3 de
Julho
Não sei
se devido ao meu sofrimento, fiquei em grande prostração e quase
como que esquecida que o [Jesus] tinha recebido. Ó meu Deus, que
estado o da minha alma ! De repente, vi Jesus à minha frente,
pregado na cruz, e logo desapareceu. Se morta me sentia, morta
continuei : a vida parecia não existir para mim. Passaram-se uns
momentos. De novo veio o meu Amado, mas desta vez cheio de encantos.
É o Coração santíssimo de Jesus. O seu divino Rosto era tão belo !
Tudo era brilho, tudo era luz ! Aproximou-se de mim e segredou-me ao
mesmo tempo que me entregava o seu divino Coração com uma grande
chaga da qual saía uma enorme chama doirada que podia incendiar e
queimar todo o mundo :
— “Guarda, minha filha, em ti o meu divino Coração para que os
pecadores não possam mais feri-lo”.
Não sei
como o Coração do meu Jesus infundiu-se em mim. Perde-se em mim e eu
nele. Oh ! Como é grande o amor de Jesus!... Que transformação a da
minha alma! Já tinha vida, coragem e força para caminhar.
Ó
sofrimento, como és doce quando és levado por amor de Jesus. Mas ai,
quanto custa querer consolar e não poder, guardar o seu divino
Coração para satisfazer os seus santíssimos desejos e não saber
como. Pobre Jesus, a quem entregais o Vosso Coração para guardar?!
Aonde, Jesus, o poderei esconder para não ser mais ferido? Eu sou
miséria e podridão. Transformai-me, purificai-me e depois entrai em
mim. Amo-Vos e sou Vossa.
20 de
Julho
Jesus,
poderá ser, será possível a morte falar, o coração de um cadáver
sentir saudades do Céu e ânsias, ânsias de voar para Vós, louco,
louco por se esconder, por se perder na imensidade do Vosso divino
Amor? Jesus, Jesus, é a minha dor que Vos fala, é ela que vive, é
uma dor que nos fala, é ela que vive, é uma dor que nela se encerram
todas as dores. Jesus, sinto que o meu corpo já não é um cadáver no
qual os vermes da terra ainda não penetraram, um cadáver que, depois
de alguns dias ter baixado ao túmulo, pudesse ainda ser reconhecido.
Não, meu Jesus, não, nem cinzas tenho, tudo desapareceu. Ó meu Deus,
que morte a minha, lede na minha dor: é por Vós, é pelas almas.
Aguentai com o peso que me causou a morte, vede que sem Vós não
resisto a tantas saudades do Céu e com tantas ânsias de Vos amar não
posso estar aqui. A noite não tem estrelas, não há sol. Ó dor, ó
dor, só tu vives, só tu vives, só tu vives, mas não amas, não amas a
Jesus, não vives para Jesus. Ouvi, Senhor, o meu brado! Chegue até
Vós o meu clamor! Que será de mim, meu Deus, que será de mim, sem
Vós.
Ó luta,
ó luta, ó tremenda luta. Jesus, há um ano que terminou o meu
martírio na Foz: acabo de relembrar nestes quarenta dias tudo que lá
passei. Tendes em conta, Jesus, tão doloroso martírio? Eu não voltei
à Foz, mas quase posso dizer sofri tanto como quando lá estive.
Fizeste, ó meu bom Jesus, que tudo se renovasse: o meu sangue ia-se
espalhando gota a gota pelo solo, revivi tudo, Jesus. Tomai conta de
toda a minha dor, e, pelas almas, fechai o inferno. Fazei que eu Vos
ame e Vos faça amado: tenho fome de Vos dar o mundo inteiro. Ai, meu
Jesus, e as saudades de me alimentar não sou eu, não é o meu corpo
que sente fome e sede, pois eu já não existo, mas é um coração, é
uma alma como se fora a minha que sente essa fome e essa sede.
Ouviste, meu Jesus, que este tão duro penar me obrigou a dizer :
dava tudo, dava o mundo, dava a vida, se fosse possível, só por uma
pequenina alimentação. Que ânsias, que ânsias, meu Jesus, de tudo
possuir, para tudo dar. Estou louca, estou louca, Jesus, quero
amar-Vos, quero dar-Vos almas. Jesus, depois de tudo isto, não sei o
que é dor, não sei o que é sofrer, tudo desconheço, nada me
pertence. Lançai para mim os Vossos divinos olhares que quero fitar
para sempre os meus em Vós. Tende dó, Jesus, tende piedade.
27 de
Julho
Trevas
da noite, horrores da morte! Continua, Jesus, o brado da dor;
escutai, é ela que chora, é ela que grita pelo Vosso socorro. Jesus,
é dor que sente dor, é dor que outra vida não tem a não ser a dor:
tudo mais, meu Jesus, tudo mais baixou ao túmulo, passou para a
eternidade. Não vejo luz; parece-me, ó meu Deus, que nunca conheci a
luz, não sei o que é luar, o brilho do sol, nem o cintilar das
estrelas. Não sei o que é a vida nem o amor de Jesus. Ó meu Deus!
Como pode ser este estado que tem vida e tem coração que sente, e
que sente ele? Sente que foi rasgado e trespassado por dura lança,
sente que não pode ser mais ferido, sente que depois de estar assim
tão maltratado que ainda houve corações que lhe cravaram com outra
dura lança fazendo lembrar a Mãezinha das Dores. Grande crueldade e
ingratidão. E o que tenho sido eu para Vós e para a Mãezinha!
Mas
mais ainda a minha dor tem olhos que choram lágrimas de sangue e
choram continuamente na maior das amarguras, tem pés, tem mãos para
ser crucificados, tem cabeça para ser coroada de espinhos até
penetrar os ouvidos, invadindo a dor todo o corpo. Jesus, estou num
sobressalto, não sei o que pressente a minha dor. Ai, que horror,
tudo é tempestade, ameaças, ouço zunir os ventos, os ecos dos
trovões terríveis, ameaças de destruição, tudo fugiu espavorido e eu
sozinha no meio do mar, sem barco, sem leme e sem luz, prestes a
afundar-me para sempre no abismo do mar. Horror! Horror! A
tempestade rasga as nuvens, o Céu abre-se e revolta-se contra a
terra. Meu Deus, meu Jesus, que me espera ainda? Em Vossos
santíssimos braços me entrego. |