Na primeira perseguição contra
a Igreja, desencadeada pelo imperador Nero, depois do incêndio da
cidade de Roma no ano 64, muitos cristãos foram martirizados com
atrozes tormentos. Este facto é testemunhado pelo escritor pagão
Tácito (Annales 15,44) e por São Clemente, bispo de Roma,
papa, na sua Carta ao Coríntios (cap.5-6), do ano 96:

Jean-Léon Gerone, A
última oração dos mártires cristãos, 1883, The Walters Art Gallery,
Baltimore
“Deixemos de lado os exemplos
dos antigos e falemos dos nossos atletas mais recentes. Apresentemos
os generosos de nosso tempo. Vítimas do fanatismo e da inveja,
sofreram perseguição e lutaram até à morte. Tenhamos diante dos
olhos os bons apóstolos. Por causa de um fanatismo iníquo, Pedro
teve de suportar duros tormentos, não uma ou duas vezes, mas muitas;
e depois de sofrer o martírio, passou para o lugar que merecia na
glória. Por invejas e rivalidades, Paulo obteve o prémio da
paciência: sete vezes foi lançado na prisão, foi exilado e
apedrejado, tornou-se pregoeiro da Palavra no Oriente e no Ocidente,
alcançando assim uma notável reputação por causa da sua fé. Depois
de ensinar ao mundo inteiro o caminho da justiça e de chegar até os
confins do ocidente, sofreu o martírio que lhe infligiram as
autoridades. Partiu, pois, deste mundo para o lugar santo,
deixando-nos um perfeito exemplo de paciência. A estes homens,
mestres de vida santa, juntou-se uma grande multidão de eleitos que,
vítimas de um ódio iníquo sofreram muitos suplícios e tormentos,
tornando-se, desta forma, para nós um magnífico exemplo de
fidelidade. Vítimas do mesmo ódio, mulheres foram perseguidas, como
Danaides e Dircéia. Suportando graves e terríveis torturas, correram
até o fim a difícil corrida da fé e mesmo sendo fracas de corpo,
receberam o nobre prémio da vitória. O fanatismo dos perseguidores
separou as esposas dos maridos, alterando o que disse nosso pai
Adão: É osso dos meus ossos e carne de minha carne (cf. Gn 2,23).
Rivalidades e rixas destruíram grandes cidades e fizeram desaparecer
povos numerosos. Escrevemos isto, não apenas para vos recordar os
deveres que tendes, mas também para nos alertarmos a nós próprios.
Pois nos encontramos na mesma arena e combatemos o mesmo combate.
Deixemos as preocupações inúteis e os vãos cuidados, e voltemo-nos
para a gloriosa e venerável regra da nossa tradição. Consideramos o
que é belo, o que é bom, o que é agradável ao nosso Criador. Fixemos
atentamente o olhar no sangue de Cristo e compreendamos quanto é
precioso aos olhos de Deus seu Pai esse sangue que, derramado para
nossa salvação, ofereceu ao mundo inteiro a graça da penitência.”
Parece
oportuno colocar aqui a exortação ao martírio da autoria de
Orígenes:
“Se passamos da morte para a
vida (1Jo 3,14), ao passarmos da infidelidade para a fé, não nos
admiremos se o mundo nos odeia. Com efeito, quem não tiver passado
da morte para a vida, mas permanecer na morte, não pode amar aqueles
que abandonaram a tenebrosa morada da morte, para entrar na morada
feita de pedras vivas, onde brilha a luz da vida. Jesus deu a sua
vida por nós (1Jo 3,16); portanto, também nós devemos dar a vida,
não digo por ele, mas por nós, quero dizer, por aqueles que serão
construídos, edificados, com o nosso martírio. Chegou o tempo,
cristãos, de nos gloriarmos. Eis o que está escrito: E não só isso,
pois nos gloriamos também de nossas tribulações, sabendo que a
tribulação gera a constância, a constância leva a uma virtude
provada, a virtude provada desabrocha em esperança; e a esperança
não decepciona. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos
corações pelo Espírito Santo (Rm 5,3-5). Se, à medida que os
sofrimentos de Cristo crescem para nós, cresce também a nossa
consolação por Cristo (2Cor 1,5), acolhamos com entusiasmo os
sofrimentos de Cristo; e que eles sejam muitos em nós, se desejamos
realmente obter a grande consolação reservada para todos os que
choram. Talvez ela não seja igual medida para todos. Pois se assim
fosse, não estaria escrito: à medida que os sofrimentos de Cristo
crescem em nós, cresce também a nossa consolação. Aqueles que
participam dos sofrimentos de Cristo, participarão também da
consolação que ele dará em proporção aos sofrimentos suportados por
seu amor. É o que nos ensina aquele que afirmava cheio de confiança:
Assim como participais dos sofrimentos, participareis também da
consolação (cf. 2Cor 1,7). Da mesma forma Deus fala através do
Profeta: No momento favorável, eu te ouvi e no dia da Salvação, eu
te socorri (cf. Is 49,8; 2Cor 6,2). Haverá, por acaso, tempo mais
favorável do que esta hora, quando por causa do nosso amor a Deus em
Cristo somos publicamente levados prisioneiros neste mundo, porém,
mais como vencedores do que como vencidos? Na verdade, os mártires
de Cristo, unidos a ele, destroçam os principados e as potestades, e
com Cristo triunfam sobre eles. Deste modo, tendo participado de
seus sofrimentos, também participam dos merecimentos que ele
alcançou com a sua coragem heróica. Que outro dia de salvação haverá
tão verdadeiro como aquele em que deste modo partireis da terra?
Rogo-vos, porém, que não deis a ninguém motivo de escândalo, para
que o nosso ministério não seja desacreditado; mas em tudo
comportai-vos como ministros de Deus com grande paciência (cf. 2Cor
6,3-4), dizendo: E agora Senhor, que mais espero ? Só em vós eu
coloquei minha esperança ! (Sl 38,8). (Nn 41-42: PG 11, 618-619)
(Séc. III)
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