Alexandrina de Balasar

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ESCRITOS DA BEATA ALEXANDRINA

“SENTIMENTOS DA ALMA”

— 48 —

SENTIMENTOS DA ALMA

28 de Dezembro de 1944

Sorrio à minha cruz, mas, ó meu Deus, com quanta agonia de alma! Vejo o tempo da minha vida todo perdido. Parece-me que não vivi para Deus nem para as almas; passei no mundo como se não passasse. Que contas darei ao meu Deus? Anseio por sair deste exílio; e como hei-de aparecer diante do meu Jesus de mãos vazias? Sinto que nada fiz por Ele nem para Ele. Estou mais gelada do que o gelo.

Depois da Sagrada Comunhão, ao sentir-me assim tão gelada, ao ver-me tão longe de Jesus apesar de O receber, a minha alma chora de tristeza e dor. Sou como um cadáver que nada sente, pois a dor que sinto não é minha, as lágrimas que choro minhas não são. O cadáver não ama nem sente o amor com que é amado. Ó morte, ó morte, que tremenda és! Que tristeza! Morte do corpo e morte da alma.

Por tudo sou esmagada: esmaga-me o peso das humilhações, esmaga-me o peso do abandono e desprezo, esmaga-se a dor angustiosa de guardar o mundo, de o não deixar cometer nem um só pecado, de fazer com que todo ele ame a Jesus com toda a graça e pureza. Esmaga-me o peso da ânsia sem fim de entrar no Céu com o Universo inteiro a entoar a Jesus um hino de louvor, um hino eterno.

Ai meu Jesus, o que me espera! Ouço ao longe a tempestade que se espalha ao largo e outra que se aproxima. A sua fúria vem ferir meu coração. Deixá-lo, deixá-lo sangrar. Tomai conta, Jesus, tomai conta do sangue que dele correr, é sangue derramado por Vosso amor, é sangue que corre à procura das almas. Quero salvá-las todas, todas.

Ó prova, dura prova, mas amada prova: em ti vejo Jesus, em ti vejo a salvação das almas. Ai, tanto quero ver junto de mim os que me são mais queridos e tanto medo tenho deles! Estou sozinha, vivo sozinha.

Ó meu Jesus, e quando me dais o meu Paizinho espiritual? Quando realizais as Vossas divinas promessas? Vivo da esperança e da confiança em Vós. Confio no Vosso amor e na Vossa misericórdia infinita.

É quinta-feira, triste quinta-feira. Caminho morta para outra morte. Que medo, que pavor!

É já noite. A minha alma apavorada fugiu para um ermo, quer-se sozinha; está envergonhada, fugiu para a solidão para aí chorar lágrimas de maior agonia. Oh, quantos sofrimentos ela vê para ela e para o corpo! Vê tudo, nada lhe é oculto.

O demónio anda como os ladrões a formar os seus assaltos, atormenta-me sem dó nem piedade. Nem posso pensar nas coisas que ele me diz, tão feias, tão criminosas, contra mim, contra pessoas da minha maior estima e contra Jesus, que é o que mais me aflige. Afirma-me descaradamente que ofendo a Deus e nesse ponto parece-me ele falar verdade. Chama todos os demónios para virem pecar comigo e eles vêem com toda a manha infernal. Que triste e doloroso penar! Parece-me que chego a ir às portas da eternidade.

Não sei como o coração não me abre o peito com tanta força que bate. Quando me parece morrer, é que eu chamo mais facilmente por Jesus e pela Mãezinha: se não é com os lábios é com o coração e com o pensamento. Mas é ao terminar da luta, ao fim do perigo, pois antes o maldito raras vezes me deixa. Quem poderá acudir-me? Que socorro posso esperar a não ser do Céu? Pobre de mim.

29 de Dezembro de 1944

Não desaparecem do mundo as sextas-feiras! Ó meu Deus, corro para a morte e a morte para mim! Que dor esta tão angustiosa! A minha cabeça está dilacerada. O meu corpo, com os maus tratos, despedaçado, é só sangue, é uma chaga viva.

É tal a aflição e dor da minha alma que sinto e parece-me ver nela o desespero duma criatura. Por graça e grande misericórdia do Senhor não estou desesperada; sinto o efeito da desesperação, mas estou calma e serena, sequiosa de mais dor, sequiosa de mais purificação e mais amor.

Só com isto o mundo será salvo; só com estas cadeias fortes o poderei prender.

O sangue corre, a vida vai fugindo; foge para dar a vida, vai louca a salvar o mundo.

Meu Jesus, dai-me a dor que eu tanto amo, dai-me a purificação que eu tanto desejo. Guardai-me em Vós e na vossa e minha querida Mãezinha. Ouvi a minha alma num brado contínuo de agonia pela dor que sente e de ânsias de Vos entregar o mundo. Queria-o ver nas minhas mãos para vo-lo oferecer como o sacerdote vê em suas mãos a Sagrada Hóstia e a oferece ao Eterno Pai.

Jesus, olhai para mim, vede as ânsias tão agoniosas e imolai-me como Vos aprouver para Vos dar amor e com ele a humanidade. Queria dizer-Vos muito, mas, como nada sei, nada Vos digo.

No meio destas ânsias veio Jesus:

— Minha filha, anjo da terra, flor mimosa, flor cândida do Paraíso: vem, minha filha, recolher mais uma prova do meu esposório contigo, da minha união conjugal.

Neste momento Jesus tomou a minha mão, beijou-me e acariciou-me e estreitou-me docemente a Ele. Fiquei como que a nadar num mar de gozo, num mar de amor. Jesus continuou:

— Recebe a efusão do meu amor divino, recebe-o porque é a tua vida e tu és a vida das almas.

Coragem, minha filha, mais um pouco, o teu Céu está perto, agora está perto. Em breve a tua alma, desprendida da terra, voará ao Céu como a pomba branca e pura voa ao seu ninho. O teu ninho é o Céu junto do trono da Majestade divina, ao lado da minha bendita Mãe.

Voa a rainha da terra para o seu esposo celeste, para junto do Rei do Céu.

É junto a Mim, minha filha, que tu vais continuar a vigiar, a governar o teu reinado na terra. Não fica nela herdeiro da tua coroa nem do teu reinado. A ti entreguei o reinado do mundo, do Céu o governarás. Quanto te deve o mundo por o que por ele tens feito e por Eu o ter guardado no cofre riquíssimo do teu coração!

És um mar de dor, és um mar de amor. Estás transformada no infinito, tens sobre as almas poder infinito. Quanto te é devedora a humanidade, quanto te é devedor Portugal!

O mundo devia estar destruído. Foi para evitar males maiores que permiti haver ainda os males presentes.

Pede, pede de novo muita oração e penitência. Coragem, minha querida jardineira, jardineira do jardim celeste, agricultora divina. Semeia, colhe para Jesus. Semeia graça, semeia pureza, semeia amor.

O amor é a mais bela flor. Quem ama é puro, não ofende o seu Amado. Quem ama sofre por amor.

Ó filhinha amada, a tua dor tem sido a salvação das almas, guia e amparo dos pecadores.

Escuta, filhinha, escuta os anjos a entoarem-Me louvores e um Te Deum de acção de graças pela vítima que escolhi, pela redentora que ao mundo dei.

Todo o Céu vê a glória que me deste, todo o Céu vê o valor da tua dor.

Escuta, escuta as vozes celestes. Este louvor é ao terminar o ano. Este louvor é dado em teu nome e em nome dos que sofrem contigo, dos que cuidam de ti e da minha causa divina.

Dá a todos o meu agradecimento divino.

Olha o que te digo na última sexta-feira deste ano, na última que te falo e renovo a tua crucifixão: não te enganas, nunca te enganaste. Anima-te, tem coragem para a luta.

Antes da tua morte todas as minhas divinas promessas serão compridas. O esposo que ama a sua esposa não a engana nem a deixa enganar.

Quando Jesus me mandou escutar, ouvi as vozes celestes dos anjos, vozes tão harmoniosas que arrebatavam a alma ao Céu. Só a alma podia ouvir, só ela podia gozar. Jesus disse-me:

— É neste arrebatamento, num êxtase de amor saído por entre a dor que voarás ao Céu.

— Obrigada, meu Jesus; abençoai esta pobrezinha que, tão miserável e pequenina, à vista da Vossa grandeza desaparece. Dai-me força, dai-me amor.

 

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