20 de Março
1945
Ai, como eu vejo
o mundo correr no caminho da perdição! Oh, que dor tão tremenda, dor
que é impossível explicar! Ser mãe, mãe que ama sem haver igual amor,
e ver a humanidade fugir-me; morrem todos os meus filhinhos. Morrem
nos vícios, nos prazeres, nas loucuras do pecado. Eles loucos pelo
gozo, e eu, louca de amor por eles, para os salvar!
A luz que possuo
penetra tudo e em todos. A luz não é minha nem é para mim, mas com
ela vejo a maior das desordens e misérias. Esta luz vê tudo o que
vai na terra e sinto que ela mesma se quer revoltar contra a mesma
terra. Os seus raios não podem enfrentar o lodo e lama nojenta que
ela contém.

A torre que em
mim se levantou vai subindo, subindo, caminha para o céu. Sinto que
vai tão alta, mas os seus olhares não atingem o seu fim. Ela vai
subindo e, como remate, com ela sobe a luz; e lá das alturas vê o
mundo, ilumina o mundo, sobre ele espalha os seus raios, raios que
tentam subir a si por não poderem pensar no mundo.
Queria dizer
tanto a respeito desta luz, queria fazer-me compreender e não sei.
E agora, pobre
de mim, sinto-me em abandono total e completo; não tenho ninguém por
mim nem na terra nem no céu. É o que sinto, mas confio que não é a
realidade.
Pela minha
grande miséria, miséria sem igual, bem sei que o merecia. Da minha
parte não tenho inimigos na terra, mas aqueles que me têm ofendido,
embora sem o pensarem, pouca diferença fazem daqueles que são meus
amigos e tão queridos do meu coração.
Os que me
feriram, sinto o seu desprezo e abandono, mas não os temo. Daqueles
que tantos cuidados, carinhos e amor me têm dispensado, o que nunca
pagarei aqui na terra, sinto o mesmo desprezo, abandono e uma
indiferença que não sei a que comparar; e junta-se mais ainda o medo,
o grande medo, por vezes aterrador.
Sem encontrar
amigos na terra, levanto os olhos para o Céu; vejo-o fechado,
escusado é bater, lá não tenho ninguém por mim, os meus gritos
aflitivos não são ouvidos.
Se até agora
tinha medo de Jesus e ao seu chamamento divino fugia cada vez mais,
a pontos de não querer ouvi-Lo e querer-me esconder dele, agora,
aterrada sim, mas sinto-me obrigada a ir à sua santíssima presença.
Mas, oh, Ele está como que envergonhado de mim. Sou obrigada a estar
diante d’Ele; a minha alma sente-O e com os seus olhos vê-O diante
de si. Mas agora não tem, como quando eu Lhe fugia, aquele
chamamento cheio de doçura e amor. Agora é juiz recto, juiz que não
revoga sentenças. Eu, cheia de medo, não O posso ver, e Ele, como
que envergonhado de mim, põe diante do seu santíssimo Rosto, como
para encobri-lo, o seu braço divino. Que horror!
Passo dias neste
sentimento, nesta visão. Já quase cheguei a dizer: Meu Jesus, se é
possível, aliviai-me. Mas, sem terminar a frase, acrescentei: Meu
Deus, ó meu Deus, a vossa divina vontade!
Parece-me que
nada posso esperar do Céu nem da terra.
Ontem, dia de S.
José, logo depois de receber o meu Jesus, desapareceram as trevas e
a dor da minha alma. Senti-me não em gozo mas sim com mais luz e
mais confortada. Que grande paz dentro de mim! Jesus falou-me:
– Minha filha,
para provar quanto amo a obediência e quanto amo o meu querido pai
S. José, livrei-te estes dias dos combates do demónio. Consentes que
depois deste dia eles continuem? Necessito tanto deles para as almas
cegas nos prazeres, enredadas nos caminhos da perdição!...
– Sabeis, meu
Jesus, que tudo quero e aceito, só o que eu não quero é pecar. Fazei
de mim o que quiserdes, contanto que eu Vos dê o amor que desejais e
salve as almas, todas as almas que ferem o Vosso divino coração.
– Minha filha, a
tua sede é a sede que tenho delas. Tu corres para mim como o veado
para a corrente da água. Quanto mais me possuis mais desejos tens de
Me possuir. Quanto mais longe Me sentires mais perto eu estou.
Eu hei-de
esconder-Me em lugar onde não Me vejas nem sintas; mas então estou
em ti, sou teu, mais teu do que nunca. Mas para isso é necessário um
conforto assíduo. Dou o meu lugar, mas por pouco tempo; após isto,
depressa chega o céu.
Coragem,
filhinha amada! A tua vida é semelhante à minha: é Cristo retratado
na sua vítima amada. Salva-Me as almas!
Desejo tanto que
o meu querido pai S. José seja conhecido e amado! Anseio que todos
os esposos o imitem, as esposas imitem minha Mãe Santíssima, os
filhos a Mim. Queria que todos os lares, todas as casas fossem
semelhantes à de Nazaré.
Calou-se Jesus e
pouco depois nadava num mar de dores que já estão ditas.
Hoje, quando
fazia as minhas orações, acabrunhada pelos sofrimentos de alma e
corpo, veio o demónio, veio desesperado. Insultou-me horrivelmente.
Nomeou-me o nome de várias pessoas que afirmava pecarem comigo
juntas com ele:
– Não tens
pecado porque não tens querido; agora queres! Não foi Deus que
proibiu que eu viesse. Olha que Ele não tem Céu para te dar. O Céu é
neste mundo: o gozo e o prazer.
Durante a luta,
sempre que me foi possível, bradei ao Céu e no tempo de maior perigo
repeti muitas vezes:
Perdão, meu
Jesus, perdão, meu amor, sou a Vossa vítima, sou a Vossa escrava,
mas pecar não, não, meu Jesus!
Serenou a
tempestade, mas eu fiquei a ser um verdadeiro inferno; via em mim
todos os horrores que lá tem. E o maldito fez como Jesus tem feito.
Pareceu-me que ele estava sentado no meu coração, muito encostado,
descansadamente. E dizia-me:
– Habito aqui,
pertence-me, é meu!
Que horror, que
tremendo horror! Ser o demónio o senhor do meu coração, da alma e de
todo o meu ser. Veio Jesus e disse:
– Aparta-te
daqui, maldito! O senhor deste coração sou Eu, sempre fui, sou e
serei. Sempre habitei nele, habito e habitarei. É minha na terra, é
minha no Céu por toda a eternidade. É minha esposa, é a minha
vítima, é um cordeirinho imolado, é a minha pomba querida,
prisioneira à minha semelhança nos sacrários, por meu amor e pelas
almas!
O demónio fugiu
espavorido sem deixar em mim sinais do inferno.
Jesus
transformou a minha alma: dos horrores, da escuridão passei à luz, à
suavidade. Foi só tempo de reviver mais um pouco para poder aguentar
com o peso da cruz que tantas vezes vejo levantar à minha frente.
Bendito seja,
meu Jesus, tudo aquilo que me dais; sede em tudo a minha força e
alegria no sofrimento! |