Alexandrina de Balasar

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"Completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo".

 

Capítulo 22

COMPLETANDO O QUE FALTA AOS SOFRIMENTOS DE CRISTO

A vítima está em lugar dos pecadores: fiadora deles, por isso sofre o que eles deviam sofrer: sente o peso dos pecados do mundo e torturantemente as más disposições dos pecadores que repelem o convite à conversão; experimenta toda a abominação desse estado, como se fosse seu, e consequentemente a ira de Deus a repelir de Si essa abominação: paira sobre ela a morte eterna, as dores do inferno.

Mas a vítima está também e principalmente em lugar de Cristo: é isso afinal o que dá valor à sua imolação. Sem essa união com Cristo, nada valeriam os seus sofrimentos diante de Deus!

Não quiseste sacrifício nem oblação — diz a Escritura, referindo-se a Cristo — mas formaste-me um corpo. (Hebr 10,5)

Esse corpo é antes de mais nada o que foi gerado de Maria Santíssima, é a sua santa Humanidade: é ele que é a vítima por excelência imolada e oferecida ao Eterno Pai no Calvário, pelos pecados do mundo.

A Cristo, porém, foi-lhe dado não só um corpo físico humano, mas um corpo místico: os baptizados, a Igreja; e foi-lhe dado particularmente na sua morte, porque nela é que todos fomos baptizados, como diz São Paulo:

Não sabeis que todos fomos baptizados em Cristo, que fomos baptizados na sua morte? (Rom 6,3)

O baptismo é pois a marca de um laço real entre os que pertencem a Cristo e também da participação na sua morte.

Participar na morte de Cristo não é só receber as graças que Ele nos mereceu com a sua morte, mas experimentá-la, ser vítima, estar morto com Cristo. É experimentar os seus estigmas e a sua morte em nós mesmos, estendendo até nós, membros seus, os seus sofrimentos:

Adimpleo quae desunt passionum Christi in carne mea pro corpore ejus quod est Ecclesia. (Col 1,24)

"Completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu corpo que é a Igreja", ensinava o mesmo São Paulo.

Evidentemente nada falta à Paixão de Cristo quanto ao mérito, mas quanto à aplicação: para esta quer que colaboremos, com os nossos trabalhos, sofrimentos, fadigas, orações, vida e morte, transformando-os assim em instrumentos destes méritos redentores de nós mesmos e dos pecadores.

A vida da Alexandrina é uma realização concreta e eloquente desta doutrina; desta sua união com Cristo sofrendo, encontramos passagens inúmeras nas suas cartas e outros escritos e já várias foram aparecendo nos capítulos precedentes. Mas o ponto é importante, por isso apresentemos mais algumas a comprovarem expressamente a doutrina que agora nos ocupa.

A 17.2.39:

A noite foi de grandes sofrimentos para o corpo. Mas esforcei-me o mais que pude por fazer companhia ao meu Jesus Sacramentado. De manhã ainda cedinho caíram sobre mim mais fortemente os sofrimentos da alma. Recebi o meu Jesus ainda para mais sofrer. No meio de toda a miséria com um peso esmagador e uma tristeza profunda, ouvi que Ele me falava assim:

— A força do amor tudo vence, minha jóia. Ai, consentes que Eu passe para ti toda a minha dor, tristeza e o peso com que a gravidade da Humanidade a cada momento trespassa com lanças o meu divino Coração e faz abrir a minha divina Chaga?...

Jesus soluçava e eu disse-lhe:

— Ó meu Jesus, passai para mim tudo. Esmagai a minha alma e o meu corpo. Fazei que ele desapareça esmagado com o peso dos sofrimentos, como se eu o não tivesse, como se eu não existisse.

Então ainda mais sofri: o peso parecia que me esmagava e sentia como que uma lança a atravessar-me de um lado ao outro; mas repetia-se muitas vezes. Voltou Jesus a dizer-me:

— A força do amor tudo vence, quando é amor puro amor elevado, quando é por Mim.

A 24.3.39:

Eu bem desejava mostrar ao meu Padre quanto a minha alma sofre: o que se passa dentro em mim. Sinto que Nosso Senhor é que sofre tudo por mim; só me deixa uma pequena migalha para sofrer. Se assim não fosse, morria de dor. Mas ainda assim, com este nada que sofro, se Jesus me não sustentasse, morria. Não sei exprimir a dor que hoje senti no meu coração no fim de comungar. Espetaram-lhe um punhal: atiraram-se com toda a força sobre ele; ficou o coração cortado de alto abaixo. Que horror, que aflição isto causava! Pobre de mim: não sei sofrer...

Passemos para seis meses depois, a 27.9.39:

Não posso olhar o mundo tal qual ele é; causa-me horror ver como ele está e o que nele se passa. Ele está revoltado contra mim (repare-se nesta como que identificação com Cristo); sinto como se eu tivesse todo o poder sobre ele; mas ele não me teme. Parece que vou em corpo e alma refugiar-me nos Sacrários: vou ser prisioneira com Jesus e naqueles cárceres de amor, num silêncio profundo, sofro o que Jesus havia de sofrer: o abandono, o esquecimento, o ódio e a maldade de toda a Humanidade. Que escola tão sublime! O Mestre é o Santo dos Santos; quanto eu tenho que aprender! Sinto todas as amarguras de Nosso Senhor, mas não sofro como Ele. Jesus sofre em silêncio e eu não sei senão queixar-me; pobre de mim, não sofro caladinha. Quantas vezes me parece que não posso mais: que tenho que deixar de existir...

Advirtamos, uma vez por todas, que era notável o silêncio com que a Alexandrina suportava toda variedade de sofrimentos que Nosso Senhor lhe enviava; ninguém a ouvia queixar-se nunca. Se tanto e tão bem nos diz do seu sofrer, nos seus escritos, não é para desabafo, mas para cumprir um dever que Deus lhe impõe na alma, de se manifestar ao director espiritual, "para que fiquem as lições preciosas" que irradiam de todas essas páginas. Já a este ponto nos referimos anteriormente.

Oiçamo-la a 24.10.39:

Já é meia-noite e eu tão doentinha; mas tenho que cumprir o meu dever que é dar conta da minha consciência; vou ver se o consigo fazer.

A dor não cessa, a luz não aparece: não vejo para onde fugir e é tão grande a necessidade que sinto de me esconder! Só no Coração santíssimo do meu Jesus ou da querida Mãezinha tenho refúgio seguro. Mas sinto-me tão abandonada deles: somos uns desconhecidos! Parece que Eles não sabem que eu existo. Nosso Senhor hoje, mal baixou ao meu coração, principiou a chorar, mas a chorar muito. E dizia-me:

— Choro, choro, porque o mundo me faz chorar. A malícia, a gravidade dos seus crimes, se fosse possível, crucificava-me, fazia-me expirar a cada momento.

Depois, sentia como se Nosso Senhor erguesse a cabeça mais confortado e deixou de chorar e dizia-me:

— Consolo-me, porque ainda encontrei na Terra quem me consolasse e em tudo me pode consolar. Para maior alegria tua, deixa-me dizer-te: não te encontrei, porque sempre te possuí. O teu coração está aberto, a dor fá-lo sangrar. São as setas que aos milhões, a cada momento, se haviam de espetar no meu. Desagrava-me; sofre, que é por Mim.

Nestes momentos a paz e a luz que tenho na minha alma não me podem deixar duvidar: mas é só isso. A dor e a mágoa por ver assim sofrer o meu Jesus faz-me sofrer amargamente. E a minha pobreza é tão grande! Se eu ao menos tivesse que oferecer ao meu Jesus! Eu bem lhe digo que queria todos os corações num braseiro para O amar; mas o meu está gelado e o dos outros não me pertence.

Na carta de 21.6.40, encontramos esta passagem bem frisante:

É esta a minha dor unida à dor que Jesus devia sentir com os males da Humanidade.

Eu não quero que Jesus sofra: quero sofrer eu a dor do seu santíssimo Coração. E Ele aceita: passa tudo para mim.

Ai, o pecado, ai, o pecado que tanto fere a Jesus! É impossível esta dor. Mas não sou eu quem sofro. Jesus esconde-se em mim e é Ele quem sofre. Eu não posso consentir isto: sofro por não saber onde hei de ir esconder Jesus, para O livrar da maldade da Humanidade.

Ai, o meu amado Jesus! Se Ele ainda pudesse morrer, morria milhares de vezes a cada momento e era a dor quem O matava. Mas como não pode, vem sofrer em mim e estou eu a morrer esmagadinha e banhada num mar de dor e de sangue. Não sei explicar a dor da minha alma; só Jesus sabe quanto eu sofro.

A 26.6.40:

Quero o peito aberto e o coração ferido para dar toda a honra e glória e para desagravar o meu divino Jesus de tantas ofensas contra Ele cometidas. Posso dizê-lo: só a força de um Deus sofrendo em mim pode suportar a dor que a maldade da Humanidade causa a Jesus. Sinto a dor que Ele sente através da minha alma.

E sinto a grande necessidade de chorar noite e dia lágrimas de sincera dor e arrependimento. Sinto que tantos as deviam chorar e não choram. Sinto a dureza e ingratidão de tantos corações. Sinto que o mundo se alastrou ou invadiu num só crime. Sinto que Jesus não pode suportá-lo mais.

Sinto que Ele tem de castigar com todo o rigor da sua divina Justiça. Sinto que a minha maldade ultrapassa tudo isto.

O que eu sou? Que horrores de crimes vejo em mim! Que pena eu tenho de ofender a Jesus. Que desejos eu tenho de nascer agora, para viver só para O amar!

Ontem de tarde senti tantas, tantas ânsias de amor, tantos desejos do Céu! De repente levantei voo e foi na Pátria celeste que eu fui descansar: não era da Terra, era do Céu. Batia as asinhas à volta de Jesus e de toda a Santíssima Trindade e da Mãezinha querida; cobria-os de carícias: era para Eles todo o meu amor,.. De repente, já sem asas para voar, caí à terra na maior frieza envolvida em gelo, cercada de dor e de espinhos.

Que feliz vida se eu vivesse como Jesus quer; mas ai, pobre de mim, não sei sofrer!

Lemos a 16.7.40:

Hoje houve uma transformação grande dentro de mim, ainda mesmo sem O ter recebido.

Enquanto a Deolinda foi à Igreja buscar uma sobrepeliz, estava Jesus no meu quarto em cima da mesinha. Não O via, porque Ele estava encerrado (dentro da píxide), mas sabia que Ele estava ali. O meu coração tinha ânsias dele, ânsias de O devorar. A custo me contive sem me atirar para Ele. A noite da minha alma transformou-se num sol claro: estava inundada e a alma e o corpo pareciam estar em cima de fortes chamas.

De repente sentia e ouvia que Ele chorava, mas ainda em cima da mesinha. O coração e a alma encheram-se de profunda dor e cobriram-se de luto.

Passados alguns minutos baixou Ele a mim: transformou-me por completo, deixando-me em luz, paz e enlevo; mas só por alguns rápidos momentos. Voltei à dor e às trevas bem intensas e dor bem dolorosa. E de novo senti que Jesus chorava e dizia-me:

— Chora comigo, minha filha; as minhas lágrimas, a minha dor e a agonia do meu Coração é o que Eu mais dou às minhas esposas. Chora, chora, para que o teu Jesus não tenha que chorar a perda eterna das almas.

A 8.11.40, ao começar a Paixão, diz-lhe Jesus:

Avante, minha filha, o amor vence, o amor triunfa na dor. O Calvário e a Cruz remiram o mundo: foi a chave que abriu as portas do Paraíso.

A tua crucifixão continua a ser a salvação e a paz da Humanidade. Eu sei, minha amada, que não me podes ver sofrer. Vem então com coragem: deixa-te crucificar, para curares a chaga tão dolorosa do meu divino Coração. Coragem: tens o teu Jesus com a tua Mãezinha querida, louca de amor pela esposa de Cristo Crucificado.

 

Sublinhámos esta última cláusula, "esposa de Cristo Crucificado", para desde agora notarmos a consumada união em que ela vivia já. Mais tarde voltaremos mais de propósito a este assunto.

Dolorida é a carta de l0.4.40:

Na verdade o nosso Jesus nunca falta àquilo que promete: ontem fiquei na dor e na alegria (fora esta a promessa); o tempo dava para tudo… Neste estado variante adormeci.

Ao acordar, já não era a mesma: estava coberta de luto e tristeza, esmagada, mas tão esmagada pela dor, que durante o dia me senti sempre como se tivesse o coração aberto: aberto e todo chagado, ensopado em sangue.

Também assim estava o de Nosso Senhor. Logo que O recebi, sentia-o chorando, abraçado ao meu coração e dizia-me com voz dolorida e agonizante:

— Minha filha, minha filha, ando à procura de amor para ser amado e à busca de corações para Mim e não os encontro. Até aqueles de quem Eu tudo esperava, me esqueceram e desprezaram. À busca de quem hei de ir Eu agora? É por isso que o meu Coração está triste e cheio de dor.

— Contai comigo, meu Jesus, eu estou pronta para sofrer e para amar-vos. É com a minha dor e com o meu amor que eu vos hei de fazer amado. Esquecei os desprezos, as ofensas e os esquecimentos de todos. Olhai para mim: lembrai-Vos de que nem um só momento quero deixar de estar imolada, para que venha a nós o vosso Reino e para que todas as almas vão ao encontro do vosso Coração divino, ao vosso Coração de amor, ao vosso Coração de Pai.

Vê, meu Jesus, vê, meu Amado, que de boa vontade me deixo ferir por Ti. O meu coração está aberto, está em sangue, mas ainda tem vida, ainda conserva nele as ânsias devoradoras do teu amor. Amor, Jesus, amor, só o teu amor! Basta-me, satisfaz-me, nada mais quero. Com ele venço a dor, com a dor hei de aplacar, hei de sustentar a Justiça do teu Pai. Sê comigo, ó meu Amado, e eu nada temo.

Ai, meu Padre, sinto-me aniquilada, reduzida ao nada e entregue à força da corrente. Mergulho aqui, para aparecer além, mas não há quem me salve. Mas eu quero bradar bem ao mundo: é com toda a alegria que eu abraço todo este martírio de dor, porque sinto que não há nada melhor para nos unir a Jesus como é a dor. Sinto que a dor tem laços, fortes cadeias de oiro que me prendem ao Coração divino do meu Esposo, do meu Jesus.

E agora mais este trecho de eloquência inexcedível, uns quatro meses depois, a 27.8.40:

Sinto a grande necessidade de mortificar o meu corpo, de fazer penitência. Já há dias que me custa resistir à necessidade que tenho de o fazer. Não sou eu que o quero, mas é Jesus que precisa que O desagrave, que de alguma maneira se repare tanta maldade. É preciso consolá-lo e suavizar a dor do seu divino Coração que Ele continuamente me faz sentir.

Não se pode explicar: Jesus não pode com mais dor e amargura.

Eu ontem tinha tantos desejos de com minhas próprias mãos martirizar o meu corpo! O peso oprimia-me, aniquilava-me; a dor era dolorosa e penetrante. Eu estava desconsoladíssima, em completo abandono, longe, muito longe de Jesus, sem jamais me poder juntar a Ele. A dor que eu sentia era viva, era aguda, mas não era minha, era dele, do amantíssimo Jesus. Eu sem poder suportar mais a dor do meu Amado, queria amá-lo, queria sarar-lhe as feridas que tanto O fazem sofrer.

Como não encontro nada, nada que lhe possa dar, para satisfazer os meus desejos, sinto quase como uma obrigação de eu própria me ferir e martirizar. Se o meu Padre me desse licença para isso!... Eu queria rasgar e desfazer em migalhinhas todo o meu corpo, eu queria ser moída como um grãozinho de trigo, esmagada como as areias da estrada, espremida como o cachinho da uva, só para consolar Jesus e dar-lhe prova do meu amor.

É preciso consolá-lo, é preciso fazer penitência, para O desagravar. Eu não sei mais o que hei de fazer: parece-me que não posso resistir sem fazer tudo isto, para que Ele não seja ofendido.

Esta manhã ao recebê-lo, senti um bocadinho de alívio, na minha alma. Rasgaram-se as negras nuvens para aparecerem uns raiozinhos de luz. Pouco depois fiquei numa dolorosa e tremenda desolação. Mais uns momentos, fez-se noite e avivou-se a dor. E Jesus chorando, dizia:

— Chora, chora, chora, minha filha, com o teu Jesus. São precisas lágrimas de dor, lágrimas de sangue para lavarem o mundo, os corações e as almas. O mundo ofende-me muito: a minha dor é imensa. Eu sofro milhões e milhões de vezes mais, do que a dor que te faço sentir. Tu sofres muito, meu anjo, sofres a mais não poder sofrer; mas sou Eu que sofro em ti. Tu sofres, mas Eu revesti-Me do teu corpo, para poderes caminhar com a tua cruz e subires o teu calvário. Vences, com a força divina.

Pede orações e penitência e diz ao teu Padre que peça também penitência contínua e oração sem cessar.

— Ó meu Jesus, não me poupeis as lágrimas, sejam de sangue, sejam de dor, seja o sofrimento que vos aprouver; mas quero chorar sozinha: não posso consentir que sofra mais o vosso divino Coração.

Basta, Jesus, basta, basta de sofrimento para Vós. Já destes por nós todo o sangue e toda a prova do vosso divino amor. Quero sofrer agora continuamente para salvar-vos as almas.

Após a Paixão, de 17.1.41, dizia ela a Nosso Senhor:

Ó Jesus, fazemos este contrato: crucificai-me todos os dias até o fim do mundo, e não deixeis cair nenhuma alma no inferno.

Anos depois, a 2.5.47, há de Jesus afirmar-lhe:

Minha filha, minha filha, a vítima não pode sair um momento da sua imolação e sacrifício. És a minha maior vítima, a minha vítima mais amada: não podes ser libertada do teu martírio, porque o mundo não deixa de pecar.

   

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