SENTIMENTOS DA ALMA
28 de Dezembro de
1944
Sorrio à minha cruz, mas, ó meu Deus, com quanta agonia de alma!
Vejo o tempo da minha vida todo perdido. Parece-me que não vivi para
Deus nem para as almas; passei no mundo como se não passasse. Que
contas darei ao meu Deus? Anseio por sair deste exílio; e como
hei-de aparecer diante do meu Jesus de mãos vazias? Sinto que nada
fiz por Ele nem para Ele. Estou mais gelada do que o gelo.

Depois da Sagrada Comunhão, ao sentir-me assim tão gelada, ao ver-me
tão longe de Jesus apesar de O receber, a minha alma chora de
tristeza e dor. Sou como um cadáver que nada sente, pois a dor que
sinto não é minha, as lágrimas que choro minhas não são. O cadáver
não ama nem sente o amor com que é amado. Ó morte, ó morte, que
tremenda és! Que tristeza! Morte do corpo e morte da alma.
Por
tudo sou esmagada: esmaga-me o peso das humilhações, esmaga-me o
peso do abandono e desprezo, esmaga-se a dor angustiosa de guardar o
mundo, de o não deixar cometer nem um só pecado, de fazer com que
todo ele ame a Jesus com toda a graça e pureza. Esmaga-me o peso da
ânsia sem fim de entrar no Céu com o Universo inteiro a entoar a
Jesus um hino de louvor, um hino eterno.
Ai
meu Jesus, o que me espera! Ouço ao longe a tempestade que se
espalha ao largo e outra que se aproxima. A sua fúria vem ferir meu
coração. Deixá-lo, deixá-lo sangrar. Tomai conta, Jesus, tomai conta
do sangue que dele correr, é sangue derramado por Vosso amor, é
sangue que corre à procura das almas. Quero salvá-las todas, todas.
Ó
prova, dura prova, mas amada prova: em ti vejo Jesus, em ti vejo a
salvação das almas. Ai, tanto quero ver junto de mim os que me são
mais queridos e tanto medo tenho deles! Estou sozinha, vivo sozinha.
Ó
meu Jesus, e quando me dais o meu Paizinho espiritual? Quando
realizais as Vossas divinas promessas? Vivo da esperança e da
confiança em Vós. Confio no Vosso amor e na Vossa misericórdia
infinita.
É
quinta-feira, triste quinta-feira. Caminho morta para outra morte.
Que medo, que pavor!
É já
noite. A minha alma apavorada fugiu para um ermo, quer-se sozinha;
está envergonhada, fugiu para a solidão para aí chorar lágrimas de
maior agonia. Oh, quantos sofrimentos ela vê para ela e para o
corpo! Vê tudo, nada lhe é oculto.
O
demónio anda como os ladrões a formar os seus assaltos, atormenta-me
sem dó nem piedade. Nem posso pensar nas coisas que ele me diz, tão
feias, tão criminosas, contra mim, contra pessoas da minha maior
estima e contra Jesus, que é o que mais me aflige. Afirma-me
descaradamente que ofendo a Deus e nesse ponto parece-me ele falar
verdade. Chama todos os demónios para virem pecar comigo e eles vêem
com toda a manha infernal. Que triste e doloroso penar! Parece-me
que chego a ir às portas da eternidade.
Não
sei como o coração não me abre o peito com tanta força que bate.
Quando me parece morrer, é que eu chamo mais facilmente por Jesus e
pela Mãezinha: se não é com os lábios é com o coração e com o
pensamento. Mas é ao terminar da luta, ao fim do perigo, pois antes
o maldito raras vezes me deixa. Quem poderá acudir-me? Que socorro
posso esperar a não ser do Céu? Pobre de mim.
29 de Dezembro de
1944
Não
desaparecem do mundo as sextas-feiras! Ó meu Deus, corro para a
morte e a morte para mim! Que dor esta tão angustiosa! A minha
cabeça está dilacerada. O meu corpo, com os maus tratos,
despedaçado, é só sangue, é uma chaga viva.
É
tal a aflição e dor da minha alma que sinto e parece-me ver nela o
desespero duma criatura. Por graça e grande misericórdia do Senhor
não estou desesperada; sinto o efeito da desesperação, mas estou
calma e serena, sequiosa de mais dor, sequiosa de mais purificação e
mais amor.
Só
com isto o mundo será salvo; só com estas cadeias fortes o poderei
prender.
O
sangue corre, a vida vai fugindo; foge para dar a vida, vai louca a
salvar o mundo.
Meu
Jesus, dai-me a dor que eu tanto amo, dai-me a purificação que eu
tanto desejo. Guardai-me em Vós e na vossa e minha querida Mãezinha.
Ouvi a minha alma num brado contínuo de agonia pela dor que sente e
de ânsias de Vos entregar o mundo. Queria-o ver nas minhas mãos para
vo-lo oferecer como o sacerdote vê em suas mãos a Sagrada Hóstia e a
oferece ao Eterno Pai.
Jesus, olhai para mim, vede as ânsias tão agoniosas e imolai-me como
Vos aprouver para Vos dar amor e com ele a humanidade. Queria
dizer-Vos muito, mas, como nada sei, nada Vos digo.
No
meio destas ânsias veio Jesus:
— Minha filha, anjo da terra, flor mimosa, flor cândida do Paraíso:
vem, minha filha, recolher mais uma prova do meu esposório contigo,
da minha união conjugal.
Neste momento Jesus tomou a minha mão, beijou-me e acariciou-me e
estreitou-me docemente a Ele. Fiquei como que a nadar num mar de
gozo, num mar de amor. Jesus continuou:
— Recebe a efusão do meu amor divino, recebe-o porque é a tua vida e
tu és a vida das almas.
Coragem, minha filha, mais um pouco, o teu Céu está perto, agora
está perto. Em breve a tua alma, desprendida da terra, voará ao Céu
como a pomba branca e pura voa ao seu ninho. O teu ninho é o Céu
junto do trono da Majestade divina, ao lado da minha bendita Mãe.
Voa
a rainha da terra para o seu esposo celeste, para junto do Rei do
Céu.
É
junto a Mim, minha filha, que tu vais continuar a vigiar, a governar
o teu reinado na terra. Não fica nela herdeiro da tua coroa nem do
teu reinado. A ti entreguei o reinado do mundo, do Céu o governarás.
Quanto te deve o mundo por o que por ele tens feito e por Eu o ter
guardado no cofre riquíssimo do teu coração!
És
um mar de dor, és um mar de amor. Estás transformada no infinito,
tens sobre as almas poder infinito. Quanto te é devedora a
humanidade, quanto te é devedor Portugal!
O
mundo devia estar destruído. Foi para evitar males maiores que
permiti haver ainda os males presentes.
Pede, pede de novo muita oração e penitência. Coragem, minha querida
jardineira, jardineira do jardim celeste, agricultora divina.
Semeia, colhe para Jesus. Semeia graça, semeia pureza, semeia amor.
O
amor é a mais bela flor. Quem ama é puro, não ofende o seu Amado.
Quem ama sofre por amor.
Ó
filhinha amada, a tua dor tem sido a salvação das almas, guia e
amparo dos pecadores.
Escuta, filhinha, escuta os anjos a entoarem-Me louvores e um Te
Deum de acção de graças pela vítima que escolhi, pela redentora
que ao mundo dei.
Todo
o Céu vê a glória que me deste, todo o Céu vê o valor da tua dor.
Escuta, escuta as vozes celestes. Este louvor é ao terminar o ano.
Este louvor é dado em teu nome e em nome dos que sofrem contigo, dos
que cuidam de ti e da minha causa divina.
Dá a
todos o meu agradecimento divino.
Olha
o que te digo na última sexta-feira deste ano, na última que te falo
e renovo a tua crucifixão: não te enganas, nunca te enganaste.
Anima-te, tem coragem para a luta.
Antes da tua morte todas as minhas divinas promessas serão
compridas. O esposo que ama a sua esposa não a engana nem a deixa
enganar.
Quando Jesus me mandou escutar, ouvi as vozes celestes dos anjos,
vozes tão harmoniosas que arrebatavam a alma ao Céu. Só a alma podia
ouvir, só ela podia gozar. Jesus disse-me:
— É
neste arrebatamento, num êxtase de amor saído por entre a dor que
voarás ao Céu.
— Obrigada, meu Jesus; abençoai esta pobrezinha que, tão miserável e
pequenina, à vista da Vossa grandeza desaparece. Dai-me força,
dai-me amor. |