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Alexandrina Maria da Costa

SENTIMENTOS DA ALMA

AGOSTO 1954

6 de Agosto de 1954 – Primeira Sexta-feira

Não sei como ditar o que me vai na alma, não só pela minha ignorância, mas também por não poder, por não ter forças para mover os lábios. Que o Senhor seja comigo. Só Ele sabe quanto me custa, e só pela obediência é que o faço. A minha vida é um calvário dolorosíssimo. Tudo são espinhos, tudo é cruz. Jesus não se satisfaz só com os tormentos indizíveis do corpo e da alma. Permite que venham os homens com interrogatórios e mais interrogatórios, os quais com os olhos no Céu aceito alegremente, tudo oferecendo por amor de Jesus e das almas, que são a minha loucura. Respondo como Nosso Senhor me inspira, mas depois, a sós com Jesus, que me faz compreender todas as coisas, o coração sangra em dor e agonia sob o peso das humilhações, mas sempre na minha loucura de amar vou repetindo:

― Obrigada por tudo, Jesus. Tudo Vos dê honra e glória. Sou a Vossa vítima! Mas dizer isto no sentimento da minha inutilidade com a perda de Jesus, da Mãezinha, de todo o Céu, na dúvida de todo o meu viver, ó Jesus, ó Jesus, quanto custa!

Para recordar a dúvida de mentir a mim mesma, mentindo e mentindo a todos, não eram precisas as dúvidas de ninguém. Só o meu sentimento tão doloroso e tremendo me faz agonizar. Quero dar-me às almas e humilho-me diante delas. Não posso conceber em ser visitada, tal é a miséria e o nada que vejo em mim. Estou louca, estou louca, apesar da visão do mundo em miséria e podridão. É o mundo que eu quero, é o mundo que o meu coração quer fechar dentro em si. Ai, ai, queria que o meu coração fosse uma máquina de escrever. Uma vez que principiasse, jamais acabaria, tais são as ânsias, tias os tormentos variados de que ele está cheio. Ai, tantas trevas, tanta morte, e eu no meio das muralhas, dos castelos trabalhando, cavando. São mundos e mais mundos. Nada mais digo. Não posso. Neste momento é imensa, é mais que imensa, é infinita a minha agonia. Entrego-me ao abandono de Jesus e da Mãezinha, repetindo-Lhes o meu “creio” com o coração e a alma em sangue.

Tive a Santa Missa. Não soube assistir a ela, mas sempre me faço substituir pela Mãezinha. Sempre foram para mim momentos mais suaves, vivendo uma vida mais alta que a vida da terra. Esqueci por completo o horto e segui para o calvário a tomar parte dele, levada por alguém dentro duma masmorra em ferro onde não entrava luz, nem vida, nem a palavra e a graça do Senhor. Momentos difíceis de viver, tormentos que só com Jesus se podem suportar. Repetia o meu “creio”, sem crer sem fé, sem vida. E assim cheguei à montanha; a esta masmorra me veio buscar Jesus. Abriu-a de cima a baixo. Abriu-me um caminho tenebroso, deu-me a Sua mão para eu sair e com a outra apontou-me o caminho e mandou-me seguir.

― “Caminha, minha filha, tem a certeza de que estou contigo. És vítima. Tudo isto representa as almas apodrecidas e mortas com o pecado. É necessário dar-lhes a vida e abrir-lhes os tremendos cárceres em que habitam. Caminha. Repete o teu “creio”. Vive da fé. O Senhor é contigo. Como tudo isto é grande e mostra a sabedoria de Deus! Que coisas sublimes para aqueles que, iluminados pela luz, as estudam e compreendem! Eu não tenho prazer em te fazer sofrer. As minhas delícias eram estar no teu coração, fazer-te gozar e viver na mesma alegria comigo. As almas, as almas, o mundo assim o exigem. Oh! Se eu tivesse mais almas vítimas que se dessem por Mim e por elas como a vítima deste calvário!... Quero vítimas, quero vítimas!”

Jesus indicou-me o caminho. Eu caminhei sozinha, apavorada, mas ouvindo sempre o que acima está escrito. Creio, creio, mas com este “creio” exclamei:

― Jesus, que pavor! Onde estais Vós?

Dizia isto já de todo desfalecida. De repente, iluminou-se o lugar onde eu estava. De mãos dadas, à minha frente apareceram Jesus e a Mãezinha. Desligaram as mãos e ambos com os olhos fitos no céu, cena que jamais esquecerei, apontaram-me com a mão direita os Seus Corações que traziam no centro do peito. Tanto o de Jesus como o da Mãezinha estavam cercados de muitos e grandes espinhos. Deles caíam muitas, muitas gotas de sangue. A minha ansiedade de recolher para o meu peito todas aquelas gotas de sangue era infinita.

― Jesus, Mãezinha, não quero que caia no chão nenhuma dessas gotas de valor infinito. Falou Jesus:

― “Minha filha, apontamos-te os nossos Corações a sofrerem, a sofrerem assim para te fazer compreender a crueldade dos homens, a gravidade dos seus crimes. Fitamos o céu, mostrando-te que também ao eterno Pai estamos a pedir o afastamento da Sua justiça e mais uma vez perdão e misericórdia para a humanidade.”

Dito isto, inclinaram para a terra as Suas santíssimas cabeças e em profunda tristeza derramavam copiosas lágrimas. Ajoelhei-me e tentei limpá-las dos pés de Jesus e da Mãezinha, onde elas caíam. Oh, como eu sofri ao contemplar tanta tristeza! Disse a Mãezinha:

― “Minha filha, sofre conNosco! Associa-te à nossa dor. Faz tudo o que Jesus te disser. Ai, os nossos filhos! Ai, a humanidade! Se Jesus reinasse nos corações, se Jesus e eu fôssemos amados!”

Jesus acrescenta:

― “Faça-se oração e penitência, faça-se tudo quanto eu tenho pedido. Faça-se muito, muito prolongada a oração e penitência, para que possa haver uma renovação nova. O que espera o mundo, o que espera o mundo! Depressa, depressa, minha filha! O meu pedido, o meu mandamento, o meu pedido o meu mandato ao Papa! Depressa, não se perca tempo. O Papa manda e a humanidade obedece, se quiser a benevolência do Céu.”

Jesus inclinou-se, deu-me a gota do Seu Divino Sangue e com a Mãezinha me acariciou, e deram as Suas graças, riquezas e amor para dar a todos quantos me são queridos. Assim desapareceram, quando eu tentava ainda recolher mais lágrimas. Fiquei logo numa agonia mortal, num tormento indizível a fazer-Lhes os meus pedidos e a repetir-Lhes o meu “creio” já quase na convicção de que tudo tinha sido ilusão minha.

― Creio, creio; sou Vossa. Digo-Vos, meus Amores queridos, o meu eterno obrigada. Sou a Vossa vítima.

13 de Agosto de 1954 – Sexta-feira

O meu corpo já não chega a ser um farrapo humano que a dor desfez. Tudo desapareceu como pó que o vento dispersa. Ó meu Deus, quanto eu tenho sofrido! Na minha dor só tenho em conta Jesus e as almas. Que sede de me dar e consumir cada vez mais. A sede não se sacia e este consumir desaparece. A inutilidade tudo apanha para si. Vivo a eternidade, vivo a inutilidade. Vivo a perda de Jesus, da Mãezinha e de todo o Céu. Não tenho vida em nada e para nada. Se deito os olhos para o Céu, a distância é tal e são tais as nuvens negras que produzem em toda a terra, que não recebo de lá conforto. Não deixo de o fitar, porque não posso baixá-los à terra. Logo, logo cairia de desespero. Nada encontro. Não tenho ninguém cá em baixo. Não há criatura humana, não há fôlego vivo para mim. Que abandono, terrível abandono! A alma não deixa o seu trabalho incessante, mas os seus suores, a vida de cada dor!... Que tormento para ela! As muralhas, os castelos, tudo isto faz um pavor contínuo. Entreguei-me à Divina Providência num abandono total; levo, beijo, abraço a minha cruz. Ela tem o selo das almas, mas no cimo o do amor de Jesus. Tudo são humilhações grandes, muito grandes. Os sofrimentos de toda a parte surgem, mas não sei quem se impõe e me obriga a caminhar sob o peso da cruz. Fraqueja a minha natureza. Tudo lhe causa tédio, nojo e pavor, mas a vontade pronta, sempre pronta, repete, mentindo-me e mentindo a todos:

― Seja feita, Senhor, a Vossa vontade. Não me importa o meu mentir, importa o meu querer. Amo-Vos, quero-Vos, quero as almas para Vós, sou a Vossa vítima. Creio, creio, creio!

Na viagem para o calvário, muito próximo da montanha, foi tão tormentoso o pavor e a agonia que eu nunca pude repetir com os lábios o meu ”creio”, o meu amado “creio”. Falava a alma, repetia-o e dizia a Jesus:

― Creio no tempo e com tal intensidade que ficará o meu creio por toda a eternidade.

Nesta luta duvidosa de tanta tormenta, veio Jesus e falou-me com doçura sem que O visse, mas logo pareceu que me encheu toda a alma:

― “Minha filha, coragem! A tua vida será sempre assim. Terás sempre que repetir o teu “creio”. Chegou ao auge a tua imolação. É na tua vida de vítima, é no repetir do teu “creio” que Eu me delicio e tenho as maiores doçuras e alegrias inefáveis. É na tua imolação de vítima que Eu disfarço a visão do mundo tão maldoso e tão cruel. Coragem, minha filha, coragem.”

Neste momento, em que Jesus me incutia coragem, apareceu-me Ele com a Mãezinha em tamanho natural. Os Seus vestidos e manto, roxo escuro, os Seus rostos tristíssimos e semblantes na mesma, causaram-me a mais profunda e maior agonia. Os Seus Corações davam luz que me fazia ver tudo. Pelo cimo deles entravam umas lanças que Os passavam de um lado ao outro. Pelos vértices dos Corações jorrava sangue com abundância, mas sangue fervente como a água que ao lume escachola. A minha aflição não a posso descrever. Queria recolhê-lo. Estendi os meus vestidos para assim recolher e guardar todo o Sangue divino. Banhava com ele o meu peito. Queria guardá-lo todo lá dentro.

― “Minha filha, estamos a contemplar o mundo. Andamos a ver Portugal, a ver as nações. Que podridão! Que maldade, que veneno criminoso! Tanto pedi, tanto convidei pelos teus lábios a virem ao meu Divino Coração numa completa emenda de vida! Eu pedi, e pediu a minha Bendita Mãe. Não fomos atendidos!”

Prostrada diante de Jesus e da Mãezinha, pedi-Lhes:

― Esperai, Jesus, esperai, Mãezinha. Levantai as Vossas mãos divinas para o Eterno Pai. Sustentai por mais tempo a Sua justiça. Deixai que Portugal, a humanidade façam penitência!

― “Minha filha, pede, diz ao meu Cardeal, ao meu querido Cardeal Cerejeira, escolhido por Mim para tão alto, para tão alto, que fale ao seu povo. Pede, pede aos Prelados que o façam também. Faça-se muita oração, muita penitência, por muito tempo! Haja grande vigilância à Nação. Salazar, Salazar, alerta! Em toda a parte está veneno. Haja vigilância nas Nações, por um lado e pelo outro tentam as labaredas incendiarem-se.”

― Jesus, Mãezinha, perdoai, perdoai a Portugal. Esquecei-nos as nossas ingratidões, perdoai mais uma vez.

― “Pede, minha filha, pede, filha Nossa. Pede, pede, pede! – diziam Jesus e a Mãezinha ao mesmo tempo, enquanto me acariciavam. – É contigo que desabafamos, é de ti que nos servimos. Os filhos Nossos, os filhos Nossos, o mundo que é Nosso, o mundo que é teu! As almas, Nossas filhas, as almas, filhas da tua imolação, da maior imolação! Recebe a gota do meu Divino Sangue, a tua vida. Fortalece-te! A cruz espera-te. Não pode ser mais dolorosa. Acode ao mundo. Fala às almas, fala às almas!”

― Ó Jesus, faço, faço o que me mandardes; dai-me a Vossa força. Mãezinha, estai sempre comigo. Perdoai, perdoai-nos; mais uma vez misericórdia para o mundo. Pede, minha filha, do teu pedir, do teu sofrer muito recebe a humanidade, muito recebe o teu Portugal. Oração e penitência, obediência ao Papa, obediência à Igreja.”

― Esperai, Jesus. Pedi espera ao Eterno Pai. Prometo pedir ao mundo a penitência e oração duradoira e pureza de almas para Vós.

Quando fazia estes pedidos, desapareceram os meus queridos Amores. Fiquei na minha amargura a sentir a dor e amargura dos Seus divinos Corações e a sentir a amargura do Santo Padre. Que peninha tenho dele!

20 de Agosto de 1954 – Sexta-feira

Parece-me que toda a minha vida andou para trás, que perdi tudo quanto com o meu esforço e sofrimento ganhei. Sinto de tal forma a perda de Jesus e da Mãezinha que me parece caminhar a vida inteira e a eternidade à busca d’Eles sem nunca Os encontrar.

― Que perda, meu Deus, que perda! Nunca mais, nunca mais Vos ver! Ai de mim, quanto eu sofro! Que dor profunda, que agonia triste e mortal! Não tenho um conforto nem um apoio.

Em espírito agarro-me ao Céu. Na minha agonia tenho sempre os olhos da alma fixos lá. Parece que todo o meu ser de lá se desprende, cai e se envolve nas nuvens. Tudo são trevas, tudo é morte. A minha ansiedade e loucura pelas almas não cessa. Nunca lábios humanos nem inteligência humana poderão dizer e descrever esta minha ansiedade. Quero todos os corações e todas as almas, reunidas numa só mão, numa só massas, numa só vida, num só amor, que é o amor de Jesus e tudo introduzir e fechar no Seu Divino Coração. Esta ansiedade dava-me a morte, se Jesus não me conservasse a vida. Esta ansiedade e um brado de amor se espalham e ecoam na humanidade inteira. São de Jesus as almas; quero as almas para Jesus. O meu coração conserva dentro dele aqueles olhares que têm a visão dos crimes e maldades de toda a humanidade. A dor mirra-me, chupa-me o sangue das veias, a cada momento me tira a vida. Para mais nada vivo, a não ser para a dor, que me é roubada pela inutilidade. Ah! Se houvesse alguém que me consolasse! Se surgisse de qualquer parte um bocadinho, um mínimo de amor para mim!... Nada vejo, nada vem. Esta ansiedade de consolação e amor não são exigências minhas, mas sim de obra mais sublime. Não passo disto. Nada digo do meu sofrimento. É esta a minha vida sem vida. Os espinhos a ferirem-me são sem conta. São espinhos dos homens os quais sempre aceito por amor de Jesus. Estou cansada de tantos suores e de sustentar nas minhas mãos o instrumento cavador que de séculos a séculos vou cavando. Que eternidade, meu Deus! Como é dolorosa a minha eternidade vivida nestas muralhas, nestes castelos sempre com o meu túmulo e sobrecarregada de um peso infinito.

― Nunca devia deixar de repetir o meu “creio”, mas, ó meu Deus, que vida e que “creio” mentiroso para mim e para todos. Sou a Vossa vítima. Seja feita, meu doce Amor, a Vossa vontade.

Assim vivi o horto e parte do meu calvário. Tinha uma vida que vivia, mais alta, muito mais alta que a terra. Ao terminar da montanha, desapareceu-me essa vida e eu caí por terra sob um peso esmagador que me descarnou toda a carne e me fez derramar o sangue. Era a justiça de Deus. O meu “creio” foi repetido e de tal forma que no meu íntimo dizia que tinha de ser eterno. Veio Jesus, mas sem se ter apressado. Falou-me sem me dar luz. Eu estava caída. Ele levantou-me. Sentou-se comigo na valeta duma estrada, inclinou-se a descansar sobre os seus joelhos. Quando me levantou da terra, bradou-me:

― “Levanta-te, minha filha, vem cá, descansa. Vem retomar forças da tua dor.”

Quando estava de cabeça inclinada sobre os joelhos de Jesus a dizer-Lhe: “Jesus, sinto-Vos, ouço-Vos, mas não Vos vejo, ainda tenho de repetir o meu “creio” mais e mais profundamente”, sentou-se ao meu lado a Mãezinha que me tomou logo para o Seu regaço. Osculou-me e acariciou-me demoradamente.

― “Minha filha, tem coragem. É Jesus e a tua celeste Mãezinha junto de ti. Coragem, coragem!... Sempre contigo estamos e por ti velamos.”

Tudo isto se passou em trevas, muito mais confortada, mas eu fui sempre repetindo o meu “creio”. De repente, veio do Alto uma luz que me fez ver claramente Jesus e a Mãezinha. Oh! Como eu Os vi tristes, chorando, cobrindo os mesmos mantos de azul escuro.

― Ó Jesus, ó Mãezinha, não Vos posso ver chorar, nem aguentar com a Vossa tristeza.

― “Minha filha ― disse Jesus ― somos os três na mesma dor, no mesmo desabafo. Continuamos a ver o mundo cheio de vícios e crimes, a correr para o abismo, a perder-se. Oração, penitência! Penitência! Oração! Haja mais pureza, pureza, pureza! Vigilância à Igreja, vigilância à Igreja. Venha o Papa, o meu querido benjamim, de encontro aos seus Bispos e estes aos seus Padres. Vigilância, vigilância à Igreja. Principie a Igreja! Se assim não for, cai depressa, bem depressa, a justiça do meu Pai.”

Neste momento, quando todo o lugar estava iluminado, desceram do Céu dois anjos. Não chegaram a pousar na terra. Sustentaram-se no ar, batendo sempre as Suas asas brancas. Os dois traziam nas mãos um ramo de oliveira. Só lhe via as folhas. O tronco era belo, todo alvo, todo luz. Entregaram-no à Mãezinha, inclinaram-se, bateram as asas e voaram ao alto. Vi-os desaparecer vagarosamente. Jesus estava com as Suas mãos divinas sobre os meus ombros. A Mãezinha meteu-me na mão esse belo ramo e disse-me:

― “Minha filha, aqui tens, aqui te entrego em tuas mãos o ramo de oliveira, símbolo da paz. Esta alvura significa pureza, a pureza. Este brilho, o fogo ardente dos nossos corações, o de Jesus e o meu. Tudo isto queremos para o mundo, para os corações, para as almas. Como o meu Divino filho te enriqueceu de tantas coisas e títulos tão honrosos, dou-te eu com Ele mais o título da paz. O Céu quer e ao mundo dá todos os meus anseios de paz.”

Jesus acrescentou:

― “Minha filha, tudo em ti depositamos. É por ti que a humanidade tudo recebe. Quererá ela atender a este convite e último apelo do céu?... Deus ou satanás? A quem quer servir o homem? A quem quer amar? Fala às almas. Minha filha. Tem coragem, tende coragem. Fala-lhes. Quero que lhes fales. Foi um meio de que me servi. Só no Céu se verá tanto bem feito em seu favor. É o Espírito Santo que te ilumina. Sou Eu a falar nos teus lábios e é pelos teus lábios que Eu espalho a vida de pureza, a vida de amor que é urgente a humanidade viva.

Recebe a gota do meu Divino Sangue, a vida de que tu vives, que é a minha vida. Fortalece-te para mais dor, para mais cruz, para mais salvação das almas.”

― Ó Jesus, ó Mãezinha, perdoai-me, parece-me que não me conheceis, que Vós não vistes nem vedes a minha miséria. Humilho-me diante de Vós, digo-Vos o meu profundo “obrigada”, repito a minha oferta de vítima. Sofra eu e não Vós. Perdoai-nos. Salvai Portugal, salvai o mundo. Não esqueçais os meus pedidos, todos, todos.

A visão dos meus Amores tinha desaparecido. Fiquei a falar sozinha e a repetir o meu “creio”.

27 de Agosto de 1954 – Sexta-feira

Meu Deus, meu Deus, tende piedade de mim! Ai, ai, a minha agonia, a agonia da mina alma. Por quem sois, meu Amor, não me deixeis um momento. Creio, desespero, ofendo-Vos e eu antes quero o inferno do que ferir mais vezes o Vosso Divino Coração. Basta de ser ingrata e cruel para conVosco. Meu Deus, meu Deus, como se sofre! De toda a parte vem dor, de todos os lados vêm espinhos que cercam e ferem o meu pobre coração. Ah! Se a dor fosse compreendida! Mas não será se não for vivida! Quase ninguém compreende a dor, a não ser aqueles que vivem a dor. Vós a compreendeis, meu Jesus; bem sabeis que, apesar dos meus desalentos, sois só Vós e as almas a causa do meu sofrer. Vós sois a minha loucura. O Vosso amor fez-me enlouquecer pelas almas. As almas, as almas! Que ânsias infinitas em as possuir, que dor infinita ao contemplá-las na visão total do mundo e ao vê-las abeirarem-se de mim! Tenho tédio, tenho pavor. Meu Deus, apiedai-Vos desta pobre alma que de Vós implora misericórdia. Tenho saudades do Céu, necessidade de deixar a terra. Quando chegará ele, quando a deixarei? Se as almas exigirem o meu martírio até ao fim  dos séculos, eu aceito, contanto que dia e noite veleis por mim. O meu coração fala e nada diz. Aumenta mais e mais a minha dor esta ignorância. Eu queria poder esconder-me num buraquinho, onde ninguém me visse e ninguém jamais de mim falasse. À luz da eternidade será vista toda a verdade. Dito por obediência, cega obediência. Para nada tenho vontade. Só quero a vontade do meu Senhor, custe o que custar.

Nasci neste momento para amar a Deus, mas não sei como já perdi a Deus e a Mãezinha. Foi tal a perda que nunca os poderei amar: é o que eu sinto. Todo o meu ser, envolto na terra, só vive da terra, causa-me uma agonia de morte. Perdi tudo, a vida de Deus, a vida de sofrimento. A inutilidade traiçoeira de tudo se apossou. Sinto necessidade, infinita necessidade de bradar ao mundo, de lhe falar, de o meter dentro do meu coração e ao mesmo tempo a mesma necessidade de pedir socorro, sempre socorro, a pedir ao Céu para vir em meu auxílio, mas logo outro sentimento: não há Céu para mim. É tempo perdido o meu brado. Nada vem do Alto, e da terra todos me abandonaram. Meu Deus, meu Deus, sou a Vossa vítima! Não posso contemplar tão altos castelos, tão fortes e negras muralhas. Tudo encobre os meus suspiros e gemidos, mas, se eu amasse a Jesus, se eu amasse a Mãezinha! Que mais poderia eu desejar?!

Na minha canseira de cavador, nos meus suores de alma e corpo que me levam a viver sempre a eternidade, não tenho nenhum apoio. Os meus colóquios ainda mais me martirizam. Que perda, meu Deus, que perda! Vivo sem vida, sem nenhuma vida. Não aproveito um momento os méritos do horto e do calvário. Estou envolvida em armaduras, mais armaduras de negro ferro. Assim subi o calvário, repetindo o meu “creio” com o sentimento mentiroso. Crer e não crer, mentir-me a mim e mentir a todos! Não entrava um raio de luz em tais armaduras. Que cegueira pavorosa! Nem de lá saía um suspiro meu. Presa nelas e caída, desfalecida, veio alguém que as destruiu. Fiquei solta, mas caída e sem ver. Esse alguém era Jesus. Pegou-me pela mão, levantou-me, fez-me sentar em não sei o quê, onde estava sentado, fez que eu inclinasse a minha cabeça contra o seu Divino Coração, enquanto se ia dizendo:

― “Minha filha, minha filha, minha filha, levanta-te, levanta-te. Quem te toma pela mão é Jesus. Vem, vem tomar conforto. Escuta o meu Coração. Escuta como Ele palpita de amor por ti. A tua generosidade heróica da entrega total levou-me a levar-te ao auge do sofrimento, porque tenho poucas, muito poucas vítimas que aceitem a cruz, que se deixem crucificar nela, a imolarem-se dia e noite por meu amor e pela salvação das almas. O mundo louco e ingrato viciado nas suas paixões exige de Mim o teu auge de tanto, tanto martírio. O mundo, a minha visão sobre ele continua dolorosa, muito dolorosa. Mais uma vez eu aviso: vigilância, muita vigilância. Salazar, Salazar, alerta! O veneno é tanto a espalhar-se!... Dum lado e doutro surgem traições. Esta visão é celeste. Quem avisa é Jesus.

Minha filha, tu que és a minha vítima mais amada e depositária dos meus tesouros, aqui tens mais uma vez o meu Divino coração com tudo quanto encerra. É uma prova de amor, é uma afirmação divina de que por ti é dado ao mundo todo o meu amor e dadas às almas todas as graças e todos os meios para serem salvas.

Coragem, esposa minha. Vê como Jesus te ama. Vê como Céu te enriquece.”

Jesus meteu dentro do meu peito o Seu divino Coração. Era como um vaso dos mais ricos e belos que se podem imaginar. Todo ele era ouro, todo ele eram chamas.

― Ó Jesus, dais-me o Vosso Divino coração? E para Vós? Eu sei, eu sei. Já tudo me fazeis compreender. Perdoai-me as minhas perguntas. Esquecestes a minha ingratidão para Vós. Não sabeis como tenho sido má.

Jesus, sorrindo, triste, mas carinhosamente, disse-me:

― “Minha filha, minha esposa querida, Eu sou infinito, estou em ti, dei-te o meu Coração e possuo sempre o meu Divino Coração em toda a parte. Tu és a luz do mundo, a escora da justiça de meu Pai, o cofre onde tudo deposito para dar as minhas riquezas às almas, ao mesmo mundo ingrato e cruel para mim. Eu vejo o teu coração, penetro todo o teu ser, vou aos teus desfalecimentos buscar meio, buscar bálsamo para os pecadores e meios de salvação.

Vigilância na Igreja. Principie toda a Igreja. Oração, penitência, emenda de vida. A carne, as praias, as modas, os cinemas, casinos e teatros, o mundo o mundo como peca!... Um freio ao pecado!...

Recebe a gota do meu Divino sangue. Fortalece-te, fortalece-te. Cinge-te bem à cruz. Repete sempre o teu “creio” a tua alma necessita de todo o amparo da terra, amparo, todo o amparo. Quando os homens falham contra a minha vontadem venho eu supri-los. Confia, confia!”

Jesus desapareceu. Fiquei logo na mesma angústia, nas trevas mais pavorosas, na dúvida de todo o meu viver, mas a repetir o meu “creio” com toda a força e a fazer os meus pedidos.

Ó vida, que és só por Jesus e pelas almas!

   

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