Hugo de Cluny
Conselheiro de Papas, imperadores e reis, Santo
1024-1108

Abade de Cluny, que levou essa famosa abadia a seu apogeu. Foi uma das primeiras personalidades de seu tempo, teve grande influência junto aos Papas e Imperadores.

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Aquele que seria um dos mais célebres personagens da Idade Média nasceu em 1024 na pequena localidade de Semur, na Borgonha francesa. Seu pai foi Dalmácio, conde de Semur, e sua mãe Aremburge ou Adelaide. Dizem as crônicas que, estando ela para dar à luz, pediu a um sacerdote de vida santa e ilibada que celebrasse o Santo Sacrifício em sua intenção. No momento da elevação, o celebrante viu acima do cálice um menino de extrema beleza, o que foi para a mãe um presságio de que o filho que lhe estava por nascer seria um digno ministro do altar.

Entretanto, o pai não aprovava tal idéia. Hugo deveria continuar as tradições da família e levá-las a um apogeu. Por isso, fez com que o menino fosse formado em todos os exercícios da juventude nobre daquele tempo, como domínio do cavalo, manejo de armas e prática de caçadas. Hugo, porém, sentia-se mais chamado a uma vida de piedade e de oração, de acordo com os desejos da mãe. Enfim ele obteve do pai o consentimento para fazer seus estudos junto a seu tio-avô, também chamado Hugo, Bispo de Auxerre e conde de Châlon-sur-Saône. Foi ali que ele teve notícia da existência da Abadia de Cluny e de Santo Odilon, seu abade, bem como da vida piedosa e penitente que levavam os monges. Embora tivesse apenas 16 anos, procurou o abade santo e pediu para ingressar na abadia. Quando Hugo foi apresentado à comunidade, um dos monges, inspirado pelo Espírito Santo, exclamou: “Ó bendita Ordem de Cluny, que recebes hoje em teu seio um tão digno tesouro!”

Prior aos 20 anos e Abade Geral aos 24

O jovem postulante tinha bom aspecto e um espírito recolhido mas alerta, sendo muito bem dotado tanto física quanto intelectualmente.

O conde Dalmácio, porém, não se conformava com a fuga do filho. Por isso, passando perto de Cluny, quis vê-lo para tentar convencê-lo a voltar para casa. Quando Hugo apareceu com muita modéstia e recolhimento, vestido com o áspero hábito monástico, o velho conde viu-o rodeado de uma atmosfera tão sobrenatural, que confessou nunca tê-lo visto tão belo. E a partir de então não insistiu mais.

Santo Odilon viu nesse jovem, tão maduro para a idade, uma grande promessa. Em vista disso, nomeou-o prior da abadia pouco depois de sua profissão religiosa, quando Hugo contava apenas 20 anos de idade.

Quatro anos depois, com o falecimento de Santo Odilon, Hugo foi escolhido pelos 200 monges de Cluny Abade e Geral de toda a Ordem, pois Cluny possuía em toda a Europa muitas abadias que dela dependiam.

Influenciando os acontecimentos de sua época

“Desde então [Hugo] consagrou-se às duas obras de sua vida: a defesa da pureza da Igreja e a organização definitiva dos cluniacenses. Durante 60 anos não haverá acontecimento importante em que não intervenha com prestígio singular. Encontramo-lo nos concílios e nas cortes de reis e imperadores, ao lado dos Papas, nas eleições pontifícias, animando a Cruzada, estabelecendo paz entre os imperadores e os povos que se agitavam na fronteira oriental do Império, confundindo os hereges. Percorria em sua mula todos os países [da Europa] para implantar os princípios renovadores emanados de Roma, depondo os bispos e abades indignos, aconselhando senhores e reis”.[1]

Pouco depois de sua eleição para abade, e contando cerca de 25 anos, vemo-lo no Concílio de Reims ocupando o segundo lugar, logo depois do Papa Leão IX. Em seu discurso para a ilustre assembléia, increpou com vigor os simoníacos (que negociavam com os bens da Igreja) e os clérigos que viviam em concubinato — o que não era incomum naquela época.

De Reims, Hugo seguiu o Papa a Roma, participando, no caminho, do Concílio de Mayença. Num concílio em Roma, tratou-se pela primeira vez da doutrina de Berengário de Tours, o mais antigo precursor dos erros de Lutero. Não houve concílio ou assembléia religiosa importante na Europa, em seu tempo, de que Hugo não participasse ativamente.

Observância das regras, espírito profético

Sob sua direção chegou a tal ponto a observância da regra em Cluny, que o cardeal São Pedro Damião, legado pontifício na França, afirmou numa de suas epístolas que os monges podiam facilmente não ofender a Deus, nem por pensamento, porque estavam noite e dia ocupados no divino louvor. Entretanto, estando Santo Hugo uma vez em São João d’Angely, teve um sonho no qual viu um raio caindo sobre a abadia. Percebeu logo que isso era aviso de uma desgraça que estava por suceder. Voltou imediatamente a Cluny e reuniu o prior e os antigos do mosteiro para estudarem a possível causa do castigo. Como não chegassem a nenhuma conclusão, ele recorreu à oração, pedindo a Deus que o fizesse conhecer a causa daquilo. Deus comunicou-lhe que um de seus monges havia cometido em segredo um grande pecado. Santo Hugo impôs-lhe a penitência devida, que o monge contritamente cumpriu, e com isso o flagelo foi debelado.

Em outra ocasião, chegando o abade geral à Abadia de Charité-sur-Loire, deu o ósculo da paz a todos os monges, exceto a um noviço. Quiseram saber a causa, e ele comunicou que o mesmo dedicava-se secretamente à necromancia, ou seja, consultava os mortos, à maneira dos espíritas e outros.

O conhecimento profético do santo abade tornou-se proverbial. Certo dia ele estava com os bispos de Châlon e de Mâcon, quando encontraram um senhor que havia cometido ocultamente um pecado abominável, que não tinha coragem de confessar. Hugo chamou-o de lado e revelou-lhe seu crime. O milagre cobriu de vergonha o culpado, que pediu imediatamente para se confessar. Depois, dizia com finura a todo mundo que era muito perigoso estar na frente de Santo Hugo sem se confessar, pois ele podia ler as consciências.

O santo advertia freqüentemente o monge Durando de Bribon, que mais tarde seria Arcebispo de Toulouse, do vício da crítica e sarcasmo na linguagem, pecado esse que São Bernardo chamava de “blasfêmias” na boca de clérigos ou religiosos. E vendo que ele não se corrigia, predisse-lhe que seria severamente castigado. Não o foi nesta vida, mas na outra. Tendo falecido, Durando apareceu a um monge de Cluny com a boca cheia de espuma, os lábios extremamente inchados e trincados, suplicando-lhe que alertasse Santo Hugo. Movido de piedade, o abade ordenou a sete monges que permanecessem em silêncio durante uma semana, e que orações contínuas fossem rezadas pelo falecido. No fim desse tempo Durando apareceu novamente ao dito monge, dizendo que só não tinha sido libertado do Purgatório porque um dos sete monges havia quebrado o silêncio. Retomado por uma semana mais, Durando apareceu novamente ao monge, desta vez radiante de glória, para agradecer a Santo Hugo e a toda a comunidade, e comunicar que subia ao Céu.

Trato com os grandes da Terra

O Imperador Henrique III tinha por Santo Hugo profunda admiração, como vemos por esta carta que lhe escreveu: “Receber tuas cartas é um dos meus maiores contentamentos. Sei muito bem o ardor com que te entregas às coisas divinas, e por isso agradeço mais ainda essa bondade que te inspira tanto interesse por nossas pobres coisas. Nada tenho que dizer à negativa que me fazes de vir à corte, alegando a distância; eu te perdôo, mas com a condição de que venhas a Colônia a fim de tirar da pia batismal e cobrir com tua bênção paternal o filho que me acaba de nascer. E, expiada a levedura de meus pecados, possa eu receber de tuas mãos o pão da glória celeste[2]. Grande graça a desse menino, futuro Imperador Henrique IV, de ter como padrinho um Santo! “Ele passou a Páscoa nessa cidade [Colônia], onde os alemães não podiam deixar de admirar a doçura de sua conversação, as graças de seu semblante, a gravidade de seus costumes em uma idade tão pouco avançada, pois o santo abade não tinha ainda 30 anos”[3].

Pouco depois, Santo Hugo teve que correr à Hungria para reconciliar o Rei André com o Imperador.

Na terrível controvérsia levantada mais tarde pelo seu afilhado Imperador Henrique IV contra São Gregório VII, seu antigo discípulo em Cluny, Santo Hugo precisou empregar toda sua diplomacia para permanecer fiel ao amor que devia ao primeiro, e mantê-lo na submissão que o imperador devia ao Soberano Pontífice em matéria religiosa e moral. Utilizou o crédito que gozava junto à famosa condessa Matilde, para obter a reconciliação do Imperador com o grande São Gregório VII.

Mestre de futuros Papas cluniacenses

Analisamos em outro artigo [4] o papel que Cluny e seus cinco santos abades desempenharam na formação da Idade Média. No tempo de Santo Hugo, o prestígio de Cluny chegou ao auge. Além do monge Hildebrando (São Gregório VII), mais dois cluniacenses subiram ao sólio pontifício nas sendas daquele grande Pontífice: o monge Eudes de Lagery (Bem-aventurado Urbano II, o Papa que impulsionou as Cruzadas) e o monge Ranieri (Pascoal II, que teve de enfrentar e submeter 3 antipapas).

Urbano II, indo à França para o Concílio de Clermont, passou antes por Cluny, a fim de benzer o altar-mor da nova igreja que Santo Hugo havia edificado, a maior da Cristandade na época, superada posteriormente apenas pela Basílica de São Pedro, em Roma, e demolida durante a malfadada Revolução Francesa. O Papa levou consigo ao concílio Santo Hugo, sendo neste decidida a primeira Cruzada.

Pascoal II quis também rever Cluny depois de elevado ao Papado, e renovou, como fizera igualmente Urbano II, todos os privilégios que haviam sido concedidos por São Gregório VII a Cluny[5].

Santo Hugo entregou sua alma a Deus no dia 29 de abril de 1108, com a idade de 89 anos.

Plinio Maria Solimeo


[1] Frei Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo II, pp. 204-205.
[2] Id., ibidem.
[3] Les Petits Bollandistes – Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo V, p. 74.
[4] Catolicismo nº 575, novembro/1998, artigo sobre Santo Odon.
[5] Pe. Simon Martin, Vies des Saints, Imprimerie de Madame Laguerre, Bar-le-Duc, 1859, tomo II, p. 371.