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Alexandrina Maria da Costa

SENTIMENTOS DA ALMA

JULHO 1953

3 de Julho de 1953 – Primeira Sexta-feira

Eu sinto-me de braços abertos a bradar, a pedir socorro à terra e ao Céu, sem de nenhuma parte o receber. Sinto necessidade, muita necessidade duma escora para me sustentar. A tempestade não cessa. Por toda a parte vem a derrota e eu de rastos envolta na lama não posso levantar-me. Se as pedras falassem, quanto elas não teriam que dizer. A minha ignorância não me deixa, as minhas forças não me permitem, a minha inutilidade tudo rouba para si. E eu, no meu calvário, no meu pavoroso calvário, sem ter nada, nada para mim, nem um miminho para Jesus. O meu corpo está cravejado de cima a baixo. Tudo são setas, lanças, punhais e espinhos, e a alma não deixa, não deixa de agonizar com ele. Peço coragem ao Céu para o meu novo calvário, para os meus exames. Não a tenho. A hora não chegou ainda. Espero só naqueles a quem me abandonei por completo, que foi a Jesus e à Mãezinha. Se toda a aceitação da minha cruz é só por Eles e pelas almas, como poderei ser por eles abandonada? Ai de mim, se me falta a confiança! A minha alma louva ao Senhor, entoa-Lhe hinos de agradecimentos, mesmo quando desfalecida, presa, mergulhada no lodo e na lama. Muito em silêncio, na mais tremenda agonia, ela dá-se ao Senhor e repete: Oh! Seja feita a Vossa Vontade! Quando choro no desfalecimento, são lágrimas resignadas e mando-as de encontro aos sacrários. A inutilidade rouba tudo, mas nem por isso deixo de as enviar para lá como actos de amor.

O meu horto de ontem, o meu calvário de hoje, são os mesmos sofrimentos, a mesma preparação para a minha prisão, para o meu exílio. Ontem, senti o pavor de todas as coisas, de toda a agonia do horto. Estava nela sem vida, para tudo indiferente. Hoje segui para o calvário. Digo que segui, mas não fui eu. Da minha parte, só seguiu a minha dor. Havia uma vida separada da minha vida que estava fora de mim e fora do mundo e que era a vida do calvário e que não podia agora imolar-se. Continuava a ser vida, mas sem dar a sua vida. Queria saber esclarecer-me melhor, mas não sei. Era vida e não estava em mim. Esta vida comunicava-se ao calvário, mas não podia manchar-se de novo na terra culpada. A minha dor viveu tudo isto, mas eu não, porque sinto não ter vida. Parece que o meu corpo desapareceu do mundo, deixando a suprir o seu lugar a dor, só a dor. No maior abandono e sob o peso das maiores humilhações, fiquei como se de facto morresse. Jesus, a verdadeira vida, entrou no meu coração. A Sua entrada ressuscitou-me e ouvi-O falar assim:

— “Cá estou, cá estou, minha filha, no teu coração. Cá estou, cá estou, cá estou, esposa minha, no meu palácio permanente. Venho mendigar amor na tua cruz, no teu calvário. Como eu estou bem! Como eu estou bem! Sou mendigo, sou mendigo da dor, sou mendigo de amor. A minha morada, a minha morada, ditosa morada aqui na terra. Mendigo dor nesta cruz, neste calvário. Mendigo amor neste coração das minhas delícias. Minha filha, minha filha, mãe, mãe dos pecadores, à semelhança da minha bendita Mãe. Minha filha, minha filha, farol e guia, farol de luz, farol atraente. As almas, as almas necessitam de ti. O mundo, o mundo conta contigo. Foste criada para o mundo, sem seres do mundo. Foste criada para as almas. Esta é a grande verdade de Jesus. Foi a missão que Ele te escolheu. És caluniada, és perseguida. Deixa, minha filha, deixa que a ti te assemelhe a Mim. És cópia fiel. A tua vida é o maior portento das maravilhas do Senhor. Coragem, coragem! Nada temas, minha filha! O Céu, todo o Céu será contigo, será convosco. Coragem! Coragem! O sol, o sol vai brilhar, brilhar, brilhar sem nenhum estorvo.”

— Ó Jesus, não me procuro a mim, não me vejo a mim. Procuro a Vossa glória. Vejo-Vos a Vós, vejo as almas. Nos momentos dos meus desfalecimentos, quando sinto que não sou capaz de resistir a nada, resta-me só a confiança, a confiança, sem o sentimento de que confio, Jesus. Creio, creio, meu Amor. Só por Vós e para Vós tenho vivido. Só em Vós tenho confiado. Nunca, nunca confiei em mim. Pela Vossa graça, nunca, nunca, nada a mim atribuí. O meu nada, a minha miséria imensa, a minha inutilidade é a que me está sempre, sempre presente.

— “Minha filha, pupila dos meus olhos, florinha eucarística, adorno do meu Divino Coração, avante, avante, por Deus e pelas almas. Pede amor, pede amor para o meu Divino Coração. Não deixes as almas perderem-se. Convida-as a virem a Mim. O teu sofrimento fala-lhes ao coração; o teu sorriso, o teu silêncio, o teu silêncio fala-lhes, fala-lhes sempre. Coragem, coragem! Tudo isto é uma revolução nas almas. Coragem, coragem! Tudo isto são provas do meu Divino Amor para com elas. Acode-lhes, não as deixes perder, não as deixes cair no inferno.”

— Isso quero eu, meu Jesus. Ah, se eu pudesse pôr um aluquete no inferno para ele não mais se abrir! Eu não quero, não, meu Jesus, que nenhuma alma se perca. Eu não quero, não, meu Amor, ver o Vosso Divino Coração ferido. Tenho fome, muita fome, meu Jesus, de Vos dar todas as almas e toda a consolação. Só vivo por Vós, porque Vos amo, Jesus, não tenho outro fim na minha vida a não ser amar-Vos e dar-Vos as almas. Outra coisa não tenho, outra não faço, não, não, meu Amor.

— “A tua vida não é da terra, mas sim do Céu. Vem receber a gota do meu Divino Sangue. O artista divino fez que ela passasse. Passou a tua vida, a vida de que tu vives, a vida que por mim te é dada. Nova gota do sangue preciosíssimo de Jesus corre nas tuas veias. Prodígio, prodígio! Oh prodígio maravilhoso! Pede sempre, pede sempre: vida nova, vida pura, vida santa! Pede oração, pede penitência. Diz, minha filha, que é Jesus a pedi-la pelos teus lábios. Coragem, coragem! Fica na tua cruz. O teu Jesus, o teu Esposo inseparável é a tua força. Confia, confia!”

— Obrigada, meu Jesus. Obrigada, meu sumo Bem. Não Vos esqueçais dos meus pedidos. Sabeis por onde principio para acabar na humanidade inteira. Obrigada, obrigada, meu Jesus. Obrigada pelo amor que me dais!

4 de Julho de 1953 – Primeiro Sábado

“A maior bruxa da humanidade” – foi o último espinho a ferir-me o coração, foi o que me classificaram. A minha perfeição não chegou a aceitar tudo sem sofrimento. Perdoo tudo, mas sofro, sofro muito. Foi assim ferida que me preparei para a vinda de Jesus, hoje, ao meu coração. Ele entrou, suavizou a minha dor, não se apressou a falar-me, mas só a Sua presença foi bálsamo. Depois da suavidade, falou-me assim:

— “O amor inebria, é cego, é louco. Sou louco, louco, louco de amor por ti, minha filha. És louca, louca, louca de amor por Mim. Inclina-te, inebria-te, consome-te, desaparece como a cera e o azeite que se vai extinguindo na lâmpada. Coragem, coragem, minha filha. Quanto mais caluniada, mais semelhante és a Jesus. tem sempre presente tudo quanto me acusaram. Eu era inocente. Eu era Deus. As almas, as almas estão famintas, estão sequiosas dos teus sofrimentos. Não as deixes morrer à fome e à sede. Minha filha, florinha do sacrário, oferece-me muitos, muitos dos teus martírios em reparação dos sacerdotes. Ofendem-me tanto, tanto, tanto e tão gravemente! Aceita os espinhos mais penetrantes que mais ferem o teu coração e oferece-mos para curar as feridas do meu.”

— Que punhaladas tão agudas! Bem as senti agora, meu Jesus. Eu não quero que elas sejam dadas no Vosso Divino Coração, mas sim no meu, só no meu.

— “São os meus discípulos com os seus crimes, com as suas iniquidades. E sobre tudo isto, um mundo, um mundo criminoso. Coragem, coragem! Dá-me todo o teu martírio. Dai-me o vosso martírio. Diz, minha filha, ao teu Paizinho que Jesus, louquinho do seu coração, que Jesus, o tudo do seu coração, tudo resolve com a Sua ciência e sabedoria infinitas. Diz-lhe, diz-lhe que tudo se encaminha para o triunfo, para a vitória. Não há triunfo, não há vitória sem sangue. Dá-lhe, dá-lhe o meu Divino Coração cheio de amor, cheio das minhas riquezas. Diz-lhe, diz-lhe que toda a sua vida me deu glória, toda, toda a sua vida foi proveitosa, toda útil para as almas. Quanto mais o amo, mais a Mim o assemelho. Amo-o, amo-o com toda a loucura do meu amor. Diz ao teu médico que lhe recomendo coragem, coragem, coragem! Diz-lhe que sou infalível. Diz-lhe que estou com ele, diz-lhe que velo por ele e por todos os que são dele. Velo por ele e ele vela pelo que é meu. Protejo-o e amparo-o, e ele protege e ampara a minha causa, a minha maior causa. Eu quero, sim, eu quero que se complete o incompleto. Que se ponha na verdade o que está no erro. Haja luz, faça-se luz. Pobrezinhos os que não quiseram ver! Pobres daqueles que querem continuar na sua cegueira. Dá-lhe, dá-lhe todo o amor de Jesus e de Maria. Diz, diz ao teu médico que é todo amor do Céu. É com este amor que ele será forte, forte, sempre forte. Vem, minha bendita Mãe: necessita muito a nossa filhinha dos nossos cuidados, amparo e carinhos.”

— “Vem cá, vem cá, minha filhinha, para o regaço da tua Mãe Celeste. Tem coragem. Tu nada podes temer com a nossa protecção. Eu sou o Coração Doloroso e Imaculado de Maria.”

— Ó Mãezinha, as Vossas ternuras, as Vossas carícias, o Vosso regaço fizeram-me grande, grande como o Céu. Eu temo tudo, porque de tudo duvido. Bem o sabeis que nenhuma, nenhuma confiança tenho da minha vida. Vou para a minha prisão confiada. Vou só por amor de Jesus, a Vós, a toda a Santíssima Trindade e às almas.

— “Nada temas, nada temas. Todo o Céu está contigo, todo o Céu está convosco. Que glória, que glória, que reparação!... Glória para Deus, reparação para as almas. Nada negues, nada negues a Jesus, filha querida.”

— Ó Mãezinha, ó Mãezinha, velai por mim, velai, velai por nós.

— “Recebe, filha querida, novas carícias de Jesus e de Maria. Vai forte, com toda a fortaleza. Vai alegre, com toda a alegria dos Santos. Fica em paz. Vai em paz. Dá a minha paz. Leva o amor, todo o amor de Jesus e de Maria. Distribui-o, distribui-o, distribui-o.”

— Obrigada, Jesus, obrigada, Mãezinha. Ponho diante dos Vossos Divinos Corações todas as minhas intenções, todas, todas. Atendei-me, despachai-as. Velai, velai por mim!

10 de Julho de 1953 – Sexta-feira

É inaudito o meu sofrimento. Suporto a minha cruz e a dos que me pertencem e são queridos. Todo o peso das outras se vem juntar às minhas. Sinto-me sucumbir. Se se compreendesse bem o que é a dor, oh! quantas penas seriam suavizadas! Meu Deus, longe de mim querer descurar a dor, querer fugir à cruz que me dais. Na terra não encontro alívio. Só de Vós o posso esperar. Não me deixeis, meu doce Amor, cair no desespero. Só Vós me compreendeis. Só Vós penetrais e sabeis ler no meu coração. O que eu não quero é o Vosso desprezo e abandono. Todo o meu ser está coberto e trespassado de espinhos. De toda a parte da terra, por todos os caminhos surgem feras a devorar-me. A tempestade não cessa, é tremenda, é desoladora. Parece que nada há que possa reparar tantos estragos. Senhor, sou a Vossa vítima. Aceitai como actos de amor as minhas lágrimas e compreendei Vós os meus desabafos. Doravante só conVosco quero desabafar. Sofrer em silêncio, morrer até de dor, não me importo; o que eu quero é o Vosso amor, é a salvação das almas. Por vezes não posso respirar com a dor e peso das humilhações. Bendito sejais! Bendito sejais por me terdes criado para tanta dor, para tão pesada cruz. Ontem, no horto, passei algumas horas como se uma lança de ferro vinda do alto me atravessasse toda e me cravejasse à terra. Não pude ter um movimento, tive que submeter-me a todo o sofrimento.

Hoje, na viagem para o calvário sentia como se a cada passo, que dava ofegante a dar a vida, desse uma cavadela no rochedo mais duro que tinha de amolecer com o meu sangue. No alto do calvário, a abóbada do Céu pareceu juntar-se com o solo da montanha. Queria dar-lhe um abraço e beijo de paz. Quanto mais o fim da agonia se aproximava, mais esse abraço e beijo eram intensos. O calvário estava representado dentro do meu peito. Jesus na cruz, S. João e as três Marias. O olhar da Mãezinha doloroso e também agonizante fez sofrer mais e mais o Coração amantíssimo de Jesus. Ele expirou e nesse momento pareceu que a minha alma deixou também o meu corpo. Por algum tempo só reinou o silêncio da morte. Entrou a vida no meu coração, entrou a luz, e a voz do Senhor fez-se ouvir dentro de mim:

— “Alerta, alerta, fazei guarda de honra. Jesus desceu do Céu. Jesus entrou no seu palácio. Entrou e já estava, entrou, entrou sem ter saído. Este coração, este coração é a minha morada permanente. Estou aqui, estou aqui, minha filha, apesar de me esconder, apesar de não sentires em ti a minha presença. Este palácio, que é o teu coração encantador, teve sempre a Jesus desde o momento do teu baptismo. São palavras afirmativas de Jesus. Jesus não engana. Jesus não mente. Estou em ti sempre, sempre, esposa querida, mas agora numa forma mais diferente. Estou em ti, não por ti, estou em ti para me dar por ti. Os meus colóquios não são para ti. Os meus colóquios têm o fim das almas. Fazem parte da tua nobilíssima missão. As almas, as almas, fala-lhes, fala-lhes. Não as deixes perder. Foste criada para elas. São tão grandes, tão profundas, são tão grandes, tão profundos os desígnios, os desígnios do Senhor na tua alma!... Coragem, coragem! Avante sempre! Triunfa, triunfa, triunfa o Senhor. Triunfa à custa de indizíveis dores, de indizível martírio. Dor e sangue, dor e sangue, dor e sangue. Sangue e entrega de vida. Sofri, dei o sangue, dei a vida para dar a vida à humanidade. Tu sofres, vítima querida, para me entregares a tua vida e dares a vida a milhares, milhões de almas. Só assim podes ser, minha filha, a minha cópia mais fiel.”

— Acredito, Jesus, porque Vós o dizeis. Acredito, Senhor, mas é só agora. Fora deste colóquio, fora desta intimidade conVosco não acredito em nada, em nada. Duvido de toda a minha vida. Só Vós conheceis, meu Jesus, o grande martírio da minha alma. Ninguém como Vós sabe o que ele é por Vós e pelas almas. Só me tranquiliza o sempre ter vivido só com os olhos em Vós e nada fora de Vós. Não permitais nunca, Jesus, que eu me desvie, que eu saia fora da Vossa divina vontade.

— “Maravilha, maravilha, oh portento, oh portento divino! A tua vida, a tua vida é obra, obra, obra só de Deus. Não é compreendida, porque as coisas de Deus, as coisas grandes, grandes, só no Céu são compreendidas. Eu quero, Eu exijo, tanto quanto possível, aos homens, compreendê-la e fazê-la conhecida. A glória, a glória é toda minha. O proveito é para as almas. Eu quero, Eu quero, Eu exijo o que está incompleto. Eu exijo o que está no erro e não o que está na verdade.”

— Jesus, Jesus, sou a Vossa bolinha. A Vós me abandono. Em Vós confio. Deixo-me jogar. Morra eu hoje ou morra quando Vos aprouver, mas morra sempre a fazer a Vossa divina vontade.

— “Sempre a tens feito, minha filha, e sempre por ti será bem desempenhada. Tem coragem, tem coragem! Tende coragem! Eu velo, Eu velo, Eu velo. Vem receber a gota do meu Divino Sangue. Foi maior a gota do Sangue. Foi maior a efusão de amor. A dor, a dor consome-te muitas forças, muita vida. Tenho mais de velar por ti. Passou a vida de que tu vives, passou o amor que te fortalece e por ti é dado às almas. Vai em paz, vai em paz. Pede oração, pede penitência. Lembra, lembra sempre, sempre: Jesus está triste, Jesus está triste, Jesus quer reparação.”

— Ó meu Jesus, muito obrigada, muito obrigada, meu Amor. O meu eterno obrigada! E não Vos esqueçais de todos, todos os meus pedidos. Sede comigo, não me abandoneis.

17 de Julho de 1953 – Sexta-feira

De todos os lados me surgem leões que tentam devorar-me. O meu pavor é contínuo. Recorro ao Céu, a Jesus e à Mãezinha. Mas, ai, nem uma luz, nem um conforto. O Céu está fechado. Portas e mais portas, uma sobre as outras encerram-no, fecham-no de cima a baixo. Não tenho conforto de parte alguma. A minha vida já se apagou como azeite que se extingue e cera que se derrete. A dor terminou com todo o meu ser. Sinto que nada tenho que possa dizer que existe, a não ser a dor, porque essa não sei como vive. Parece que tem olhos, ouvidos e tudo o que se possa chamar ser. Ela vive o mais fortemente, ela viva a mais não poder viver. Ó dor, ó dor, minha amada, eu não posso separar-me de ti. Quero-te indizivelmente, porque só tu me elevas ao meu Senhor. Repetem-se os punhais, repetem-se os espinhos uns sobre os outros como montes de moinha. Ai, se eu ao menos consolasse a Jesus e a Mãezinha! Se eu desse à Trindade Divina a glória, a honra, a reparação devida! Pobrezinha! Nada dou!... Nada em mim se aproveita. A inutilidade, a pavorosa inutilidade, tudo me vem roubar. Meu Deus, meu Deus, morro desfalecida, morro nas trevas, nada vejo. Tenho tanta necessidade de luz, de amparo, de conforto! Valei-me, ó Céu, valei-me, ó Céu!... Na terra parece não existir ninguém a meu favor. Para mim não há luz, nem guia. Para mim não há sol nem vida. Meu Deus, tudo é morte! Meu Deus, tudo é morte! Não posso falar. Como é grande e doloroso também o estado do meu corpo! O meu horto de ontem, o meu calvário de hoje foram torturantes de agonia e pavor constantes. Quando, hoje, caminhava para o calvário, todo o meu ser era sangue, na alma e no corpo. O coração desfeito pela dor parecia desfazer-se fio a fio como pano apodrecido. Fui arrastada pelos cabelos ensopados em sangue. Lágrimas, muitas lágrimas de sangue rolavam-me pelas faces. Sem nenhuma gota de sangue, sob o peso das maiores humilhações expirei na maior agonia. Pouco depois de entregar ao Pai o espírito e ficar no silêncio da morte, veio Jesus, triste, mas com toda a Sua vida e com todo o Seu amor, aqueceu-me com o Seu fogo, deu-me a Sua vida e falou-me assim:

— “A ira, a ira, a ira do Senhor!... Estou triste, muito triste, minha filha, com o dia da justiça de meu Pai. O dia da ira, o dia da ira, o dia da ira aproxima-se, minha filha. Ai do mundo, ai de Portugal, que não soube nem sabe aproveitar-se das graças de Jesus. Estou triste, triste, muito triste, esposa minha. Tantos convites, tantos avisos e a pobre humanidade não atende. São horas, são dias de lágrimas, muitas lágrimas, e não de alegrias, falsas alegrias. Fala às almas, fala às almas, para quem foste criada. Fala às almas, fala às almas enquanto é tempo, tu que és mãe. Não as deixes perder. Condu-las sempre ao meu Divino coração e ao de minha Bendita Mãe. Estou triste, muito triste, tristíssimo, minha filha, por tantas coisas.”

— Jesus, Jesus, unimos as nossas tristezas, ou melhor, meu Amor, prefiro: passai para mim a Vosso tristeza. Sou sempre a Vossa vítima. Só isto exijo: graça e força. Alegrai-Vos, meu Jesus, e deixai-me a mim na tristeza, sempre na tristeza e na dor.

— “Minha filha, minha filha, florinha eucarística, tabernáculo do Altíssimo, estou triste com o mundo, com os pecadores. Não se convertem, ofendem-me tanto, tanto! Estou triste com os que se opõem à minha bendita causa. Foi, tem sido sempre a oposição demasiada. É a perseguição satânica, é veneno de víbora. A tais oposições, a tal veneno, Eu hei-de pedir estreitas contas, rigorosas contas. Das coisas pequeninas Eu faço coisas belas, as maiores maravilhas. Eu delicio-me nos humildes. Trabalho entre os humildes e quantas vezes com os instrumentos mais fracos, mais pequeninos. Mas aí Eu faço o que há de maior, o que há de mais prodigioso.”

— Ó Jesus, queria obedecer, bem me compreendeis. Tenho tanto medo de mim!

— “Basta, basta, heroína. O teu receio é para Mim a maior consolação! Não e preciso mais nada. Eu digo tudo. A palavra do Senhor não volta atrás, quando não for dita sob condições. Estás aqui, estás aqui, sempre aqui. Tu comigo e Eu contigo. Reparai, reparai bem no que está escrito há dez anos. Complete-se, complete-se o incompleto. Ponha-se na verdade o que está no erro. Eu quero a profundeza nas coisas de Deus e não nas coisas da terra. O que é Deus! O que é o homem! De que vale tudo o que é do mundo, se se perde Deus. Em verdade, em verdade te digo, esposa querida. Se o mundo se calasse, eu faria que falassem as pedras a exaltar a glória do Senhor. Coragem, coragem, minha filha. Coragem em tudo, coragem em todos os que trabalham na minha causa, coragem em todos os que sofrem.

Vem receber a gota do meu Divino Sangue. Uma forte efusão de amor encheu o teu coração. Uma gota grande de Sangue Divino já corre nas tuas veias. É Jesus a velar, é Jesus a reparar as forças perdidas. É o alimento divino a alimentar-te mais fortemente. Comunica este amor, esta vida, tudo o que de mim recebes. Distribui, distribui, dá às almas com abundância, com muita abundância. Pede oração, pede penitência, pede emenda de vida. Agora peço Eu, Eu, Jesus, mais ainda. Repito, repito: haja luz, haja luz, haja luz! Faça-se luz sobre o farol do mundo, sobre a escora da justiça de meu Pai.”

Ó Jesus, não Vos esqueçais dos meus pedidos, não Vos esqueçais, meu Amor, da humanidade inteira. Sede a minha força, sede o meu conforto. Eu sou a Vossa vítima. Ó Jesus, fico sossegada? Obedeci? Cumpri o meu dever?

— “Sossega, sossega! Confia, confia, confia, esposa fidelíssima de Jesus. Fica em paz. Fica em paz e leva a minha paz.”

— Obrigada, obrigada, meu Jesus, meu doce Amor. Velai sempre pela mais miserável e a mais indigna das Vossas filhas.

24 de Julho de 1953 – Sexta-feira

A vontade está pronta, mas só essa quer e aceita a vontade santíssima do Senhor. A natureza quer, parece que se esforça por se sacudir sob o peso da cruz. A vontade está mais firme que a rocha. Sem ter ser, tem sorrisos, tem coração que ama, tem lábios que beijam, tem braços que abraçam tudo o que vem do Céu, tudo o que vem de Jesus. que luta, meu Deus, que luta! A natureza contra a vontade. A vontade ama a cruz, a natureza parece revoltar-se contra ela. Tenta fugir por toda a parte. Só Jesus é o sábio deste meu sofrimento, só Ele pode compreendê-lo. A minha ignorância não me deixa exprimi-lo e a inutilidade que tudo mata, que tudo me rouba. Tenho necessidade de dizer coisas, muitas coisas, mas não posso, pelo meu sofrimento. O coração não deixa de falar. Parece que com um sopro diz tudo ao mundo e o faz compartilhar daquilo que está cheio. Na noite de quarta para quinta-feira vi diante de mim uma imagem do Coração Divino de Jesus em tamanho natural. Por detrás dele estava a cruz. Só lhe vi três pedacinhos: dois adiante das mãos e um acima da cabeça. O Coração de Jesus estava no centro do seu peito. Era tão grande, enchia-lho todo. Fervia, escacholava, deitava fora. Estava todo rodeado de chamas as quais me deram toda a luz para poder ver tudo. Compreendi que Jesus queria amor e queria dor. Não conversámos, mas esta visão deu conforto à minha alma. Nada disse a ninguém e nada fazia conta de dizer. Foi grande o temor que me invadiu, o receio de me ter enganado. Hoje o colóquio de Jesus levou-me a ter que dizer alguma coisa. Quanto mais vou vivendo, mais me vou separando do horto e do calvário, mais parece que lhe fujo, maior é a minha indiferença. Ontem abismei-me naquele solo duro. Ele abria-se em fendas nas quais eu me mergulhava e misturava com a terra na maior dor e agonia.

Hoje, na viagem para o calvário, não era eu que caminhava, era uma outra vida que o meu ser tinha. Essa vida abria um novo caminho da amargura. No entanto, estes ficavam amolecidos, regados com o meu sangue. No cimo da montanha, esta vida removeu sempre o rochedo de que ela estava formada. O sangue continuou a regá-la e a vida do Céu tinha que lhe ser dada. O abandono era completo, a mesma vida do Pai se comunicava à minha. Foi Jesus e não fui eu que ao Pai entregou o seu espírito. No entanto, a minha alma sentiu a separação do corpo. Após algum tempo desta separação e silêncio de morte, veio Jesus, cheio de vida, encheu-me dela e com muita doçura falou-me assim:

— “Sacrário ditoso, sacrário de delícias é o teu coração, minha filha. É ditoso, porque me possuis; delicio-me nele, consolo-me nele, não posso separar-me dele. És tu ditosa e Eu sou exaltado e nele deliciado. O mundo, o mundo, os homens, os homens! São poucos, muito poucos aqueles que conhecem a minha vida nas almas. Tudo isto entristece e faz sofrer o meu Divino Coração. A dor é mais intensa e profunda quanto mais esses homens me pertencem e deviam ser dignos de mim. Não é compreendida a minha vida nas almas, porque não se compreende verdadeiramente a grandeza da graça nas almas. Uma alma em graça, uma alma revestida de Cristo vive esta mesma vida, dá em tudo provas da verdadeira vida de Cristo. Coragem, coragem, minha filha, coragem, louquinha, louquinha da Eucaristia. Coragem, coragem, louquinha, louquinha das almas. Jesus vive em ti, compreende-te, lê no teu coração. Cruz e amor, cruz e amor, amor  e dor. Na cruz está a dor, minha filha, na cruz está a dor. Foi a razão que eu fiz que me visses unido à cruz, mas todo a arder em amor.”

— Ah! Sim, meu Jesus, já sei, não ia dizer nada. Foi na noite de quarta para quinta, não foi, meu Jesus? Bem sabeis porque eu nada dizia: sou sempre a mesma duvidosa, duvido de tudo o que em mim se passa. Eu vi bem claramente, mas temia enganar-me. Eu só vi os braços da cruz, o que ia adiante das Vossa divinas mãos e o que ia na Vossa sacrossanta cabeça, mas compreendi bem que era a cruz. Vós não estáveis nela crucificado. Era a imagem natural do Vosso Divino Coração. Ele fervia como panela sobre o lume, Jesus. as chamas que d’Ele saíam iluminavam tudo; foram as que me fizeram ver a cruz por trás de Vós, meu doce Amor. Nada disse e nada diria.

— “Eu conheço o teu receio, minha filha, eu já to tenho prevenido para tudo dizeres.”

— O pior é o medo, Jesus! Se não fosse isso!... Perdoai-me, perdoai-me, mas eu parece que já estou cheia de Vós. Não é de Vós, meu Jesus, mas é das Vossa coisas. Parece de Vós, mas é o medo que me faz tudo. Se me désseis a escolher, eu nunca, nunca quereria ter tido um colóquio conVosco. Queria amar-Vos tanto quanto Vós quereis que Vos ame, já não digo quanto merecíeis, porque isso é impossível; queria sofrer tudo, tudo por todas as almas, mas mais nada, nada eu quereria. Mas, como não tenho querer, aceitei e aceito, meu Amor. Perdoai-me, é um desabafo de filha para o seu Pai. Mas agora, Jesus, tendes de dizer se me perdoais. Já sei que perdoais: basta o Vosso contentamento, o Vosso sorriso, Jesus, para dizerdes tudo.

— “Pensas que não sou Eu que permito tudo isto? É luz, mais luz que Eu dou, são provas, mais provas de que estou Eu em ti, só Eu, minha filha. Estás perdoada, bem sabes que o teu Jesus tudo perdoa, e o que quer é perdoar aos maiores pecadores. Ah! Se eles quisessem aceitar o meu perdão, até esses, até esses, minha filha, seriam perdoados. Eles não querem, eles não querem, eles não querem aceitar o perdão do Senhor. Ai o mundo, ai o mundo, minha filha, ai a ira do Senhor, ai a ira do meu Pai sobre o mundo. Fala às almas, fala às almas, fala-lhes, convida-as todas a virem a Mim, ao meu Divino Coração. Tem coragem, tem coragem, tem coragem. Dentro em pouco, muito em pouco vão realizar-se aquelas palavras que já há muito te disse: os meus colóquios vão ser para um conforto e quase que nada mais. Dou conforto e a gota do meu Divino Sangue que não deixarei de te dar enquanto estiveres na terra. E vem agora recebê-la. Os nossos corações uniram-se. Fizeram choque um contra o outro. A gota do meu Sangue passou. O meu tomou a forma de infusa e sobre o teu deixou cair uma gota abundante de Sangue Divino. É o teu alimento. Quanto mais a dor te consumir, maior gota de sangue recebe o teu coração. Coragem para ti, coragem para todos, coragem e confiança. O inferno nada pode contra o Céu. Recomenda sempre, recomenda, lembra. Lembra sempre oração, penitência e emenda de vida.”

— Ó Jesus, sou a Vossa vítima, a Vós me abandono pela Mãezinha. Fazei de mim o que Vos aprouver. Sede sempre a minha força e a força dos que sofrem comigo por minha causa. Ai como custa, meu doce Amor! Sou a Vossa vítima, Jesus, sou vítima da Justiça do Vosso Eterno Pai. Fazei que ela se afaste, fazei que não caia sobre nós a Sua ira. Lembro-Vos a todos os que me são queridos e todos os que querem as minhas orações. Ó Jesus, lembro-Vos os amigos e os inimigos, lembro-Vos a humanidade inteira. Obrigada, meu Jesus, obrigada pelo Vosso amor. Estou a nadar nele. Obrigada, obrigada!

31 de Julho de 1953 – Sexta-feira

A minha vida de cada dia, o meu pão de cada momento, da noite e o do dia, é a dor. Meu Deus, quanto eu tenho sofrido! É grave, muito grave o meu sofrimento! Será a morte que vem buscar-me? Será que se aproxima o meu grande dia, o meu maior dia? Não sei: só Jesus o sabe. Seja o que Ele quiser. Uma só coisa me prende à terra, mas essa mesma é só por Jesus e pelas almas. É Ele a causa desta prisão. Ninguém me vale. Os que podem não querem; os que querem não podem. Parece que não tenho ninguém por mim. Sede bendito por tudo, meu Senhor. Sede Vós o meu Amigo justo e infalível. Confio no Vosso amor e misericórdia infinita, apesar de profundamente ver o meu nada e saber que nada Vos mereço. Ai, os segredos da minha dor! Ó inutilidade, ó inutilidade, o que me fizeste tu! A dor não é minha; o meu horto e o meu calvário já não têm vida. Ontem, a minha dor enchia o mundo e enchia o Coração de Deus. As minhas ânsias de possuir o mundo, de o meter todo dentro dum Coração, que não era meu, eram infinitas; não podia aguentá-las; quase me tiravam a vida; fizeram-me agonizar sobre o solo do Horto.

Hoje, o meu calvário morto tinha lágrimas. Estas mergulhavam nela a humanidade inteira. Esta morte bradava e junto a ela havia a dor infinita e as ânsias infinitas de ao mundo dar a vida. No calvário agonizei, ou melhor, eu já estava morta e outra morte sobreveio. Na primeira fez-me desaparecer. Era eu sem Jesus, fora de Jesus. Passaram-se momentos. Ele veio unir-se a mim. Então eu já era outra a viver n’Ele, d’Ele e para Ele. Falou-me assim o meu Amado, no meu coração:

— “Desceu a ti a vida do Céu a comunicar-te mais e mais a mesma vida de que tu só vives. O que é de Deus vive para Deus. O que é do mundo vive para o mundo. Todas as criaturas foram criadas para Deus, mas a maior parte vive como se Deus não existisse, vive como se a vida da terra fosse duradoura, fosse eterna. Ah! Minha filha, se tudo isto fosse bem compreendido! Se toda esta minha vida nas almas fosse posta em prática! Não havia dívidas, tantas dúvidas. Dúvidas que muito entristecem o meu Coração Divino, o meu Coração de Pai. Quando eu encontro uma alma verdadeiramente generosa que se entrega toda, toda a Mim, que se submete em tudo e para tudo à minha divina vontade, faço tudo nessa alma, opero nela as maiores maravilhas em favor de milhões e milhões de almas, em favor da humanidade. São raras, raras, muito raras essas almas generosas. Mais havia, se houvesse mais luz, mais amparo e não fossem tantos voos cortados. Quanto encontro nestas poucas, tudo, tudo o que Eu faço, o que Eu faço!... Obras minhas, obras minhas… Meios extraordinários, os maiores meios extraordinários, esses que raras vezes são compreendidos para salvar os filhos meus. Para ser mais e mais provado o meu poder, maiores prodígios, maiores prodígios tenho que obrar e operar. De tudo me sirvo para livrar as almas do inferno. Para que essas portas se fechem, é preciso força, dor, dor, generosidade, amor louco, amor louco.”

— Ó Jesus, ó Jesus, sinto, compreendo que as Vossas palavras tenham um fim alto, uma grandeza infinita! Elas têm a Vossa sabedoria, bem o compreendo. Mas não sei, isso não sei, onde elas vão parar. Não lhes vejo o fim. Que campo infinito! Não me importo, seja o que for, meu Jesus. Eu dou-me a Vós, renovo a minha oferta. Não sou minha, mas sou Vossa, meu Jesus. Não vivo para mim, mas sim para Vós. Fazei desta pobrezinha, a maior pobrezinha, o que Vos aprouver, tudo o que Vos aprouver.

— “Minha filha, esposa querida, não são para ti, são para as almas os meus colóquios. Tu és a possuidora da luz, mas não és tu a fazer aparecer essa luz. Haja luz; faça-se luz! Depressa, depressa! O bem é para as almas, o bem é para a humanidade. Tu és o porta-voz de Jesus, transmites o que te diz Jesus. A luz está em ti, a luz sai de ti, mas não és tu a abrir essa luz. A tua missão nobre, nobilíssima, não acaba na terra, tantas vezes o tenho dito. Ela vai continuar no Céu. E vai continuar com mais brilho ainda. No Céu não entram estorvos, no Céu não entra o veneno. Esse veneno de víbora, esse veneno satânico. Esse veneno, se Jesus quisesse, ah! se Jesus quisesse, mostrava todo o lugar onde ele está. Coragem, minha filha, fala às almas no pouco tempo que te resta de vida na terra.

Vem receber a gota do meu Divino Sangue. Que profunda união, que inigualável união da esposa com o seu Esposo! Uniram-se os nossos corações. A gota do Sangue passou. Foi grande, grande, precisava de ser grande. A dor tudo em ti consome. Sofre, sofre sempre a sorrir, sempre a vontade a sorrir. A dor purifica, eleva, salva. A dor é salvadora. Coragem, coragem. Fica na tua cruz. Jesus está contigo, Jesus não te abandona. Não esqueças o convite de Jesus: penitência, oração, emenda de vida.”

— Ó Jesus, sou a Vossa vítima; sede a minha força. Só conVosco conto e com a Mãezinha. Apresento-Vos num molhinho todos os meus pedidos, todos, todos, não Vos esqueçais. Obrigada, obrigada, meu Jesus, pela Vossa terna, amável e doce companhia!

   

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