5 de Junho de 1953 – Primeira
Sexta-feira
Temo e tremo sob o
peso da minha cruz. Não sei como levá-la, não sei como ser fiel ao Senhor.
Queria dizer muito, tenho necessidade de dizer tudo e poucas palavras posso
dizer. E o pouco que digo nada representa para o que me vai na alma. Parece que
tenho dentro em mim um alto-falante que ecoa no mundo inteiro. Sinto como se ele
amolecesse os rochedos das montanhas. Para mim, o meu maior calvário é ver-me
rodeada da multidão de gente que se abeira de mim. É o meu mais doloroso
calvário, a minha mais dolorosa dor. Mas ao mesmo tempo parece que está um motor
a trabalhar, a mover os meus lábios, sem os poder deixar parar. Saio fora de
mim, sou como uma casca de ovo, como um sopro que me vou mergulhar num outro
espírito, numa vida que não é minha. Não posso dizer mais do muito que tinha de
dizer, não humanamente, mas infinitamente. O meu horto de ontem foi tão triste,
foi tristíssimo. Ai, meu Deus, quanto eu sofri. Falei a milhares de almas.
Falaria bem? Faria a vontade de Jesus? Fiz o que pude. Fiquei como de pé sobre o
solo do horto. Tinha uma vida do Céu. Estava sobre ele triunfante. De repente
envolvi-me na terra, manchei-me nela e por ela tive que responder ao Pai. Hoje,
de manhã, fui para o calvário, caminhei sozinha, mais triste que a noite, sem
nunca encontrar Jesus. No alto da montanha, de repente, sem saber como, todo o
mundo caiu sobre mim e me invadiu em todo o calvário com o peso de toda a
humanidade, sempre sem Jesus. A morte prolongou-se por muito tempo. Veio depois
Jesus. Iluminou-me e dentro do meu coração falou-me assim:
— “Amor, amor, amor
vem pedir Jesus. Amor, mais àqueles de quem sou amado. Tenho sede, sede, muita
sede. Tenho sede, sede, sede e não sou saciado. Pede amor, pede, minha filha,
pede ao meu divino Coração. Sofre, sofre, minha filha! Repara a justiça do meu
Eterno Pai. Sofre, sofre, minha filha! Dá ao meu divino Coração a reparação
necessária. Avante, avante, na tua missão sublime. Coragem, coragem! Tu não
estás sozinha, filhinha. As almas, as almas!... Quero que se salvem as almas!
Foram para os que Me amam as minhas primeiras palavras. São para aqueles que
andam afastados de Mim, tudo o que vou dizer, todos os meus queixumes, toda a
minha dor. Vê, minha filha, como está ferido o meu divino Coração.”
— Custa-me tanto,
tanto, meu Jesus, ver este rio de sangue que sai dessa chaga profunda. Já vejo,
meu doce Amor, que nada valem os meus sofrimentos se não evitam os Vossos. Ai,
tanto sangue, Jesus!... Onde está a minha missão, como Vós dizeis, meu Amor?
— “Sossega,
sossega, florinha eucarística. Vês o Sangue com as ofensas que me dão. Mas são
salvas as almas pela tua sublime missão, pelo teu calvário, pela tua cruz. Se
não fosse a tua reparação, perdiam-se as almas aos milhões, aos milhões. É
nobre, é nobre a tua missão. É nobilíssima. Encanta o Céu, encanta a terra, os
que compreendem os encantos, as maravilhas do Senhor. Avante, avante, a vós
todos a quem o Senhor vos chama. Coragem, coragem! A hora é grave. Mãos à obra,
mãos à obra. Quero as almas, quero as almas a todo o custo, com toda a dor.”
— Jesus, sou a
Vossa vítima, sou a Vossa vítima. Fazei estancar o Sangue dessa chaga divina,
dessa chaga profunda. Não tenho outras aspirações a não ser consolar-Vos, a não
ser salvar-Vos as almas. Ó meu amantíssimo Senhor, sou a Vossa vítima, mas quero
que todas as almas se salvem, as da minha família, Jesus, as da minha terra, as
que me são queridas, as que me pedem orações e as do mundo inteiro, Jesus. Se me
quereis aqui, até ao fim do mundo, presa, estou pronta. Já o sabeis já Vo-lo
tenho dito.
— “Vem, louquinha
eucarística, vem louquinha das almas, vem receber conforto. Inclina-te ao meu
divino Coração. Coragem! Comigo triunfas. Coragem! Já não vês mais Sangue. Foste
tu, não fui Eu. Foi a tua oferta que o estancou. Coragem! Os pecadores andam tão
perdidos, tão loucos nas paixões. Fiz tudo, faço tudo para os salvar. São meus
filhos, são meus filhos.”
— Ai, meu Jesus! Se
Vós mostrásseis uma vez o inferno para ver se todos arrepiavam caminho! Eu não
sei mais o que hei-de fazer, meu Jesus.
— “O que tens
feito, minha heroína, pupila dos meus olhos! Não exijo ais de ti. Se Eu
mostrasse o inferno, muitos ainda não acreditariam. Tenho os meus discípulos a
falarem na terra. A dor, a dor, minha filha, sim, a dor. A dor, a reparação é
que a todos pode salvar, a todos os que querem a salvação. Vem agora receber a
gota do meu divino Sangue. Oh! Maravilha, oh maravilha do Senhor, oh prodígio
encantador! Os anjos, pelo tubo dourado, uniram os nossos corações. Passou a
gotinha de Sangue, passou a tua vida, o teu alimento. Já não vives na terra,
vives no Céu. Passou também a efusão do meu amor. Enche, enche o teu coração.
Enche-te para comunicares este amor. Enche-te para deixares transparecer a minha
graça. Fala às almas, fala às almas, fala ao mundo, fala ao mundo, tu que és luz
e farol do mundo, tu que continuas a mesma obra de salvação. Pede oração, pede
oração, pede penitência, pede emenda de vida. Fica na tua cruz e tem coragem,
minha filha. O teu Céu aproxima-se.”
— Ó Meu Jesus,
muito obrigada pela vida, pelo conforto e amor que me destes. Dai-me a Vossa
graça, Jesus, e alcançai-me a graça que bem sabeis, que bem sabeis, a graça de
bem saber levar a minha cruz. Ai, tantas impaciências, meu Amor! Tenho tantos
pecados!
— “Coragem,
coragem! Tenho que esconder-me nas tuas faltas. É nelas que eu escondo a minha
grandeza. Fica na paz e dá a minha paz.”
— Ó Jesus, muito
obrigada. Peço-Vos mais uma bênção Vossa, uma bênção da Santíssima Trindade e da
querida Mãezinha para todos os que me são queridos, para todos os que me
protegem, para todos os que me pedem, para a humanidade inteira, fiéis e
infiéis.
— “Vai em paz.
Estão dadas todas as bênçãos, todas as graças.”
— Obrigada, meu
Jesus. Obrigada, meu Amor, o meu eterno obrigada!
6 de Junho de 1953 – Primeiro
Sábado
No meio de um
grande pavor e com a minha alma despida, num vazio infinito, preparei-me para a
vinda de Jesus. Ele entrou no meu coração. Foi como se nascesse nele o sol com
os seus raios fortes, luminosos e ardentes. Aqueceu-me, encheu-me. Fiquei cheia,
muito cheia. Pouco depois ouvi a Sua divina voz, muito doce e terna a falar-me
assim:
— “Entrou o sol,
entrou o fogo, entrou o amor no teu coração, minha filha. Sou sol, sou fogo, sou
amor. Sou rei do teu coração. Tu és a princesa de Jesus. Tu és o encanto de
Jesus e a louquinha das almas. Fortalece-te, fortalece-te. É esmagadora a tua
cruz. Confia que o Senhor é contigo. Confiai que o Senhor é convosco. Tenho
fome, tenho fome, fome da humanidade, minha filha. Como ela se perde!... Oh!
Como ela se perde!... Acode-lhe, acode-lhe. Salva os pecadores, salva os
sacerdotes. Andam tantos, tantos na vida do pecado!... Que tristeza para o meu
divino Coração! Que dor!... Que dor!... Escolhi-os para Mim! Escolhi-os para
amarem e fazerem amar! Que infidelidade! Que ingratidão!... Não Me amam!...
Ofendem-Me horrivelmente e fazem que muitos, muitos Me ofendam. Ó minha filha, ó
minha filha, ó minha filha, oferece-te muitas vezes ao meu Coração amantíssimo
como vítima deles. Casos difíceis, os mais difíceis te estão recomendados.”
— Ó meu Jesus, a
Vossa dor, a Vossa tristeza comunicou-se ao meu coração. Não tenho aquela luz,
aquela luz brilhante, quando baixastes a mim. Bendito sejais!
— “Coragem,
coragem, florinha eucarística, louquinha do sacrário, louquinha das almas. És
vítima, és vítima. Olha, minha filha, minha querida filha, diz ao teu Paizinho
que fiz dele vítima de muitas, muitas impurezas, muitos, muitos pecados,
tremendos pecados dos sacerdotes. Diz-lhe que a sua pureza foi para reparar
muitas. Muitas impurezas. Diz-lhe que Jesus e Sua Mãe Santíssima o amam, o amam
loucamente. Ele está envolvido no manto da minha Mãe Santíssima. Está em Seus
braços como a criancinha no colo de sua mãe. Dá-lhe o amor sem fim, o amor
infinito dos nossos corações. Diz ao teu médico que nele me alegro, nele me
consolo, nele me delicio. Estou bem, estou bem. Sinto-me bem no seu lar
abençoado, no seu jardim florido. Diz-lhe que muitas coisas permito para
espinhos do seu coração, para espinhos dos seus corações, para mais e mais os
aproximar de Mim. Diz-lhe que avante, avante sempre como guerreiro forte, como
guerreiro fiel ao seu Rei, na minha divina causa. Escolhi-o para amparo da maior
causa, da causa mais rica e brilhante que tenho na terra. Dá-lhe a chuva das
minhas graças, a chuva do meu amor. Vem, minha Bendita Mãe, dar novo conforto à
nossa filhinha. Temos que ampará-la e, ao comunicar-lhe as nossas tristezas,
darmos-lhe as nossas carícias e as efusões do nosso amor. Minha filha, minha
filha, sou o Coração Doloroso e Imaculado Coração de Maria. Mostro-te o meu
Santíssimo Coração ferido, como ferido se mostrou o de Jesus. Atende aos Seus
pedidos. As mesmas dores, os mesmos espinhos do seu divino Coração são os meus.
Estamos tristes, estamos tristes. Não negues nada a Jesus. Coragem, coragem!
Pelas almas, pelas almas! Avante, avante, pela sua salvação! Consola a Jesus,
consola-me a Mim. Consolai a Jesus; consolai-me a Mim! Diz ao meu querido Olavo
que a Mãe do Céu, o Coração Imaculado de Maria, lhe diz em nome de Jesus e em
seu nome: tudo está certo, tudo está bem. Muito tem consolado os Nossos
Corações. Dá-lhe a ternura do nosso amor.”
— Mãezinha,
Mãezinha, muito obrigada pelas carícias, pelo amor, pela luz que me destes. Não
me abandoneis, não me deixeis entristecer a Jesus. Fazei que eu possa levar a
minha cruz. Fazei que todos nós possamos levar a nossa cruz com o maior amor, a
maior perfeição.
— “Confia, confia!
Coragem! Muita coragem! Novas carícias de Jesus e de Maria. Novo conforto. Novas
efusões de amor para a luta, para a cruz, para o combate, para o calvário de
salvação. Coragem, minha filhinha, coragem. O teu Jesus, o teu Esposo está
contigo e contigo está minha Bendita Mãe. Vai em paz! Vai em paz!”
— Obrigada, Jesus,
obrigada, Mãezinha! Dai-me a Vossa bênção, Jesus; dai-me a Vossa bênção,
Mãezinha, para mim, para os que me são queridos, para toda a minha família, para
a minha freguesia, para todos quantos se abeiram de mim e para a humanidade
inteira. Obrigada, Jesus. Obrigada, Mãezinha. Sinto mais luz, mais coragem e
mais amor. Obrigada, obrigada, obrigada.
Nota. – No
dia 5 de Junho de 1953, dia da Ascensão de Nosso Senhor, a Alexandrina foi muito
visitada por pessoas que vieram de camionetas, comboio, automóvel, etc.
Registaram-se 80 caminhetas, mais de 100 automóveis, muitas bicicletas e pessoas
a pé. O número de visitantes foi calculado em 5.000. A Alexandrina falou 9,30
horas durante o dia. As visitas foram recebidas num sistema de vaivém,
demorando-se as visitas alguns minutos junto dela a pedir orações, conselhos, a
agradecer graças recebidas. Ofereceram-lhe flores, velas, fotografias, cartas,
etc. Ao fim do dia, dizia ela que ainda era capaz de receber outras tantas
pessoas.
No dia 10 de
Junho de 1953, porque era feriado nacional, a afluência foi maior, calculando-se
em 102 autocarros, 180 automóveis, muitas bicicletas, peões, etc. Foi calculado
em 6.000 pessoas que passaram pelo quarto da doente, num sistema de vaivém,
durante 12 horas, havendo um intervalo de 45 minutos. A todos dirigia umas
palavrinhas e ia recomendando sempre que fossem bons cristãos, cumpridores dos
seus deveres, que rezassem, que comungassem, que cumprissem todos os deveres na
família e na sociedade. Pedia penitência, oração, emenda de vida. Durante os
outros dias foi recebendo sempre todo o dia aos
grupos de 50, 60, 70. a todos fazia as mesmas recomendações.
12 de Junho de
1953 – Sexta-feira
Quero e não posso,
ou antes, sinto a necessidade de dizer tanto, de dizer tudo o que me vai na
alma, que é tão grande como o Céu, e não posso dizer nem sei dizer. Que tremenda
é a minha ignorância. Não se cala o meu coração. É indizível a sua ansiedade de
fazer ecoar em todas as montanhas da humanidade, de as destruir, de penetrar
nelas e delas fazer uma obra-prima das mãos de Deus. Tem apertos o meu coração.
Não sei o que é. Parecem mãos infernais a querer reprimi-lo e tentar calá-lo.
Mas ele quer ir longe, quer ir aos confins da terra e chegar até Deus. Não posso
e queria manifestar estes sentimentos, este conjunto de coisas, este nunca
acabar de coisas que tenho dentro de mim. É uma vida diferente da vida da terra,
que fala em mim, que quer manifestar-se, que quer dar-se, dar-se, consumir-se
até que tudo possa possuir. São tão grandes as coisas do Senhor! Sabe senti-las
e compreendê-las a minha alma, mas não sabem os lábios falar delas. Como Deus é
grande! Sinto em mim a Sua grandeza, sinto muito que Ele nos ama. Que amor, que
amor infinito!... Parece que não sei levar a minha cruz, e sempre a viver na
minha inutilidade. Depois de tanto sofrer, depois de tão pesada cruz que, dia a
dia, ela se torna para mim. Quantos espinhos, quantas humilhações, meu Deus,
quantas humilhações! O meu horto de ontem foi pavorosíssimo. Foi todo fora de
Deus. Foi todo esquecido de Deus. Que indizível agonia! Queria penetrar na
dureza do mundo e não pude. Fugia a tudo o que era do Senhor. Bradei muito e
muito intimamente ao Céu, sem ter socorro, sem sentir alívio.
Hoje caminhei para
o Calvário, por muito tempo, sem Jesus e sem cruz. Caminhava como se alguém me
levasse ou atraísse. A dor era indizível. A meio da viagem, num impulso de amor,
vi a cruz de Jesus. Atirei-me para ela. A ela me abracei e nela caminhei até ao
fim da montanha. Abracei a cruz e Jesus ao mesmo tempo. Nas três horas de
agonia, a agonia parecia fazer estalar as pedras. Tinha o Céu e a terra contra
mim. Era minha a maldade do mundo e sobre mim vinha a justiça do Senhor. A terra
revoltava-se, o Céu esmagava-me. Debaixo do peso das maiores humilhações, por me
ver rodeada de muita gente, expirei com Jesus. Momentos rápidos se passaram a
sentir a morte total. Bem depressa veio a vida, veio Jesus, encheu-me o coração
e falou-me assim:
— “Dia de graça,
dia de graça, dia de amor. Está aqui o Senhor, que desceu do Céu. Todo ele é
amor, todo ele é atracção. Filhos meus, filhos meus, atraio-vos ao meu divino
Coração pela vítima deste calvário. Avante, avante, coragem, minha heroína! A
tua humilhação é o enlevo das almas para mim. Sentes-te humilhada, és exaltada
pelo Senhor. Minha filha, louquinha do meu divino Coração, louquinha da
Eucaristia. És a louquinha das Personagens Divinas e do Coração Doloroso de
Maria. És a louquinha das almas, és a louquinha das almas. À semelhança da Minha
Bendita Mãe és a mãe dos pecadores, és a mãe da humanidade.”
— Sou tão
pobrezinha, Jesus. Não tenho nada de meu. Não posso fazer nenhum bem. As minhas
ânsias de amor, as ânsias de Vos dar almas pertencem-Vos, Jesus. Tudo é Vosso.
Vejo em mim um mundo de misérias: essas são minhas. Que pobrezinha! Que
pobrezinha, Jesus! Sou rica, muito rica de pecados, de todos os crimes, de toda
a variedade de vícios. Jesus, senti agora uma lançada no coração. Foi-me aberto
de cima a baixo.
— “Repara, repara,
esposa querida. São as lançadas que o teu Jesus devia receber repetidas vezes, a
cada momento. Não as recebo, não, minha pomba bela, lírio dos vales, açucena
pura. Não as recebo pela tua reparação. Não as recebo pelo sofrimento do teu
calvário, pelo sofrimento do vosso calvário.”
— Ó Jesus, ficava
triste, muito triste, se Vós as recebêsseis! Assim, meu Amor, já se modificou.
Sinta eu todas as lançadas a cada momento, mas o Vosso divino Coração, Jesus,
esteja no Céu livre de tudo, meu Amor. Estai sempre alegre, estai sempre
contente e consolado, meu Jesus. Eu sempre na tristeza, na dor, na amargura, no
Vosso amor. Só contente com a Vossa divina vontade. Se eu sofresse tudo com
perfeição, oh! Como eu me sentiria feliz! Que mar, Jesus, que mar de
imperfeições!
— “Louquinha,
louquinha, louquinha, tenho de encobrir a minha grandeza. Não pode ser vista na
terra tal qual ela é. Tenho de a encobrir nas tuas faltas. Fazes a minha divina
vontade, fazes a minha divina vontade. Estou contentíssimo contigo! As almas, as
almas vêm aos milhares, aos milhares, aos milhares para a graça, para o meu
divino Coração. As almas custaram-me a dor, custaram-me sangue, custaram-me
amor. Á minha semelhança por elas vais sofrer.”
— Que me importa
dar a vida, Jesus? que me importa dar a vida desde que a Vossa graça esteja
comigo, a Vossa fortaleza, o Vosso amor?! Sofro muito; desfaleço; temo
ofender-Vos. Só a minha vontade voa até Vós para abraçar todo o peso, toda a
cruz. Sem querer, Jesus, recordo os sofrimentos de há 10 anos. Desgosto-Vos com
isso, Senhor?
— “Nada, minha
filha. Sou Eu, é o Divino Espírito Santo que faz que te lembre tudo para maior
dor, para maior dor, para maior reparação. Foram anos de grande glória para o
Céu, de grande proveito para o Céu. E agora o teu Céu está perto. Espera-te
inigualável recompensa. Vem receber a gota do meu Divino Sangue. Passou a gota
do Sangue Divino, a vida que vives na terra. Os nossos corações uniram-se para a
gotinha do sangue passar, e passaram efusões, efusões do meu amor. Enquanto eles
estão unidos, deposito mais uma vez no teu todas as riquezas, todos os tesouros
do meu. É riquíssimo, é infinitamente riquíssimo o meu Divino Coração.
Riquíssimo, infinitamente riquíssimo fica o teu, minha filha. Quero-te cheia,
cheia, para te dares toda, toda às almas, à minha semelhança, como Eu me dei e
dou por elas. Pede amor, pede amor a quantos se abeirarem de ti. Fala-lhes,
fala-lhes de Mim. É a tua missão. Foi a missão que para ti escolhi. Pede amor,
pede reparação. Tem coragem! Tem coragem! Tende coragem, tende coragem! A hora
que passa é a mais grave de todos os tempos. Nunca, nunca se pecou assim. Ai do
mundo sem as minhas vítimas, ai do mundo sem a vítima deste calvário, calvário
das minhas maravilhas, calvário dos meus encantos.”
— Quereis deixar-me
triste, Jesus? Dizeis tantas coisas de quem nada é, a quem nada vale. Sou a
Vossa vítima. Quero ser sempre a Vossa vítima. Estreitai-me ao Vosso Divino
Coração.
— “Recebe nova
efusão de amor.”
— Obrigada, Jesus,
pelo Vosso conforto. Confortai a todos os que sofrem comigo. É neste dia do
Vosso Divino Coração, do Vosso Divino Amor, em nome dele Vos peço: valei-me,
valei-me e não Vos esqueçais da minha grande intenção, de todos quantos amo,
Jesus, de todos, de toda a minha família, da minha freguesia, mesmo dos mais
inimigos. De todos quantos se abeiram de mim a pedir intenções, e da humanidade
inteira. Toda ela entrego ao Vosso Divino Coração, portanto, ao Vosso amor.
— “Fica na cruz,
minha heroína. Fala sempre, fala sempre. Dá-me dor, dá-me dor; pede para que Eu
seja amado e nunca ofendido. Pede penitência, emenda de vida. Coragem!...
Coragem! Coragem!”
— Obrigada, meu
Jesus, obrigada, meu Jesus. O meu eterno obrigada!
19 de Junho de
1953 – Sexta-feira
A minha natureza, o
meu pobre corpo vai falhando, falhando, vai desfalecendo. Sinto até que nem
corpo tenho. Sou um sopro, que tem vida e nada mais. Reina a dor, a dor aguda
que me mói todo o ser. Mas este sopro tem uma vida, tem um eco que parece ecoar
no mundo, penetrar nele todo até nos rochedos, até ecoar no Céu e morrer no Céu.
Eu não vivo. Nada disto é meu. Dizer o que sofro, exprimir o que sofro é
impossível. Tenho a necessidade de expandir-me, de saber exprimir-me e gravar
bem aos olhares de todos o que é a dor e quanto custa a dor. Não posso. Não sei.
Foi tal a ignorância, foi tal a cegueira que me envolveu que até parece que
nunca vi e que nada soube compreender e raciocinar. São tão grandes os segredos
da minha dor, são incompreensíveis. Meu Deus! Meu Deus, que tormento o da minha
vida. Duvido de tudo. Eu nada me acredito. Como hei-de acreditar os outros? Eu
não quero enganar-me, nem enganar ninguém. Esta é a pura verdade apesar de
sentir que até nisto minto. As minhas ânsias são tão grandes, tão grandes, são
infinitas!... São tão grandes como Deus. Digo minhas, mas são d’Ele, pois só Ele
é infinito. Esta grandiosidade não é da terra. São ânsias de me dar, dar e
consumir em amor. São ânsias de pegar no mundo numa mão fechada e introduzi-lo
todo no Coração do meu Jesus. por maior que seja o meu desfalecimento, a minha
prostração, o motor que tenho dentro do peito não deixa de trabalhar. É motor a
vapor. Não há nada que o possa matar. É grande, muito grande, é indizível a
minha humilhação. Com a aproximação do povo, sem fugir à cruz, sem deixar de
fazer a vontade de Nosso Senhor, eu gostava de me encobrir debaixo da terra sem
ver ninguém, até mesmo a luz do dia. Como não quero outra coisa, a não ser a
vontade santíssima de Jesus, submeto-me a tudo, tudo sofro pelas almas.
Duas noites
seguidas, inesperadamente, sentia e ouvia choros e gemidos na minha alma.
Tormentosa agonia! É impossível dizer quanto me custou este tormento. O que
será, meu Jesus? Sou a Vossa vítima, seja o que for. O dia de ontem foi muito
tormentoso. Duro horto! Foi horto de lágrimas e de profunda dor. Não foi mais
que o rochedo sobre a terra. Não quis saber, não quis compreender o que era o
horto, não quis viver dele, nem aproveitar-me dele. A agonia foi para Jesus.
Hoje a viagem do calvário assemelhou-se ao horto. Sabia que alguma coisa de
misterioso havia, mas fugi sempre à luz, sempre à verdade. Fechei os olhos a
tudo, enquanto o coração e a alma morriam de dor. No tempo da agonia da cruz foi
tal a aflição que senti no corpo que me parecia, ou melhor, sentia que o coração
vinha a todas as veias do corpo apanhar todo o sangue que elas continham, para o
derramar e regar a cruz. Uma agonia indizível da alma e um tormento indizível do
corpo me levavam a dar a vida. Expirei no maior abandono. Não tive a companhia
de Jesus. bem depressa Ele veio a dar-me a Sua vida para eu viver e falou-me
assim:
— “Desceu do Céu,
veio nas nuvens Jesus para o coração da Sua esposa. Veio Jesus. O que veio Ele
fazer? Estai atentos, estai atentos. Vem chamar-vos, vem convidar-vos a entrar
no Seu Divino Coração. Desceu do Céu, veio nas nuvens Jesus e fala-vos do
coração da vítima deste Calvário. Que vos há-de dizer Jesus? Diz que vos ama,
ama, ama e quer o vosso amor, todo o vosso amor. Escutai, escutai. Aceitai o meu
convite. Vinde ao meu Divino Coração. Sois meus filhos. Sois meus filhos.
Atendei, atendei ao Pai que vos convida. Deixai a terra, deixai o mundo. Pensai
no Céu, vivei para o Céu. Estou triste, muito triste. Há tantas almas, tantas
almas que deviam ser mais minhas, unirem-se só a Mim, pensarem só em Mim.
Prenderam-se a tudo, ambicionam tudo, menos o que é meu, menos a Mim mesmo.
Chama-vos o Senhor, filhos meus, filhos meus. É grave a hora, é grave a hora!
Avante, avante, minha filhinha, esposa minha. Falo em ti e não para ti. Não
tenho mais a pedir-te nem tu mais para me dar. Peço-te a mesma imolação. As
almas, as almas!... Continua, continua a tua missão encantadora. Continua,
continua a tua missão de salvação.”
— Ó Jesus, ó Jesus,
ai o que eu sou! Continuo com as minhas maldades, continuo a ofender-Vos. Quero
a perfeição e não a tenho. Quero amor e não o tenho, e a Vossa graça, a Vossa
graça, meu Jesus, parece que a perdi. Não sei como, Senhor, continuar a minha
missão! Levai-me para onde quiserdes. Eu não posso caminhar. Eu estou pronta,
Senhor, pronta a seguir-Vos, pronta a sofrer, pronta a fazer a Vossa divina
vontade.
— “Fala, minha
filha, fala às almas. Estou sempre no teu coração a falar pelos teus lábios. Se
não fossem as tuas faltas, viam-me a Mim e não a ti. Viam a minha grandeza e não
a tua pequenez. Quero a conversão do mundo. Quero as almas para Mim. Calvário
glorioso! Portugal, ditoso Portugal! É o Portugal das predilecções de Jesus e de
Maria. É o Portugal dos encantos do Céu, dos encantos da Trindade Divina.”
— Ó Jesus, já há
duas noites, tantas vezes a minha alma chora. Sinto em mim tantos suspiros e não
sei o que é.
— “São suspiros,
são suspiros meus, florinha eucarística, esposa amada. Choro com os pecados do
mundo. Choro com as ofensas daquelas almas, daquelas almas que tu bem sabes. Se
tu visses quanto eu choro!... Os crimes com que sou ofendido!... Se tu visses
quanto eu suspiro, as maldades daquelas almas que Eu escolhi para Mim, morrias
de dor, morrias de dor, e hás-de morrer de amor.”
— Sou a Vossa
vítima, Jesus. Sempre a Vossa vítima. Não as condeneis ao inferno. Esperai,
esperai até que se convertam. Perdoai-lhes, perdoai-lhes. Imolai-me a mim,
sempre.
— “Vem receber a
gota do meu Divino Sangue. Os nossos corações uniram-se. A gotinha do Sangue
passou com efusões e efusões de amor. Maravilha! Maravilha! Vives a vida do
Sangue de Cristo. Vives a vida de Cristo. És a vítima de Cristo. Dá às almas
este amor, dá às almas esta vida. És das almas. Dá-te às almas. És de Jesus.
Vais para Jesus. Ditosas, ditosas todas as minhas ovelhinhas que se abeiram de
ti. O Céu é para elas.”
Jesus, não Vos
separeis de mim. Ficai sempre a ser a minha força. Lembro-Vos os que me são
queridos. À frente, Jesus, sempre a minha primeira intenção, as minhas
intenções. Lembro-Vos a todos os que me pedem orações. Lembro-Vos essa qualidade
de almas de que me falais. Lembro-Vos o mundo inteiro, meu Jesus.
— “Pede tudo, pede
sempre, filha querida. O Céu atende, o Céu cede às tuas preces. Fica na tua
cruz. Ficai na vossa cruz. Fica no teu calvário. Ficai no vosso calvário.
Ditosos, ditosos aqueles que vos auxiliam, suavizam a vossa dor. Alegra-te,
alegra-te. Coragem, coragem! Jesus está contigo. Jesus está convosco.”
— Obrigada, Jesus.
Obrigada, Jesus. O meu eterno obrigada. Confio em Vós.
26 de Junho de
1953 – Sexta-feira
Lanças sobre
lanças, setas sobre setas, espinhos sobre espinhos feriram o meu coração. Razão
tinha eu de há semanas dizer que não sabia o que vinha sobre mim. Não me enganou
a minha alma. Saiu certo o meu pressentimento. Principiou no domingo o meu duro
martírio. Ordens para novos exames. Meu Deus, quererem tirar-me daqui para fora
quando me parece que nem aqui posso resistir! O Senhor seja comigo. Desde esse
dia têm-se repetido os mesmos sofrimentos, tudo no mesmo sentido e a minha alma
vai vivendo a vida dum tribunal. Sinto-me diante de vários juízes, a ser
sentenciada sem ter ninguém que me defenda. Ninguém, ninguém, por mim. Só a
vontade está firme como a rocha. A pobre natureza desfaleceu de todo. Sinto-me
incapaz de poder resistir a tudo. Meu Deus! Meu Deus! Só o Vosso amor me cega,
só as ânsias de Vos consolar e dar almas me levam a sujeitar-me a tudo. Só para
diante do meu Jesus me sinto culpada, mas tenho que ser julgada e sentenciada.
Serei sempre a Vossa vítima, meu Jesus. Morra eu, quando morrer! O que eu quero
é obedecer em tudo, em tudo. O meu horto de ontem foi vivido com os sofrimentos
que acima estão ditos. Só de noite, e já alta noite, é que Jesus me apareceu no
solo do horto de braços abertos, pregado na cruz. Vi todo o Seu sofrimento,
uni-me a Ele. O calvário de hoje foi vivido da mesma forma. Não faltou quem me
encorajasse para o meu novo martírio, mas eu ferida como estou tive que viver o
mesmo, sempre o mesmo. Perto do fim da montanha, Jesus chamava-me lá do cimo:
“Vem, minha filha, vem ao meu encontro.”
Eu, que tinha tido
a dita, de manhã, de ter a Santa Missa no meu quartinho, senti como se a ela não
assistisse. Com estas palavras de Jesus senti-me mais animada. Fui unir-me a Ele
para na cruz ficar crucificada. A humilhação de me ver rodeada de tanta gente
foi grande a mais não poder ser. Só com o conforto de Jesus eu podia resistir.
Resumo isto ao menos possível por o meu mal ser grande e grave. Expirei com
Jesus. Ele não se apressou muito a dar-me de novo a vida, quando deu entrada no
meu coração. Soprou-me toda por dentro como se estivesse a acalentar-me e
falou-me assim:
— “Desce Jesus do
Céu à terra. Desce por amor, por toda a loucura de amor por vós. São poucos,
muito poucos os que se aproveitam das minhas graças. Desci por amor e tudo faço
por amor das vossas almas. Ai daquele que não se aproveita das minhas divinas
graças. Ai daqueles que deixam passar a minha divina voz como a aragem que
desaparece. Parai, parai todos no vosso pecado. Vinde já, vinde depressa de
encontro ao meu Divino Coração. Minha filha, minha filha, flor mimosa, florinha
eucarística, coloquei-te neste calvário, escolhi-te para este calvário para bem,
para bem de Portugal, para honra de Portugal, para bem, para bem, para honra da
humanidade inteira. Coragem, coragem! A tua missão nobilíssima, a mais árdua,
terminará depressa. O Céu, o Céu! Oh, que glória! Oh! Que triunfo do Céu! Tem
coragem, tem coragem! Sempre te assisti e assistirei. Sempre velei e velarei por
ti. As almas, as almas, salva-as aos milhões, aos milhões pelos teus
sofrimentos. Preparo a tua coroa, a mais rica, a mais bela. Por cada alma uma
pedra preciosa a orná-la.”
— Ó Jesus, ó Jesus,
sabeis tão bem, tão bem: da glória não sou ambiciosa. Não me importo da glória,
não me importo do prémio. É pura verdade, bem vedes, Jesus, que o é. Ambiciono,
ai que ambição que não pode ser maior, meu Jesus, de Vos consolar e dar todas as
almas, todas, meu Jesus, todas. Compadecei-Vos de mim. Só a vontade se mantém de
pé, firme, muito firme. A minha natureza, este farrapo desfeito pela dor, não
pode mais.
— “Ó minha filha, ó
minha filha, mãos à obra, mãos à obra! Falta tão poucochinho para o Céu! Eu
quero, Eu quero… dir-te-ei breve o que Eu quero. Para hoje, quero as almas,
almas, sempre almas. Dá o teu sangue, dá o teu sangue. Tens de tudo te
assemelhar a Mim. Dei-os até à última gota. Como não há-de dá-lo aquela que Eu
escolhi para cópia, a mais fiel, da minha vida?! Diz ao mundo, diz às almas que
basta, basta de Me ofender! É urgente, é mais que urgente a reparação. É
urgente, é mais que urgente a emenda de vida. Tu és o porta-voz de Jesus a
avisar, a avisar a pobre, a infeliz humanidade. Tu és o farol do mundo, a
iluminá-lo a minha luz divina. Dá luz às almas! Dá luz às almas! Fala-lhes,
fala-lhes ao coração. O teu coração está cheio de Mim. Comunica-lhes toda esta
abundância. Vem receber a gota do meu Divino Sangue. Dois corações unidos a
viverem a mesma vida, Jesus e a Sua esposa, Jesus e a Sua vítima a cada momento
imolada. A gotinha do sangue passou. Maravilha prodigiosa, a vida que te faz
viver. Fica no teu calvário, na tua cruz. Ficai no vosso calvário, na vossa
cruz. Coragem, coragem! O mundo, as almas obrigam-me a fazer-te sofrer assim.”
— Ó Jesus, antes de
me deixardes, ouvi-me, valei-me, valei-me, valei-me! Valei-nos! Lembro-Vos as
minhas grandes intenções, todos os que me pertencem e me são queridos, sem pôr
de parte a minha freguesia, Jesus, a todos os que se me recomendam e a
humanidade inteira. Perdoai-nos a todos, Jesus, e salvai-nos a todos. Sou a
Vossa vítima.
— “Vai em paz, vai
em paz! Dá a minha paz!”
— Obrigada, meu
Jesus, obrigada, meu Amor.
Nota: – No
dia 29 de Junho, a doentinha recebeu cerca de 15.000 pessoas. Foi este cálculo
feito por pessoas que se deram ao trabalho de observar o movimento. O serviço
estava bem ordenado e tudo correu normalmente, graças a Deus. Recebeu pelo
correio 50 cartas e por mão própria inúmeras. Quase todos eram portadores de
pedidos de orações em benefício de quem fazia as petições. Outras agradeciam
graças espirituais e temporais que os declarantes receberam por intermédio da
doente.
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