Alexandrina de Balasar

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Alexandrina Maria da Costa

SENTIMENTOS DA ALMA

1947

II

4 de Julho de 1947 – (sexta-feira)

O tempo passa, só eu não mudo; um dia dá-me o outro dia, uma semana outra semana, um mês outro mês, um ano outro ano, e eu sempre na mesma, ou antes, pelo contrário cada vez mais cega, mais fria e gelada. Apagou-se por completo a luz da minha esperança; esperava, confiava no passar da vida aumentar em zelo, virtudes e amor, enlouquecer-me por Jesus, dar-Lhe aquilo que Ele anseia que eu seja; mas não, em vez de aumento perdi tudo, tudo em mim morreu. Apagou-se a luz que me iluminava e indicava o caminho; não posso ir para Jesus. Que cegueira a minha! Não tenho ninguém, nem, ao menos, quem me guie. Amo com loucura a minha cegueira de espírito, por ser esta a vontade do meu Senhor. Estou na cruz, não posso desprender-me dela, nem quero desprender-me; amo-a de alma e coração. Jesus assemelhou-me a Ele, bendito Ele seja. Sou a Sua vítima, quero salvar-Lhe as almas. Sinto-me crucificada, e, ao mesmo tempo, todo o corpo moído pela lepra, a desfazer-se em cinzas. E a alma chora, ao vê-lo assim tão miserável, tão criminoso e nojento. Sim, chora, chora continuamente, chora por dentro. Não sei como posso ter o sorriso nos lábios quando o coração e a alma soluçam, suspiram sem cessar. Ó meu Deus, que luta a da minha vida, que mar tempestuoso, que tempestade furiosa, destrói tudo; tudo está em ruínas! Eu caí, fui destruída, quero reviver, quero levantar-me, e não posso. Neste desfalecimento fito a Jesus e à querida Mãezinha, peço-Lhes amor, quero amá-Los, e não sou capaz. Quando Lhe peço profundamente, por momentos, me parece desaparecer do mundo, entrar no lado de Jesus e ir beber à chaga do Seu divino Coração, e fico-me ali a beber, e de lá trago mais vida e conforto. Com este conforto, sinto como se batessem em mim umas asas teimosas a tentarem levantar voo ao alto, para me levarem à verdadeira vida. Mas a dor, as cadeias da dor, prendem-me à terra, tenho que ficar, não posso voar, não posso partir ainda.

O demónio anda raivoso, de olhos esgaçados, aterradores, a tentar assaltar todas as janelas dos meus sentidos; tenta perder-me, quer arrastar-me, quer levar-me com ele. Que medo eu tenho de, por qualquer forma, fraquejar e ferir o meu Jesus! Temo o maldito, temo as criaturas. Não sei o que me espera, de por outra não sei o que espera a causa de Nosso Senhor. Venha o que vier, estou pronta para os golpes, para receber novos espinhos. Jesus e a Mãezinha serão a minha força.

Ontem, logo ao cair da tarde, o Horto foi para mim um leito de espinhos; espinhos no corpo, espinhos no coração e na alma, espinhos em todo o meu espírito. Que tarde de amargura! Ao inclinar-se o dia, ao cair da noite, vi a terra Horto, o lugar que havia de ser regado com o meu sangue. Num impulso de amor, queria beijar e abraçar essa terra. Via os ânimos e cuidados com que se preparava a ceia; apesar de ser preparada como se fossem ordens minhas, eu não saía da minha tristeza e amargura. Via que ia ser a ceia do amor, das maravilhas, como outra jamais seria, mas não saía do meu sofrer. Fui ao Horto, o sangue regou a terra; vi muitos vermezinhos a beberem nele e nele viverem. Vi muitos outros que dele fugiam, sem lhe quererem tocar. A agonia aumentou, o sangue encheu o cálice, transbordou fora. Foi assim que o ofereci ao Pai. Neste momento, um orvalho fecundo, um orvalho de amor orvalhava a terra; ia ser para as almas, no decorrer dos tempos, orvalho de vida e de salvação. Novo sofrimento veio tirar-me o conforto desta visão. Fiquei, entre o Horto e o Calvário, esmagada como dentro de uma prensa, tinha que beber a amargura, até à última gota.

Hoje de manhã, senti-me levada por alguém, que me deu a mão, à varanda de Pilatos. A cabeça ia cheia de espinhos, o rosto coberto de sangue, todo o corpo ferido e despedaçado. Vi e ouvi a grande multidão que, a uma só voz, sem se condoer de mim, bradava a minha crucifixão. Vi a cruz, que, pouco depois, senti a meus ombros para seguir para o Calvário. O Coração divino de Jesus tinha para todos os algozes, que, no caminho da Via dolorosa O maltratavam, afectos de tanto amor; parecia que Jesus em troca de tão maus-tratos beijava, abraçava e levava ao colo todos aqueles que o feriam! Estes loucos de raiva; e Jesus, louco de amor. Que exemplo dá Jesus ao meu duro coração! Nesta loucura de amor fosse aproximando a montanha, que, sendo para mim, ou para Jesus que em mim subia, montanha de morte, ia ser para a humanidade montanha de vida. A dor aumentava em união com o amor. No alto da cruz, sentia no meu peito o de Jesus, que, de aflição, arquejava fortemente; unido ao meu, palpitava o Seu Divino Coração também; palpitava e batia fortemente, que fazia desfalecer o meu, de cansaço. Da Sua Chaga divina, aberta pelo amor, não ainda pela lança, saía um sol brilhante, um monte de raios doirados. Era a vingança de Jesus para o mundo. Quanto mais o corpo de Jesus desfalecia e gelava, mais a Sua Alma Santíssima desejava o momento de expirar. A Mãezinha estava, ao pé da cruz, com os Seus Santíssimos olhos lacrimosos, fitos em Jesus. Oh! como Ela suspirava! Senti, como se Jesus se atirasse para os Seus Santíssimos braços, para receber os Seus carinhos. Bem depressa Ela o iria receber, mas já sem vida. Que agonia a de Jesus ao ver e saber quanto a Sua Mãe Santíssima sofria! Ouvi o Seu brado ao Céu, o Seu último suspiro; expirou. Pouco depois, veio e falou-me:

― Minha filha, Minha filha, quem com Jesus vive, com Jesus morre; quem com Ele morre com Ele ressuscita para a verdadeira vida; vem, vem a Mim, vem gozar do Meu divino amor, vem confortar-te, vem viver.

Senti-me a nadar num mar imenso de amor e em igual mar de dor; não sabia como nadar nestes dois mares, ao mesmo tempo.

― Meu Jesus, gozo e sofro ao mesmo tempo; não se viver; bendito sejas Vós por assim me teres neste sofrimento.

― Minha filha, esposa fidelíssima, és o Meu retrato; Eu estava na cruz, sofria e amava; sofria os maus-tratos, sofria os crimes com que ia ser ofendido e amava os que Me maltratavam, a todos quantos Me feriam. Tu estás na cruz, sofres, à Minha semelhança, e, à Minha semelhança, amas. Amas as almas, amas o Meu Divino Coração; confia em Mim. Eu sofria na cruz, e nem por isso deixei de amar. Goza do Meu divino amor, recebe a Minha vida, o Meu conforto e dá-Me, ao mesmo tempo, a tua dor.

Dito isto Jesus ficou silencioso, e eu fiquei a ser queimada naquele fogo e a nadar naquela dor. Passaram-se alguns momentos e voltou Jesus a falar.

― É o ouro no cadinho, a ser purificado, Minha filha; é a tua alma a ser polida, a abrilhantar-se. Recebe a vida, mais vida, para dares às almas e para viveres.

Voltou Jesus novamente a ficar em silêncio. Depois de algum tempo, mostrou-me o Seu divino Coração aberto, e disse-me:

― Minha filha, o Meu divino amor não conhecido nem compreendido; é bem pequenino o número dos que o conhecem e compreendem. Até mesmo os sacerdotes, as almas consagradas a Mim, não conhecem o Meu divino amor, não compreendem o que é uma ofensa feita ao Meu Divino Coração. Vê quanto sofro! Consola-Me e desagrada-Me tu ao menos que compreendes a loucura de amor deste Coração e a gravidade duma ofensa feita ao mesmo Divino Coração.

Jesus ficou novamente silencioso. Depois de algum tempo, fui eu, desta vez, que exclamei:

― Jesus, meu doce amor, fazei que todos Vos conheçam e Vos amem. Sois o Senhor, tendes o poder. Dou a todos as Minhas divinas graças; rejeitam-nas, desprezam-nas.

― Faz-Me tu conhecido e amado. Vou dar-te, esposa querida, a gota do Meu Divino Sangue. Vão dois Anjos introduzir no teu coração o tubo do amor.

Vieram dois Anjos, colocaram-se um de cada lado, introduziram no meu coração um tubo doirado. Veio Jesus; no cimo do tubo colocou o centro do Seu Divino Coração. A gotinha do Seu Sangue caiu, enquanto que os anjos com toda a reverência se inclinavam para Jesus e batiam serenamente, cada um por sua vez, as suas asinhas brancas. Jesus continuou a falar-me, enquanto que eles, muito devagarinho, com toda a suavidade, foram subindo até certa altura, da qual, depois num voo rápido, desapareceram. Jesus deu-me o Seu Sangue Divino, e ficou a chorar.

― Sofro tanto com a ingratidão do mundo! Recebe esta vida e vai dá-la às almas para as quais Eu te criei, Minha filha.

― Eu vou, meu Jesus, mas não sem que estanqueis as Vossas lágrimas; passai-as todas para mim, dai-me toda a Vossa dor, ficai na consolação, e, depois, eu vou, meu Jesus.

― Foi para isso, filha querida, para te condoeres de Mim, para ficares na dor, que Eu chorei. Vai, louquinha de amor, vai, encanto de Jesus; vai para a cruz que te espera; abraça-a, e, abraçada a ela, pede ao mundo que não peque, que se converta, que Me ame, que venha a Mim. Coragem, muita coragem; para que Eu não sofra, para que Eu não chore, sentirás sempre na alma as Minhas lágrimas, e em teu coração a Minha dor. Coragem! Eu estou sempre contigo

― Obrigada, meu Jesus. Quero sofrer, quero chorar, para Vos consolar. São as minhas ânsias: consolar-Vos, amar-Vos, salvar-Vos as almas.

5 de Julho de 1947 – (1º sábado)

Com o coração lanceado, oprimido pela dor e a alma a derramar copiosas lágrimas, foi que eu hoje recebi o meu Jesus. Esperava-O com ansiedade, porque é só Ele a minha força. Baixou ao meu pobre coração; fiquei unida a Ele, a gozar Dele, mas sem O ouvir falar; não teve pressa em fazer-se ouvir. Falou-me, alguns minutos da Sua entrada em mim.

― Minha filha, sacrário onde habito, palácio onde tenho reinado, e no qual prometo reinar sempre, até ao último momento da tua existência na terra. Aqui estou, para confortar-te na tua dor e pedir-te mais, ainda mais. Era do Meu divino desejo ter-te na cruz, sempre na cruz, e sentires sempre, noite e dia, as Minhas divinas Chagas nas tuas mãos, nos pés, no coração, e em tua cabeça sentires as feridas dos meus espinhos e sobre o teu rosto caírem as gotas de Sangue que brotam deles. Quero que sintas todo o teu corpo ferido e despedaçado; quero-te assim constantemente ferida e crucificada; aceitas?

― Já sabeis que sim, meu Jesus; que só quero o que Vós quiserdes, isto é, a Vossa divina vontade, mas por minhas forças não posso; dai-me as Vossas e a Vossa graça, e, depois, fazei deste trapo do meu corpo o que Vos aprouver. O que eu quero é amar-Vos; e as almas, meu Jesus, quero salvá-las.

Jesus calou-se, por algum tempo, deixou-me unida a Ele, mergulhada no Seu divino amor. Interrompeu o silêncio:

― É pelas almas que tudo isto te peço. Dá-Me dor, sempre dor, Minha filha, ó Minha grande heroína. Tu amas-Me sem saberes que Me amas; és Minha, sem sentires que és Minha. Quero-te sem luz, quero-te à semelhança da avezinha, que, sem poder voar, ainda se esforça batendo as suas asinhas para seguir seus pais, abandonar o seu ninho. Coragem! Confia; depressa chegará o dia, em que acabam as tuas ânsias, terás toda a luz e voarás para Mim.

― Meu Jesus, eu não me engano? Tenho tanto medo de mim.

― Como, Minha filha, poderei Eu consentir que se enganasse a Minha esposa mais querida e fiel? Coragem! Confia; não falto às Minhas divinas promessas; tudo se realizará. Diz ao teu paizinho que tenho um canal introduzido em seu coração, pelo qual Eu passo para o dele o Meu conforto, as Minhas graças e a abundância do Meu divino amor. E farei que o Divino Espírito Santo lhe dê toda a luz para o iluminar, em todos os caminhos, não errados, mas sim escolhidos por Mim, caminhos que só escolho para aqueles a quem desejo coroar no Céu com a auréola dos santos. Diz-lhe com firmeza; são palavras de Jesus. Diz ao teu médico que um orvalho fecundo, uma chuva torrencial d graça cai sobre ele e sobre todos os que ao seu coração estão presos com laços de puro amor. É chuva de bênçãos, é orvalho de graças, é a prova de quanto o amo. Se não amasse tanto o seu coração, não o punha à frente da mais alta missão, que tenho na terra. Se o não amasse tanto, não o tinha a cuidar das Minhas coisas e da esposa e vítima, a quem mais quero e amo na terra. Vem, Minha Bendita Mãe, a confortar a Nossa filhinha; vem depressa para depressa te retirares.

Veio logo a Mãezinha, tomou-me no seu regaço, estreitou-me ao Seu Santíssimo coração, beijou-me, acariciou-me e começou a bafejar-me as mãos, os pés, o coração, a cabeça e, depois, todo o corpo.

― É o bálsamo para as tuas chagas, para as tuas feridas, Minha filha. Eu virei de longe a longe, suavizar o teu sofrer. Atende ao pedido de Jesus; deixa-te viver chagada, sofre para O teu e meu Jesus não sofrer, chora para Ele não chorar; vai acudir às almas, vai salvá-las. Conta com o auxílio da tua Mãezinha. Leva a minha graça, carinho e amor aos que te rodeiam, aos que cuidam d ti. Se soubesses como a todos amo também!

Veio Jesus, e acrescentou:

― Une tudo o que é Meu ao que te deu Minha Bendita Mãe; leva aqueles a quem amas, mesmo sem sentires que os amas. Confia que não deixaste de os amar. Amá-los desta forma é o amor mais puro, é amares-Me a Mim, acima de tudo. Vai distribuir, vai semear, vai salvar o mundo. Dá-Me dor sempre mais dor, dá-Me dor sempre na cruz.

― Ó meu querido Jesus, á minha querida Mãezinha muito obrigada, sou a Vossa vítima. Dai-me a graça de Vos ser fiel, dai-me força e amor para tudo sofrer.

11 de Julho de 1947 – (sexta-feira)

Não sei se estou ou não estou, se vivo ou não vivo no mundo. É na verdade, isto que a minha alma sente. Por vezes examino-me, interrogo-me a mim mesma: estou no mundo? Vivo nele? Ó meu Deus, parece-me que não vivo. As minhas trevas morreram e eu morri nelas, e nem por isso a ele abraçada. Ali, mais se me abriam as chagas e sobre ele mais as minhas carnes eram despedaçadas, e o sangue mais corria, mas inútil; a pedra não amolecia.

Nos entusiasmos e alegrias da ceia, não deixei de abraçar o Horto; via as grandes maravilhas de Jesus. Senti o amor com que S. João se inclinou ao Seu Santíssimo peito e o amor que, naquele momento, Jesus lhe fez sentir. Vi a luz, senti o amor de Jesus, ao dar-se a nós em alimento, mas o Horto não o pude deixar; segui então para ele. Que suor se sangue tão forte! Que agonia e amargura indizível! Levantei ao Pai o cálice e o sangue que transbordava regava o solo. Ouvi uma voz, que com toda a doçura dizia: amigo meu, a que vens? É com um beijo que entregas o teu Senhor! Que mal te fiz Eu a não ser amar-te? É assim que correspondes? E logo apareceu Judas que beijou Jesus.

No mesmo momento, vi uma lança muito aguda, que veio a espetar-se no Coração Divino de Jesus. Ele foi com ela para a prisão, no meio dos maus-tratos; não lha tiraram mais. O aumento dos maus-tratos aviva-Lhe mais a ferida feita por tão profunda lança. Saí, hoje, da prisão com Jesus; sigo com Ele para o Calvário. Sinto que a lança cá vai no Seu divino Coração e no meu, estão os dois num só, sofrem e sangram ambos, ao mesmo tempo. Sinto e vejo cair e levantar-se, para logo voltar a cair. Que sofrimento tão grande! Todo o Seu Santíssimo Corpo ferido, todas as feridas mais se avivam nas lajes, ao ser tão cruelmente arrastado.

Por vezes, vou eu a querer amparar Jesus, e não sou capaz; e não O posso ver sofrer assim. Que Calvário tão doloroso: Jesus desfalecido e eu também! Se eu O amasse, como Lhe dispensava em tais sofrimentos o meu amor! Sofro por O ver sofrer, sofro por O não amar. Ao aproximar-se o cimo da montanha, caí sem vida. O que lá me esperava ainda! O mundo, o Calvário de toda a ingratidão! No alto da cruz, o rosto de Jesus ainda era escarrado, e contra Ele proferiam muitas blasfémias. Jesus na Sua bondade infinita, como recompensa parecia mostrar-lhes o Seu Divino Coração, aberto pela dor e pelo amor, e convidava-os a entrar dentro. A uma recusa a Sua Santíssima alma chorava, eu sentia as Suas lágrimas. “Meus filhos, por que Me feris, por que procedeis assim?” Eu ouvia este murmúrio do Seu divino Coração. A agonia aumentava, já não era vida humana que fazia viver Jesus, mas sim a vida divina. Momentos antes de expirar, fez-me sentir e compreender que se viu morto, descido da cruz e depositado nos braços de Sua Santíssima Mãe; e, e com a dor Dela unida à Dele, assim expirou. Nesse momento, senti que de Jesus saiu um sopro de luz, um sopro suave, um sopro de vida. Jesus não se apressou a vir. Quando veio, disse-me:

― Minha filha, minha filha, vem ao Meu divino Coração, vem ao fogo, vem ao amor, que tanto anseias; é fornalha acesa, é fogo que não mais se apaga.

Senti-me dentro do Coração divino de Jesus, coberta com as Suas chamas. E Ele, por algum tempo, ficou silencioso.

― Recebe esta vida, Minha filha; é a vida que tu vives e a que Eu quero dês às almas. Recebe-a, espalha-a, semeia-a. Ama-Me, ama-Me por elas. Se sempre Me amares com o amor com que Me tens amado e anseia amar, Eu prometo dar-te muitas bênçãos e graças, não para ti que já de todas te enriqueci, mas por ti as almas as receberem. Eu farei que sejas para elas como raio fulminante; não raio que tira a vida, mas sim que lha dá, fazendo-as viver para a graça.

Jesus voltou a calar-se; desta vez, fui eu a falar.

― Meu Jesus, não Vos amo, não tenho amor, não Vos sei amar e não sou capaz de me tornar digna de Vós.

― Confia que Me tens amor, que Me amas loucamente. Quando te disse para te tornares digna de Mim, Eu vi com a Minha sabedoria infinita o muito que ias sofrer. Foram dois os proveitos: as almas e o maior aperfeiçoamento da tua. Que consolação para Mim ver o esforço da Minha esposa mais querida a corrigir-se das faltas, que Eu mesmo permito, para mais se embelezar e tornar digna de Mim. Faço tudo isto, Minha filha, para acudir às almas.

Depois de mais um pouco de silêncio continuou sempre Jesus.

― Deixa-Me agora, Minha filha, esconder-Me eu em teu coração, deixa-Me fugir do mundo; não vê-lo assim a pecar, a ofender-Me. Está no campo do pecado, do gozo, do prazer, da vaidade, da imodéstia. As praias, Minha filha, os bailes, casinos e cinemas, quantas inocências roubadas, quantas mortes de almas! Foi a reparação que te pedi, foram os combates do demónio. Continua a dar-Me essa reparação. Pede-Me pelas almas; não Me peças, não Me peças, não Me peças pelos corpos, que esses não têm remédio. O mundo, o mundo; o que o espera!

― Meu Jesus, meu Jesus, lembrai-Vos do Vosso amor, da Vossa misericórdia, e, como do alto da cruz, dizei agora ao Vosso Eterno Pai: perdoai-lhes, que não sabem o que fazem. Perdão, meu Jesus, perdão; quero acudir às almas, quero acudir aos corpos, quero sofrer e amar por todos; sou a Vossa vítima, meu Jesus. Estai sempre em meu coração, para ser este ferido e não Vós.

― Tem sempre nele, Minha filha, aceso o fogo do teu amor, da tua caridade de todas as tuas virtudes; quero ser nele abrasado. Deixa, esposa querida, grande heroína, estarem sempre em ti bem gravadas as Minhas divinas chagas e espinhos, que Me ferem. Para viveres e resistires à dor, recebe a gota do Meu divino Sangue; sou Eu mesmo o enfermeiro a introduzir o tubo em teu coração.

Jesus colocou-o, e sobre ele colocou o Seu Coração divino, para a gotinha do sangue cair.

― Vai dar esta vida, vai acudir às almas.

― Não a sei viver, meu Jesus, nem a sei distribuir. Eu só queria esconder-me e não aparecer mais. Não sei se estou a fazer bem ou mal, nem de que forma Vos dou mais glória, sozinha ou recebendo a quem vem? Que medo eu tenho de viver e de me enganar e perder a união Convosco.

― Bem escondida estás, Minha filha, dentro em Meu divino Coração. Nada temas, porque estou contigo. Não te enganas nem perdes a união Comigo. Quero que faças o sacrifício, recebendo quantos vierem, tenho-te aqui por isso. Quantas pessoas receberes, são outras tantas almas que têm o Céu certo. Quantas delas compreendem a tua vida de união, a tua vida íntima Comigo, e, compreendendo-a, aprendem-na, e principiam a vivê-la. Coragem, coragem, mensageira de Jesus, mestra das ciências e maravilhas divinas. Coragem; vai para a cruz que te espera; bem pouco será o tempo que viverás nela. O Céu espera-te, o Céu espera-te, Minha amada filha.

― Obrigada, obrigada, meu Jesus. Vou para a cruz e vou contente; vinde comigo para ela, não para sofreres, mas para me dares a Vossa força divina. Vinde, vinde, meu Jesus: sem Vós nada posso. Obrigada, meu Jesus; sempre o meu eterno obrigada.

18 de Julho de 1947 – (sexta-feira)

A minha vida morre nas trevas; eu já morri, e o que em mim vai nascendo, nelas vai morrendo sem conhecer a vida; apenas nasce, logo morre. Tenho o meu espírito tão escurecido parece-me que não sei compreender nem dizer o que sofro, o que em mim se passa. Eu sei que sofro dores, tristezas, amarguras, agonias de alma, mas não sei dizê-las, nem compreendê-las, nada ou quase nada. Apesar de ser em mim o sofrimento, sofro tanto à distância, sinto que não é meu o que sofro, e por ser tão longe e não ser meu, nada dele sei falar. Não me preocupa o não me compreenderem nem saber falar da minha dor, mas, sim, não sofrer como Jesus quer, com a perfeição que Ele quer, e não saber o que Ele quer. Causa-me verdadeiro horror o ver-me visitada por tanta gente. Tenho até nojo de mim, e pergunto a mim mesma: o que vem esta gente ver? Coitadinhos! Se vissem o que sou! E falo assim, porque sinto e vejo em mim um mundo de vergonhosa e nojenta podridão, podridão de tudo quanto há de imundo. Pobre gentinha que não vê o que eu sou! Esta repugnância e horror, que agora sinto às visitas, não é igual àquele que até agora sentia; este é mais sofrimento de alma; o que sentia era mais pelo cansaço e desejo de estar sozinha no silêncio, na união com Jesus. Este é mais horroroso, por ver que sou só podridão, que sou a vergonha da humanidade, indigna de aparecer aos divinos olhares de Jesus e ser assim tão visitada sem a pobre gente saber o que visita. O Senhor seja comigo, com a Sua graça, para que eu possa sofrer e ter aquela pureza de alma e corpo que o meu Jesus quer e eu devia ter. Ó meu Deus, ó meu Jesus, não sou digna de Vós. Onde está a minha perfeição? Em nada a encontro.

O demónio veio-me com dois os assaltos; veio de repente sem eu o esperar. Comecei a aborrecer e não querer junto de mim o crucifixo nem a querida Mãezinha, e ele logo me assaltou com gestos e feias palavras. Eu fiquei conhecedora de todas as maldades; nestes momentos, parece-me não haver pecados nem crimes que eu não conheça e não pratique, o que, graças a Deus não acontece fora destes combates. Lutei, lutei; o suor banhou-me o corpo; o coração parecia abafar-me, dentro do peito. Chamei Jesus e a Mãezinha para não pecar. Ser vítima sim, mas pecar não. Fiquei aterrada e cheia de vergonha, sem poder abraçar-me ao crucifixo. Quando pude, abracei, acariciei a Mãezinha, e disse-Lhe: Mãezinha, Mãezinha, o que é a minha vida; tende compaixão de mim.

Passei três dias sem receber o meu Jesus, não posso dizer o meu desfalecimento; tinha fome Dele. Senti tanto a Sua falta! Sofria como se tivesse as chagas abertas e a cabeça cercada de espinhos; sentia como se das Suas feridas corresse sangue; e, por vezes, dos olhos, ouvidos e boca sentia-o correr também; o meu corpo era como se fosse uma só ferida. Faltava-me o receber Jesus, que é a força de tanto sofrer.

Chegou a tarde de quinta-feira; começou o meu Horto com o ver chorar Jesus sobre Jerusalém; mas desta vez, as lágrimas de Jesus não eram só para a cidade, eram para o mundo inteiro. A minha alma chorava com Jesus; chorava como há tempos para cá chora, sem parar, mesmo no meio daquilo que me possa dar alegria; não sei pelo quê a alma chora sempre, mas, ao ver as lágrimas de Jesus, chorou mais ainda. A seguir, vi as escadas pelas quais Jesus subiu depois de ser açoitado e nas quais deixou marcados selos do Seu divino Sangue. Custou-me imenso, custou-me profundamente este sentimento e visão. Pouco depois, chegou alguém, que vinha de Roma; recebi presentes; eu sorria e a alma chorava. Falaram-me de várias coisas, que eu, por graça e misericórdia do Senhor já conhecia. Sofria ao ouvir, mas quando me falaram das escadas que Jesus tinha subido e que eu há bem pouco tinha visto e sentido, foi tal a dor, que me pareceu que o coração rebentou e saiu fora do peito; faltou-me a respiração, e, sem querer, dei um profundo gemido. Procurei mudar de assunto. Como a fome de Jesus era muito grande, disse que não tinha comungado. Um santo sacerdote, que estava presente, foi-me buscá-Lo. Recebi-O; incendiou-me de fogo o coração e o peito; curou-me, por algum tempo, as feridas da alma, e, numa união muito íntima, Ele disse-me:

― Venho abrasar-te com o Meu divino amor; quero queimar-Me também no teu, Minha filha. Ama-Me, enche-te de Mim, mata a tua fome. Como Eu te amo! Vê como Eu cuido de ti.

Pouco depois, lá foi de verdade para o Horto. A agonia da alma deu ao coração fortes impulsos que o obrigou o empurrar o sangue para as veias até as rebentar. A terra foi regada com sangue. Vi Jesus oferecer o cálice a Seu Eterno Pai no meio duma sebe de varas espinhosas; cingiam-No de cima abaixo. Com eles cercado foi Jesus preso e levado para a prisão. Oh! como eram grandes e agudos! Hoje, ia já com a cruz, a caminho dom Calvário, caí e fui pela primeira vez arrastada a grande distância, não pelas cordas, mas sim pelo cabelo. Não deixei a cruz, levei-a arrastada, unida a mim. Quase sem vida, cheguei ao cimo do Calvário; caí desfalecida, com o rosto em terra, junto à cova, que já estava aberta para ser levantada a cruz. Vi o sangue que havia de regar a cruz, encher a cova e correr o Calvário. Fiquei nessa cruz crucificada. De longe a longe, ouvia os gemidos e suspiros de Jesus. Que dor de alma! De vez em quando, sentia o palpitar do Seu divino Coração quase moribundo. E, na mesma ocasião, sentia como que os Seus divinos olhos agonizantes estivessem em minha alma, e, momentos antes de expirar, ficassem por um pouco entreabertos, como que a fitar o Calvário, a Humanidade. Gelou-se-me o peito, e expirei com Jesus. Demorou muito a falar-me. Quando chegou, ou quando se fez chegado, ficou como se mergulhasse em meu coração os Seus divinos lábios, e bebia sem parar; eu ouvia-O a beber sofregamente.

― Minha filha, bebo na tua secura, sacio-Me na fonte do teu coração. A tua sede de amor é amor. Quero beber, deixa-Me beber, mata-Me a sede, que tenho de ser amado. Quando, junto de ti, Minha filha, as almas te pedirem para implorares, para de Mim alcançares graças para elas, pede-lhes, pede-lhes sempre que Me amem, que amem Minha Bendita Mãe. Ama-Nos, filha querida; faz que sejam amados os Nossos Corações. Há tão pouco quem Me ame e tanto quem Me ofenda! O mundo, o mundo, oh!, como ele peca! Ama-Me, ama-Me, repara-Me com a tua dor.

Jesus disse isto e ficou silencioso. Passados momentos, apareceu-me com uma enorme cruz aos Seus Santíssimos ombros e as Suas divinas chagas abertas. Condoída dos sofrimentos de Jesus, disse-Lhe com toda a alma:

― Sou a Vossa vítima; dai-me essa cruz, dai-me essas chagas, passai tudo para mim, quero sofrer eu e quero-Vos, meu Jesus, na consolação.

Jesus passou logo para mim a Sua pesada cruz, deu-me a beijar as Suas divinas chagas, a principiar pela mão direita e a acabar pela do coração. Ao beijá-las, vinham-me de encontro ao rosto chamas de fogo. Ao beijar a do coração, pareceu-me ficar ali colocada, não podia separar-me.

― Tira do teu coração, minha filha, o bálsamo do teu amor, cura-Me todas essas feridas, sê tu a minha enfermeira.

Queria curar Jesus, e não sabia como nem com quê. Forçada não sei por quem, principiei a tirar do meu coração o bálsamo de que Jesus falava, principiei a espalhá-lo pelo Seu divino Corpo. Todo o ferimento desapareceu.

― Que confusão a minha, meu Jesus; eu pobre miséria não sou digna de tal ofício! Curo-Vos com o que é Vosso e não com o que é meu.

Tudo isto se passou, e eu sempre unida ao Coração de Jesus.

― É a tua dor e o teu amor, Minha filha, a Minha maior consolação e alegria. É a tua dor e amor o Meu desagravo e reparação; dá-Mo com alegria, dá-Mo sempre na tua cruz. Sem te separares deste Coração louco por ti, recebe do Meu para o teu, pelo mesmo tubo de amor a gota do Meu divino Sangue; recebe que é a tua vida, a vida que dás às almas. E prepara-te para receberes o teu alimento, a Minha divina Carne. Dou, hoje, essa honra ao teu Anjo da guarda; foi ao teu sacrário, ao sacrário da tua igreja buscar-Me para Me receberes.

Fui obrigada a inclinar-me e a recolher-me. Veio o Anjo com a Sagrada Hóstia, numa patena doirada; era patena de amor. O Anjo pronunciou as palavras “Corpus Domini nostri Jesu Christi”. Não vi multidão de Anjos, mas ouvia o zunir de muitas asinhas e o som mavioso das suas vozes.

― Desceu, desceu e baixou a ti o amor, o nosso Rei, o teu Senhor.

O Anjo da minha guarda ficou em sinal de reverência, ao meu lado.

― Vai, Minha filha, bendiz e ama sempre o Teu Senhor, por tão grandes maravilhas. Bendiz, beija e abraça a cruz, que te dou. Dá-Me toda a dor que te pedi; é o remédio das almas, é a sua salvação. Coragem, coragem; confia em Mim.

― Muito obrigada, meu Jesus. Sede comigo, ensinai-me a amar-Vos, ensinai-me a sofrer. Sou a Vossa vítima.

25 de Julho de 1947 – (sexta-feira)

Quanto mais corro, mais me foge Jesus, e foge-me com Ele o Seu divino amor. Quero amá-Lo, e não amo; morro por Ele, morro pelas almas. A Ele não O consolo, não O amo; as almas não as conquisto, não consigo trazê-las ao Seu divino Coração. O que hei-de fazer, meu Jesus? A quem hei-de procurar e amar, senão a Vós. É tal o desejo que tenho de dar almas a Jesus, ainda mesmo depois da minha morte, que, não podendo conter-me, escrevi por minha mão o seguinte: levei a minha vida a sofrer, e levarei o meu Céu a amar e a pedir a Jesus por vós, ó pecadores. Convertei-vos, e amai a Jesus, amai a Mãezinha. Vinde vamos todos para o Céu. Se sentísseis, por algum tempo, os martírios, que por vós sofri, estou convencida que não pecáveis mais; e, se conhecêsseis o amor a Jesus, então morreríeis de dor, por O terdes ofendido. Não pequeis, não pequeis, Jesus criou-nos, Jesus é Pai. Isto mesmo eu queria gravado em letras, à volta da minha campa, para comover, para chamar os pecadores a Jesus. Que ânsia tão fortes de Lhe dar almas!

Quanto mais faço, menos sinto fazer, e menos sinto amá-Lo. A minha sede é insaciável. Não cessa de chorar a minha alma; não há luz para o meu espírito; as minhas alegrias são morte. Tenho tanto quem procure aliviar-me, consolar-me! E tudo isso, que eu recebo como mimos do Céu, morrem sem que chegue a saboreá-los. Bendita seja a divina vontade de Jesus!

O demónio serve-se destes mimos, deste conforto que desejam dar-me para atormentar horrorosamente a minha alma. Como pode Deus a uma vida tão falsa, tão cheia de maldades, mimosear assim? É já a recompensa na terra; para outra vida é o inferno, é a perda eterna. Eu ando a cavar, a abrir a minha sepultura. O terreno é que eu o abro, é falso, é nojento, cheio de podridão; é terreno, é sepultura mundial. Que horror! Trabalho sem luz, cavo, e eu própria a desfazer-me na mesma cinza, na mesma terra podre e nojenta. Sinto, como se tivesse alguém dentro de mim, em lágrimas, num só suspiro, numa tristeza sem igual. Ao observar toda esta podridão, vou sentindo sempre o corpo ferido, a cabeça cingida de espinhos, as chagas abertas e a do coração sem nunca lhe tirarem a lança. Veio unir-se a este meu pobre coração o da querida Mãezinha, cheio de setas. Como Ela sofre! Sinto-o bem. O Seu Santíssimo Coração não se separa do meu; tenho assim de sofrer com Ela. Que doloroso martírio o do meu corpo e da minha alma! Quantas vezes desfaleço e sinto não poder resistir a tanta dor.

Ontem, com todo este sofrer e a visão do Horto estava desolada e sem nenhuma vida. Senti e vi com os olhos da alma Jesus em tamanho natural, cravado na cruz e dela desprendeu os Seus Santíssimos braços para me abraçar; ficou preso à cruz só pelos cravos, que Lhe cravavam os pés. Com este abraço de Jesus levantei-me, fiquei com a alma mais forte. Veio a hora da ceia. Vi Jesus sentar-se à mesa com os Seus Apóstolos e ao sentar-se falou para Si o Seu divino Coração. Manjar divino; a ceia do Meu amor. Todo o aposento se iluminou e todos os Apóstolos ficaram embebidos naquele amor, que Jesus irradiava pelos Seus divinos olhos, lábios e todo o Seu ser, porque todo Ele era amor. Só Judas desesperado, com o demónio nele e o fogo infernal, já não recebeu o amor de Jesus. Como Ele amava, sofria e sorria! Como via tudo o que O esperava. Dali fui para o Horto; senti o romper das veias, as lágrimas de sangue, toda a agonia. Quando Jesus foi preso, vi Judas em atitude desesperadora a cravar no Coração divino de Jesus, que estava dentro em meu peito um grande e agudíssimo punhal. Por aquela grande ferida saíam raios doirados. Com o punhal cravado e a espalhar amor, assim foi Jesus para a prisão.

Hoje com o mesmo punhal seguiu comigo as tristes ruas da amargura. Levava no meu a lança e o Coração da Mãezinha com as espadas. Seguimos os três a amargurada e negra viagem. No alto da montanha, ao pé da cruz, fui despida. Sentia todo o corpo chagado e a essa chagas colados os vestidos; saíram com eles pedaços de carne. No cimo da cruz, continuamos os três a mesma dor. Senti que Jesus queria levar o Seu divino Coração, aberto pela lança do amor, a cada alma, que estava no Calvário e em toda a Humanidade, para lhes dar nele entrada. Ele via que não Lhe era aceite a Sua oferta, por isso a agonia aumentou. Cerrou os Seus divinos olhos e dizia: vou morrer, aproveitai-vos do Meu divino Sangue, da minha morte se quereis salvar-vos; morro para dar-vos o Céu. Isto foi dito momentos antes de expirar. E, na maior agonia por ver tanto sofrimento inútil, expirou. Sem O ouvir, sem O sentir, estive morta com Ele. Veio, falou-me, deu-me vida.

― Coragem, Minha filha. Eu venho a ti dar-te a vida do corpo, dar-te a vida da alma, confortar-te, levantar-te e desabafar contigo. Confia em Mim, confia no que te digo, se não queres desgostar-Me. A vida que vives, a vida que sentes, não é tua, á a Minha vida divina, é a vida do mundo. Tu, és Minha filha, a partir de todos os martírios; és a Minha maior vítima, experimentas todos os sofrimentos. O Artista divino não cessa, um momento, de trabalhar em ti. Quando Eu, ontem, despreguei da cruz os Meus divinos braços para te abraçar, não era porque estivesse na cruz; na cruz estavas tu. Eu vim confortar-te e provar-te que se não estives tu, estava Eu crucificado. É assim que deves sofrer e amar. Aceitas, continuas contente a estares sempre na cruz? Responde-Me, quero ouvir-te.

― E Vós, meu Jesus, continuais a auxiliar-me, a sofrer em mim? Se assim continuais, também eu continuo. O que eu quero é fazer a Vossa divina vontade, amar-Vos e dar-Vos as almas, mas temo a minha imensa miséria.

Jesus conservou-se, por um espaço de tempo, calado. Eu fiquei a viver Dele.

― Minha filha, essa vida de miséria é a vida do mundo. A terra que cavas, a sepultura que abres é o mesmo mundo a sepultar-se na sua perda eterna. O que sentes em ti a desfazer-se são as almas desfeitas pela lepra do pecado. Minha filha, Minha filha, as praias, os cinemas, as casas de jogo e de perdição, as vaidades, e imodéstia, as ambições, enfim todos os vícios é essa a podridão que cavas e a que abres a sepultura. Pobre Humanidade a sepultar-se! Pobres vítimas a imolarem-se! Pobres para os olhos do mundo, mas ricas, eternamente ricas para Mim. Depois de outro intervalo de tempo, continuou o meu Jesus. Minha filha, vítima inigualável, continua a dar ao teu Jesus toda a dor, sempre alegre na tua cruz. Que podridão a do mundo! Que ingratidão a da almas! Para mais aumentar o meu sofrimento, juntam-se a tudo isto os crimes dos sacerdotes. Sofre, ora, repara por eles. Meu Eterno Pai quer incendiar com o fogo da Sua divina justiça as praias, cinemas, casas de jogo e de pecado. Sofre, sofre, repara.

― Jesus, Jesus sou a Vossa vítima, imolai-me Convosco no santo sacrifício, nos santos altares. Fazei Vós a oferta ao osso Pai para aplacar a Sua justiça divina.

― Recebe, Minha filha, a gota do Meu divino Sangue, a vida do teu corpo, a vida da tua alma, a vida das tuas almas; recebe-a sempre pelo mesmo tubo de amor.

Jesus introduziu o tubo no meu coração, e, e antes de colocar o Dele sobre o tubo, bafejou-me por ele com os Seus divinos lábios, e dizia-me:

― É bálsamo divino, é bálsamo de amor.

Depois colocou em cima o Seu divino Coração, a gotinha do Sangue caiu dentro do meu, fez-mo encher e viver mais fortemente. Jesus voltou, de novo, a acalentar-me, para assim poder resistir a tanta fortaleza do Seu divino amor. Após uns momentos, ficou na cruz. Mesmo assim chagado, a sofrer, todo Ele era amor. De todas as Suas chagas saíam sois brilhantes. O Seu Santíssimo rosto resplandecia de luz. Jesus era todo dor e amor.

― Minha filha, Minha amada filha, a tua cruz já te espera. Imita-Me; sofre e ama ao mesmo tempo. Ama o Meu divino Coração, ama as almas, acode-lhes. Repara, repara as ofensas, que Me são feitas. Fita-Me na cruz, vive à Minha semelhança. Semeia, dá esta vida, a tua sementeira dará frutos brilhantes. Sofres com Jesus, semeias com Jesus, colhes com Jesus. Coragem, filha querida, vai em paz, cheia de confiança. O Senhor é contigo. Não te enganas; és sempre a nova redentora das almas.

― Obrigada, meu terno e doce Jesus; sede comigo, não me deixeis cair no desfalecimento, e deixai-me confiar em Vós. Vou contente para a cruz. Ai de mim, sem a Vossa graça!

1 de Agosto de 1947 – (sexta-feira)

Invoco os auxílios do Céu; sem eles não poderei ditar. O que tenho sofrido; só o mesmo Céu, só Jesus é conhecedor! Que mar de dor! E sinto que de nada me tem aproveitado tanto sofrer. Quanto mais sofro, menos tenho que dar. Quando sentia que os meus sofrimentos não chegavam, junto de Jesus, e com o meu muito sofrer não lhos oferecia como devia, dizia-Lhe: vede, Jesus, vede, no meu coração, por quem eu sofro, nele vede a quem eu amo, ou melhor, meu Jesus, a quem desejo amar; assim fico certa de que não tento enganar-Vos e de que sabeis a verdade, que sempre quero ter em meus lábios. Tudo me foge, tudo se apaga. Os dias passa, os sofrimentos aumentam, e eu cada vez me sinto mais indigna de Jesus. E Ele a querer-me cada vez mais pura, mais digna de O possuir. Tenho medo de falar de mim, dos meus sofrimentos, de toda a minha vida. Tenho medo de todos, tenho medo das minhas trevas, de tão medonha cegueira; morri nelas, e esta morte a elas se colou, e não se descola mais. Não sei dizer o meu martírio. Se eu falasse de Vós, do Vosso amor; mas falar de mim e de quanto sofro, quanto me custa, ó amor da minha alma! Bendita seja a cruz que me dais.

Tinha o meu corpo em dores agudíssimas, a febre a grande altura, e mesmo assim não fui poupada pelo demónio; assustou-me, por duas vezes, com um pequeno intervalo, de um ao outro. Vestiu-me e revestiu-me de todas as maldades, e colocou-me num mundo das mesmas maldades. Tudo era desprezo e aborrecimento ao bem, prazer e loucura pelo mundo. travou-se a luta com as suas vergonhosas lições. Gritei por Jesus e pela Mãezinha: não posso nem sou nada sem Vós; acudi-me; não quero pecar, prefiro o inferno; se hei-de ofender-Vos, dai-mo já, meu Jesus; sou a Vossa vítima.

Não ouvi nem vi quem me defendesse., mas cessou a luta. Ficaram os espinhos muitos penetrantes, provocados pela lembrança, se teria pecado, mas, tempo depois também desapareceram. Jesus não deixou de velar por quem só a Ele quer pertencer. Tive alegrias, que logo morreram e espinhos, que sempre me ficaram a ferir. Tudo recebi como mimos de Jesus, tudo Lhe ofereci e agradeci do meu coração. Muito obrigada, meu Jesus; fazem tão bem à alma as humilhações! Para mim o Vosso divino amor, e para Vós toda a glória, meu Jesus. Continuo a sentir a chagas, a coroa de espinhos e a lança.

Ontem, logo de manhã, encostada ao meu coração, quase em forma de cruz, principiei a sentir e a ver a esponja. A minha sede aumentou, dizia para Jesus: é de Vós que eu tudo recebo, são as almas que eu quero dar-Vos. Era já quase noite e eu a arder nesta sede; e vi Jesus, de mãos atadas, cordas ao pescoço e à cinta, rodeado de malvados. Trouxeram-Lhe uma cruz, que Lhe colocaram, aos Seus ombros divinos. Ele inclinou-se, inclinou-se com tanto peso, quase chegava com o Seu Santíssimo rosto à terra. Isto não era em mim, e veio para mim. Que pena e dor eu senti; levou-me à agonia do Horto. Quando lá sofria em tanta amargura, sem nenhuma vida sem nenhum conforto, transformou-se o Horto num formoso jardim, todo rodeado de loiro trigo, aos molhos. Que grande e formosa seara! No meio do jardim estava ao alto uma cruz; no centro dela um coração; não sei com que estava preso. Vinham do alto raios de fogo, que passavam por dentro desse coração, aberto dum lado ao outro, e iluminavam tudo. Do pé da cruz, saíam fortes pés de açucenas que cresceram e abriram formosas quase até aos braços da cruz. Isto foi visão; não se passou em mim, mas senti-me ferida por aquele fogo, senti-me outra abrasada nele; com a alma muito confortada, fiquei com mais vida.

Algum tempo depois, vi-me num grande bosque, rodeada de feras, grandes, pequenas, mas todas feias, aterradoras. Pensei ir ter com o demónio algum combate, por já ter assim acontecido. Mas não; pouco depois, vi todas aquelas feras a correrem à minha frente, e não sei quem atrás delas com grandes chicotes a chicoteá-las. Eu fiquei num campo grande, libertada; tinha tudo por minha conta.

Hoje de manhã, vi Jesus a ser despido até à cinta, e, depois, preso à coluna. Jesus era maltratado, estava muito triste; com que modos bruscos O despojavam dos Seus vestidos! Até aqui foi só com Ele; e, depois, os açoites foram sobre o meu corpo. Que chuva deles eu senti caírem! Do caminho do Calvário nada mais sei dizer, nem da maior parte do tempo da montanha. Era um mundo de sofrimentos indizível, não sei dizê-los; a cegueira do meu espírito não me deixou compreendê-los. Pouco tempo antes de Jesus agonizar, vi uma alma subir por uma escada que estava posta à cruz; vi que ela subia com muito custo. Subiu, subiu e foi meter-se na chaga do Coração de divino Jesus e desapareceu. Vinham sempre do alto uns raios de fogo que trespassavam o mesmo Divino Coração. Logo fiquei a sentir Jesus, em mim crucificado, e eu crucificada com Ele, a sentir o Seu Coração transformado no meu, e aquele fogo transformou-se numa lança, que nos atingia os dois; era lança só de amor. Logo fiquei a sentir o mesmo sofrimento indizível e então todas as chagas abertas, a coroa de espinhos, o correr do sangue, o fim da vida; e assim expirei a sentir que voou de mim uma vida como um sorriso para Deus. Nesta morte passou-se um bom pedaço, sem que Jesus viesse.

― Minha filha, Minha filha, é doloroso o teu martírio, é difícil o teu Calvário; já quase não podes, oprimida, com tão pesada cruz. Tem coragem! É martírio da salvação, é Calvário de vida, é cruz de amor. Pedi-te muito, porque muito sou ofendido. Sofre assim, para não veres o Meu divino Coração ferido. Sofre contente. Ai do mundo, sem o martírio das Minhas vítimas! Pobre mundo, sem a imolação da Minha maior crucificada! Não posso, filha querida, tirar o braço do Meu Eterno Pai a escora que o sustenta. Deixa-te crucificar, alegre, sempre alegre.

― O braço cai, o braço cai. O mundo perde-se, as almas condenam-se. Ó meu Jesus, ó meu Jesus, quero sofrer, e não sei sofrer; quero a alegria, e não sei ser alegre; quero tudo por Vós para acudir às almas, e não sou capaz de nada, tende dó, tende compaixão, e, momento a momento, menos digna de Vós.

― Se tens confiança em Mim, Minha filha, confia no que te digo. Sabes sofrer, sabes sofrer e muito tens para Me dares. Amas-Me, amas-Me. O teu esforço, para te tornares digna de Mim, é amor, e depressa te vais corrigindo dos teus defeitos. Quanto mais queres vir para Mim, mais para Mim voas. Tem coragem, tem confiança.

Houve um intervalo de silêncio, e, depois, continuou Jesus.

― A tua vida vai-se tornando dia a dia, Minha filha, cheia de luz, não só para aqueles que a têm estudado e estudam, mas também ainda venham a estudá-la. A mesma luz vai servir de confusão, de remorsos a alguns daqueles que a não estudaram como deviam. É a vida de Cristo. A visão, que tiveste ontem, sou Eu em ti a salvar as almas. As flores, que rodeavam a cruz, são aquelas almas, que por ti vêm a Mim, puras e abrasadas de amor. A seara do trigo loiro são os teus sofrimentos, tudo quanto semeias é a colheita dos pecadores. Feriu o amor o Meu divino Coração; é o amor que numa só união fere o teu. É revestido de Mim, com os Meus méritos, que salvas as almas. Os teus sofrimentos em Mim são os sofrimentos de Cristo. Têm um valor infinito.

― Ó meu Jesus, queria aqui, neste ponto, desabafar, mas não é Convosco que eu desabafo; será com a querida Mãezinha, se voltar a ter a dita de falar com Ela; se não dizei-Lhe Vós as mágoas do meu coração, o que me julgo diante Dele e quanto A desejo amar.

― Volta a falar contigo. Filha querida; desabafa com Ela; nada temas; confia em Mim. O teu Calvário de hoje é já uma realização das Minhas divinas promessas. Não te disse Eu que não chegavas a não saber explicar o que sentias e sofrias? Vês como se realiza o que diz Jesus? Recebe agora a gota do Meu divino Sangue para reparares as forças perdidas pela dor e receberes vida para a contínua imolação e amor. O teu martírio é amor, só amor. Vou unir os nossos corações.

Jesus tomou o Seu divino Coração; no centro trazia o tubo do amor que infundiu no meu; passou a gotinha de sangue, e, por alguns momentos, passou amor. Senti como se me caíssem os braços e eu caísse desfalecida. Jesus veio como que acudir-me, bafejou-me, acariciou-me, e disse-me:

― A tua vida é um milagre divino, e o mesmo milagre tenho que operar para aguentares com a força deste amor. Coragem! Tu vives para as almas; vai salvar as almas. És fonte de vida, és fonte inexaurível de salvação. A tua vida é a Minha. A alma, que hoje viste subir à cruz e perder-se em Mim, foste tu mesma. Feriu-te o amor, perdeste-te para Eu aparecer, deste a vida para dares vidas. E foi Comigo e em Mim que te perdeste; é por isso que és a Minha vida Coragem, coragem!

― Obrigada, meu Jesus; ensinai-me a amar-Vos, ensinai-me a sofrer.

2 de Agosto de 1947 – (1º sábado)

Que choro na minha alma! Fiquei logo assim, ontem, depois do colóquio com Jesus. É tão grande e de tal forma o sofrimento que sinto, que, hoje, de manhãzinha, sem querer, sem saber como, falei comigo mesma, e disse: “Não me obriguem a dizer os sofrimentos da minha alma, que eu não sei, não os conheço, tenho medo”. Só depois é que reflecti que era o meu coração que falava.

Num mundo de variáveis amarguras, esperei a chegada do meu Jesus, e preparei-me para O receber bem, o melhor que pude. Recebi-O, e não demorou muito tempo que Ele transformasse o estado da minha alma, mudando as amarguras em suavidade e doçura.

― Minha filha, sofrer é amar, viver na cruz é amor, amar o sofrimento, é amar Jesus e as almas, é subir ao mais alto grau de amor. A tua cruz é resplendorosa, é cruz de redenção. Ó Minha filha, se soubesses quanto necessito dos teus sofrimentos para reparar-Me! Deixa-Me desabafar. Olha como me tratam alguns sacerdotes.

Quando Jesus disse isto, vi abrir-Lhe o peito com um instrumento cortante; parecia uma espada. Depois de um grande golpe, de cima abaixo, começaram a cravarem-Lhe em Seu divino Coração punhais e mais punhais. Como Jesus sangrava! Acudi logo:

― Isso não, meu Jesus; deixar-Vos sofrer assim, não é para o meu coração de filha.

― Ó filha amada, ó filha amada, deixa-Me então crucificar-te.

Colocou-me Jesus sobre a cruz, e foi Ele mesmo a bater nos cravos; crucificou-me com doçura. Os sofrimentos de Jesus desapareceram, e eu fiquei na cruz, bem crucificadinha. Ele continuou:

― Vive assim, filha amada, para não caírem no inferno os sacerdotes, que tão mal Me tratam; os Meus amigos ou que deviam sê-lo. Eles não só renovam a Minha divina paixão, mas consentem que outros a renovem, recebendo-Me sacrilegamente. Dá-Me por eles, durante este mês, 5 horas por dia do teu sofrimento. Oferece-Mo tu, para que não caiam já no inferno. Eles não têm dó de Mim, não vêem o mundo com toda a sua luxúria e desonestidade; não vêem as almas a cometerem contra Mim os mais horrorosos crimes. E elas, e eles que deviam ser Meus amigos. Dá-Me o teu sofrimento por eles.

― Aceitai-O, desde já, Jesus, fazei de mim o que quiserdes; poupai-os ao inferno.

― Minha filha, diz ao teu Paizinho que por ti lhe dou o Meu divino Coração com todo o meu amor, com todas as minhas graças. Que tome para ele o que quiser, e que tire para cada alma tudo o que quiser. Não lhe posso dar maior prova de amor e do Meu contentamento para com ele. Criei-o para Mim, criei-o para as almas, e dou-lhe o que quero que ele dê às almas. Coragem, coragem, coragem e confiança. Diz ao teu médico que a fidelidade dele ao Meu chamamento a este Calvário para cuidar da Minha divina causa e cuidar de ti, atraiu para ele e para todos os que lhe são caros e com ele trabalham todo o Meu divino amor, todas as Minhas graças. Dei-lhe a maior honra, a maior glória que lhe podia dar na terra. Diz-lhe que o esperar humilhado e confiado é ter a vitória certa. Minha Mãe Bendita, vem consolar já a Nossa filhinha crucificada.

Veio a Mãezinha, tomou-me em Seus braços e comigo a cruz. Principiou a calentar-me, acariciar-me e beijar-me as chagas.

― Ó Mãezinha, não faças isso; suavizai-me o meu sofrimento, mas não façais coisas que me humilhem e o que o mundo lhe possa dar outro sentido. Suavizai-me a dor, mas sem isso. Vós sois a Mãe de Jesus; a filha do Padre Eterno, a Esposa do Espírito Santo, a Rainha do Céu e da terra, e eu uma criatura Vossa, filha do Vosso Jesus. Quem sois Vós e quem sou eu, para me tratardes assim? Vós bem sabeis, querida Mãezinha, quanto me sinto pequenina, na Vossa Santíssima presença.

Quantas vezes Vos tenho dito que não sou digna de beijar, não só os Vossos Santíssimos pés, mas também o chão, não onde eles se pousassem, mas onde eles fizessem sombra. Jesus o vê e Vós também como me sinto pequenina, diante de tanta grandeza. E também vedes quanto sofro, por saber que dizem que quero ser tão grande como Vós e que contra Vós proferi heresias. Ó Mãezinha, ó Mãezinha, perdoai-me; se o fiz, não o compreendi, não soube que Vos ofendi.

Acudiu Jesus e com a Mãezinha; acariciaram-me mais doce e fortemente.

― Não Me ofendeste, não, Minha filha, digo deles o que disse Jesus na cruz: não sabem o que fazem; pobres que nada compreendem!

Voltou a acalentar-me e a bafejar-me com toda a doçura, e disse-me:

― Leva o Meu amor e o de Jesus, leva toda a Minha ternura aos que amas, te amparam e rodeiam. Dá-o ao Meu Padre Humberto, ansioso dos Meus mimos. Leva para todos as ternuras, o amor do Meu Santíssimo Coração e do Meu Jesus. Diz-lhes que junto vai toda abundância das Nossas graças.

Disse Jesus:

― Coragem, Minha filha; deixa falar os homens. És redentora, porque em ti tens O Redentor; tens com Ele poder infinito. És poderosa com Minha Bendita Mãe; fiz-te poderosa com Ela, porque, à semelhança Dela, o mundo te entreguei. És a Nossa vítima, pequenina violeta, és tudo com Jesus, és tudo com Maria. O Céu é dos humildes. Coragem, coragem!

― Obrigada, querida Mãezinha; dai-me o Vossa amor, dai-me a Vossa paz, tranquilizai-me o coração para que nessa paz e amor possa subir até Vós. Ó Jesus, ó Mãezinha! Ó Jesus, ó Mãezinha! Assim Os deixei fugir e fiquei na minha cruz.

8 de Agosto de 1947 – (sexta-feira)

Cavo a minha sepultura, cavo a sepultura mundial. E sinto-me tão ferida com esta nojenta escavação! O coração sangra; as chagas, as feridas dos espinhos, todo o meu ser é feridas e sangue. Sinto em mim um olhar, que não pode ver esta sepultura tão podre. Não posso vê-la, meu Jesus, não posso vê-la nem estar assim ferida e em sangue. Ó meu Deus, não posso e quero estar a sangrar, a dar o meu sangue, gota a gota. Morrer para dar a vida a esta terra podre, e esta massa nojenta. Jesus, que fome eu tenho, e esta fome é de Vós; enchei-me, saciai-me; este bem que eu sinto, só Vós o podeis encher.

Ninguém me satisfaz; nas criaturas não encontro alegria nem conforto; Vós, só Vós, vinde, Jesus, encher-me e confortar-me; Vós, só Vós sois a minha alegria e a minha paz. Chamo-Te, Jesus, procuro-Te, não Te encontro, não me falas, ó Jesus, ó Jesus, onde estás Tu? O meu peito é rasgado, golpe sobre golpe; sinto como se em minhas mãos tivesse o coração como uma bola de sangue a mostrá-lo a quem o feriu; mostro-o sem obter resultado; não têm de mim compaixão. Fala, de dentro dele, uma voz dorida: “não há dor igual à minha dor”.

Vem um espinho e outro espinho, uma dor e outra dor, e, por vezes, sinto a revolta da natureza, um rápido momento, de querer fugir à cruz. Mas não quero; tudo isto me serve para mais sofrer; quero ser perfeita e não sou, não quero magoar o meu Jesus e estou sempre a magoá-Lo. Que miséria, que fragilidade a minha! Quero esconder a minha vida, e não posso. Não queria que soubessem o que Jesus na Sua bondade infinita faz em minha alma, e não me deixa ocultar. Que horror! Oh! quanto sofro! Queria perder mundos e mundos, se os possuísse, e nada se saber. Ó minha cruz bendita tu sejas, e bendita seja a vontade do meu Jesus. Morra o meu querer e a minha vontade, se alguma coisa existe. Perdoai-me, ó meu Jesus, se Vos ofendi. Quanto mais profundos são os golpes, quanto mais no íntimo do coração e da alma me calam os espinhos, mais atracção eu sinto para O meu Jesus. Quantas vezes O quero beijar e abraçar com toda a Santíssima Trindade e a Mãezinha querida, mesmo quando as contrariedades aumentam, e as humilhações me esmagam e oprimem; quando os sofrimentos e a falta de forças não me permitem realizar os meus desejos, satisfazer as minhas ânsias, só com o pensamento digo: Jesus, a Vós me entrego; abraça-Vos e beija-Vos o meu coração e a minha alma; são estes que Vos dizem e fazem tudo; eu não posso. E assim, entrego a Jesus, fico no meu sofrer, fico como que adormecida ou morta na dor, mas a sentir e a viver a dor. Tudo isto é por amor, sem sentir que amo.

A justiça divina, a ira do Senhor vem tantas vezes, a cair sobre mim, vem mesmo a esmagar-me, e, não sei porquê, volta a subir sem me deixar ferida. Eu estou cansada de ver tanta justiça, mas outro cansaço maior sinto ainda, por ver que essa justiça tem que ser aplicada. A minha cruz, a minha cruz, que tanto pesa, quanto me custa levá-la, e não quero nem posso caminhar sem ela; amo-a, amo-a mesmo sem amor.

Ontem, logo de manhã, gravaram-se na minha alma Jesus com os Seus Apóstolos. Jesus via aproximar-se a morte, e, quase sem poder com aquela separação, dizia: é chegada a minha hora, vou morrer; parto, mas fico convosco. E o Coração divino de Jesus ardia sem amor. Passavam-se as horas, o horror dos sofrimentos aumentava e o amor crescia também. Eu sentia, como se o meu peito fosse uma fornalha, o coração uma caldeira sempre a ferver sobre essa fornalha; quanto mais fervia mais deitava fora, quanto mais transbordava mais enchia. Jesus fitava a Mãezinha, voltava a fitar os Apóstolos, e, numa dor muita profunda, murmurava: tenho que deixar-Vos, não posso separar-Me de Vós; Eu vou, mas fico; prende-Me a Vós o Meu amor. E os laços do amor de Jesus enleavam-se, mais e mais, no Coração Santíssimo da Mãezinha e dos Apóstolos. Fui para a ceia, todas as palavras e sorrisos de Jesus eram amor. Se eu soubesse falar deste amor! Todo Ele era amor, amor, só amor, amor a enfrentar maldade e ingratidão. Judas, já não era Judas, já se via nele um verdadeiro demónio. Fui para o Horto, a minha alma sobre ele chorava amargamente, chorava com o rosto em terra, e, com o rosto em terra, senti abrir-se-me o coração e regar o solo com todo o meu sangue; quase me senti agonizar em tanta dor e amargura.

Hoje, não fui eu que senti o Calvário, foi Jesus que o seguiu dentro do meu peito e do meu coração que se representaram as ruas da amargura. Como eu sentia Jesus! Quanto me custou Ele caminhar tão desfalecido, cair tantas vezes banhado em suor e sangue, coberto de feridas e cercado de pungentes espinhos em Sua Sacrossanta Cabeça. Maldito seja o pecado; em que estado ele pôs Jesus! Falha-me o coração, por não saber compreender nem dizer os sofrimentos de tão penosa viagem. No cimo da montanha, então já era eu que sofria com Jesus; era Ele em mim, era eu Nele; todas as Suas chagas eram minhas, e minha foi a Sua crucifixão; era meu e Dele o sangue que no alto da cruz derramamos; era Dele e meu o amor que a toda a humanidade se estendia. Mas oh! que amor tão mal correspondido!

Com Jesus tudo me foi presente; vi o passado, o presente e o futuro. Que mundo de tanta maldade! Que Calvário de tanta agonia! Ver tanto sangue derramado, inútil para tantas almas. Assim agonizei, e Jesus comigo. Senti sair de mim a Sua vida; fiquei como morta à Sua espera. Ele demorou, mas principiou logo a enlear, a prender o meu coração a um mundo de corações; incendiou-me o peito num fogo abrasador, e disse-me:

― Minha filha, é com as cadeias do Meu divino amor que Eu te prendo aos corações e às almas. Coragem! Quer no Calvário quer na cruz, és o amor, és a vida, és a salvação dos pecadores. Eu estou contigo, e assim és e serás sempre uma cruz de redenção. A tua vida é de maravilhas e encantos divinos. O teu sofrimento é uma salvação contínua. Ensinas às almas a resignação, a caridade e o amor; és escola de virtudes; é por isso que Eu quero que muitas almas, que o mundo aqui venha aprender.

― Ó meu Jesus, ó meu Jesus, estou cheia de defeitos. As almas aprendem em mim as impaciências, os maus modos e tantas coisas, que lhes dou mau exemplo, e Vos desgostam a Vós. Perdoai-me, vede como estou triste pela minha má edificação, por não ser perfeita e aceitar tudo com alegria. Desgostei-Vos, Jesus? Estais triste comigo?

Jesus sorriu-se com a doçura, e, depois de um intervalo de silêncio, disse-me:

― Não estou triste, não Minha filha, compreendo-te bem. Queres escondimento. Mas olha; para ser mais perfeito, entrega-te a Mim, e obedece em tudo, na certeza que em tudo fazes sempre a minha divina vontade. Não te preocupes com os teus defeitos; quanto mais perto está o sol, mais perto está a luz. Quanto mais te aproximas de Mim, mais vês a poeira das tuas faltas, com os raios do Meu sol divino. Eu vou pedir-te, Minha vítima amada, combates com o demónio; preciso de grande reparação; aceitas?

― Ó meu bom Jesus, e se Vos ofendo? Eu só os temo com receio de Vos ofender.

― São dolorosos, são, Minha filha, mas mais dolorosos ainda, são os espinhos que vêm ferir-Me. Que crimes horrorosos. Horrorosos têm que ser os combates. Mas não Me ofendes; Eu não o permito. Previno-te, desde já; o maldito vai atormentar-te, que estou revoltado contra ti, que fui Eu que te castiguei, mas não fui. Foi ele que veio dizer-Me que conseguia a tua desesperação, a tua revolta contra Mim, se Eu o deixasse espancar-te e com a cruz. Como Eu via a consolação que Me ias dar e que nada de culpa havia em ti, consenti. Arrancou-te dos braços, mas sem te tocar, a cruz, com a Minha imagem crucificada e atirou-te com ela fortemente. Disse-lhe: “Basta”; e ele fugiu. Se soubesses, Minha esposa amada, quando de novo, Me abraçaste e repetiste muitas vezes: meu Jesus, por Vosso amor; a consolação que deste ao Meu Divino Coração, que alegria e gozo seria o teu! Que furor e raiva a do maldito! Se Eu o deixava assaltar-te, num momento, tirava-te a vida. Vem agora ao teu alimento, à vida que dás às almas, a gota do Meu divino Sangue.

Jesus colocou, no meu coração, o mesmo tubo dourado; depois, uniu o Seu divino Coração, caiu a gotinha de Sangue, e ficou, por algum tempo, a infundir-me amor.

― Enche-te, enche-te, Minha filha, e dá às almas este amor, esta doçura e carinho.

― Aceitai, Jesus, tudo o que eu Vos possa dar, que Vos console, e tudo que Vos possam dar os que me são queridos.

― Espalha por todos este amor, porque a todos amo loucamente. Filha querida, filha querida, repara bem, fita a cruz, vai para ela, vai com o teu sorriso, ama-a, olha as almas, acode-lhes; olha os pecadores, salva-os. Vai, vai com amor. Vou contente, meu Jesus; acompanhai-me sempre.

― Muito obrigada, muito obrigada, meu doce amor; sou a Vossa vítima.

15 de Agosto de 1947 – (sexta-feira)

Estou cansada de tanto dizer da minha vida. Não poderei, Jesus meu, ocultá-la e escondê-la para todos, todos, para que ninguém saiba de mim e do que em mim se passa? Deitai-me a Vossa divina mão, meu doce Jesus; eu não posso levantar-me; que tristeza tão profunda me invadiu o coração! Ai, Jesus, saber-se a minha vida e eu sem ter querer nem vontade, sentir a necessidade de desaparecer! Se pudesse apagar-se toda a minha vida sem prejuízo da glória de Jesus e bem das almas! Ai tantos espinhos na minha cabeça e no meu coração! Que chuva de sangue eu sinto e vejo cair das feridas por eles causadas! As chagas estão abertas; sinto que elas se têm aberto e alastrado tanto; parece-me que o coração, as mãos e os pés já não têm lugar para maiores aberturas. O que eu sofro! O que sente a minha alma! É tal o medo e cansaço que sinto por ter de dizer as coisas da minha vida, que me sinto morrer, e tenho que morrer. E eu que não tenho querer, nem posso ter querer, não queria morrer desta forma.

Meu Jesus, não sei dizer melhor; estou tão ceguinha, nada vejo e nada sei dizer. Ó minha cruz, minha amada cruz, quanto eu te quero! O que vejo eu na minha cruz? Vejo amor, mas amor sem limites, um amor sem igual; e vejo a dor, mas uma dor que encerra todas as dores; é um conjunto de dores. E eu abracei a minha amada cruz, e este abraço foi eterno. Sinto, como se ela uma vez ou outra me escapulisse dos ombros, mas é por me parecer não poder mais; sinto deixá-la cair por vontade. Isto é o meu desfalecimento. Eu quero-a, eu amo-a o meu abraço eterno está dado. Sinto o coração tão preso a ela que não pode separar-se; é cruz e coração, é coração e cruz, é uma só coisa; amor, dor e cruz, é minha, quero-a por Jesus e pelas almas. Jesus quero desabafar; é neste papel que eu desabafo; vou à procura do que não encontro, procuro e não acho, quero alívio, anseio por ele sem conseguir encontrá-lo, fico na minha dor, é a minha cruz. Ela está tão gravada no meu corpo, sinto que todo ele é cruz, chagas, espinhos e sangue.

No domingo, dia 10, logo que recebi o meu Jesus, por um bom espaço de tempo, senti-me como se adormecesse Nele e Ele em mim; não ouvi a divina voz de Jesus, mas oh! que sono tão doce! Depois de acordada, fiquei com a alma confortada, mais forte para a dor, que horas depois, caiu sobre mim, a pontos de eu não a poder encobrir. Pobre de mim, sem conforto!

Tive 6 combates seguidos com o demónio. Que martírio! Tinha o inferno em mim, ou por outra, estava presa ao pecado e presa ao inferno; nem depois da luta eu saía das garras infernais. Era dos braços do demónio que eu me entregava ao pecado, ao prazer. Os gestos e palavras do maldito causavam horror., Clamei, clamei, invoquei o nome de Jesus e da Mãezinha, muitas e muitas vezes, e, mesmo na luta, fixei Neles os meus olhares, parecia-me não ter vergonha de estar na presença de Jesus e de ser vista pela Mãezinha. Com que coragem eu Lhes dizia que não queria pecar!

No último combate, que me pareceu não chegar a tanta gravidade, senti como se me cortassem uma cadeia, e eu fiquei livre do, inferno e do pecado; parecia-me ver para mim abertas as portas do Céu. A minha alma ficou em paz; por muito tempo passou de mim o receio, se sim ou não tinha pecado. Como é bom o meu Jesus, como Ele me ampara e vela por mim!

Na tarde de quinta-feira, senti como se me pusessem no coração uma montanha mundial; foi esta montanha que tive que transportar, atravessar, transformar. Oprimida, esmagada por ela, passei pela sala da ceia, pela sala do amor; derretia-me em amor, mas sempre na dor. Da sala passei ao Horto, a ser esmagada e sempre a transportar a mesma montanha. No Horto, senti todos os sofrimentos em conjunto; suei sangue, agonizei.

Hoje, de manhãzinha, toda ferida, com a cruz aos ombros, caminhei para o Calvário com um sofrimento inexplicável, que a minha cegueira não sabe ver. Sobre mim, sobre a minha cruz foi a mesma montanha de quinta-feira. Não podia respirar; desfalecida. Atraíram-me ao cimo da montanha ânsias de amor, ânsias de dar a vida. Fui crucificada, e, no alto da cruz, um brado incessante subia ao Céu, subia e não entrava, parecia-me o Eterno Pai não ter de mim compaixão. O sangue corria de todas as minhas chagas, a regar o solo do Calvário. O meu brado doloroso e moribundo ecoava ao fundo da montanha. O brado de Jesus quase a expirar ecoou, fez-se sentir em meu coração. Nesta dor expirei com Ele. Jesus não demorou, falou-me depressa, depressa, de novo, deu vida à minha alma. Senti, como se o azul do firmamento pousasse sobre o meu peito e o Céu se abrisse.

― Minha filha, desce a ti o Céu, vem a ti Jesus, o Jesus que em ti habita, o Jesus que fez do teu coração o Sacrário, do teu peito o palácio da Sua habitação Desce a ti o Céu, vem receber a fragrância dos teus sofrimentos, do teu martírio; vem receber a reparação que tens dado ao Meu divino Coração. Repara; está curado, já não tem chaga; foi a tua dor o bálsamo que a curou.

O Coração divino de Jesus estava sem espinhos, sem sangue; todo ele era fogo, só amor. Jesus ficou em silêncio e eu também, a nadar naquele amor. Sentia que todo o Céu estava em festa, entoava hinos e nadava no mesmo amor, na mesma paz e doçura. De repente, vi grande multidão de Anjos que formavam alas. De cima formavam-se quase unidos, e, em baixo, separavam-se a mais larga distância. Por entre elas descia a Mãezinha sentada num trono, coroada Rainha, vestida de branco e manto azul. Pousou junto de mim. Tomou-me em Seus braços, uniu a mim o Seu rosto, os Seus Santíssimos lábios, abraçou-me, beijou-me e dos Seus lábios ficou, por algum tempo, a passar para os meus um alimento, que me satisfazia; encheu-me.

― Minha filha, tem coragem, não negues nada ao Meu Jesus, dá-Lhe toda a dor, que Ele te pede. O mundo é ingrato; repara, repara; Ele é tão ofendido! Goza do Céu; enche-te da Minha graça, pureza e amor. Dá tudo isto, que de Mim recebes às almas a quem amas. Eu amo-as também, é um prémio Meu. Goza do Céu, toma coragem para a tua cruz. Prometo assistir-te à tua morte; prometo em breve, muito em breve vir buscar-te para o Céu; prometo alcançar-te do Meu divino Filho a graça de vires ao encontro de todas as almas que te são queridas para as conduzires ao Paraíso, quando partirem da terra para lá. Coragem, coragem.

A Mãezinha subiu, desapareceram os Anjos e eu fiquei ainda a nadar na mesma felicidade, no mesmo Céu. Veio Jesus; introduziu o tubo do Seu amor em meu coração; do Dele saiu para o meu a gota do Seu divino Sangue, e, por o mesmo tubinho, ficou, por algum tempo a passar-se amor.

― Vai, Minha filha, leva a tua vida, leva a vida divina; é com ela que és redentora, é com ela que salvas os pecadores, é com ela que és poderosa, e, em união com Minha Bendita Mãe, salvas a humanidade. Coragem! Dá-Me dor, sem dor. O mundo peca, o mundo perde-se; acode-lhe, salva-o. Coragem! Vai para a tua cruz; é cruz brilhante, é resplendorosa, é cruz de redenção. Confia em Mim; não te enganas; a tua vida é real, é a vida de Cristo. Diz Minha filha, ao Meu sacerdote que lhe dou o Meu divino Coração com todos os Seus tesouros, para que com eles seja o que até aqui tem sido e para os distribuir às almas.

― Obrigada, meu Jesus; dizei um obrigado por mim à Mãezinha. Digo-Vos por todos os que me são queridos: obrigada, Jesus; obrigada, Mãezinha, por todas as graças e benefícios recebidos.

Passei a tarde com mais suavidade nos meus sofrimentos, tanto de alma como de corpo. Ao chegar a noite, vieram todos, recebi-os, é a minha cruz, é o amor do meu Jesus.

22 de Agosto de 1947 – (sexta-feira)

De vez em quando, sem eu pensar nem querer, está a minha alma a bradar ao Céu, a clamar pelo Eterno Pai. Mas, ó meu Deus, para mim sinto já não haver Céu; as suas portas fecharam-se, o meu brado não é aceite, nem O Eterno Pai ouve a minha voz.

Um mundo de negras trevas separou-me da minha Pátria; não há Céu, não há vida para mim. Parece-me mostrar ao mundo as minhas chagas abertas, o coração todo em sangue e a cabeça cercada de espinhos e dizer-lhe: vê como eu te amo, vê o que sofro por ti; vem, o meu coração quer receber-te. Mas o mundo está cego, não vê o meu ferimento, está surdo, não ouve a minha voz. E pisa, calca, sem dó nem piedade, o meu pobre coração; é ele, chagado e em sangue, um trapo para a humanidade inteira, é o pó, é a lama que ela calca; é o mundo a ferir-me, é ele a causa da minha dor. Mas há em mim um amor que ama e esquece, um coração que busca e anseia, um coração, que é louco e quer dar a vida a toda a humanidade, e que está morto. Que grande agonia a da minha alma! Como é doloroso o meu sofrer! Em tudo vejo a cruz mas veja-a com o coração sempre a arder, sempre em ânsias de amar; é como uma caldeira sempre a ferver sobre a fornalha de brasas vivas. Esta fornalha, esta caldeira, este amor não é meu; tomou posse do meu corpo, mas não me pertence. Não sei amar com este amor, não sei aceitar nem ver a cruz como este amor. Ó meu Deus, pobre de mim, como é sensível e visível a minha miséria! Que nojo tenho de mim! É por isso que eu brado ao Céu, e brado, noite e dia: Jesus dá ou permite outros darem um corte em todas as minhas alegrias; não chego a saboreá-las; nas mais pequeninas coisas, em que eu poderia, alegrar-me, um fino golpe, vindo daqui ou dalém, lhe tira toda a doença. É a minha cruz, logo murmura o meu coração. Meu Jesus, por Vosso amor. Vós, Vós, só Vós, cortai-me tudo, tirai-me tudo, todo o afecto, toda a alegria, todo o amor, que não seja o Vosso.

É impossível, por vezes, resistir a tanta ânsia, a tantos desejos de me dar a Jesus, de ser só Dele, de toda Lhe pertencer, de O amar e em tudo ver o Seu divino amor. Busco Jesus, quero abraçá-Lo. Ele mais se ausenta, mais se separa de mim. E eu, sem poder encontrá-Lo, abraço a minha cruz numa confiança ilimitada de que nela está o meu Jesus, de que é Ele e de que todo o sofrimento é cruz vem Dele? Se é esta a vontade do Senhor, não quero viver senão na dor. Não é possível arrancar do meu coração os sentimentos da sua dor; que martírio triunfante! Sofre sem alívio, sofre sem saber sofrer, sofre sem saber amar. As minhas dores, as minhas chagas, os meus martírios, oh! como eu lhes quero!

As dúvidas sugeridas por Satanás, são, em algumas horas, espinhos penetrantes; chuva queimadora que penetra todo o meu ser. Sem saber falar para Jesus, peço-Lhe para ler em mim, para ler em meu coração, e, escondida na divina chaga Dele e, à sombra do manto da querida Mãezinha, deixo passar a tempestade; não posso ter perigo com tal protecção.

Ontem, ainda muito cedo, o meu coração voava para o Horto beber na fonte de toda a dor, levava consigo outra fonte superior ainda; era a do amor. Este obrigava a beber na outra. E todas as horas do dia, pensasse, dissesse, ou sofresse fosse o que fosse, do Horto vinham constantemente punhais agudos a retalharem-me o coração. Que triste era o horto e doloroso o Calvário que a ele se unia! Terminada a ceia, ao sair da sala, foi a despedida de Jesus e da Mãezinha; uniram-se os Seus divinos Corações e rostos, uniram-se os Seus amores para não mais se separarem; choravam as Suas almas. Era o Horto; ía ser o Calvário de Jesus e da Mãezinha. Caminhei para lá com Jesus, com Ele bebi até à última gota a cálice da amargura. Sobre os meus vestidos ou sobre os vestidos de Jesus, formaram-se outros vestidos, vestidos de sangue coalhado. Ó dolorosa e tremenda agonia! Ó amor de Jesus, que não és conhecido nem compreendido!

Hoje, de manhãzinha, senti que o meu peito principiou a ser o caminho da amargura, pelo qual seguiu Jesus ao Calvário. O meu peito era e sangue; espinhos postos pelo mundo, sangue que Jesus derramava. A minha alma via-O caminhar, desfiguradíssimo, sem nada se parecer com Jesus, levando aos ombros o pesado madeiro. Senti-o cair, muitas vezes, quase moribundo. Não podia respirar com estes dolorosos sentimentos. O meu caminho é espinhos e sangue; e Jesus, todo ferido, era, cruz, dor e amor.

Quando a Verónica limpou o rosto de Jesus, eu senti, como se o meu rosto e o amor do meu coração, que não era o meu amor, ficassem no pano imprimidos. No alto da cruz, eu morria por morrer, morria por dar a vida. Sentia no meu coração o Coração divino de Jesus a arder, a ferver; sentia Ele regar com o Seu divino Sangue e romper por entre uma montanha de sofrimentos. Era formada de pedra dura, mas o sangue divino de Jesus transformava-a. Só sangue de um Deus podia obter tal transformação; só uma força divina podia resistir a tanta dor. Eu sentia os Seus olhos divinos entreabrirem-se, para, na maior agonia, bradar ao Pai.

A Mãezinha rodeava a cruz. Não posso dizer, não sei dizer o que a Mãezinha sofria. Com que dor Ela fitava Jesus. O Seu amado Filho via e sofria tudo. Foi, pela segunda vez, que eu senti e vi a escada pela qual foi descido Jesus e posto nos braços da Mãezinha. Vi as suas lágrimas e setas; senti a Sua dor. Jesus viu tudo antes de expirar. Quanto devo a Jesus em ter-me associado aos Seus sofrimentos, aos da Mãezinha e em agonizar com Ele. Veio Jesus ressuscitar-me. Demorou-se um pouco; veio, deu-me vida, mas não me deu luz; falava-me, estava em paz, mas em grandes trevas.

― Minha filha, Minha filha, esposa Minha, esposa de dor, esposa de amor. Toma lá, aceita o Meu divino Coração; tens chave. Vê se consegues fechar nele a pobre Humanidade. As almas, as almas, afoga-as no Meu divino Sangue, incendeia-as neste amor. O mundo, o mundo, com ele peca; que maus-tratos Me dá; como Eu estou ferido!

Jesus dizia isto e chorava copiosas lágrimas, via-O chorar, ouvia os Seus soluços, não tinha nenhuma beleza, que triste mendigo Ele era; as Suas carnes Santíssimas estavam despedaçadas; que grandes feridas; o sangue escorria!

― Sabeis, meu Jesus, que não posso ver-Vos chorar, nem assim ferido; dizei-me, dizei-me, pela Vossa Paixão, pelo Vosso divino Sangue, pelas dores da Mãezinha o que posso fazer por Vós, para não sofrerdes, para Vos consolar.

― A tua dor, Minha filha, o teu amor são o bálsamo do Meu sofrer. Quero-te na cruz; não te posso ter, um momento, fora dela, porque nem um só momento estou sem ser ofendido. O mundo, o pobre mundo, o que será dele, o que o espera; bem depressa se ouvirá nele a voz do canhão, bem depressa gemerá entre o fogo aceso da justiça do Meu Pai! Pede, brada, diz, Minha filha, que não será muitas vezes que Jesus o chama, que Jesus o convida à penitência, à oração. Brada, brada depressa; está a ser tarde para a reconciliação. Coragem, coragem, alegre na cruz, alegre na dor. Como é grande, como é sem igual a reparação que Me dás. Grande, muito grande, com grandeza inigualável é o amor. Espalha-o, incendeia-o nas almas; acode-lhes, salva-as para não Me veres sofrer. Vou dar-te o Meu divino Sangue, a vida do teu corpo, a vida da tua alma, a vida das almas.

Introduziu Jesus o tubo no meu coração; era doirado; introduziu-o bem fundo, bem no fundo foi cair a gota do Seu Sangue divino. Não desligou o Seu Santíssimo Coração; deixou-O, por algum tempo, a infundir-me amor. Ao receber o Sangue e o amor de Jesus, toda a minha alma se iluminou; desapareceu toda a treva.

― Meu Jesus, meu dulcíssimo amor, sei que sois Vós; é a Vossa luz que eu vejo. Porque me tivestes, até agora, em tantas trevas?

― Para Me reparares, filha amada; para mesmo comigo estares na cruz. As trevas, que vias, eram as trevas do pecado; eram os crimes, as maldades que assim Me tinha ferido. Já vês que sou Eu. Velo por ti. Não Me ausentei, sem te dar a Minha luz. Toma coragem e vai espalhar o Meu amor. Diz às almas que Eu as quero, que Eu as amo; trá-las todas a Mim. Coragem! Não te deixei sem o Meu conforto; supro os homens, ocupo o lugar daqueles que te deviam amparar e não os deixam amparar-te. Pobres daqueles, que se opões à Minha divina vontade! Eu venço. Bem depressa se cumprem as Minhas divinas palavras. Coragem! Leva a Minha alegria, o Meu sorriso, o Meu amor, a Minha paz.

― Obrigada, meu Jesus. Fazei que eu seja toda para Vós e para as almas e em tudo faça a Vossa divina vontade.

Deixei Jesus, mas já não O deixei a chorar; deixei-O formoso, cheio de luz. Vim logo para os meus sofrimentos, para a minha cruz; só o coração tem fogo. Já lá vão umas horas; ele ainda queima; todo o peito está em fogo. Que amargura já tenho na minha alma! Mas ai! Quem me dera com esta amargura levar às almas o meu amor de Jesus!

29 de Agosto de 1947 – (sexta-feira)

Apagou-se por completo a luz de todas as minhas esperanças. Foram as minhas trevas a causa de todo este mal. Poderei viver assim, meu Jesus, arrastada só pela cadeia da confiança em Vós? Mas ai, quantas vezes até essa me parece perder. Mas eu confio, meu Jesus, confia mesmo contra tudo, contra toda a morte das minhas esperanças. Espero em Vós, Senhor, e não serei confundida.

Há espinhos que me ferem, e vão ferir-me até à morte. Quando sinto e penso na dor, que me causam, fito os meus olhos em Jesus, e digo: para que estou eu a pensar no que me fere a mim. Se eu pensasse, meu Jesus, nos espinhos que ferem o Vosso divino Coração, na dor que Vos causam os crimes da humanidade, esquecia a minha dor. Perdoai, meu Jesus, a minha ingratidão, aceitai as minhas lágrimas; sofro tudo por Vosso amor, sou a Vossa vítima, sou vítima das almas.

Neste momento cubro Jesus crucificado de carícias; abraço-O, e assim me vou esquecendo do que sofro. Não sei o que tenho em mim; o meu rosto é uma caveira gravada no meu coração; não é uma caveira perfeita; está deformada, apodrecida. Que horror ela me causa à minha alma! Os espinhos, que me cingem a cabeça, transformaram-na só em sangue e os olhos da mesma forma; não só lágrimas de sangue, mas os olhos inteiramente se transformaram em duas fontes de sangue. As chagas das mãos, dos pés, do coração abriram tanto, tanto, que sinto, como se me desaparecesse a carne e os ossos e se gravassem as chagas em sangue coalhado; todo o meu ser é uma massa de sangue. Meu Deus, meu Deus, quanto custa este martírio, quanto me custa a minha dor. Sinto-me como se estivesse neste leito de dor a servir de palhaço, sorrio para todos, enquanto que a alma chora; parece-me que a todos engano, em todo o sentido; mostro-me feliz e alegre, e a minha felicidade e alegria está só no sofrimento e no cumprimento da vontade do Senhor.

Não quero viver mais para mim nem para as criaturas; quero viver só para Jesus; quero que o meu viver seja o sentir da minha alma. Sinto que da terra, das criaturas nenhum conforto possa receber; mesmo os que me são mais queridos, sinto-os frios e gelados para mim. Jesus, Jesus, só Jesus, é Ele que eu quero, é só a Ele que eu pertenço. Não importa parecer-me estar sozinha; o que importa é vencer, é sofrer como quer Jesus.

O demónio rodeia-me, assusta-me, em forma de serpentes e outros bichos mais. Apareceu em forma humana com quatro olhos no rosto; tinha olhares aterradores. Atormenta-me a imaginação com dúvidas e coisas sem jeito. Em todas as minhas coisas, ele põe o maior veneno. Reapareceu-me na alma aquela ansiedade de, debulhada em lágrimas, me prostrar aos pés de Suas Santidade. Sinto-me como se dele recebesse alguma coisa, que dele ansiava. Queria agora humildemente beijar as Suas mãos como sinal do meu agradecimento. Meu Jesus, o que recebi eu? Parece-me que um peso saiu de sobre mim. Vós o sabeis, meu Jesus, e isso basta.

Ontem de tarde, vi o Horto; vi-o em duas partes; numa, tudo gera podridão, ruína e morte, trovões, tempestades e a ira do Senhor sobre ela; na outra, dor de toda a qualidade, dor sem fim. Levou-me para a última parte do amor; mergulhada ali naquela dor, transformou-se o meu coração num mar de sangue, que dava corrente para todas as nascentes; era a água de todas as fontes, era a vida de toas as vidas. Veio a primeira parte, e mergulhou-se neste mar de sangue, e aí a escondeu o amor de Jesus. Como eu a sentia e via ele incendiar-se! Como Ele amava, enquanto recebia dor, dor, sem fim.

Hoje, nas ruas da amargura, só vi trevas, só senti dor nestas trevas mergulhada. A minha alma despedaçava-se com o peso da dor; rasgavam-se-me as carnes, escorria o sangue. Sem poder com a cruz, caí no desfalecimento, e vi coberto de suor, sangue e pó o rosto de Jesus. Não O pude ver sofrer; desfaleci e caí com Ele com todo o Seu Santíssimo Corpo, gravado em meu peito. Aproximava-se o fim da montanha. Como Ele via com os Seus olhos divinos o que nela O esperava. Que tristeza mortal; derretia-se em dor a alma. No cimo da montanha, no alto da cruz, depois dos maus-tratos, blasfémias e calúnias, fiquei a sentir o silêncio do Calvário; ouvia os suspiros de Jesus, e, no meu peito, sentia o arquejar do seu. Feriam-me o coração os Seus suspiros. Com os olhos da alma via bem ao vivo a Mãezinha com olhares angustiosos a ver tudo que em Jesus se passava. Como Ele sofria! Juntavam-se as espadas do Seu Santíssimo Coração ao de Jesus todo ferido. Ele expirou e eu senti expirar com Ele; morta senti-me ficar por algum tempo.

Veio Jesus como ressuscitado, e ressuscitou-me também. Gozava Dele, da Sua paz, da Sua vida, mas sem a Sua luz.

― Minha filha, minha amada filha, são para Mim as tuas ânsias, o teu coração com todas as palpitações e amor; és Minha, tudo é para Mim, és o Meu sacrário. Vem gozar do Meu amor; sem ele não vives, sem ele não dás a vida às almas.

Veio ao meu encontro o Coração divino de Jesus; pelo centro saíam labaredas de fogo que penetraram em mim como raios de sol brilhante. Tudo em mim eram trevas; só o Coração de Jesus era luz e fogo. Fiquei a nadar naquele amor por um grande espaça de tempo em silêncio, sem falar, sem ouvir Jesus. Voltou de novo.

― Minha filha, esposa Minha, vou deixar dentro do teu coração o Meu todo cercado de espinhos; quando esses espinhos te atingirem, quando sentires por eles o teu coração ferido, diz-me muitas coisas, faz-me contínuos actos de amor. É o sinal que te dou de quando estou a ser mais ferido. Isto não quer dizer que estou assim a sofrer com aqueles espinhos, porque os passo todos para ti, Minha vítima amada. Aceitas ficar assim? Dá-me já uma resposta.

― Sim, meu Jesus, eu aceito; dai-me os espinhos, dai-me a dor, dai-me tudo o que Vos aprouver; consolai-Vos Vós, e feri e amargurai o meu coração, o meu corpo e todo o meu ser. Dai-me a Vossa graça, dai-me a Vossa força sem a qual eu sou nada e nada posso.

― Repara, repara, Minha filha, são grandes os crimes da Humanidade. Ai dela sem a reparação, ai dele sem o amor das vítimas. A caveira que sentes em ti é a caveira da Humanidade. Está deformada e apodrecida; está, Minha filha. Que horror, que horror, que malícia a dos homens, que onda, que incêndio de crimes. Acode, acode às almas. Encontrei na tua generosidade o sinal da mais alta reparação, o maior amor. Eis por que assim te faço sofrer e te dei a mais sublime missão, a missão das almas. Salva-as, salva-as.

Ficou Jesus novamente em silêncio e eu também a gozar a mesma paz, mas já mais um bocadinho de luz. Veio, de novo, Jesus a dizer-me:

― Vou dar-te novamente o Meu divino Sangue. É necessário reparar as forças perdidas. Não quero que deixe de correr em tuas veias o Sangue de Cristo Redentor; és Comigo redentora; é Comigo que abres o Céu às almas.

Jesus a dizer isto, e rapidamente introduziu o tubo no coração; foi como que uma injecção de vida e de luz. A gotinha de sangue caiu, logo fiquei mais forte e com a alma toda iluminada e presa fortemente a Jesus. Senti-me estar toda cingida a Ele com fortes cadeias.

― Minha filha, sou o Médico divino, sei a tua fortaleza, sem um milagre da Minha parte não aguentavas, por um só momento, com o Meu amor e o Meu divino Sangue. Vai, desprende-te de Mim; a cruz está à tua espera; sorri-lhe, vai para ela.

― Não posso meu Jesus. Sei que sois Vós pela luz que me dais, mas não sei o que me prende; não posso separar-me.

― É para que vejas que sou Eu e não tu, Minha filha; não vives de ilusões, não te enganas; é a Minha vida divina nas almas. Não te dou logo a luz, quando te falo, para mais sofreres. São êxtases dolorosos. Vai, vai espalhar o bem: vai salvar as almas.

― Meu Jesus, sabeis quem me pediu para Vos dizer que se quer salvar, que quer o Céu?

― Sei, Minha filha; e Eu prometo-lhe a salvação, prometo-lhe o Céu com toda a Minha glória; cantará em união contigo os Meus louvores eternamente. Depressa, depressa, vai já, vai para a cruz; coragem, coragem.

― Obrigada, obrigada, meu Jesus. Eu vou, vinde também comigo; sem Vós não resisto, não venço a dor.

Deixei Jesus, fiquei na cruz logo a sofrer. Passaram-se horas e eu a sentir no coração os espinhos. Penetraram-me tão fundo! Fiz acto de amor a Jesus, mas nada me satisfaz do que eu digo. Que dor a minha!

5 de Setembro de 1947 – (sexta-feira)

Dói-me, dói-me, meu Jesus, o coração, que espinhos agudos o trespassam dum lado ao outro. Não estão quietos, avivam-me as feridas, estão sempre a sangrar. Lembro-me do Vosso divino amor, e por Vós tudo sofro; lembro-me das almas, Jesus, sou vítima delas, dai-lhes o Céu. Tudo recordo; mas sem alívio; os espinhos ferem-me, é uma roda-viva deles à volta deste pobre coração. Como Ele sofre e verte sangue! Ó meu Jesus, meu Jesus, por mais que eu queira lembrar-me de que nada sofro, para só me lembrar do que sofrestes e sofreis ainda por mim, não sou capaz; os sofrimentos tão agudos e contínuos, esta dor tão penetrante, não me deixa convencer disso.

Sofro, sofro, meu Jesus, e é por Vós. Sofro, sofro, meu Jesus, e apesar de tanto sofrer, nada tenho para Vos dar; sofro e não sei da minha dor. Ó minha cegueira, ó cegueira da minha vida, que fazes tu que tudo me encobres e roubas. Eu te quero e abraço sempre por Jesus. A minha vida, os meus caminhos são secos, tristes e espinhosos; nenhum deles me dá alegria, a não ser esta que é tudo: a vontade do Senhor. Todos eles me trazem amarguras e espinhos agudíssimos. Oh! bendita cruz! Aceitai, meu Jesus, todas as minhas lágrimas; bem sabeis que foram oferecidas a Vós. Perdoai-me os meus desânimos e desfalecimentos; é mais um meio para muitas vezes me humilhar diante de Vós e de Vos pedir perdão de tantas faltas que cometo. Perdoai-me, Jesus, perdoai-me sempre, e alcançai-me a graça de Vos não, ofender.

Eu não posso, por vezes, resistir a ânsias tão fortes e tão loucas de amor a Jesus; parece-me morrer. Quanto mais quero a vida de Jesus e o Seu amor divino, mais despida e fria me sinto de tudo. Tudo é miséria, toda eu sou misérias.

O demónio aproveita-se de todo este estado de alma para deitar tudo por terra, para mais atormentar o meu espírito já tão atribulado. Ai de mim, se falta à minha alma a paz e a força do meu Deus.

Sofri um corte, mas um corte, que abalou tudo, de todos os que me são mais queridos. Como estou só, tão só, sem ninguém! Ter-Vos-hei a Vós, meu Jesus, e a Vossa graça? Se Vos possuo, nada mais quero; estou segura. Que medo, mas ó que medo eu tenho de falar dos meus sofrimentos; é uma nova cruz; não posso dizer que sofro! Nada posso dizer da minha dor e das coisas de Jesus sem grande martírio para a minha alma. Que horror! Ó santa obediência, como tu és poderosa!

A caveira grande e deformada continua dentro em mim; não posso vê-la; e para meu maior martírio tenho que vê-la e senti-la. Que nojo! Ter que fitá-la a desfazer de podridão!

Vi, a noite passada, muitos malvados a açoitar Jesus. Que pena! Nem posso pensar! Tantos algozes contra um inocente! Meu doce Jesus, pertenceria eu também ao número dos que tão mal Vos tratavam!

Na tarde de ontem, principiou o meu coração a arder, sobre este fogo abrasador caiu um mundo de misérias, e trazia com ele toda a maldade e furor infernal. Sobre este mundo veio o Céu. Travou-se uma luta, uma grande guerra; o Céu contra a terra, a grandeza contra o nada, a pureza contra a lama. Nesta luta, nesta guerra, fui para o Horto. Uma electricidade divina parecia faiscar e despedaçar tudo. E eu, debaixo de toda a podridão do mundo e da justiça divina, tinha que lhe satisfazer por tantas maldades. E logo senti a terra a banhar-se de Sangue, saído das veias e suores de Jesus. Vi-O a fitar o Céu e a levantar para ele as Suas mãos divinas com o cálice a transbordar de amargura. A satisfação não estava completa, tinha que seguir o Calvário.

Hoje de manhãzinha veio-me uma grande cruz, de encontro ao peito; acendeu-me no coração o desejo de a beijar e abraçar; logo a senti aos ombros e segui os dolorosos caminhos do Calvário. Senti em meu corpo os vestidos colados de sangue, sangue que vinha das feridas dos espinhos, que, ao eu cair por terra, mais se abriam e aprofundavam. Que chuva de sangue da minha cabeça, ou para melhor dizer, da cabeça Sacrossanta de Jesus! Foi Ele que caminhou e sofreu. Que desfalecimento, ao ver-me já sem vida e ainda tão longe da montanha! Já no alto dela, caí com Jesus, pela última vez; foi perto do lugar, onde ia ser crucificada; bati com o peito no solo duro; nova golfada de sangue me subiu aos lábios.

A dureza de tão penoso Calvário ficou bem gravada em mim. Que doloroso, que indizível Calvário! Que dolorosa e indizível agonia! O Sangue de Jesus não amoleceu aquele rochedo duro. Não sei dizer o que sofri, não sei dizer o que senti, ao ver Jesus fitar no Céu Seus olhos já moribundos e quando ao Pai entregou o Seu espírito. Ele expirou, e eu com Ele dei a vida sem morrer; senti-me morta para depressa ressuscitar. Veio Jesus, e disse-me:

― Minha filha, Minha filha, a alma que anseia amar-Me, ama-Me, quando as suas ânsias são puras e desinteressadas; ama-Me, quando os seus desejos são do coração e da alma, sem outro fim, a não ser possuir-Me a Mim mesmo, viver a Minha vida, a vida do Meu amor, cumprir a Minha divina vontade. Sim, Minha filha, a alma, que se renuncia a si própria, calca a seus pés tudo o que é seu, tudo o que lhe dá prazer e alegria, para Me seguir e abraçar a Minha cruz; essa sim, essa ama-Me, essa busca só a Minha glória e tudo o que é Meu. Mas são tão poucas essas que com tanta pureza podem ser a luz do mundo, a vida das almas aqui na terra! Tu amas-Me. Alegra-te. Goza de Mim.

Aqui ficou Jesus silencioso, e deixou-me a nadar na Sua paz.

― Se pudesses ver, Minha filha, como Eu trabalho em tua alma! Se pudesse ser vista a arte deste Artista divino, quantos a invejariam! Trabalho, porque Me deixas trabalhar; embelezei-te, porque te deixaste adornar por Mim. Minha filha, Minha esposa querida, aqui tens o Meu divino Coração, cheio de amor; é teu, dou-to, porque te amo; dou-to, porque Me amas, distribui pelas almas, dá-o, dá-o, ficas para ti sempre com o mesmo amor. Dou-to, cheio de amor, dou-to para mo guardares dentro do teu; não deixes o mundo feri-lo. É um caso de amor.

Jesus entregou-me um centro com um centro de flores, e por entre elas sobressaíam altas labaredas de fogo. O meu divino Jesus fez-me compreender  e ver a Sua divina luz que era aquele o Seu coração, que aquele fogo era o Seu amor.

― Meu Jesus, pela minha tão grande miséria, não sou digna de ser depositária do mais alto e mais rico tesouro. Se o desses a uma alma que Vos amasse e pudesse guardá-lo para não ser ferido pelos pecadores! Pobre de mim, pobre de mim, não sei amar-Vos, e sou eu própria a ofender-Vos.

― Amas-Me, Minha louquinha, e a prova de que Me amas foi a visão que te dei. Quando viste a imagem do Meu divino Coração, dentro de um pequenino trono, sendo Eu tão grande, era o trono do teu coração; as flores, que Me adornavam, eram as flores das tuas virtudes; a luz, que tudo iluminava, era a luz do teu amor. Confia que Me amas; confia que Eu te amo.

― Que confusão a minha, Jesus; pusestes de parte os meus pecados. Se os juntásseis às minhas pequeninas virtudes, toda a beleza desapareceria. Como sois bom e misericordioso! Eu nada disse, meu bom Jesus, da Vossa linda imagem naquele tão lindo trono, porque receei ser um sonho ou uma ilusão minha. Como sois bom e cheio de misericórdia para comigo!

― Como Eu Me encanto e enlouqueço pelas almas humildes e pequeninas; como Me atraem a si as almas generosas! Dás-Me, Minha filha, em vez do tormento do teu espírito alguns combates do demónio? Quero ser reparado. Oh! Como sou ofendido!

― Ó meu querido Jesus, sabendo Vós que eu tudo quero sofrer, que nada Vos posso negar e que não tenho licença para ceder a esse pedido, para que mo fazeis? Ó meu Jesus, que hei-de eu fazer, que há-de ser de mim. Sossega, sossega, filha querida. Eu quero que obedeças e quero ser reparado.

― Pede, pede, para Me poderes dar essa reparação. Até que ela venha, vou tirando proveito da dor, que vais sentir, por não cederes aos Meus desejos. Vou dar-te o Meu divino Sangue, vou ligar a ti o tubo do amor; ficam unidos os nossos corações e unidos também os nossos rostos. Eu para receber de ti consolação, e tu para receberes de Mim conforto. Recebe vida, recebe vida; recebe amor, recebe amor, recebe amor.

Passaram-se uns momentos nesta estreita união. Ao receber o Sangue de Jesus, fiquei com mais luz; o coração palpitou-me com mais força, senti um novo viver em todo o meu ser.

― Vai em paz, Minha filha; vai para as almas, que necessitam de ti, vai para a cruz, que te espera; vai com confiança. Leva amor, leva amor, leva a vida de Jesus; é a força na tua cruz, é a luz nas tuas trevas.

― Obrigada, meu Jesus.

6 de Setembro de 1947 – (1º sábado)

Esta noite foi para o meu corpo um doloroso Calvário. Que tormento estar sempre a queixar-me. Eu não digo isto por queixume, digo-o por obediência. Como outra coisa não tenho, a não ser a dor, é desta sempre que eu falo. Jesus aceita o meu sacrifício. Sofri, sofri dores triturantes, mas quase me esquecia que sofria para me unir a Nosso Senhor, para maior consolação Ele poder receber.

Esperei o meu Jesus com tanta ansiedade; nunca mais chegava a hora de O receber; veio enfim, baixou ao meu pobre e indigno coração, fez-me logo sentir que era Ele. Encheu-me, o meu coração fez-se tão grande, parecia não me caber no peito; estava como se tivesse em mim toda a abóbada do Céu. Disse-me Jesus:

― Minha filha, os tesouros do meu divino Coração são inesgotáveis para o mundo; por ti os faço descer a todos os corações, a todas as almas. Pobres daqueles que os não querem receber! Que riqueza! Como tu és grande! És tão grande como o Céu. Tens o coração e a riqueza do próprio Deus que enche o Céu e enche a terra. O mundo é cruel. O mundo é ingrato. Ofende-Me tanto! Eu não posso fitar as suas maldades. Ofereço-Me constantemente ao Meu Pai para aplacar a Sua justiça divina; ofereço-Me com as minhas vítimas, mas são tão poucas! Tu és, filha querida, a primogénita de todas as vítimas, és a que rematas a cruz, estás no lugar mais alto. Brilha no alto dela sobre a tua cabeça o diadema da pureza e do amor, o diadema da vitória.

― Ó meu Jesus, quanto mais dizeis mais me humilhais; bendito sejais por me humilhardes assim na Vossa divina presença. Tendes razão; cheia como estou das Vossas riquezas, são elas que os Vossos divinos olhos vêem; é delas que podeis falar. Eu vejo a minha miséria; graças infindas Vos rendo por tão grande graça.

Jesus deixou-me por algum tempo a gozar da Sua grandeza, e ficou em silêncio. Depois, continuou:

― Minha filha, dás-Me, durante três noites, das 10 às 11, das 11 à meia-noite, umas horas de reparação? Oferece-Me tudo e não cesses de Me repetir constantemente actos de amor, ora com os lábios, ora com o coração. Vou ser nessas horas muito ofendido, ó minha esposa querida, e pelos sacerdotes. Já não falo nos crimes dos outros pecadores, falo destes que se dizem Meus amigos, e ofendem-Me tanto. Se disser que não, alguns conhece-los, a outros não.

― Não quero saber o nome de nenhum, meu Jesus; fico mais sossegada assim, e a reparação é a mesma, não é, meu Amor?

― É maior ainda, esposa amada; sofreres, dares, sem saberes a quem, maior é a consolação que por ti recebo. Sofre, sofre e ama, para mais Eu poder esquecer o que eles Me ofendem. Diz, Minha filha, ao teu Paizinho que sempre foi e será o teu director, escolhido pela Santidade e Sabedoria divina. Diz-lhe que Eu farei que ele seja para as almas um viveiro de luz e amor. Farei que venham ao Meu divino Coração, cheias de mim como formigas em bando, cheias de alimento para o seu celeiro. Diz-lhe que o Meu divino amor para com ele Me leva a fazê-lo subir ao mais alto grau de perfeição. Ele cantará eternamente o hino dos predestinados. Diz ao teu médico que o Meu divino Coração anseia por o cobrir e encher a ele e a todos os seus de novas graças e bênções. Diz-lhe que em tudo o prometo amparar e proteger. É sempre o Meu divino amor sobre ele, quando o consolo ou faço sofrer. Amo-o e prendia para sempre a Mim. Diz-lhe que os raios de luz, os raios brilhantes de sol se vão espalhando cada vez mais, mas não chegarão ao seu fim sem que novas nuvens tentem encobri-la. A sua fortaleza e o seu brilho rompe tudo, e tudo iluminará. A vitória é certa; sempre firme no seu posto. Que dita a ele e de todos os que com ele trabalham serem defensores da causa mais rica, da causa do Senhor. Vem, Minha Bendita Mãe, vem em auxílio da Nossa filhinha, junta ao Meu o Teu conforto, necessita dele para tanta dor.

Veio a Mãezinha coroada e trazia manto de rainha, bordado a oiro:

― Sofre com alegria, desagrava o Coração divino de Jesus e o Meu. Que onda, que incêndio de crimes nos ferem. Tanta inocência perdida! As praias e cinemas, que inferno desencadeado! São piores que demónios; muitas almas com as suas vaidades e desonestidades provocadoras excitam tanto e tantas outras ao mal. Olha como tratam o Meu Santíssimo Coração.

De Rainha transformou-se a Mãezinha na Virgem das Dores: olhar angustioso, o rosto tristíssimo e o Coração cheio de setas.

― Ó Mãezinha, querida Mãezinha, passai para mim a Vossa dor, as Vossas setas; quero sofrer todos os sofrimentos, os de Jesus e os Vossos, dai-me força, dai-me graça.

― Deixa-te então imolar, deixa que os espinhos dirigidos ao Coração do Meu Jesus te firam constantemente o teu. Sofre para Ele não sofrer; aceita as minhas setas para eu não sofrer também.

Ficou a Mãezinha libertada do sofrimento; todo se passou para mim. Aproximou-se de Jesus; Ele, dum lado, e a Mãezinha, do outro, acariciaram-me, uniram-me aos Seus Santíssimos rostos e ao meu, cobriram-me de amor. Disse a Mãezinha:

― Leva, Minha filha, estes amores, e vai dá-los em Meu nome àqueles a quem amas. Quanto mais o teu coração te atrair para eles, tem a certeza de que Jesus e Eu os amamos loucamente. E pede-lhes então para Nos amarem, amarem apaixonadamente e para repararem com grande reparação os Nossos dois Corações unidos na mesma dor, no mesmo amor.

Acrescentou Jesus:

― Vai, filhinha, vai pomba branca, forma o teu voo para a cruz, fixa em Nós os teus olhares. Coragem, coragem.

― Obrigada, Jesus, obrigada, Mãezinha. Não me abandoneis na minha luta.

12 de Setembro de 1947 – (sexta-feira)

Meu bom Jesus, sinto-me a não ter fé, nem amor, nem confiança. Que negra cegueira, que penosa vida! O demónio tenta-me, quer convencer-me de que não existe Deus, nem Céu, de que a religião é falsa e falsa é a minha vida. Tenho medo, Jesus, medo de mim, da minha vida e medo de Vós. Tudo se esconde, tudo se apaga, não tenho nada bom; o meu coração é um rochedo, está num mundo de gelo; piso em nojenta e peguenha lama, não posso desprender-me e sair dela. Que luta, que combate dentro de mim. Mas Vós existis, meu Jesus; sim, meu amor, em tenho confiança em Vós. Não sei dos actos de amor nem da reparação, que Vos dou; não é o meu coração nem os meus lábios que falam, não é o meu corpo que sofre e repara; é um outro, que não sou eu, a sofrer e a amar. Eu sou um nada nas mãos de Jesus. Eu não vivo, mas vive alguém; eu não sofro, mas alguém sofre; eu não amo, mas alguém ama em meu lugar. Se nada faço, ó meu Deus, que estou aqui a fazer? A Vossa divina vontade Senhor. Que os Vossos braços Santíssimos sejam as doces cadeias, que me prendem, para não ser arrastada por tão tremenda tempestade.

Nas horas da noite, que Jesus me pediu, para reparar e fazer-Lhe actos de amor, fiz todo o esforço para sofrer com perfeição e com amor para consolar Jesus, para Ele esquecer os crimes com que era ofendido. Tudo o que dizia eu fazia, morria, mas, apesar disso, era um verdadeiro inferno contra mim.

Os demónios queriam assaltar-me, mostravam-me os crimes e queriam levar-me a praticá-los. Que ódio contra mim e contra Jesus! Quanto mais eu O acariciava mais aumentava o furor do maldito. O inferno estava aberto, toda a raiva caía sobre mim. Sentia como se estivesse Jesus entre o inferno e os culpados. Nada mais sei dizer, digo apenas o que sei e sinto.

O pobre do meu corpo continua a ser, ora numas horas, ora nas outras, um esqueleto, caveira, chagas, espinhos, setas, dor e sangue. O que é a minha dor, só Jesus a compreende. E isso basta. Que Ele ma aceite para reparação Sua.

Tive a visão de Jesus na coluna, a ser açoitado num enorme madeiro, crucificado. Nunca O vi em cruz tão grande. Quase da altura Dele, cruzada uma sobre a outra estava a lança e a esponja; cruzavam contra o seu santíssimo peito. Tanto do alto da cruz como da coluna a ser açoitado, das suas feridas, das suas divinas carnes despedaçadas saíam raios mais brilhantes do que o sol. Eram tanto sóis quantas as feridas de Jesus. Tudo em mim e à volta de mim era escuridão. Só a luz, só o sol de Jesus brilhava. Meu Jesus, seja o meu corpo açoitado, seja eu, sempre eu pregada na cruz. Gozai na vossa glória, aceitai todo o louvor que Vos pode dar a aterra e o Céu. Sou a vossa vítima.

A visão de tais sofrimentos levou-me ao Horto. O céu parecia faiscar e combatia com a terra; o solo tremia com suas árvores e folhas. No meio da noite negra e silenciosa, Jesus ali agonizava. Vi-O beber, beber o cálix da amargura até à última gota. Passaram-se já tantas horas e eu ainda sinto aquela dor e como se Ele ainda estivesse a beber na mesma amargura. Assim segui hoje o Calvário, curvada com Ele sob o madeiro da cruz, ardia no mesmo fogo, sofria a mesma sede de dar a vida. Que angústias as do coração e da alma! As carnes e o sangue ficavam nas ruas da amargura. Que desfalecimento! A vida fugia, o Calvário não chegava. Do Céu não vinha uma luz nem um conforto; só a raiva humana com mais crueldade descarregava sobre Nós nova chuva de açoites. Os suores corriam pelo rosto de Jesus, assim como corria o sangue das feridas dos espinhos. Não posso pensar no esforço que fazia o meu amado Senhor para Se manter de pé, junto ao lugar onde ia ser crucificado. Vi a sua sacrossanta cabeça com o rosto moribundo inclinar-se para a terra. Fomos os dois crucificados, mas não sei como, não era o meu sangue que corria das chagas, era o de Jesus, e corria dentro de mim. Senti abrir-se-me o lado e ir a lança lá dentro atravessar-me o coração; foi como uma espada finíssima aquele corte, ficou sempre vivíssimo em todo o tempo da agonia assim como o amargor do fel. No coração senti todo o ferimento de Jesus e o abrir dos seus divinos olhos ao entregar a alma ao seu Eterno Pai. Ele expirou, e eu com Ele me senti expirar. Reinou por algum tempo o silêncio da morte. Houve nova vida, viveu Jesus e fez-me viver a mim e disse-me:

― Minha filha, meu sacrário, palácio onde habito e reino; reino em ti e por ti vou reinar a muitos corações.

Ficou silencioso. Algum tempo depois, disse-me assim:

― Sim, minha filha, é por ti que nas almas Eu reino. Se soubesses quantas transformações, quantas conversões com sincera emenda de vida aqui junto de ti neste teu quartinho, neste Calvário onde te coloquei, calvário de dor e amor! Quantas almas há que entraram aqui com Satanás no coração e daqui saíram levando-Me a Mim, com uma dor profunda e firme propósito de emenda! Expulsaram o demónio e Eu tomei lugar em seus corações. Coragem, coragem, minha vítima amada! A tua dor, o teu martírio não cessam um momento, porque nem um só momento as almas deixam de precisar de ti. Que maldades, que maldades; que ondas, que incêndio de crimes! Diz, minha filha, que Jesus o diz:

“Sou ofendido como nunca o fui. Se não fosse a Santa Missa, se não fossem as minhas vítimas, se não fosse a minha vítima primogénita com minha Mãe santíssima, já o mundo teria sido destruído pela justiça divina, pela justiça de meu Pai”.

Sofre, sofre com alegria, fala do meu divino amor às almas, fala-lhes da minha misericórdia, pede-lhes que se convertam, diz-lhes que venham a Mim. Coragem! Com os teus sofrimentos tens salvo, continuas a salvar milhares, milhares e milhões de almas. Eu não posso sofrer nem fazer mais por elas, faço-o através de ti, és comigo outro Cristo, és comigo redentora, é por isso que a minha redenção continua.

― Ó meu Jesus, confundo-me, envergonho-me à vista da minha miséria. A quem escolhestes Vós para convosco salvar almas? Eu queria, meu bom Jesus, poder salvar a todas. Eu não quero ver-Vos ofendido; eu quero a vosso consolação e alegria e por mim não posso, nada tenho, nada valho.

― Não podes sem Mim, é certo, mas Eu ao entregar-te a mais sublime missão enriqueci-te, tens todos os meus tesouros; é comigo que tu amas, é comigo que salvas as almas. Tu não vives, é Cristo que vive em ti, é com Cristo e por Cristo que te imolas; é por Cristo e com Cristo que as almas são salvas. Alegro-me nos pequeninos, é nos humildes que Me consolo. Pede, minha filha, a lista das almas do Purgatório que queres livrar. A tua missão na terra é bem curta, bem depressa virei buscar-te; é breve, breve, não o digo só para te dar conforto. Anima-te. Quantas mais trevas, mais luz; quanta mais morte, mais vida; o fim do dia traz a escuridão; a vida termina com a morte, mas só aqui na terra. Como a tua vida é só minha, já é a vida do Céu. São trevas de luz, é a morte das vidas. As almas, as almas, minha filha, são tuas as almas. Vamos à vida que te dá vida. Vou dar-te a gota do meu divino sangue.

Jesus introduziu o tubo, uniu os corações; o meu, com a gotinha do preciosíssimo sangue de Jesus principiou a dilatar-se. Jesus com o seu carinho fez parara a dilatação, mas não retirou logo o seu divino Coração.

― É amor, amor divino que te dou, filha querida. Vai distribuí-lo e espalhá-lo. Vai, jardineira do Jardineiro divino; confia em Jesus, que te ama; confia, Deus não muda, não falta ao que promete. Vai para a tua cruz, quero a tua dor.

Tu serás para os sábios que possuem a Minha luz, maior luz; serás para aqueles a quem a quis dar e não a aceitaram, grande confusão, maiores trevas. Passou para muitos, no sentido da Minha divina causa, a hora da graça. Coragem! Vai contigo toda a luz do Divino Espírito Santo, vai Ele falar em teu coração.

― Meu Jesus, muito obrigada. Queria todos os corações do mundo, para oferecer-Vos, cheios de amor e todos os lábios para agradecer-Vos todos os benefícios.

A minha cruz, a minha dor! Fiquei logo nela, depois do colóquio com Jesus. Passaram-se umas horas; como eu sinto a minha alma chorar! Viva Jesus: salvem-se as almas.

20 de Setembro de 1947 – (sexta-feira)

Não acredito em mim mesma, não posso confiar nos bons sentimentos de minha alma, nas ânsias sinceras do meu coração. Pensar que Jesus tudo vê e conhece, não me dá alegria, nem por isso deixo de sentir que passo por bons sentimentos e bons desejos com grande amor na alma e no coração, quando eles nada disso têm; posso ser impostora para mim, para todos e para o meu querido Jesus. Que miséria, que miséria, meu Deus! Mas nem por isso, ó meu Jesus, eu quero, noite e dia, a cada momento, deixar de repetir: amo-Vos, sou a Vossa vítima. Tenho que lutar, tenho que vencer-me, para poder oferecer ao meu Jesus aquilo que não sou, aquilo que não tenho. Jesus está no primeiro andar e outros com mais complicações. Encobrem tudo o que Ele podia ver e ler. Hei-de vencer; é esta a minha confiança, com Jesus tudo venço. Confio contra tudo. Venha o mundo, venha todo o inferno a dizer-me que não Lhe pertenço, que eu responderei sempre: sou Dele e só Dele, na terra e no Céu, eternamente Dele.

São negras e arrepiantes as minhas trevas; são assustadoras as dúvidas de toda a minha vida e do meu amor a Jesus. É horrorosa a luta da minha alma com o demónio. Ele pôs em mim sentimentos vergonhosos; parece-me que quero, que anseio pelos combates com ele, para gozar os prazeres mundanos. Que horror, que horror, meu Jesus! Eu quero amar-Vos e reparar-Vos de todas as ofensas, e nada mais; ajudai-me a vencer e a convencer-me que só Vós reinais em mim e só Vós sois a única verdade.

De noite, tive uma visão; vi-me dentro dum templo, de joelhos, junto ao altar, onde estava o sacrário. À portinha dele, muito unidinho, como que para entrar para dentro estava Jesus Menino; era Formosíssimo; não tinha mais de dois ou três anos. Fitou-me com os Seus olhos encantadores; os Seus olhares divinos foram para mim olhares de convite para entrar também. Não cheguei a fazê-lo; de repente desapareceu Jesus, o Sacrário e o templo, fiquei sozinha, mas mais forte e corajosa e com mais ânsias de me unir para sempre a Jesus na eucaristia. Estes mimos do meu Jesus são para mim injecções vindas do Céu; com elas que eu aguento com esta caveira mundial, com as chagas, espinhos e as setas da Mãezinha. Com elas vou resistindo a tão grande sofrimento e ânsias de amor. Como Jesus é bom, como Ele me auxilia a levar a minha cruz!

Na tarde de ontem, ainda mesmo por ter que responder a muitas perguntas que me foram feitas sobre as coisas de Jesus, sofria a minha alma e via, ao mesmo tempo, uma cegueira mundial, pior que a minha cegueira, mais dolorosa que as minhas trevas, pois era cegueira de maldades e crimes; eu rompia por entre elas com o coração a arder, ou melhor, rompia Jesus e o fogo era Dele. Num rápido momento, vi-O abraçar a cruz, oferecida por aquela cegueira maldosa que eu via. Depois desse abraço, tomou-a para Ele e caminhava com ela, de braços abertos, mas sempre com um braço do Seu divino Coração; aquele abraço abraçava todo o sofrimento. Assim cheguei com Jesus ao Horto; sofri ali com Ele o cálice amargurado, com Ele senti esmagar-se-me o coração, romperem-se-me as veias e o sangue correr. Não sei se sim se não, mas pareceu-me adormecer. Ao despertar, fui ainda encontrar Jesus na mesma agonia do Horto. Pensei a noite já a ir alta, mas não ia, era cedo ainda. Fui com Ele para a prisão, lá O deixei quase moribundo.

Hoje, mais moribundo ainda, segui com Ele as ruas do Calvário. Sentia pisar só espinhos pelos caminhos árduos e duros.. Jesus desfalecia cada vez mais. O meu coração sentia todo o Seu esforço. Pobre Jesus, queria caminhar e não podia; era arrastado pela maldade e pelo amor; foi ele, só ele que o conduziu ao Calvário. A cruz fui eu, Ele foi em mim crucificado. Eu sentia tanto ao vivo as Suas chagas divinas! O meu corpo parecia ser só o de Jesus. Custou tanto ao meu coração sentir os martelos a baterem sobre os cravos. As pancadas não iam só para as chagas vinham também para o coração. Pelo Coração divino de Jesus eu via as setas  no Coração da Mãezinha, via as suas lágrimas e olhares angustiosos e as ânsias do Seu Santíssimo Coração de querer subir à cruz a limpar o rosto Santíssimo de Jesus, apanhar em seu manto as lágrimas de sangue e curar-Lhe todas as Suas feridas. O Calvário mantinha-se duro e toda a montanha que era o mundo se levantava contra Jesus com ondas de sofrimento piores, muito piores que as ondas mais furiosas do mar. O inocentíssimo Jesus estava num gemido contínuo. Eu sentia em mim abrirem-se os Seus divinos olhos ao bradar ao Seu Eterno Pai. Quando Jesus disse: Pai; nas Tuas mãos entrego o Meu espírito, falou o Seu divino Coração: é chegada a hora do amor, morro por Vós, não posso fazer mais, e expirou. Tempo depois, já com toda a vida fez-me viver também e disse-me:

― Minha filha, fonte de vida, abismo sem fim, abismo inesgotável dos tesouros e maravilhas do Senhor. Esqueci-te, esqueci-te, com tudo o que era meu; não te enriqueci para ti, enriqueci-te para o mundo, para as almas. Fiz tudo, empreguei todos os meios para lhes acudir, para as salvar. E a recompensa? O que me fazem elas? Olha para Mim, repara bem, Minha filha.

Estava Jesus em seu tamanho natural, sem manto da cintura para cima,, mas só do lado esquerdo; tinha o peito aberto e da chaga do Seu divino Coração corria o sangue em bica.

― Basta, basta, meu Jesus; não derrameis mais sangue, quero vertê-lo eu, não Vos quero com tão grande sofrimento.

― Ó esposa, ó esposa querida, aceitas que grave em teu coração esta chaga? O sangue que dela vai correr será o sangue da tua dor. É grande o teu martírio, é grande o teu amor como grande é a missão que te dei. Que sublime que ela é! Tu és, Minha filha, o pára-raios que está mais alto, mais próximo do Meu Eterno Pai, para receberes os raios da Sua justiça divina; sobre ti descarrega tudo à Minha semelhança.

Cerou-se a chaga e o lado de Jesus, e logo em meu coração principiei a sentir correr a mesma bica de sangue.

― Custa-me muito sofrer, meu Jesus, mas custa-me imensamente mais ver-Vos sofrer a Vós. Aceito todo o sofrimento só para Vos reparar e dar-Vos consolação. Aceitaria, Jesus, aceitaria, que é Vossa e não minha; sois Vós que reparais, sois Vós que consolais, sois Vós que amais em mim, sois Vós, só Vós que sofreis. Eu sou um instrumento Vosso, sou nada, sou miséria.

― Tu és a estrela do mundo, a louquinha de Jesus, a lâmpada dos sacrários, a sentinela Eucarística. Tomo à letra tudo quanto Me dizes e como prova de que é assim mostrei-te em Mim o teu retrato, junto da Eucaristia. Não Me repetiste há tanta tempo tentas vezes: eu quero ser a sentinela dos Vossos Sacrários? Aceitei; foi por isso que te Me fiz ver à portinha como sentinela. A minha cabeça inclinada sobre o Sacrário e o Meu olhar de convite para ti foi para te mostrar que assim estás unida a Mim na Sagrada Hóstia. Se soubesses a alegria que de ti recebo nesta união! Se soubesses como com a tua guarda de sentinela tens evitado que Eu ali seja maltratado, recebido sacrilegamente, que alegria seria a tua! Viste-Me pequenino junto ao Sacrário, porque pequenina te vejo em todas as coisas, à semelhança de Mim. És pequenina para seres grande para as almas e para o Céu.

― Meu Jesus, a quem escolhestes Vós. Causa-me horror ver-Vos utilizar deste trapo de misérias.

― Não pode o Rei escolher para Si a esposa mais pobrezinha e vesti-la e adorná-la com as vestes mais ricas e as pedras mais preciosas? Eu sou Rei, escolhi-te para Mim, adornei-te, enriqueci-te, não olhei à tua miséria. Coragem! Conta com Minha graça; com ela te tornarás sempre digna de Mim. Vou agora dar-te a gota do Meu divino Sangue; é esta vida para ti, sem ela não viverás. Recebe vida e dá vida.

De repente, introduziu Jesus o grande tubo de oiro em meu coração, a gotinha do Sangue precioso caiu; o coração ficou logo grande, grande; não podia tê-lo em meu peito. Jesus acudiu logo, espalhou sobre mim a Sua chuva de amor, foi um orvalho fecundo que tudo suavizou.

― Vai para a cruz, filha amada, não duvides de Mim, confia no Meu amor, nas Minhas divinas promessas. Pede-Me o que quiseres, nada te negarei nem na terra nem no Céu. Só não alcançarás de Mim o que for de prejuízo para as almas. Nada posso negar a esposa tão amante e fiel, nada posso negar à grande heroína que nada Me nega. Vai em paz, vai plantar nas almas as tuas flores de virtudes. Toma a cruz, sempre alegre no teu Calvário, no teu inigualável Calvário.

― Obrigada, obrigada, meu Jesus. Dai-me a Vossa santa alegria para eu com ela poder sorrir a todos os sofrimentos que me dais; quero em todos ver-Vos a Vós, só a Vós e só para Vós sorrir.

Logo que Jesus se ausentou, fiquei sobre a cruz a derramar o sangue das chagas e dos espinhos. Caiu sobre mim uma tristeza profunda. Quanto tenho que vencer-me para poder sorrir-me. Ó cruz, ó cruz eu, amo-te.

26 de Setembro de 1947 – (sexta-feira)

Passo o dia, vem a noite, e eu vazia, sem nada ter dado a Jesus e sem nada ter para Lhe oferecer. Não posso examinar a minha consciência. Um dia, um mês, um ano e outro ano, sempre a sofrer, e sem ter que dar e sem amar o meu querido Jesus. Que pobreza, que miséria! De cada vez mais vazia, de cada vez mais defeitos. Ó meu Deus, poderei eu dar-Vos menos do que Vos tenho dado? Oh! Não; sei que não, e não tenho mais, não sei mais nem melhor. Ai, pobre de mim, a minha cegueira só me mostra miséria e maldade; e para melhor eu ver esta maldade, sinto-me, por vezes, tão sábia, capaz de enganar toda a gente com a minha sabedoria. Sinto-me até vaidosa por saber e poder enganar toda a gente. Que horror, ó meu Jesus, que horror! Se eu quiser enganar! Se eu pensasse em enganar! Mas nem ao menos isso. É pela graça de Deus que não o penso nem faço. Mas oh! que doloroso martírio, ver e sentir tudo isto em minha alma! Poderei vencer? Poderei passar assim os meus dias, ó meu Jesus? O que seria ou será de mim sem a graça e a protecção do Céu! Sou tão miserável e cheia de defeitos, sou um nada capaz de todas as maldades, sou um nada incapaz de fazer algum bem.

A minha alma chora e o coração anseia, quer só pertencer a Jesus, quer dar-se a Ele, perder-se Nele.

Passei quatro dias sem O receber. Que fome indizível! Que ânsias insuportáveis! Quantas vezes voava em espírito para junto da Eucaristia e Lhe dizia: Jesus, meu Amor, vinde a mim, estou a morrer de fome, desfalece-me a alma e o corpo; vinde, vinde, enchei-me e operai em mim tantas graças como se Vos recebesse Sacramentado. Nestes momentos, ficava a nadar num mar de paz, mas sempre com as mesmas ânsias e fome devoradora. Não sei; sinto que só no Céu posso ser saciada de Jesus; aqui, na terra, por mais que corra e voe para Ele, mais vazia me sinto e mais Ele me foge. Eu já não vivo, de mim ficou a dor, essa é a que eu sinto, mas nem essa agora me pertence. Ah! Se eu amasse ao menos O meu Jesus, e se nunca O ofendesse! Eu não sei, mas sinto que Jesus deve estar muito desgostoso comigo; não Lhe dei, com certeza provas de toda a minha confiança Nele.

No dia 21, passou o aniversário do meu médico. Veio visitar-me com a esposa e 7 filhinhos entre os quais vinham todos os meus afilhados. Não digo que senti alegria, porque essa Jesus não me permite senti-la, mas, sim, uma grande estima junto com um grande conforto. Retiraram-se ao ser noite. Passados uns momentos, principiei a sentir em mim uma grande preocupação; cheguei a perguntar se o carro teria luz. Não pude orar, para que tivesse boa viagem, porque estava acompanhada, mas nem por isso o meu coração deixava de Lha desejar. Passava já de uma hora solar, quando nos parou à porta um carro; bateram; minha irmã, sobressaltada, foi ver o que se passava. Era o filho mais velho do meu querido médico, que vinha à procura do Pai, da Mãe e dos irmãos. Não sei dizer o que senti, pareceu-me que fiquei louca; não pude conter as lágrimas, chorava em grande aflição; vi tudo pelo pior. Ao ver esse querido filhinho com sinais de profunda dor, sem pensar o que dizia, exclamei: eu sou uma desgraçada e a desgraça de toda a gente. Ao acabar de pronunciar a última palavra e a reflectir no que dizia, veio-me logo o arrependimento, e, ao mesmo tempo, o remorso pelo mau exemplo que acabava de dar. Meu Jesus, perdoai-me, já não tem cura; é desta forma que eu Vos amo, tende compaixão de mim.

Travou-se um combate, dos mais aterradores da minha vida. Estava Jesus, o demónio e eu. Eu vi-os todos em estilhaços e em sangue, sem vida, onde só depois de dia se podiam encontrar. Nove pessoas! Ai tanta criancinha, exclamava eu, e por minha causa; se não fosse eu, eles não vinham aqui. Nesta dor indizível, Jesus, no íntimo do coração, dizia-me:

― Sossega, Minha filha; não houve desastre, não há o mais pequenino ferimento. Eu não permitia isso àquele a quem tanto amo e tão firme e fielmente tem cuidado e velado pela Minha divina causa. Sossega, confia em Mim. Estou para ver a tua coragem. Permiti isto para grande reparação; repara. Sou, nesta noite, tão ofendido.

Jesus segredava-me isto docemente, e o demónio, forte e bruscamente, dizia-me:

― Só assim a tua vida será descoberta. Que grande castigo! Já todos estão no inferno, até mesmo dois dos teus afilhados. Olha que horror; foram as tuas maldades! Eles eram inocentes, mas foi por ti que foram condenados. Este já não chega a casa.

Referia-se ao tinha vindo procurá-los.

― À procura deste vêm os que estão em casa; acabam, nesta noite, todos os descendentes daquele a quem tanto odeio. Só assim me satisfaço do mal que ele me tem feito e podia vir a fazer. Que castigo, que vergonha!

Jesus, no íntimo, repetia-me sempre o mesmo, e o maldito, muito satisfeito, maltratava-me de insultos. Eu orava, orava, e chorava, não podia estancar as lágrimas. Ardiam duas velas a Jesus e à Mãezinha; pedia-Lhes sossego, pedia-Lhes conforto. Oferecia a Jesus todo o sofrimento para reparar o Seu divino Coração e O da Mãezinha e por várias intenções. Mas eu não podia mais, o meu espírito já não resistia. O demónio tentava vencer-me e calar a Jesus. Eu temia vacilar. Senti que Jesus veio expulsar, para longe, o demónio. Fiquei mais calma por um pouco; deixei de chorar e continuei a orar. Oferecia a Jesus o cântico dos galos, que duma e doutra parte, se ouviam e as festas de um gatinho que junto de mim estava. Aceitai todo este louvor, já que eu não vo-lo sei dar. Queria pedir para me porem no chão duro, para fazer penitência, com uma firme confiança de que, ainda que todos estivessem mortos, Jesus a todos podia ressuscitar. Porque, nesta altura, já o demónio tinha voltado com as suas falsas manhas e mentiras. Eu então vi-os a todos conduzidos ao hospital, em mísero estado. E um caderno e uma carta que o senhor doutor levava, visto e lido por quem queria; já tudo se sabia. Jesus ia bradando:

― Confia no teu Jesus, não há ferimento nenhum. Prova-Me a tua confiança em Mim. Foi o meu divino amor, que assim vos quis associar.

Chegou a hora em que eu tinha dito ao filhinho do senhor doutor, se não aparecesse ninguém que ficava sossegada, que tudo estava bem; mas não foi para mim, não consegui sossegar. Era já dia; eu não pedia para mandarem saber o que se tinha passado, para mostrar a Jesus que confiava Nele e não dar alegria ao demónio. Depois de insistirem, aceitei. Ao ser informada pelo senhor doutor do que se tinha passado e de que, na verdade, não havia ferimento algum, chorava, agradecia e louvava ao Senhor; oferecia-Lhe os meus suspiros e continuei a oferecê-los, por espaço de alguns dias, porque, sem querer, tinha que suspirar e respirar fundo. Não sei dizer o mal que esta aflição deixou em mim. Por tudo bendigo Nosso senhor, mas a dor das palavras que, sem querer, pronunciei, continua ainda. Tenho confiança que Jesus me perdoou.

Ontem, logo de manhã senti, além dos espinhos, que diariamente me cingem a cabeça, nova coroa deles por cima; parecia-me que eles me chegavam ao coração. Sentia os meus vestidos ensopados em sangue, colados ao corpo. Sentia isto em mim, e via ao mesmo tempo, em mim Jesus, com esses espinhos, com esses vestidos em sangue no Seu Santíssimo Corpo. Isto repetiu-se, durante o dia. Ao cair da tarde, quando se repetiu este sentimento e visão senti uns arrepios de frio, que me fizeram tremer; e vi Jesus muito triste a tremer também.

Não vi Jesus, ao sair da sala da ceia, despedir-se da Mãezinha, mas via a Ela, no cimo das escadas, a seguir os passos de Jesus para o Horto. Por Jesus vi os Seus olhares dolorosos, já sem O ver, e quanto ao Seu Santíssimo Coração O seguia e adivinhava o que Ele ia padecer. Que união de dor e amor era o daqueles dois Corações! Jesus caminhava, à frente dos Apóstolos não se preocupavam nem sofriam pelo que iria acontecer; iam cheios de cansaço, e, já no Horto, adormeceram. Jesus orou, suou sangue, viu-se desfalecido a caminho com a cruz, prestes a dar a vida; bebeu o cálice até à última gota. Que amargura que produzia trevas e fazia tremer a terra!

De madrugada, fui encontrá-Lo na prisão. Tremia de frio. Tinha perdido tanto sangue! Ó que desfalecimento era o Seu! Associei-me à Sua dor e tristeza, e como Ele fiquei desfalecida. Saí da prisão, nesta santa união; acompanhei-O, segui os mesmos passos. Depois, de açoitada e ferida com os mesmos espinhos de ontem, tomei a cruz, segui o Calvário, com a lança atravessada no coração. Sentia nos meus joelhos e no meu rosto as feridas, e parecia que em mim batiam as duas lajes: ou antes que eu com Jesus batia nelas. Como eu sentia todo o meu corpo ficar sem vida e sem sangue! Junto a Jesus, caminhavam os dois ladrões com as suas cruzes; ao lado de Jesus, foram crucificados. Eu sentia que os sofrimentos, as cruzes deles sobrecarregavam sobre mim, sobre a cruz de Jesus, que em mim estava. Sentia sair do Coração divino de Jesus o mesmo amor; as mesmas graças. Eu aceitava-as, o outro repelia-as. Jesus sofria, agonizava.

Hoje, no Calvário, e, ontem, no Horto, eu sentia que quanto maior era o sofrimento, a agonia de Jesus, mais o peito arquejava e coração batia! Sentia no meu as palpitações do Dele! Quando Jesus fazia romper o Seu brado  ao Eterno Pai, eu sentia, como se o mundo viesse abafar-lho, ao sair dos Seus divinos lábios; ficava como se não subisse ao Céu; sumia-o a maldade do mundo. Neste abafamento angustioso Jesus expirou. Senti-me também morrer e a minha alma deixar. Passou-se algum tempo em silêncio e noite morta. Veio Jesus, e disse-me:

― Minha filha, tabernáculo de delícias, coração de fogo, coração de amor. Aqui, como em nenhum outro coração, Eu Me delicio e sou amado; aqui, como em nenhuma outra vítima, Eu recebo reparação. Repara, repara; a dor é cruz, a cruz é amor. A dor e o amor dá aos ingratos, dá aos pecadores o Céu. Se não fosse a dor e o amor abrir-lhes as portas, não havia Céu para eles apesar de existir. Continua comigo a obra da redenção; acode ao mundo, acode ao mundo. Tu és alma pura, trigo loiro joeirado, seara florescente das almas. Coragem, Minha filha! Salva-Me os pecadores. O número dos criminosos aumenta e o das almas vítimas diminui; atemorizam-se ao sentirem os sofrimentos; ao verem a cruz fogem, fogem, fogem; tornam-se tíbias e ingratas para o Meu divino Coração.

― Ó meu Jesus, ao número desses infelizes pertenço eu também. Eu fui ingrata para Vós, não soube sofrer, não aceitei também a cruz que de novo me enviastes. Que confusão a minha, ao ouvir-Vos dizer que Vos deliciais em mim, depois de eu ter sido tão má! Perdoai-me, meu Jesus, perdoai-me; dei mau exemplo, tende misericórdia de mim.

Jesus sorriu, cheio de bondade, e disse:

― Não Me ofendeste, não, Minha filha. Eu sorri, ao ouvir-te falar assim em tão grande aflição. Permiti que assim falasses, para tirar da tua dor a reparação, que desejava. Não Me ofendeste, não; confia em Mim. É no meio da luta, no combate mais renhido que a alma fiel, a alma forte mostra o seu amor a Jesus. Se o combate só fosse um não custava nada vencer. Consola-Me tanto ver-te na Minha divina presença humilhada! Tem coragem! Sê forte na cruz. Sê forte na dor. É com essa fortaleza, é com esse conjunto de dor e amor que acodes às almas, que acodes ao mundo, que te confiei, e que é tão ingrato para Comigo. Vê no estado em que Me põem os pecadores. Sou por eles ferido com as suas horrendas maldades, como o caminhante que é assaltado por ladrões, que procuram todos os meios para lhe tirarem a vida. Não morro, porque não posso morrer, mas repara bem no estado em que Me puseram.

Vi Jesus, caído à borda de uma estrada; era um mendigo chagado, esfarrapado, a tiritar de frio; parecia estar nos últimos momentos de vida. Acudi logo:

― Meu Jesus, quero levantar-Vos e não posso, quero curar-Vos as Vossas chagas e não sei quero consolar-Vos e não tenho com quê. Sou a Vossa vítima. Quero perder eu a vida, e assim chagada como Vós estais a tiritar, não de frio, mas de dor. Alegrai-Vos, Jesus, com a alegria, consolai-Vos com a Vossa divina consolação; aceitai-a, como se fosse minha, tomai a Vossa formosura e deixai-me sofrer a mim.

Jesus ficou formoso, ficou o mesmo Jesus, e disse-me:

― Ó Minha esposa querida, ó grande heroína do Calvário, em ti encontrei tudo, a ti tudo entreguei: o mundo e todos os Meus divinos tesouros; utiliza-te deles e brada incessantemente a toda a humanidade: convertei-vos, vinde a Jesus, orai e fazei penitência, se quereis salvar-vos. Deixa agora, Minha filha, que te dê o Meu divino Sangue; sem ele não tens vida,  sem ele não podes dar a vida às almas.

Foi um momento para Jesus introduzir o tubo doirado no meu coração e deixar cair no meu a gotinha do Seu Sangue. Senti-me grande, tão grande, sem poder com tanta grandeza. Jesus colocou sobre o meu peito Sua divina mão, como para cicatrizar a abertura que o tubo fez. Deixei de sentir aquela grandeza; pude resistir.

― Vai, luz brilhante; vai, relâmpago faiscante; vai, farol, que guias os errantes para o Meu divino Coração, para o Meu Coração de Pai. Leva o Meu amor, leva a Minha paz, braça a cruz que te espera e vem já ao teu encontro.

― Obrigada, meu Jesus. Vou para a cruz, vou contente; vinde comigo, sem a vossa graça não tento abraçá-la.

3 de Outubro de 1947 – (sexta-feira)

Nem vida para viver, nem coração para amar.

Não vivo, não vivo, não; de mim, do meu pobre corpo ficou a dor, a dor que me tritura, a dor que, dia e noite, me consome; consome-me, e não é no meu corpo que ela vive; sim, não é em mim que ela existe, ela trespassa em todo o meu ser, como vento que em todo o lugar penetra. Onde estou eu? Onde é que eu vivo? Ó Jesus, ó Jesus, eu sou como uma aragem, que passa nos ares, nos ares vive e em todo o lugar existe, tudo observa, vê penetra. Sou eu e não sou, vivo eu e não vivo, penetro tudo e nada sei. Mas, ó meu Deus, se eu não vivo nem tenho coração para amar, como posso ter ânsias de amor, mas de um amor que se perde e enlouquece, e sentir que um coração dentro de mim é tão mal tratado, tão ofendido e calcado aos pés; é todo um mundo contra ele. Pobre coração, penetrado de espinhos tão penetrantes! Se eu pudesse mostrar, se pudesse copiar todos os ferimentos deste coração para ver se conseguia evitá-los, para, em vez de sofrimentos e ingratidões, fazê-lo receber consolação e amor! Ai de mim, meu Deus; eu pertenço ao número destes ingratos e para vergonha e confusão minha sou a pior de todas, sou a que mais mal trato este terno e doce coração. Meu Deus, como os dias passam e a vida foge e eu sem nada para Vos dar, pobre de tudo, sem amor e pureza para me apresentar diante de Vós. Valei-me, valei-me meu Jesus; ouvi o meu brado aflitivo e contínuo. Vede que o meu espírito anda como a abelhinha de flor em flor à procura de néctar que a satisfaça. Ele voa, voa, poisa aqui, poisa ali, e, mais das vezes, não tem onde poisar, não encontra satisfação, não encontra onde possa descansar. Estou cansada, meu Jesus, de Vos procurar sem Vos encontrar; parece que errei o caminho. Morro sem Vos ver, sem Vos possuir. Vinde socorrer-me; apressai-Vos, eu Jesus. Oh! que desalento e trevas as minhas! Tenho medo, tenho medo! Eu quero luz, meu Jesus; dai-me alguém que me ilumine, dai-me quem me ajude a formar o meu voo para o Céu, para Vós, só para Vós. O mundo, oh como eu aborreço o mundo com o que é dele; aborreço-o e dele tenho compaixão; aborreço as suas maldades, mas amo-o a ele; abracei-o e quero-o todo dentro do Coração do divino Jesus.

Ontem, logo de manhã, vi Jesus pregado na cruz e pregado na cruz do meu corpo; gravou-se em mim. Como fiquei a senti-Lo tanto ao vivo! Como na cruz, Ele inclinou para o meu peito a Sua Santíssima Cabeça; senti todo o Seu Santíssimo Corpo gelar e expirar.

Esta visão com o sentimento preparou-me um Horto dolorosíssimo; tinha-o sempre diante de mim, sentia a dor angustiosa de Jesus. A minha alma via-O caminhar para um lado e para o outro, a olhar o mundo, a chorar; na sua angústia levantava os olhos para o Céu e o Seu divino rosto cobria-se de suor. Eu tinha o rosto de Jesus e o Seu suor no meu coração e na minha alma. Estive bem unida aos sofrimentos do meu Jesus. Passei pelas cerimónias da ceia, o adeus à Mãezinha e por fim o Horto real com todas as cenas; o suor de sangue, a prisão. Era noite, a este martírio do Horto juntou-se o sofrimento do meu primeiro Horto de há 9 anos.

Como eu recordei tudo, passo por passo. Lembrei todas as minhas dores de alma e corpo. Oh! como foi grande a minha agonia!

Hoje, data da minha primeira paixão, senti como se fosse a data mais triste da minha vida. Tive presente todo o sofrimento destes 9 anos. O que me trouxe a paixão! Bendito seja o Senhor! Se eu soubesse aproveitar-me de todo este martírio, quanta glória para Jesus, bem para mim e proveito para as almas. Na hora em que estou a ditar, lembro sem querer da mesma hora de há 9 anos. Que cenas tristes se podiam observar dentro destas pobres paredes. Que tristezas, que saudades, que horrores ao mesmo tempo. A estes grandes sofrimentos juntaram-se grandes e penetrantes espinhos. Chorei, chorei, ofereci a Jesus as minhas lágrimas. Quando chorava, com o coração repetia a jaculatória: Jesus manso e humilde de Coração e pedia luz ao divino Espírito Santo para proceder conforme a vontade de Jesus.

Sem querer fui encontrá-Lo na prisão desfalecido e gelado; juntei ao Seu o meu grande desfalecimento e com Ele rompi por entre todos os sofrimentos que acima ficam ditos. Com Ele senti na cabeça grande coroa de espinhos, o corpo açoitado e o grande peso da cruz. Senti no coração a perda do sangue e da vida, que, bem próximo, na montanha, se ia dar. Vi abrir-se a chaga do seu divino Coração e dela saiu uma fortíssima labareda de fogo e uns fios doirados  que eram prisões que prendias Jesus à cruz e à morte. Custou-me a suportar as ânsias que Jesus tinha por dar a vida apesar da visão de todo o martírio Lhe causar horror de morte. A montanha levantou-se dentro em meu peito; vi a cruz, vi Jesus quase no cimo. Eu ia com Ele e com Ele quase morri. Junto à cova, preparada para a cruz, vi Jesus a ser crucificado; vi a pressa, senti o rancor com que O crucificaram. A pressa dos malfeitores era o receio de Jesus morrer antes deles satisfazerem as suas maldades. Junto aos vestidos de Jesus foram pedaços da Sua carne Santíssima. Quase ninguém se compadecia da dor de Jesus; só a Mãezinha queria acariciá-Lo e limpá-Lo no alto da cruz; como não podia fazê-lo sofria a mais não poder sofrer. Sem querer aumentava, mais e mais, a agonia e a dor de Jesus. Sofria a Mãe por não poder suavizar a dor do filho e O filho por não poder consolar a Mãe. Eu via tudo; via a Mãezinha por Jesus, por Ele via e sentia toda a doe Dela.

Levantou-se dentro em meu peito a montanha dura e cruel do Calvário; cresceu, cresceu, quase chegava ao Céu a atrair para Ela a justiça do Senhor. No cimo, ia a cruz, tocou-lhe, o Céu abriu-se, quando Jesus expirou. Já todos, do Calvário podíamos passar ao Céu. Que bondade, que amor o de Jesus! O Seu divino Coração ardia de amor por nós. Eu morri com Ele e, à Sua voz divina, voltei a viver.

― Minha filha, Minha filha, vem ao teu Jesus que te ama, que te quer e tu és Dele; vem ao teu Jesus que quer confortar-te; e tu necessitas do Seu conforto. Tem coragem. Tu aumentaste no amor ao Meu divino Coração, à medida que em ti aumentou a dor. Amas-Me e amas as almas. É pelo Calvário, é pela cruz que elas são salvas. Coloquei-te no Calvário, dei-te um Calvário e com ele a cruz que abraçaste. Confia em Mim. Ai do mundo sem o sofrimento destes dolorosos anos! Eu pedi o teu corpo para crucificar e tu aceitaste, entregaste-Mo; não querias que te crucificasse e se cumprissem as Minhas divinas palavras?

― Ó meu Jesus, eu queria e quero tudo, mas eu nunca pensei que a crucifixão fosse desta forma; eu pensava ser só as dores que sentia em todo o meu corpo.

― Sorri e consolei-me na inocência do teu pensar. Era preciso, Minha filha, que houvesse alguém que se deixasse crucificar com esta crucifixão tão real. Nesta como em nenhuma outra, eu provo quanto sofri; tantos, tantos sofrimentos até agora desconhecidos. Escolhi-te, esposa amada, para por ti serem mostrados ao mundo. Ai dele, se por ele não te deixavas imolar. Ai dele, ai das almas, ai de Portugal, sem este Calvário vitorioso, sem esta cruz de salvação. Descansa em Mim, Minha filha, de mim recebe todo o amor, toda a luz, todo o conforto. Por ser hoje o aniversário, em que, pela primeira vez, por Mim te deixaste crucificar, faço-te gozar do Meu amor e veres com toda a luz divina para bem compreenderes e te convenceres que não te enganas, que estás na verdade, que fui Eu e só Eu que te crucifiquei. Goza, hoje, de tudo isto, porque os outros colóquios serão dolorosos, voltarás às trevas.

Senti-me como se caísse no regaço de Jesus e nele adormecesse com o meu rosto inclinado sobre o Seu rosto divino. Passara-se uns momentos, e eu despertei a ser bafejada por Jesus, a nadar em amor, toda embebida em luz. Toda a treva, todo o sofrimento de alma e corpo tinha desaparecido. Não tinha dúvidas, era na verdade Jesus o Autor de toda a minha vida. Que gozo, que felicidade.

― Repara, Minha filha, escuta agora quem te fala. É mais um prémio da tua dor.

Veio Santa Teresinha, vestida de luz, com um diadema formosíssimo. Como Ela era linda e bondosa! Abraçou-me, beijou-me muito e num abraço prolongado disse-me:

― Minha irmã, minha querida irmã, esposa do Meu esposo e filha do meu Senhor. Tem coragem! Que grande glória te espera no Céu! Que formosa coroa formada do teu martírio. Sofre com alegria, conta com a Minha protecção, aqui na terra, e virei ao teu encontro, na passagem para a eternidade.

― Santa Teresinha, minha querida Santa Teresinha, confio em ti, conto com a tua protecção, ama por mim a Jesus e à Mãezinha e a toda a SS. Trindade. Apresenta-Lhe todos os meus pedidos, alcança para todos os que me são queridos e toda a minha família as bênçãos e graças do Céu; lembra-te de todos a que a mim se recomendam, lembra-te do mundo inteiro.

Com a promessa de sim, de nada esquecer, desapareceu. Ficou Jesus que logo introduziu no meu coração o tubo do amor.

Vou dar-te a gota do Meu divino Sangue. Recebe-a e vive, vive e dá a vida. Vai contente, abraça já a cruz que te espera, vai com ela acudir às almas. Se não fosse o teu sofrimento, quantos milhares delas já estavam no inferno! A dor é vida. O azeite para haver de ser luz por quanto tem de passar; mas chega a ser luz e luz que Me alumia. Tu és a luz do mundo, és a luz das almas; sem o martírio não poderias ser luz. Eu farei que sejas luz e faças luz; farei que sejas amor e dês amor. Tudo será dado pelos teus olhares, pelos teus sorrisos, pelo teu coração. Coragem, vai em paz.

― Obrigada, obrigada, meu Jesus.

4 de Outubro de 1947.  1º sábado

Falo tão pouco do amor de Jesus e da Sua infinita misericórdia para nós pobres pecadores. Bendito seja o Senhor! Só sei falar de mi, do que sinto, do quanto sofro. A dor é para mim uma ligação de conversação contínua. Que horror, que horror meu Jesus; mas Vós bem sabeis que o faço por obediência!

Sofri muito durante a noite, ferida por espinhos novos, que se me cravaram. Tive mais lágrimas para oferecer a Jesus e sem querer recordava as que chorei e vi chorar os meus, porque em mim se passava nas primeiras crucifixões de há 9 anos. O que seria, se em vez do presente, víssemos o futuro que nos esperava. Bendito seja Deus, louvado Ele seja por tudo o que nos dá. É de noite, mais ainda do que de dia, que me ofereço a Ele como vítima, que Lhe peço o Seu divino amor e cumprimento fiel da Sua divina vontade. Com estas disposições mas a sangrar de dor preparei-me para O receber e esperei a hora de Ele baixar a mim. Pouco depois da Sua entrada no meu pobre coração, Ele suavizou toda a minha dor, e disse-me:

― Minha filha, Minha filha, alma forte, coração de fogo; forte com a Minha fortaleza, fogo do Meu Coração, calor do Meu divino amor. Transmite esta fortaleza, irradia este fogo. Quero que sejas luz, quero que faças luz. Dá amor aos que Me amam, faz luz aos que não Me conhecem ou conhecendo-Me Me desprezam, para que por essa luz venham a Mim. Repara-Me, repara-Me, Minha filha; sem a tua reparação sangra sempre o Meu divino Coração e o da Minha Bendita Mãe. Repara-Me a Mim, repara a Ela. Como está o mundo, como está o mundo, como subiu a labareda dos crimes. Estou cansada de suster a justiça de Meu Pai. Haja um mundo novo, haja um mundo de pureza, haja um mundo de amor. Escuta, Minha filha, escuta para que o mundo não saiba, para não se escandalizar mais. É um desabafo de Esposo, é um desabafo de Pai. Esse mundo novo, esse mundo de pureza e amor devia principiar pelos sacerdotes. Que crimes eles praticam em Portugal e fora de Portugal. Que escândalo eles dão! Escandalizam-se os crentes, escandalizam-se os descrentes. Como eles afastam as almas de Mim! Dás-Me por eles alguns combates do demónio? Eu recebo desses combates tão grande reparação!

― Ó meu amantíssimo Jesus, ó meu querido Amor, apesar do horror que eles Me causam e do receio que eu tenho de pecar, queria dizer-Vos, que sim e não posso; não tenho licença, bem o sabeis, meu Jesus.

― Pede, pede, pede, Minha filha, diz que Eu quero esta reparação por mais algum tempo; consolo-Me nela, esqueço os crimes. Pede para Ma dares; prometo não te deixar pecar.

― Meu Jesus, quero a Vossa divina vontade e quero obedecer, resolvei Vós tudo, que eu tudo aceito. Mas não fiqueis triste, meu Jesus, aceitai toda a consolação e tudo o que eu Vos queria dar.

― Sossega, sossega, Minha filha, é grande o teu amor, é encantadora toda a tua vida. Diz, Minha filha, ao teu Paizinho que o amo, amo, amo. E que sobre a direcção das almas, depois duns momentos de reflexão faça ou diga o que no momento lhe for inspirado. Tem sempre com ele toda a luz do Espírito Santo e Eu sempre falarei em seus lábios. É mestre de almas, de grandes almas; fui Eu que o escolhi. O mestre destas almas tem que dar lições nas humilhações, nas perseguições e em tudo. Ele assim o tem feito. É mestre de almas, mestre de amor à cruz. Diz-lhe que depressa virei cumprir as Minhas promessas, satisfazer todos os Meus desejos. Não demoro, venho depressa. Diz ao teu médico que o tenho e a todos os que lhe são queridos presos ao Meu divino Coração, presos por amor como Eu estão preso na Eucaristia, nas prisões de amor. Cuidar de ti, cuidar do teu corpo e da tua alma, é cuidar de Mim. Diz-lhe que pode dizer, que quero que diga a quem é Autoridade, que estou triste, muito triste, que hei-de pedir contas por não se fazer luz, por não estarem as coisas como Eu gostaria que estivessem para bem das almas. Tens com a Minha graça feito bem a tantas, mas não a todas que podias fazer; isto sem culpa tua. Isto é uma ordem dada àquele que escolhi para amparo firme da missão mais sublime. Vem, Minha Bendita Mãe, dar à Nossa filhinha o conforto que ela necessita, sem o qual não resiste à dor, não pode levar a cruz.

Veio a Mãezinha, tomou-me para o Seu regaço, cobriu-me de carícias, queria abraçar-me e não podia por causa das espadas que tinha cravadas em Seu Santíssimo Coração.

― Quero estreitar-te a Mim, Minha filha, mas estas espadas mais ferem o Meu doloroso Coração.

― Fazei, querida Mãezinha ― disse eu e abracei-me a Ela ―, que essas espadas passem para mim e penetrem no mais íntimo do meu coração e da alma; não, não, querida Mãezinha, não Vos quero a sofrer assim.

Senti que logo se passaram para o meu coração e o penetraram bem fundo.

― Minha filha, alma heróica, já não sofro Eu, és tu a reparar o Meu Coração. Repara também sempre O do teu e meu querido Jesus. Pede a todos que amas para Me repararem também e fazer que seja reparado o Coração divino de Jesus. Leva-Lhe os meus carinhos, diz-lhes que os amo muito, diz-lhes que Jesus está triste com o mundo, diz-lhes que não cessem de implorarem do Eterno Pai o perdão; diz-lhes que nos consolem e façam que sejamos consolados. Leva-lhes a Minha graça, leva-lhes o Meu amor.

Veio Jesus, fez com a Mãezinha uma prensa de amor na qual me apertaram. Jesus continuou:

― A cruz, que te espera, Minha filha, abraça-a; não te entristeças; está à tua frente, beija-a por Meu amor. Dá-te às almas, cultiva as flores das tuas virtudes; os Anjos levam-nas, em braçadas, para o Céu, continuamente. O seu aroma fica espalhado pelo mundo.

― Obrigada, Jesus, obrigada, Mãezinha.

10 de Outubro de 1947 – (sexta-feira)

Quantas graças, quantos benefícios, quantos mimos de Jesus eu tenho recebido, e não sei agradecê-los, não sei provar ao Senhor com a minha vida de humildade e amor à cruz o quanto estou grata a Jesus, por tantas provas do Seu divino amor.

Obrigada, meu Jesus; obrigada, amor meu. Não posso, meu querido Jesus, dizer-Vos o que me vai no coração. Que conforto, meu amado, Vós permitiste, que me fosse dado. Vede meu Jesus, o meu reconhecimento para Convosco; aceitai mais um magnificat de acção de graças.

Não sei se é para bem que Jesus me mimoseou assim. Quanto outro bem não tenha, tenho ao menos eu um amparo, um apoio em pessoa de grande autoridade.

No meio da minha cruz, nesta luta de tão grande martírio, coberta de humilhações, veio Nosso Senhor por intermédio de uma alta e querida pessoa, a quem muito estimo, deitar-me a mão. Levantei-me, na minha dor e cegueira sempre, mas com a alma mais forte, com os olhos mais fitos em Jesus e na Pátria que me espera. Não é por mim para grandeza e glória minha, que eu estimei e agradeço ao Senhor este grande apoio; é por Jesus, é pelas almas, é pelos que me são queridos. Tudo isto principia e acaba por Jesus. É a Ele, só a Ele que quero amar, glorificar e dar almas. É por Ele, só por Ele que eu me curvo debaixo da minha cruz, é ainda só por Ele que eu quero ser pequenina, tão pequenina até desaparecer. Quero viver e não viver, isto é, viver só a vida de Jesus, estar aqui, como se não estivesse, viver aqui como se não vivesse e nunca aqui existisse. Jesus, só Jesus, para mim é tudo.

Não sei o que sinto, um Céu escuro, um Céu de tremenda justiça poisou sobre mim; poisou e ficou a faiscar. Que estrondo nele! Rebenta como bombas, abre-se em fogo e incendeia a terra. Entre a terra e este Céu de justiça, esmagada por ela, as chagas abrem-se mais e com mais abundância sangram, os espinhos do coração e da cabeça penetram mais fundo, as espadas e as lanças não deixam de o ferir.

Passam os dias, passam as noites e eu num martírio de alma e corpo, mas sem aumento de graça e amor, sem dar um passo por Jesus, cheio das maiores misérias. Não posso ver-me; que nojo ao ver-me assim! A eternidade aproxima-se, corre para mim, em marcha apressada, vem colher-me a morte e só colhe maldades, não encontra nada que satisfaça a Jesus. Meu Deus, que horror!

Na tarde de ontem, senti mais o esmagamento e a justiça do Céu; não podia aguentá-la. Debaixo deste esmagamento, senti os olhos vendados e o rosto esbofeteado; o que sentia o rosto sentia o coração. A seguir, ficou ao alto, junto de mim, uma cruz; senti-me de pé, abraçada a ela; nunca mais a deixei. Via os caminhos, que atravessava, ficaram marcados com o sangue que do coração me saía. Este sangue luz, levava amor, mas não era meu, era de Jesus. Era uma grande atracção e convite que Ele fazia para todos O seguirmos com a cruz até ao Calvário. Caminhei para o Horto; lá cheguei, de lá vi a querida Mãezinha em cuidados, em amargura, em ânsias. Onde estava o Seu Jesus? Que sofria Ele àquelas horas? Estava a suar sangue; de todas as Suas veias ele corria a ensopar a terra. Senti que todo o solo estremecia e toda a terra se movia para mais se ensopar no sangue inocente de Jesus. Toda a justiça divina desceu, a todo o descer; envolveu-se o divino com o humano, o amor com a ingratidão. Eu fiquei ali naquele esmagamento, entre a terra e o Céu, a dar o meu sangue, a beber o cálice amargo, até à última gota. Jesus é que a bebia, é que derramava o Seu divino sangue, é que era esmagado, mas utilizou-se do meu corpo. Se eu soubesse acompanhá-Lo em toda a Sua Paixão! Mas oh! pobre de mim, nada sei.

Hoje, de manhãzinha, muito cansada, quase sem vida, muito ferida, tomei a cruz; caminhei pelas ruas estreitas que davam para o Calvário. Oh! que tristeza, que escuridão! Sentia que Jesus com os olhos colados pelo sangue não via para caminhar. Os Seus olhos divinos estavam nos meus e neles senti como que o sangue de Jesus a coalhar. Cheguei ao Calvário, ali passei pelos demais sofrimentos.

Uma onda mundial, toda criminosa, levantou-se contra mim e contra o Céu; era uma revolta, uma tremenda batalha. Jesus, todo misericordioso, com todos os meios lançou-se a essa onda para a acalmar; queria o mundo que Lhe pertencia; deu-lhe todos os meios de salvação. Logo a seguir a isto, senti, dentro de mim, um suspiro de Jesus e do alto da cruz, de dentro do Seu peito Santíssimo, como se fosse uma pomba branca a esvoaçar, pareceu-me voar o Seu divino Coração; voava, voava, mas sem se poder poisar. Queria abraçar, não só os que com graça e amor rodeavam a cruz, mas sim todos os que com crueldade e ingratidão Lhe formavam o Calvário; sim, nesses é que Ele queria poisar, é que Ele queria abraçar. Repelido, sem poder consegui-lo, suspirava e a Sua agonia chegou ao auge. Senti dois abandonos, um, como sempre de costume o tenho, que me pertencia a mim e outro que pertencia a outro; eu, que não era eu, parecia sê-lo, mas era Jesus. E neste abandono completo, Ele expirou e eu também, ou pareceu-me que expirei. Depois de um bom espaço de tempo, veio Jesus, veio sem luz, deu-me vida, mas em dor.

― Minha filha, Minha filha, coração de oiro, palácio da minha habitação, sacrário das minhas delícias; nele depositei o meu amor, todos os Meus divinos tesouros e riquezas sem fim. Estas riquezas são para as almas, são para o mundo. Repara, vê que centro de maravilhas é o teu coração; é levantado ao Céu pelos Anjos e por Minhas divinas mãos oferecido a Meu Eterno Pai para aplacar a Sua justiça, para O fazer esquecer as maldades humanas!

Vi que três Anjos sustentavam em suas mãos um centro riquíssimo, parecia uma piscina toda iluminada e adornada com o amor de Jesus. Vi que Ele a levantava ao Céu em Suas divinas mãos. Não saí da minha dor. Fiquei tão pequenina, parecia-me estar de rasto, junto aos pés de Jesus. Não soube dizer-Lhe uma palavra. Ele tomou-me para o Seu regaço, inclinou-me para o Seu peito Santíssimo o meu rosto e pôs-me a beber na chaga do Seu divino Coração e ali ficamos por algum tempo em silêncio. Jesus interrompeu e disse:

― Bebe, bebe, minha filha, levanta o teu desfalecimento, resiste à tua dor, sacia-te; é o meu divino amor. Eu quero-te na dor, quero-te na treva para Me consolares, para acudires ao mundo ingrato, ao mundo que Me foge. O teu coração é um palácio com portas de virtudes pelas quais entram e passam para Mim os pobres pecadores. Aceitas o ficar em grande dor e agonia, afim de reparares o Meu divino Coração e acudires às almas, até que possas dar-te a alguns combates do demónio? Estou à espera deles, pede, minha filha, para mos poderes dar.

― Ó meu Jesus, aceito a maior dor, aceito a maior agonia, aceito tudo, se sois comigo e tudo Vos dou, se me deixarem. Tudo Vos dou sem ter que Vos dar; sinto que nada estou aqui a fazer.

― Tudo aceitas, minha filha! Que grande alegria para mim! Não poderei deixar de te exaltar e dar-te os títulos de maior honra e maior louvor. Não posso Eu exaltar-te e dizer-te: minha bela, és toda minha? Que grande bem estás tu aqui a fazer às almas! Este Calvário é para elas o amor que as abrasa, fonte que as lava e purifica, luz que as alumia e trai a Mim. A tua dor, a tua dor, minha filha, é dor de salvação; sobe ao Céu incessantemente, dia e noite, e depois de Me reparar é pelos Anjos atirada às almas e nelas vai penetrar como raio fulminante. Confia, confia, a tua dor é de conquista, é de salvação. Parecia-me que o Céu estava aberto e muitos Anjos espalhavam para a terra, ora para um lado, ora para outro, não sei o quê; estavam canseirosos, não sei o que semeavam. Não te demores, filha querida; faz a lista das almas que queres que passem da terra ao Céu; fazendo isso, consolas-Me e sempre continuas a amar-Me.

― Sim, meu Jesus, faço-o logo que me mandem; eu quero consolar-Vos, quero amar-Vos. Aceitai-a já, como se ela neste momento fosse feita. Nela ponho a todos que agora me estão presentes, a todos que querem que eu ponha e todas aquelas que é do Vosso divino desejo.

― Vou, agora, dar-te a gota do Meu Sangue. Pela chaga bebeste amor e pelo tubo de oiro rompe das veias, do Meu Coração, para o teu a gotinha do Meu divino Sangue. É o sangue que te dá vida, é a vida do que to vives, é a vida que dás às almas, é o sangue que gera as virgens. Com toda a razão Eu posso dizer: minha esposa, virgem louca, Eu sou o Esposo das virgens. Oh! como Eu as amo, sobretudo como Eu te amo!

Quando o sangue de Jesus passou para mim, o coração cresceu, cresceu, levantou-me o peito, fiquei sem poder respirar; sem poder aguentar, parecia-me morrer. Jesus inclinou-me para Ele e acariciou-me.

― Coragem, minha esposa amada; toda a tua vida, toda a tua força dá-ta Jesus, vem-te do Céu. Confia, vives de Jesus e para Jesus, vives de Jesus e para as almas. Vai para a dor e para a cruz, sorri-lhe sempre, abraça-a sem temor. Coragem, coragem! É teu o mundo, são tuas almas, salva-as. Combate, minha heroína, combate e vencerás.

― Obrigada, obrigada, meu Jesus.

Vim para a cruz e não sei o que sinto. Vejo que todo o mundo é noite, que todo o mundo é revolto. Quero acudir-lhe, quero salvá-lo e não posso. Como é grande a minha dor! Quero levá-la com alegria. Jesus, vinde e vencei em mim.

17 de Outubro de 1947 – (sexta-feira)

Os meus olhos parece não verem sequer a luz do dia, resultado da cegueira da minha alma. Nada sinto, nada vejo, a não ser a dor da cegueira. Que tormento, que tormento, ó meu Deus! Oro e apagam-se as minhas orações, sofro e foge-me a minha dor; se, por graça do Senhor, algum bem pratico, tudo desaparece.

O tempo passa, vem a Eternidade e eu de mãos vazias. Que luta dolorosa dentro de mim! Como passo o meu tempo? Como passo os dias que Jesus me dá de vida? A dor desaparece e nada tenho que entregar a Jesus. Não sei como enfrentar este viver. Não posso convencer-me deste nada que sou, desta miséria que só Jesus conhece e que a mim causa horror, e ter que viver assim; não posso, não posso. Ver que nada tenho, saber que Jesus me espera e me encontra assim vazia de todo, só cheia d maldades. Se eu me horrorizo e me envergonho de mim mesma, como se não há-de horrorizar e envergonhar Jesus de me ver na Sua divina presença. Ó meu Jesus, ó meu Jesus, eu confio em Vós, não me deixeis cair no desespero, não deixeis o demónio convencer-me de que a minha vida é inútil, que todas as maldades são minhas.

Todos estes dias tenho vivido, esmagada pelo peso da justiça divina; fez-me lembrar a serpente debaixo dos pés imaculados da querida Mãezinha. O peso da justiça divina esmaga-me e eu tento levantar a cabeça e revoltar-me contra a mesma divina justiça. É debaixo deste peso que eu sinto envenenar toda a humanidade; sinto o veneno a cair-me dos olhos, ouvidos, da língua, do tacto; sou só veneno até mesmo no pensamento. Este veneno corre, não tem freio, espalha-se, vai envenenar tudo. Todo o meu ser, toda a terra é veneno. E é sobre este veneno que pesa a justiça divina. Eu não quero aceitá-la, revolto-me e sinto querer envenená-la também. Ó meu Deus, não pode ser envenenar-se aquilo que é divino, aquilo que é Vosso. Sou pior que a serpente, sou veneno mais perigoso.

Que horror eu senti toda a humanidade a beber, a envenenar-se, a mergulhar-se em mim. O coração rasga-se-me de dor, ando como o ladrão fugitivo; quero esconder-me, tenho medo de tudo, tenho medo do Céu, tenho medo de Jesus. Ouço em meus ouvidos, sinto em minha alma o som da trombeta que me chama; Ele vem a pedir-me contas. Que será de mim, meu Deus, como poderei aparecer diante de Vos!

Na tarde de ontem, senti Jesus debruçado sobre a cidade, que representava o mundo e chorava. Estas lágrimas causavam suores, trevas, agonias de alma. A seguir sentia nos meus olhos lágrimas de sangue e dos ouvidos saíam-me gotas dele também. Na cabeça senti os espinhos, via esponja, senti no coração a lança.

Era ainda cedo e eu prostrada no Horto, naquele solo duro que tanto me feria. Rolava nele com aflição. Apresentou-se-me ali o Calvário; estava coberta de iniquidades que atraíram sobre mim a justiça do Eterno Pai; com o peso suei sangue; a aflição era indizível, sentir-me assim esmagada e ver-me, cheia das maiores iniquidades. Veio Jesus, beijou Jesus, deu-se a prisão. Eu caminhei com Ele, com Ele senti o frio, parecia gelar, e o desfalecimento.

Na manhãzinha de hoje, sem pensar encontrá-Lo, lá O fui encontrar quase moribundo. Tomei a cruz, depois dos açoites e todos os maus-tratos com os quais perdi muito sangue. Senti o caminho do Calvário, mas logo no princípio senti que o sangue de Jesus fervia em Seu divino Coração como panela que ferve sobre chamas. Ele atirava-se de braços abertos para os sofrimentos, como quem se atira às ondas para nadar. Em todo o caminho da amargura, e no Calvário, e já no alto da cruz, Jesus levantou por muitas vezes os Seus divinos olhos como que a pedir auxílio; sentia-os na minha alma como que abrirem-se e a fecharem-se. Cravaram-se-me no coração todas as feridas do corpo Santíssimo de Jesus e bem gravadas ficaram e todos manchados de sangue os caminhos que percorremos. Já lá vai muito tempo e ainda os sinto em mim, como se fosse agora! Não foram só os caminhos dolorosos que me fizeram sofrer, surgiram espinhos postos por mãos humanas a ferirem-me também; levaram-me a fitar a cruz com Jesus, a pedir-Lhe forças para os suportar. Quanto custa este viver!

Quando estava assim no Calvário, a cruz e Jesus levantaram-se em meu peito, a montanha foi subindo, subindo, levou a cruz e nela Jesus, desapareceu tudo, sumiu-se o Céu. Eu fiquei sozinha ligada ao princípio dessa montanha. Levantou-se um mar de crimes, das maiores iniquidades, e as ondas desse mar batiam em mim, membro dessa montanha, como batem as ondas num cais. Quanto mais batiam, mais cegueira eu tinha, mais ó me sentia. Sem luz, sem auxílio para aguentar tão0 grande mar de crimes, pior imensamente pior do que a fúria da mais tremenda tempestade, senti-me morre, mas sem Jesus a acompanhar-me. Não O senti a Ele a expirar. Assim fiquei por um bom espaço de tempo, morta sem morrer, nas trevas sem ser noite. Veio, depois, Jesus; não me trouxe logo a luz, trouxe-me a vida e um fogo que me incendiou o coração; pegou o fogo e disse-me:

― Minha filha, minha filha, tu não estás só; eu estou contigo. E sabes quem Eu sou? Sou aquele Jesus a quem escolheste e preferiste para Esposo. Como Eu te quero e amo! Anima-te, anima-te; tem coragem. Tu não és trevas, és luz; as trevas são para ti, para viveres nelas e a luz, a luz, que tu és, é para as almas. Criei-te para elas, não és do mundo e vives para o mundo, não estás no Céu e vives do Céu. Desde o primeiro instante da tua existência, desde que te criei vi sempre em ti a missão que te confiei, a missão mais bela, a missão mais nobre, a missão das missões, a missão das almas; criei-te para elas, delas és vítima. E à Minha semelhança, vítima do Calvário, vítima do Gólgota. Como prova de que o és, foi por isso que te uni ao princípio da montanha e sobre ti fiz bater o mar das iniquidades.

A montanha subiu, a cruz desapareceu, e eu com ela fui para o Céu. Mas os crimes continuaram, e eu continuei a dar a prova do Meu amor e a derramar sobre o mundo as Minhas graças. Foi aquela chuva de oiro, que do alto da cruz viste das Minhas chagas, de todas as Minhas feridas brotar. E a prova desse amor foi fazer continuar a obra da redenção. O Calvário, o Meu divino Sangue foi desprezado; desprezadas foram as Minhas graças, o Céu fechou-se para a maior parte da humanidade, perdeu-se para ela o sofrimento da cruz. Foi preciso continuar essa obra, através das Minhas vítimas. És a maior vítima, és a maior depositária das riquezas de Jesus. Acode ao mundo. Eu continuo a dizer que ele está em perigo, grave perigo, urgente perigo. A maldade desafia a justiça do Eterno Pai. Escuta o mendigo que bate, dá a esmola a Jesus que te pede; aceita a cruz, leva-a com alegria, dá-Me a dor, dá-Me o fruto do teu Calvário; quero-o para as almas; dá-Me o combate do demónio. Que grande reparação eles Me dão! Dá-Me as almas, acode-lhes. Faz tua a Minha dor, faz teus os Meus suspiros, faz teu o Meu amor e as ânsias do Meu divino Coração. Quero almas, fala ao mundo, diz-lhe que Eu o chamo, que Eu o quero; pede-lhe que se converta.

― Ó meu Jesus, eu não sei falar, nada sei dizer, falai Vós por mim; incendiai nas almas o fogo que Vos consome, aceitai a minha dor, aceitai o fruto do meu martírio que é Vosso e não meu, meu Jesus; distribuí como Vos aprouver. Eu quero dar-Vos tudo, mas não posso ouvir-Vos a pedir-me, a falar-me como um mendigo. Mandai-me o que Vos aprouver, já sabeis que tudo aceito e tudo Vos dou, sem ser preciso pedir nada, nada, meu Jesus. Não sois Vós o meu Criador, o meu Rei, o meu tudo? O que Vos dou eu, a não ser o que é Vosso? Não tendes Vós licença de pegar e distribuir? Sou a Vossa vítima, imolai-me, imolai-me, Jesus.

― Como é bela a prece dos humildes! Como atrai a si as graças e a loucura do amor de Jesus. Como é consolador para mim a oração daquela, que, sendo grande com a Minha grandeza, se humilha e faz pequenina! Que graças, que graças, atrais para o mundo, ó Minha filha, ó bela com as belezas divinas!

Com o meu coração a arder, fiquei a gozar de Jesus; gozava-O no silêncio; nem eu nem Ele falava. De repente introduziu o tubo de oiro no meu coração e no centro poisou o dele.

― Vai já correr em todas as tuas veias a nova gota do sangue do teu Esposo Jesus; é o sangue divino que te dá a vida, é a vida que te faz viver e fazer viver as almas.

Senti a gota do sangue de Jesus a correr em todas as veias, quero dizer em todo o meu corpo; senti a força daquela vida. Jesus acariciou-me, uniu aos meus os Seus divinos lábios, cheios de doçura, e disse-me:

― É ósculo de amor, não de traição como foi para Mim o de Judas. Leva a vida, este amor que agora em ti fundi e vai infundi-lo nas almas. Atrai a Mim com este amor as que ferem e atraiçoam o Meu divino Coração. Vai para a cruz, leva a cruz, fica nas trevas, dá luz. Coragem, Minha filha, coragem na dor, Espalha, espalha no mundo o perfume, o aroma delicioso, fruto do teu martírio; cultiva as flores de tão formoso jardim. Eu delicio-Me entre elas a contemplá-las. Coragem, coragem!

― Obrigada, obrigada, meu Jesus; eu vou mas vou confundida. O que sou eu e quem sois Vós? Ó amor, ó grandeza, vinde comigo.

As graças de que Jesus falou, esqueci-me de dizer que as vi cair de todas as chagas e feridas de Jesus, enquanto que O vi no Calvário. Que chuva lindíssima caía do alto da cruz! E eu sentia-me a voltar-lhe as costas e a desprezá-lo.

Jesus me aceita o grande sacrifício, que fiz em ditar tudo isto. Não foi só o horror que me causa o ter de ditar, foi também a grande falta de forças, o grande sofrimento de todo o meu corpo. Tenho a certeza de que Jesus me auxiliou; sem Ele não poderia dizer palavra. Bendito seja o Seu divino amor, e bendita seja toda a cruz, que Ele me dá!

24 de Outubro de 1947 – (sexta-feira)

Oh! quanto sofre o meu corpo, e que dor e luta interior na minha alma! Como pode ser isto?

Sofrendo eu tanto, não só me parece que os sofrimentos não são meus, mas para mais doloroso ainda, sinto que nada sofro; sinto que não sofro e sinto a dor, e sofro, sofro, sofro tanto. O meu corpo, desfeito pela dor, é menos que o pó que o vento espalha. E na minha alma, ó meu Deus, que grande horror! Sinto que tenho duas almas, uma que sofre e a outra que não pode sofrer. A que não sofre não é minha, e a que sofre não são meus os sofrimentos. A que não sofre é puríssima parece que tudo vê e em toda a parte habita e que nada se lhe pode ocultar; é dela a terra, é dela o Céu. A que sofre está em trevas, não é pura, está manchada. Mas não sei como; são duas almas e uma só alma. A que é pura está ligada à culpada; dá-lhe vida, ampara-a, encaminha-a. Mas eu não posso aguentar em mim esta pureza, unida a tanta miséria, que eu sou; é um sol, é um brilho que eu não posso enfrentar, faz-me conhecer mais os meus defeitos e horrorizar-me deles. Se eu tivesse força para corrigir-me e emendar-me para sempre! Vejo os defeitos em mim, e não sou capaz, não tenho forças para não cair. Tantas vezes invoco o nome de Jesus, tantas vezes chamo pela Mãezinha e Lhe peço que me faça pura, obediente e humilde, que me encha de tudo o que é Dela, para que Jesus em mim só a Ela veja!

E sou sempre a mesma, cheia de maldade, coberta de crimes, a desfazer de podridão, e sempre a ser esmagada pelo Céu e sempre debaixo desse esmagamento a espirrar, a espalhar veneno por todos os meus sentidos, por todo o meu corpo. Que horror, que horror, ó meu Deus, que veneno me sai dos olhos e de todo o meu ser, como ele envenena o mundo e tenta atirar contra o Céu esse mesmo veneno!

Sinto a Jesus crucificado em todo o meu corpo; sempre as chagas Dele em minhas mãos, pés e coração, sempre o corpo ferido e a cabeça cercada de espinhos. Não sou eu, é Jesus que está em assim, é Ele que assim sofre; é o Seu divino Coração que tem espinhos, lança, espadas, punhais e setas.

É Ele que sofre com a Mãezinha e vêm os dois sofrer em mim. É por Jesus que eu vejo quanto Ele sofre, toda a dor Dela. E a tudo isto se vieram juntar mais dores, mais torturas de almas. Como, Jesus é bom; é Ele que tudo manda, tudo permite.

Com estes sofrimentos não sofro por mim, sofro por saber sofrerem os que me são tão queridos e não lhes poder acudir. Por pessoa, que grande lugar ocupa em meu coração, foi-me recomendada a saúde de um enfermo. Meu Deus, o que eu sofri, me sacrifiquei e orei por ele; ofereci-me como vítima a Jesus; disse-Lhe que, durante um mês, descarregasse sobre o meu corpo e alma todos os sofrimentos, que Lhe aprouvesse, em cima dos que eu já tinha, contanto que Ele e Mãezinha fossem comigo, para eu poder sofrer, mas que me dessem a vida daquele enfermo, sem prejuízo da sua salvação e da glória de Deus! Era grande, muito grande a dor e a angústia da minha alma, quando assim falava a Jesus. Na minha grande aflição, repetia-Lhe muitas vezes sem pensar obter uma resposta Sua: dais-Lhe a saúde, dais, meu Amor? E Jesus, na Sua bondade infinita, muito doce e suavemente, disse:

― Quero-o para Mim, quero coroá-lo do Meu divino amor, da Minha glória.

Sempre na minha dor, sem atender ao que Jesus dizia, insisti no meu pedido. Jesus, por três vezes, repetiu-me sempre o mesmo.

Passaram-se quase dois dias; a mesma pessoa de toda estima, de novo, me recomendou o doente, já quase em agonia. Que punhaladas na meu pobre coração! Que dor, que posso dizê-lo, quase irresistível! Em vez de oferta de vítima por um mês, fiz uma de três meses.

Chorei, chorei, fiz penitência, pedi para ser posta no chão, por algum tempo, para maior sofrimento, o que me não foi concedido. Mas, esta vez, Jesus não falou, fez-se surdo; em todas as minhas súplicas de tantas horas, não tive um raiozinho de luz, tudo se me apagava e desaparecia neste mundo; nem ao menos no memento da Sagrada Comunhão eu senti outra vida. Confiava que Jesus podia fazer o milagre, mas esta confiança não tinha lugar, ficava na superfície, tudo o mais é que era realidade.

Senti no meu íntimo a noite e o silêncio da morte. Eu queria o milagre, mas já orava pela boa morte do moribundo. Que medo aterrador pela vida de sofrimento se entranhou em todo o meu ser; foi um martírio, que se veio juntar ao martírio do Horto e do Calvário. Só depois de mais de 24 horas é que eu soube que o doente tinha partido para o Céu, se bem que já assim o pensava pelo meu colóquio com Jesus.

Tenho tido tanto medo do demónio! Receei tanto os seus assaltos! Há dois dias e noites que ele andava furioso, à volta de mim: uivava raivosamente, queria assaltar-me; atormentava-me com várias coisas o meu espírito. Apesar de todo o meu receio, Jesus não permitiu que ele viesse com os seus ataques. Que conjunto de sofrimentos, meu Jesus; contudo eu sou e serei sempre a Vossa vítima!

Na tarde de ontem, principiou o meu Horto. Primeiro que tudo, veio um sol do Céu que parecia iluminar todo o mundo; veio e envolveu em si toda a terra. O Calvário, o Horto juntou-se àquele sol, formou-se tudo numa massa. Desapareceu todo o brilho; toda a maldade, todo o erro lho encobriu. Jesus, dentro de mim, fitava tudo aquilo, e, curvado sobre aquela massa mundial, chorava; choravam os olhos do Seu corpo, chorava a Sua alma Santíssima.

Logo depois, vi a cruz e Jesus nela crucificado, a derramar sangue, muito sangue que Lhe atravessava a cintura. Ao senti-Lo e vê-Lo assim, passei-me com Ele para o Horto, ali veio representar-se todo o Calvário. Que aflição! Rolávamos pelo solo duro, o qual tremia e nos fazia tremer. Falo assim porque Jesus ia comigo; sofríamos os dois. Ali mesmo, Jesus suou sangue e falava a Seu Eterno Pai e Lhe oferecia o cálice tão amargo; amargo para Jesus e amargo para mim. Foram dois Hortos. Sofria com Ele, sofria por Ele e sofria por mim. Como eu desabafei com Jesus e Lhe pedi para as consolar! Ó noite, tremenda noite! Que todo este meu sofrer seja para honra e glória do Senhor e bem das almas. Não sei, não sei traduzir a minha dor.

Veio a prisão e eu segui Jesus, sempre a ser com Ele maltratada; e, hoje, logo de manhãzinha eu, à prisão O fui encontrar, sempre acompanhada do mesmo sofrimento que era um martírio triturante. Voltei a ver a cruz de Jesus e com Ele andei a caminhar entre o alarido e grande algazarra do povo. Os sofrimentos de Jesus eram para todos grande festejo. Não se comoveram ao vê-Lo chagado, ferido. Caminhamos para o Calvário, suportei a Sua amargura e a minha. Custou tanto a chegar ao cimo! O meu peito serviu de montanha e o meu coração de cova da cruz onde Jesus estava crucificado. Ele regou com o Seu divino Sangue o solo duro, que eu representava. Com ser eu o Calvário sento-me abraçada a ele, abraçada à cruz. Queria sofrer, queria morrer. O sangue de Jesus caía, os corações dos que O rodeavam com rancor não se comoviam. Um grande número tinham em suas mãos chicotes e finas varas com os quais, mesmo na cruz, tentavam satisfazer mais seus gostos, ferirem a Jesus. Quantos escarros Lhe queriam ainda lançar em rosto. O meu coração via tudo aquilo. Oh! como Ele sofria! O meu brado unia-se ao de Jesus, a pedir socorro ao Pai. Quando Jesus expirou, com que amor bondade e doçura Ele Lhe disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito; é para ti o Meu último suspiro. Tudo se calou, tudo ficou por algum tempo em silêncio. Jesus tinha morrido, mas veio depressa; ressuscitou, deu-me a Sua vida e falou-me:

― Coragem, coragem, minha filha! Oh! commo são belos e prodigiosos os caminhos dos escolhidos do Senhor. Oh! como é bela, luminosa e atraente a vida da esposa mais fiel, a vítima mais generosa que Jesus escolheu para Si. Coragem, coragem, minha filha. Não é só pedir-te a dor para ouvir dos teus lábios um sim cheio de amor e generosidade; peço-te a dor e quero a dor, peço-te a dor e busco todos os meios para te fazer sofrer. Ó dor, ó dor, ó dor salvadora! O fogo das paixões incendiou-se no mundo, não há quem o apague; em vez de água a apagá-lo, dentando-lhe a lenha das maldades, crimes hediondos, as maiores iniquidades a incendiá-lo; subiram ao seu auge as labaredas criminosas. Dá-me a tua dor, filha querida, e diz tu ao mundo que Jesus o ama e quer; diz-lhe que se converta depressa, depressa. Se assim não for, quanto ele terá que chorar e gemer. O fogo já corre pelos rastilhos, a bomba divina não demora a explodir.

Jesus dizia isto com lágrimas, suspirava em profunda tristeza. Não pude vê-Lo assim.

― Meu Jesus, meu Jesus, não consinto nas Vossas lágrimas. Para que sofro eu? Para que quereis Vós a minha dor, a minha tão pobre e sofrida dor! Ponde-lhe os Vossos méritos, ponde-lhe o Vosso amor e consolai-Vos nela e dela fazei o que bem Vos aprouver. Quero eu chorar, sofrer e estar triste, contente só por fazer a Vossa divina vontade.

As lágrimas de Jesus cessaram logo, e continuou.

― Já estou contente, filha amada, mas tens tanta reparação a dar-me! Tens que dar tão grande lição ao mundo! Repara-Me, mas com alegria; fita na cruz os teus olhos, que eles vêm para Mim a poisarem em Meus braços como pombas brancas para descansarem. Fita em Mim os teus olhares e em Mim toma conforto; dá-Me grande reparação, o veneno corre. Os esposos não dão vidas; matam vidas. Oh! que crimes! A imodéstia alastra-se. As almas vítimas fogem, temem o sofrimento, temem a cruz. E tantas de quem Eu esperava tudo, pecam horrivelmente. Dás-Me por tudo isto o que te vou pedir? Dás-Me os combates com o demónio? É deles que Eu tiro para esta matéria a maior reparação.

Jesus dizia isto e chorava novamente.

― Não choreis, meu Jesus; que eu Vos dou tudo, bem o sabeis, pois já tenho licença para tudo Vos dar; dou-vo-los na confiança de que me não deixeis ofender-Vos. Mas não quero ver mais em Vossos divinos olhos as lágrimas. Dou-Vos, mas também Vos peço, sabeis bem o que é. Fazei-me o que Vos peço, mostrai o Vosso poder. Pela Vossa graça nunca Vos neguei nada, não me negueis também; não é por mim, é por vós, é por aqueles que tão profundamente colocaste em meu coração.

Jesus sorriu docemente com modos e gestos de quem quer dizer mais, muito mais, e disse-me:

― Pede-Me com confiança, nunca são em vão os teus pedidos. Os desígnios de Deus são imperscrutáveis; os Meus olhos divinos vêem tudo, tudo Me é presente. A criatura humana só pode ver e compreender à luz da eternidade. Coragem, coragem, Eu vou dar-te o Meu divino Sangue; recebe-o que é força, recebe-o que é vida. A dor que te espera, só a força divina a pode vencer; nada temas, Eu estou contigo.

Jesus introduziu o tubozinho brilhante como oiro, e no cimo trazia o Seu divino Coração. Caiu a gotinha de sangue, Jesus tirou-o rapidamente, fez que eu pudesse aguentar, e logo deixou a abertura cicatrizada.

― Minha filha, pomba querida, vai, não deixes de, na dor, teres o sorriso; não deixes de beijar e abraçar a cruz; ela espera-te, corre para ela, leva a vida, tu és a vida das almas, tenho-te no mundo para elas. Vai em paz, e leva a Minha paz, leva a Minha luz, és a luz, vai guiá-las, vai salvá-las. Fica nas trevas, vive nas trevas, são trevas da maior luz. Milagre, milagre, milagres, milagres por ti os opero nas almas, aos milhares, aos milhares. Vai contente, semeia as Minhas graças, semeia o Meu amor. Obrigada, obrigada, meu Jesus. Ai! Como eu temo os sofrimentos, as oh! como eu quero a cruz que me dais; recebo-a, recebo-a só por amor. Meu Deus, como são já tão grandes e assustadoras as trevas em que me encontro! Poderei vencê-las? Venha o Céu, venha o Céu todo por mim.

31 de Outubro de 1947 – (sexta-feira)

Sinto em mim as chagas de tal modo abertas, que, apesar de serem em mim, parece-me, por dentro delas, passar de um lado para o outro. Mas não sou só eu, é o mundo inteiro que por elas atravessa, por elas passa, ora por uma, ora por outra; são portas francas, pelas quais todos podem passar, sem pedirem autorização.

Todas estas chagas dão passagem para um só caminho, que vai ter à chaga do coração e da chaga dele passam a outro Coração, que unido ao meu está. Oh! e com que ansiedade esse Coração recebe a todos quantos para Ele querem ir. Parece que tem braços para abraçar, olhos para fitar e atrair, lábios para sorrir e beijar. Que coração, que coração que é amor, só amor! O meu é tão pequenino e mesquinho, nada, mesmo tão nada ao pé deste; não sei até como, sendo assim tão pequenino, pode ter em si chaga tão grande, parece uma chaga mundial. Custa-me tanto a aguentá-la! É tão grande, é mesmo imensa a dor que me causa. Sofro tanto, e não sou capaz de, com os meus sofrimentos, remediar tanto mal. Eu quero, não sei o que quero; quero tudo em poucas coisas se resumem. Consolar e amar Jesus, fazer só a Sua divina vontade e salvar-Lhe as almas. Quero as almas, quero o mundo, quero-o para Jesus. Não sou eu o anseio é Ele. Ai como eu O sinto, de braços abertos, para o receber e abraçar.

Não sou capaz, não me é possível, por mais que eu sofra, dar alegria, dar alegria ao meu Jesus, amá-Lo com a maior loucura. Ai de mim, e eu quero amá-Lo! Não resisto a estes desejos de amar a Ele, só a Ele; e temo não resistir, não vencer atravessar as trevas, que, de cada vez, se tornam mais distantes, mais profundas, mais minhas, minhas para por elas caminhar, minhas para nelas sofrer, minhas sem serem minhas; sou feitora deste terreno de negra escuridão. Temo-as tanto e quero-as, não as posso deixar.

O demónio tem-se regalado de atormentar-me; tentou levar-me ao desespero, persuadir-me de que não sou ouvida por Deus, que nada adiantam as minhas orações.

Depois desta tentativa, veio atormentar-me com os seus ataques. Foram oito assaltos, e sempre de noite. Em duas noites foram três, a seguirem-se uns aos outros, e, noutra, foram dois. Não sei, parece-me que nunca teria a coragem de dizer as coisas horrorosas que ele dizia contra Jesus e os gestos maliciosos que ele fazia. Horrorizava-me, por dois motivos; um pelo receio de pecar, outro por tais coisas ter que ouvir de Jesus e temer que, na mesma ocasião, Ele me castigasse. Que horror e que, horrorosos são os crimes com que Ele é ofendido! O meu coração pareceu-me saltar para fora do peito; a batida que ele fazia com tanta força, não parecia de um coração, mas sim duma fábrica. Eu estava toda revestida de malícia, todo o meu ser era inferno, tinha toda a maldade do demónio.

Tinha uns pequenos intervalos de um combate ao outro, mas ficava sempre a ele presa pela loucura das paixões. Compreendia toda a malícia e sabia o que ele me representava ou fazia sentir. Não deixava por isso com toda a alma e coração chamar por Jesus e pela Mãezinha, dizer-Lhes que não queria pecar, que antes queria o inferno, que era a Sua vítima. Tudo isto me parecia que já era tarde, que só recorria ao Céu, depois de ter pecado.

Apenas terminava o último combate, parecia-me ter vindo não sei de onde, dum mundo para o outro, dum mundo maldoso e criminoso para um mundo inocente; e logo deixava de compreender tais maldades, mas com o coração a sangrar de dor, por muito tempo. Que triste vida, Jesus; que triste vida, Mãezinha; sou sempre a Vossa vítima para Vos consolar e amar, desejosa sempre de em tudo cumprir a vontade do Senhor.

Na tardinha de ontem, vi atrás de Jesus a Mãezinha, junto à cruz, quase a desmaiar de dor; vi, no mesmo momento que não foram mãos humanas que A ampararam, mas sim o amor de Jesus, que em raios doirados, A cercaram e sustentaram firme sem cair. Depois disto, caiu sobre mim a montanha do Calvário; o peso era esmagador; que aniquilamento! Senti que Jesus caminhava comigo, curvado com o peso da mesma montanha. O Seu Santíssimo corpo banhava-se em suor, da cabeça aos pés, a Sua tristeza era a mais profunda, a escuridão era a da noite mais tremenda.

Passamos para a ceia. Vi o rosto de Jesus, afogueado de amor; iluminava toda a mesa e aposento. Era lindo vê-Lo com os olhos feitos no Céu; era lindo ver e sentir a doçura com que Ele deixou inclinar sobre o Seu Santíssimo peito o discípulo amado. Foi doloroso e arrepiante ler no coração de Judas os maus intentos, a falsidade que tinha para com Jesus e ser por seus olhares venenosos contemplado. Judas fitava Jesus com maldade, e, sem querer fazê-lo, fazia para disfarçar. Jesus fazia-o com doçura e bondade para o convidar a Si. Sem sair dali, vi todo o Horto, cheio de agonia. E pelo meu coração passaram as lágrimas da Mãezinha, ao saber de Jesus preso e tudo o que Lhe faziam.

Hoje tomei com Ele a cruz com o corpo todo chagado e a cabeça cheia de espinhos; seguimos o Calvário. Em todo o trajecto, caímos por tantas vezes desfalecidos; eu sentia o rosto de Jesus, poisado na terra dura; respirava contra ela e os Seus lábios divinos pareciam beijá-la, ao mesmo tempo que nova chuva de pancadas caíam sobre o Seu Santíssimo corpo. No Calvário senti e vi que, ao despir Jesus, o fizeram com toda a crueldade. O Seu divino corpo, coberto de sangue e feridas, não comoveu os seus duros corações. Aumentaram com isto a amargura de Jesus. Foi nesta amargura que Ele ficou todo o tempo da agonia até expirar. Custou-me tanto a aguentar este sofrimento de Jesus! Custou-me tanto suportar as palpitações fortíssimas do Seu divino Coração! Palpitava de amor pelo mundo endurecido e culpado, e palpitava de dor, quando o Pai pedia compaixão.

Era noite, noite tremenda. Senti o meu peito rasgar-se como fino pano; foi talvez no momento que Jesus expirou, não porque eu sentisse Ele expirar, mas pelo silêncio, noite e morte que em mim passava. Que sofrimento, que noite tão assustadora! De repente, iluminou-se toda a minha alma com uma luz que iluminava o mundo. Ouvi como quem bate palmas e ao mesmo tempo a voz terníssima de Jesus disse-me:

― Minha filha, minha filha, quem bate, quem te chama é Jesus. Repara; é a minha luz divina que te ilumina, para que saibas que sou Eu, para que compreendas a luz celeste e saibas distingui-la das trevas que Eu permito. Sou Eu, está atenta para bem sentires e gozares da Minha paz, a paz que te dou, a paz que vem de Mim, a paz que conforta e dá vida para sofreres. Coragem, um pouco mais. A tua vida, aqui neste desterro, é brevíssima; confia, vem o Céu, a tua Pátria, a eternidade de gozo. Ao terminar o teu exílio, a tua dor, principia, Eu to prometo, Eu to prometo, como recompensa, a cair para a terra uma chuva de graças constantes que vão penetrar nas almas. Não acaba a tua missão, a tua bela e sublimíssima missão. Enquanto que no mundo houver almas para salvar, não cessará de chover essa chuva de graças e maravilhas prodigiosas. É o prémio da tua dor.

― Meu Jesus, dizei que é o prémio da Vossa dor, que é a chuva das Vossas maravilhas e prodígios. Quem sofre não sou eu, quem sofre no meu corpo sois Vós. Muito obrigada pela promessa que me dais; alegro-me com ela, porque me alegro na salvação das almas. Sou Vossa, Jesus, para Vos amar, sou Vossa para com o que é Vosso as salvar.

― Minha filha, minha amada filha, se soubesses quanto Me consolo em ti e a grande reparação que Me dás! Continua a consolar-Me, continua a reparar o Meu divino Coração. A tua vida de martírio é a escora que sustenta o braço do Meu Eterno Pai. Os crimes, as grandes iniquidades da humanidade feriram o Céu, abriram-lhe fendas como finas lanças. A tua dor, o teu sofrer são molas seguríssimas para não deixar sair tão depressa a grande justiça divina. É a tua dor, que faz esperar o Meu Eterno Pai. Convida o mundo, convida-o tu, chama-o, chama-o depressa para Mim. Dá-Me a dor, dá-Me mais dor, dá-Me a reparação pelos combates do demónio, para poupares as almas ao inferno. Por esta reparação espero-os alguns anos, na vida do pecado, sem os precipitar no inferno. Dá-Me a reparação por este meio, se a muitos infelizes queres salvar.

― Meu Jesus, o horror que me causam tais sofrimentos, só Vós o sabeis; o meu receio é só de pecar. Que vida cheia de temor; temo ofender-Vos, temo e horrorizo-me em ditar tudo o que me dizeis. Que há-de ser de mim, meu Jesus? Sem ter querer, gostava de nada dizer e desconhecer todas as maldades infernais.

― Tem coragem, filha querida: aceita tudo. Tu não Me ofendes, Eu por ti velo, em ti estou. Escreve, dita tudo que é pouco tempo mais. Tu não conheces, não sentes, não sabes; confia no que te digo: a tua vida escrita nos teus cadernos saio linhas escritas com o oiro mais fino, guarnecidas com as pedras mais preciosas. Não é para ti esta riqueza, mas sim para as almas. Vai agora para o teu coração o Meu divino Sangue. É um momento que leva esta separação. Vai já correr em tuas veias o Sangue, que te faz viver, o Sangue que te faz dar vidas.

Jesus, junto ao tubo, já trazia ligado o Seu Coração divino; introduziu-o no meu, passou a gotinha de sangue, foi num abrir e fechar de olhos. No mesmo momento, que fez a abertura, a cicatrizou.

― Que grande prova de amor, Minha filha, como Eu velo por ti, como Eu te amo! Como Eu amo as almas! Vai, diz-lhes que Eu as quero. Vai para a cruz, que é o teu leito de dor; vai para a cruz, que é a cruz do amor. Sofre, sofre na alegria; ama, ama na dor. Coragem, coragem; vai em paz.

― Obrigada, obrigada, meu Jesus. Tomai o meu coração, modelai-o, para que ele ame e sofra como Vos agrada.

1 de Novembro de 1947 – (sexta-feira)

Vejo-me sempre coberta de misérias; causa-me confusão e horror. Em tudo vejo maldade, em tudo vejo pecado. Só ao fazer o meu exame de consciência, para purificar a alma pela santa absolvição, não encontro pecados. Vejo em todos os meus actos, em todas as minhas coisas, imperfeições, mas, não aquelas maldades e crimes de que estou sempre sobrecarregada. Causa-me profunda dor, encho-me de medo, não conheço os meus erros e grandes defeitos, não sei fazer o meu exame de consciência. Será assim? Ó meu Deus, tende piedade de mim.

Na minha grande dor esperei a vinda de Jesus à minha alma com grande ansiedade. Não fazia nada, e tudo queria fazer para bem O hospedar em mim. Ele veio, baixou ao meu coração e ficou silencioso, ficou como se não entrasse. A dor aguda continuava e toda a noite me envolvia. Eu não me importava de deixar de ouvir Jesus, o que eu não queria é que fosse por eu O ter desgostado, obrigando-O a Ele não viver. De repente, acendeu-se como que uma luz brilhante em minha alma, inundou-me a Sua paz divina e ouvi dizer-me:

― Minha filha, minha filha, buscar-Me é querer-Me, querer-Me é já possuir-Me. Ansiar amar-Me com sinceras ânsias é amar-Me louca e apaixonadamente. Confia que Me amas e Eu te amo. A tua alma é um jardim celeste entre o qual à sombra de mimosas flores Eu Me escondo para não ser atingido pelos pecadores; e deliciado pelo teu perfume aromático vou esquecendo a gravidade com que sou ofendido. Minha filha, flor angélica, dá-Me a tua dor, dá-Me o teu amor, repara-Me, repara-Me. Falo-te de amor, de dor e de almas, por ser esta a tua missão. Sem a dor, sem o amor elas não podem ser salvas. O mundo está em grave perigo, é necessário, é urgente almas vítimas, almas justas, mas elas fogem-Me, poucas são as que Me amam com amor verdadeiro, mas muitas menos as que aceitam a imolação do sacrifício. Os sacerdotes, os sacerdotes que mal Me fazem, que grande número tão gravemente Me ofendem. Repara-Me, minha filha, não só pelos combates do demónio, mas com muita penitência, muitos e muitos sacrifícios. Eu não quero que façam penitências graves, porque não podes, mas daquelas que com tão belas artes costumas inventar e fazer-Me. Repara-Me, minha filha, repara-Me, tem dó de Mim.

― Meu Jesus, quero e não posso, não sei viver, não sei sofrer, não sei reparar-Vos. Tenho medo de mim mesma, de tudo e de todos.

― Nada temas. Diz tudo o que te digo, dita tudo, mesmo quando te parecer que nada sabes ditar. Faz assim, para cumprires a Minha divina vontade; faz assim, porque assim Me amas e fazes amado. Diz ao teu Paizinho que o Meu divino amor, as Minhas divinas graças são para ele superabundantes. O mestre de almas precisa de graças divinas, precisa de amor para as conduzir a Mim. Quantas mais almas Me entregar, mais enriquecido será por Mim. Diz-lhe que o confiar e esperar sinceramente em Meu divino Coração é já ter em suas mãos a realização de todas as Minhas promessas. Confiança, confiança. Dá-lhe todo o Meu amor divino. Diz ao teu médico que estou sempre ao lado e dos seus. As minhas bênçãos e protecção estão sempre sobre ele. Diz-lhe que em tudo Me deve ter sentido e bem representado o Meu poder divino. Para todas as coisas já tem tido e terá doravante a luz do Divino Espírito Santo. Diz-lhe que, em Meu nome diga ao Meu queridíssimo Cardeal Patriarca que o Meu divino Coração ferve de amor por ele como panela de água em vivas chamas. Que lhe diga que confio e espero tanto dele para as Minhas coisas, como ele confiou e esperou em Mim até ao fim. Eu não atendi aos seus desejos, porque na Minha sabedoria infinita vi tudo. Quis premiar aquele que tanto fez por Mim, e se avizinham laços infernais para o fazerem cair. Há no mundo veneno mais perigoso para as almas do que a víbora para os corpos. Satanás trabalha tanto com os seus obreiros!

― Meu Jesus, não tenho querer; se eu o tivesse, preferia tudo sofrer e calar-me a tudo isto. Faça-se como quereis, ó meu Amor; sou a Vossa vítima.

― Vem, Minha querida Mãe; a Nossa filhinha não pode passar sem o teu conforto e sem as tuas carícias.

Veio a Mãezinha, logo me tomou, em Seus braços, abraçou-me, beijou-me, acariciou-me e disse-me:

― Minha filha, minha querida filha, faz tudo o que te pede Jesus; está sempre atentas ao que Ele te diz, para que nada te escape. Nada temas, confia em Nossa protecção, com o Nosso amor, isto é, com o de Jesus e Meu. Ama-Nos e pede para sermos amados; repara e pede para sermos reparados. Somos tão ofendidos!

Nesta altura ficou a Mãezinha a soluçar, debulhada em lágrimas, e com o Seu Santíssimo Coração, cheio de setas e espadas.

― Mãezinha, Mãezinha, são para mim as Vossas lágrimas, setas e espadas; não quero que Jesus sofra, não quero que sofrais Vós. Para mim toda a dor, ó Mãezinha, para mim toda a dor.

Aproximou-se Jesus, estreitaram-me docemente os dois, ao mesmo tempo. Disse, a Mãezinha:

― Vai, Minha filha, levar o amor de Jesus e o Meu, leva a Nossa graça e protecção àqueles a quem mais amas; e depois distribui a quem quiseres.

Jesus acrescentou.

― Vai, esposa querida, vai, e leva tudo; vai e diz aos que te amparam, protegem e rodeiam e estão ao lado da Minha divina causa, que a graça de Deus os cobre, que o Céu a todos espera. Coragem! Não temas o demónio, ele odeia-te com o maior ódio, por seres a terra a vítima que mais mal lhe fazes, mais almas lhe roubas. Coragem, coragem! Leva a minha paz, vai para a cruz, leva todo o Meu divino amor.

― Obrigada, meu Jesus; obrigada, querida Mãezinha.

7 de Novembro de 1947 – (sexta-feira)

Jesus e a querida Mãezinha me ajudem a ditar o que vai na alma, se é que com isso Os posso alegrar e consolar, fazendo a Sua divina vontade. Sinto-me sem forças e sem vida para nada. Só do Céu posso receber a força que necessito, para cumprir o meu dever de obediência. Vontade do meu Deus, santa obediência! Oh! se não fosse isso, este dever que me obriga a não ter querer nem vontade, punha uma pedra, encima do meu passado, e um travão firme para nada mais poder dizer da minha vida; abafava tudo, tudo fazia morrer. Se vejo a minha vida só com os olhos no mundo, é a vida mais triste que imaginar se pode. E para maior tristeza e tormento é ver que o faço tristíssima para alguém que mais de perto me rodeia. Para me levantar desta dor aniquiladora, fito os meus olhos em Jesus crucificado e na Mãezinha das Dores, recordo por um pouco o que por mim sofreram, e, depois, tirando da cruz os olhares, fito-os no Céu, na Pátria que me espera, na Pátria que Jesus criou para mim, onde eu posso louvar e amar eternamente, sem ao menos poder recordar o que é a dor, e então aí a minha vida é alegre e alegre a posso fazer para todos que me rodeiam. É a vontade do Senhor, sou a Sua vítima, são as almas a salvar.

Ó alegria, santa alegria, alegria do Céu. Vontade do meu Senhor, tesouro do paraíso, não te deixarei jamais. Eu não sei falar da minha dor; as trevas que tanto amo e tanto me fazem sofrer não me deixam dizer as razões e consequências da dor. Sofro, sei que sofro, mas sinto que a dor me foge, que a dor morre, que não sou eu que sofro.

As trevas são para mim o que as nuvens são para o sol. As trevas nada me deixam ver nem compreender. As nuvens não deixam ver o sol nem aparecer. Eu quero sofrer sem alívio, não quero ter uma palavra de desabafo com pessoa alguma, quero desabafar só com Jesus e com a querida Mãezinha. Isto no que diz respeito à minha vida; quero sofrer em silêncio, sempre em silêncio, apesar de ter grande horror ao sofrimento. Quero-o, mas tremo de alma e corpo como ramo verde a baloiçar com os ventos. Não sei como enfrentá-lo; não sei como resistir a tudo que me espera; não sei o que é, mas sinto-me apavorada.

Continuo a sentir no meu corpo todos os sofrimentos de Jesus, todos os instrumentos da Sua divina Paixão. Tudo me martiriza e faz sangrar o coração e alma. A fome e sede de Jesus é insuportável, assim como insuportável é a fome e sede das almas. Quero o mundo, quero o mundo, quero dá-lo ao meu Jesus.

Foram quatro os combates que tive com o demónio, foram combates do inferno. Tinha mão para tudo, menos para me benzer e afastar de mim o maldito. O corpo foi um banho de suor, o coração uma máquina estrondosa. Sim, eu consegui chamar por Jesus e pela bendita Mãezinha, mas o que eu não consegui, ou me pareceu não conseguir foi chamá-Los a tempo. Eu gostava de ser cega e surda, para não ver nem ouvir os ensinamentos do maldito e para me não aterrorizar com o que ele diz contra Jesus. Mas, se assim fosse, não podia combater nem sofrer, não poderia ser vítima do meu Senhor.

A tarde de ontem para mim pareceu-me não ter sol, ou melhor nunca o ter conhecido. Em tão grande cegueira abafada pelo peso da dor, os meus olhos quase não paravam, fitavam-se ora em Jesus, ora na Mãezinha, únicas forças do meu martírio. Comecei a ver e a sentir uma luz brilhante, a vida do Céu a manchar-se, a envolver-se com a terra. Era Jesus que vinha a sofrer. Principiei a senti-Lo a meter-se, a curvar-se debaixo do peso esmagador da humanidade. Ele chorava, gemia, eram profundos os Seus suspiros, mas eram só para Ele, encobria-os aos Seus apóstolos, sofria sozinho. Pensava para mim: como Jesus me ensina a sofrer; quero sofrer à Sua semelhança. Sim, agora mais que nunca, só com Ele quero desabafar. Uni, meu Jesus, aos Vossos os meus sofrimentos e fazei que eu aguente com tudo.

Avizinhavam-se os sofrimentos do Horto e toda a montanha do Calvário pesava, cada vez mais, sobre Jesus e sobre mim, pobre e indigna companheira Sua. Um painel grandiosíssimo, ou à semelhança dele mostrava claramente quanto Jesus ia passar. Os Seus suspiros eram cada vez mais profundos e abafadiços e assim eram para mim também. Triste quinta-feira! Triste e doloroso Horto! Tristes e dolorosas horas as de agonia de Jesus! Parecia-me que os meus vestidos eram de espinhos que me feriam e atingiam todo o corpo e alma. Com Jesus tudo sofri; com Ele suei sangue, com Ele por Judas fui beijada, com Ele vi todos os soldados caírem por terra e com Ele fui presa e segui para a prisão.

Na madrugada de hoje, de noite ainda, cansada, desfalecida por muito sofrer, à prisão O fui encontrar desfalecido também. De cabeça inclinada sobre a Dele, ali fiquei naquele escuro cárcere, até com Ele aos tribunais ser levada. Esperava o povo ver Jesus, em grande multidão, como para um festejo; queria ouvir a sentença e regozijarem-se, ao ouvir condená-Lo. Tomei a cruz, e com ela segui o Calvário, e com Ele me senti nela crucificada. Em todo o tempo da agonia, fiquei como se o sol se escurecesse; fez-se noite, tremenda noite na montanha. De longe a longe, senti no meu coração moverem-se os lábios de Jesus, quando os Seus olhos divinos se entreabriam a fitar o Céu. E constantemente ondas pretas furiosas, batiam contra a cruz e contra o corpo de Jesus e o meu que estavam nela. Essas ondas desfaziam-me as carnes que ficavam numa massa se sangue. E assim me senti morrer no maior abandono, na maior escuridão.

Passou-se algum tempo, desapareceu toda a treva, o sol dissipou para longe as nuvens, iluminou-se brilhante e claramente a minha alma, um fogo abrasador me incendiou o coração, fazendo passar o calor das labaredas a todo o corpo; gozava duma grande paz, mas sem ouvir ainda Jesus. Um pouco mais, e Ele disse-me:

― Minha filha, até aqui bateram sobre ti as ondas do mundo, as ondas horrorosas do pecado, de grandes maldades e crimes e cobriam-te as suas trevas, porque és vítima. Agora veio a ti a paz e o amor do Meu divino Coração e toda a luz do divino Espírito Santo. Coragem! Eu quero ser amado; faz que as almas me amem. Eu tenho sede dos corações; repara-Me, conduze-os a Mim. Coragem, minha filha, nada temas. A dor e o amor são as moedas mais caras, são os selos com as quais selo as almas roubadas a Satanás. Coragem, filha querida! Tu és o prado mimoso, onde produzem as virtudes e desabrocham as flores plantadas por Mim. Levanta-te, anima-te, não temas a cruz. No alto da montanha, no cimo dela, Eu farei cair pelo teu coração todas as bênçãos e graças de salvação para as almas. A tua vida será para elas o perfume das flores, o gorjeio das avezinhas duma manhã primaveril. Custa-te subir? Custa-te chegar ao cimo do teu Calvário? Não estranhes. O remate das obras, o seu enfeite são sempre o mais difícil. Mas, ó minha filha, a obra não cai, confia em Mim. Principiei com alicerces tão firmes, que nada há que a faça estremecer, a pontos de vir a terra. É a obra das obras, é a obra mais sublime, é a missão das almas.

― Meu Jesus, ó amor meu, quero e não posso, desfaleço e caio; amparai-me Vós. Não me importo de caminhar de rastos e sempre de rastos ser humilhada, o que eu quero é estar na verdade e em tudo fazer a Vossa divina vontade. Dai-me graça, dai-me graça, meu Jesus, e fazei-me confiar cegamente. Quero sofrer tudo pelo Vosso divino amor, mas custa-me, a mais não poder, ser causa de grande sofrimento, de grande dor para os outros.

― Confia em Mim, alegra-te, Minha louquinha; estás na verdade, és minha, vives de Mim. Que felizes e ditosos são aqueles que Eu escolhi e associei ao teu martírio, ao teu grande, mas vitorioso Calvário. Coragem, coragem! A tua dor dá vidas, as tuas trevas são luz, que alumia as almas e vão brilhar aos confins do mundo. Recebe agora a gota do Meu divino Sangue. Hoje não cairá duma só vez; vai recebê-la, saboreá-la, como a abelhinha que sofregamente saboreia nas florzinhas o néctar.

Jesus tomou em Suas mãos o Seu divino Coração; pelo centro saíam labaredas que formavam uma só labareda; uniu ao meu coração e fez que nele se introduzisse o pequenino tubo; senti-me como que adormecer docemente. Assim demoramos, por um pouco. Depois, Jesus retirou o Seu Coração divino, bafejou-me o peito e passou-me sobre ele a Sua bendita mão como quem acaricia.

― Vai, Minha filha, a ferida que te fez o amor já está cicatrizada. Vai, leva para as almas estas chamas, abrasa os corações que têm fome de Mim; por ti Me dou a eles. Leva estas chamas, arrasta com elas a Mim as almas presas pelos laços infernais. Vai para a tua cruz, para a tua dor, não deixes correr mais pelos rastilhos o fogo, que faz rebentar a bomba divina, a justiça do Meu Pai. Coragem, coragem; nada temas, sorri a tudo!

― Obrigada, meu Jesus. Sede comigo; tudo espero do Vosso divino coração.

Passaram-se umas horas, o fogo de Jesus ainda me queima o coração; custa-me, por vezes, a aguentá-lo sem saber ele deitar panos frescos. Sinto-me mais forte; estou no fogo, mas em trevas, e o corpo num mar de dores. Ó minha cruz, ó meu Amor, ó meu Jesus!

14 de Novembro de 1947 – (sexta-feira)

Vou cumprir o meu dever de obediência, meu Jesus, mas oh! com que sacrifício! Sabeis, meu doce Amor, que diga a verdade, só a verdade. Só vós conheceis quanto me custa.

Juntou-se à repugnância que a alma tem em abrir-se a dizer o que sofre, a falta de forças do meu corpo. O que eu tenho sofrido! Que pobre farrapo, desfeito pela dor! Tudo aceitei, tudo sofri, bendizendo alegremente ao Senhor. Bendita seja a minha cruz, bendito seja tudo o que me dais, bendito seja o Vosso amor, ó Jesus sou a Vossa vítima. Aceitai tudo para reparar a justiça do Vosso Eterno Pai, para desagravar o Vosso divino Coração, tirar-lhe todos os espinhos e ao da querida Mãezinha. Não Vos esqueçais dos meus pedidos: e nomeava-lhes vários. Assim falava ao meu querido Jesus, quando o abatimento e a prostração assim mo permitiam. Quando a sede, os ardores da febre me abrasavam mais, e, por vezes, nem sequer ao menos podia refrescar a boca nem os lábios com um bocadinho de água, pela qual eu parecia morrer de saúde, eu fitava a imagem do Sagrado Coração de Jesus, e dizia-lhe: o que há-de ser, meu Amor, a Vossa sede das almas; quero dar-Vo-las todas, todas; por todas morrestes, abrasado em amor, e por todas continua a vossa sede ardentíssima. Seja por Vós e pelas almas a minha sede, ó Jesus.

Parecia-me que, nestes momentos, era por um pouco a minha sede refrigerada. Sofri tanto, tanto, meu Jesus, e quanto mais sofri, menos encontrei, menos vi, mais vazia fiquei. Sinto-me num mundo de escuridão, de isolamento, sem nada, sem ninguém. E este mundo, em que eu tão só me encontro, o qual é só cinza, podridão nojenta, é regado pelo meu sangue; sinto-o a sair do meu corpo como chuva torrencial; não fica nem um só bocadinho desta cinza sem ser no sangue ensopada. Vejo esta massa de ensope e eu sozinha, mesmo sozinha sobre ela a sentir morrer em mim esta vida que por mim, ou em mim, tanto sangue deu. Que desfalecimento! Tenho medo de mim mesma, tenho medo de tanto sangue ver morrer e sem vantagem para toda a humanidade. Tudo está morto, tudo desapareceu. Para que é tanto sangue, Jesus? Sou em tudo a Vossa vítima; tudo é por Vós.

Ontem de tarde, no mar do meu sofrimento, parecia-me ter vindo ao mundo, mas não ser do mundo, vivia nele não para cuidar de mim, mas sim das coisas de Deus. De vez em quando, o meu coração ia para o Horto, mas logo fugia, ou fingia fugir para tratar das mesmas coisas.

Logo à noitinha, para concluir esses trabalhos, passei à ceia. Mas oh! que amargura tão cheia de amor e disfarçada! Senti a consolação, que Jesus sentiu, quando tão carinhosamente ao Seu lado se encostou o discípulo amado. Logo a seguir, foi grande a dor do Seu divino Coração com a visão das lágrimas da Mãezinha, lágrimas que para Jesus foram antecipadas, assim como a lança que, num rápido momento, Lhe abriu o peito e o divino Coração, deixando-o a sangrar. Depois, segui, passo por passo, as cenas dolorosas e tristíssimas do Horto e da agonia de Jesus. Eu em mim sentia ter que morrer e queria morrer; sem a morte não poderia terminar os trabalhos, a que tinha vindo à terra. E, nesta altura, sentia Jesus a fitar o mundo e com profunda tristeza dizia o seu divino Coração: tanta ingratidão para tanto amor. Não eram bem aceites os Seus padecimentos, o Seu divino Sangue, a Sua morte.

Hoje, longe de aparecer o dia, muito desfalecida, no mesmo desfalecimento, fui encontrar Jesus na prisão; estava sozinho sem ter quem O confortasse e fizesse um carinho e Lhe provasse amor. Quase não era Jesus; era um moribundo. Compadecia-me Dele, disse-Lhe muitas coisas, mal, porque melhor não sabia, para O consolar. Disse-Lhe muito, e muito Lhe pedi. Entre esses pedidos, o principal foi que não me deixava iludir nem enganar os outros. A verdade, a verdade, só a verdade, meu Jesus. O que dizia e pedia na minha dor, nas minhas ânsias ardentes de consolar Jesus e Lhe provar amor sem por sombra pensar numa resposta; mas logo do íntimo do coração uma vez muito terna e doce me disse:

― É esta a verdade pura, minha filha, pura, mais pura que a água cristalina! Confia, confia, em Mim.

Senti e vi que Jesus se sentia e via Ele mesmo preso à coluna e depois na cruz, mas isto ainda na prisão. Não pude saborear nada as palavras doces de Jesus; tive que sofrer com Ele.

Mais tarde, vi-O então meio despido, já solto da coluna, mas todo banhado em sangue, e, depois, tomar a cruz, seguir o Calvário. No meio dos espinhos do meu viver, no Calvário das minhas dores, segui com Ele. Na viagem não me foram poupados os maus-tratos e na cruz fui com Ele crucificada, sempre a sentir que estava a cuidar as coisas de Deus, muito unidinha a Ele com Ele compartilhava da mesma agonia. Como Ele eu queria enxugar as lágrimas da Mãezinha, consolá-La na Sua dor, tirar as setas do Seu Santíssimo Coração, tomá-La para o regaço, abraçá-La, fazer-Lhe o que Ela bem depressa ia fazer a Jesus, mas com Ele já morto. O coração ia morrendo lentamente e aquela vida que me tinha trazido à terra ia-se avizinhando novamente do Céu. Jesus expirou. Toda a vida me fugiu, e expirei com Ele.

Passou-se algum tempo neste estado mortal; veio como que uma nuvem de fogo, envolveu-me nela, o coração principiou com total fogo, envolveu-me nela, o coração começou a arder com tal fogo que se comunicava ao  corpo; este fogo queimava-me, mas sem me dar luz. Senti-me adormecer naquelas trevas mais claras e suaves. Não sei o tempo que passei neste sono com Jesus. Ao terminar do sono, ouvi que Ele me dizia:

― Minha filha, minha amada filha, a tua noite com o teu prolongado e inigualável Calvário são para as almas astros cintilantes, com vão com o Seu brilho penetrar nos corações e nas almas mais escurecidas pelas trevas do pecado. Confia, confia em Mim. Se soubesses a luz, que elas por ti recebem! Se soubesses os milagres, as grandes ressurreições que nelas são operadas neste teu quartinho, Calvário escolhido por Mim! O teu quarto é o templo das maravilhas prodigiosas do senhor. Eu quisera. Filha querida, que viesse o mundo inteiro, o mundo que te confiei, junto de ti. São muitas as almas que vêm, mas em comparação das que precisam vir e eram Meus divinos desejos que elas viessem, é como uma gotinha de água caída do oceano.

Ao ouvir estas palavras de Jesus, não pude conter-me, e exclamei:

― Então, meu Jesus, ofendi-Vos, ficaste triste comigo por eu pensar: se eu pudesse ir com os meus para uma ordem e esconder-me a isto tudo. Dizei-me, dizei-me, Jesus.

― Sossega, sossega, Minha pomba amada; não Me ofendeste, antes recebi de ti consolação. Quando assim pensares, não acrescentaste logo: meu Jesus, não quero fugir à cruz, que me dais, quero só a Vossa divina vontade? Compreendi-te; está tudo visto. Que encantadora lição; viver escondida por Mim! Olha, Minha filha; é o mundo, são os pecadores o fim principal da tua vida aqui; é a tua missão, a mais alta e sublime missão. Quando mandas abrir a porta às almas, é Cristo em ti a abrir-lhes o coração: é Cristo que lhes fala com bondade e doçura, é Cristo que lhes sorri e as fita com olhares atraentes e encantadores e as convida para o Céu. É Cristo em todo o teu viver. Que loucura a minha pelas almas! E elas, ai delas! E elas, ai delas, tão mal Me tratam, tanto Me ferem! Olha para Mim.

Apenas vi o rosto de Jesus com semblante tristíssimo; todo o Seu Santíssimo corpo, da cabeça aos pés, tinha um vestido de espinhos, tudo era sangue. Acudi logo:

― Não posso ver-Vos, Jesus, nesse sofrimento; passai-o para mim, aliviai-Vos a Vós; não me poupeis, sou criatura Vossa e Vós o meu Senhor. Para assim sofrerdes, de nada valem os meus sofrimentos.

― Ai do mundo sem eles, Minha filha, ai do mundo sem vítimas, ai dele sem o teu Calvário contínuo; já a bomba divina tinha rebentado! Que incêndio de justiça sobre o incêndio dos crimes! O mundo é teu, é teu o mundo, confiei-to; sofre pelas almas; pensa só a elas salvares. Ó mundo, ó pobre mundo, que não acordas, ai o que te espera para breve, para breve.

Quando Jesus assim me falava, todos os espinhos Dele tinham desaparecido, mas ai que dor a minha! Pobre de mim, nada soube dizer a Jesus; fitei-O e fiquei calada.

― Coragem, Minha filha! Eu vou dar-te a gota do Meu divino Sangue; vai passar para o teu coração vagarosamente; vai ser como uma esponja com água; vai passar por todo o teu coração e correr em todas as veias. É o sangue que gera as virgens, é o sangue que te dá a vida, o sangue que te levanta as forças perdidas e consumidas pela dor, é o sangue que te anima a continuares no te martírio.

Jesus, enquanto falou, introduziu o tubo e deixou passar a gotinha vagarosamente; quando acabou de falar, já o tinha desligado.

― Coragem, coragem ,filha querida; vai para a dor, vai para a cruz. Vou pedir-te grande luta com o demónio. Repara-Me pelos sacerdotes, que é tão grande o número a ofender-Me. Repara-Me pelos casados, que praticam graves crimes. Repara-Me pela juventude desonesta, pela juventude corrompida. Vai sofrer, vai para a cruz, vai com alegria, vai ditar tudo; eu serei contigo e contigo levas a luz do Espírito Santo. Goza da minha paz, goza uns momentos da minha luz.

Fiquei sem dor, fiquei sem trevas, por um pequenino espaço de tempo. Abracei Jesus no meu coração, e disse-Lhe por despedida:

― Obrigada, obrigada, meu Jesus.

21 de Novembro de 1947 – (sexta-feira)

Sinto-me humilhada pela minha vida enganadora, cheia de tanta ilusão. E sinto a humilhação que, por minha causa, têm e terão que sofrer os que me são queridos. Por vezes não sei como aguentar com este sofrimento. Por mais doloroso que seja o meu sofrer, pela garça do Senhor não posso deixar de Lhe agradecer e receber com toda a alegria e amor; alegria sem gozo, amor sem sentir que amo.

Mas é tal a ânsia e sede que tenho de sofrimento que sinto, como se a alma estivesse abraçada à cruz, noite e dia, sem dela se separar; é nela nessa cruz bendita, que a alma goza e se satisfaz: Sofrer por Jesus, sofrer pelas almas é a minha única alegria, é toda a doçura que na terra posso saborear. Parece-me que, de dia para dia, aumenta em mim o veneno de todos os vícios, o veneno de todos os meus sentidos. Sou esmagada, e quanto mais esmagada mais este veneno espirra ao longe.

Toda a humanidade está no perigo de morrer neste veneno. Sinto nada haver na terra que não esteja infeccionado. O mundo, ai o mundo, fui eu que o envenenei com o veneno infernal, com o veneno de Satanás que sinto estar em e mim e sou eu que por ele tenho de responder ao Senhor. Ó meu Deus, e que contas Vos hei-de eu dar? Ó Jesus, ajudai-me a levantar; eu não posso com a justiça do Vosso Eterno Pai, que descarregou sobre mim; esmaga-me. Ajudai-me, ajudai-me, Jesus. O meu corpo está quase transformado em chamas; rasgam-se com a violência da dor; vão-se abrindo e ligando umas às outras; não podem unir-se estas chagas ao veneno, que de mim passa para a humanidade. Pobre do meu corpo, que com tudo tem que aguentar. Meu Deus, que horror?

O vestido de espinhos que cingia o corpo de Jesus, na sexta-feira passada, ficou a cingir-me o meu todos estes dias. Custa tanto aguentar com este vestido tão espinhoso! Cobre-me da cabeça aos pés, penetra no mais íntimo de todo o meu ser. Sinto-me como se em mim não houvesse pele nem osso; tudo é sangue. E houve um espinho disperso que veio como uma lança atravessar-me o coração. Ele não foi dirigido a mim, mas foi por mim que ele foi dirigido; e é por isso que eu sofro. Se ele fosse só para mim, se fosse eu só por ele atingida beijava-o, abraçava-o. Contudo amo-o e quero conservá-lo em meu coração como relíquia preciosa, para que assim Jesus possa guardar no Seu divino Coração para sempre aquele que na sua cegueira o pode tirar. Em nome de Jesus e da Mãezinha, quero amar a todos por todos quero sofrer.

Tive três combates com o demónio; nem quero lembrar-me deles. Parece-me e sinto que deles sou eu só a autora. Como se ofende ao senhor! Várias vezes o demónio veio com as suas maldades e malditas lições. Nestes momentos, eu queria poder encerrar num cofre de ferro todos os meus sentidos para nada poder ver nem ouvir. Se houvesse um lugar, onde pudesse esconder-me nele, fazia-o só como receio de ofender o meu Jesus. Algumas vezes a luta era só de espírito.

Nos três ataques ao espírito, teve que lutar também o corpo; o maldito tratou comigo como se fosse um mudo. Eram só gestos e pinturas maldosas. Isto foi motivo de maior tormento; mais me parecia que não era influência dele, mas sim minha, só minha. Pareceu-me que o coração, no auge da dor, veio palpitar para fora do peito; não cabia em mim. Ensopada em suor, chamei por Jesus e pela a Mãezinha, e fiquei libertada.

Chamaria a tempo? Não chegaria a pecar? Que medo eu tenho! Ai a minha vida tão cheia de misérias e tão falha de virtudes e merecimentos. Que cegueira, que mortandade! Vivo sem viver, ou vivo sem sentir que vivo. Ó Jesus, sou a Vossa vítima, imolai-me ao Vosso gosto.

Ontem, ao cair da tarde, a minha alma viu o Céu descer sobre a terra; vinha dar-lhe luz, porque estava em trevas, vinha dar-lhe vida, porque estava morta. Era Jesus que vinha dar esta luz e esta vida, mas oh! como foi rejeitada. Eu via uma massa grandiosíssima fugir à luz e à vida de Jesus. Que dor dolorosíssima me causou na minha alma; conduziu-me logo ao Horto esta dor. Jesus foi dentro em mim e dentro em mim Ele orou com o Seu Santíssimo peito sobre uma pedra dura, e cercado de grandes varas de espinhos, que se enleavam umas nas outras, estava o cálice, que recebia o sangue e toda a amargura de Jesus.

Eu sentia que só ele sofria; era tal a Sua dor, que causava espanto e admiração aos Anjos, que do sofrimento, como se fossem estrelas, O contemplavam. Só o Céu compreendia a dor de Jesus. Depois do Céu, era a Mãezinha a compreendê-la e a vivê-la. Como Jesus e a Mãezinha se amavam e viam, um através do outro. Toda a terra ignorava, mesmo os discípulos de Jesus, a dor de tão amantes corações. Faz enlouquecer tanta dor, tanto amor. Ó meu Deus, que mal Vos tenho correspondido!

Hoje, segui o Calvário. A minha cabeça esteve com a de Jesus, por algum tempo, pousada na terra nua com o desfalecimento do corpo que, nesta ocasião, mais barbaramente recebia os maus-tratos. O sangue corria pelos olhos e ouvidos. Toda chagada, fiquei na cruz crucificada. Estava no alto para escárnio de quase todos que ocupavam o Calvário. Vi a Mãezinha subir a montanha; foi o meu pobre coração que sentiu e a alma que viu a Sua dor e olhares angustiosos, que mal A deixavam arrastar-se. Quanto isto custou a Jesus! Foi a união dos Seus divinos corações e o amor que A conduziram ao Calvário. Não sei dizer o que senti que Eles sofreram e amaram. Se fosse possível eu falar desta dor e amor por toda a eternidade, podia dizer que nada dizia. Sofro por só isto saber dizer. Formou-se um Calvário de espinhos; subiram tanto que encobriram a cruz. Entre eles como num só coração, num só amor e numa só alma estava Jesus, a Mãezinha e eu a darmos a vida, esmagados pela justiça divina. Eu sentia e via a mãezinha por Jesus; não era em mim que Ela estava, era Jesus em mim e Ela em Jesus. Foi para os três o mesmo Calvário, a mesma agonia. Senti-me morrer e morta ficar, por um espaço de tempo. Veio Jesus, tomou lugar em meu coração, passeava nele como numa grande sala, passeava aflito o doce Jesus, parecia não caber em Si.

― Minha filha, Minha filha, Minha filha...

E calava-se, continuando a andar no mesmo aposento, na mesma aflição. Voltou novamente:

― Minha filha, Minha filha, Minha filha.

E continuava a andar silencioso, a soluçar e a derramar lágrimas. Pela terceira vez chamou:

― Minha filha, Minha filha, Minha filha, quero abafar e encobrir em Mim a dor do Meu divino Coração, e não posso, tenho que desabafar contigo não com gosto de te fazer sofrer, mas sim para Me acudires às almas. Como Eu sou ofendido! Elas correm para o pecado, elas lançam-se para as labaredas dos crimes, loucas, loucas, pelas paixões. Sofre, acode-lhes, não as deixes morrer eternamente. Continua a Minha obra salvadora, a obra da redenção. Faz tu agora o que Eu sozinho já não posso fazer; só posso continuar a salvar o mundo em ti, através de ti.

― Ó meu Jesus, ó meu doce Amor, se os meus pobres sofrimentos por Vós forem enriquecidos, algum valor têm. Por que é que chorais? Não sabeis que eu quero sofrer, que aceito tudo para Vos consolar e salvar as almas?

― Minha filha, coração puro, coração generoso, coração de amor, choro para te mover à compaixão do Meu divino Coração. Aceitas a ficar novamente com o vestido dos Meus espinhos? Aceitas a viver assim ferida? Só assim Eu não sofro, só assim não necessito de chorar.

― Sim, meu Jesus, aceito por vosso amor, mas sozinha não posso, quero a Vossa força e divina graça.

― Tudo possuis, tudo é contigo, esposa das esposas, vítima das vítimas, encanto dos Meus encantos. Escuta-me agora atentamente. Escreve: Santo Padre, santo Padre, Meu querido Representante na terra, escuta a voz de Jesus, fala ao mundo, fala ao mundo; fala aos bispos em segredo, para que estes falem aos seus padres. São tão poucos os que são a luz do mundo e o sol da terra! Padres seculares, que cumpram o seu dever, são pétalas, que o vento levou, deixando-as espalhadas; uma aqui, outra muito mais além. Que escândalo, que veneno, para as almas, são os sacerdotes destes dias, deste século! Santo Padre, santo Padre, Meu querido Representante, fala ao mundo, faz ouvir a tua voz, dum pólo ao outro. Faça-se oração, faça-se penitência. Vida nova, vida pura. Depressa, depressa cai sobre a terra a justiça de Meu Pai. Mãos à obra. Principie por quem deve principiar, venha o exemplo do alto. Minha filha, vai dizer tudo, nada escape do que te disse. Vai acender-se a luz do Espírito Santo, para dissipar todas as tuas trevas, para que conheças que em ti é tudo obra divina.

Principiei a gozar duma luz brilhante e a gozar do amor de Jesus e a nadar na Sua paz.

― Se assim fosse sempre, meu Jesus, nada podia temer, nada podia duvidar.

― Coragem, Minha filha. Recebe agora toda a luz para dela viveres, logo que caias nas trevas. Fora de Mim é cegueira, fora de Mim sentirás nada saberes dizer, mas é o teu Calvário doloroso, são as Minhas divinas palavras a cumprirem-se. Vou dar-te lentamente a gota do Meu divino Sangue, uno os nossos corações para descansar Eu no teu e tu no Meu, enquanto que do Meu recebes a luz e o amor; a vida que é a tua vida, o amor que Eu quero que espalhes, que incendeies, que infundas nos corações e nas almas. Vai, pede aos meus amigos para que Me amem e reparem o Meu divino Coração. Vai espalhar o bem, vai com as tuas trevas da luz; vai dar ao mundo, espalhar nele o perfume celeste, o perfume das grandes virtudes. Coragem, não temas a cegueira, não temas a ignorância, não temas a cruz. O divino Espírito Santo ilumina-te, Eu falo em teus lábios e em ti venço e levo a cruz.

― Obrigada, obrigada, meu Jesus.

Depois de umas horas do meu colóquio com Jesus, ao acabar de ditar tudo isto, caí no mundo da maior cegueira. Que ignorante eu sou! Bendita seja a cruz do meu Senhor. Quero a todo o custo, amá-Lo, e, a todo o custo, salvar-Lhe almas.

28 de Novembro de 1947 – (sexta-feira)

Não só sinto que se apagou para mim a luz do dia, mas também a da eternidade; toda a luz se apagou para mim para sempre. Estou como se perdesse tudo, a felicidade e a luz e o gozo do Paraíso. Ai, como é doloroso o meu sofrer. Quantas vezes invoco os nomes de Jesus, da Mãezinha e dos Santos, na esperança de encontrar alívio e conforto e nada consigo; tudo morre sem em mim ter vida. Não acabem os meus lábios de se moverem a pronunciar qualquer acto de louvor ou amor a Jesus sem que tudo morra e desapareça para sempre.

Ó meu Deus, que pobrezinha eu sou! Ó Jesus que cegueira a minha! Que horror, que horror! Só vejo maldades, só vejo misérias em mim e à volta de mim. Que lama tão nojenta! Que mundo sem habitantes! Tudo é podridão vergonhosa e nojenta podridão. Estou agarrada e presa a ela; quero levantar-me, caminhar, e não posso, não tenho quem me deite a mão. Fugiu-me tudo, fugiram-me todos, não tenho ninguém por mim, nem um só amigo me ficou. Só eu existo no mundo, só eu sou crimes, só eu sou veneno. Tenho medo de mim; tenho medo de estar sozinha. Jesus, valei-me; a eternidade aproxima-se. Que tremenda escuridão, e eu de mãos vazias. Que me aproveitou a mim vir ao mundo? Como me utilizei eu da vida, que me foi dada? Ó Jesus, ó Jesus, sou a Vossa vítima; amparai-me com a Vossa divina mão; não resisto sem o Vosso amparo, sem a Vossa graça.

O meu corpo continua a ser o depositário do vestido espinhoso de Jesus; sinto-o todo numa ferida e em sangue. Sinto também que continuo a ser o veneno das almas, o veneno de toda a humanidade, veneno que tenta, contra o Céu, a envenenar se possível fosse o próprio Deus. Que peçonha tão perigosa e que ódio contra Jesus!

Na terça-feira, dia 25, quando estávamos a fazer o mês das almas, sem nada pensar nem se tratar do Senhor dos Passos, eu vi-O, por três vezes, a caminhar, aparecendo aqui e além, desfiguradíssimo, coroado de espinhos, com um grande madeiro aos ombros. Não posso dizer o que senti; comoveu-me tanto em assim ver Jesus! Não soube falar-Lhe, quase nada Lhe disse. Pedi-Lhe para que não sofresse e passasse para mim todo o Seu sofrimento e a cruz.

Esta visão causou-me tal sentimento e foi tal a pena de não saber oferecer e falar a Jesus, que parece-me, ou melhor, sinto que se me abriu no coração uma ferida tão profunda que o vazou, dum lado ao outro. Esta ferida sangra sempre, desde esse dia, todos os dias, em algumas horas, não são horas certas; eu sinto sobre os meus ombros aquele pesado madeiro, que Jesus levava, e na cabeça a coroa de espinhos que cingia a Sua sacrossanta Cabeça. Quantas vezes me parece ter os cabelos ensopados em sangue e este mesmo sangue saído das feridas, a correr-me pelas faces.

Ontem de tarde, sentia mesmo no meu rosto o Rosto de Jesus, bem gravado. A princípio, depois de fitar o mundo, cobriu-se de suores; depois derramava copiosas lágrimas de sangue e este saía-Lhe também pelos ouvidos. Jesus queria abraçar o mundo, mas a maior parte dele não queria aceitar o Seu abraço. Passei pela sala espaçosa da ceia, pela sala do grande amor. Jesus dava do Seu divino Coração para cada um dos Seus discípulos o Seu divino amor, em raios luminosos, como sol aparecer no horizonte; todos os discípulos o receberam e deixara-se por ele iluminar, apenas Judas se fechou e recusou o Seu brilho e luz.

Passei para o Horto para todas as cenas dolorosas e comovedoras; nele vi todo o martírio que me esperava, ou que esperava a Jesus. Entre grandes e muitos espinhos, que se enleavam em meu coração, enchi o cálice da amargura. Fui presa e levada aos tribunais, e destes para a prisão.

Durante a noite, depois de grandes ameaças do demónio, combati com ele, por três vezes. Causa-me grande horror a forma como ele pinta e consegue as coisas. Parece-me que sou eu só a causa de tanto mal. De um combate ao outro, fiquei presa sempre ao demónio e sobre a boca do inferno. Ouvia uivos raivosos e grandes leões tentavam engolir-me. Dizia-me o maldito que por mim se ia povoar o mundo de demónios. O que eu sofri! Eu queria e não queria pecar. Chamei por Jesus; Ele veio em meu auxílio; dum demónio que eu era transformei-me em serenidade e paz.

― Aparta-te, maldito; não exijo mais da Minha vítima. Minha filha, Minha filha, não pecaste; deste-Me nestes combates, maior reparação do que com um ano de sofrimento, jejum e penitência. É um cordeirinho a imolar-se sem perder a vida, no fogo sem se queimar.

Fui pouco depois à prisão, ao encontro de Jesus. Vi-O tão desfigurado e cheio de frio. O meu pobre coração queria lançar-se aos Seus pés para ser por Jesus calcada e humilhada. Queria aquecê-lO com o meu amor, e não o tinha. Senti-me como se tomasse Jesus pela mão e O ajudasse a caminhar. Segui com Ele o Calvário e sentia que a escuridão, em que estava mergulhada, era a escuridão da nossa cegueira, da nossa ingratidão para com Jesus. No meio do ódio e maus-tratos, parecia-me que Jesus me ajudava a mim no meu desfalecimento, e eu, pobre criatura Sua, a Ele O auxiliava.

No Calvário do meu peito, por quantas vezes senti Jesus desfalecer e quase expirar! O ódio dos algozes, junto à cruz, aumentava. Faltavam corações amorosos, só o da Mãezinha e poucos mais choravam os martírios do Senhor. Ó agonia, ó agonia! A Mãezinha parecia formar voo na Sua agonia para o cimo da cruz para suavizar e acariciar o Seu divino Filho. Os sentimentos dolorosos do Seu Santíssimo Coração mais dolorosa fazia a agonia de Jesus. O Seu divino Coração ardia de amor, e, no momento Dele expirar, pareceu despejar-se por toda a humanidade como vaso de delicioso perfume. Expirou Jesus, e com Ele para, pouco depois, vivermos. Ele veio e disse-me:

― Estou em ti como esposo para contigo desabafar as Minhas mágoas para te condores de Mim. Venho a ti como Pai, Minha filha, para que Me obedeças e atendas aos meus pedidos. Habito em ti como Rei, no palácio do teu coração, para contigo reinar e mais uma vez provar ao mundo que és a Minha rainha. Repara como Eu venho, olha para o Meu divino lado.

Vi o sagrado peito de Jesus aberto e, dentro, o Seu divino Coração ferido, a sangrar. Quis logo arrancar a ferida de Jesus, passá-la para mim; não podia vê-Lo sofrer. Senti que Jesus, por ver a minha ansiedade e pena do Seu sofrer, logo cerrou a ferida do Seu divino Coração, e disse-me:

― Para não estar Eu sempre assim, por saber que não queres a Minha dor, fiz que o teu coração sangrasse e a Minha ferida passasse para ti. O mesmo fiz com a cruz e a coroa dos Meus espinhos. Quando te apareci a caminhar com ela foi para que te condoesses e na tua grande generosidade a aceitasses. É a razão porque assim te sentes sobrecarregada com o seu peso. Minha filha, Minha amada filha, quanto mais ferida te sentires pelos espinhos, arrastada e esmagada pelo peso da cruz, maior quero que seja o teu esforço em a receberes e suportares com alegria, mais frequentes e fervorosos os teus actos de amor. É nessas horas que Eu sou mais ofendido. Sabes quem assim Me fere tão barbaramente? São as almas consagradas a Mim, aquelas que dizem amarem-Me e serem Minhas amigas; mas não o são. Custa-Me mais, muito mais, as ofensas destas do que o crimes dos pecadores, porque esses, muitos não crêem em Mim nem se dizem amigos Meus. Dá-Me a tua dor, aceita a tua cruz, segue-Me alegremente, Minha filha querida. Dá às almas o Meu divino amor e infunde-o em todas aquelas que Me querem amar, pede-lhes para que Me amem. Quero amor, quero amor para esquecer tanta ofensa ao Meu divino Coração. Quero amor, quero amor para com ele aplacar a justiça do Meu Pai. Minha filha olha o mundo, olha as almas que se perdem. Dei-te o Meu amor, dei-te todo o fogo do Meu divino Coração, incendeia-o nos corações; foi para isso que te fiz dele depositária; é por ti que Eu lho dou, é por ti que Eu sou amado. E, como prova disso e de que tu Me amas, Eu te apareço muitas vezes na realidade, mostrando-te o Meu divino Coração. E tu não tens falado disto, nada disto escreveste?

― Meu Jesus, só Vós sabeis o porquê. Com as minhas ânsias de amor e desejo de me enlouquecer por Vós, temia que fossem ilusões da minha parte, apesar de me sentir confortada, ao ver o Vosso divino Coração e Rosto, tão cheios de amor.

― Não é ilusão, não, filha amada; sou Eu a confortar-te, a comunicar-Me a ti, a dar-te amor para dares por Mim. Tu serás para o mundo. Tu serás para o mundo farol luzente, estrela brilhante sempre, sempre a cintilar. A tua vida será uma aragem celeste, perfumada e deliciosa, a correr sempre através dos tempos, a suavizar e atrair para Mim as almas. Recebe a gota do Meu divino Sangue; dou-ta vagarosamente; é a carne, é o pão, é o vinho que te alimenta, é a vida do que vives e a que quero que dês às almas.

Jesus, ao dizer isto, introduziu o tubo, uniu os nossos corações. Ao tirar o tubo, uniu ao coração os Seus divinos lábios, bafejou-mo e passou a Sua Santíssima mão sobre o lugar da abertura, como quem acaricia.

― Vai para a cruz, Minha filha, vai salvar as almas, e sempre que por elas te vejas rodeada, murmura baixinho: dou-vos a vida e o amor de Jesus, quero que todas sejais de salvação. Coragem, coragem! Leva conforto, leva amor, vai para a cruz.

― Obrigada, obrigada, meu Jesus.

Vim bem para a cruz; que grande é o tormento da minha alma. Bendito e louvado seja em tudo o meu Senhor.

5 de Dezembro de 1947 – (sexta-feira)

Meu Deus, como se pode aguentar tanto abandono. Tenho medo de estar tão só. Fugir-me, tudo, tudo e todos! Ó meu Jesus, faça-se a Vossa vontade divina. Eu vou à Vossa procura, ao Vosso encontro mesmo com sentir que quanto mais Vos busco mais me fugis. Só Deus me basta, só Jesus quero; confio que não sou por Ele abandonada. Sofro tanto por não poder fazer bem todas a todos, mesmo aos meus inimigos, se é que eu os tenho. É tal a dor que sinto por não fazer bem a toda a humanidade, até mesmo àqueles que mais me têm ferido, que por vezes não posso resistir. Consolar a todos, remediar todos os males, dar a todos a graça do Senhor, são os meus desejos.

Ó meu Jesus, que ânsias insaciáveis! Eu não sei que sinto em meu coração, sinto-o cheio, mesmo a transbordar, não sei com quê, que é o remédio de todos os males. Este remédio, isto que me enche o coração, não é meu, é uma coisa muito sublime, muito superior a mim. Parece que tenho o coração aberto e nele umas mãos a apontar para ele a indicar o caminho, a entrada, para ir buscar tudo aquilo de que o coração está a transbordar. Sinto bem que tudo isto é desprezado; poucos se querem aproveitar deste remédio, desta riqueza. E por isso sofro, sofro uma dor quase insuportável. Não posso fazer o bem; fazei-o Vós em mim e por mim, meu Jesus.

Tenho dentro de mim um rochedo mundial, é mesmo o mundo, sinto que o é. À volta deste rochedo, anda um mar infinitamente maior a bater mansamente com suas ondas meigas e doces, ondas de convite, ondas de quem quer entrar. Mas este rochedo, não é só rochedo inquebrável, cobriu-se também de podridão, de lodo e lama. As ondas batem com tanta doçura como que a afagar; querem lavar toda aquela imundície para depois abrandar toda a dureza; mas em vão. Dentro deste rochedo, está o veneno, de que eu sou portadora, está encoberto, mas apesar disso, opõe-se como víbora, como leão furioso, para que não possa este rochedo ser lavado nem amolecido! Ai como Jesus sofre! Que ingrata é a humanidade!

Não posso ver sofrer Jesus, não posso sentir a Sua dor nem a ingratidão. E eu sou do número que O ofende gravemente, sou do número dos ingratos, muitos ingratos. Como posso proceder assim, ó meu Jesus? Parece que não tenho coração para Vos amar; se eu Vos amasse não Vos ofendia. Ai de mim, pobre de mim, que tanto Vos queria amar. Dar o meu sangue, a minha vida pelo Vosso divino amor é pouco; queria todo o sangue, todas as vidas e depois de tudo isso eu ainda dizia que não vos amava e nada tinha para Vos dar. Remediai este mal, Jesus, saciai os meus desejos. A vida foge, o fim aproxima-se, e eu morro de pavor, sozinha, em trevas, de mãos vazias. Existiu porventura algum dia, por algum tempo, em mim a luz? Sei o que é a luz, compreendo os efeitos, que a luz produz? Não, meu Jesus, tudo morreu para mim sem me deixar sinal algum da sua existência, dos seus efeitos. Bendito sejais.

Na tarde de ontem, parecia-me aparecer do Céu uns raios de sol, que davam vida à terra e a iluminavam de tantas trevas, que a submergiam. Contra este sol vinham nuvens negras, assustadas a encobri-lo. Parecia que tinha Jesus dentro de mim a contemplar, a fitar este sol e as nuvens formadas de todas as maldades, que tentavam encobri-lo. Jesus lançava-se às nuvens para as abraçar, embora que apavorado com elas; o Seu divino Corpo cobria-se de suor e sofria sozinho. De longe a longe fitava o Céu e bendizia a Seu eterno Pai.

Durante a ceia, eu queria poder mostrar o rosto de Jesus, tal qual O vi, inflamado de amor. Queria poder fazer sentir a todos os corações o que é o amor de Jesus para com a alma que verdadeiramente O ama. Como se uniram tão docemente o Coração divino de Jesus ao coração do discípulo amado! Jesus consolava-se no Seu discípulo e este no seu Mestre. Esta união suavizou a dor angustiosa de Jesus. Vi-O depois tomar em Suas divinas mãos uma bacia grande, redonda, cingir o Seu pescoço com uma toalha e seguir o lava-pés. Depois de sair da sala e se despedir da Mãezinha, um pouco já retirado, fitou-a novamente, como que a dar-Lhe um novo adeus. Ela fitava o Seu Jesus, no cimo da escadaria. Ele desapareceu, mas ficaram sempre unidos. À saída da cidade, ao principiar a subir, Jesus viu todo o sofrimento que O esperava; banhou-se novamente em suor, e á a cair desfalecido. A Sua vida divina fez que não caísse, e forçou-O a caminhar.

No Horto, senti bem, como se fosse o meu rosto, pousado na terra, todo ensopado em sangue. Pareceu-me que todos os meus vestidos nele se ensoparam também. Sofri tudo, tudo ali com Jesus; ainda que eu quisesse, não podia deixá-Lo; com Ele fui para a prisão.

Na madrugada, muito cedo ainda, em vão procurei consolá-Lo. Como o meu Jesus estava desfalecido! Que pena eu tive! Por mais que Lhe quisesse dizer, quase nada disse, não pude consolá-Lo, não soube amá-Lo. Mais tarde, ainda sem a sentença estar dada, vi os cravos que O haviam de pregar à cruz, o martelo que os havia de bater. O Coração de Jesus desfazia-se pela dor, o peito abria-se com o peso que o sobrecarregava. Eu queria acariciá-Lo, mas sentia no meu corpo que podia tocar no Corpo divino de Jesus, por todo estar em ferida e em sangue; era tal o sentimento e dor, que eu tinha, que não parecia ser o Sagrado Corpo de Jesus ferido, mas sim o meu. Neste sentimento passei todo o caminho do Calvário e no mesmo sentimento O acompanhei na agonia da cruz. Parecia ser o meu sangue que sobre ela corria, pareciam ser as minhas carnes despedaçadas que caíam junto dela. Pobre de mim, sei que sou nada e nada sofro; era Jesus que em mim sofria. Se ao menos eu soubesse acompanhá-Lo!

O sol escureceu-se, a terra tremeu, aproximava-se o fim de tão grande tragédia. Jesus ia morrer, mas a ingratidão ficava. Que aumento de agonia! Senti perder a vida com tal ingratidão que, até ao último momento foi como que uma lança aguda a ferir-me o coração. Fiquei por algum tempo, como se expirasse Jesus também. Como Ele não tinha morrido, veio, fez-me viver e disse-me:

― Minha filha, Minha filha, desceu o Céu, desci Eu ao teu coração. Desci, Minha filha, ou melhor fiz que desci para Me comunicar a ti, para ouvires a Minha voz divina. Estou aqui e estou também no palácio riquíssimo do teu coração. Tu és, esposa amada, o espelho das virgens, o anjo dos jovens e das donzelas. Tu vieste ao mundo para escola de toda a humanidade. Em ti aprendem as donzelas a guardarem para Mim o lírio cândido da sua pureza; em ti aprendem velhos e novos, ricos e pobres, sábios e ignorantes; em ti aprendem todos a amarem-Me no sofrimento, a levarem a sua cruz. Em ti estou bem, Minha pomba amada, ao abrigo do teu coração não pode o mundo ferir-Me.

― Meu Jesus, meu terno amor, que confusão e vergonha a minha! Quero cair humilhada e contrita aos Vossos  divinos pés e aí chorar as minhas culpas. Como podeis Vós que tudo vedes, falar assim da maior de todas as pecadoras, da mais indigna das Vossos filhas!

― Assim teria sido, Minha querida, se Eu não velasse por ti e não correspondesses às Minha divinas graças. O fazer-te conhecer o mal não tirou à tua alma o brilho e a graça; conhecê-lo não é praticá-lo. E só assim podias dar ao Meu divino Coração a reparação para tantos pecados e tantos crimes! És a Minha vítima, a quem confiei a mais alta missão. E como prova disso atende bem ao que te digo para bem o saberes dizer. Quase um século era passado que Eu mandei a esta privilegiada Freguesia a cruz para sinal da tua crucifixão. Não a mandei de rosas, porque as não tinha, eram só espinhos; nem de oiro, porque esse com pedras preciosas serias tu com as tuas virtudes, com o teu heroísmo a adorná-la. A cruz foi de terra, porque a mesma terra a preparou. Estava preparada a cruz; faltava a vítima, mas já nos planos divinos estava escolhida; foste tu. O mal aumentou, a onda dos crimes atingiu o seu auge, tinha que ser a vítima imolada; vieste, foi o mundo a crucificar-te. Agora partes para o Céu e a cruz fica até ao fim do mundo como ficou também a Minha. Foi a maldade humana a preparar-Me a Minha, e a mesma maldade preparou a tua. Oh! como são grandes os desígnios do Senhor! Como são grandes e admiráveis, que encantos eles têm! Poderia Eu na Minha sabedoria infinita assemelhar-te mais a Mim? Desta cruz, desta imolação tirei dois proveitos: o amor à cruz, o amor à minha imagem crucificada e a grande reparação. Não é só a Minha Alexandrina a ser na cruz crucificada, mas Cristo nela e com ela. É necessário maior prova? Estudem os sábios, estudem aqueles, não a quem dei a luz, mas a quem a vou dar. Alguns a quem a dei e a não aceitaram, não voltam a recebê-la. Partes para o Céu, Minha filha, mas por ti continua a obra da salvação. Acode às almas, acode às almas. Fica por um pouco a gozar a Minha paz para dela tomares conforto para a luta. No meio das tuas trevas, recorda estes momentos, lembra-te que sou Eu, confia em Mim.

Jesus ficou em silêncio e eu a nadar em paz e gozo; não tinha dúvidas que era Jesus. Uns momentos depois Jesus interrompeu o silêncio, e com o tubo doirado, ligado ao Seu divino Coração, introduziu-o no meu.

― Vais receber a gotinha do Meu Sangue divino e juntamente o meu divino amor com toda a abundância.

Pelo centro do Coração divino de Jesus saíam labaredas altíssimas; senti-me a arder e a queimar nelas; tudo em mim era fogo. Jesus com carícias e o bafejar dos Seus lábios divinos, desligou o tubo, retirou o Coração, apagou as chamas.

― Vai, filhinha, vai esposa Minha, não temas a cruz; comigo vences. Dá-Me dor, dá-Me dor, dá-Me amor, dá-Me amor. Vai para a cruz, vai salvar as almas, condu-las a Mim. Vai semear, leva o Meu divino amor. Vai, diz tudo, oferece-Me o sacrifício. Coragem, coragem.

― Obrigada, meu Jesus. Por não ter querer, tudo faço pelo Vosso divino amor; dai-me força, dai-me luz.

6 de Dezembro de 1947 – 1º sábado.

Passei horas da noite sempre em união com O meu Jesus, na ânsia de O receber com perfeição e amor e em ânsias insaciáveis de fazer o bem, espalhar o bem. O meu coração era como um rio, que não cessa de dar água para o mar, noite e dia, sem parar. Sentia-me e sinto-me cansada, porque ele não pára, não deixa de ansiar, quer dar-me, quer entregar-se para conforto, alívio e amparo de todos; quer desfazer-se no bem, só no bem. Este ansiar não pode estar à frente da minha miséria. Quem sou eu? Que bem posso fazer?

― Ó Jesus, fazei-o Vós por mim e deixai-me esconder em Vós.

Nesta ansiedade, martírio de alma e corpo, preparei-me, o melhor que pude, para a vinda do meu Jesus. Eu não vivia, eu não era eu, nenhum bem fazia, tudo era morte. Chegou Jesus, entrou no meu coração, e, momentos depois, na mais íntima união, disse-me:

― Minha filha, venho a ti com o Meu conforto, com a minha força, com a luz do divino Espírito Santo, para que nos momentos de maior angústia, imolação e trevas, possas recordar os felizes momentos de íntima união Comigo e desta luz, que tudo ilumina, possas dizer: a luz, que recebi; era a luz divina, a união e a paz era a de Jesus; paz, que o mundo não tem, e só do Céu pode vir. Nestes pensamentos vencerás a rua dor; com estes pensamentos confiarás sempre em Mim sem vacilar. Só assim romperás por entre os espinhos, só assim sairás vitoriosa do teu martírio, sem o qual as almas não se salvariam. E elas estão em tanto perigo, perigo eminente de se perderem. Coragem, coragem! Criei-te para elas, para elas criei este milagroso Calvário. É Calvário que lava, Calvário que purifica, Calvário que perfuma, Calvário que abrasa, Calvário que atrai; é Calvário das maravilhas do Senhor.

Minha filha, Minha esposa querida, vou dar-te o prémio do aniversário que hoje passas. Há 9 anos que, pelo Meu divino amor e pela missão das almas, deixaste por alguns dias a tua casa; foste como peregrina, com os olhos fitos em Mim, obedecendo e a cumprir a Minha divina vontade. Foi o primeiro golpe a seguir ao da primeira crucifixão. Aceita como prémio toda a riqueza do Meu divino Coração.

O coração de Jesus era como um vaso  formosíssimo, o qual Ele despejou dentro do meu coração.

― Dou-te tudo e com tudo fico, Minha filha; dou-te toda a Minha riqueza, e em Meu nome que o dês ao teu Paizinho também como prémio do seu sofrer. Diz-lhe que o associei ao princípio do teu Calvário e que ele foi o teu cireneu e contigo vítima. Diz-lhe que fui Eu que vos uni e que, nesta união, passais a vida da terra e a eternidade. No dia da primeira crucifixão, vós formaste uma escada para o Paraíso, pela qual não têm cessado de subir as almas. Diz-lhe que Eu sou sempre o seu Jesus, cheio de bondade e amor para com ele. Diz-lhe que Jesus lhe manda todas as graças deste Calvário, deste viveiro das almas. Diz, Minha filha, ao Meu e teu queridíssimo médico que lhe dou o Meu profundo agradecimento pelo seu acto de fortaleza, sem respeito humano para a Minha divina causa. Foi grande a consolação que Me deu pela luz que levou a muitos corações. Como prémio desse acto heróico dou-lhe todas as Minhas bênçãos e graças para ele e para os seus; e prometo-lhe a fidelidade à graça e guiá-lo em todos os seus passos; prometo-lhe a perseverança final e toda a luz do Espírito Santo. Quero fazer compartilhar destas promessas aos que mais de perto te rodeiam e trabalham em defesa do que é Meu. Vi Jesus a abençoar, por um bom espaço de tempo. Vem, Minha Bendita Mãe, à Nossa filhinha, que te espera e necessita do teu conforto para amparo da sua dor.

Veio a Mãezinha; cobria manto de Rainha; tomou-me para o Seu regaço, envolveu-me no Seu Santíssima manto, abraçou-me e cobriu-me de carícias.

― Minha filha, Minha filha, sofre o Coração do Meu divino Filho e sofre o Meu também. Tira-Lhe do Dele os espinhos, tira-Me do Meu as setas. Passa para os que amas as minhas carícias, diz-lhes que também são para elas, que Eu lhas mando. Pede-lhes, em Meu nome, para fazerem o mesmo que a ti peço. Quero que Jesus seja amado, quero ser amada também; quero que o Coração divino de Jesus seja reparado, e não quero que nele fique nem um só espinho. Peço reparação para o Meu santíssimo Coração e para dele lhe serem tiradas todas as setas e espadas que tem. Pede aos que amas para Nos amarem e por Nós sofrerem, dizendo e repetindo sempre: quero que o meu amor, o meu sofrimento vão tirar aos Corações de Jesus e Maria todo o ferimento quer têm; e que o mesmo amor e sofrimento Jesus por Maria o aceite pela salvação das almas, pela conversão dos grandes pecadores. Diz, Minha filha, que quero que o Meu desejo seja propagado.

Aproximou-se Jesus e com a Mãezinha, de novo, me acariciaram e com os Seus lábios docemente bafejaram-me.

― Vai, Minha filha; o Céu não demora, não receies a cruz. O bafejar do teu Jesus e da tua Mãezinha será para ti a vida da tua dor e o maná celeste que quero que espalhes pelas almas que amas, por toda a humanidade. Tem coragem! Quando mais ansiares a tua Pátria, recorda as almas do Purgatório, a quem tanto amas, que tanto anseiam por Me gozarem e contemplarem face a face, e oferece-Me para seu alívio as tuas ânsias, saudades de voares para o Céu para junto de Mim. Coragem! Leva a Nossa paz, leva o Nosso amor.

― Obrigada, Jesus; obrigada, Mãezinha. Já me sinto na cruz; toda ela é de espinhos.

12 de Dezembro de 1947 – (sexta-feira)

Parece-me sentir e ouvir que uma voz me chama para a eternidade; sinto que é o fim que se aproxima e que essa voz é a voz de Jesus. Eu não O vejo, mas sinto que Ele me espera, de braços abertos, para me receber e pedir contas. Eu não sei como Lhas hei-de dar. Eu anseio por esse momento de ir para Ele, e sinto que não posso demorar-me mais tempo aqui, mas tenho medo de comparecer na presença de Deus, de mãos vazias, só cheia de misérias; é só o que tenho, é só o que vejo. É tremendo o meu sofrimento, é horrorosa a minha dor.

No dia 8, no dia da querida Mãezinha, apesar de me lembrar muito Dela, de querer amá-La, honrá-La, dar-Lhe todo o louvor, passei todo o dia morta, sepultada numa sepultura, na maior profundidade das minhas trevas. Só à noite ressuscitei, e saí dessa sepultura, para ver que nada tinha feito e só a minha miséria e nojenta podridão me apareceram. Depois de contemplar bem o meu horroroso estado, voltei a morrer e a sepultar-me na mesma sepultura. E, todos os dias, mais de uma vez, ressuscito e saio dela só para ver e contemplar o que me causa horror. Não passo daqui, da morte à vida horrorosa e da vida horrorosa à morte. Vejo-me sozinha, inútil para mim, inútil para todos, sem o mais pequenino amor a Jesus e o menor bem para as almas e para a humanidade.

Não sei como poder resistir ao horror, ao nojo que me causam as visitas, quero fazer-me compreender; este horror, este nojo não são as visitas que mo causam, sou eu que sinto nojo de mim mesma e causa-me horror ver a podridão vergonhosa e nojenta que as visitas vêm contemplar. Não sei dizer o que sou e o que sofro com o que sou. Meu bom Jesus, minha querida Mãezinha, amparai-me, tende dó de mim, sou a Vossa vítima. Eu aceito e quero todo este sofrimento, mas quero amar-Vos e ver salvas as almas. O meu viver é entre espinhos, é um martírio contínuo de alma e corpo, os espinhos atravessam-me a alma e não deixam o mais pequeno bocado do meu corpo sem ser ferido; sinto-me sempre a derramar o meu sangue.

No meio de tudo isto, sem querer nem querer libertar-me do sofrimento, nada faço daquilo que o meu pobre coração anseia; fazer o bem; praticar só o bem, acudir a todos, remediar todos os males, assemelhar-me a Cristo, seguir em tudo os passos de Jesus. Nada sinto que se realiza e é de utilidade para a humanidade porque apesar de tanto sofrer, nada é meu, nenhum bem eu faço. Sou tão nada, como hei-de levar a minha cruz! Neste mar de sofrimento, envolvida nas ondas mais furiosas, vi por vezes o Menino Jesus caminhar à minha frente com um grande madeiro aos ombros. Ele era tão pequenino, não sei como o podia levar; só a força de um Deus. Causava-me dó e grande impressão vê-Lo tão pequenino com tão grande cruz. Ele olhava para mim, fitava-me docemente e caminhava sorridente, como se nada levasse. A vista de Jesus dava conforto à minha alma, dava-me amor à cruz.

Ontem, era já quase noite e eu sem saber compreender o que a minha alma sofria. Veio do alto, um raio do sol foi cercar toda a humanidade, ficou como que uma muralha luminosa à sua volta: depois parecia que mexia e remexia toda a terra e envolvia-se nela. Nesta altura senti que o Céu irado e revoltado contra mim caía sobre o meu pobre corpo a esmagá-lo. Com este peso abriu-se-me o coração, sentia nele grande ferida a sangrar.

Fui com Jesus, até junto do aposento onde ia ser a ceia; não pude subir, fiquei ali esmagada pelo mesmo Céu, e, ali quase morreram as minhas pobres forças. Subiu Jesus, subiu o amor, subiu o que era divino. Não fui ao Horto, quase sem vida dali o contemplei; vi a sua solidão e escuridão, vi o solo tremer com a folhagem que continha; vi todos os sofrimentos, que lá esperavam Jesus; não fui lá, mas deste lugar com Ele sofria.

Na manhã de hoje, senti que eu mesma O fui buscar à prisão, vinha algemado, desfiguradíssimo, sem nenhuma beleza. O meu coração foi o lugar onde Ele foi açoitado, e dentro dele caía a chuva, de gotas de sangue, que produziu a coroa de espinhos. Os mesmos espinhos atingiam-me também o coração e foi sempre ele o caminho que percorreu Jesus para o Calvário; eu caminhava com Jesus e dentro do que era meu caminhava. Jesus desfalecia e caía e eu também; Ele recebia os maus-tratos e eu compartilhava deles. Passou pelo meu coração a Mãezinha e nele foi seguindo a Jesus; a Ele veio a Verónica limpar o rosto de Jesus e limpou o meu também que era com o de Jesus um só.

No Calvário, pregado na cruz, foi ainda o meu coração escada por onde desceram Jesus, o lugar e o lençol com que Ele foi amortalhado. E ainda nele a Mãezinha teve lugar para cuidar do corpo divino do seu Jesus. Tudo senti e vi antes de expirar. Que grande aumento de agonia! Tudo me estava presente. Como Jesus em mim, bradava o Seu Eterno Pai A vida de Jesus deixou-me e então é que eu me senti morta. Esta morte foi por pouco tempo; Jesus não demorou a dar-me de novo a Sua vida.

― Minha filha, Minha querida filha, a tua vida é Minha, o teu sofrimento é Meu. Tu estás no mundo e não és dele; tu vives, e a vida não é tua, sou Eu que vivo. A Minha vida está introduzida no teu corpo; é como que um sopro divino, e a tua alma, ó maravilha, é só a vida do Céu. Tu não sofres, sofro Eu, tu não sofres e Eu não posso sofrer sem ti. Nada em ti podia ter feito nem continuar a fazer sem a tua fidelidade e correspondência às Minhas divinas graças. É Cristo na Sua vítima e a vítima em Cristo. Confia em Mim, confia no que te digo.

― Confio, meu Jesus, e temo e sofro por confiar. Eu estou tão cheio de pecados, caio em tantas e tão grandes faltas; sou tão pequenina, tão nada, como podeis falar-me e viver em mim? Não tendes nojo, meu Jesus?

― Não, não, Minha filha. O teu nojo é para que Eu não tenha nojo das almas; o teu nada, é para encobrir as Minhas grandezas e maravilhas em ti. Quero-te assim pequenina, quero-te assim tão nada para dares tudo. Não viste como Eu tão pequenino levo tão grande cruz? Foi tara te mostrar que a graça tudo pode e que tu assim pequenina, com a Minha vida e força divina tudo vences; com o sorriso e amor à cruz tudo suportas e és vitoriosa no teu Calvário. Confia, Minha filha, querida, confia que te amo e tu Me amas muito, a mais não poderes amar-Me. Tu não és do mundo, e o mundo é teu; entreguei-to, dei-te o título de mãe da humanidade, dei-te todos os tesouros e graças do Meu divino Coração para a salvares. À semelhança do que disse aos Meus Apóstolos, quero dizer-te, não como lhes disse a eles: aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados, mas sim aqueles a quem prometeres a salvação, serão salvos, é deles o Céu. É em nome de Jesus que lho prometes, é Jesus a falar em teus lábios, no teu coração. Dou-te tudo, tudo faço para acudir às almas. Que grande prova de amor!

― Ó meu divino Jesus, se prometeis a salvação a todos quantos eu a prometer, eu prometo-a a todo o mundo, pois todas as almas eu quero salvar, todas são filhas do Vosso divino Sangue.

Jesus com um sorriso na Sua infinita bondade disse:

― Não pode ser, filha querida; assim como para serem perdoados os pecados são necessárias as disposições da alma, igualmente as exijo para a promessa que te faço, para a graça dispensada. É por isso que o Meu divino desejo é que venham junto de ti muitas almas, todas as almas, se isso fosse possível. De ti Eu deixo transparecer a Minha doçura, o Meu sorriso, tudo o que é Meu. Por ti e junto de ti, receberão o toque da Minha divina graça; por ti Eu serei por muitos amado, muito amado. Fiz e vou fazer de ti uma vida maravilhosa, uma vida de prodígios. Coragem, muita coragem! És mãe da humanidade; a mãe dá vida e dá à luz os seus filhos. Recebe agora a gota do Meu Sangue divino; sem ela não vives, sem ela não resistes ao teu sofrer.

Jesus tomou nas mãos o Seu divino Coração, uniu o centro do Dele ao centro do meu, e pelo pequenino tubo passou Dele para mim, muito lentamente o Seu Sangue divino. Foi como que um fogo que me abrasou toda; senti-me queimada, até o rosto me ardia. Jesus levantou o Seu divino Coração e com o centro para cima deixou-o por algum tempo, ligado ao meu. Nesta estreita união, depois de um pouco de silêncio, enquanto que as labaredas continuavam a abrasarem-me, Ele disse-me:

― É fogo, é fogo, é amor, é amor divino, Minha filha. Dois Corações num só Coração, duas vidas numa só vida. É Jesus pela Sua crucificada a salvar o mundo. Acode-lhe, acode-lhe, esposa querida; acode-lhe que é teu, entreguei-to, salva-o, ou salva as almas, que aos corpos já não acodes, têm que ser castigados. Já não demora sobre ele a justiça de Meu Pai. O mundo, o mundo, o pobre mundo, que não atendeu à voz de Jesus, ao convite de oração, penitência, emenda de vida! Coragem, coragem, Minha filha! Brada-lhe bem alto, convida-o para Mim. Dá-me dor, vai para a tua cruz, acode às almas, é essas que Eu quero ver salvas. Vai alegre para a cruz, vai espalhar o bem, vai infundir amor. Não temas as trevas, não temas a tua ignorância. Sentes nada saberes dizer? É quando mais dizes, mais luz dás aos que te estudam, já disso te preveni. Tem coragem! O tempo é breve; bem depressa cantarás as glórias do teu Senhor. O Meu divino Coração anseia por dar-te a tua Pátria, ver-te junto de Mim! Vai alegre, vai em paz, vai cheia de amor, da vida divina.

― Obrigada, obrigada, meu Jesus. Aceitai-me o meu sacrifício e todo o meu sofrer, e poupai o mundo ao castigo.

Tenho tanta pena de Jesus e tanta da pobre humanidade. Tanto a queria salvar! Custou-me tanto ditar tudo isto. Sinto como se tudo fosse escrito com o sangue do meu coração. Que Nosso Senhor me aceite as faltas das minhas forças, para que as almas tenham força para não pecarem.

19 de Dezembro de 1947 – (sexta-feira)

Como o meu coração sangra: ó meu Deus, como eu o sinto ferido; já não parece coração, mas sim uma massa de sangue toda desfeita! E se a alma tivesse algum bocado de carne, eu podia dela dizer o mesmo. Parece que a sinto toda golpeada. Que dor quase insuportável! Vivo porque Jesus o quer; resisto, porque Ele resiste em mim. Ai de mim, se assim não fosse; o que teria sido e seria o meu viver. Tudo é dor, tudo são espinhos e espadas a cortarem-me, tudo é abandono, trevas e morte.

Vou saindo, de vez em quando, fora do meu sepulcro; respiro, vejo todo o sofrimento que me rodeia e sem ter nada que dar a Jesus, sem nada fazer em benefício das almas, logo caio na mesma sepultura. Fica-me a dor e as ânsias de fazer bem e imitar Jesus, de valer a todos e a todos socorrer. Que novo martírio Jesus inventou para mim com estes sentimentos de praticar o bem, de não viver nem pensar em mim, mas sim viver e pensar em toda a humanidade. Só por amor a Nosso senhor e às almas eu recebo as visitas. Que podridão elas vêm ver e observar! Meu Deus, que vergonha a minha, que doloroso tormento!

Tive três combates com o demónio. Como ele vinha desesperado! Eu sentia tal raiva contra mim, que a mim mesma me parecia morder toda. Ouvia uivos e ranger de dentes. Que inferno desesperador e malicioso! Eu era toda demónio. Não queria ter ouvidos para ouvir as suas malditas e feias coisas; mas tinha que ouvi-las e tive que lutar. Sentia o meu coração preso ao demónio por fortes cadeias e parecia-me que não podia deixar o pecado, queria até viver nele, sentia gosto em praticá-lo. Queria tomar para os meus braços o crucifixo e A Mãezinha, mas não podia; era eu mesma que O queria escarrar, escarnecer e calcar aos pés. Não deixei contudo de dizer a Jesus que era a Sua vítima e do íntimo do coração Lhe dizia que não queria pecar e só queria a Sua divina vontade. Confesso que não podia mais. Eram tão fortes as palpitações do meu coração; parecia-me que ele rebentava. Nesta altura, ouvi a voz de Jesus que disse:

― Aparta-te, maldito, tenho domínio sobre ti, deixa a Minha vítima.

Os demónios fugiram espavoridos, uivando e rangendo os dentes. E um Anjo formoso, em tamanho natural, de asas brancas, no meio de uma luz luminosa, parou por uns momentos à minha frente, a apontar-me para o Céu. Desapareceu a visão. Fiquei dorida com o receio de ter pecado, mas com a alma forte, depressa fiquei em paz.

Não tenho a certeza, mas parece-me que, ao menos três vezes, vi passar Jesus, no meio de uma grande multidão de vultos pretos, com a cruz aos ombros a ser maltratado. Ele fitava-me e caminhava sempre, mas oh! como Ele ia desfigurado e triste! Triste e em grande dor me deixava a mim também. Eu podia poder consolá-Lo, tirar dos Seus Santíssimos ombros a cruz e passá-la para os meus. Lá O via caminhar e desaparecer sem o poder conseguir. Queria desviar Dele a multidão que O seguia para O maltratar, e não foi para mim, não tive força para me aproximar de Jesus, para O libertar e suavizar a Sua dor.

― Que estou eu, Jesus, aqui a fazer, se não evito os Vossos sofrimentos. Entrego-me em Vossas divinas mãos, sou a Vossa vítima.

Tudo isto aumenta em mim a sede ardente de amar a Jesus, de me dar a Ele, de viver para Ele. Aumenta-me esta sede, estas indizíveis ânsias, para mais e mais rápido tudo ver desaparecer e morrer. Bendito seja o que dá o Senhor. Se eu o soubesse corresponder ao Seu amor infinito para comigo!

Ontem, logo de manhã, vi Jesus, preso à coluna, e, no decorrer das horas, tudo era dor, tormento imenso à minha volta. Tudo o que era sofrimento me rodeava; sei que era dor, mas não sei exprimir-me. Montanhas negras e duras batiam contra o meu peito, feriam-mo, abriam-mo, deixavam-mo a sangrar. O Céu parecia repelir-me, não me querer fitar, mas dentro em mim ia uma força que não olhava ter que sofrer. Abria os braços para abraçar a imensidade daquela dor, e, mergulhada nela; queria dar vida à terra, queria dar luz, cuidava das coisas do Céu.Com os desejos de delas cuidar, sempre fui para o Horto, não com as minhas forças, mas com outras superiores a elas.

Lá, com a visão de tudo o mais que me esperava, que era a prisão, a cruz e o Calvário, abriu-se-me o coração e reguei de sangue a terra. Com os vestidos e cabelos nele ensopados fui para a prisão com Jesus e com Ele lá fiquei por muito tempo.

Hoje de manhã, voltei ao Seu encontro; comoveu-me o estado em que O encontrei; estava desfiguradíssimo, desfalecido, tiritava de frio. Mesmo na prisão estava de mãos atadas. Foi o meu corpo a prisão e os caminhos que o conduziram aos tribunais, foi o meu coração o pescoço, a cintura onde foram atadas as cordas para arrastarem Jesus. Assim segui com Ele o Calvário; viagem dolorosíssima e triste. Mesmo o sol parecia envergonhar-se; de vez em quando, escurecia-se. Repetidas vezes no Coração senti os puxões das cordas e Jesus cair por terra; quando caía os espinhos da coroa penetravam ainda mais fundo, as feridas abriam-se, rompia o sangue. Sem uma força sobre-humana não conseguia chegar ao fim da montanha. O sangue colava os divinos olhos de Jesus, caminhava às cegas. Contudo os Seus olhares divinos viam tudo e todos os sofrimentos, que ainda faltavam.

Fiquei com Ele pregada na cruz, tão presas à Sua dor e agonia, que nada havia que nos separasse. Era ainda no meu coração que Jesus, no Seu abandono, fitava o Céu, num brado profundo a Seu eterno Pai. Causava dó o Seu brado dorido que devia ser ouvido pelo mundo inteiro. Veio o momento de expirar; expirei com Ele. E desta vez a nossa separação e morte prolongou-se. Depois desta demora, veio Jesus ressuscitar-me e deu-me vida também, deu-me uma vida doentia. Eu falava com Jesus, e sofria ao mesmo tempo.

― Minha filha, tabernáculo do divino Espírito Santo, companheira inseparável de Meu Eterno Pai, sacrário da Minha habitação, paraíso das Minhas delícias, em ti habitamos sem nos separarmos; o divino Espírito Santo para te iluminar e instruir, o Eterno Pai para te acompanhar e admirar a obra da criação, Eu para te guiar, fortificar e dar a vida. É de Mim e para Mim que tu vives, é por Mim que és enriquecida, é com as Minhas riquezas que salvas as almas. Enchi-te, enriqueci-te como a nenhuma outra alma, porque por nenhuma sou assim amado; a todas ultrapassas na dor e no amor, a ti como a nenhuma outra Eu dei todas as Minhas graças e tesouros, a ti como a nenhuma outra Eu entreguei e confiei tão completa missão, a maior, a mais sublime missão e operei tantas e tão grandes maravilhas. Por nenhuma fui tão amado, não te igualou outra na generosidade, nem assim correspondeu às Minhas graças. Amas-Me muito, Minha filha, amas-Me a mais não poderes amar-Me, confia em Mim, confirma na afirmação do teu Jesus. Mas não é o bastante, quero mais, tenho sede de amor, sede devoradora. Quero mais não de ti, porque não podes, mas por ti. É por ti que as almas se salvam, é por ti que Eu quero que elas Me amem. Pede-lhes, pede-lhes amor, pede-lhes reparação; é urgente, venha depressa esse amor, essa reparação; é preciso aplacar a justiça de Meu Eterno Pai, é preciso fazer-Me esquecer os crimes com que sou ofendido. Ai do mundo, o pobre mundo, o que o espera, o que ele vai bem depressa sofrer e gemer! Não quer ouvir-Me, não atende aos Meus pedidos. Quanto sofre com isso o Meu divino Coração!

― Ó meu querido Jesus, estou triste, humilhada e confundida. Queria prostrar-me aos Vossos Santíssimos pés para com lágrimas e verdadeiro arrependimento dos meus pecados Vos bendizer e agradecer pelos dons e graças que me tendes dispensado, sem atenderdes à minha indignidade e extrema miséria. Muito obrigada, meu Jesus. Eu queria na mesma posição receber de Vós todos os sofrimentos e de Vós implorar e obter o perdão e a misericórdia para o mundo. Não Vos posso ver sofrer nem ver as almas perderem-se. O que quereis que eu faça Jesus? Vejo que sofro tanto e tento Vos vejo sofrer! Quero sofrer eu sozinha e evitar os Vossos sofrimentos.

― Minha filha, Minha pomba branca, quando Me vires caminhar com a cruz, renova a tua oferta de vítima, repete-Me os teus actos de amor. Eu é em ti e não sozinho que caminho, sofro e levo a cruz. Estas visões que te dou é porque assim mais te levo à compaixão e posso melhor pedir-te a reparação. Leva a tua cruz, dá-Me a tua dor, o teu amor, dá-Me os combates do demónio, só eles podem reparar a gravidade de tão grandes crimes.

― Ai, meu Jesus, que medo eu tenho, aceito-os por vosso amor, velai Vós, velai sempre para eu não Vos ofender.

― Confia, confia, filhinha amada: nunca permitirei que Me ofendas. Vem receber agora a gota do Meu divino Sangue, a grande e única maravilha do Meu divino amor. Recebe, é vida; recebe, é força; recebe é amor, amor, amor!

Jesus introduziu o tubo no meu coração e sobre ele colocou o Dele; a gotinha do Sangue passou vagarosamente, foi um bálsamo para todo o sofrer do meu pobre coração. Senti-o tanto no íntimo! Aquela fortaleza e suavidade do sangue divino de Jesus fez-mo crescer tanto, não cabia no peito, respirava profundamente. Jesus passou sobre a abertura a Sua divina mão, bafejou-me repetidas vezes e disse:

― Vai para as trevas, vai para a cruz, repara, repara o coração do teu divino Esposo. Leva este conforto, leva a vida que te dou, a vida do que vives. Tem coragem! O teu Céu está perto. Eu espero os homens descuidados das coisas de Deus. Venho falar-te para confortar-te e até que eles venham. Vai, esposa Minha, vai, jardim de encantadoras flores, espalha o bem, espalha o aroma, o perfume de tão heróicas virtudes. És Minha, leva o que é Meu, vai levá-lo às almas, vai acudir ao mundo. Conto contigo. Conta com o teu Jesus.

― Obrigada, obrigada, meu doce amor. Já fugiu a luz que neste colóquio de Vós recebi. Mergulha-me na dor, mergulho-me nas trevas por Vós e pelas almas.

26 de Dezembro de 1947

Quero amar e falar do amor de Jesus e não amo, nem tão pouco sei falar do Seu divino amor. Que ânsias insuportáveis de O amar e insuportáveis desejos de uma vida mais pura e perfeita! Que grande dor não poder nem saber amar Aquele, que tanto me ama e morreu por mim, e não ter nem saber viver aquela vida de perfeição, de que Jesus é digno que eu viva. Que horror!

Constantemente cai sobre mim como que uma chuva de maldades e de crimes. Sinto-me queimada e carbonizada dum fogo indizível de paixões. Eu sofro, ó meu Deus, e sofro tanto, sei que sofro e em quase nada se resumem os meus sofrimentos. Não sei exprimir-me, não sei falar, não sei dizer nada desta dor, que me consome; tudo se apaga, tudo morre. Ai meu Deus, que trevas tão doridas! A morte não fala, a dor vive, mas é muda, é por isso que eu não sei dizer o que sofro. Sem saber sofrer, sem saber orar e falar com o meu Jesus, esmagada com este peso, que me causa a dor, de que não sei falar, levanto muita vez os olhos para Jesus crucificado, e digo: meu Jesus, eu sofro sem saber falar da minha dor, mas Vós a compreendeis e mais ainda sabeis que é só por Vosso divino amor e por amor às almas. Que me importa a mim que ela se oculte e esconda aos olhos do mundo, se é vista por Vós, por quem é suportada e ao vê-la, a aceitais para a salvação das almas. Ó Jesus, ó Jesus, eu sou Vossa e para Vós é todo o meu viver! Mãezinha querida, querida Mãezinha, ensinai-me a amar a Jesus, amai-O por mim, mostrai que sois minha Mãe.

Tudo quanto eu digo se perde num abismo infindo. Não sei orar, não sei sofrer, não sei amar. Que pobreza sem igual! A tudo isto se juntam os sofrimentos, de que já, por vezes, tenho falado. Os meus caminhos são espinhos, os meus caminhos são do dor. E quanta maior festa no Céu, maior tormento para mim, maior dor muda e que não se fez compreender. Veio a noite de Natal; sem saber, tudo ofereci a Jesus e tudo Lhe pedi para mim e para os que me eram mais queridos e por fim para o mundo inteiro pelo qual tenho uma fome insuportável de o salvar. Para mim o que mais pedi foi amor, humildade, pureza e desprendimento de tudo. A minha prece ao Céu, mais me mergulhou no meu nada, mais vazia me deixou.

Tive uns momentos de sono; ao despertar, senti logo no meu coração o presépio; ou melhor, era eu a cabana onde tinha nascido Jesus. Tive uma visão de alma, visão bem clara; dentro de mim, Jesus nas palhinhas e ao lado S. José e a Mãezinha. Sobre Jesus Menino poisava uma luz brilhantíssima que O iluminava a Ele e a todo o presépio. Essa luz vinha duma pomba mais branca que a neve que se sustentava no ar, de asas abertas, pouco mais ou menos à altura de um metro; era um sol de fogo que saía dessa pomba; era um silêncio profundo que reinava nesta habitação. O que fazia eu? Nada. O meu amor eram umas secas palhas onde Jesus poisava, as minhas palavras nada mais representavam do que as pedras da cabana. Que dureza e ingratidão a minha para com Jesus!

Passei algumas horas neste sentimento e visão. Pouco depois da Sagrada Comunhão, uni-me de tal forma a Jesus Menino neste presépio que com Ele compartilhei, logo desde a manhã, de todo o sofrimento do Horto e do Calvário.

Vieram de encontro ao presépio todos os preparativos para a ceia, a entrega de Judas, o suor de sangue, o romper das veias, o Horto completo cheio de amargura e por fim o Calvário com a cruz. Eu sentia tudo, mas todo este sofrimento caía sobre Jesus pequenino. Foi este o meu Horto de ontem, Horto que durou todo o dia e parte ainda da noite.

Na madrugada de hoje, fui assaltada pelo demónio; foram quatro os ataques. Com aflição e bater do coração tive a impressão que por algum tempo perdi, ou quase os sentidos. Que maldade infernal! Vi-me tão entregue ao demónio! Pedi tanto a Jesus para O não ofender, mas que era sempre a Sua vítima! No último combate, quando o maldito me afirmava levar-me ao prazer veio Jesus e disse:

― Aparta-te, maldito; já tirei da vítima a reparação desejada.

Ele com uma tromba como de elefante, lambia-se de contentamento, como se tivesse conseguido de mim o que desejava. Depois, já longe, uivava desesperado. Jesus uniu ao meu o Seu Santíssimo peito, e, cheio de doçura, disse-me:

― Minha filha, alma com alma, coração com coração, amor com amor. Passo para o teu coração o bálsamo do Meu divino amor para suavizar a tua dor. Coragem! Tirei destes combates muita reparação para os grandes crimes que nesta noite se praticaram.

Esteve por algum tempo à minha frente o Sagrado Coração de Jesus, em tamanho natural; era formoso, todo Ele era doçura e amor. Quando assim me apareceu nada me disse. A Sua divina presença encheu-me, deu paz e tranquilidade à minha alma. Quando O recebi sacramentado, esqueci por muito tempo toda a luta do demónio.

A visão do presépio, a pouco e pouco, tem-se ido apagando, mas alguma coisa ainda seguiu hoje comigo os caminhos do Calvário. Senti como se me viessem abrir o peito e a ele unir a cruz, toda a tragédia dos caminhos da amargura e do Calvário. O peito fechou-se, e lá dentro ficou, unido ao presépio, todo este sofrimento que sinto ter que me acompanhar na vida e até ao momento da morte: Aqui fui crucificada, aqui agonizei com Jesus. Não sei como O pude sentir pequenino no presépio e na cruz crucificado. Neste estado de alma e união, entreguei ao Pai o meu espírito. Esperei por alguns minutos a nova vida e união com Jesus. Ele veio, pôs-me a nadar num mar de fogo, e disse-me:

― Minha filha, vem descansar, vem dormir em Mim o sono do amor, é conforto para a tua alma, é vida para a tua dor, é vida, é amor que podes e Eu quero comuniques às almas; vive, fá-las viver. Descansa, dorme, recebe de Mim toda a abundância de amor, enquanto que Eu de ti também o recebo. O Meu divino amor é para ti o bálsamo, a força do teu inigualável martírio, assim como o teu é para Mim o bálsamo para as Minhas feridas e esquecimento para tantos crimes com que sou ofendido. Tu amas-Me, tu amas-Me, confia que Me amas; tu sofres e sabes sofrer, confia em Mim. O não saberes dizer quando sofres não te entristeça, pois já disso estavas prevenida, e, de dia para dia, menos saberás dizer. Tu sofres, sabes sofrer, Eu to afirmo; ai do mundo sem o teu indizível sofrer. Se não fosse a tua dor e a reparação que nesta noite te pedi, repara em que estado vias o teu Jesus.

Tudo isto que fica dito, Jesus mo dizia com intervalo de profundo silêncio, enquanto que eu ia nadando no mesmo mar de fogo e parecia-me dormir muito unidinha a Ele. Quando Jesus assim me falava, vi-O todo retalhado, o Seu Santíssimo corpo numa só ferida, coroado de agudos espinhos, que O faziam derramar uma chuva de sangue! Compreendi que assim estaria se eu por Seu divino amor não tivesse sofrido.

― Querias, filha querida, ver neste estado, sofrendo assim o teu Jesus?

― Não, não, meu dulcíssimo amor. Quero sofrer e com alegria levar a cruz que me dais. Ensinai-me, meu divino Mestre, ensinai-me a sofrer e a esconder a minha dor para maior consolação Vossa e grande proveito para as almas. Não sofro com perfeição, tende dó de mim.

― Permito, Minha filha, que alguma coisa deixes transparecer porque disso tiro glória e assim convém para a Minha divina causa. Sabes sofrer e oh! como é grandiosíssimo o teu martírio. Assemelha-te tanto a Mim! Acabo de dar mais uma prova e uma lição de quanto a Mim te assemelhei, unindo ao presépio o Horto, o Calvário, a morte; a vida de Cristo, do nascimento à cruz. Toda a Minha vida foi cruz, toda a Minha vida trouxe em Meu divino Coração todos os sofrimentos, por que tinha de passar. Coragem, Minha filhinha, é grande e doloroso o teu martírio, mas é grande e doloroso ver o perigo em que está o mundo. Acode-lhe, brada-lhe que Me tenha a Mim. Já ouço os seus gemidos; o que será para bem breve. Ele não quer ouvir o Meu chamamento, a Minha divina voz. Sofre por ele, sofre com alegria, acode-lhe, acode às almas. Recebe a gota do Meu divino Sangue, a grande maravilha das Minhas maravilhas.

Jesus com o tubo unido ao Seu divino Coração introduziu-mo no meu, passou a gotinha do Sangue e eu senti como se um pincel molhado nele pincelasse por dentro todo o meu coração. Jesus tirou o tubo, cicatrizou a abertura com as Suas mãos divinas e disse-me:

― Vai agora com nova vida para a tua cruz, vai salvá-las. Coragem, nada temas, porque estou contigo.

Obrigada, meu Jesus. Vinde e não Vos separeis.

 

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