Alexandrina de Balasar
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CAPÍTULO 33Prossegue na mesma matéria da fundação do mosteiro de S. José. Diz como lhe mandaram que não se metesse nela e o tempo que a deixou e alguns trabalhos que teve e como neles a consolava o Senhor. 1. Estando pois os negócios neste estado e tão a ponto de se acabar, que no outro dia se haviam de fazer as escrituras, foi quando o Nosso Padre Provincial mudou de parecer. Creio que foi movido por inspiração divina, segundo se tem visto depois; porque, como as orações eram tantas, ia o Senhor aperfeiçoando a obra e ordenando as coisas para que se fizesse doutro modo. Como o Provincial não quis admitir a fundação, o meu confessor mandou que não me metesse mais nisso. Porém, o Senhor bem sabe os grandes trabalhos e aflições que já me tinha custado o levar as coisas àquele ponto. Como se pôs tudo de lado e ficou assim, mais se confirmou ser disparate de mulheres e a crescer a murmuração contra mim, apesar de meu Provincial mo ter mandado até então. 2. Estava muito malquista em todo o meu mosteiro, por querer fazer mosteiro mais encerrado. Diziam que lhes fazia afronta, que ali podia também servir a Deus, pois havia lá outras melhores que eu, que não tinha amor à casa; melhor era procurar renda para ela do que para outra parte. Umas diziam que me metessem no cárcere; outras, bem poucas, tomavam um tanto a minha defesa. Eu bem via que em muitas coisas tinham razão, e algumas vezes dava-lhes desconto embora, como não podia dizer o principal, que era mandar-mo o Senhor, não sabia que fazer e assim calava. Outras vezes, fazia-me Deus muito grande mercê de que tudo isto não me desse inquietação, e com tanta facilidade e contentamento o deixei, como se não me houvesse custado nada. E isto ninguém o podia acreditar, nem ainda as mesmas pessoas de oração que tratavam comigo, porquanto pensavam que estava muito penalizada e corrida, e até o meu confessor não acabava de o crer. Eu, como me parecia ter feito tudo quanto podia, achava não estar obrigada a mais para cumprir o que o Senhor me tinha mandado, e ia-me ficando na casa, onde estava muito contente e a meu prazer. Ainda que jamais pude deixar de crer que se havia de fazer, não via já meio, nem sabia como, nem quanto. Mas tinha-o por muito certo. 3. O que muito me afligiu foi uma vez que, o meu confessor, como se eu tivesse feito coisa contra sua vontade, (também o Senhor devia querer que, daquilo que mais me havia de doer, não deixariam de surgir trabalhos), e assim, nesta multidão de perseguições, parecendo-me que ele me haveria de consolar, escreveu-me a dizer que já via, por tudo o que tinha sucedido, era tudo um sonho; que me emendasse dali em diante não querendo levar a minha avante, nem falando mais no assunto, pois via o escândalo que tinha acontecido e outras coisas, todas para causar sofrimento. Tudo isto deu-me mais pena, parecendo-meter sido eu ocasião, por minha culpa, de ofensa e que, se estas visões eram ilusórias, toda a oração que tinha era engano e que eu andava muito enganada e perdida. Apertou-me isto em tanto extremo, que fiquei toda perturbada e em grandíssima aflição. Mas o Senhor, que nunca me faltou, e em todos estes trabalhos que tenho contado, muitas vezes me consolava e dava forças — que não há necessidade de o dizer aqui — disse-me então que não me afligisse, pois tinha servido muito a Deus e não ofendido naquele negócio; mas fizesse o que me mandava o confessor, que me calasse por então, até que fosse tempo de voltar a isso. Fiquei tão consolada e contente, que já não me parecia nada toda a perseguição que havia contra mim. 4. Aqui me ensinou o Senhor, o grandíssimo bem que é passar trabalhos e perseguições por Ele. Foi tanto o acréscimo de amor de Deus e outras muitas coisas que vi em minha alma, que eu me espantava. Isto faz-me não poder deixar de desejar trabalhos. E as outras pessoas pensavam que estava muito corrida, e, sim que estaria, se o Senhor me não favorecesse em tanto extremo com mercê tão grande. Então começaram a ser maiores os ímpetos de amor de Deus de que falei e os arroubamentos, embora eu calasse e não dissesse a ninguém estes lucros. O santo varão dominicano não deixava de ter por tão certo como eu, que se havia de fazer mosteiro, e como eu não me queria meter nisso para não ir contra a obediência do meu confessor, negociava-o ele com a minha companheira e escreviam para Roma e buscavam meios. 5. Também começou aqui o demónio a procurar que, de boca em boca, se fosse espalhando e entendendo que eu havia tido alguma revelação neste negócio e vinham, pois, a mim com muito medo a dizer que andavam os tempos difíceis e podia ser que me levantassem alguma suspeita e fossem acusar-me aos inquisidores. A mim caiu-me isto em graça e me fez rir, porque, neste caso, jamais eu temi, que de mim sabia bem, que em coisa de fé ou contra a menor cerimónia da Igreja que alguém visse que eu ia, por ela ou por qualquer verdade da Sagrada Escritura, eu me ofereceria a morrer mil mortes. Disse, pois, que disto não temessem; muito mau seria para a minha alma se nela houvesse coisa que fosse de molde a eu temer a Inquisição. Se pensasse que havia de quê, eu mesma a iria buscar, mas, se fosse inventado, o Senhor me livraria e ficaria eu com lucro. E tratei-o com este meu padre dominicano que, como digo, era tão letrado, que eu bem me podia assegurar com o que ele me dissesse e disse-lhe então todas as visões e modo de oração e as grandes mercês que me fazia o Senhor, com a maior clareza que pude e eu supliquei-lhe que o visse muito bem e me dissesse se havia alguma coisa contra a Sagrada Escritura e o que achava de tudo aquilo. Ele me assegurou muito e, a meu parecer, fiz-lhe também proveito. Embora já fosse muito bom, daí por diante deu-se muito mais à oração e, para melhor nela se poder exercitar, retirou-se a um mosteiro da sua Ordem, onde há muita soledade. Aí esteve mais de dois anos. Tirou-o de lá a obediência, o que sentiu muito, porque dele tiveram necessidade, por ser a pessoa que era. 6. Eu, em parte, senti também muito quando se foi, pela grande falta que me fazia, — conquanto não o estorvasse —. Mas compreendi o proveito que daí lhe advinha; porque, estando com grande pena da sua ida, o Senhor me disse que me consolasse e não a tivesse, pois que ia bem guiado. Veio de lá tão aproveitada a sua alma e ia tão adiante nas vias de espírito, que então me disse que, por nenhuma coisa, quisera ter deixado de lá ter estado. E eu bem podia dizer o mesmo; porque, se antes me assegurava e consolava só com suas letras, agora já o fazia também com experiência de espírito, que tinha muita, de coisas sobrenaturais. E trouxe-o Deus quando Sua Majestade viu que havia de ser necessário para ajudar a Sua obra, a deste mosteiro, que Sua Majestade queria que se fizesse. 7. Estive, pois, neste silêncio, não me metendo nem falando neste negócio, cinco ou seis meses, e nunca o Senhor mo mandou. Eu não entendi qual era a causa, mas não se me podia tirar do pensamento que se havia de fazer. Ao fim deste tempo, tendo-se ido daqui o Reitor da Companhia de Jesus, trouxe Sua Majestade outro muito espiritual e de grande ânimo, entendimento e boas letras, ao tempo em que eu estava com grande necessidade; porque, como o que me confessava tinha Superior e eles têm em extremo esta virtude de não se moverem senão conforme à vontade de seu Maior, embora ele entendesse bem o meu espírito e tivesse desejo de que eu fosse muito adiante, não ousava determinar-se em algumas coisas, por várias causas que para isso tinha. E já o meu espírito ia com ímpetos tão grandes, que eu sentia muito tê-lo atado e, contudo, não saía do que ele me mandava. 8. Estando um dia com grande aflição por me parecer que o confessor não me acreditava, disse-me o Senhor que não me afligisse, que depressa se acabaria aquela pena. Alegrei-me muito pensando que havia de morrer em breve e sentia muito contentamento quando disso me lembrava. Depois vi claramente que era a vinda deste Reitor que digo; porque nunca mais se me ofereceu motivo para aquela pena. É que o Reitor que veio não ia à mão ao Ministro que era meu confessor, antes lhe dizia que me consolasse e que não havia de que temer. Que não me levasse por caminho tão apertado e deixasse obrar o Espírito do Senhor. Às vezes dir-se-ia que, com estes grandes ímpetos de espírito, ficava a alma como sem poder respirar. 9. Foi-me ver este Reitor e mandou-me o confessor que falasse com ele com toda a liberdade e clareza. Costumava eu sentir grandíssima contradição em dizer estas coisas. E é assim que, entrando no confessionário, senti em meu espírito um não sei quê que nem antes nem depois me recordo tê-lo sentido com mais ninguém, nem eu saberei dizer como foi, nem por comparação o poderia. Porque foi um gozo espiritual e um entender a minha alma que aquela alma a havia de entender e que se afazia com ela, embora — como digo — não entendo como foi. Porque, se eu the tivesse falado ou dele me tivessem dado muitas informações, não era muito dar-me gozo o perceber que me havia de entender; mas nenhuma palavra, nem ele a mim nem eu a ele, havíamos dito, nem era pessoa de quem eu antes tivesse tido alguma notícia. Depois vi bem que não se enganara meu espírito, pois de todos os modos e maneiras tem sido de grande proveito para mim e para minha alma tratar com ele. O seu trato é muito para pessoas que o Senhor parece ter já muito adiante, porquanto ele as faz correr e não ir passo a passo; o seu modo de as levar é desapegá-las de tudo e mortificá-las. Para isto lhe deu o Senhor grandíssimo talento, como também em outras muitas coisas. 10. Quando comecei a tratar com ele, logo entendi seu estilo e vi ser uma alma pura, santa e com dom particular do Senhor para conhecer espíritos. Consolei-me muito. Havia ainda pouco que o tratava quando o Senhor voltou a apertar comigo para que tornasse a cuidar do negócio do mosteiro e que dissesse a meu confessor e a este Reitor muitas razões e coisas para que não mo estorvassem. Algumas os faziam temer, ainda que este padre Reitor nunca duvidasse de que fosse espírito de Deus; porque com muito estudo a cuidado olhava a todos os efeitos. Enfim, por muitos motivos, não ousaram atrever-se a impedir-me-lo. 11. Tornou meu confessor a dar-me licença para eu me pôr a isso, tanto quanto pudesse. Eu bem via o trabalho em que me metia, por estar muito só e ter pouquíssimas possibilidades. Assentámos em que se tratasse de tudo com todo o segredo, e assim procurei que uma irmã minha que vivia fora daqui, comprasse e arranjasse a casa como se fosse para si, com dinheiros que o Senhor deu, por diversas vias, para a comprar. Seria longo contar como o Senhor foi provendo a tudo. Andava eu com grande cuidado de não fazer coisa alguma contra a obediência; mas bem sabia que, se o dissesse a meus prelados, estava tudo perdido, como da vez passada , e ainda seria pior. Em conseguir o dinheiro, em procurar as coisas, em consertá-las e fazê-las aviar, passei grandes trabalhos e alguns bem a sós. A minha companheira fazia o que podia, mas podia bem pouco e tão pouco que era quase nada, a não ser o fazer-se tudo em seu nome e com seu favor. Todo o mais trabalho era meu e de tantas maneiras, que agora me espanto como o pude aguentar. Algumas vezes, aflita, dizia: "Senhor meu, como mandais coisas que parecem impossíveis? Embora fora mulher, se tivesse liberdade!... Mas atada por tantos lados, sem dinheiro nem ter donde vir, nem para o Breve, nem para nada, que posso eu fazer, Senhor?". 12. Uma vez, estando numa necessidade, sem mesmo saber que fazer de mim nem com que pagar aos oficiais, apareceu-me S. José, meu verdadeiro pai e senhor, e deu-me a entender que os ajustasse, pois não me faltaria, e assim o fiz sem ter um real e o Senhor me proveu de tudo, por modos que espantavam os que o souberam. Fazia-se-me a casa muito pequena, e era-o tanto, que não parecia levar caminho de ir a ser mosteiro. Queria, pois, comprar outra, a qual estava junto dela, também muito pequena, para fazer a igreja. Mas nem tinha com quê, nem havia modo de se poder comprar, nem sabia que fazer. Acabando um dia de comungar, disse-me o Senhor: já te disse que entres como puderes. E a modo de exclamação, acrescentou: Oh! cobiça do género humano, que até terra pensas que te há-de faltar! Quantas vezes dormi Eu ao relento por não ter onde me recolher! Eu fiquei muito espantada e vi que o Senhor tinha razão. Vou à casita, tracei-a e achei-a embora bem pequeno, um mosteiro perfeito. Não curei de comprar mais espaço, senão procurei que nela se dispusesse tudo de maneira que se pudesse viver; tudo tosco e sem arte, tão semente para que não fosse nocivo à saúde, e assim se há-de fazer sempre. 13. No dia de Santa Clara, indo eu a comungar, ela apareceu-me com muita formosura. Disse-me que me esforçasse e fosse avante no começado, que me ajudaria. Fiquei-lhe com grande devoção e tem saído tão verdadeira a sua promessa que um mosteiro de freiras da sua Ordem, que está perto deste, nos ajuda a sustentar. E o que é mais ainda: pouco a pouco, ela trouxe este meu desejo a tanta perfeição, que a pobreza que a bem-aventurada Santa tinha em sua casa, se observa nesta e vivemos de esmola. O que não metem custado pouco trabalho, a fim de que isto fique assente com toda a firmeza e autoridade do Santo Padre, para que se não. possa fazer outra coisa, nem jamais haja renda. E mais faz ainda o Senhor, e deve porventura ser pelos rogos desta bendita Santa, que, sem diligências nossas, nos provê Sua Majestade muito perfeitamente do necessário. Seja bendito por tudo. Amen. 14. Estando eu por estes mesmos dias, o de Nossa Senhora da Assunção, num mosteiro da Ordem do glorioso São Domingos, considerando os muitos pecados que noutro tempo eu havia confessado naquela casa, e em outras coisas da minha ruim vida, veio-me um arroubamento tão grande, que quase me tirou de mim. Sentei-me e até me parece que não pude ver a Elevação, nem ouvir Missa, que depois fiquei com escrúpulo disto. Parecia-me, estando assim, que me via vestir uma roupa de muita brancura e claridade. A princípio não via quem ma vestia; depois vi a Nossa Senhora a meu lado direito e a meu Pai S. José à esquerda, que me vestiam aquela roupa. Deu-se-me a entender que já estava limpa de meus pecados. Acabada de vestir e eu com grandíssimo deleite e glória, logo me pareceu Nossa Senhora pegar-me nas mãos. Disse-me que Lhe dava muito gosto sendo devota do glorioso S. José; que tivesse por certo que, o que eu pretendia do mosteiro, se havia de fazer e nele se serviria muito o Senhor e a eles ambos; que não temesse que nisto houvesse jamais quebra, embora a obediência que dava não fosse a meu gosto, porque Eles nos guardariam e já Seu Filho nos tinha prometido andar connosco. Para sinal de que isto se cumpriria dava-me aquela jóia. Pareceu-me então que me tinha deitado ao pescoço um colar de ouro muito formoso e preso a ele uma cruz de muito valor. Este ouro e pedras são tão diferentes das de cá, que não têm comparação. Sua formosura excede a tudo o que podemos aqui imaginar, pois o entendimento não alcança compreender de que era a roupa, nem como imaginar a alvura que o Senhor quer que se nos represente. Tudo parece aqui como um debuxo a carvão, a modo de dizer. 15. Era grandíssima a formosura que vi em Nossa Senhora, ainda que não pude divisar nenhuma feição particular, mas vi em conjunto a feitura do rosto. Vestia de branco, num grandíssimo resplendor, não que deslumbra, mas suave. Ao glorioso S. José não vi tão claramente, embora bem visse que estava ali, como nas visões que tenho dito que se não vêem. Parecia-me Nossa Senhora muito jovem. Estando assim um pouco comigo e eu com tão grandíssima glória e gozo, que segundo me parece, maior jamais havia tido e nunca quisera apartar-me dele, pareceu-me que os vi subir ao Céu acompanhados por uma grande multidão de anjos. Fiquei em muita soledade, embora tão consolada, enlevada, recolhida em oração e enternecida, que estive algum tempo sem me poder mover, nem falar, mas como quase fora de mim. Fiquei com veemente anseio de me desfazer por Deus e com tais efeitos — de tal modo tudo se passou — que nunca pude duvidar, ainda que muito quisesse, não ser coisa de Deus. Deixou-me consoladíssima e com muita paz. 16. No que disse á Rainha dos Anjos da obediência, é que se me tornava duro a mim não a prestar aos da Ordem. Havia-me dito o Senhor que não convinha fazê-lo. Deu-me os motivos pelos quais, de nenhuma maneira, convinha que o fizesse, mas que recorresse a Roma por certa via que também me indicou, que Ele faria com que viesse por ali a licença. E assim foi, que se enviou por onde o Senhor me disse — pois nunca acabávamos de o conseguir — e veio muito bem. Para as coisas que depois sucederam, conveio muito que se prestasse a obediência ao Bispo, mas então não o conhecia eu, nem ainda sabia que prelado seria. Quis o Senhor que fosse tão bom e favorecesse tanto esta casa, como era necessário pára a grande contradição que tem havido acerca dela — como depois direi — e para. a levar ao estado em que está. Bendito seja Ele que assim tem feito tudo. Amen. |
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