Capítulo 1-1
A freguesia de Balasar
fica no extremo norte do Distrito do Porto, a 14 quilómetros
para nascente da sede concelhia, a cidade da Póvoa de Varzim;
limita com Barcelos, Vila Nova de Famalicão e Vila do Conde e só
se liga, através de Rates e por uma estreita faixa, com outras
terras poveiras.
Do seu concelho é a
freguesia mais acidentada, com áreas planas e muito férteis, mas
com outras de monte, cuja altitude chega a ser a mais elevada de
todo o espaço do município.

O rio Este atravessa-a
em curso sinuoso, alagando-lhe vastas áreas no Inverno, mas
potenciando-lhe as aptidões agrícolas. Esta terra contudo possui
ainda largas zonas de mata, sobretudo a sudeste e sudoeste.
A estrada que vai da
Póvoa para Vila Nova de Famalicão atravessa-a a norte; a
auto-estrada A7 corta-a a sul. A sua via estruturante acaba por
ser a que vai de Gestrins, passa junto à igreja e segue depois
para Fradelos. Perpendicular a esta, vem uma outra dos lados de
Arcos, pelo Casal e Lousadelo, passa também junto à igreja e vai
até Além e Gresufes.
Em tempos, Balasar foi
servida pelo caminho-de-ferro que ligava a Póvoa de Varzim a
Vila Nova de Famalicão. A estação das Fontainhas era
movimentada. Talvez por isso, mas sem dúvida também por o lugar
se encontrar na encruzilhada das estradas que vinham de várias
sedes de concelho e ainda de Rates, houve ali uma animada feira
e uma ou outra indústria significativa. A quase vila que lá se
desenvolveu, hoje voltada para o comércio e os serviços, deve
muito a estes condicionalismos do seu passado.
Até 1836,
Balasar pertenceu ao gigantesco concelho de Barcelos,
passou depois para o da Póvoa, esteve mais tarde alguns
anos no de Vila Nova de Famalicão, mas foi
posteriormente reintegrada no da Póvoa de Varzim.
Até ao séc.
XV, na área da freguesia havia duas paróquias, ambas a
sul do rio, a de Balasar e a de Gresufes, sendo então
esta integrada na primeira e tendo-se construído uma
igreja nova, no lugar onde fica hoje o cemitério. Estão
publicados diversos documentos relativos a esta
anexação.
Gresufes era
de senhorio nobre, mas não régio Balasar possuía terras
reguenga, mas também de diversas instituições
religiosas, como os Mosteiros de Rates, de S. Simão da
Junqueira, de Landim e da Várzea, etc.
No século XVI,
quando as duas freguesias já estavam unidas, foi
instituída a Comenda de Balasar. |
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Uma chaminé que é uma obra-prima…
a caminho da ruína. |
Característico desta
freguesia, devido ao tipo da rocha local, foi o uso do xisto nas
construções.
Quem repara em edifícios mais antigos, sobretudo os que caíram
em abandono, verifica a constante presença deste material. Ainda
mais fácil é encontrá-lo em muros. Isto é tanto mais notório
quanto, em freguesias próximas, não há dele nenhum uso. Muitas
pessoas parece que hoje o olham como material menos nobre e por
isso no geral até os muros com ele construídos ameaçam ruína.
Casos há todavia em que os proprietários souberam tirar felizes
efeitos das construções que usavam este material tradicional.

Conciliação feliz entre o uso tradicional do xisto e o gosto
artístico moderno.
Quem percorre a
freguesia não deixa de notar que houve e há aí grandes casas de
lavoura, quase sempre assinaladas por vistosas chaminés.
Balasar terá possuído
uma casa nobre de raiz medieval, mas irrelevante, embora sejam
conhecidos nomes de nobres que na freguesia tiveram bens, em
particular no lugar de Gresufes, mas também em Gestrins.
A nobreza dos
Grã-Magriços, da Quinta de D. Benta, vem só da Idade Moderna.
Em 21 de Junho de
1832, dia do Corpo de Deus e cerca de duas semanas antes do
desembarque de Mindelo, ocorreu na freguesia um fenómeno
extraordinário, sobre que se possui ainda uma documentação
inteiramente fidedigna, a aparição de uma cruz desenhada no chão
do lugar do calvário. Graças ao empenho do balasarense Custódio
José da Costa, primeira testemunha da aparição, o fenómeno pôde
originar uma devoção à Santa Cruz que rapidamente teve larga
divulgação, como é testemunhado por quatro ex-votos e ainda pelo
romance As Duas Fiandeiras, de Francisco Gomes de Amorim,
natural de Aver-o-Mar.
A actual igreja foi
construída apenas há um século e a sua localização teve a ver
com a devoção à famosa Santa Cruz.
Actualmente, Balasar é
a freguesia poveira mais conhecida no mundo, graças à Beata
Alexandrina. Apesar de ter passado os últimos 30 anos de vida na
cama, em 1955, quando faleceu, o seu nome e era já conhecido em
todo o país e mesmo além-fronteiras, devido principalmente ao
seu jejum de treze anos e sete meses, medicamente comprovado por
uma observação rigorosa de 40 dias numa casa de saúde.
Em 25/4/2004,
Alexandrina Maria da Costa foi beatificada por João Paulo II na
Praça de S. Pedro. Sobre ela existe uma vasta bibliografia em
línguas variadas e às vezes surpreendentes, como japonês,
tailandês ou letão.
Não existia até agora
nenhuma monografia histórica sobre Balasar mas são conhecidos
valiosos e variados subsídios sem os quais esta compilação nunca
seria possível.
No Internet podem-se
consultar agora os Registos Paroquiais, o Tombo da Comenda e até
as Memórias Paroquiais de 1758.
O pároco de Balasar
P.e Leopoldino Mateus foi quem iniciou o estudo histórico da
freguesia, com dois longos artigos saídos nos primeiros números
do Boletim Municipal poveiro. Embora fale principalmente de
realidades que conheceu é um ponto de partida imprescindível. Os
seus noticiários para a imprensa poveira são também preciosos.
Outros correspondentes
de Balasar escreveram assiduamente para jornais da sede do
concelho.
A palavra
Balasar
O P.e Leopoldino
Mateus menciona um escrito do P.e Arlindo Ribeiro da Cunha que é
bem claro sobre a origem da palavra Balasar[3].
Ela deriva de Belisário e daí que não haja nenhuma razão
para a grafar com z em vez de s no princípio da última sílaba.
Nas Inquirições
aparece Belsar e nos documentos do séc. XV que se verão
adiante são usadas formas várias.
Quando porém se diz
que a palavra deriva de Belisário, deve-se estar precavido para
o seguinte: nunca terá havido qualquer Belisário em Balasar, mas
só um Belsar. Paio Correia o Velho e o seu filho Pêro
Pais Correia que aparecem à frente só no latim dos documentos
tabeliónicos é que se chamavam, em formas alatinadas,
respectivamente, Pelagius Corrigia vetus e Petrus
Pelagii Corrigia, como é confirmado pelos nobiliários[4].
A língua já tinha evoluído muito e as pessoas comuns não sabiam
mais latim do que hoje.
Mas o P.e Leopoldino
tem uma explicação para a adopção do nome de Balasar para a
freguesia que é errada e que deve ser corrigida. O erro nasce
dele desconhecer mesmo, ao que parece, o texto das Inquirições.
Afirmou este antigo
pároco que, no momento de se juntarem as duas paróquias, se pôs
a questão do nome a dar à nova realidade que surgia e que houve
polémica, acabando por se adoptar a solução de eliminar os dois
nomes anteriores e optar pelo dum lugarejo insignificante. Pode
ser que algo disto esteja na tradição local, mas o nome que na
altura se adoptou foi o da freguesia anexante, que há muito se
chamava Balasar, e não está documentada qualquer polémica a este
respeito.
A ter existido alguma disputa do
género, ela faria algum sentido se tivesse a ver com
acontecimentos muito mais antigos, entre Lousadelo e Casal,
quando a freguesia deixou de ser Santa Eulália de Lousadelo e
passou a ser Santa Eulália de “Belsar”
[5].
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