Alexandrina Maria da Costa
nasceu a 30 de Março de 1904 na freguesia de Balasar, concelho da Póvoa de
Varzim, arquidiocese de Braga, e aí morreu no dia 13 de Outubro de 1955.
Desde
a infância denota robustez física, temperamento vivo e brincalhão: “Os fidalgos
— dizia a mãe — têm um bobo para os fazer rir, e eu não sou fidalga, mas também
tenho aqui quem esteja a fazer festa!”
1911-1912:
Frequenta a primeira classe na Póvoa de Varzim, pois em Balasar só havia escola
primária masculina; a feminina só foi introduzida em 1931. É na Póvoa de Varzim
que, preparada pelo Padre Álvaro Matos, recebe a primeira Comunhão:
«... Fitei a Sagrada Hóstia que ia receber de tal
maneira que me ficou tão gravada na alma, parecendo-me unir a Jesus para nunca
mais me separar d’Ele. Parece-me que me prendeu o coração. A alegria que eu
sentia era inexplicável».
1913-1917:
Pelos nove anos de idade, começa a trabalhar nos campos; mais tarde, é obrigada
àquelas fadigas como serviçal, para ganhar o seu pão.
1918: No Sábado
Santo daquele ano, salta de uma janela, da altura de mais de três metros, para
escapar à paixão de um homem que se infiltrara em sua casa. Em consequência da
queda, começou a sofrer de mielite comprimida na espinha dorsal, doença que só
mais tarde virá a ser descoberta através de exames clínicos, e da qual resultará
uma paralisia progressiva (relatório clínico do Dr.
Manuel Dias de Azevedo).
Passam-se mais seis anos de doença, ora a pé, ora de
cama.
1924: Em Junho,
com muito sacrifício, toma parte no Congresso Eucarístico de Braga: a partir de
então não voltará a sair de casa a não ser de maca!
1925: Em 14 de
Abri, acama definitivamente. Sua irmã, Deolinda, torna-se a sua enfermeira, pois
a mãe tem de tratar dos trabalhos do campo. Deolinda trabalha como costureira
em casa.
1928:
Por ocasião de uma peregrinação paroquial a Fátima, volta a acalentar a
esperança da cura, mas a graça não lhe é concedida. Lemos na Autobiografia: «Morreram
os meus desejos de ser curada, e para sempre, sentindo cada vez mais ânsias do
amor ao sofrimento e de só pensar em Jesus».
1930: No mês de
Maio, escreve na capa de um livrinho: «Ó minha querida Mãe do Céu, vinde
apresentar ao Vosso e meu querido Jesus, nos vossos sacrários, as minhas
orações, e fazer mais valiosos os meus pedidos... Dizei-Lhe também que quero
muitos sofrimentos, mas que não me deixe sozinha nem um momento».
Nessa altura, todas as manhãs repete, entre outras,
a seguinte oração: «Uno-me em espírito, neste momento, e desde este momento para
sempre, a todas as Santas Missas que de dia e de noite se celebram na terra.
Jesus, imolai-me conVosco a cada momento no altar do sacrifício; oferecei-me
conVosco ao Eterno Pai pelas mesmas intenções por que Vós mesmo Vos ofereceis».
1931-1932:
Durante as suas orações e ofertas a Jesus, começa a sentir um calor intenso que
parece queimar-lhe o coração; sente-se como que arroubada. Num desses momentos
ouve no seu íntimo a seguinte inspiração:
sofrer, amar,
reparar.
Não percebe o que essas palavras exijam dela: «Ó meu
Jesus, que quereis que eu faça?», pergunta uma e mais vezes, mas em resposta não
sente senão aquelas três palavras.
1933:
Em 16 de Agosto, vem a Balasar pregar um traduzo ao S. Coração de Jesus o Pe
Mariano Pinho, S. J. Nessa ocasião, a Alexandrina obtém que ele seja o seu
director espiritual. Aquele sacerdote inspira-lhe muita confiança: gradualmente
ela lhe irá expor os problemas da sua alma.
1934: «Foi em
Setembro de 1934 que eu compreendi que era a voz de Nosso Senhor e não uma
exigência, como julgava. Foi então que Ele me pediu e falou assim:
“Dá-me as tuas mãos, que as quero crucificar; dá-me os teus pés,
que os quero cravar comigo; dá-me a tua cabeça, que a quero trespassar com a
lança, como Me trespassaram a Mim. Consagra-me todo o teu corpo; oferece-te toda
a mim!..”»
A frase «compreendi que era a voz de Nosso Senhor» é
muito significativa. Com efeito, a verdadeira experiência mística é
caracterizada pela iniciativa de Deus, particularmente forte: de uma força tal,
que a alma possa reconhecê-la não como vinda de si própria, mas de Deus.
No princípio de Outubro, escreve ao seu director:
«Diz-me Jesus que se serve de mim para que, por mim, vão a Ele muitas almas
e, por mim, sejam excitadas a amá-Lo na SS. Eucaristia» (Cartas ao Padre
Pinho: 4-X-34).
A
14 de Outubro, a Alexandrina, com o sangue feito sair por meio de um alfinete,
escreve no verso de uma estampa: «Com o meu sangue Vos juro amar-Vos muito, meu
Jesus, e seja tal o meu amor, que morra abraçada à cruz! Amo-Vos e morra por Vós,
meu querido Jesus, e nos Vossos sacrários quero habitar, meu Jesus».
Numa carta ao Pe Pinho, escrita em 1 de
Novembro, lê-se: «(Jesus) exige de mim que, assim como
Ele me era fiel em habitar em mim para me consolar, queria que eu Lhe fosse fiel
em habitar em espírito em todos os sacrários para o consolar e amar».
1935:
Jesus
diz-lhe: «Dá-me o teu sangue pelos pecados do mundo. Aluda-me no meu resgate.
Sem mim não podes nada; comigo terás poder para tudo, para acudires aos
pecadores e a muitas, muitas coisas» (Cartas ao Padre Pinho: 3-1-35).
Em 30 de Julho, depois da Comunhão Jesus ordena-lhe:
«Manda dizer ao teu director espiritual que, em prova do amor que dedicas à
minha Mãe Santíssima, quero que seja feito todos os anos um Acto de Consagração
do mundo inteiro... Assim como pedi a S. Margarida Maria para ser o mundo
consagrado ao meu Divino Coração». (Cartas ao Padre Pinho: 1-8-35).
A Alexandrina responde:
«Sou a Vossa vítima, a vítima da Eucaristia a lampadazinha das
vossas prisões de amor, a sentinela dos vossos sacrários! O Jesus, eu quero
ser vítima dos sacerdotes a vítima dos pecadores a vítima do mundo inteiro,
vítima da paz, vítima da Consagração do mundo à Mãezinha».
1936: A 7 de
Junho, festa da SS. Trindade, a Alexandrina experimenta pela
primeira
vez a morte mística, que exteriormente se apresenta como uma morte aparente;
fenómeno misterioso que tem sido comparado pela teologia cristã à transformação
da lagarta em borboleta, na medida em que Deus, através dele, purifica as almas
e as torna cada vez mais sublimes. (Santa Teresa, S.
João da Cruz).
No dia 11 de Setembro, o Padre Pinho envia ao
Cardeal. Pacelli o pedido para o mundo ser consagrado ao Coração Imaculado de
Maria.
1937: A 2 de
Fevereiro, a Santa Sé encarrega o Arcebispo de Braga de estudar o caso da
Alexandrina e de fornecer informações claras acerca do pedido da consagração do
mundo a Maria. (Cfr. Cristo Gesù in Alexandrina, pág. 707).
No êxtase de 31 de Outubro, diz-lhe Jesus: «Minha
filha, Eu escolhi-te para coisas mais sublimes! Servi-me de ti para comunicar
ao Papa o desejo que tenho que seja consagrado o mundo à minha Mãe
Santíssima» (Cartas ao Padre Pinho: 1-11-37).
1938: Depois de
um retiro espiritual iniciado em 30 de Setembro, no seu quartinho, sob a
orientação do Pe Pinho, Jesus prediz-lhe, no êxtase de 2 de Outubro, que
ela iria sofrer toda a Sua santa Paixão pela primeira vez em 3 de Outubro, e em
seguida todas as sextas-feiras, das 12 horas às 15.
«Não disse que não a Nosso Senhor. Preveni o meu
director espiritual de tudo o que Nosso Senhor me disse. Esperava o dia e a hora
com grande aflição, pois nem eu nem o meu director fazíamos ideia do que
se ia passar. Na noite de 2 para 3 de Outubro, se era grande a agonia da alma,
também foi grande todo o sofrimento do meu corpo... Foi neste sofrimento que eu
fui para a primeira crucifixão. Que horror eu sentia em mim! Que medo e até
pavor!».
A experiência da Paixão revivi-a, conforme nos surge
através da narração da Alexandrina, não nasce, propriamente, do sentimento, da
emotividade, da meditação e reflexão dela, ainda que as suas disposições tenham
podido ser, sob certos aspectos, um elemento útil para abrir caminho ao carisma
divino.
1939: A 20 de
Janeiro, durante o êxtase, Jesus confia-lhe que continuará a reviver a Paixão
daquela maneira até o mundo ser consagrado à Mãe Imaculada. (Carta ao Padre
Pinho).
A 20 de Março, pouco tempo depois da eleição de Pio
XII, Jesus prediz-lhe que será esse Papa a consagrar o mundo a Maria.
A 28 de Junho, prediz-lhe a guerra, em castigo dos
graves pecados cometidos pelo mundo; e então ela oferece-se vítima pela paz.
(Carta ao Pe Pinho).
1940: A 4 de
Julho oferece-se vítima com outras almas em união com Nossa Senhora, para obter
que ao menos Portugal seja poupado aos horrores da guerra. Jesus aceita a
oferta e afirma categoricamente: «Portugal será poupado à guerra». (Carta
ao Pe Pinho). Assim aconteceu.
Em Dezembro, Jesus assegura-lhe que também o Santo
Padre seria poupado aos horrores da guerra, mas que haveria de sofrer muito,
moralmente. (Carta ao Padre Pinho: 6-12-1940).
1941: Encontra-se
pela primeira vez com o Dr. Manuel Dias de Azevedo. Daí
em
diante, aquele médico prestar-lhe-á assistência com todo o carinho e dedicação
até à morte.
No dia 29 de Agosto, o Padre José Alves Terças, da
Congregação dos Missionários do Espírito Santo, assiste à Paixão; seguidamente
publicará um relato do que viu e ouviu no nº 10 da revista «Vida de Cristo, a
Paixão dolorosa», vol. V, Lisboa, 1941.
1942: É-lhe
tirado o seu director espiritual. No dia 27 de Março, sofre pela última vez a
Paixão na sua forma de participação física.
Na sexta-feira seguinte, 3 de Abril, Sexta-feira
Santa, não volta a sofrer a Paixão na referida forma, mas revive no seu íntimo
as várias fases dela. No mesmo dia, Jesus diz-lhe: «Não temas, minha filha,
que não és mais crucificada. A crucifixão que tens é a mais dolorosa que se pode
imaginar na história». (Diário, 3-4-1942). Quer dizer que, desde então, ela
participaria mais intensamente ainda em todos os sofrimentos morais e
espirituais se Jesus, na Sua Paixão, sem manifestações externas.
Neste período, as suas condições físicas agravam-se
muito; chegam a tal ponto que, em certo dia, parece estar prestes a exalar o
último suspiro e recebe a Santa Unção; dita as suas últimas disposições.
Contrariamente ao que se esperava, não morre
fisicamente, mas começa para ela uma segunda morte mística, que irá durar perto
de dois anos.
Nesse mesmo período, começam também o jejum e a
anúria completos, que vão durar até à morte. Alimentar-se-á apenas da Hóstia
consagrada, durante mais de 13 anos!
No dia 31 de Outubro o Santo Padre faz a
consagração oficial do mundo ao Imaculado Coração de Maria. (Cfr. Cristo
Gesù in Alexandrina pág. 117).
1943: De 10 de
Junho a 20 de Julho, é internada na clínica «Refúgio da paralisia infantil» da
Foz do Douro, sob a observação do Dr. Gomes de Araújo. A autoridade
eclesiástica dispusera que se procedesse a um rigoroso controlo acerca do jejum
e da anúria, em que muitos não acreditavam; também os médicos desejavam
verificar o fenómeno com o máximo rigor. O relatório elaborado pelo Dr. Gomes de
Araújo conclui com estas palavras: «E absolutamente certo que durante 40 dias
em que a Alexandrina esteve internada no “Refúgio» não comeu nem bebeu, nem
urinou, nem defecou.
1944: Apesar do
referido teste, continuam a espalhar-se dúvidas e falatórios
sobre
o seu jejum e a sua vida cheia de carismas; para ela, isto e motivo de
indizíveis sofrimentos, tanto mais que se encontra privada de um guia espiritual.
A Providência divina vem ao seu encontro deparando-lhe um Sacerdote salesiano a
cuja direcção se confia. Este, ao dar-se conta de que na Alexandrina há o
dedo de Deus, impõe-lhe que dite o seu diário até à morte.
Faz-lhe de secretária heróica sua irmã Deolinda, «aquele
anjo que Deus pusera ao seu lado como enfermeira».
No dia 1 de Dezembro, dá-se o matrimónio
místico, ou seja o estado de união amorosa entre Deus e a sua alma. Jesus
diz-lhe: «Tu és esposa e és mãe, mãe que não
deixa de ser virgem. És mãe dos pecadores…».
No dia seguinte, sábado, Nossa Senhora
confirma-lhe as palavras do Filho e
acrescenta:
«Aceita o meu santíssimo manto, aceita-o... Podes
cobrir com o meu manto o mundo inteiro, chega para todos. Aceita a minha coroa...
és rainha».
1945: Sofre por
ter a impressão de que é causa de pecado e de que ela é o próprio pecado
personificado, e repara pelas várias categorias de pecados.
Acentuam-se, tornando-se mais frequentes e
violentos, os assaltos do demónio.
Ao mesmo tempo, experimenta diversos graus da
transformação da sua alma em Cristo: «Quero, minha filha, dilatar-te o
coração, quero fazê-lo grande, grande como o meu divino amor... Envolve-o no
mundo que nele depositei». (Diário, 3-3-45).
E, passados alguns meses: «Tomou em Suas divinas
mãos o meu coração e fez dele uma grande bola que momentos depois colocou no
lugar do coração. E disse-me: «Minha filha, o teu coração é uma bola de amor...».
(Diário, 22-6-45). «Minha esposa, minha rainha, vives de Mim, a tua vida
é a minha, estou transformado em ti, eis porque a tua vida é divina... Tu és a
fonte e Eu a água que corre nela, que lava e purifica...». (Diário, 1-9-45).
1946: As
articulações dos braços e das vértebras desconjuntam-se; o Dr. Azevedo resolve
enfaixar-lhe o corpo todo e colocá-la em cima de tábuas; assim ficara até à
morte. (Diário, 4-10-46).
Novos exames de teólogos e médicos deixam-na num
estado lastimoso. (Diário, 26-11-46).
1947: Sente-se
muito mal de saúde e escreve por seu próprio punho, com indizível sacrifício, a
sua carta-testamento aos pecadores: “Levei a minha vida a sofrer, e levarei o
meu Céu a amar e a pedir a Jesus por vós, ó pecadores. Convertei-vos e amai a
Jesus; amai a Mãezinha Vinde, vamos todos para o Céu! Se sentísseis, por algum
tempo, os martírios que por vós sofri, estou convencida que não pecaríeis mais;
e, se conhecêsseis o amor de Jesus, então morreríeis de dor por O terdes
ofendido. Não pequeis! Não pequeis! Jesus criou-nos Jesus e Pai!» (Diário,
25-7-1947).
1948: Cheia a
transbordar da caridade de Cristo, intensifica o seu apostolado paroquial e o
auxílio aos pobres que a ela recorrem cada vez mais numerosos; auxilia as
vocações, o Seminário e as Casas Religiosos de formação.
Aumenta sempre mais o número das pessoas que a vão
visitar para se aconselharem. Jesus diz-lhe: «Acodes com a tua dor. Confia
que a tua dor é para as almas mais do que a água é para os peixes; a tua dor é
para as almas mais que o sol é para a terra». (Diário, 6-2-48).
A 14 de Julho, escreve por sua mão o epitáfio
a ser gravado na própria campa:
«Pecadores,
se as cinzas do meu corpo vos têm utilidade para vos salvardes, aproximai-vos,
passai por cima delas, calcai-as até que desapareçam, mas não pequeis mais, não
ofendais mais vezes o nosso Jesus. Pecadores, tantas coisas queria dizer-vos!
Não me chegava este grande cemitério para as escrever!... Convertei-vos! Não
ofendais a Jesus, não queirais perdê-Lo eternamente. Ele é tão bom! Basta de
pecar! Amai-O! Amai-O!»
A 23 de Setembro, recebe a última visita do seu
segundo director, obrigado a voltar para a Itália. Ela continuará, no entanto,
a enviar-lhe as páginas do seu diário até à morte.
Depois de lhe ter sido tirado também o segundo
director, Jesus diz-lhe: «... Eu sou o Artista divino e faço no teu nada a
arte mais maravilhosa... E com a tua cegueira que Eu dou luz às almas». (Diário,
1-10-48).
1949: Jesus
promete-lhe que chamará junto da sua campa muitos pecadores e que os há-de
converter. (Diário, 2-9-49).
A Virgem do Rosário aparece-lhe com o terço nas mãos
e diz-lhe. «O mundo agoniza e morre no pecado. Quero oração, quero penitência.
Enrola, minha filha, neste meu rosário os que amas... enrola o mundo». (Diário,
1-10-49).
1950: No êxtase
de 28 de Julho, Jesus diz-lhe: «Dá-me a tua reparação,
e escuta a minha urgente mensagem. Eu quero que Sua Santidade o Papa, o meu
querido representante na terra, faça ao mundo o seu último apelo... Oração,
oração e penitência, renovação de vida, vida nova, vida pura...».
Mais tarde, em 1 de Setembro, acrescenta: «Minha
filha, une à minha
angústia
a tua angústia, à minha agonia a tua agonia e ao meu o teu calvário: é Calvário
de dor, é Calvário de salvação». (Diário, 1-9-50).
A Alexandrina participa nos sofrimentos de Cristo e
recebe até os estigmas, que ficarão sempre invisíveis, mas dolorosíssimos. Jesus
diz-lhe:
«Minha filha, tiro bálsamo das Minhas
chagas para as tuas, ocultas, mas dolorosas, bem profundas, para que as tuas
mãos semeiem pelas chagas dolorosas a minha semente divina e para que os teus
pés não caminhantes, pela chagas abertas arranquem dos caminhos errados as almas
que correm para a perdição... Tiro bálsamo das feridas da minha sacrossanta
cabeça para a tua, para suavizar a dor dos teus espinhos, para mais forte
poderes com este sofrimento arrancar dos espíritos as más inclinações e
pensamentos criminosos... Do meu Divino Coração tiro bálsamo amoroso, bálsamo de
fogo, para que me ames e faças amado, para que ateies este fogo, este amor, para
que possuas sempre a ternura e a doçura do meu».
(Diário,
1-9-50).
1951: No êxtase
de 19 de Janeiro, Jesus solicita: «Depressa, depressa, mais orações, mais
penitência!... Depressa, depressa a renovar a vida e os costumes... Depressa,
filhos meus». A Alexandrina responde: «Depressa, dizeis Vós; agora digo eu:
Esperai Vós... Vós dizeis «depressa» para que se convertam; e eu digo: «esperai,
dai-lhes tempo, Jesus... Sou a vossa vítima, Jesus, sou a vossa vítima, e quero
perdão para o mundo». (Diário, 19-1-51).
A alma vítima torna-se cada vez mais semelhante à
Vítima divina. A identificação da Alexandrina com Cristo vem a realizar-se desde
há anos:
«Tu vives com a minha vida, sofres com a
minha dor, amas com o meu amor. Vives com a minha vida, porque com ela te faço
viver; sofres a minha dor, porque ta faço sentir, porque és vítima para Me
repararem. Amas com o meu amor porque to infundi em teu coração para com ele me
amares e fazeres que Eu seja amado». (Diário,
23-11-51).
1952: A 18 de
Janeiro, lemos no Diário: «Não sei que sinto a mais no coração. Parece que
dentro dele tem alguém que, à semelhança dos pescadores, deita redes e mais
redes para apanhar este mundo imenso de almas. Quantas mais redes saem para fora
do coração, mais redes tem para deitar. E que ânsias infinitamente grandes de as
possuir todas, todas cheiinhas! Que tarefa, que canseira incessante!”.
A partir desse ano, aumenta muitíssimo o número das
pessoas que vão vê-la e
pedir-lhe conselho; as conversões não têm conta.
Apesar de tudo isso, sente muito acerbamente outro
sofrimento: a impressão de que toda a sua vida e o seu martírio tenham sido
inúteis: «Tornou-se por completo inútil todo o meu viver». (Diário 16-5-52).
1953: Porém, a 9
de Janeiro, diz: «Só a esperança e a confiança são o bálsamo do meu sofrer. Não
sinto que confio, mas confio... A vida sem dor seria para mim insuportável...
Não há nada que se compare com a doçura da cruz, quando a aceitamos e levamos
por amor». (Diário, 9-1-53).
A propósito da agonia no Calvário, diz: «Eram
segredos e mistérios divinos.., eram segredos, mistérios de redenção». (Diário,
1-5-53).
A Alexandrina compreendeu o grande valor salvífico
do sofrimento. E Jesus diz-lhe: «Sou o Sol, a Vida, o amor do teu coração...
É sol, vida e amor divino. Dou-me, comunico-me por ti às almas... Estás na vida
pública de Jesus». (Diário, 15-5-53).
No êxtase de 20 de Novembro, Jesus diz-lhe também:
«Escolhi este calvário por amor dos pecadores, por amor da humanidade inteira...
Sou Eu, Jesus, a dar-lhe o título «Calvário dos pecadores»». (Diário,
20-11-53).
A 25 de Dezembro tem o último êxtase público, êxtase
que sucedia normalmente à Paixão vivida no seu íntimo.
1954: Ao
comemorar neste ano o 12º aniversário do início do seu jejum e anúria completos,
Jesus confia-lhe: «Pus-te no mundo, faço que vivas só de Mim para mostrar ao
mundo o valor da Eucaristia e o que é a minha vida nas almas. És luz e
salvação para a humanidade». (Diário, 9-4-54).
Em Maio, escreve ao Pe Pinho: «Oh! Como eu precisava
do meu Padre junto de mim para lhe abrir a minha alma, para lhe mostrar um livro
de páginas sem fim que tenho no coração. Livro este que só à luz da eternidade
se pode compreender e ler todo. Nele estão escritas as ânsias de me dar, de me
consumir no amor de Jesus e de a Ele conduzir todas as almas, todas, mesmo todas.
Não posso consentir na perda de uma só... Ai, quanto fala este livro!». (Cartas
ao Padre Pinho, 2-5-54).
Este livro vivo é o próprio Jesus crucificado com
quem a Alexandrina se sente identificada.
No mês de Setembro, Jesus diz-lhe: «A tua vida é
a minha Paixão contínua..., é paixão mística, mas de tal forma que nela encerra
toda a minha santa Paixão». (Diário, 24-9-54)
Poucos dias volvidos, lê-se no Diário: «Neste
momento, pela chaga do Seu Divino Coração saiu um clarão tão grande e uns raios
tão luminosos que irradiavam tudo. Pouco depois, de todas as Suas chagas divinas
saíam raios que me vinham trespassar os pés e as mãos. Da Sua sacrossanta cabeça
para a minha passava-se também um «sol» que me trespassava todo o cérebro.
Falando do primeiro clarão e raios que saíam do Seu Divino Coração, disse Jesus
com toda a clareza: «Minha filha, à semelhança de Santa Margarida Maria, Eu
quero que incendeies no mundo este amor tão apagado nos corações dos homens.
Incendeia-o, incendeia-o. Eu quero dar, Eu quero dar o meu amor aos homens, Eu
quero ser por eles amado. Eles não mo aceitam e não Me amam. Por ti quero que
este amor seja incendiado em toda a humanidade, assim como por ti foi consagrado
o mundo à Minha Bendita Mãe. Faz, esposa querida, que se espalhe no mundo
todo o amor dos Nossos Corações». (Diário, 1-10-54).
Apesar de tudo isto, sofre terríveis crises de fé e
sente-se em trevas. Lemos no Diário: «Repeti o meu creio com muito custo;
dizia a Jesus o meu creio, espero e confio, mas a parecer uma
mentira constante». (Diário, 8-1 0-54).
1955: A 7 de
Janeiro, Jesus prediz-lhe a morte:
«Estás no teu ano! estás no teu ano! Confia, tem
confiança em Mim!».
A
11 de Fevereiro, Jesus conforta-a: “Coragem, minha filha; o teu quarto, a tua
vida, quantos ensinamentos dão ao mundo! É a escola divina a ensinar os humanos.
É luz de Deus a iluminá-los nas trevas». (Diário).
No dia 13 de Outubro, aniversário da última aparição
de Nossa Senhora em Fátima, a Alexandrina vai para o Céu: o seu coração,
consumido pelo amor, cessa de pulsar às 20 horas e 29 minutos.
Por sua expressa vontade foi sepultada de rosto
voltado para o Sacrário da sua igreja, como sinal do seu amor a Jesus
Eucarístico. |