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Alexandrina Maria da Costa

SENTIMENTOS DA ALMA

SETEMBRO 1954

3 de Setembro de 1954 – Primeira sexta-feira

Apagou-se a minha vida. Se nela houve luz, não a cheguei a ver. A piedade, a perfeição, o amor de Jesus, ó meu Deus, nunca, nunca foi para mim. Venço, se Jesus vencer. Não caio no desespero, se Ele velar por mim. Que pavor, que pavor me causa todo o meu viver, a minha vida sem vida, a minha vida morta.

Pobrezinha, desfalecida, caí. Não tenho forças, não posso levantar-me. Se Jesus o fizer, se Ele caminhar por mim, se Ele operar tudo em mim será para Ele o que a Ele pertence.

― Fala, coração sequioso. Fala, coração faminto, fala, coração abrasado. Fala no teu silêncio. Mostra-te no escondimento. Diz o que sentes. Mostra o que possuis. Distribui tudo aquilo de que estás a transbordar. Vai, louquinho, dá-te ao mundo. Vai, louquinho, buscar o mundo e condu-lo a Jesus. Meu Deus, meu Jesus, que infinidade de coisas, e a minha ignorância e morte nada dizem. Tudo finda no silêncio mortal.

Oh, eternidade e inutilidade, vós que me roubais, como comparecer na eternidade? Sem nada, nada para viver a eternidade.

São tantos e tão profundos os espinhos que me ferem. São tantas e tão maldosas as mãos a cravarem-mos. Se Jesus pudesse ser o recebedor de tanta dor, mas logo a inutilidade lhe veio chupar todo o suco à saída da prensa. Nada chego a ver que possa oferecer ao meu Senhor. Quase nada posso orar, nem invocar o Céu em meu socorro. Creio, espero! Vivo da esperança, mas sempre numa mentira constante.

Recordo tanto e com tanta dor a data que estou a passar de há tantos anos em que Jesus me pedia todo o meu corpo para ser crucificada. E eu, sem atingir o Seu fim, sem sonhar tão pouco o que vinha a ser, a tudo Lhe disse que sim. Terei sido fiel a este sim? Temo e tremo apavorada. Os meus castelos, as minhas muralhas cercaram os abismos da minha cavação. É de morrer de pavor, é de morrer de cansaço, tal é a firmeza no instrumento de cavar, tais os suores da minha alma. Ai, meu Deus, eu não quero saber o que é. Só quero a Vossa divina vontade. Que importa o sentimento de me mentir a mim mesma e de mentir a todos, se eu, num abandono total a Vós, vou para onde me levais? Creio, creio sempre, ainda que ao mesmo tempo outra voz, outra vontade, digam ao mesmo tempo: não creio, não creio! É assim que agora vivo o meu horto, o meu calvário. Até aqueles sentimentos de Jesus me falharam. Que prisão cercada a ferro por todos os lados!... Nunca chega ao Padre Eterno um brado meu!... Num tormento, numa agonia inaudita, no maior abandono da terra e do Céu, encontrei-me sozinha no cimo da montanha. Repetia o meu “creio” com actos de fé e de esperança, mas em vão. Nada chegava ao Céu. Tudo era uma pura mentira. Jesus demorou muito tempo a vir. Quase estava convencida de que a perda d’Ele e da Mãezinha era uma pura realidade.

Creio, creio, Jesus, dizia eu, caída no meio dum bosque e das trevas mais pavorosas. Demorou, mas veio. Sem fazer luz na minha cegueira, levantou-me com cuidado, com doçura:

― “Levanta-te, minha filha. Quem te dá a mão é Jesus, o Jesus de quem és a pupila dos Seus olhos. Vem, vem, minha filha, depositária, cofre das minhas riquezas, porta-voz dos meus desejos. Falo pelos teus lábios. Digo as minhas ansiedades, desabafo as minhas mágoas. Estou cansado, estou cansado de sustentar o braço da justiça irada de meu Pai. Coragem, coragem, vítima forte, escora da mão vingadora. Repara, repara!”

Desapareceu o meu Jesus. Deixaram de O ver os olhos da minha alma. De repente, apareceu a Mãezinha das Dores. Trazia em Seus braços Jesus morto. Colocou-O no meu regaço, acariciou-me ligeiramente e sentou-se ao meu lado. Os meus olhos não deixaram mais de contemplar a Jesus, enquanto eu ouvia o que a Mãezinha dizia:

― “Aceita, minha filha, à minha semelhança no calvário! A mim foi-me dado Jesus morto pela humanidade. A ti dou-te a humanidade morta pelo pecado, mas está nela sempre Jesus. Vê-O em todas as almas, contempla-O em todos os pecadores, contempla-O na humanidade inteira. Aceita as minhas setas, aceita os meus espinhos. Sofre, filha, sofre; tem coragem. Eu não te abandono com o teu Jesus. És a predilecta do Céu.”

― Ó Mãezinha, ó Mãezinha, valei-me, tudo me falha. Quero consolar-Vos e dar a Jesus todas as almas.

Ela, sem um sorriso, sem uma carícia, desapareceu, assim como Jesus morto. Fiquei na maior angústia, a repetir o meu “creio” e o meu “confio”. Apareceu Jesus novamente, mas com vida. Deu-me luz com raios da Sua luz e disse-me em tom severo:

― “Minha filha, quero dar a paz, mas os homens, os pecadores, o mundo, repelem a paz. Quero dar o meu amor, e não é aceite esse amor. Os bailes, os bailes, as praias, as modas, as modas indecentes, cinemas, teatros e casinos, tudo excita ao prazer, à carne, á carne, à luxúria. Que incêndio, que incêndio, minha filha. O teu martírio atingiu todo o auge, porque os vícios, crimes hediondos o atingiram também.

Jamais terás consolação nesta vida, nem luz que te satisfaça. Coragem, coragem. Repete o teu “creio”. As almas, as almas, são tuas as almas.

Recebe a gota do meu Divino Sangue. É a vida que te faz viver. Tu não tens vida da terra, porque já não és da terra. Não sentes a vida do Céu, porque sou Eu quem vive em ti. Confia, confia, farol do mundo e porta-voz celestial. Como são grandes as coisas divinas operadas na tua vida.”

Jesus uniu o Seu Divino Coração ao meu, fez passar a gota do Seu Sangue, fez-me ouvir o que acima fica dito, fugiu-me sem que eu fizesse os meus pedidos. Não deixei de Lhos fazer e de Lhe dizer o meu eterno obrigada para Ele e para a Mãezinha. Ó meu Deus, como fiquei a sofrer!

10 de Setembro de 1954 – Sexta-feira

Parece que perdi o sentimento da dor. Não sei como possa ser, sofrendo eu tanto, tanto, tanto que só à luz da eternidade se saberá e perder-se o sofrimento de tanto sofrer!... Nem ao menos o sentimento da dor é meu. Meu Deus, que pobrezinha sem igual! Perder tudo, tudo o que é do Céu! Perder todas as amizades e tudo o que é da terra, até a dor, a dor que tanto custa, a dor que tanto amava! Nem ao menos isto posso oferecer a Jesus! Que dias, que horas amargas e difíceis de viver! No meio de tão grande martírio, oferecê-lo a Jesus é o mesmo que estar-Lhe a mentir. É oferecer-Lhe uma coisa que não me pertence. Nesta perda total da terra e do Céu, nesta trevas pavorosas com tal cegueira, sem nunca ter visto nem nunca mais poder ver, sem eu querer, é uma luta tremenda, dolorosa. Haverá Céu?! Não há Céu?! Não existe a eternidade?! Para que serve a vida, esta vida sofredora? Querendo estreitar ao meu peito o crucifixo, não tenho amor para o abraçar! Falta-me a fé para crer, mas teimosa vou repetindo: creio, creio, creio, Jesus, e amo-Vos sem olhar ao sentimento da mentira.

Na noite de sete para oito, estive à vela. Não pude dormir. Depois das duas horas, porque não tive força nem disposição para ser antes, principiei a dar os parabéns à Mãezinha. Oh, que pobreza! Nada tinha para Lhe dar! Não Lhe sabia falar! Renovei-Lhe a oferta de todo o meu ser. Foi uma consagração completa. Ofereci-Lhe os corações e almas de toda a humanidade, para que Ela, em meu nome, pudesse dizer à Santíssima Trindade e a todos os meus Amores, como eu lhes chamo, que todos aqueles corações Os amavam e nenhuma daquelas almas se perderiam. Em seguida, disse:

― Mãezinha, queria merecer tanto, tanto, neste dia, que pudesse arrancar do purgatório todas as almas, para que elas ainda hoje pudessem subir ao Céu, dar-Vos toda a glória e amor e compartilhar de toda a festa. Aceitai-me o sacrifício de não receber a Jesus, se porventura me não aparecer um sacerdote que mo possa dar.

Estes desejos, estas ofertas não foram minhas e eis-me todo o dia a lutar com uma perda indizível por não receber a Jesus, a sentir d’Ele uma fome insuportável e a recordar tanto ao vivo o pedido de há 21 anos: o meu corpo, todo o meu corpo para ser crucificada! Muitas vezes Lhe dei os parabéns, parecendo que não vivia, que nada Lhe oferecia, porque nada tinha para Lhe dar, nem vida para viver. Se o meu quarto e o meu corpo pudessem falar, oh, quantas coisas, quantos sofrimentos podiam mostrar. Com todos os sofrimentos, mais que uma vez repetidos, passei estes dias. Vivi o horto e o calvário. Meu Deus, meu Deus, como tudo isto foi doloroso e tremendo. Com falta de fé e sentimento e a perda do sentimento da dor, subi a montanha. Não fui capaz de, no meu íntimo, com o coração e a alma, repetir o meu “creio” e um acto de amor. Com o pensamento queria dizer: creio, creio, meu Jesus; mas era uma coisa tão vaga que não chegava ao Céu. O que vem da superfície nada vale. Eu tinha necessidade de o dizer do íntimo, mas não fui capaz de o fazer, tal era o meu desfalecimento.

Depois de muita demora, veio Jesus. Parecia não vir mais. Que tremenda separação! Veio, mas não trouxe luz. Mas levantou-me e falou-me com doçura e com amor:

― “Minha filha e esposa querida, sou Jesus, sou Jesus, sou Jesus. Levanta-te, tem coragem! Vem para Mim. Já sabes que é todo teu o meu amor, todo o teu e meu coração com todos os tesouros e graças, para tudo distribuíres. Sentimentos simbólicos, sentimentos divinos, são os teus, minha filha. O teu afastamento de Mim é o afastamento das almas. Como é que elas podem dizer-me que crêem em mim, pecando como se Eu não existisse?! Como é que elas podem dizer-me que me amam, no meio dos seus pecados, no meio dos seus vícios, renovando, dia e noite, a minha sagrada Paixão?!

Sentimentos simbólicos. Lede e compreendei, mestres das almas. Repete-me o teu “creio”. Diz-me que me amas, esposa querida. Coragem, coragem! É urgente deitar-te a mão. A tua vida será sempre esta, porque foi grande, inigualável a tua generosidade. O mundo peca, minha filha, coragem! Ai o que o espera! O mundo peca! Não me atende! Que será dele? Não posso mais conter a justiça de meu Pai!”

Neste momento, desceu o Eterno Pai, desceu severo, desceu em nuvens negras. A mão direita, ao alto, com a foice vingadora. Na esquerda, uma bola que se desfazia em lume. As nuvens desfaziam-se em farrapos de fogo também. Era infinito o peso que me esmagava e o pavor que me atormentava. Jesus não deixou que seu Eterno Pai se abeirasse bem da terra e d’Ele. Jesus, de mão levantada, dizia-Lhe:

― Parai, meu Pai, parai! Mais um bocado de espera, mais misericórdia para as almas!

Ó voz terrível, a do Eterno pai, mas apesar de tudo gostei de ouvir o diálogo entre os dois.

― Não posso, meu filho, não posso. Não posso ver no mundo tanta maldade. Não posso ver a tua Paixão e Morte dia e noite renovadas.

Jesus, de mãos ao alto, abeirava-se mais e mais d’Ele e dizia-Lhe:

― “Tendes razão, meu Pai, mas ofereço-Vos esta vítima que escolhemos e colocámos neste calvário. É Vossa filha e minha esposa bem amada. Ela está pronta a, dia e noite, ser imolada. Afastai-Vos, afastai-Vos. Esperemos mais um pouco, perdoemos, perdoemos, meu Pai. É nossa esta vítima, e ela ama-Nos. Perdoemos, perdoemos, esperemos, esperemos, meu Pai.”

Desarmou-se a justiça do Eterno Pai e foi-se afastando, dizendo:

― “Fala, meu filho, à nossa vítima, diz-lhe os Nossos desejos, manifesta-lhe a Nossa vontade.”

Abeirou-se Jesus mais de mim. Uniu os nossos corações. Ficaram os dois na mesma massa.

― “Recebe a gota do meu Divino Sangue, a vida que tu vives, a vida que te dá vida para falares às almas. Fala-lhes, fala-lhes, minha filha. Tem coragem, tende coragem. Tu espalhas o orvalho celeste, semeias semente divina. É por ti que me dou ao mundo. Falo Eu pelos teus lábios. Qualquer coisa de desagradável que surja, nada é em comparação do bem. É o demónio raivoso a querer queimar a semente divina. Em vão, em vão ele teimará.

Faça-se oração, faça-se penitência. Principie a Igreja. O que ela tem de corrigir e aperfeiçoar! As casas religiosas, as casas religiosas, frades e freiras não vivem a vida dos seus fundadores! Principie a Igreja, principie a Igreja. Haja toda a vigilância na Igreja. Levante-se o mundo para Mim. Coragem, minha filha. Repara meu Eterno Pai. Consola o meu Divino coração e o da minha Bendita Mãe. Nós estamos sempre contigo. Repete o teu “creio”.

Fugiu-me Jesus. Na Sua ausência ainda Lhe disse:

― Fazei de mim o que Vos aprouver. Lembro-Vos os meus pedidos. Perdoai ao mundo, perdoai sempre. Na dor mortal e trevas pavorosas, fiquei a repetir o meu “creio”.

17 de Setembro de 1954 – Sexta-feira

Não sei como, não sei se aguentarei a minha vida tão dolorosa e triste. Eu não quero duvidar da protecção do Céu, porque nunca, nunca, nas horas mais amargas e difíceis me faltou o conforto, mas agora, meu Deus, perdoai-me, agora, que tenho a tentação tão viva, tão viva de a eternidade não existir, receio vacilar. É uma luta eu repetir o meu “creio”, é uma luta o pensar que o Céu me espera, é uma luta recordar todas as verdades, porque no meu sentir tudo é uma mentira. Minto-me a mim e aos outros, é falso, falso todo o meu viver. Como triunfar, Senhor? Mesmo no sentimento da mentira hei-de acreditar e confiar. Espero, espero em Vós! Parece-me que, de cada vez, o meu coração se torna mais sensível à dor e a todas as coisas que surgem. Eu não devia sofrer pelas calúnias que de mim dizem, como podem acreditar os outros quando eu em nada acredito. Não devia sofrer com as dúvidas que têm de mim, pois se eu mesma as tenho todas, todas!

― Ó Jesus, ó Mãezinha, só Vós me podeis valer. No meio dos meus desânimos, como são profundos os espinhos que me ferem! Todas as coisas me ficam presentes, como se eu as quisesse ver e recordar. Ó Jesus, só Vós sabeis compreender. Perdoai-me todos os meus desfalecimentos; mesmo sem eu querer, recordo-os.

Nasci para a dor; não nasci para mais nada. Quantos segredinhos ocultos, quantas coisas eu não esclareço. O Céu, o Céu tem a visão de tudo. Na minha grande inutilidade, não deixo de oferecer aos meus queridos Amores, causa da minha loucura e para a salvação das almas.

― Oh, se o meu coração falasse, se o meu livro estivesse aberto, nunca, nunca na terra seria terminada a leitura. Que virá mais, Jesus? E quando chegará o meu Céu tão imerecido?

Parece que não posso esperar, não posso esperar mais, não posso sofrer mais. Está pronta a vontade, sempre pronta a dar-se ao Senhor, mas a natureza apavorada não pode, não pode mais. Todos, todos os sofrimentos se vão repetindo em mim. A visão do mundo, a visão das almas causam-me dor infinita. Meu Deus, sou a Vossa vítima.

Por não poder, resumo assim o que se passou em minha alma dou já entrada ao Horto e ao Calvário que eu vivi numa amargura indizível. Sempre a ser a mesma massa da terra, sempre a sentir os meus nervos a desconjuntarem-se e mais ainda uma coisa semelhante, que sofria há anos, a ser comida, lentamente, com a diferença: há anos era o corpo a ser devorado por todos os bichos e aves, e agora é a alma. Custa mais, ainda mais. Meu Deus, meu Deus! Neste sofrimento, nunca fui capaz de repetir o meu “creio”, nem de me recordar de o repetir, tal era o meu martírio.

Por o senhor Abade não estar, estava há quatro dias sem receber Jesus. Perdi tudo e não aguentava a fome de Jesus. Depois de três horas, não sei quantos minutos, Ele veio, deu um pouco de luz à sala do meu peito, levantou-me e docemente me chamou:

― “Vem, minha filha, vem, minha filha. Coragem, tem coragem. É o auge da tua dor, para o auge dos vícios. Jesus espreme-te em toda a variedade de prensas para toda a variedade de pecados. Coragem, coragem. Vais-Me agora receber. Tenho tirado mais proveito para as almas das tuas ânsias, da tua pena por não Me receberes, das tuas comunhões espirituais do que se me recebesses sacramentalmente. Confia! Jesus não mente.”

― Ó Jesus, não tive a pena verdadeira. Parece que as minhas lágrimas de saudade não foram verdadeiras. Não sei como vivi. Perdoai-me, perdoai-me.

― “Tu és louca, tu és louca, a louca da Eucaristia, a louca das almas. Oh, como és louca! Como a tua loucura alegra o meu Divino coração e o de minha Bendita Mãe, e vai reparando a justiça de meu Pai.”

Nesta ocasião, Jesus desapareceu. Abriu-se uma ala de anjos do Céu para o meu quarto. Eles eram tantos que estavam dispostos em duas alas. Do Céu uniam-se e vinham-se separando, formando cá em baixo a largura duma estrada. Batiam todos as suas asinhas brancas e alguns tocavam instrumentos harmoniosos. Por essa estrada entraram três anjos em tamanho natural. O do meio trazia a píxide com Jesus. Os dos lados traziam nas mãos de fora uma vela e as mãos do lado de dentro apanhavam o manto do que conduzia Jesus. Com as palavras que o sacerdote costuma pronunciar ele deu-me a Sagrada Hóstia, e foram recuando até que desapareceram. Os que estavam nas alas tocavam e cantavam:

Glória a Deus na terra e no Céu!
Glória a Deus, nosso Rei e Senhor!
Glória, glória, glória a Deus,
amor, amor, todo o amor!

Calvário de prodígios, calvário de dor,
calvário de glória e reparação ao Senhor
Glória, glória, glória a Deus,
amor, amor, todo o amor.

Todos desapareceram, deixando de se ouvir ao longe as vozes e sons celestes. Abeirou-se Jesus novamente de mim, introduziu-me no coração o tubo e fez passar a gota do Seu Sangue, lentamente:

― “Recebe vida, mais vida, minha filha. Recebe conforto para todo o estrago da dor. Vives a minha vida, vives só de mim. Tem coragem. Não te ofereceste tu a Mim por tudo e por todos? És a vítima reparadora de todos os crimes e de toda a variedade de coisas. Fala às almas, porque para elas pelo Céu foste escolhida. É a mais difícil, mas a mais sublime missão. Eu estou contigo. Falo pelos teus lábios. O Divino Espírito Santo em tudo te instrui e ilumina. És amparada por minha Bendita Mãe.

Fala ao mundo. Pede-lhe a sua conversão. Sofre, sustenta o braço de meu Pai. Avisa o mundo do que o espera. Coragem, coragem!”

Desapareceu rapidamente. Fiz-Lhe os meus pedidos, repeti-Lhe muitas vezes o meu “creio” e com a alma mais forte não podia queixar-me de que O não tinha recebido. Voltei à dor, a muita dor, mas mais confortada para a suportar.

24 de Setembro de 1954 – Sexta-feira

Como será a minha eternidade? Meu Deus, será esta que eu vivo? Longe, afastada de Deus, sem pensar em Deus e duvidosa até da Sua existência? Que tormento é o meu! Que vida sem nenhuma vida! Sofrimento sem mérito, vida sem existência e sem valor. Em tudo, em todas as coisas vejo a Deus e louvo a Deus em tudo e em todas as coisas. Duvido de Deus, afasto-me de Deus e perco a Deus. Aconselho o bem, mas dentro de mim é uma luta a mentir-me com o sentimento de que minto a toda a gente.

Jesus, na sua infinita misericórdia, é tão bom, porque no meio desta grande luta e martírio concede-me a grande graça da paz muito vivida no íntimo do coração e da alma, embora esta paz não seja minha, não seja para mim, porque não vivo e nada tenho. Ai, a perda de Jesus e da Mãezinha! Ai, a minha vida apagada e morta de tal forma como se eu nunca tivera vida. Digo a Jesus que quero dar-me a Ele, desaparecer como a cera derretida!... Mas como, Senhor, se eu não sou eu para me dar, se eu nunca existi, como posso desaparecer?

― Bendito sejais, meu Jesus, na Vossa sabedoria infinita.

Quero almas, almas, almas! São elas a minha loucura, porque enlouqueci por Jesus. Meu Deus, nem almas nem a Vós!... Nada tenho, nada tenho!... Sem vida, morro com a visão do mundo. Que nojo, que pejo! O rosto volta-se em contrário, porque os olhos não podem contemplá-lo. O coração vai para ele, porque o quer, porque o ama, porque só a ele pertence. Se viesse alguém consolar este coração ansioso, se viesse alguém colocar à frente deste olhos voltados para trás a mostrar-lhe uma vida melhor, uma vida de pureza para assim poder ser sempre contemplado!

― Jesus, Jesus, sou a Vossa vítima! Nada mais sei nem posso dizer-Vos.

A inutilidade, a inutilidade traiçoeira rouba-me as ânsias e o amor, rouba-me as fadigas, cansaço e suores da minha cavação no mais profundo dos abismos sob mundos e mais mundos. A inutilidade traiçoeira, traiçoeira, rouba-me o pavor causado pelos castelos, muralhas e prensas de ferro. Não posso recorrer ao Céu; nem de lá nem da terra me vem conforto.

Acabou o prazo em que eu vivia nas dúvidas de receber Jesus. Nesta semana, só um dia me falhou a visita do meu Jesus, mas nesse dia não soube sentir a dor profunda por não O receber, apesar de ter muitas, muitas saudades d’Ele, muita, muita fome d’Ele. Só depois de passar o dia é que eu sofri a dor que devia sofrer no dia em que O não recebi.

― Ó Jesus, tantos espinhos e tantas lágrimas recebidas e derramadas por Vosso amor. Eu só queria saber sofrer. Eu só quero viver para Vós.

Na minha vida do horto e do calvário, sofri o que já há muito venho a sofrer. A vida sem Ele, a vida de esquecimento, a vida da mesma massa da terra e do Céu. Suspiros, lágrimas, brados de socorro, mas tudo inútil para mim. Queria repetir o meu “creio” muitas e muitas vezes; umas vezes, porque o esquecia, outras vezes, sem coragem para o fazer e até presa por unhas de ferro que não me deixavam mover os lábios nem o coração para repetir: creio, creio, Jesus! Algum tempo antes das três horas, talvez uma hora, foi a minha alma comida por toda a variedade de animais. E, como se ela tivesse veias, elas rasgavam-nas e chupavam todo, todo o sangue. Dor e tormento infinitos, dor que não sei exprimir, tormento que a minha ignorância não me deixa explicar. Nesta angústia, veio Jesus. Chamou-me, e o seu brado vinha cheio de doçura.

― “Minha filha, minha filha, Jesus não é amado, o Senhor não é servido. Jesus não é amado, o Senhor não é servido. As almas não amam o meu Divino Coração; o mundo não serve o seu Deus. Ama-se a si, serve a Satanás. Minha filha, minha filha, tu foste escolhida por mim, escolhida pelo Céu. A tua vida é a minha Paixão contínua. Escolhi-te, o Céu escolheu-te para a Mim te assemelhares. A tua paixão é a paixão mística, mas de tal forma que nela encerra toda a minha santa Paixão. Eu venho neste dia, nesta hora, porque foi o meu dia, a minha hora. A tua vida está ligada à vida de Deus. É uma ligação: a vida da terra é a vida do Céu. Vem, minha filha, vem, descansa aqui no meu regaço.”

Sentada à borda estrada, inclinei, pousei a minha cabeça sobre os joelhos de Jesus, e então uma pomba branca esvoaçava sobre a minha cabeça, sobre os meus ombros, e as mesmas veias nos ligavam e uniam a todos.

― “Minha filha, é o Divino Espírito Santo a dar-se em ti para falar em ti. É a vida do Céu que nos une; é com a sabedoria do Céu que tu falas às almas, para quem foste escolhida. A minha Paixão foi para dar a vida à humanidade e lhe abrir o Céu. A tua paixão, à minha semelhança, ressuscita as almas mortas pelo pecado, abre-lhes o Céu que os seus crimes fecharam. Fala-lhes, fala-lhes, minha filha: é por bem pouco tempo. O Céu te espera. Eu movo os teus lábios.”

― Ó Jesus, quero obedecer-Vos a Vós e aos homens. Não sei como fazer a vontade ao Vosso Divino Coração e fazer àqueles que me governam.

― “Obedece, obedece, minha filha, mas Eu quero, Eu quero. Fala às almas, fala às almas! Recebe a gota do meu Divino Sangue. Recebe a gota mais abundante, porque a dor muito em ti consumiu. Fala às almas, heroína forte. Dá-lhes a minha vida divina. Incendeia-as no meu amor.

Vigilância, vigilância na Igreja. Vigilância, o Chefe, os Chefes da Igreja. A Igreja, a Igreja, principie a Igreja! A Igreja, a Igreja! Oh! Que dor para o meu Divino Coração e para o Coração Imaculado da minha Bendita Mãe! Vigilância, vigilância, o Chefe da Nação. Que veneno, que veneno, que traição! Penitência, penitência e oração! Vida nova para o mundo, vida nova para Deus.

Coragem, ó alma forte, ó alma heroína, ó farol e luz brilhante da humanidade. Coragem, alma forte, alma falada no Evangelho e na Santa Igreja através dos tempos Jesus não mente. É Jesus a afirmá-lo.”

― Jesus, bendito sejais. Eu sou pequenina, eu sou nada. Manejai este nada a favor da humanidade. Atendei aos pedidos da mais indigna das Vossa filhas. Creio, creio! Espero e tenho confiança em Vós.

Tudo isto pedi e repeti sem a visão de Jesus. Ele desapareceu. Eu fiquei na cruz.

   

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