Apagou-se a minha
vida. Se nela houve luz, não a cheguei a ver. A piedade, a perfeição, o amor de
Jesus, ó meu Deus, nunca, nunca foi para mim. Venço, se Jesus vencer. Não caio
no desespero, se Ele velar por mim. Que pavor, que pavor me causa todo o meu
viver, a minha vida sem vida, a minha vida morta.
Pobrezinha,
desfalecida, caí. Não tenho forças, não posso levantar-me. Se Jesus o fizer, se
Ele caminhar por mim, se Ele operar tudo em mim será para Ele o que a Ele
pertence.
― Fala, coração
sequioso. Fala, coração faminto, fala, coração abrasado. Fala no teu silêncio.
Mostra-te no escondimento. Diz o que sentes. Mostra o que possuis. Distribui
tudo aquilo de que estás a transbordar. Vai, louquinho, dá-te ao mundo. Vai,
louquinho, buscar o mundo e condu-lo a Jesus. Meu Deus, meu Jesus, que
infinidade de coisas, e a minha ignorância e morte nada dizem. Tudo finda no
silêncio mortal.
Oh, eternidade e
inutilidade, vós que me roubais, como comparecer na eternidade? Sem nada, nada
para viver a eternidade.
São tantos e tão
profundos os espinhos que me ferem. São tantas e tão maldosas as mãos a
cravarem-mos. Se Jesus pudesse ser o recebedor de tanta dor, mas logo a
inutilidade lhe veio chupar todo o suco à saída da prensa. Nada chego a ver que
possa oferecer ao meu Senhor. Quase nada posso orar, nem invocar o Céu em meu
socorro. Creio, espero! Vivo da esperança, mas sempre numa mentira constante.
Recordo tanto e
com tanta dor a data que estou a passar de há tantos anos em que Jesus me pedia
todo o meu corpo para ser crucificada. E eu, sem atingir o Seu fim, sem sonhar
tão pouco o que vinha a ser, a tudo Lhe disse que sim. Terei sido fiel a este
sim? Temo e tremo apavorada. Os meus castelos, as minhas muralhas cercaram os
abismos da minha cavação. É de morrer de pavor, é de morrer de cansaço, tal é a
firmeza no instrumento de cavar, tais os suores da minha alma. Ai, meu Deus, eu
não quero saber o que é. Só quero a Vossa divina vontade. Que importa o
sentimento de me mentir a mim mesma e de mentir a todos, se eu, num abandono
total a Vós, vou para onde me levais? Creio, creio sempre, ainda que ao mesmo
tempo outra voz, outra vontade, digam ao mesmo tempo: não creio, não creio! É
assim que agora vivo o meu horto, o meu calvário. Até aqueles sentimentos de
Jesus me falharam. Que prisão cercada a ferro por todos os lados!... Nunca chega
ao Padre Eterno um brado meu!... Num tormento, numa agonia inaudita, no maior
abandono da terra e do Céu, encontrei-me sozinha no cimo da montanha. Repetia o
meu “creio” com actos de fé e de esperança, mas em vão. Nada chegava ao Céu.
Tudo era uma pura mentira. Jesus demorou muito tempo a vir. Quase estava
convencida de que a perda d’Ele e da Mãezinha era uma pura realidade.
Creio, creio,
Jesus, dizia eu, caída no meio dum bosque e das trevas mais pavorosas. Demorou,
mas veio. Sem fazer luz na minha cegueira, levantou-me com cuidado, com doçura:
― “Levanta-te,
minha filha. Quem te dá a mão é Jesus, o Jesus de quem és a pupila dos Seus
olhos. Vem, vem, minha filha, depositária, cofre das minhas riquezas, porta-voz
dos meus desejos. Falo pelos teus lábios. Digo as minhas ansiedades, desabafo as
minhas mágoas. Estou cansado, estou cansado de sustentar o braço da justiça
irada de meu Pai. Coragem, coragem, vítima forte, escora da mão vingadora.
Repara, repara!”
Desapareceu o meu
Jesus. Deixaram de O ver os olhos da minha alma. De repente, apareceu a Mãezinha
das Dores. Trazia em Seus braços Jesus morto. Colocou-O no meu regaço,
acariciou-me ligeiramente e sentou-se ao meu lado. Os meus olhos não deixaram
mais de contemplar a Jesus, enquanto eu ouvia o que a Mãezinha dizia:
― “Aceita, minha
filha, à minha semelhança no calvário! A mim foi-me dado Jesus morto pela
humanidade. A ti dou-te a humanidade morta pelo pecado, mas está nela sempre
Jesus. Vê-O em todas as almas, contempla-O em todos os pecadores, contempla-O na
humanidade inteira. Aceita as minhas setas, aceita os meus espinhos. Sofre,
filha, sofre; tem coragem. Eu não te abandono com o teu Jesus. És a predilecta
do Céu.”
― Ó Mãezinha, ó
Mãezinha, valei-me, tudo me falha. Quero consolar-Vos e dar a Jesus todas as
almas.
Ela, sem um
sorriso, sem uma carícia, desapareceu, assim como Jesus morto. Fiquei na maior
angústia, a repetir o meu “creio” e o meu “confio”. Apareceu Jesus novamente,
mas com vida. Deu-me luz com raios da Sua luz e disse-me em tom severo:
― “Minha filha,
quero dar a paz, mas os homens, os pecadores, o mundo, repelem a paz. Quero dar
o meu amor, e não é aceite esse amor. Os bailes, os bailes, as praias, as modas,
as modas indecentes, cinemas, teatros e casinos, tudo excita ao prazer, à carne,
á carne, à luxúria. Que incêndio, que incêndio, minha filha. O teu martírio
atingiu todo o auge, porque os vícios, crimes hediondos o atingiram também.
Jamais terás
consolação nesta vida, nem luz que te satisfaça. Coragem, coragem. Repete o teu
“creio”. As almas, as almas, são tuas as almas.
Recebe a gota do
meu Divino Sangue. É a vida que te faz viver. Tu não tens vida da terra, porque
já não és da terra. Não sentes a vida do Céu, porque sou Eu quem vive em ti.
Confia, confia, farol do mundo e porta-voz celestial. Como são grandes as coisas
divinas operadas na tua vida.”
Jesus uniu o Seu
Divino Coração ao meu, fez passar a gota do Seu Sangue, fez-me ouvir o que acima
fica dito, fugiu-me sem que eu fizesse os meus pedidos. Não deixei de Lhos fazer
e de Lhe dizer o meu eterno obrigada para Ele e para a Mãezinha. Ó meu Deus,
como fiquei a sofrer!
Parece que perdi
o sentimento da dor. Não sei como possa ser, sofrendo eu tanto, tanto, tanto que
só à luz da eternidade se saberá e perder-se o sofrimento de tanto sofrer!...
Nem ao menos o sentimento da dor é meu. Meu Deus, que pobrezinha sem igual!
Perder tudo, tudo o que é do Céu! Perder todas as amizades e tudo o que é da
terra, até a dor, a dor que tanto custa, a dor que tanto amava! Nem ao menos
isto posso oferecer a Jesus! Que dias, que horas amargas e difíceis de viver! No
meio de tão grande martírio, oferecê-lo a Jesus é o mesmo que estar-Lhe a
mentir. É oferecer-Lhe uma coisa que não me pertence. Nesta perda total da terra
e do Céu, nesta trevas pavorosas com tal cegueira, sem nunca ter visto nem nunca
mais poder ver, sem eu querer, é uma luta tremenda, dolorosa. Haverá Céu?! Não
há Céu?! Não existe a eternidade?! Para que serve a vida, esta vida sofredora?
Querendo estreitar ao meu peito o crucifixo, não tenho amor para o abraçar!
Falta-me a fé para crer, mas teimosa vou repetindo: creio, creio, creio, Jesus,
e amo-Vos sem olhar ao sentimento da mentira.
Na noite de sete
para oito, estive à vela. Não pude dormir. Depois das duas horas, porque não
tive força nem disposição para ser antes, principiei a dar os parabéns à
Mãezinha. Oh, que pobreza! Nada tinha para Lhe dar! Não Lhe sabia falar!
Renovei-Lhe a oferta de todo o meu ser. Foi uma consagração completa.
Ofereci-Lhe os corações e almas de toda a humanidade, para que Ela, em meu nome,
pudesse dizer à Santíssima Trindade e a todos os meus Amores, como eu lhes
chamo, que todos aqueles corações Os amavam e nenhuma daquelas almas se
perderiam. Em seguida, disse:
― Mãezinha,
queria merecer tanto, tanto, neste dia, que pudesse arrancar do purgatório todas
as almas, para que elas ainda hoje pudessem subir ao Céu, dar-Vos toda a glória
e amor e compartilhar de toda a festa. Aceitai-me o sacrifício de não receber a
Jesus, se porventura me não aparecer um sacerdote que mo possa dar.
Estes desejos,
estas ofertas não foram minhas e eis-me todo o dia a lutar com uma perda
indizível por não receber a Jesus, a sentir d’Ele uma fome insuportável e a
recordar tanto ao vivo o pedido de há 21 anos: o meu corpo, todo o meu corpo
para ser crucificada! Muitas vezes Lhe dei os parabéns, parecendo que não vivia,
que nada Lhe oferecia, porque nada tinha para Lhe dar, nem vida para viver. Se o
meu quarto e o meu corpo pudessem falar, oh, quantas coisas, quantos sofrimentos
podiam mostrar. Com todos os sofrimentos, mais que uma vez repetidos, passei
estes dias. Vivi o horto e o calvário. Meu Deus, meu Deus, como tudo isto foi
doloroso e tremendo. Com falta de fé e sentimento e a perda do sentimento da
dor, subi a montanha. Não fui capaz de, no meu íntimo, com o coração e a alma,
repetir o meu “creio” e um acto de amor. Com o pensamento queria dizer: creio,
creio, meu Jesus; mas era uma coisa tão vaga que não chegava ao Céu. O que vem
da superfície nada vale. Eu tinha necessidade de o dizer do íntimo, mas não fui
capaz de o fazer, tal era o meu desfalecimento.
Depois de muita
demora, veio Jesus. Parecia não vir mais. Que tremenda separação! Veio, mas não
trouxe luz. Mas levantou-me e falou-me com doçura e com amor:
― “Minha filha e
esposa querida, sou Jesus, sou Jesus, sou Jesus. Levanta-te, tem coragem! Vem
para Mim. Já sabes que é todo teu o meu amor, todo o teu e meu coração com todos
os tesouros e graças, para tudo distribuíres. Sentimentos simbólicos,
sentimentos divinos, são os teus, minha filha. O teu afastamento de Mim é o
afastamento das almas. Como é que elas podem dizer-me que crêem em mim, pecando
como se Eu não existisse?! Como é que elas podem dizer-me que me amam, no meio
dos seus pecados, no meio dos seus vícios, renovando, dia e noite, a minha
sagrada Paixão?!
Sentimentos
simbólicos. Lede e compreendei, mestres das almas. Repete-me o teu “creio”.
Diz-me que me amas, esposa querida. Coragem, coragem! É urgente deitar-te a mão.
A tua vida será sempre esta, porque foi grande, inigualável a tua generosidade.
O mundo peca, minha filha, coragem! Ai o que o espera! O mundo peca! Não me
atende! Que será dele? Não posso mais conter a justiça de meu Pai!”
Neste momento,
desceu o Eterno Pai, desceu severo, desceu em nuvens negras. A mão direita, ao
alto, com a foice vingadora. Na esquerda, uma bola que se desfazia em lume. As
nuvens desfaziam-se em farrapos de fogo também. Era infinito o peso que me
esmagava e o pavor que me atormentava. Jesus não deixou que seu Eterno Pai se
abeirasse bem da terra e d’Ele. Jesus, de mão levantada, dizia-Lhe:
― Parai, meu Pai,
parai! Mais um bocado de espera, mais misericórdia para as almas!
Ó voz terrível, a
do Eterno pai, mas apesar de tudo gostei de ouvir o diálogo entre os dois.
― Não posso, meu
filho, não posso. Não posso ver no mundo tanta maldade. Não posso ver a tua
Paixão e Morte dia e noite renovadas.
Jesus, de mãos ao
alto, abeirava-se mais e mais d’Ele e dizia-Lhe:
― “Tendes razão,
meu Pai, mas ofereço-Vos esta vítima que escolhemos e colocámos neste calvário.
É Vossa filha e minha esposa bem amada. Ela está pronta a, dia e noite, ser
imolada. Afastai-Vos, afastai-Vos. Esperemos mais um pouco, perdoemos,
perdoemos, meu Pai. É nossa esta vítima, e ela ama-Nos. Perdoemos, perdoemos,
esperemos, esperemos, meu Pai.”
Desarmou-se a
justiça do Eterno Pai e foi-se afastando, dizendo:
― “Fala, meu
filho, à nossa vítima, diz-lhe os Nossos desejos, manifesta-lhe a Nossa
vontade.”
Abeirou-se Jesus
mais de mim. Uniu os nossos corações. Ficaram os dois na mesma massa.
― “Recebe a gota
do meu Divino Sangue, a vida que tu vives, a vida que te dá vida para falares às
almas. Fala-lhes, fala-lhes, minha filha. Tem coragem, tende coragem. Tu
espalhas o orvalho celeste, semeias semente divina. É por ti que me dou ao
mundo. Falo Eu pelos teus lábios. Qualquer coisa de desagradável que surja, nada
é em comparação do bem. É o demónio raivoso a querer queimar a semente divina.
Em vão, em vão ele teimará.
Faça-se oração,
faça-se penitência. Principie a Igreja. O que ela tem de corrigir e aperfeiçoar!
As casas religiosas, as casas religiosas, frades e freiras não vivem a vida dos
seus fundadores! Principie a Igreja, principie a Igreja. Haja toda a vigilância
na Igreja. Levante-se o mundo para Mim. Coragem, minha filha. Repara meu Eterno
Pai. Consola o meu Divino coração e o da minha Bendita Mãe. Nós estamos sempre
contigo. Repete o teu “creio”.
Fugiu-me Jesus.
Na Sua ausência ainda Lhe disse:
― Fazei de mim o
que Vos aprouver. Lembro-Vos os meus pedidos. Perdoai ao mundo, perdoai sempre.
Na dor mortal e trevas pavorosas, fiquei a repetir o meu “creio”.
Não sei como, não
sei se aguentarei a minha vida tão dolorosa e triste. Eu não quero duvidar da
protecção do Céu, porque nunca, nunca, nas horas mais amargas e difíceis me
faltou o conforto, mas agora, meu Deus, perdoai-me, agora, que tenho a tentação
tão viva, tão viva de a eternidade não existir, receio vacilar. É uma luta eu
repetir o meu “creio”, é uma luta o pensar que o Céu me espera, é uma luta
recordar todas as verdades, porque no meu sentir tudo é uma mentira. Minto-me a
mim e aos outros, é falso, falso todo o meu viver. Como triunfar, Senhor? Mesmo
no sentimento da mentira hei-de acreditar e confiar. Espero, espero em Vós!
Parece-me que, de cada vez, o meu coração se torna mais sensível à dor e a todas
as coisas que surgem. Eu não devia sofrer pelas calúnias que de mim dizem, como
podem acreditar os outros quando eu em nada acredito. Não devia sofrer com as
dúvidas que têm de mim, pois se eu mesma as tenho todas, todas!
― Ó Jesus, ó
Mãezinha, só Vós me podeis valer. No meio dos meus desânimos, como são profundos
os espinhos que me ferem! Todas as coisas me ficam presentes, como se eu as
quisesse ver e recordar. Ó Jesus, só Vós sabeis compreender. Perdoai-me todos os
meus desfalecimentos; mesmo sem eu querer, recordo-os.
Nasci para a dor;
não nasci para mais nada. Quantos segredinhos ocultos, quantas coisas eu não
esclareço. O Céu, o Céu tem a visão de tudo. Na minha grande inutilidade, não
deixo de oferecer aos meus queridos Amores, causa da minha loucura e para a
salvação das almas.
― Oh, se o meu
coração falasse, se o meu livro estivesse aberto, nunca, nunca na terra seria
terminada a leitura. Que virá mais, Jesus? E quando chegará o meu Céu tão
imerecido?
Parece que não
posso esperar, não posso esperar mais, não posso sofrer mais. Está pronta a
vontade, sempre pronta a dar-se ao Senhor, mas a natureza apavorada não pode,
não pode mais. Todos, todos os sofrimentos se vão repetindo em mim. A visão do
mundo, a visão das almas causam-me dor infinita. Meu Deus, sou a Vossa vítima.
Por não poder,
resumo assim o que se passou em minha alma dou já entrada ao Horto e ao Calvário
que eu vivi numa amargura indizível. Sempre a ser a mesma massa da terra, sempre
a sentir os meus nervos a desconjuntarem-se e mais ainda uma coisa semelhante,
que sofria há anos, a ser comida, lentamente, com a diferença: há anos era o
corpo a ser devorado por todos os bichos e aves, e agora é a alma. Custa mais,
ainda mais. Meu Deus, meu Deus! Neste sofrimento, nunca fui capaz de repetir o
meu “creio”, nem de me recordar de o repetir, tal era o meu martírio.
Por o senhor
Abade não estar, estava há quatro dias sem receber Jesus. Perdi tudo e não
aguentava a fome de Jesus. Depois de três horas, não sei quantos minutos, Ele
veio, deu um pouco de luz à sala do meu peito, levantou-me e docemente me
chamou:
― “Vem, minha
filha, vem, minha filha. Coragem, tem coragem. É o auge da tua dor, para o auge
dos vícios. Jesus espreme-te em toda a variedade de prensas para toda a
variedade de pecados. Coragem, coragem. Vais-Me agora receber. Tenho tirado mais
proveito para as almas das tuas ânsias, da tua pena por não Me receberes, das
tuas comunhões espirituais do que se me recebesses sacramentalmente. Confia!
Jesus não mente.”
― Ó Jesus, não
tive a pena verdadeira. Parece que as minhas lágrimas de saudade não foram
verdadeiras. Não sei como vivi. Perdoai-me, perdoai-me.
― “Tu és louca,
tu és louca, a louca da Eucaristia, a louca das almas. Oh, como és louca! Como a
tua loucura alegra o meu Divino coração e o de minha Bendita Mãe, e vai
reparando a justiça de meu Pai.”
Nesta ocasião,
Jesus desapareceu. Abriu-se uma ala de anjos do Céu para o meu quarto. Eles eram
tantos que estavam dispostos em duas alas. Do Céu uniam-se e vinham-se
separando, formando cá em baixo a largura duma estrada. Batiam todos as suas
asinhas brancas e alguns tocavam instrumentos harmoniosos. Por essa estrada
entraram três anjos em tamanho natural. O do meio trazia a píxide com Jesus. Os
dos lados traziam nas mãos de fora uma vela e as mãos do lado de dentro
apanhavam o manto do que conduzia Jesus. Com as palavras que o sacerdote costuma
pronunciar ele deu-me a Sagrada Hóstia, e foram recuando até que desapareceram.
Os que estavam nas alas tocavam e cantavam:
Glória a Deus na terra e no Céu!
Glória a Deus, nosso Rei e Senhor!
Glória, glória, glória a Deus,
amor, amor, todo o amor!
Calvário de prodígios, calvário de dor,
calvário de glória e reparação ao Senhor
Glória, glória, glória a Deus,
amor, amor, todo o amor.
Todos
desapareceram, deixando de se ouvir ao longe as vozes e sons celestes.
Abeirou-se Jesus novamente de mim, introduziu-me no coração o tubo e fez passar
a gota do Seu Sangue, lentamente:
― “Recebe vida,
mais vida, minha filha. Recebe conforto para todo o estrago da dor. Vives a
minha vida, vives só de mim. Tem coragem. Não te ofereceste tu a Mim por tudo e
por todos? És a vítima reparadora de todos os crimes e de toda a variedade de
coisas. Fala às almas, porque para elas pelo Céu foste escolhida. É a mais
difícil, mas a mais sublime missão. Eu estou contigo. Falo pelos teus lábios. O
Divino Espírito Santo em tudo te instrui e ilumina. És amparada por minha
Bendita Mãe.
Fala ao mundo.
Pede-lhe a sua conversão. Sofre, sustenta o braço de meu Pai. Avisa o mundo do
que o espera. Coragem, coragem!”
Desapareceu
rapidamente. Fiz-Lhe os meus pedidos, repeti-Lhe muitas vezes o meu “creio” e
com a alma mais forte não podia queixar-me de que O não tinha recebido. Voltei à
dor, a muita dor, mas mais confortada para a suportar.
Como será a minha
eternidade? Meu Deus, será esta que eu vivo? Longe, afastada de Deus, sem pensar
em Deus e duvidosa até da Sua existência? Que tormento é o meu! Que vida sem
nenhuma vida! Sofrimento sem mérito, vida sem existência e sem valor. Em tudo,
em todas as coisas vejo a Deus e louvo a Deus em tudo e em todas as coisas.
Duvido de Deus, afasto-me de Deus e perco a Deus. Aconselho o bem, mas dentro de
mim é uma luta a mentir-me com o sentimento de que minto a toda a gente.
Jesus, na sua
infinita misericórdia, é tão bom, porque no meio desta grande luta e martírio
concede-me a grande graça da paz muito vivida no íntimo do coração e da alma,
embora esta paz não seja minha, não seja para mim, porque não vivo e nada tenho.
Ai, a perda de Jesus e da Mãezinha! Ai, a minha vida apagada e morta de tal
forma como se eu nunca tivera vida. Digo a Jesus que quero dar-me a Ele,
desaparecer como a cera derretida!... Mas como, Senhor, se eu não sou eu para me
dar, se eu nunca existi, como posso desaparecer?
― Bendito sejais,
meu Jesus, na Vossa sabedoria infinita.
Quero almas,
almas, almas! São elas a minha loucura, porque enlouqueci por Jesus. Meu Deus,
nem almas nem a Vós!... Nada tenho, nada tenho!... Sem vida, morro com a visão
do mundo. Que nojo, que pejo! O rosto volta-se em contrário, porque os olhos não
podem contemplá-lo. O coração vai para ele, porque o quer, porque o ama, porque
só a ele pertence. Se viesse alguém consolar este coração ansioso, se viesse
alguém colocar à frente deste olhos voltados para trás a mostrar-lhe uma vida
melhor, uma vida de pureza para assim poder ser sempre contemplado!
― Jesus, Jesus,
sou a Vossa vítima! Nada mais sei nem posso dizer-Vos.
A inutilidade, a
inutilidade traiçoeira rouba-me as ânsias e o amor, rouba-me as fadigas, cansaço
e suores da minha cavação no mais profundo dos abismos sob mundos e mais mundos.
A inutilidade traiçoeira, traiçoeira, rouba-me o pavor causado pelos castelos,
muralhas e prensas de ferro. Não posso recorrer ao Céu; nem de lá nem da terra
me vem conforto.
Acabou o prazo em
que eu vivia nas dúvidas de receber Jesus. Nesta semana, só um dia me falhou a
visita do meu Jesus, mas nesse dia não soube sentir a dor profunda por não O
receber, apesar de ter muitas, muitas saudades d’Ele, muita, muita fome d’Ele.
Só depois de passar o dia é que eu sofri a dor que devia sofrer no dia em que O
não recebi.
― Ó Jesus, tantos
espinhos e tantas lágrimas recebidas e derramadas por Vosso amor. Eu só queria
saber sofrer. Eu só quero viver para Vós.
Na minha vida do
horto e do calvário, sofri o que já há muito venho a sofrer. A vida sem Ele, a
vida de esquecimento, a vida da mesma massa da terra e do Céu. Suspiros,
lágrimas, brados de socorro, mas tudo inútil para mim. Queria repetir o meu
“creio” muitas e muitas vezes; umas vezes, porque o esquecia, outras vezes, sem
coragem para o fazer e até presa por unhas de ferro que não me deixavam mover os
lábios nem o coração para repetir: creio, creio, Jesus! Algum tempo antes das
três horas, talvez uma hora, foi a minha alma comida por toda a variedade de
animais. E, como se ela tivesse veias, elas rasgavam-nas e chupavam todo, todo o
sangue. Dor e tormento infinitos, dor que não sei exprimir, tormento que a minha
ignorância não me deixa explicar. Nesta angústia, veio Jesus. Chamou-me, e o seu
brado vinha cheio de doçura.
― “Minha filha,
minha filha, Jesus não é amado, o Senhor não é servido. Jesus não é amado, o
Senhor não é servido. As almas não amam o meu Divino Coração; o mundo não serve
o seu Deus. Ama-se a si, serve a Satanás. Minha filha, minha filha, tu foste
escolhida por mim, escolhida pelo Céu. A tua vida é a minha Paixão contínua.
Escolhi-te, o Céu escolheu-te para a Mim te assemelhares. A tua paixão é a
paixão mística, mas de tal forma que nela encerra toda a minha santa Paixão. Eu
venho neste dia, nesta hora, porque foi o meu dia, a minha hora. A tua vida está
ligada à vida de Deus. É uma ligação: a vida da terra é a vida do Céu. Vem,
minha filha, vem, descansa aqui no meu regaço.”
Sentada à borda
estrada, inclinei, pousei a minha cabeça sobre os joelhos de Jesus, e então uma
pomba branca esvoaçava sobre a minha cabeça, sobre os meus ombros, e as mesmas
veias nos ligavam e uniam a todos.
― “Minha filha, é
o Divino Espírito Santo a dar-se em ti para falar em ti. É a vida do Céu que nos
une; é com a sabedoria do Céu que tu falas às almas, para quem foste escolhida.
A minha Paixão foi para dar a vida à humanidade e lhe abrir o Céu. A tua paixão,
à minha semelhança, ressuscita as almas mortas pelo pecado, abre-lhes o Céu que
os seus crimes fecharam. Fala-lhes, fala-lhes, minha filha: é por bem pouco
tempo. O Céu te espera. Eu movo os teus lábios.”
― Ó Jesus, quero
obedecer-Vos a Vós e aos homens. Não sei como fazer a vontade ao Vosso Divino
Coração e fazer àqueles que me governam.
― “Obedece,
obedece, minha filha, mas Eu quero, Eu quero. Fala às almas, fala às almas!
Recebe a gota do meu Divino Sangue. Recebe a gota mais abundante, porque a dor
muito em ti consumiu. Fala às almas, heroína forte. Dá-lhes a minha vida divina.
Incendeia-as no meu amor.
Vigilância,
vigilância na Igreja. Vigilância, o Chefe, os Chefes da Igreja. A Igreja, a
Igreja, principie a Igreja! A Igreja, a Igreja! Oh! Que dor para o meu Divino
Coração e para o Coração Imaculado da minha Bendita Mãe! Vigilância, vigilância,
o Chefe da Nação. Que veneno, que veneno, que traição! Penitência, penitência e
oração! Vida nova para o mundo, vida nova para Deus.
Coragem, ó alma
forte, ó alma heroína, ó farol e luz brilhante da humanidade. Coragem, alma
forte, alma falada no Evangelho e na Santa Igreja através dos tempos Jesus não
mente. É Jesus a afirmá-lo.”
― Jesus, bendito
sejais. Eu sou pequenina, eu sou nada. Manejai este nada a favor da humanidade.
Atendei aos pedidos da mais indigna das Vossa filhas. Creio, creio! Espero e
tenho confiança em Vós.
Tudo isto pedi e
repeti sem a visão de Jesus. Ele desapareceu. Eu fiquei na cruz. |