sempre o Meu Divino Coração, para que Ele não sofra o que tu sofres e o que te parece eu sofrer. Sofre, para que Jesus se alegre, sofre, para que Jesus perdoe. A tua dor, minha filha, a tua reparação leva-me a esquecer os pecados do mundo. A tua dor, o teu martírio levam o Meu Divino Coração à compaixão pelos pecadores. Sou Pai, quero perdoar. Sou Senhor, quero ser servido. Servi a Lei do Senhor, conduzi as almas a Jesus. Tenho sede, sede deste coração amoroso. Dai-Me almas. Ide à busca, ide à conquista das almas”. — Ó Jesus, ó Jesus, se eu pudesse arrancá-las todas ao demónio ! Se eu pudesse fechar para sempre as suas garras malditas ! As almas, Jesus, as almas !... Que pena eu tenho das almas ! Amo-as tanto, porque são Vossas filhas, amo-as, porque Vós as amais, amo-as, porque custaram o preço do Vosso Divino Sangue. — “Coragem, coragem, minha filha. A tua dor tem força para tudo o que tu queres, para todas as tuas ânsias. Ela tem a força de Jesus, e as tuas ânsias são de Jesus. Vem receber a gota do Meu Divino Sangue. Introduzi no teu coração o tubo doirado. A ele uni o Meu Divino Coração, e a gota do sangue passou. Foi gota maior, mais forte ainda. Para o aumento da dor, mais necessitas da força e vida divina. Eu permiti que a tua dor fosse aumentada. Eu consenti no teu Calvário mais doloroso, porque a gravidade dos crimes assim o exige. Os homens vão contra a vontade santíssima do Senhor. Eu permito, eu consinto, para o bem das almas. Se não fossem estas, eu punia-os no mesmo momento. Tem coragem, minha filha. O Senhor está contigo. Jesus vela por ti. Jesus vence, vence e triunfa em ti. Vai em paz. Vai em paz. Dá a minha paz. Dá-a em nome de Jesus. Dá-a com o amor de Jesus. Pede aos pecadores emenda de vida. Pede ao mundo oração e penitência”. ― Obrigada, meu Jesus. Não Vos separeis de mim. Lembro-Vos neste momento as minhas grandes intenções. Peço-Vos perdão para o mundo inteiro. 19 de Setembro – Sexta-feiraNão há remédio para mim, nem para o corpo, nem para a alma. As minhas dores não são suavizadas. O corpo está num fogo, numa dor só. Não posso falar. A alma está na noite mais tenebrosa, na mais tormentosa agonia. É um mar agitadíssimo, e eu envolta nas ondas, não tenho quem me valha, não tenho salvação. Quando me cravam punhais mais agudos, e os espinhos me surgem, de novo penetram mais fundo, fico louca, louca de dor, a perder aquela vida, que já só parece morte. A alma agoniza, o coração sangra e, ao mesmo tempo, parece romper em hinos de louvor e agradecimento ao Senhor. Jesus, eu amo-Vos, sou a Vossa vítima, seja tudo por Vosso amor. Salvam-se as almas. Sem sentir alegria, sem sentir consolação, sinto que, no meu íntimo, ao mesmo tempo que sangro e agonizo, sinto paz, uma paz que alimenta, que dá a vida. Por momentos, todo o meu ser se mergulha nela. A inutilidade mete-se logo a roubar-me todo o sabor; nada chego a saborear. Ó vontade do meu Deus, só tu és a minha vontade, custe o que custar. Não quero outro viver, Senhor, a não ser aquele que para mim escolheste. E, assim abandonada a Jesus e à Mãezinha, passo os dias à espera do meu grande dia, do meu Céu. Se a minha ignorância me deixasse falar do que sinto em mim, no coração e na alma, nas ânsias de sofrer, nas ânsias de amar e de dar almas a Jesus, não podia calar-me, parece que tinha de falar sempre, enquanto o mundo durasse. Não posso e não sei. Mas o brado da minha alma parece que no silêncio da minha ignorância fala à humanidade inteira a dizer-lhe tudo, a mostrar-lhe tudo, a pedir-lhe para amar e não ofender o Senhor. Ontem, passei o dia nas amarguras que ficam ditas, mas sem pensar no Horto, sem viver dele uma vida inteira. Principiei a sentir uma dor profunda. Apoderou-se tanto de mim que quase não resistia. Era superior às minhas forças, parecia que me arrancava o peito e as entranhas. Fiquei esmagada sobre aquele solo duro e ali derramei o meu sangue. Se por um lado sofria, pelo outro vivia indiferente a tudo. E assim passei hoje a viagem do Calvário, na indiferença e na inutilidade, fugitiva e desaproveitada de todos os sofrimentos de Jesus. Quase ao terminar da montanha, a dor era tão dolorosa e profunda e eu sem saber como, principiei eu a cravar punhais no meu coração, um após outro. Era eu, era no meu coração e não era a mim que feria. Não, não era, era a Jesus que eu apunhalava. Fui eu que O crucifiquei na cruz. Fui eu a cuspir-Lhe e a escarrar-Lhe no Seu santíssimo rosto. Fui eu que O fiz agonizar. Só no momento de Ele expirar é que eu juntei o meu brado ao Seu e com tal força que o Céu rasgou-se. Toda a terra escureceu, fez-se noite. Jesus expirou e por uns momentos pareceu-me também passar pela morte. Jesus, a verdadeira vida, deu entrada no meu coração. Pareceu que abriu portas e janelas, iluminou-o todo e falou-me assim : — “O mundo dorme num sono profundo, mas pavoroso sono. Os pecadores dormem no sono dos vícios e das paixões. Os pecadores dormem no sono da perdição, o sono que os leva ao inferno. Minha filha, minha filha, estou no teu coração. Estou em ti para desabafar, estou em ti para conformar-te. Tem coragem, tem coragem, é indispensável a tua dor. Acorda, acorda, desperta os pecadores deste sono de perdição. Ai deles, ai deles, minha filha. Sofre, sofre, alegra o meu Divino Coração. Repara o Meu Divino Coração. Eu quero oferecer ao meu Eterno Pai uma reparação que aplaque a Sua divina justiça. Minha filha, minha filha, se os pecadores não exigissem tal sofrimento, Eu não consentia, Eu não dava tanta larga aos homens que se opõem contra a minha divina vontade”. — Ó meu Jesus, ó meu Jesus, eu sinto que Vós estais no meu coração, mas não me pareceis aquele Jesus cheio de ternura, de bondade e amor. Sinto que a minha alma Vos vê como juiz, mas um juiz severo e justiceiro. Ó Jesus, ó Jesus, parece-me, sinto que tenho medo de Vós. Não recebo nenhum conforto… oh ! se eu pudesse fugir-Vos ! — “Paz, paz, paz, minha filha à tua alma. Amor, amor, amor do teu Jesus para o teu coração. Eu quero, por ti, mostrar ao mundo o que será o julgamento de cada pecador, de cada alma. Eu quero, mesmo que nos colóquios mais íntimos comigo tu repares o meu Divino Coração. Se os pecadores pudessem fugir-Me no seu momento final !... repara, repara, para que Eu não seja obrigado a mandá-los apartarem-se de Mim eternamente. Minha filha, minha filha, é dolorosa a minha dor. É triste, tristíssimo o meu desabafo. Minha filha, minha filha, tenho que assemelhar-te a Mim. Tem que ser dolorosa, profunda, a tua dor. Tem que ser triste, tristíssimo o teu Calvário. Tem coragem, tem coragem, Jesus ampara-te, Jesus vela por ti”. — Ó meu Jesus, ai meu Amor, tantas vezes desfaleço ! Por tantas vezes, chego quase a duvidar de Vós, da Vossa vida em mim. Perdoai-me, perdoai-me. Não me deixeis sozinha. — “Coragem, coragem, minha pomba bela, florinha eucarística. Vejo o teu coração, vejo a tua alma, vejo as tuas ânsias. Sim, sim, neste Calvário, encontrei uma vítima heróica. Sim, sim, neste Calvário, encontrei uma verdadeira esposa, uma alma mais altamente imolada”. — Ó meu Jesus, ó meu Jesus, neste Calvário encontrastes a alma mais pobrezinha, mais cheia de misérias, mas também cheia de querer cumprir a Vossa Santíssima Vontade com toda a perfeição, cheia, cheíssima de ânsias de Vos amar e de Vos dar a todas as almas. Sou pobrezinha, enriquecei-me, Jesus. Fazei de mim o que Vos aprouver. — “Vem receber a gota do meu Divino Sangue. Já passou para o teu coração o alimento divino. Levou-te a vida de que vives. Levou-te o amor com que suportas toda a dor. Tem coragem, tem coragem, o teu Calvário é semelhante ao de Jesus. É Calvário de resgate, é Calvário de salvação. Fica na cruz. Triunfa nela com o teu sorriso. Esconde nela toda a dor que Eu te enviar. Vai em paz, minha filha, vai em paz. Dá a minha paz, dá o meu amor a todos quantos se abeiram de ti. Pede ao mundo, minha filha, que arrepie caminho, que volte para Jesus”. — Ó Jesus, muito obrigada. Lembro-Vos todas as minhas intenções. Sabeis bem por onde principio e por onde acabo. — “Coragem, coragem, minha filha, na tua missão nobilíssima”. — Obrigada, Jesus, obrigada, Jesus. 26 de Setembro – Sexta-feiraParece que vivo fora de Deus, fora de tudo o que Lhe pertence. O mundo traiçoeiro, enganador, com todos os seus crimes, está dentro de mim, e eu em tudo o que é matéria e podridão estou transformada. Passo o meu tempo a apunhalar o Coração Divino de Jesus. Se eu pudesse mostrar o ódio que parece existir dentro de mim contra Ele ! Se as almas pudessem ver como eu sou cruel, como escarro no rosto santíssimo de Jesus, como eu o açoito e renovo toda a Sua Santa Paixão! Que escândalo, que escândalo ! Como elas se apavoravam de mim! Só eu sou criminosa no mundo. Só eu sou loucura nas paixões e veneno para as almas. A minha alma vê a maior parte da humanidade a desfazer-se na lepra do pecado, a cair morta e envenenada por mim. Meu Deus o que eu sou! O que é o pecado ! Que contas Vos poderei eu dar de tantos crimes! Ai de mim, sou esmagada pela justiça do Senhor. Todo o meu ser fica por ela desfeito no solo da terra. Ai de mim, que sou só pecado e inutilidade para o bem. Nada em mim de bom se aproveita. A noite é tenebrosa, o abandono é do Céu e da terra. Não posso fazer outra coisa a não ser abandonar-me à Providência e confiar, confiar sempre, sem o sentimento de que confio e tudo espero do Senhor. É tremenda a minha maldade. Os meus olhares têm o veneno de todo o inferno. Todos os meus sentidos são faíscas de fogo infernal, com a maior maldade para todos os crimes. Parece-me que nenhum pecado para mim é oculto, e que conheço toda a gravidade com que eles são feitos. Uma dor pungente e infinita invadiu-me o coração e a alma. Esta chora lágrimas de sangue. Meu Deus, não faço outra coisa senão falar de dor, sem nada dizer, devido à minha ignorância. Ânsias de perfeição e amor não me faltam, enchem mais que o mundo, parece-me que são ânsias do Céu. Não tem fim, mas a inutilidade rouba-lhe o saber. No esquecimento e na inutilidade passei o meu dia de ontem, mas numa tristeza e agonia indizíveis. Era já noite e apresentou-se diante do meu coração uma bola que representava e continha o mundo. Senti por ela um amor louco, uma infinita atracção. Quis entrar nela, principiei a rodá-la. Não tinha entrada. Só o meu sangue podia amolecê-la, a ponto de eu entrar e nela poder viver e reinar. As veias romperam-se, banhei a terra com o sangue. Tudo isto me abriu o caminho para o Calvário. Os meus braços foram despregados da cruz, e ao mesmo tempo o coração serviu de escada por onde foi descido Jesus. Ai, quanto sofri! As horas da noite foram um Calvário de sofrimento. Uni-me a Jesus na Eucaristia, pedi-Lhe que a Ele me prendesse, como Ele foi preso na noite da Sua Santa Paixão. De manhã segui atrás d’Ele para o Calvário. Segui-O não por compaixão nem amor, mas sim odienta e perseguidora. Não fiz outra coisa senão açoitá-Lo, arrastá-Lo e atirar-me sobre Ele e sobre a cruz. O amantíssimo Jesus não podia respirar. A cada momento parecia-me perder a vida. No cimo da montanha, Ele ficou pregado na cruz. E eu continuei contra Ele, com um ódio infernal! Ele olhava-me com olhares de ternura e convite. O meu ódio mais se enfurecia, e, em recompensa de tanto amor, escarrava-lhe no rosto. Jesus rompeu num brado doloroso, que fez estremecer toda a terra. Num dado momento senti como se o Seu Divino Coração saísse para fora do peito e viesse de encontro ao meu. Parecia mesmo que Jesus queria devorar-me. Ainda resisti ao Seu amor infinito ; causei a Jesus uma dor mortal. Foi num brado dolorosíssimo que Ele expirou. Eu não morri com Ele, mas parecia-me desaparecer da face da terra. Não levou muito tempo que Jesus entrasse no meu coração, triunfante da morte e com a Sua luz, com a Sua graça; iluminou-me, fortaleceu-me e falou-me assim : — “Andam por tão longe as almas. Andam tão fugitivas do Meu coração divino. Abeiram-se de Mim só para Me apunhalarem, só para Me fazerem sofrer. Eu tenho sede, Eu tenho sede, Eu quero beber nos seus corações. Tenho ânsias de ser amado. Eu quero possuir em Mim a humanidade inteira. Eis os teus sofrimentos, eis os teus sentimentos. Tudo o que em ti se passa é obra de Deus, é a vida de Jesus. Os teus sentimentos são os sentimentos de Jesus. As tuas ânsias as Suas ânsias, a tua dor a Sua dor. Eu anseio ser amado, sofro por ser ofendido. Tu anseias dar-me as almas. Sofres porque elas Me fogem. És vítima, minha filha, és vítima. Este Calvário é semelhante ao de há vinte séculos. A vítima imolada foi cópia tirada da inocente, de Jesus. Coragem, minha filha, as tuas incompreensões são provas do amor de Jesus. Tens de ser odiada e perseguida. Eu fui perseguido na minha vida na terra, sou perseguido, maltratado agora nos sacrários. Essa perseguição chega ainda ao Céu. Todos os crimes do mundo ferem o Meu divino coração. Toda a maldade dos homens desafia a justiça do Meu Eterno Pai. Alerta, alerta, é Jesus que previne, é Jesus que avisa, é Jesus que pede. Alerta, alerta. Não vos descuideis, filhos meus. Não tendes tempo de olhar para trás. O Pai, que vos avisa, ama-vos mais que todos os pais da terra. O Senhor, que vos chama, quer dar-vos o Seu reino. Ó minha filha, sofre, sofre, minha filha, minha querida esposa. Minha esposa, a quem dei e dou o título de florinha eucarística. Esposa, a quem dei e dou o título de Mãe dos pecadores, de Mãe da humanidade. A mãe dá o sangue a seus filhos e quantas vezes a própria vida. Sofre, sofre, deixa-te imolar. Os pecadores perdem-se, os pecadores condenam-se eternamente. Quem fala é Jesus, quem avisa é o Juiz que os condena. Sofre, sofre, minha filha, para que Eu não lhes lavre a sentença de condenação eterna”. — Ó Jesus, ó Jesus, sofro quanto me dais. Nada recuso. É só por Vosso amor e para Vos salvar as almas. Bem sabeis que não é com o fim da glória que me espera. Sofro mal, bem sei que sofro, meu Jesus. Perdoai-me. Não sei, nem tenho forças para sofrer melhor. — “Tem confiança. Minha filha, estou pronto a auxiliar-te. Auxilio-te porque é grande, é grande, imensamente grande a tua a tua cruz. Auxilio-te, porque para muito te escolhi. Auxilio-te, porque é árdua e dificílima a tua missão”. — Conto convosco, Jesus, conto convosco. A minha alma vê não sei o quê. Tudo em desordem, tudo a destruir-se. Tenho visto, Jesus, por tantas vezes, ao menos durante a noite, destruição igual a esta. — “Sim, sim, minha filha, muitas vezes te tenho mostrado, à tua alma, esta destruição. São ameaças do Céu. A justiça do Senhor, que vai descendo sobre a terra. Ai dela, ai das almas, se não se convertem! Vem receber a gota do Meu Divino Sangue. Estão unidos os nossos corações. Está unido o nosso amor. Passa a gotinha de sangue, passa lentamente. Enche-te da minha vida, da minha graça, do meu amor. Fica na tua cruz. Tens muito que sofrer, minha filha. Tens muitas almas a salvar”. — Jesus, sou a Vossa vítima. Dai-me força, dai-me força, sem Vós não posso. Lembrai-Vos dos meus pedidos. Atendei às minhas preces. Atendei, atendei, atendei, meu Jesus. Perdoai ao mundo. Obrigada, meu Jesus, obrigada, meu amor. 2 de Outubro – Sexta-feiraTemo e tremo à vista de tanto abandono, tanta escuridão e inutilidade. O meu brado ao Céu é abafado pelo peso da dor e das humilhações. Quero fugir para onde não possa ser vista. Fico abatida, humilhadíssima, ao ver-me visitada e rodeada de pessoas. Muitos vêem em mim e julgam aquilo que eu não tenho e que eu não sou, não por mim, mas pela graça e misericórdia do Senhor. Mas muitos, em número muito mais elevadíssimo, pensam que sou, julgam, vêem em mim as virtudes, a santidade que eu não tenho, mas que gostava de ter por ser vontade do Senhor que sejamos perfeitos e santos. Estes, sem querer, sem terem essa intenção, fazem-me sofrer muito mais ainda que os outros. Eu nunca pensei, e graças ao Senhor, em querer parecer bem, passar por virtuosa aos olhos do mundo. Eu quero ser, sim, aquilo que Jesus quer, e nada mais. Queria amar a Jesus, a Mãezinha e dar-Lhes todas as almas. São as minhas ânsias, as minhas aspirações. Mas nada faço; a cada momento da minha vida sou roubada pela inutilidade. O que é bom não o tenho. O que é meu, toda a espécie de vícios, maldades e crimes, são meus. É meu todo o ódio da humanidade inteira contra Jesus ; são minhas todas as ofensas cometidas contra o Seu Divino Coração. O meu brado não chega ao Céu. Parece que ele para mim não existe. E, para maior desgraça, quantas vezes não sei quem tenta convencer-me de que ele não existe para ninguém. Valei-me, meu Deus, valei-me, meu Jesus. Na terra, não tenho quem me acuda ; e que será de mim se me faltais Vós ? Os meus sentimentos não cessam de dar a volta, percorrerem toda a humanidade, com a maldade e malícia mais pecaminosas. Entreguei-me à podridão do mundo. Ai, se eu soubesse dizer aquilo que me parece buscar e querer, como me parece saber praticar toda a qualidade de pecados, todos os lugares onde eles se podem cometer. Que horror, que escândalo, meu Deus ! Estas ânsias, desejos, olhares maldosos, chegam, por vezes, a deixarem-me na maior prostração, tal o cansaço que sinto no coração. São horas amargas, de luta constante. Depois de um tremendo combate, em que abandonei Deus por completo e me entreguei às mais cegas paixões, eu era as pessoas, via as pessoas, era o lugar da habitação e via esse lugar, dizia dentro de mim mesma: quero o prazer, quero gozar; não existe Deus; depois desta vida, tudo acaba, quero satisfazer-me enquanto aqui estou. Dizia isto para a minha companhia do pecado. Quando assim falava, fiquei sobre a boca do inferno. Veio alguém sobre mim, de braços abertos, como se viesse pregado na cruz. Não se poupou aos sofrimentos, não temeu cair também no inferno. Sustentada não sei por quê, voava como se tivesse asas. Arrancou-me da boca do inferno, das labaredas que já me atingiam. Fiquei libertada. E então Jesus chorava e parecia chorar dentro de mim e em profundo suspiros dizia : — “Não te aproximes de mim, não me recebas nesse estado na Eucaristia, não me renoves mais vezes a minha santa Paixão. Converte-te e vem depois a Mim, não peques mais, ama-me”. Fiquei como se não ouvisse a voz de Jesus, não tive nenhuma pena d’Ele ; embrutecida no vício não pensava deixá-Lo, tinha o propósito de nele continuar. Vai-se passando dentro de mim o sofrimento de há catorze anos, a data da minha primeira crucifixão. As vésperas, o dia e muitos mais após este, tudo mês está presente. A alma vai vivendo o sofrimento de cada dia, de cada hora. Sinto o que sofri, o que sofreu o meu Pai espiritual e mais alguém que me rodeava. Que tormento ! Se este fosse bem compreendido, não se teria erguido tão doloroso Calvário. Ó meu Jesus, tudo foi e é por Vosso amor. Sede a minha força e a força dos que sofrem por minha causa e comigo. Nesta agonia torturante, passei o meu Horto de ontem. Ao cair da tarde, fiquei como que plantada nele. Fui posta naquele solo duro, para ser responsável por toda a gente e para duma grande parte ser escândalo. Estes eram revoltosos, carrascos e assassinos para mim. Ali recebi todos os maus tratos e ingratidões dos homens. Parecia que era do meu coração, mas não era, porque eu via à minha frente outro coração, embora muito unido ao meu, que derramava rios de sangue, e pelo centro saíam chamas de fogo ateadoras. Compreendi que era o fogo do amor de Jesus. Eram d’Ele estas chamas, era d’Ele este sangue que banhou o solo do Horto. E era Ele que louco de amor se oferecia por nós ao Eterno Pai e pela Sua justiça era esmagado. A noite foi um Calvário, e para o Calvário segui nesta manhã. Era uma agonia semelhante à de há catorze anos. Era um caminho sem luz, era um caminho sem guia, nem amparo, era uma agonia sem conforto, sem esperança, era uma agonia só de pavor. Cheguei ao cimo da montanha, fiquei na cruz crucificada. Jesus tomou a minha carne despedaçada, os meus ossos, todos os meus membros. Todo o meu ser foi Cristo crucificado. O Seu brado ao Pai passava pelo meu coração e pelos meus lábios. Perto de Jesus expirar, passou sobre mim uma onda fogo. Jesus dizia : “Venceu o amor, venceu o amor. Pai, nas tuas mãos entrego o Meu espírito.” Após um pouco dum silêncio mortal, a alma iluminou-se. Sentia em mim a vida de Jesus e ouvi-O falar assim : — “Dá-me o teu coração, minha filha, e junto ao teu faz com que Me sejam oferecidos muitos corações, todos os corações. Está aqui o mendigo, o mendigo, o mendigo do amor. O mendigo da dor. Está aqui o mendigo que há tantos anos veio bater à porta do teu coração. Hoje, como nesse dia, venho pedir a mesma coisa. Quero o teu corpo e a tua alma para serem sempre comigo crucificados. Quero o teu corpo para ser o pára-raios de toda a humanidade. Quero a tua dor, formada em braseiro, para ser luz de todos os pecadores. Bati, bati à porta do teu coração generoso. Bati e fui atendido. Bati e tive entrada. Minha filha, minha querida filha, a hora é grave. Avante, avante, coragem na tua cruz, no teu Calvário. Eu pedi para te crucificar. São os meus desejos, são os meus anseios divinos que continuas nesta crucifixão. O mundo, o mundo, os pobres pecadores, obrigam-Me a todas as exigências, obrigam-me a crucificar-te com a mais dolorosa crucifixão. Coragem, minha filha. Sê apostola. Coragem, coragem, minha filha, sê missionária no teu leito de dor. É nobre a tua missão. É nobilíssima a tua dignidade de esposa de Cristo, de vítima de Cristo, de florinha eucarística, de mãe dos pecadores. Catorze anos são passados. Foi neste lugar, a esta hora, que há catorze anos foste crucificada, e neste momento tinha contigo os Meus desabafos. São catorze anos de glória, catorze anos de salvação, catorze anos de heroísmo, de amor às almas. Bem hajas, esposa minha, pela tua generosidade. Estreito-te ao Meu Divino Coração, pela tua entrega total. És minha, toda minha. Pertences-Me, amas-Me, e Eu amo-te! Sou teu e todo teu. Vem, minha esposa celeste, vem abraçar, vem beijar, vem unir-te à minha esposa e vítima, à vítima heróica deste Calvário, que sofre, luta, combate. À minha semelhança, tem salvo e continua a salvar muitas almas, milhões e milhões de almas. Minha irmã, minha querida irmã, aceita o meu abraço, o meu íntimo abraço. Aceita os meus beijos, os meus celestes beijos”. — Teresinha, Teresinha, minha querida amiga, roga por mim ao Senhor. Ama por mim Jesus, ama por mim a toda a Santíssima Trindade, ama por mim a querida Mãezinha. Teresinha, Teresinha, minha querida amiga, quero abraçar-te, quero estreitar-te muito ao meu pobrezinho coração. Vela por mim, ajuda-me na minha cruz, no meu calvário. Quero, quero abraçar-te e não mais separar-me de ti. Ah ! se eu fosse contigo para o Céu!... Já lá estaria com certeza, se como tu soubesse amar, se como tu soubesse sofrer e mais ainda se como tu soubesse ser pura e santa. Obrigada, obrigada, minha querida Teresinha, pela tua chuva de rosas. — “Tem coragem e confia. Será breve, muito breve, que eu virei com a minha e tua Mãe, a nossa Mãe e Rainha celeste, levar-te para o Paraíso. Confia. Ama-te o Céu com a maior loucura de amor. Vem, minha filha, depois deste mimo celeste, receber a gota do meu divino sangue. É a vida que passa, é o amor que te inunda e fortalece. Coragem, coragem. Quem muito dá muito quer receber. Dou-te tudo, dou-Me todo a ti. Fica na tua cruz. Dá-te dela, sempre, toda a mim. Com ela, com este sofrimento inigualável, dá-Me às almas, dá-Me às almas, todas as almas. Acode, acode ao mundo perdido. Pede oração, muita oração, muita penitência. Vai em paz. Coragem na tua dor, coragem na tua imolação, no teu Calvário”. — Obrigada, Jesus, obrigada, meu amor. Antes de Vos deixar, antes de me separar de Vós, ou de sentir a Vossa separação, lembro-Vos, meu Amor, todos os que me são queridos. Ponho tudo, tudo, diante de Vós. Todos os que se me recomendam, toda a humanidade, porque toda ela é Vossa. Ficai comigo, é Jesus, triunfai na minha cruz ! 4 de Outubro – Primeiro SábadoPassei a noite numa ansiedade indizível de receber a Jesus e, ao mesmo tempo, numa dor angustiosa pela hora da Sua visita ao meu pobre coração. Temo os colóquios com Jesus. Parece que chego a querer libertar-me de tudo. Temo os colóquios, porque temo enganar-me. Tenho dúvidas de todo o meu viver. Apavoram-me as sextas-feiras e os primeiros sábados. Meu Deus, eu não quero enganar-me, nem enganar ninguém. Não consintais em tal, meu Jesus. Ele veio, e, logo que O recebi, o temor desapareceu-me, dissipando-se as trevas. A Sua presença em mim iluminou-me o coração, encheu-me de paz, abrasou-me toda no Seu Divino Amor. Após uns momentos, falou-me assim : — “Vim ao mundo trazer a paz. Quero dar a todos a minha paz. Minha filha, minha filha, o Rei Divino está no palácio do teu coração, sentado no trono da maior realeza. Este trono está adornado das mais puras e heróicas virtudes. O perfume é delicioso, tem o aroma das rosas. Aqui, minha filha, sim, neste trono encantador, Eu posso esquecer os crimes com que sou ofendido. É deste trono que Eu falo, é daqui que Eu suplico. Coragem, coragem, a dor é o escudo da salvação. Dá-Me almas, dá-Me almas, não mas deixes fugir, não mas deixes perderem-se. Tenho sede, tenho sede de ser amado. Estou cheio e enfartado de ser ofendido. Dá-Me almas, minha filha. Com os teus sofrimentos, conquista-as para Mim. Eu faço, esposa querida, que elas corram para junto de ti, como as formiguinhas para o seu celeiro. O teu coração é celeiro divino. Está cheio, todo cheio, transborda das maravilhas, graças e tesoiros do Céu. As almas, as almas, vêm junto de ti. Vêm ao celeiro do teu coração buscar alimento para se alimentarem e viverem de Mim. Quantas, minha filha ! Quantas !... Se tu pudesses ver !... Vêm para aqui umas e vão tão transformadas!... Ai daquelas que se opõem aos meios que Jesus escolheu para as salvar! Utilizei-Me deste calvário riquíssimo, calvário de salvação, para lhes acudir. As almas são minhas, custaram o sangue divino. Quero que se salve aquilo que é meu. Diz, diz ao teu Paizinho que uni a vossa dor na mesma união, na mesma intensidade, que uni as vossas almas. Ele há-de ser contado no número dos meus santos. Foi escolhido para eleito do Senhor, mas para isso tem de passar a sua vida na terra calcando espinhos, trespassado de espinhos. A sua missão, a missão das almas, para a qual o escolhi, é a mais árdua, a mais difícil, a mais dolorosa. Diz-lhe que o amo com todo o meu amor. Se assim o não amasse, não o teria escolhido para tal fim. Dou-lhe toda a minha paz, todo o amor e doçura do meu divino Coração. Diz, diz ao teu médico que Jesus visita sempre os amigos que mais ama. Diz-lhe que Jesus bate à porta, com mais intensidade, daqueles de quem espera tudo. Diz-lhe, diz-lhe que o meu Divino Coração tem por ele e pelo seu jardim florido especial afeição. Diz-lhe que é grande a recompensa que o espera. Não posso deixar de o compensar pela sua firmeza heróica, pela sua fidelidade e amparo à minha divina causa. Diz-lhe que tenha coragem. Ela triunfará. Diz-lhe que não cesso, dia e noite, de velar por ele, de cuidar dele e dos que são dele. Dá-lhe a chuva das minhas graças. Dá-lhe a abundância do meu amor e diz-lhe mais uma vez: mãos à obra, mãos à obra. Jesus o quer. Diz à minha filha atribulada que a acompanho, que o Senhor está com ela e lhe dá toda a Sua paz e o amor do Seu coração. Diz-lhe que os seus caminhos estão traçados, traçados por mim. Ela está bem como Eu quero e onde quero. Diz-lhe que ela tem sido fidelíssima à vontade santíssima do Meu Divino Coração. Diz-lhe que lhe dou toda a paz, que a feche bem no seu coração. Avante, avante sempre, sempre a velar na missão que lhe destinei. Vem, minha Bendita Mãe, Mãe do Rosário, Mãe da salvação, vem consolar a nossa filhinha. Vem confortá-la, encorajá-la. Os seus caminhos são os mais espinhosos e difíceis de romper. Minha filha, minha querida filhinha, esposa amada, esposa de Jesus, estás no regaço da tua Mãezinha celeste. É Ela a estreitar-te, a acariciar-te, a acalentar-te ao Seu Santíssimo Coração. É a Virgem Celeste, a tua Mãezinha querida a quem tanto amas, a quem tanto queres, que vai pela segunda vez enlear nas tuas mãos o rosário bendito, o rosário da salvação. Aconselha, faz que ele seja rezado. O Rosário bem rezado e bem meditado, com os teus sofrimentos, são a salvação dos pecadores, são a salvação da humanidade. Ai dela, ai dela, se depressa não corresponde às graças do Céu, às graças e protecção de Jesus e de Maria. Coragem, minha filha querida. Está atenta sempre, sempre, a tudo o que Jesus te pede. Nada Lhe recuses. Dá-Lhe toda a dor. O mundo, os pecadores, assim o exigem. Conta com Jesus, conta comigo. Velamos por ti, amparamos-te. Estás sempre mergulhada no amor infindo dos Nossos Corações. Não o sentes, mas estás. É nesse estado de alma que dás a maior honra, a maior glória, a maior prova de amor a Jesus e a Maria. É nesse estado de alma que o Eterno Pai recebe de ti a reparação, com a abundância que apode dar uma criatura humana”. — Ó Mãezinha, quero abraçar-Vos e beijar-Vos. Eu não sou digna, eu não sou digna, perdoai-me. — “Recebe as novas carícias de Jesus. Recebe o conforto, as carícias e toda a doçura da tua Mãezinha. Dá, minha filha, dá, minha filha, a todos os que amas, a todos os que te amparam e rodeiam o amor e doçura da tua Bendita Mãe. Espalha-os a todos os que se aproximam de ti. Faz que se espalhem no mundo inteiro”. — Obrigada, Jesus, obrigada, Mãezinha. Sede sempre comigo. 10 de Outubro – Sexta-feiraPasso a vida mergulhada num mar agitadíssimo de dor. É o mundo inteiro transformado em água, é o mundo inteiro esse mar infindo de sofrimento. A dor mergulha-me lá para os abismos. Só de longe a longe, movida e removida pelas ondas, chego quase à superfície da água ; só os braços consigo deitar de fora. Este esforço da minha parte, este mostrar e abrir de braços, é um sinal de pedir socorro. Parece que é para o Céu que eu os abro e levanto. Na terra não tenho ninguém que possa entrar por entre as ondas a abeirar-se de mim. Tudo é mar, tudo é revolta. Ao estender os braços, como que a pedir auxílio, chego quase que a respirar, libertada da dor, do sofrimento. Mas, ao mesmo tempo, sem o Céu me salvar, volto a infundir-me pelo peso inaudito da dor. Nem da terra, nem do Céu posso ter salvação. Lá vou eu, parece que passo anos e anos a lutar com as ondas sem poder conseguir vir à superfície a pedir de novo auxílio. Entregue à mercê da água, desfalecida, já não procuro esforçar-me para ser salva. Eu queria desabafar, sinto a necessidade de dizer o que é este mar de sofrimento e como eu sou submergida nas ondas. A inutilidade rouba-me toda a luz, todo o esforço que eu fazer para me salvar. A ignorância não me larga. E, assim, eu fico sem ter lenitivo para a minha alma. Não me faço compreender, não posso fazer nenhum bem. Estas ondas são para mim piores do que a lepra; roem-me, desfazem-me todo o ser. Mas ainda tenho um coração e uma alma que anseiam servir e amar o meu Senhor, entregar-me a mim e em tudo fazer a Sua Divina Vontade. Digo isto, não pelos sentimentos, mas sim pela confiança e pelo abandono a que me entreguei. Eu não sei se amo a Jesus, mas Ele sabe que eu quero amá-Lo. Eu não sei se faço a Sua divina vontade, mas Ele sabe bem a perfeição com que eu quero fazê-la. Eu não sei se sigo os Seus caminhos, mas não importa, porque eu confio, sem sentir que confio, e espero no Senhor que hei-de confiar até ao meu último momento. Abandonei-me a Jesus e à Mãezinha e vou para onde Eles me levarem. Não quero as honras do mundo, nem o louvor das criaturas ; não me importa ser odiada, humilhada, incompreendida e desprezada por todos, o que eu quero é amar a Jesus e dar-Lhe as almas. E para isso tudo espero d’Ele. Temo a minha miséria e fraqueza, duvido de toda a minha vida, que tudo é engano, ilusão, falsidade, mas tudo isto sem eu querer. O que eu não posso é consentir no pensamento que Jesus, vendo-me, como sei que vê, que o único fim da minha vida é Ele, me deixe abandonada. O meu coração quer falar ao mundo. Que ânsias infinitas da fazer conhecer o Coração Divino de Jesus, de dizer o quanto Ele nos ama e o quanto se sente quando O ofendemos. Ó meu Jesus, meu Jesus, como sangra o Vosso Divino Coração! Como sofreis, meu doce Amor, ao verdes o mundo dos meus crimes, o mundo das minhas paixões, o mundo de todas as maldades, o mundo da mais nojenta podridão. Não disse nada e nada sei e quase nada estou a poder dizer. Mostrai, Jesus, fazei compreender, para Vossa glória e bem das almas, aquela infinidade de coisas que eu sinto necessidade de saber exprimir. Parece que o meu coração não cessa de as mostrar, de as escrever. O meu Horto de ontem foi o da inutilidade e do esquecimento, com um completo desprezo. Á noite, toda a humanidade, de lança em punho, rasgou-me o peito, abriu-me o coração. Toda a terra ficou regada com o seu sangue. O coração assim aberto era um abismo de amor, era uma lição nunca aprendida nem compreendida, era um asilo para todo o mundo cruel. O mundo fui eu, a cruel fui eu, quem tirou a vida a Jesus fui eu, só eu. Que pavor, meu Deus, que pavor! A noite foi um tormento de sofrimento para o corpo, mas foi melhor para a passar unida a Jesus. Hoje, logo de manhãzinha, não fui eu, mas foi o meu coração. Alguém o levou para acompanhar a Jesus de tribunal em tribunal. Ele foi testemunha de quanto Jesus sofreu! Para melhor dizer, os tribunais pareciam-me que estavam no meu coração, e ao mesmo tempo eu fui que lavrei a sentença de Jesus, fui eu que Lhe coloquei a cruz aos ombros e O fiz, debaixo de todos os maus tratos, caminhar para o Calvário ; à parte sempre a minha inutilidade para o bem e a utilidade, como autora de todo o mal. No cimo do Calvário, crucifiquei o meu Amado. Ia dentro em pouco dar-Lhe a morte. O Seu Divino Coração aberto era um mundo infinito de amor. O Seu brado ao Eterno Pai, ao mesmo tempo que era brado do abandono, era-o de convite a entrarmos nele para dele recebermos o perdão. Quanto mais Jesus bradava, mas eu compreendia o Seu amor e mais ele se submetia à vontade do Pai. A ela submetida para responder por toda a humanidade ao Céu, entregou o Seu espírito. A minha alma sentiu um trespasse de morte para depressa despertar para a vida ao ouvir a voz de Jesus e ser iluminada pela Sua luz divina. — “Alerta, alerta. Olhos ao Céu, coração humilde, coração resignado à vontade santíssima de Deus. Alerta, alerta! Estai bem atentos. Alerta, alerta! Escutai, escutai! É Jesus quem fala. É Jesus, sim, Jesus no Calvário, na Sua esposa e vítima. É no Calvário que Ele está. É no coração da Sua florinha eucarística que Ele habita. É pelos seus lábios que Ele pede. Tenho sede! Quem poderá saciar-ma ?... Tenho fome ! Quem poderá satisfazer-me ? Os corações puros, os corações sequiosos de Mim, os corações e as almas reparadoras. Tenho sede de amor, tenho fome das almas. Ó minha filha, ó minha filha, alma da mais elevada eleição, o Senhor é contigo. Foste criada para a mais alta e difícil missão e para esposa de Jesus Cristo. Foste criada e escolhida por Deus, para seres a cópia fiel, a vítima mais semelhante de Cristo crucificado. A tua missão é nobre, é nobilíssima. O Céu exulta de alegria na contemplação do farol luminoso, da luz brilhante de toda a humanidade. É a vítima salvadora das almas. Coragem, coragem, minha filha, escuta a voz de Jesus que te ama e anseia que O faças amar. Sofre, sofre com alegria. Sofre com heroísmo. Tu és, esposa minha, a ave escondida, escondida, sim, escondida, escondida e seres visitada, escondida e seres contemplada. Escondida, sim, minha filha, porque poucos vêem em ti a graça e as virtudes, as maravilhas e os tesouros que em ti estão encerrados. Tu és o sol, o sol brilhante, encoberto por uma nuvenzinha que há-de romper, que há-de ser rasgado para que os raios luminosos vão penetrar, vão iluminar todos os corações, todas as almas através dos tempos. A tua vida há-de chegar dum pólo ao outro do mundo, como o reinado de Cristo crucificado. Dá-Me dor, dá-Me dor, minha filha, aquela dor que abrande a justiça do Senhor, aquela dor que apague o seu fogo vingador, aquela dor que dê ao mundo uma vida nova, aquela dor que arranca às garras de Satanás os milhares, os milhões, os milhões, os milhões de grandes e perversos pecadores. Alerta, alerta, ouvi, almas vítimas, ouvi, almas amantes do Senhor. Vinde depressa, vinde com urgência, antes de ecoar o trovão da destruição. Salvai as almas, salvai as almas. Consolai a Jesus, aplacai a justiça do Senhor”. — Ó meu Jesus, meu Jesus, estou confundida. Não sei o que hei-de dizer-Vos. Digo-Vos que sou Vossa, que sou a Vossa vítima e que conto convosco para em tudo ser fiel à Vossa Divina Vontade. Dai-me graça, Jesus, dai-me amor à cruz. — “Vem, minha filha, vem, esposa minha, receber a gota do meu divino sangue. Ó maravilha, ó maravilha extasiante! Uma nova gota de sangue de Jesus corre pelas veias da Sua esposa e vítima. É sangue que dá a vida, a vida que gera as virgens e as faz crescer na graça e no amor. Fica na cruz, minha filha, ama-me, ama-me. É nela que provas o teu amor a Jesus, o teu amor às almas. Coragem! Vai em paz. Vai pedir, sem cessar, penitência, emenda de vida”. — Obrigada, meu Jesus, obrigada, meu Amor. Atendei às minhas preces. Vede todos os meus pedidos. Por último, é o mundo, é o mundo, meu Jesus. Compadecei-Vos dele. 17 de Outubro – Sexta-feiraParece-me que não tenho fé. E, umas vezes, vivo como se nunca a tivesse nem a conhecesse, e outras como que a tivesse e a perdesse. Esta vida, com o seu breve, dá-me tempo para tudo, tudo, mesmo tudo do que é para o pecado. Sou um mundo maldades, vícios, ódios, um mundo de ofensas ao Senhor, um mundo de perdição. Tenho tempo para tudo o que é mau, tenho em mim todo o veneno e parece que conheço toda a variedade de crimes, tenho toda a maldade e sabedoria como eles são praticados. Para o que é bem, ó meu Deus, para Vos servir e amar, não tenho um momento. Que desespero, que inferno, por vezes dentro de mim ! Ao ouvir, no dia 13, a transmissão de Fátima, às invocações não desesperei, porque Jesus e a Mãezinha velaram por mim. Quando ouvia “Meu Deus, creio em Vós, mas aumentai a minha Fé” parecia-me que dentro de mim se repetia : não creio, não creio, não tenho Fé. O meu sentimento era de que não havia ninguém no mundo como eu. Não tinha força para chamar por Jesus e pela Mãezinha. As lágrimas bailaram-me nos olhos, tentaram vencer-me, rolaram-me pelas faces. O abandono do Céu e da terra prevalecem em mim. O martírio do corpo é contínuo, mas a agonia da alma não é menos assídua, custa mais ainda. A tempestade não cessa. As ondas agitadíssimas do mar enrolam-se sempre nelas, levam-me lá para os abismos. As trevas da noite, unidas à inutilidade, são pavorosas. Com tudo isto no coração e na alma, a paz acentua-se no mais íntimo. O inferno, o desespero, estão na superfície, só por momentos encobrem a tranquilidade e a paz que habita no alojamento mais fundo. Quando assim é, estremeço ao parecer que sou lançada no abismo da perdição. Não sei de onde, vem do alto como que uma corda que me atrai a si. Parece que os meus braços se firmam nela, e, como que se tivesse de degraus, de longe a longe, vou passando um, apesar de estar sempre no mesmo sítio. Este sentimento é bálsamo para as feridas de muitas, muitas punhaladas, e de muitos, muitos espinhos. Meu Jesus, como é vasto o jardim dos Vossos sofrimentos ! Não tem conta a variedade de tão dolorosas, mas tão amadas flores ! Amo, amo tudo o que é Vosso, tudo o que me enviais. Dai-me graça e força, Senhor, só em Vós confio. O meu Horto de ontem foi um verdadeiro pavor! Eu era como que envolta, amassada, calcada por toda a terra. Temia os sofrimentos, temia a Deus mais do que a própria morte. Prostrada no solo do Jardim das Oliveiras, dizia não sei quem dentro de mim: a minha alma está triste até à morte. E tal era a tristeza que me levava a manifestá-la, a desabafá-la. Via ao longe, mas como se fosse dentro de mim, a Mãezinha das Dores a contemplar-me. Via o Céu fechado, o mundo feito um rochedo, sem nele poder penetrar, e todos os sofrimentos que me esperavam. Suei sangue; só com ele tal dureza podia ser amolecida. Nesta manhã, temerosa de Jesus e dos meus colóquios com Ele, d’Ele queria fugir e esconder-me. Segui para o Calvário, mas fui forçada. Não segui a Jesus com amor; senti em mim uma revolta imensa contra Ele. Sempre a inutilidade a dominar-me para toda a Sua vida, para tudo o que era d’Ele. No cimo da montanha, Jesus estava crucificado na cruz. E eu não fiz outra coisa a não ser cobri-Lo de insultos e atirar-me a Ele, como a fera mais furiosa. Eu era a fera mundial e ia tirar-Lhe a vida. Jesus amava, amava profunda e loucamente. A cada brado ao Seu Eterno Pai, a cada afronta, repetida uma e outra vez à Sua Divindade, o Seu Coração parecia esquecer. O amor superabundava tudo. Quando Ele bradava em dolorosa agonia, o Seu amantíssimo Coração jorrava sangue que regava a terra em abundância, e junto ao sangue saíam fortes labaredas de fogo, que se ateavam e pareciam incendiar o mundo. No meio de indizível afronta e sofrimento, Jesus amava e a todos perdoava. Vi-O suar sangue e senti na minha alma que os Seus suores eram os suores frios da morte. Ele expirou, e a minha alma com Ele. Tudo ficou silencioso, como se morresse toda a terra. Veio o meu Amado, deu-me a Sua vida, deu luz à luz escura do meu coração e falou-me assim: — “Minha filha, minha filha, estou aqui no teu coração. Escuta o Jesus da tristeza, o Jesus da dor, o Jesus da compaixão, o Jesus do amor, o Jesus do perdão. Minha filha, minha filha, estou aqui e é no teu coração que Eu falo aos pecadores, que Eu falo ao mundo inteiro. Eu amo, Eu amo a humanidade, infinitamente, divinamente. Eu amo e não sou amado. Eu amo e ela não corresponde ao meu amor. O mundo, o mundo, minha filha, é o cruel do teu Calvário como outrora o foi do meu. O mundo, o mundo infiel, é a causa da tua imolação tão dolorosa e sangrenta. Eu sou o Jesus ofendido. Eu sou o Jesus ultrajado e venho ao teu coração pedir amor, amor, amor de muitos corações, de milhões de corações, amor dum universo de corações. Tenho sede, tenho sede, tenho sede de amor, sede de reparação. Conquista, minha filha, conquista muitas almas para Mim. Pede, para que Eu seja amado e seja reparado. Eu quero apresentar a meu Eterno Pai corpos e almas reparadoras, corações transformados em sacrários vivos, com hóstias imoladas, abrasadas em amor. Eu venho ao teu coração, minha filha, não só deliciar-me no jardim das tuas virtudes, no seu perfume delicioso, no fogo ateador que as rodeia e faz crescer, mas sim pedir-te, pedir-te sempre dor, mais dor, para essa dor incendiar nos corações ânsias de sofrimentos, ânsias de reparação, ânsias de amor mais elevado”. — Ó meu Jesus, meu Jesus, eu estou pronta, sempre pronta a fazer a Vossa Divina Vontade, a pôr sempre em prática os Vossos divinos desejos. Não conto comigo, Jesus. Não conto com as minhas forças, mas conto convosco, com a Vossa graça, com o Vosso amor, meu Jesus. Se eu soubesse ser fiel à Vossa Santíssima vontade ! Se eu soubesse viver dia a dia, momento a momento, a Vossa vida divina, a Vossa vida de amor e servir-Vos fielmente !... Pobre de mim, Jesus ! Não sei sofrer, nem sei amar o Vosso Divino Coração ! Não sei sofrer, nem fazer a Vossa Santa vontade. Perdoai-me, Jesus, perdoai-me. Guiai-me, encaminhai-me nos Vossos caminhos. Ó meu Jesus, bendito sejais ! O meu coração é um oceano infinito de amor. Estou abrasada e queimada nas Vossas chamas. Sinto que sou grande como Vós. Tenho em mim o Céu com todo o poder. — “Tens, minha filha, tens o Céu, porque tens Jesus. És poderosa com o Meu poder. Ardes no oceano do amor; fui Eu que te comuniquei. Dei-Me todo a ti, tal qual Eu sou, para que me dês às almas, como Eu a ti me dou. Ó mundo, ó mundo ingrato e cruel ! Que pode fazer mais por ti Jesus, para te salvar ? Não tenho entrada nos corações empedernidos, directamente. Procuro entrar pela minha vítima, florinha eucarística, pelo crucificado deste doloroso Calvário, mas tão querido, o mais querido ao meu Divino Coração. Vem, minha filha, receber a gota do meu Divino Sangue. Mais uma gota para a vida, para a vida de que tu vives, mais uma prova da minha predilecção por ti, mais uma nova vida, nova força para a missão que te escolhi. Coragem, coragem, minha filha. Fica na cruz. Fala às almas. Conquista-as para Mim. Tu és o íman que as atrai, para por ti virem sequiosas ao Meu Divino coração. Coragem ! Diz ao mundo que Jesus está triste, o Eterno Pai está irado. Converte-te depressa. Ai de ti se não vives nova vida. Atende, atende, são ameaças do Senhor! É Jesus a avisar-te, a prevenir-te pelos lábios da Sua vítima”. — Obrigada, meu Jesus. Estão presentes no meu coração todas as intenções, tudo, tudo. Atendei às minhas preces. Cedei aos meus pedidos. Obrigada, meu Jesus. 24 de Outubro – Sexta-feiraEstou no meu Calvário. É-me difícil vencê-lo. Por mim, não posso, meu Deus, sei que não posso. Vou ser breve, muito breve nas minhas palavras, na impossibilidade de o poder fazer. Cada esforço que faço para pronunciar uma palavra, todo o meu ser parece desfazer-se, tal é o sofrimento que em mim sinto. Ó Jesus, tudo por Vosso amor e para a salvação da almas. Que todo o meu viver seja sofrer e amar-Vos, amar-Vos e sofrer! Sem a dor, jamais poderia viver. Sinto necessidade de abrir a minha alma e queria quem me soubesse compreender. Não tenho ninguém, o abandono é completo. Vem do Céu e das criaturas. Meu Deus, parece que estou sozinha no mundo. XE "Fé : parece que não acredito" É quase constante a minha dúvida e grande tentação contra a Fé. Parece que não acredito na existência de Deus, nos Seus mistérios, na Sua doutrina, na Sua Lei. Duvido de mim, de todo o meu viver, e parece-me ter igual dúvida da vida e existência de Jesus. Creio sem crer, confio sem confiar que não há-de ser assim, que não hei-de ofender o meu Senhor com tais dúvidas, com tais sentimentos. Isto me atormenta triste e dolorosamente a minha alma. Parece-me que são constantes as minhas ânsias de pecar, de me dar ao mundo e aos seus prazeres. Busco por toda a parte as melhores ocasiões, as mais variadas formas de satisfazer as minhas paixões. Ó meu Deus, o que se passa em mim, no mundo do meu corpo ! Tenho em mim estampadas todas as figuras indecentes que convidam e ensinam o mal. Ai, que tormento ! Ai, que pavor ! Não posso e sou ignorante. Ai, se eu pudesse esconder-me, sem fugir à minha cruz! Se eu não pudesse não ser visitada, viver na oração e no recolhimento, sem com isto deixar de amar e fazer a vontade do meu Jesus! Não tenho querer, não tenho escolher, Jesus. Sou a Vossa vítima. Ontem, no mundo da minha inutilidade fiquei encaixada, infundi-me num Horto de gelo. Eram dois mundos num só mundo, gelo e inutilidade. Ali, gelada, vi o Calvário de Jesus. Vi-O a ser despido, escarnecido e debaixo dos sofrimentos mais atrozes a ser crucificado. Comecei então a suar sangue. Levantei-me com os cabelos e os vestidos nele ensopados. E mais uma vez me ofereci ao Pai, sem que Ele afastasse o cálice da amargura. Vi os tribunais e a multidão ingrata que ia pedir a condenação de Jesus. Fiz-Lhe companhia o mais que pude, durante a noite. Nesta manhã, Ele seguiu para o Calvário, levando a cruz aos ombros. E eu, como se não tivesse coração, não O acompanhei, deixei-O seguir sozinho. Segui na inutilidade os caminhos dos vícios e da perdição, para os quais eu sou útil, os quais amo sem amar, para os quais tenho ciência para toda a espécie de crimes e maldades. Jesus, quase no cimo da montanha, fitou-me ao longe, penetraram em mim os Seus olhares, atraiu-me para Ele e numa dor indizível, infinita, murmurou baixinho: “vem cá, vem a mim, vou morrer por ti, vou dar-te o Céu”. Principiei a caminhar para Ele. Cheguei ao Seu encontro e com Ele fui crucificada. Durante as horas da agonia, eu era como o ladrão da esquerda. Estava com Jesus e sempre revoltosa contra Ele. Bradava com Ele ao Pai e com Ele entreguei o meu espírito. E, neste mesmo momento, fui eu a cravar-Lhe no coração a última lançada. Jesus triunfou da morte e fez-me triunfar com Ele. Caiu sobre mim um incêndio de amor. Vivi com a Sua vida e ouvi o que Ele me dizia : — “Desci do Céu, abrasado em amor, entrei no teu coração e em amor te abrasei. Entrei e senti-me no meu trono tal qual eu sou. Fui Rei, sendo Rei deste trono de delícias. O Céu existe, minha filha. O Deu está dentro de ti. O Céu é Deus ! O Céu é o amor e a vida de Deus. Existe o Céu e habita em ti o Céu. Nunca fui, nem jamais serei expulso do teu coração. É dele que Eu falo, é dele que Eu peço, é dele que Eu choro. Falo, falo e não sou ouvido. Peço, peço, não sou atendido. Choro, choro, choro e quase nenhumas almas se compadecem das minhas lágrimas. Falo, falo, quero ser reparado. Peço, peço, não quero ser ofendido. Quero emenda de vida. Choro, choro, choro sempre, choro continuamente. Vejo as almas a correrem para o abismo. Vejo-as em perigo eminente de caírem no inferno”. — São duros os meus braços, Jesus. Não servem nada para apoio da Vossa sacrossanta cabeça. Inclinai-Vos, inclinai-Vos, meu Amor, sobre o meu pobre e frio coração. Quero abraçar-Vos. Quero enxugar-Vos as lágrimas. Quero acariciar-Vos, meu Jesus. É frio o meu coração, mas Vós podeis aquecê-lo. É pobre, Jesus, é pobríssimo, mas Vós podeis enriquecê-lo. Não tenho nada, nada com que enxugar-Vos as lágrimas. Dai-me o Vosso amor, Jesus, aceitai-o de novo como se fosse meu. Só com ele poderei estancar as Vossas lágrimas, só com ele elas podem secar. Não choreis mais, não choreis mais, meu Jesus. As minhas mãos não se movem, mas sinto que o meu pobre coração Vos acaricia. Que posso eu fazer, meu Jesus ? Quero ver-Vos alegre, sem chorardes, nem sofrerdes. — “Minha filha, minha querida filha, recebi o teu apoio, as tuas carícias, o teu amor. Repara nos meus divinos olhos, já não têm lágrimas. Se muitas almas assim soubessem amar-Me ! Se muitas fossem heroínas como tu na reparação! Como é bela a alma sofredora! Como é forte a vítima deste Calvário ! Quero que o teu sorriso tenha o brilho do sol, os encantos das estrelas. Eu quero, sim, Eu quero que a minha vida em ti transpareça. Eu quero que o Meu amor por ti vá penetrar nos corações, como os raios do sol pela vidraça. Tu és vidro cristalino. Tu és espelho da humanidade. Tu és a fonte das graças e maravilhas do Senhor. Tu és o cofre das riquezas divinas. Eu quero, Eu quero que enriqueças as almas, abrases os corações. Eu permito que a ti atraiam as ovelhas, preço do meu sangue. Por ti elas vêm a Mim. Por ti saem do aprisco para pastarem no pasto mimoso do Meu Divino coração. Sofre, minha filha, sofre, minha pomba bela, florinha eucarística. Sofre, sofre, que a tua dor é preço de resgate. É com o valor do teu sofrimento que as almas são arrancadas a Satanás, ao inferno. Vem a Mim para o Paraíso. Recebe a gota do Meu Divino Sangue. Estão unidos, bem unidos, os nossos corações. São dois num só. É Jesus a viver no teu coração. É Jesus a falar no teu coração. É Jesus a amar. É Jesus em ti, contigo a salvar o mundo. Já corre a gotinha do sangue nas tuas veias. Tens em ti nova vida, novas forças, novo heroísmo. Sê forte, minha filha, sê forte! Fala ao mundo, fala com a voz de Jesus. Penitência, penitência, faça-se penitência. Vida nova, vida nova, vida pura. Penitência, penitência, reparação. Ó almas puras, ó corações amantes, aplacai depressa, aplacai sem cessar a justiça do Senhor. Fica na cruz, minha filha. Sorri à dor. Vive alegre na dor. Coragem, coragem ! Jesus é contigo. Coragem, coragem ! Eu não demoro a vir buscar-te para o Céu !” — Obrigada, Jesus, obrigada, meu Amor. 31 de Outubro – Sexta-feiraNão posso ditar. O meu corpo está como um trapo desfeito; está desfeito e destruído pela dor. O pior ainda é que nem para ele nem para a alma há um olhar de compaixão. Parece que todos me odeiam, escarnecem, desprezam, deixando-me entregue a um completo abandono. Louvado seja o Senhor ! Ah ! Se a dor fosse compreendida, sem nenhum custo, como ela podia ser suavizada! Curvo-me à vontade santíssima do Senhor, louvo-O e bendigo-O por tudo. Vou passando o meu desterro à mercê das ondas; estas, numa fúria inaudita, levam-me à profundidade do mar. Aí fico perdida, sem socorro da terra nem do Céu. Meu Deus, meu deus, todo o meu ser, o corpo e a alma, estão apunhalados, alanceados, cobertos de espinhos ! é inútil o meu brado. A minha confiança em Deus parece estar perdida, o que espero na Sua infinita misericórdia não seja assim. Odeio o Senhor com a Sua Lei, se é que Ele existe. Odeio o Seu amor, não quero aceitá-lo e ao mesmo tempo anseio amá-Lo e perder-me n’Ele. O pecado, amo-o, abraço-o, sou a autora dele. De mim nasceram e nascem toda a variedade de crimes e de vícios. Senhor meu, que pavor! Que mundo infinito de maldades! E que dor infinita eu sinto no coração, ao contemplá-las! Esta visão é de Jesus, não é minha. Eu parece que não tenho coração. É o d’Ele que está em mim a sofrer. A inutilidade, meu Deus, a inutilidade roubou-me e continua a roubar-me tudo. Não posso chegar a ver nem a possuir nada. Ontem, sobre o solo do Horto, levantou-se uma torre de ódio, de inveja, de orgulho e todas as espécies de pecados. Era imensa esta torre e eu reinava nela. E, não só satisfeita com o domínio do mundo, tentava o domínio de Deus. Queria ser mais que Ele. Oferecei-me por tudo ao Eterno Pai e logo desci à terra, abracei-a num excesso de amor. Preguei, evangelizei. Naquele mesmo lugar, o Eterno Pai descia como numa nuvem. Esta desfazia-se sobre mim. Era nuvem de justiça esmagadora. Os olhares e semblante do Pai Eterno eram pavorosos ! Fizeram-me suar sangue. Não deixei de me oferecer a Ele novamente. Amava tanto ! Oh ! Como Jesus amava ! Nas longas horas de atrozes sofrimentos, unida ao amantíssimo Jesus, ofereci-Lhos todos. Ele parecia não os aceitar. Nesta manhã a cena seguiu. Jesus nada aceitava de mim. E eu fugi d’Ele, fugi sempre. O coração e a alma sofriam unidos, uma dor que lábios nem língua humana são capazes de exprimir. A inutilidade comigo, sempre comigo. No alto do Calvário, Jesus estava na cruz. Fui lá dar sem saber como. Fiquei presa à cruz de Jesus, bem contra a minha vontade; queria fugir-Lhe a todo o custo, ainda que para isso Lhe causasse os maiores e mais angustiosos sofrimentos. Ó anjos do Céu, dizei vós por mim a dor que causei a Jesus, quando assim procedi. Ela era tão grande, tão grande que enchia mundos e céus. As Suas lágrimas caíam nas minhas faces. Os suspiros saíam do meu peito como vindo do Seu divino Coração, indizivelmente, infinitamente ferido. Toda a terra parecia estar banhada no sangue do Divino Redentor. O abandono e ao mesmo tempo o peso da justiça divina apavoram-me. Neste momento, entreguei com Jesus o meu espírito. Passaram-se uns bons minutos nesta morte total. Jesus veio ressuscitado, ressuscitou-me também. — “Apressai-vos, apressai-vos a consolar o Coração Divino de Jesus e o Coração Imaculado da Sua Bendita Mãe. Apressai-vos, apressai-vos a reparar a justiça de Deus ultrajada. Escutai, escutai, fala-vos Jesus, fala-vos o Senhor. Amai-Me, amai-Me, fazei com que Eu seja amado. Quem ama dá-se, quem se dá aceita tudo. Eu quero receber, Eu quero receber, Eu quero dar, Eu quero dar, Eu quero dar-Me. Quero dar, dar muito, dar sempre às almas reparadoras. Quero dar-Me, dar-Me inteiramente à almas que Me quiserem possuir. Escutai, fala-vos Jesus, no coração e pelos lábios da vítima deste Calvário. É sublime, sublime, mas árdua a sua missão. Ajudai-a, amparai-a, mãos à obra. Minha filha, minha querida filha, farol luminoso, sol que brilha e penetra, tem coragem, tem coragem. A tua reparação sustenta o braço do Meu Eterno Pai. A tua dor faz almas reparadoras. Eu quero, sim, Eu quero almas vítimas, almas imoladas, dia e noite, almas heróicas, que provem, com o seu heroísmo, que querem a Jesus, que O amam e Lhe querem dar as almas. Coragem, coragem, minha filha, filha predilecta do Senhor, pomba branca, florinha eucarística. A hora é grave, a hora é grave. Ou há reparação, reparação constante, ou cai sobre a terra, e cai sem remédio, a foice, a justiça vingadora do Eterno Pai. — Ó Jesus, ó Jesus, o meu peito rasga-se. A minha alma vê, como que a rasgarem-se, as nuvens do firmamento. Não posso, meu Deus, não posso, Senhor. O meu peito rasga-se, a justiça esmaga-me. Que pavor, que pavor, meu Jesus, toda a terra se envolve na Vossa justiça ou na justiça do Vosso Pai. Perdoai, Jesus, perdoai, Eterno Pai. Pelos méritos da Paixão e Morte de Jesus Cristo. Perdão, Jesus, perdão, Pai Eterno, perdão e misericórdia para o mundo. Ó meu Deus, ó meu Deus, eu sou a Vossa vítima. Quero ser esmagada, sim, meu Jesus, mas quero que ao mundo seja poupada a ira do Senhor. Eu quero ser esmagada, sempre imolada, sempre imolada, mas nunca, Jesus, o Vosso Divino Coração ferido, nem O de Vossa Bendita Mãe. — “Minha filha, minha filha, minha querida filha, alegria no Céu, escora da justiça divina, se os sábios da Santa Igreja estudassem e compreendessem bem a missão que o Senhor te escolheu, a reparação que em todo o sentido da palavra que por ti é dada ao Altíssimo, não contradiziam, não se opunham à minha vontade divina. Tudo o que em ti se passa, todas as maravilhas divinas, que em ti opero, são uma lição para o mundo, é uma lição para os que mais sabem, para os que mais lêem, para os que mais compreendem. É um complexo da vida de Cristo, da vida reparadora de Cristo, da vida redentora de Cristo. Haja reparação, faça-se penitência, muita penitência. Vida nova, vida nova, mundo novo. Vem, minha filha, receber a gota do Meu Divino Sangue. Uni ao tubo doirado os nossos corações. Passou a gotinha do sangue, passou a vida de que tu vives, minha filha”. — Ó Jesus, o meu coração parece um sopro, está mais leve que a pena. Não tem asas e parece que voa. Voa convosco, voa com a Vossa vida, voa com o Vosso amor. A gotinha do Vosso sangue retirou de mim todo o peso esmagador. Estou mais forte, Jesus, muito obrigada. Lembro-Vos, meu Amor, todos, todos os que me são queridos, todos, todos os que se me recomendam ou querem recomendar às minhas pobres orações. Lembro-Vos, meu Jesus, a humanidade inteira. Perdoai-lhe, Jesus, perdoai, compadecei-Vos dela. Compadecei-Vos de mim e perdoai-me os meus muitos pecados. — “Fica na cruz, minha filha, fica nesta cruz dolorosa, é cruz de triunfo, é cruz de milhões, milhões, milhões de almas que se salvam. Coragem, coragem”. — Obrigada, meu Jesus. Obrigada, meu Senhor. 1 de Novembro – Primeiro SábadoEsperei a vinda do meu Jesus numa ansiedade e ao mesmo tempo numa indiferença indizível. Queria unir-me a Ele pela Eucaristia, numa união inseparável, mas não sei o que me tinha alheia e me tornava inútil a tudo. Queria voar ao encontro do meu Amado, queria preparar-me para O receber dignamente. A inutilidade cortava-me todos os voos, absorvia em si todas as ânsias, deixando-me abismada no abismo do meu nada. Jesus chegou, entrou no meu coração, iluminou-me toda a casa, encheu-me d’Ele e falou-me assim [1] : — “Minha filha, vem comigo, transporta-te ao Paraíso, repara nesta massa compacta de santos e santas que, neste dia, mais do que em nenhum outro, jubilosos, num hino deslumbrante, bendizem o Senhor seu Deus, louvam toda a Santíssima Trindade e a sua Celeste Rainha”. — Ó Jesus, ó Jesus, aqui queria ficar também, nesta paz, neste mergulhar de amor, neste fogo que inebria. Como eles, eu queria amar-Vos, como eles eu queria entoar hinos de louvor, hinos de reparação, hinos de agradecimento. O que é o Céu, Jesus, o que é o Céu ! Ah ! Se todos soubessem o que é gozar o Paraíso ! Que amor, que amor, que paz, que celeste paz ! Toques, cânticos, hinos maviosos. O que é o Céu, Jesus ! Amor, só amor. Sois Vós, só Vós com o Vosso Pai e o Espírito Santo, espírito de amor. — “Minha filha, minha querida filha, tudo está reservado para ti, espera-te para breve. Confia, confia. Sê sempre fiel e heroína como até aqui. Dá tudo ao teu Jesus. Repara, repara sempre, nada Lhe negues. Diz ao teu Paizinho que os eleitos do Senhor o esperam. Ele será contado entre eles ; como os Meus santos, ele será honrado na terra; como eles, subirá às honras dos altares. Reparo-o para isso pelo sofrimento. Escolhi-o para luz e guia das almas, missão difícil e espinhosa, missão que exige a maior perfeição e sabedoria; missão que exige a ciência das coisas divinas. Diz-lhe que o Senhor é fidelíssimo, não falta ao que promete. Diz-lhe que as nuvens se dissiparam, o sol apareceu, brilhou. Dá-lhe todo o meu amor, todo o amor da Trindade Divina e da minha Bendita Mãe. Dá-lhe paz, paz, toda a minha paz. Diz, diz ao teu médico que o tenho no meu Divino Coração, como jóia do mais elevado valor. Diz-lhe que o amo tanto, tanto, que as cadeias do meu amor o prendem, dia a dia, mais e mais ao meu. Diz-lhe que o cadinho da dor é para purificar a sua alma; que é o cadinho que purifica o ouro das suas virtudes. Diz-lhe que tudo quanto faço nele e no seu formoso jardim são provas de amor e de predilecção, são cuidados inauditos do jardineiro divino. Eu não quero, Eu não quero, atenção, que nenhuma das suas florinhas se perca, que nenhuma se manche. Eu velo, Eu velo, mas quero sempre a fidelidade à minha divina graça. Dá-lhe todo o meu amor divino. Diz-lhe que com ele se fortaleça, para com ele, como sempre, cuidar e defender a minha divina causa. Vem, Mãe Bendita, vem consolar a Nossa filhinha”. — Ó Mãezinha, ó Mãezinha do Carmo, muito obrigada por me dares a beijar o Jesus pequenino que trazeis nos Vossos braços. Ele, tão pequenino, beija-me e acaricia-me. Como são ternas as Suas carícias, como é doce o Seu sorriso. Quer vir para mim e eu quero ir para Ele; é Jesus, é a Mãezinha, os três num só. — “Minha filha, minha querida filha, depois deste celeste conforto, venho pedir-te que neste mês ofereças tudo, sofras tudo e faças que muitas almas te imitem. Tudo pelos pecadores, para que não caiam no inferno. Mas mais, muito mais, pelos sacerdotes que tanto ofendem ao Senhor, que tanto ferem o Coração do Meu Jesus e o Meu, e em sufrágio das benditas almas do purgatório, para que elas subam em cada momento para o Paraíso, aos bandos, aos bandos, como as andorinhas. Minha filha, minha querida filha, vai em paz, leva a paz de Jesus e de Maria, leva o amor dos Nossos Divinos Corações. Via, vai, minha filha, e não esqueças a recomendação da tua e Minha Mãe celeste. Acode, acode aos pecadores. Aliviai, aliviai as almas do purgatório. Leva tudo para os que amas e são teus, leva tudo para quem quiseres, tudo o que é Nosso, tudo o que é do Céu”. — Ó Jesus, ó Mãezinha, muito obrigada. Vede o que agora está no meu coração, o que eu quero e que Vos peço. Confio em Vós, confio em Vós. — “Confia, confia, pede e confia. Jesus e Maria velam os teus interesses, velam por quem Lhes pertence”. — Obrigada, Jesus, obrigada, Mãezinha. 5 de Novembro – Sexta-feiraSou a criatura mais pobre e miserável. Sinto que o Senhor não pode ter um olhar de misericórdia para mim, podridão de todo o meu ser, causada por todos e vícios e crimes. Enoja o Céu, Jesus não pode olhar-me, o Eterno Pai não pode perdoar-me. Toda a humanidade é por mim contaminada. Morrem na podridão todos os que seguem os meus caminhos e pisam as minhas pisadas. A humanidade segue-me, perde-se comigo, as almas fogem do Senhor. Quero firmar-me e não posso, a terra foge-me de debaixo dos pés como areia arrastada pelas ondas para o fundo do mar. Estou perdida, meu Deus, estou perdida, e comigo se perdeu o mundo inteiro. Que contas posso eu dar ao meu Senhor? Que pavor na minha alma! Ela fita os olhos no Céu e vê-o com as nuvens mais negras e carregadas. Sente que a terra inteira é um mar das mais agitadas ondas. Ando enredada nelas, como folhas que o vento dissipou e já na lágrima apodreceu. Tudo isto se acentuou no meu nada. Tudo isto aparece naquilo que eu não sou, porque, porque não existo. Só a dor, aquela dor, que é tão grande como Deus, é infinita, feriu e fere dia a noite; a cada momento, o Coração Divino de Jesus se colocou no meu coração, metendo-o todo em si, para eu sentir como Jesus sente, agonizar como Ele agoniza. Ó Céu, ó Céu, vem em meu auxílio. Sem a Vossa graça, Jesus e Mãezinha, eu não poderei sofrer tanto, não resisto a toda esta dor infinita. Eu queria, eu tenho necessidade que até as pedras falem, que todas as coisas, que pregam o seu autor, declarem como Deus é grande, como Ele ama, e o que é uma ofensa contra a majestade divina. Sou ignorante, por mim não sei dizê-lo, sou inútil, não posso por mim reparar. Meu Deus, o que eu sofro ! O meu coração e a minha alma estão em sangue, é um cedeiro de espinhos a trespassá-los, é um mundo de punhais a cravá-los. Quero luz, quero um apelo, quero um guia, não tenho, estou do Céu e da terra de todo abandonada. Quero firmar-me e não posso; todas as escoras, a que me amarro, me falham. Desfaleci, caí, caí, morri. Que morte tão cruel. Tudo é pavor para mim. A lembrança das quintas-feiras, porque me trazem as sextas, a aproximação do Horto, é tormento indizível. O de ontem aproximava-se, e eu indiferente tentei sempre fugir. Fora, de mim, fora da minha vida, não sei como fiquei a agonizar prostrada naquele solo duro. Agonizei e suei sangue, porque as cordas se me ataram ao pescoço, para por elas ser arrastada, e a cruz me sobrecarregou sobre os ombros, para com ela toda a humanidade me esmagar. De tudo fugi e para tudo fui inútil. Nesta manhã, fugi para o Calvário ; levava-me a força divina, a força humana não resistia. As quedas eram frequentes. Por cima de mim, a minha alma viu Jesus de braços abertos, pregado na cruz. A Sua graça O levava sem esta tocar na terra. Era cruz de triunfo que brilhava mais que o sol. E eu, vermezinho da terra, levava a minha com o coração a sangrar, a cabeça coroada de espinhos, sob o peso duma montanha mundial, feita em rocha mais endurecida. Caminhava sem ser eu ; levava a cruz com todo o seu peso, com forças alheias, que eram as de Jesus. Dizer o que eu sou e o que é Jesus, dizer o que foi esta viagem e o que era a minha miséria e a grandeza do Senhor, é impossível. Falai, Anjos, falai por mim. Cheguei ao Calvário e então uni-me a Jesus, parecendo que se abraçou o Céu com a terra. Os meus olhos moviam-se com Os de Jesus. O meu coração palpitava e bradava com Jesus. Fez-se noite. Toda a terra tremeu e eu expirei com Jesus. De novo, voltei à vida. Foi Ele quem ma deu e falou-me assim : — “Todo o palácio de Jesus é luz. Todo o teu coração, minha filha, é amor, só amor. Sentei-Me no Meu trono, depois de iluminar toda a minha habitação com a luz divina. Estou aqui como um rei. Em ti reino, em ti triunfo. Estou no teu coração para amar e por ti ser amado. Estou no teu coração para por ti ser dado às almas. Estou no teu coração, para que vivas a minha vida e a faças viver em muitas e muitas almas. Tenho sede, minha filha, muita sede. Quero beber nos corações e neles quero habitar. Minha filha, minha filha, a dor é cadeia de amor. A dor, a dor, atrai o Meu Divino Coração, leva-O à compaixão pelos pobres pecadores. Sou Senhor, sou Pai, quero perdoar. Ó minha filha, minha filha, os meus súbditos não querem que Eu reine sobre eles. Os meus filhos não aceitam o meu perdão. Ando à busca de alojamento. Quero alojar-me, quero descansar nos corações. Há tão poucos, tão poucos onde Eu possa entrar e descansar !... Há tão poucos, tão poucos, quase nenhum onde Eu encontro as minhas verdadeiras delícias !... Sofre, sofre, minha filha, sofre, florinha eucarística. Sofre, vítima deste Calvário, semelhante à vítima do Calvário de há vinte séculos”. — Ó Jesus, ó Jesus, ensinai-me a sofrer. Ensinai-me a reparar. Fazei que eu me entregue a Vós, como Vós Vos entregastes ao Eterno Pai. Ó Jesus, ó Jesus, não sei onde está o meu amor. Ofendo-Vos tanto, tanto! Estou sempre a cair. Nada valem os meus propósitos. — “Minha filha, minha filha, sou sol, graça e amor. És sal para o mundo, porque em ti está o Sol divino. És luz para as almas, porque em ti está a luz do Senhor. És graça, porque possuis a graça e com ela dás a graça a muitos, muitos pecadores. És amor, porque amas com o amor de Jesus. És amor, e por ti muitos corações Me amam. Sofre, sofre; é pouco este amor. É muito nos corações, é pouco para Deus. Sofre, sofre. Criei-te para a dor, criei-te para o Calvário. Criei-te para seres a cópia fiel de Cristo crucificado. Tem coragem, minha filha, Eu permito as tuas faltas. Depois delas, levantas-te mais fortemente para Mim. São elas umas sombrazinhas que encobrem os tesouros divinos em ti encerrados. O amor de Jesus queima-te, abrasa-te, consome-te. Eu quero que sejas, minha filha, o cadinho de purificação. O mundo, o mundo, as almas, hão-de purificar-se neste caminho de sofrimento, o qual fogo é amor, amor, só amor de Jesus. Vem, minha filha, receber a gota do meu divino Sangue. Uniram-se os corações das duas vítimas, Jesus e o da Sua esposa amada. Passou o sangue que dá a vida, a vida de que tu vives, a vida que Jesus te faz viver. Passou o sangue que é o teu alimento e a força da tua cruz. O mundo, o mundo, não conhece. Ah ! Se conhecesse ! Não conhece o meio de salvação. O mundo, o mundo, não se aproveita das graças do seu Senhor. Fica na cruz, minha filha, minha esposa amada, crucificada, bem unida a ela pelos laços do amor. Brada, brada sempre à pobre e infeliz humanidade: Jesus chama-te, Jesus pede-te, não peques mais, vem ao Seu divino Coração. Vai em paz, minha filha, vai em paz. Brada, brada, pede sempre oração, penitência e emenda de vida”. — Ó Jesus, eu vou, ou melhor, eu fico, fico convosco, mesmo sem Vos sentir, mas, enquanto que Vos sinto, enquanto que sinto o Vosso amor, em nome dele Vos peço, lembrai-Vos dos que me são queridos, lembrai-Vos das minhas muitas e grandes intenções. Lembrai-Vos e compadecei-Vos do mundo inteiro. Obrigada, meu Jesus, obrigada, meu Amor. 14 de Novembro – Sexta-feiraMeu Deus, que martírio tão grande eu sinto no corpo e na alma ! E eu ter que queixar-me, ter que dizer que sofro muito, que não posso, aumenta-mo mais, muito mais ainda. Só Vós sabeis, Jesus, quanto me custa manifestar aquilo que de todo queria esconder. Tenho que obedecer e, nesta obediência, tenho que dizer a verdade. Sofro, sofro tanto, são triturantes as agonias da minha alma, e um martírio contínuo o sofrimento do meu corpo. É só por Jesus e pelas almas que eu aceito esta imolação. Vejo tudo perdido, sinto como se de nada me aproveitasse o meu sofrimento; mas não me importo, o que eu quero é agradar e consolar o meu Senhor. Ele é que é a minha força, Ele é que vive a minha vida de indizível sofrimento. No domingo passado, na noite de nove para dez, quando eu no meio das minhas dores procurava estar unida a Jesus na Eucaristia, dar-Lhe o incenso e a mirra do meu martírio, ser a mesma Hóstia com Ele, inesperadamente travou-se em mim uma luta tremenda e desesperadora. Eu ofendia o meu Jesus com a maior malícia e gravidade. Era uma maldade que preenchia o mundo. Mas esta era toda minha. Fiquei no inferno. Ó meu Deus, que pavor ! Vi e compreendi o que nunca tinha visto, nem compreendido. Os demónios eram tantos, tantos, não tinham conta. Estavam armados de instrumentos que feriam e atormentavam. As labaredas do negro fogo eram ateadoras. As almas, meu Deus, as almas eram como moinha, eram como um formigueiro amontoadas. Vi o que nunca tinha visto, vi e compreendi o que nunca tinha compreendido. Isto é, vi um Papa e a sua cadeira, vi muitos Bispos, com as suas vestes e o báculo nas mãos, vi sacerdotes em grande número e almas sem conta de toda a classe e condição. Compreendi claramente as razões por que tinham sido condenadas. Meu Deus, meu Deus ! Não chamei por Jesus nem pela Mãezinha, não sei por quê. Fiquei perdida naquele pavor. A visão desapareceu, porém aqueles sentimentos não havia forma de me deixar sossegar. A pouco e pouco lá me fui unindo novamente a Jesus e pude, embora por pouco tempo, adormecer. Tudo isto está tão gravado em mim, parece que jamais se poderá apagar. Na quarta-feira já me apavorava a aproximação da quinta e da sexta-feira. Era tal a minha miséria que eu sentia a necessidade de esconder-me dos olhares do Senhor e fugir aos colóquios com Jesus. Ontem, passei o dia na minha inutilidade, sem querer, recordando o Horto, mas fugindo-lhe sempre. Era já de noite, e eu senti como que se a minha cabeça estivesse coroada dos mais penetrantes espinhos, e o sangue a correr-me dela com toda a abundância. Foi então que as veias se me rasgaram, e eu banhei a terra com sangue. Eu envolvia-me em toda a terra mundial, nela me rolava em ondas pavorosas de crimes. É terrível o abandono do Céu, quando da terra já me parece não ter ninguém por mim. Hoje, num mar infinito de dor, caminhou para o Calvário o meu coração. Alguém o levou. Era o amor ligado ao Amor Supremo. Eu por mim fugi-lhe, fugi-lhe sempre na minha inutilidade, grande como o mundo. Quando Jesus já estava no Calvário, a despirem-nO para o crucificarem, Ele atraiu-me, chamou por mim que estava ao longe, o mais ao longe que se pode imaginar : “Vem cá, minha filha, vem assemelhar-te a Mim, vem comigo ser crucificada”. Juntei-me a Jesus, e, ao mesmo tempo que estava crucificada com Ele, foi uma contínua revolta. A minha maldade era mundial. Dei-Lhe todos os maus-tratos. Fazia-O bradar e bradava com Ele. Senti como se fosse eu que pus toda a humanidade de lança em punho para O alcançar e atravessar o Coração. Dei-Lhe a morte e morri com Ele. Após algum tempo, a esta cena dolorosa, Ele veio, entrou no meu coração, fê-lo viver com Ele e falou-me assim : — “Minha filha, minha filha, estou aqui, escuta-Me, atende-Me. Estou no teu coração, porque é aqui a minha morada. Escuta-Me, atende-Me, sou o mendigo de sempre. O meu Divino coração ama, ama infinitamente. Amo infinitamente e infinitamente sofro. Atende-Me, atende-Me, dá a esmola ao Mendigo. É o Mendigo dos mendigos, é o Senhor do Céu e da terra, é o Mendigo divino. Deixa-Me, deixa-Me dizer mais ; sou o Pai de toda a humanidade. Oh ! Como é terna a palavra de Pai. Sou todo, sou todo amor para os corações. Sou Pai que ama, como nenhum outro pai. E o meu divino amor é calcado aos pés, é desprezado, é odiado, é perseguido. Dá-Me a tua dor, minha filha, dá-Me a tua dor. É o Pai que pede a esmola à Sua filhinha. É o esposo a manifestar-se claramente à Sua esposa amada. Eu quero, minha filha, Eu quero a tua dor, porque o mundo a quer e de Mim a exige. É urgente, é mais que urgente, aplacar a justiça irada do Meu Eterno Pai. Minha filha, minha filha, Jesus fala no teu coração, reina neste trono de delícias, Jesus pede neste coração que sangra dia e noite. Sangra, sim, sangra, minha filha, o teu coração, para que não sangre o Meu. Não posso sofrer sozinho, sofro em ti misticamente”. — Ó meu Jesus, ó meu Jesus, eu sei, oh, bem sei, meu Amor, que sois Vós, só Vós, a sofrer, que ainda sois Vós hoje como outrora no Calvário a serdes crucificado. Eu sei, meu Senhor, que por mim nada mais podia sofrer e nada teria sofrido. Eu sei, meu Sumo bem, que sou capaz de Vos negar tudo, se não estivesse sempre o Vosso sim no meu coração e nos meus lábios. Meu Jesus, meu Jesus, olhai para a minha miséria e compadecei-Vos dela. Olhai para a minha fraqueza e fortalecei-me com a Vossa força. Vede a minha inutilidade. Fazei úteis todos, todos os meus sofrimentos. São pelo Vosso amor, são para a salvação das almas. — “Minha filha, ó florinha eucarística, florinha do Rei dos sacrários, do Rei da terra, do Rei da glória. Eu vejo, Eu vejo tudo em ti. Só mergulhada assim no teu nada e nesse abismo de miséria, tu podias ser depositária dos tesouros infinitos do Senhor. Tu és a cópia fiel de Cristo Senhor. Tu reparas por todos, todos os pecados do mundo. Ó minha filha, minha filha, escora mundial. Tu reparas, tu desagravas pelo mundo inteiro. Ai dele, ai dele !... Ai dele, pobre dele, se não fora a escora deste calvário. Tem coragem, tem coragem ! Tu és luz nas tuas trevas, tu és amor na tua frieza. És útil na tua inutilidade. És vida na tua morte. Eu peço, Eu peço. Ah! Se os homens compreendessem o que Eu peço! Eu peço e tudo podia fazer. Eu peço e só Eu podia manifestar o meu poder. Eu peço para não humilhar. Eu peço para chamar. Vem, minha filha, vem receber a gota do meu Divino Sangue. São tantos, tantos os Anjos a contemplar esta maravilha do Senhor! Uniram-se os nossos corações pelo amor, pela dor, pela vida. Passou a gotinha do sangue divino. Passou o teu alimento. Passou a vida da graça. Passou a força, o poder para a dor. Fica na cruz, minha pomba bela. Nela, sempre nela. Brada ao mundo : oração, penitência, emenda de vida. Nela, sempre nela, conquista para Mim as almas. Atrai-as ao meu Divino Coração. Diz ao mundo que o Senhor quer almas vítimas, o Senhor quer almas justas. Vai em paz, minha filha. Vai em paz. Coragem, coragem !” — Obrigada, meu Jesus. Sede no meu coração. Atendei a tudo o que nele está escrito. Obrigada, meu Amor. 21 de Novembro – Sexta-feiraNão posso, hoje, não posso ditar. Digo só umas palavrinhas com as quais provo a minha obediência. O meu corpo é um mundo de dor. De toda a parte me vêm espinhos a avivar todo o meu ser ferido, todo o meu ser em sangue. Não posso dizer que sou eu que sofro. Se o dissesse, mentia e eu não quero mentir. Odeio a mentira. É Jesus que sofre em mim, porque, se fosse eu a sofrer, tinha desesperado, Jesus, sem conta. Nem ao menos sei oferecer a Jesus este mundo de sofrimento que me leva à dor infinita. Até nisto há a inutilidade. Jesus, eu Vos ofereço o incenso dos meus louvores pela cruz que me dais, e a mirra de toda a mortificação. Aceitai tudo unido aos Vossos méritos e apresentai ao Eterno Pai. Sou a Sua e Vossa vítima. A inutilidade mete-se em tudo. Surge-me de todos os caminhos. Foi inútil todo o meu dia de ontem. Foi-me indiferente o pensamento do Horto. Era já de noite; transportada lá sem saber como nem por quem, senti todo o meu corpo despedaçado, fui açoitada e coroada de espinhos cruelmente. Os algozes empurravam-me e arrastavam-me, quando sobre os ombros eu levava a cruz. As chagas abriam-se mais; o sangue regava toda a terra. Apoderou-se de mim o pavor. Senti o abandono do Eterno Pai, apesar de virem do alto uns raios que pendiam d’Ele e em mim se comunicavam e infundiam. Era a Sua vida divina. Nestes sentimentos de dor e pavor e ao mesmo tempo de inutilidade, eu segui para o Calvário e fiquei crucificada na cruz. Não sei quem fazia que os cravos andassem dentro e fora, avivando-me assim as chagas, que eram as chagas de Jesus. Parecia-me que era eu com os meus pecados que fazia tudo isto. Revoltava-me e crucificava-me a mim mesma. Feria-me tanto o brado agonioso de Jesus! Derretia-me o coração em dor! Ele entregou-se, expirou o eu com Ele. Fiz a minha oferta, entreguei o meu espírito. Jesus foi pronto a fazer-me viver. Novamente fez luz no meu coração, inundou-me na Sua doce paz e disse-me : — “Ouvi, escutai ! Jesus vai falar, vai dizer quanto sofre o Seu Divino Coração. Ouvi e atendei, Jesus vai pedir a Sua esmola de sempre. O mundo, o mundo, minha filha, fere, calca aos pés o meu Coração divino, o meu Coração de Pai. São tantas as lançadas, são tantos os pés cruéis que Me esmagam. As almas, as almas, os pecadores !... Que estragos causam no mundo ! Como eles provocam a ira de meu Pai ! Como eles desafiam a Sua justiça ! Vem, vem, minha filha, florinha eucarística, luz e farol do mundo, vem consolar o meu Divino Coração, vem com o bálsamo das tuas virtudes, dos teus sofrimentos, curar as chagas do meu Coração que tanto sangra. Vem, minha filha, e faz que venham a Mim muitas almas, muitos corações. Tenho sede, sede devoradora. Tenho ânsias, ânsias de dar-Me, dar-Me inteiramente”. — Ó Jesus, ó Jesus, não descanseis; dai-Vos, dai-Vos todo a mim. Dai-Vos todo às almas que Vos buscam, que Vos querem, que por Vós suspiram. Não olheis para mim, para a minha miséria. Eu não sou digna de nada Vos pedir, de nada Vos receber. Mas tenho ânsias, também tenho muitas ânsias. Queria-Vos ver reinar em todos os corações. Não queria, não, meu Jesus, que houvesse um só que Vos desprezasse, que Vos ofendesse. Se eu pudesse, ó Jesus, correr o mundo e soubesse falar de Vós ! Como eu gostava de falar às almas do Vosso amor ! Como eu gostava que todos compreendessem o que é uma ofensa feita ao Vosso Divino Coração ! Pobre de mim, Jesus! Sou ignorante, sou inútil. Nada sei dizer, nada posso fazer ! — “Minha filha, minha filha, íman atraente. Tu não corres o mundo, mas corre a tua vida o mundo. Tu pregas com o teu sofrimento, com o teu exemplo. És a missionária querida do Altíssimo. É no teu leito de dor que és missionária como tanto ansiavas. Coragem, minha filha, coragem ! Coragem, crucificada mais imitadora de Jesus, do Cristo do Gólgota. A tua vida, a tua vida o exemplo de Jesus Cristo ! Assemelhei-te em tudo a Mim. Fala, fala às almas que vêm junto de ti. Foi a missão nobre, nobilíssima a que te escolhi! Nenhuma delas volta como vem para aqui, mesmo as mais criminosas e endurecidas. É por ti que Eu me estou a dar. É por ti que Eu me comunico aos corações. Vem, minha filha, vem receber a gota do meu Divino Sangue, vida e alimento divinos. Vives a vida de Jesus. Vives com o sangue e a carne de Jesus. Oh ! Maravilha ! Oh ! Maravilha extasiante ! Os Anjos estão em torno. Desceram do Céu, desceram aos bandos. Rodeiam o teu coração, como rodeiam o sacrário. Como são belos os corações e as almas nas quais habita o Senhor! Minha filha, minha filha, estou no teu coração, delicio-me nele e nele esqueço os crimes da humanidade. O teu sofrimento salva milhões, milhões, milhões de pecadores. O teu sofrimento é escora firme, escora do meu Eterno Pai. Avisa, avisa o mundo. Se ele não arrepia caminho, as escoras do Senhor deixam de ser escoras, e o braço vingador cai, cai com toda a Sua justiça, cai sem remédio; pede, minha filha, pede-Me sempre perdão para os pecadores. Eu não Me importa a tua inutilidade, quero que tu os ofereças. Oferece-Ma também. Tudo é útil, tudo é poderoso, tudo é salvação com teu Senhor”. — Ó meu Jesus, meu Jesus, é neste momento, e quero que seja a todos os momentos do dia e da noite, que eu Vos peço pelas minhas grandes intenções, por todos quantos me são queridos e me pertencem, por todos quantos querem as minas pobres orações, e pela humanidade inteira, meu Jesus. Perdão e misericórdia, perdão e misericórdia, perdão e misericórdia para mim, Jesus, e para todos os filhos Vossos. — “Vai em paz, minha filha! Muita coragem e confiança ! O Senhor está contigo, em ti habita. Fica na cruz e nela crucificada pede oração, penitência, emenda de vida”. — Obrigada, Jesus, obrigada. Custa-me tanto separar-me de Vós! Valei-me sempre! Sede a minha força. 28 de Novembro – Sexta-feiraContinuo a não poder ditar o muito que me vai na alma, que se resume ao nada, por ser grande a minha ignorância. Jesus não larga a prensa da dor, espreme, aperta dia e noite, aperta sempre e só com Ele assim se pode sofrer. Quanto mais intensa é a dor, mais íntima é a minha união com Ele. O incenso de louvor, a mirra da mortificação é contínua a subir ao Céu. A inutilidade apresenta-se logo, ou melhor, presente sempre, rouba-me tudo, nem ao menos me deixa ver um rastilhozinho, como fumo que desaparece. De mãos vazias, sem nada, nada para o meu Senhor, num completo abandono da terra e do Céu. Eu chego, ó meu Deus, a dizer quantas vezes a mim mesma, inesperadamente, mas sem eu querer. Mas eu vivo. O mundo existe e existe o Céu. Estremeço com estes sentimentos de abandono e com estas perguntas que não sei de onde vêm. Sim, Jesus, eu vivo pela Vossa graça. Existe o mundo e eu não sou por todas as criaturas abandonada. Existe o Céu, porque Vós existis e Vós não abandonais nenhum dos filhos Vossos. Creio, creio, creio e confio. Jesus, sou a Vossa vítima. A última proibição, que houve no meu caso, já não há. Depressa acabou. Se fosse assim a primeira que tive, que foi a proibição do meu pai espiritual, já há quase dez anos. Louvado seja o Senhor. Foi no Domingo que eu soube que a última proibição estava novamente na mesma, que tudo poderia seguir como antes, e eu que não mais pensasse nisso. Foi um peso que saiu de mim, que tanto me oprimia. Ah ! Se todos assim compreendessem e zelassem o bom nome do seu semelhante !... Eu não sabia, nem sei, como agradecer ao Senhor. Pedi à Mãezinha que suprisse a minha falta, agradecendo-lhe por mim. Esta boa nova foi como que uma injecção a fortificar-me a alma. Como mais nada sabia dizer, repetia o meu eterno obrigada a Jesus e sempre a minha oferta de vítima. Depressa o conforto desapareceu e eu voltei para a mesma noite, para a mesma vida duvidosa, para o jugo do meu Calvário. Ontem, desejava que as quintas-feiras desaparecessem, apavorada pelos sofrimentos do Horto. Fugi-lhe, fugi-lhe sempre, como louca perdida. Já de noite, muito de noite, eu fiquei naquele solo duro, espavorida, sem ter ninguém que pudesse valer-me. Por todos os lados, ou melhor, por caminhos sem conta, surgiam feras nos rebanhos a atirarem-se a mim. Nem do Céu me vinha a defesa, nem de lá o conforto. As veias rasgaram-se-me, e o sangue banhou a terra. Durante a noite, acompanhei a Jesus o melhor que pude. Nesta manhã, não segui para o Calvário com Jesus, deixei-O sozinho. Eu fiquei numa noite pavorosa, numa agonia e dor de alma indizíveis. Os meus lábios não se abriam para desabafar. Eram interiores as minhas queixas, o meu desabafo. Não sei quem me levou ao encontro de Jesus, quase no cimo da montanha. Ali, unida à Mãe, senti no meu coração o ofegar e palpitar d’Ele; batia no meu coração como que uma enxurrada saída dos Seus divinos lábios em golfadas fortíssimas de sangue. É indizível a minha dor com estes sentimentos. Jesus estava moribundo. Fui eu crucificá-Lo, a dar-Lhe a morte. Nas horas da agonia senti sempre as afrontas feitas ao Senhor, apesar de ser eu quem Lhas dava. Eu era a humanidade revoltada contra Jesus a dilacerar-Lhe as carnes, a rasgar-Lhe o peito e a abrir-Lhe o coração. Neste momento, Ele deu o Seu Divino Sangue e expirou. Expirei com Ele e, um pouco mais tarde, por Ele ressuscitada, ouvi a Sua voz divina : — “É grande, muito grande, infinitamente grande, a misericórdia do Senhor. É séria, infinitamente séria, a Sua justiça. É a misericórdia infinita e seriedade infinita. Reparai, reparai. Estai bem atentos, Jesus perdoa. O Senhor quer perdoar. O Senhor quer o vosso arrependimento. Jesus há-de vir julgar-vos. Alerta, alerta. Avisa-vos o Senhor. Não pequeis, não pequeis. É séria, e muito séria, a justiça do Senhor”. — Não posso ver, Jesus. Não Vos deixeis cair por terra. Caí sobre os meus braços, meu Amor. Eu sou indigna de neles Vos possuir, mas não olheis para isso, Jesus. Não posso ver o Vosso rosto conspurcado em terra. Deixai que eu Vos abrace e Vos estreite ao meu pobre coração. Quero amar-Vos, Jesus, quero amar-Vos por todos. Quero reparar-Vos por todos os pecados e crimes. Caiam sobre mim, meu Jesus, todos esses braços cruéis de armas e punhais em punho e tantos instrumentos que ferem. — “Minha filha, minha querida filha, com a minha santíssima cabeça inclinada sobre o teu coração, quero acabar este colóquio. Já é sobre ti, minha filha, sobre o teu débil corpo que Eu permito que sejam descarregados tantos e tantos açoites, tantos e tantos sofrimentos. É sobre ti, minha filha, florinha eucarística. É sobre ti e não sobre mim, porque és a minha vítima. Sabes, minha esposa querida, o que tudo isto representa? Os pecadores, os pecadores de todas as classes e condições. Eu chamo-os por eles e por ti lhes dou o perdão. Os teus sofrimentos, o teu calvário levam-nos ao arrependimento, levam-nos a uma confissão bem feita. Confia, confia, filha querida. Se assim não sofresses, eles não iam aos bandos ao tribunal da penitência. A dor, ligada ao amor, é a arma mais poderosa, é a escora mais firme que sustenta o braço do Senhor. Escutai, escutai ! Estai atentos, que o eco de Jesus pelos lábios da Sua vítima ecoa no mundo inteiro : oração, penitência, emenda de vida. Falem os que podem falar, avisem os que podem avisar. Alerta, alerta, todos os filhos do Senhor. Ele vos chama, arrepiai caminho. Escutai, escutai. O aviso vem do Céu. Atendei, atendei a Jesus que está chamando. Vinde, meus filhos, vinde meus filhos, vinde meus filhos ao meu Divino Coração. Porque me feres assim ?... Sou o vosso Pai. Amai-Me, porque Eu vos amo. Vinde a Mim, porque morri por vós”. ― Ó Jesus, ó Jesus, porque chorais assim ? Deixai para mim as Vossas lágrimas. Eu não Vo-las posso enxugar !... Nem tenho com quê, meu Amor. — “Choro, choro, minha filha, porque chamo os filhos meus e eles fogem, não me atendem, não vêm a Mim. Choro, choro, porque correm loucos para o inferno. Querem perder-se eternamente”. — Não choreis mais, Jesus. Aceitai o meu frio amor, o meu pobre coração cheio de ânsias de Vos amar e por todos Vos reparar. Estou disposta, Jesus, a sofrer tudo, tudo, todas as humilhações, todas as calúnias, todos os sofrimentos que Vos aprouver dar-me. Não choreis, não choreis mais. Quero chorar eu sempre as Vossas lágrimas. — “Já não choro, minha filha. Repara bem em Mim. O teu amor, a tua generosidade foi o suficiente para mas secar. Vem em troca receber a gota do meu Divino Sangue. Bem unidinhos os nossos corações, passou a gotinha de sangue, o alimento que te faz viver. Vive de Cristo. Esta gota de sangue divino leva em si todas as riquezas divinas. É por ti que toda esta riqueza infinita transparece e passa para as almas. Fica na cruz, esposa minha. Fica na cruz, luz e farol do mundo. Fica na cruz, escora do meu Eterno Pai, escora da Sua justiça, escora do Seu braço vingador. Sofre, sofre com alegria e não cesses de dizer às almas : vinde a Jesus, vinde a Jesus”. — Antes de sairdes dos meus braços, meu Amor, quero lembrar-Vos, como sempre, todos os que me são queridos, toda a minha família, todos quantos pedem as minhas pobres orações, amigos e inimigos, o mundo inteiro, o mundo inteiro, meu Jesus. — “Vai em paz, minha filha”. 3 de Dezembro – Sexta-feiraSó com a graça do Senhor e a Sua força divina eu poderei dizer alguma coisa. Apagou-se a luz da minha vida, mas de tal forma se apagou que fez perder a vida do mundo inteiro, e ele todo ficou nas trevas mais intensas, na noite mais pavorosa. Parece-me que não tenho coração que possa enfrentar tudo isto, resistir a tanto pavor. Não sei que sinto. Queria que as pedras falassem. Queria que todos os corações se levantassem num hino de louvor ao Senhor. Não sei como, sou eu a causadora de este louvor, de este hino lhe ser roubado. Perdi a minha vida, concorri para que todas as almas a perdessem. Não sou útil para nada e soou inútil para tudo. Esta minha inutilidade faz a inutilidade do mundo. São estes os sentimentos da minha alma. É esta a minha vida dolorosa e tremenda. Ai, meu Deus, apiedai-Vos de mim! Bendita seja a cruz que me dais. Sozinha, mesmo sozinha, no meio do mundo habitado só por feras, e estas todas contra mim, para me tragarem e tirarem a vida. Eu, no meio do maior pavor, sem poder ter um brado, porque na terra não tenho a quem pedir socorro, e o Céu, de tal modo fechado, não ouve a minha voz, murmuro sem querer. Ó meu Jesus, soube ofender-Vos, como nunca ninguém Vos ofendeu, e nunca soube nem sei amar-Vos como muitos dos Vossos santos Vos amaram. Perdoai-me a minha miséria. Apiedai-Vos da minha pobreza. Vou por vezes a sucumbir. Momento há em que me parece sem remédio cair no desespero. Firmo-me nos braços de Jesus e da Mãezinha, a quem me entreguei e abandonei. Não sinto a Sua protecção, mas não chego a perder a serenidade e a paz. Sofro, sofro indizivelmente, mas sofro confiada, sem sentir a felicidade da confiança. Sofro na esperança da protecção do Céu, mesmo com muitas vezes me parecer e sentir que nada existe depois desta vida. Tenho dentro em mim um fogo tão grande, um fogo tão ardente pela glória do Senhor! Queria ver todos os corações numa só chama, a humanidade inteira numa só labareda, num só amor a Jesus. Ah ! Se eu pudesse destruir o pecado duma vez para sempre !... Que pena eu tenho de ver Jesus ofendido !... Que dor sobre humana ! Que dor infinita! Muitos espinhos me ferem ! Muitas lanças me atravessam o coração ! Seja tudo por amor do meu Senhor ! Se eu com isto puder consolá-Lo e dar-Lhe as almas ! A minha ignorância não sabe dizer nada. Quem não tem vida nada pode dizer. Ontem, o meu Horto foi tão doloroso ! Chegou ao Céu a minha dor. Vi todas as almas mortas, sem quererem aceitar a vida de Jesus. Eu só soube manter-me seca, dura, indiferente a tudo. No meio do Horto, estava a coluna. Fui presa a ela por mãos humanas, mas estava mais presa, mais firme ainda pelas cordas do amor divino. Todas as minhas carnes foram despedaçadas. Vi tudo quanto ia sofrer. Hoje segui para o Calvário, não fui por vontade, fui arrastada, morta pela cruz de Jesus. Ele derramou o Seu sangue divino, submeteu-se a todos os maus tratos, para dar-me a vida. Eu não lhe aceitei ; foi preciso Ele morrer. Pregado na cruz, continuou a regar-me com o Seu sangue. Eu, onde a cruz estava plantada, representava toda a humanidade morta, mas sentia as ânsias divinas que Jesus tinha pelo momento de expirar, para que eu vivesse. Ele entregou ao Pai o Seu espírito, atirou-se para Ele, como o criminoso para os braços da mãe, e morreu. Pouco depois, triunfando da morte, fez-me triunfar com Ele, deu-me a Sua vida e falou-me assim : — “Jesus vem fatigado, ansioso, a pedir amor. Tenho sede, tenho sede. Só pode ser saciada esta sede de amor nos corações, nos corações abrasados. Venho fatigado, venho ansioso, venho mendigar. Bato à porta, bato à porta. Sou o Mendigo Divino. Quem me aceitará ? Quem será capaz de recusar-me a esmola e a entrada em seus corações ? Há tantos, tantos, digo-o com dor, digo-o com lágrimas. São tantos, tão frequentes, os meus chamamentos !... São tantas as vezes que eu bato à porta dos corações !... Oh, ingratidão! Oh, ingratidão ! Oh, infidelidade ! Chamo, bato, e as portas não se abrem. Peço, peço a esmola do amor, e quase sempre me é recusada. Sofre, sofre, minha filha, florinha eucarística. A tua dor é fogo, a tua dor incendeia e purifica os corações”. — Ó Jesus, ó meu querido Jesus, estais tão calmo, mas tão triste! Não ouço os Vossos suspiros, mas vejo rolar pelas Vossas faces santíssimas muitas e muitas lágrimas. Jesus, Jesus, meu doce Amor, sou a Vossa vítima. Estou pronta, sempre pronta, para sofrer. Estou pronta, sempre pronta para receber-Vos no meu coração e abraçar no meu pobre coração com todo o amor a cruz que me dais. Esquecei, Jesus, as infidelidades das almas, todas as recusas que Vos são feitas. Lembrai-Vos, meu terníssimo Jesus, que ainda tendes na terra muitos e muitos corações que só a Vós querem amar, que só a Vós e para Vós querem viver. Lembrai-Vos, Jesus, lembrai-Vos desta pobre filhinha, que, apesar de pobríssima, quer enriquecer-se em Vós, quer sofrer tudo por Vós. Jesus, Jesus, amo, amo tanto, tanto, as almas! Amo-as, porque são Vossas. Amo-as e vejo nelas o meu Senhor, o meu Pai, o meu Criador. Jesus, Jesus, custa-me muito sofrer. Nem sabeis que muitas vezes sinto que não posso mais, mas são tais as ânsias do meu coração, são tão fortes, tão fortes que me obrigam a dizer-Vos: se quereis que eu sofra até ao fim do mundo, estou pronta, meu Jesus, estou pronta. O que eu quero é evitar, evitar a perda das almas. O que eu quero, meu Jesus, o que eu quero é consolar-Vos, alegrar-Vos dia e noite, dia e noite sem perder um só momento. — “Minha filha, minha filha, vítima querida do meu Eterno Pai, escora firme do Seu braço, da Sua justiça divina. Se não fosse a tua oferta, se não fossem as almas, já cantavas no Céu, há muito tempo, as glórias do Senhor. O mundo, as almas são ingratas, são cruéis. Tu foste generosa, tu foste louca por elas, por meu amor, bem Eu sei, mas foi aceite a tua oferta, foi aceite a tua oferta, a tua prece. Pede, pede, minha filha, pede pelo amor do meu Divino Coração, para que os corações se abrasem no meu amor. Pede que desapareçam da face da terra tantos e tantos crimes, crimes hediondos, que desafiam a justiça do Senhor. Vem receber a gota do meu Divino Sangue. Foram os Anjos, foram os Anjos que ligaram o tubo doirado ao teu o meu Divino Coração. A gotinha do sangue passou, passou o sangue de Jesus, aquele sangue que veio do seio de Maria, minha e tua Mãe também. Passou a vida de que tu vives e a vida que Eu quero que tu dês às almas. Ela transparece em ti e por ti atravessa os corações, como sol fortíssimo, como sol brilhante pela vidraça. Pede oração, pede penitência e a morte para o pecado. Vai em paz. Vai em paz. Fica na cruz. Sorri, abraça-a, beija-a por meu amor”. — Ó Jesus, fico na cruz, sim, fico na cruz, e é da cruz que eu Vos peço. Sede no meu coração. Atendei ao que nele está escrito. Confio, Jesus, confio. — “Vai em paz, minha filha, vai em paz. Pede, pede sempre. Jesus sempre atende à Sua esposa, à Sua vítima generosa, à Sua vítima heroína”. — Obrigada, meu Jesus, obrigada. 6 de Dezembro – Primeiro SábadoPassei a noite com o peito e o coração atravessado de espinhos e lanças. A dor era tão grande, tão grande, só podia ser dor infinita. A tristeza era infinita. A tristeza era mortal. As ânsias de receber o meu Jesus, insuportáveis. Neste transe doloroso, preparei-me para O receber o melhor que pude. Ele veio, e, logo que deu entrada no meu coração, senti-me outra. Ele entrou triunfante e com o Seu triunfo fez-me desaparecer a dor e os instrumentos que me feriam e falou-me desta forma: — “Que lindo, que lindo é o Céu, minha filha. Fala dele às almas. Diz-lhes quanto elas devem sofrer, quanto devem evitar o pecado e amarem o meu Divino Coração, para o merecerem. É belo o Céu, minha filha. Oh, como é belo!... Com que dor, com que mágoa, Eu digo que o Céu é belo, porque os meus filhos, os meus queridos filhos, não querem gozar dele. É grande a minha tristeza. É infinitamente grande a minha dor. Os meus filhos, os meus queridos filhos, não querem o Céu, não querem gozar de Mim. As paixões, as paixões desregradas, levam-nos à recusa dum belo Céu, dum Céu triunfante, duma eternidade de gozo. Fala às almas, minha pomba bela, instrui-as nas coisas do Senhor, põe-lhes nos seus corações, quanto possível, o horror do pecado. Fala-lhes, fala-lhes muito do meu amor. Diz-lhes que as quero para Mim. Foi a missão que te escolhi. Foi para tudo isto que por Deus foste criada. Tu és a alegria, a glória, o encanto do Paraíso”. — Ó Jesus, só Vós podíeis encantar com aquilo que é Vosso !... De meu, só podeis encontrar o pecado e com esse não Vos podeis encontrar. O que eu sou, meu Jesus !... o que é a minha miséria… — “É na tua pequenez, violeta escondida, que Eu faço nascer, crescer, florescer as virtudes mais belas, os encantos mais atraentes. É na tua pequenez que Eu escondo a tua grandeza. É com a tua humildade que as almas se elevam para Mim. Dia, minha filha, ao teu Paizinho, àquele que Eu escolhi para teu guia e guia de muitas almas, que o Senhor pôs nele, depositou nele o que de mais caro tinha na terra. Diz-lhe que fez dele luz, para ser luz, que o fez ternura e amor, para só de ternura e amor ele fazer viver as almas. Diz-lhe que dias mais alegres, mais felizes o esperam. Diz-lhe que o sol brilha nas trevas e aquece os corações que estavam frios e no erro. Diz-lhe que ele consola o Senhor, agrada ao Senhor, ama o Senhor e vive sobretudo a vida do Senhor. Diz ao teu médico que a chuva de graças não cessa de chover, não deixa de cair sobre o seu lar em flor, sobre o seu jardim perfumado. Diz-lhe, diz-lhe que “mãos à obra”. Nada de desânimo, nada de tristeza. Olhos ao Céu, confiança no Céu, confiança no seu Deus e Senhor. Diz-lhe que estou nele e ele em Mim; que triunfo nele e ele comigo. Avante, avante. O meu Divino Coração espera muito, muitíssimo dele. Criei-o para a mais árdua missão, mas não lhe faltarão as graças e todos os meios para bem a desempenhar, conforme é a vontade santíssima do Senhor. Dá-lhe amor, paz e alegria. Vem, minha Mãe bendita, Virgem da Conceição, pôr firmes no Céu os olhos da nossa filha, como estão os teus no trono do Altíssimo. Minha Mãe bendita, dá-lhe a tua pureza, a tua candura e amor. Veste-a de tudo o que é teu. Faz dela o maior dos nossos encantos. Minha filha, minha querida filha, aceita o meu Imaculado Coração. Pertence-te, como te pertence O de Jesus. Vive de Mim, como de Jesus. Vive para Mim como vives para Jesus. Faz que a minha pureza e imaculada Conceição sejam amadas como tu as amas. Faz com que muitas almas Me imitem, sobretudo, minha filha, sobretudo os sacerdotes, para exemplo e guia de todas as almas. Jesus está triste. Eu estou triste!... Há tão poucos, tão poucos, puros e imaculados!... São tantos, tantos a perderem-se e a fazer perder as almas. Consola, consola os nossos Divinos Corações e dá-Nos toda a reparação que te pedimos”. — Ó Mãezinha, ó Mãezinha, como tu és bela! Fazei, Mãezinha, fazei, Mãezinha, que eu seja bela também, e que esta beleza e que esta pureza eu as possa dar às almas, mas sobretudo, sim, sobretudo às que mais se me recomendam. Ó Mãezinha, ó Mãezinha, pela Vossa Conceição Imaculada Vos peço, atendei às minhas preces, a todas, todas as minhas preces. Apresentai-as a Jesus e fazei que sejam despachadas a meu favor. — “Minha filha, minha filha, vai em paz depois de receberes as minhas carícias e as de Jesus. Nada Nos negues, nada Nos negues. Leva, minha filha, o amor da Bendita Mãe e o amor do teu Jesus. leva a paz e a doçura dos Nossos corações. Vai distribuí-los Vai distribuí-las como quiseres por todos os que amas e que nós amamos. Tem coragem! Confia que o Céu está perto !” — Obrigada, Jesus. Obrigada, Mãezinha. 7 de Dezembro – Sexta-feiraApesar de não poder falar, sinto-me forçada a dizer alguma coisa. É enorme o meu sacrifico par a mexer os lábios e pronunciar qualquer palavra. Não sei, mas é talvez a força da obediência que me leva ao máximo do sacrifício. Todo meu viver é calvário. Os dias e as noites são horas e momentos de agonia. Sou tão ignorante que nada sei dizer da minha vida. A noite tremenda deixa-me apavorada no meio do caminho. Não tenho para onde voltar-me. A inutilidade falseira está sempre a roubar-me o vigor, a vida verdadeira a todas as coisas. Não chego a ver-lhes o princípio, como chegar-lhes a ver o fim? Neste martírio do corpo e da lama, uno-me ao Senhor, elevo para Ele o meu pensamento, mergulho-me nele, ofereço-Lhe as minhas dores e agonias, apesar de muitas vezes me parecer que Ele não existe. Mas logo a inutilidade traiçoeira apressa-se a roubar-me e eu fico como que nada sofresse e nada Lhe oferecesse. Tudo isto são espinhos pungentes a ferirem-me, causam-me uma dor indizível que só a força de Jesus pode suportar. O dia da Mãezinha foi martirizado e agonioso como os outros. Não Lhe falei muito, mas no pouco que Lhe disse, entreguei-lhe todo o meu ser. Pedi a todo o Céu para A amarem, louvarem e honrarem por mim. Nem ao menos nesse dia, a inutilidade me poupou. Meu Deus, meu Deus, morre de dor o meu coração! Dentro do meu peito, muito no íntimo da minha alma, tenho não sei o quê, parece que como um altifalante, que rompe com toda a força e faz ressoar o seu brado na humanidade inteira. Ele tem ânsias tão grandes, tão infinitas de se fazer ouvir e dizer tudo o que sente o coração, que parece amolecer e desfazer todas as montanhas e pôr tudo numa massa, numa só vida, num só amor a Jesus. Sou ignorante, mas estes sentimentos são um nunca mais acabar. Ando sempre fugitiva do Horto e do Calvário. Não sei, ontem, como não sei nunca, o que me levou para aquele solo duro. Tremia de pavor e toda a terra tremia comigo. Ao baterem-me no peito as ondas mais fortes do mar agitadíssimo, que por todos os lados me rodeavam, eram ondas de vícios, de crimes, de podridão. Vi-me dali com a cruz aos ombros, a seguir para o Calvário, sob uma chuva de tormentos, já quase sem vida. A noite foi tormentosa para o corpo. E assim o coração mais se pôde concentrar nos tormentos e na paixão de Jesus. Hoje, nesta manhã, sabia que Ele para lá caminhava, mas eu fugia a passos largos. Deixava-O sozinho, sem procurar libertá-Lo de tantos tormentos. Sentia no coração uma tristeza e dor tão grande que eram só d’Ele, eram sofrimentos e tristezas infinitos. No alto do Calvário, de dentro de mim saía este brado : a minha alma está triste até à morte. É um Deus a manifestar esta tristeza. É Ele a desabafar e a mostrar-nos o Coração. Vinde a mim, vou morrer por vós. Ó dor, ó dor pungente, que matas o meu Senhor. O brado de Jesus não cessava e a ânsia de se entregar ao Pai para a nós nos dar a vida. Ele expirou. E, pouco tempo depois, veio com o semblante tristíssimo e sentimentos dolorosos, deu-me a mesma vida dolorosa e falou-me assim : — “Minha filha, minha filha, escuta o meu Jesus, triste, triste, com o coração retalhado. Não posso mais, não posso mais. Os crimes são tantos e tão grandes ! Os homens, os pecadores, embrutecidos nas paixões, cegaram, emudeceram. Não vêm a Jesus, não escutam a Sua voz. Ver a Jesus é ver os Seus caminhos, observar a Sua Lei. Ouvir a Jesus é atender aos Seus brados. É vir, é vir depressa ao Seu encontro. Minha filha, minha filha, vê como está o Meu Divino Coração. Deposita-O nas tuas mãos. Repara nele, repara nele”. — Ó Jesus, ó Jesus, e não me dizeis se posso vê-Lo, se posso reparar eternamente. É preciso não ter coração! Meu Deus ! Meu Deus ! Tantos, tantos punhais a atravessá-Lo, tantas, tantas espadas a ferirem-No. Estes punhais, estas lanças vieram também ferir o meu. Do Vosso Divino Coração atingiram o meu. A dor tirou-me a vida. Tenho a certeza que só por milagre ela pode ser conservada. Quanto sofreis, quanto sofreis, meu Amantíssimo Jesus ! Se não me aliviavas, não podia falar-Vos mais, meu Amor. Fazei troca, meu Jesus. Em vez de me aliviares a mim, fazei que eu Vos alivie a Vós. Em vez desta suavidade que me deste ao coração, fazei, fazei, Jesus, que eu Vos console. Não posso pensar, Jesus, que, sendo Vós um Deus, deixais ferir assim ! Não posso consentir, nem deixar-Vos assim sofrer. Eu tiro-Vos, Jesus, eu tiro-Vos por muito jeitinho todos os punhais e espadas ao Vosso Divino Coração. Quero-os só no meu, quero ser só eu a sofrer. Exijo de Vós a graça a força que necessito. Já não tendes nenhum ? Não, não, meu Amor. Mas ainda vejo tantas feridas! Não quero ver sinais de ferimentos. Ponde nos meus lábios os Vossos ósculos divinos. Quero osculizar-Vos essas feridas todas, para que elas desapareçam. Vós mesmo sois o bálsamo. Os Vossos ósculos curam-Vos as feridas. Elas desaparecem. Já está dentro do Vosso sagrado peito o Coração. Não consintais, Jesus, que ele volte a ser ferido. Sou a Vosso vítima, sou a Vossa vítima. — “Dás-Me então, minha filha, a reparação que te pedir nestes dias ? Vai ser muito dolorosa. Aceitas ?” — Tudo, tudo, meu Jesus, contanto que sejais comigo, para eu não Vos ofender. — “Sim, sim, minha filha. Nada temas. O Senhor é contigo. O Senhor é contigo. A reparação é por muitas almas que estão quase, quase a ser condenadas ao inferno. Muitas delas, sacerdotes, almas consagradas a Mim. Que chuva, que chuva de sacrilégios; que horror, que horror a minha entrada em tantos corações! Mais valia que Eu fora dado aos cães. São tremendas as palavras do Senhor. É pavorosa, pavorosa, pavorosa a justiça do meu Pai !... Vem, minha filha, vem, minha filha, flor mimosa, flor perfumada, flor eucarística, luz, sol, farol do mundo, vem receber a gota do meu Divino Sangue. Passa pelo tubo dourado, que mãos angelicais introduziram em nossos corações. Maravilha, maravilha celeste, maravilha do Céu. Passou a gotinha de sangue, sangue puro, sangue fervente, que te leva a vida, a graça, o amor, o incêndio de amor. Fica na cruz, fica na cruz. Dá tudo com alegria ao teu Senhor. Com Ele triunfas, com a Sua graça perseveras até ao fim”. — Jesus, Jesus, o coração está triste, mas ansioso de Vos dar tudo, de Vos servir, de Vos amar, de Vos reparar. Lembro-Vos a todos neste momento, todos, todos, o mundo inteiro. — “Coragem, coragem, minha filha. Vai em paz. Vai em paz. Ama-Me, ama-Me, ama-Me sempre. Faz que Eu seja amado, com todo o amor. Faz que Eu seja reparado com a reparação heróica, generosa. Coragem! Vai em paz !” — Obrigada, obrigada. 19 de Dezembro – Sexta-feiraO meu corpo foi reduzido ao nada pela dor. Senti como que se em cinzas ficasse. Quantas vezes me pareceu que ia morrer. Sofri, sofri indizivelmente. Quanto à alma foi tormentoso, mais que tormentoso, foi pavoroso o que ela sofreu. Parecia-me a mim que era capaz de inventar o que até tinha gravadas em mim, isto é, na alma, todas as figuras indecentes, coisas que os meus olhos nunca viram. Eu sem conseguir pecar por outra forma, parecia-me correr o mundo inteiro à busca do prazer, sem conseguir os meus maus intentos. Ia satisfazer-me naquela variedade de figuras, onde podia realizar com a maior malícia os meus desejos. As forças não me permitem mais. Fica calado dentro em mim, as tristes cenas passadas, por falta de forças e pela minha ignorância. Tive um Horto e um Calvário suportado, não por mim, não por um esforço meu, porque o mal não me permitia, mas sim, levada por Jesus, Ele caminhou comigo. Eu ia como que revestida d’Ele. Mal podia levantar o meu pensamento ao Céu e ficar unida a Ele, mas podia, ou melhor, tinha que ser, seguir a montanha e, dentro em mim, Jesus sofredor. Eu era um corpo inútil e morto. Jesus era a vida e a utilidade para a mesma vida. Foi Ele que expirou. Morta estava e morta fiquei. Ele, ressuscitado, fez-me viver e falou-me assim : — “Minha filha, minha filha, és ditosa no teu Calvário. És feliz na missão que Jesus te escolheu. Minha filha, minha filha, o Senhor é contigo. Minha filha, minha filha, que bem que Eu estou dentro do teu coração. Como é delicioso estar neste jardim perfumado! Minha filha, minha florinha eucarística, tu rodeias os meus sacrários como as avezinhas os seus ninhos. Esvoaças, esvoaças, como a pombinha branca, a poisar, a habitar em cada hóstia, em cada lugar, onde Eu habito sacramentado. Coragem, minha filha. Continuas a ser para as almas o que Eu fui há vinte séculos no alto do Calvário, na cruz crucificado. Coragem, coragem, minha filha. Jesus triunfa no teu Calvário. Tem confiança! Com o teu esposo serás sempre vitoriosa”. — Ó Jesus, ó Jesus, duvido sempre de mim. Temo tanto, tanto, a minha vida ! Temo tanto, tanto ofender-Vos ! Não me custa sofrer com a tua graça. Custa-me e temo não sofrer bem. Temo a minha vida, meu Jesus. Ah! Que difícil, meu Jesus, que difícil é viver assim. Eu precisava, meu Jesus, bem o sabeis, precisava dum guia todos os dias, todas as horas. — “Não duvides, não, minha filha. Sempre que Eu te peço dor, mais dor, e que tu não me negues, quero dor, mais dor, muito mais dor. Pedi-te e vim apertar-te com a maior das violências a minha vítima ma prensa mais dolorosa e mais tremenda. Minha filha, minha querida filha, tudo o que sentes em tua alma, tudo o que se passa em teu espírito, não é outra coisa senão um meio de reparação. Nada temas, nada temas, pupila dos meus olhos. Só de uma alma pura se pode tirar pura reparação. Ai daquelas almas, ai daquelas famílias, onde habitam as figuras tremendas, figuras para as excitarem aos vícios, às paixões. Eu te afirmo, minha filha, é difícil a sua salvação”. — O que eu posso fazer, meu Jesus ? Como poderei eu evitar ? Eu parecia-me, meu doce Amor, que tudo isto era meu, e que eu era capaz de inventar tudo o que há de mal. — “Não, não, minha filha, é a reparação, é a reparação necessária e urgente nestes dias que passam. Eu quero, Eu quero que seja dita esta minha afirmação. Vai ser tremenda a justiça de meu Pai sobre essas almas, essas famílias, essas casas que possuem figuras negras, retratos de Satanás, que as levam aos vícios, aos crimes mais hediondos. O que tu podes fazer, minha filha ? Sofreres, sofreres, reparares. Tem coragem e confia! Eu alegro-me, consolo-me na tua humildade, no teu temor de ti mesma. Se não fosses pequenina, pequenina como a violeta e desaparecesses como o verme na terra, Eu não teria comunicado contigo desta maneira. Nunca terias ouvido dos lábios do teu Jesus títulos tão belos, de tão grande elevação”. — Ó meu Jesus, meu Jesus, bendito Vós sejais ! Sois a sabedoria infinita e a meu respeito parece que nada sabeis. Como sou miserável e pobrezinha ! Sinto-me despojada de todas as virtudes, de todas as graças, de tudo o que é bom. — “Vem, vem receber a gota do meu Divino Sangue, minha filha. Vem fortalecer-te no alimento do teu Senhor. Vives com a minha vida, vives com a minha graça, vives com o meu amor. Passou a gotinha do meu sangue divino. É o sangue que trouxe do ventre da minha bendita Mãe. É o sangue que dá a vida e gera as virgens. Fica na tua cruz. Fica mais forte, fica com mais vida, para mais dar. Fica com mais amor, para mais heroísmo. Diz, minha filha, não cesses de dizer a todos quantos se aproximam de ti : Jesus está triste com os vossos pecados. Arrepiai caminho. Vinde ao Bom Pastor. Vinde, vinde. Ele quer apascentar-vos no pasto imenso do Seu Divino Coração. Fica na cruz. Vai em paz. Pede sempre oração e penitência. Coragem !” — Ó meu Jesus, sede comigo. Sem Vós nada posso. Eu não quero separar-me de Vós. Eu não devo separar-me de Vós. Eu não devo separar-me de Vós sem Vos apresentar todas as minhas intenções, a humanidade inteira. — Obrigada, meu Jesus, obrigada. Meu amantíssimo Senhor! 26 de Dezembro – Sexta-feiraDepois da noite vem o dia. Depois de muito sofrer, veio novamente Jesus compor tudo. Já tive outra vez Missa no meu quarto. Foi no dia 22 que recebi esse mimo do Céu. Os homens só vêem, enquanto que Jesus os deixa. Devia ser um dia de consolações e alegria, mas não o permitiu o meu Amado. Bendizia-O e louvava-O por tudo. Ele ama quando consola e ama quando fere; é sempre amor, amor sem igual. Como não sabia assistir à Santa Missa, como de costume ocupei o Céu, pedi à Mãezinha que assistisse Ela por mim, com os sentimentos d’Ela e não os meus, que acompanhasse a Jesus, que merecesse Ela por mim e fizesse Suas as minhas intenções e que unida a Jesus me oferecesse ao Eterno Pai na mesma imolação e sacrifício. Principiei assim o bercinho para o Menino Jesus para o dia de Natal. Mas, ai! Pobre de mim, o presépio que Lhe preparei foi muito pior ainda do que o de Belém. Sofri tanto, tanto! Meu Deus, que dor infinita! Não há palavras que a possam exprimir. Foi de tal forma a noite pavorosa, foi tão tremenda a tristeza e agonia que me levou a pensar a sério se seria o último Natal que passava na terra. Seja o que Jesus quiser. Preparei-Lhe o bercinho com espinhos, com as minhas infidelidades e imperfeições. Tudo isto me fazia sofrer mais e mais. À meia-noite, na hora do nascimento de Jesus, abraçada a uma imagem d’Ele, humilhada por causa dos meus pecados, pedi-Lhe muito perdão e, debulhada em lágrimas, dizia-Lhe: quero regar os Vossos pezinhos. Aceitai-mas como se fossem lágrimas de perfume, o incenso, o ouro e a mirra dos Reis Magos. Renovei-Lhe o meu completo abandono e pedi-Lhe que fosse perfeito o mais que fosse possível. No meio de tudo isto, no meio de toda a morte, quando tudo era vida e alegria para os outros, uma coisa tive a meu favor: a paz do Senhor reinava na minha alma. Não me desesperei. Que graça tão grande do Senhor! Os dias vão passando e eu vou vivendo naquele abandono a que me entreguei, sofrendo, sofrendo, sofrendo sempre. Quanto mais sofro e me parece que nada mais posso sofrer, maiores são as ânsias de mais sofrimentos. São tão grandes como o Céu, são tão grandes como Deus. Quero consolá-Lo, quero amá-Lo, quero dar-Lhe almas. E para isso repito-Lhe: quero dor, meu Jesus, sempre mais dor. Sede a minha força, meu Jesus. — “Minha filha, minha filha, depositária do meu Divino coração. Minha filha, cofre das minhas riquezas e de tudo o que é meu. O Calvário é dor, o Calvário é de imolação, o Calvário é de sacrifício, é de salvação. Quem ama sofre, quem sofre é rico. A dor enriquece, dá nobreza ao coração e à alma. Se o mundo soubesse ! Se almas compreendessem o segredo, o verdadeiro segredo da perfeição e do amor ! Se o mundo soubesse, se as almas compreendessem o mais difícil de atrair a si as misericórdias do Senhor ! Amar, sofrer, sofrer e amar. é o segredo da perfeição. É o maior meio de salvação. A dor não pode separar-se do amor. Ai daquele que sofre sem amar. Eu sofri muito, minha filha, porque muito amei. Foi o amor que me levou a sofrer. Eu sofri como nenhuma outra criatura. Amei, amei, como jamais alguém amará. Minha filha, esposa predilecta de Jesus, muito te amei, muito a Mim te assemelhei. Amei-te tanto, tanto e tanto a Mim te assemelhei, até te dar um calvário, o calvário mais doloroso, mais difícil que dei às minhas vítimas. Eu fiz, sim, minha filha querida, que compreendesses os meus segredos, a dor e o amor. Eu fiz e faço que pela dor te purifiques e pela dor me salves as almas”. — Ó Jesus, ó Jesus, muito anseio purificar-me, muito anseio ser pura e consolar-Vos, mas estou sempre, Jesus, sempre a manchar-me, sempre a entristecer-Vos, sempre a arredar-me dos Vossos caminhos. — “Diz-me, diz-me, esposa minha, se sim ou não confias no teu Jesus”. — Ó Jesus, meu doce amor, Vós bem sabeis até que ponto eu confio. Não sou perfeita, bem o sabeis. Estou sempre a vacilar. Mas ao menos, Jesus, quero confiar tanto quanto me seja possível. — “Então escuta-me, escuta-me com atenção. Falo Eu, Eu, Jesus, nos teus lábios. Quando falas, falo por ti. O Divino Espírito Santo sobre ti, está sempre com a Sua luz e com as Suas inspirações. Não deixes, não, minha filha, que ela escureça. Não deixes passar despercebida nenhuma inspiração. Eu sorrio, sorrio, muitas vezes, quando te humilhas diante de Mim. Permito as tuas pequeninas quedas para a ocasião dos meus sorrisos. Consolo-me, consolo-me muito ao ver-te humilhada em grandes coisas, em coisas gravíssimas. Na sombra das tuas faltas, escondo as minhas grandezas. És rica, és rica. Possuis as riquezas do Senhor. Amas, porque estás cheia, bem revestida do amor divino. A tua alma é bela, o teu coração é belo ao Coração de Deus. Coragem, coragem, filha querida. Mergulha no mar imenso do meu amor as almas que de ti se aproximarem. Pede-lhes, pede-lhes. Faz como tens feito. Pede-lhes que Me amem. Pede-lhes que Me não ofendam. Não é em vão, não é inútil, não, minha filha, a tua vida, calvário ditoso, calvário ditoso, calvário de salvação. As almas, as almas, verdadeiramente, ah! se te conhecessem! Depois da tua morte, muitas, muitas vão ser atormentadas pelo remorso. Mesmo nisso te assemelhei a Mim. Quando Eu fui crucificado, quando dei a minha vida no alto do Gólgota, quantos tormentos, quantos remorsos que as almas tiveram quando souberam que Eu era Jesus. Vem receber a gota do meu Sangue Divino. Dois corações num só coração, incendiados numa só chama, enleados numa só cadeia de amor. Passou a gotinha, passou a tua verdadeira vida. Vives do sangue e corpo de Jesus. Vives a verdadeira vida de Jesus. Coragem, coragem, minha filha, tens muito que sofrer, porque muitas almas tens a salvar. Previne-as sempre, previne-as de que Jesus está triste, triste, tristeza de morte. Eu vejo, Eu vejo aos milhões, aos milhões, a morte nas almas. Faça-se oração, faça-se penitência. Haja emenda de vida. Jesus pede, Jesus avisa, porque ama muito, ama infinitamente. — Obrigada, meu Jesus, o meu pobre coração está iluminado com a Vossa graça, com o Vosso amor. Obrigada, obrigada, meu Jesus. Lede, lede o que nele está escrito. Atendei-me, meu Jesus. Atendei-me, meu Amor !... [1] Na cópia de Balasar, este parágrafo que aqui se coloca a abrir o diário deste sábado, vem no seu final
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