Príncipe
de vida exemplar, rigoroso contra toda injustiça, caritativo,
paciente e fervoroso, modelo de como se pode praticar a virtude
heróica no trono
* * * * *
A Idade
Média, tempo em que a filosofia do Evangelho governava os povos, deu
frutos de santidade maiores do que em qualquer outra época. Para só
falar no campo civil, vemos grandes santos desde o cimo da escala
social
até o mais baixo dela: imperadores, reis, duques e até pastores e
empregadas domésticas.
São
Ladislau, rei da Hungria, pertence ao número dos que praticaram no
trono a virtude em grau heróico, sendo modelo para seus súbditos e
para os fiéis em geral. Era filho do rei Bela e neto de um
primo-irmão do rei Santo Estêvão, da Hungria. Nasceu em 1041 na
Polónia, onde se havia refugiado seu pai para fugir das violências
de Pedro, o Germânico, sucessor de Santo Estêvão. Sua mãe, filha do
duque Mesco, deu profunda formação religiosa a ele e a seu irmão
Geisa.
Morto
Pedro, o Germânico, subiu ao trono da Hungria André, irmão mais
velho de Bela e tio de Ladislau. Chamou-os novamente à corte, deu a
Bela o título de duque e quis que seus dois sobrinhos fossem criados
em seu palácio, à sua vista, pois não tinha herdeiros. Como já
ocorrera na Polónia, logo a corte admirou as virtudes de Ladislau,
jovem casto, sóbrio, humilde, afável com todos e de extrema caridade
para com os pobres.
Ocorreu
então que ao rei André nasceu um filho, Salomão, revogando ele o ato
pelo qual havia designado Bela como seu sucessor. Bela não aceitou a
medida e levantou-se em armas contra o irmão. André, ferido no
combate, faleceu pouco depois, e Bela proclamou-se rei. Isso chocou
muito a Ladislau, não só por ter sido seu pai responsável directo
pela morte do tio, mas também porque julgava que o direito à
sucessão pertencia a Salomão. Quando seu pai faleceu, trabalhou para
que Salomão o sucedesse, o que ocorreu.
No
trono, Salomão mostrou-se cruel e sanguinário, sendo deposto por
Geisa, irmão de Ladislau, que foi proclamado rei. Mas Geisa faleceu
apenas três anos depois, sem sucessor directo. Os prelados, a
nobreza e os magistrados das principais cidades da Hungria, por
unanimidade, escolheram-no para sucedê-lo, mas ele não queria
aceitar a coroa em detrimento de Salomão, ainda vivo, por
considerá-lo legítimo herdeiro do trono. Entretanto os húngaros
mostraram-lhe que a sucessão no país não era hereditária, mas
electiva, pelo que tinham direito de escolher aquele que julgassem
mais apto para governar. Diante disso ele concordou, mas não quis
ser coroado nem usar diadema enquanto Salomão vivesse.
Reinando por Nosso
Senhor Jesus Cristo
Esse
príncipe verdadeiramente cristão quis fazer Jesus Cristo reinar em
seus estados. Sua primeira providência foi restituir à Religião seu
primitivo esplendor, trabalhando também para extinguir os últimos
restos de paganismo no país e fazer nele reinar a paz de Cristo.
Para progresso e esplendor da verdadeira Religião, dedicou-se a
reformar as igrejas deterioradas e a construir novas. Entre elas
edificou a célebre basílica de Nossa Senhora de Waradin, que se
tornou magnífico monumento de piedade mariana e de louvor à Virgem
Mãe de Deus, de quem era fiel devoto.
Notável
por sua bondade, justiça e caridade, Ladislau constituiu-se o
sustentáculo dos órfãos, dos infelizes e de todos os aflitos.
Mostrava em seus julgamentos tanta suavidade e desejo de ajudar, que
era olhado mais como um pai que acomodava as diferenças dos filhos
do que como juiz.
Em seu
palácio não se ouviam imprecações, blasfémias nem palavras
desonestas. Os jejuns eclesiásticos eram observados rigorosamente.
Cada um procurava ser tão exímio em seu comportamento, que se diria
terem alcançado a perfeição de um palácio real.
Ladislau convocou e presidiu uma assembleia entre os prelados e a
nobreza, submetendo à sua deliberação uma série de ordenações de
acordo com as peculiaridades de seu povo e a Lei Divina. Tais
ordenações foram muito eficazes, mas o exemplo do rei era ainda mais
cogente do que qualquer lei para manter os súbditos em seus deveres
e na exemplaridade de vida. Ele somente ordenava aquilo que era o
primeiro a cumprir, e sendo o mais fiel cumpridor dos mandamentos de
Deus e da Igreja, tornou-se uma lei viva, que indicava a cada um o
próprio dever.
Propõe-se a abdicar em
favor do primo
Ladislau fez de tudo para conquistar para Deus seu primo Salomão.
Concedeu-lhe uma pensão principesca para que vivesse de acordo com
seu nascimento, e enviou várias vezes altos prelados e homens de
Estado para tentar aplacá-lo. Ofereceu mesmo deixar-lhe o trono, se
ele mudasse de vida. Salomão respondeu a isso com traições e ameaças
à vida do santo, chegando a conjurar-se com os hunos para atacar o
país. Derrotado, foi preso numa praça-forte.
Mas não
por muito tempo. Quando Ladislau quis trasladar os restos de Santo
Estêvão para um lugar mais digno e mandou exumá-los, os operários
não conseguiam abrir o túmulo, por mais que tentassem. Uma santa
religiosa declarou então ao rei que, segundo manifestação divina, a
causa daquela dificuldade era a sua excessiva severidade contra
Salomão, que desgostara grandemente ao Senhor. Ele acatou com
humilde simplicidade a determinação divina e mandou libertar o
prisioneiro, devolvendo-lhe todos os seus bens.
Salomão
empenhou-se depois em várias guerras contra príncipes vizinhos, foi
derrotado e forçado a fugir para uma espessa floresta, da qual não
reapareceu. Historiadores dizem que, no isolamento, ele finalmente
se arrependeu de seus desmandos. E, para fazer penitência, passou
vários anos como solitário na floresta, onde morreu santamente,
sendo enterrado em Póla, cidade da Ístria. Esse feliz resultado
seria devido em grande parte às orações de São Ladislau, que não
deixava de rezar por ele.
Valente na batalha,
magnânimo na vitória
Embora
fosse de índole pacífica, e talvez por causa disso, Ladislau teve
que fazer face a vários inimigos que tentavam despojá-lo de seu
trono. Procurava resolver os litígios por meios pacíficos, mas
quando estes não surtiam efeito, saía destemidamente à frente de
suas tropas. Assim, venceu os polacos, tomando-lhes de passagem
Cracóvia, sua capital; expulsou os bárbaros da Dalmácia e os hunos,
que assolavam a Hungria, obrigando-os a pedir paz. Conquistou também
parte da Bulgária e da Rússia.
De
estatura elevada e majestosa, nas guerras ele era o primeiro a
cavalo. À testa do exército, cumpria as funções do mais intrépido
capitão e bravo soldado. Naqueles tempos cavalheirescos, para poupar
vidas humanas, ele desafiava os generais dos exércitos inimigos para
combates singulares, nos quais saía sempre vencedor.
Antes
de empreender qualquer expedição, ordenava orações públicas e três
dias de jejum para o bom êxito da empresa. De sua parte,
preparava-se também com o jejum e a recepção dos sacramentos, para
que o Senhor dos Exércitos lhe fosse propício. Era tão valente no
campo de batalha quanto magnânimo na vitória.
Libertar a Terra Santa
do islamismo
O que
sobretudo almejava esse destemido rei era conduzir um exército
contra os infiéis, para retomar a Terra Santa. Assim, quando o
bem-aventurado papa Urbano II pregou a Cruzada, quis ser dos
primeiros soldados da cruz. E quando os reis da França, Espanha e
Inglaterra — que também fariam parte da expedição — pediram a
Ladislau que chefiasse a armada, aceitou muito contente e se
preparou para a tarefa. Mas os planos de Deus eram outros. Houve uma
insurreição entre os boémios, e ele foi forçado a pacificá-los. Caiu
gravemente enfermo, e soube que seus dias estavam contados.
Tendo
recebido com fé e alegria todos os socorros que a Santa Mãe Igreja
tem para seus filhos em transe de morte, entregou sua bela alma a
Deus no dia 30 de Julho de 1095.
Não
houve na Hungria monarca mais pranteado que ele. Todos consideravam
os 18 anos de seu reinado como uma bênção do Céu. Durante três dias
a nação inteira levou luto pelo seu rei, privando-se de qualquer
entretenimento. Os restos mortais foram levados em cortejo para a
igreja de Nossa Senhora. Segundo os cronistas, foi mais um triunfo
do que uma pompa fúnebre.
Foram
tantos os milagres realizados por sua intercessão, que o Papa
Celestino III o elevou à honra dos altares no ano de 1192. O culto a
São Ladislau é muito popular na Hungria, onde é chamado São Lalo. É
o patrono de grande número de igrejas, e seu nome é dado aos
recém-nascidos com muita frequência, tanto lá quanto na Polónia.
Costuma ser representado a cavalo, com um sabre numa das mãos e o
terço na outra, pois era este o modo como comandava as batalhas.
Plínio
Maria Solimeo

Obras consultadas:
-
Pe.
Juan Croisset, S.J.,San Ladislao, Rey de Hungria, in
Año Cristiano, Saturnino Calleja, Madri, 1901, tomo II, pp.
963 e ss.
-
Les
Petits Bollandistes,Saint Ladislas, roi de Hongrie, in
Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo VII, pp.
395 e ss.
-
Edelvives, San Ladislao I, in El Santo de Cada Dia,
Editorial Luis Vives, Saragoça, 1947, tomo III, pp. 583 e ss.
-
Michael Bihl, St. Ladislaus, in The Catholic
Encyclopedia, Online Edition Copyright © 2003 by Kevin
Knight,
www.NewAdvent.org.
-
Pe.
Pedro de Ribadeneira, San Ladislao I, Rey de Hungria, in
Flos Sanctorum, apud Dr. Eduardo Maria Vilarrasa, La
Leyenda de Oro, L. Gonzalez y Cia., Barcelona, 1896, tomo II,
p. 519.
|