No desmoronamento
do Império Romano do Ocidente, a Providência suscitou São Bento “como uma luz no
meio das trevas, ou como um médico enviado por Deus para curar as chagas da
humanidade nessa época”
*****
Em
seu livro Diálogos, em que narra a vida de Santos, São Gregório Magno dedica o
capítulo II a São Bento. Assim principia ele:
“Houve
um homem de vida venerável pela graça e pelo nome, Bento, que desde sua infância
teve a cordura de um ancião. Com efeito, adiantando-se pelos seus costumes à
idade, não entregou seu espírito a prazer sensual algum, senão que, estando
ainda nesta Terra e podendo gozar livremente as coisas temporais, desprezou o
mundo com suas flores, como se estivessem murchas”.
São Bento era
oriundo da nobre família Anicia, que dera a Roma cônsules e imperadores, e
nasceu no povoado de Sabino, em Núrcia, na Úmbria, por volta de 480. Quatro anos
antes, o rei dos bárbaros hércules depunha o último imperador romano, Rómulo
Augústulo, fazendo cessar assim o domínio que tinha Roma sobre todo o mundo
civilizado de então.
Da irmã gémea de
Bento, Escolástica, sabe-se que foi consagrada a Deus desde sua infância, mas
não se têm pormenores de sua vida, senão pouco antes de sua morte.
Barbárie alastra-se na época de
São Bento
Acompanhado de sua ama de
leite, Bento foi enviado a Roma para estudar. Ali permaneceu certo tempo. Mas
aconteceu que,
“invadido pelos pagãos das tribos arianas, o mundo
civilizado parecia declinar rapidamente para a barbárie durante os últimos anos
do século V: a Igreja estava dividida pelos cismas; cidades e países desolados
pela guerra e pilhagem; vergonhosos pecados campeavam tanto entre cristãos como
gentios. [...] Nas escolas e nos colégios os jovens imitavam os vícios de seus
maiores”.
Por isso Bento foi
viver, ainda com sua ama de leite, na cidadezinha de Efide, onde, auxiliado “por
muitos homens honrados”, instalou-se perto da igreja de São Pedro. Foi nesse
pequeno lugar que ele operou o primeiro milagre de que se tem notícia. Tendo sua
ama emprestado de gente pobre da redondeza um jarro de barro, colocou-o de mau
jeito sobre a mesa; este tombou, caiu ao solo e partiu-se. Vendo a mulher chorar
amargamente porque não podia devolver o jarro quebrado, Bento juntou os cacos e
rezou sobre eles, “com os olhos cheios de lágrimas”. No mesmo instante o jarro
se reconstituiu, como se nunca se tivesse partido.
Recolhimento na solidão de Subiaco
A fama do milagre
espalhou-se pela cidade, e era exatamente o que Bento não queria. Por isso,
resolveu retirar-se para um lugar inteiramente isolado, onde pudesse estar a sós
com Deus. Desta vez, sem levar consigo nem sua ama, foi para uma região agreste,
montanhosa, a umas quatro milhas de Roma, chamada Subiaco. Lá encontrou um
monge, Romão, que sabendo de seus desígnios, deu-lhe um hábito de eremita e
indicou-lhe uma gruta tão inacessível, que dificilmente alguém poderia
encontrá-lo. E o mesmo São Romão fazia descer o pão para alimento de Bento, por
uma cordinha à qual amarrara uma sineta.
Nesse recolhimento
total, o solitário viveu durante três anos. Foi quando, segundo a tradição, um
sacerdote de Monte Preclaro, que planejara seu jantar para o domingo de Páscoa,
viu em sonhos Nosso Senhor que lhe disse: “Meu servidor morre de fome numa
caverna, e tu te preparas deliciosas iguarias”. A essa voz o sacerdote se
levanta, pega o que havia preparado para a refeição, e sai para encontrar o
servo de Cristo, desconhecido por ele. Guiado pela mão de Deus, vai entre as
montanhas e rochas até encontrar finalmente a gruta de Bento. Depois de com ele
rezar por longo tempo, convida-o a participar de sua refeição, alegando ser
aquele um dia de festa.
Algum tempo depois,
alguns pastores descobriram o santo. No início, pensaram tratar-se de algum
animal, pois estava vestido de peles, mas depois viram que era um solitário.
Este lhes falou da religião, e aos poucos a fama de santidade de Bento
irradiou-se pela região.
Ato heróico para aplacar a
concupiscência
O pai da mentira
quis vingar-se do bem que Bento fazia e do que previa que ele iria ainda fazer,
e sob a forma de um melro começou a cantar, volteando em torno de sua cabeça.
Mas Bento fez o sinal da Cruz sobre o importuno, que desapareceu. No mesmo
instante o Santo sentiu tão terrível tentação de luxúria que, para apagar seu
ardor, jogou-se numa sarça de espinhos, sobre a qual esfregou seu corpo até o
sangue jorrar. A dor física afastou a tentação diabólica, e esse ato heróico
valeu-lhe o ver-se livre de toda tentação de luxúria para o resto de sua vida.
Séculos depois, outro santo, o poverello de Assis, contemplando enlevado aquela
sarça de rudes espinhos, abençoou-a, e nela surgiram odoríferas rosas.
Havia nas proximidades de Subiaco
um mosteiro, decadente de seu primitivo fervor. Falecendo seu abade, os monges
escolheram Bento para seu lugar. Em vão ele resistiu. Para o bem da paz, acabou
cedendo. Mas os monges não puderam suportar suas contínuas admoestações, seus
conselhos, e sobretudo a força de seu exemplo. Resolveram então envenená-lo.
Deram-lhe uma taça de vinho na qual haviam derramado substância fortemente
venenosa, mas o santo, como era seu costume, fez o sinal da cruz sobre o vinho
antes de beber, e a taça despedaçou-se em suas mãos. Bento voltou então para sua
amada solidão de Subiaco.
Formador de santos – milagres
portentosos
A fama do solitário
de Subiaco foi espraiando-se como mancha de azeite, e pessoas de toda condição
acorriam para consultá-lo ou ouvir-lhe palavras de vida eterna. Alguns iam mais
longe: o nobre Equício confiou seu filho Mauro, de apenas 12 anos, para que
Bento o educasse e dirigisse. E o patrício Tértulo fez o mesmo com seu filho
Plácido, então com 7 anos. Na escola de Bento ambos chegarão à honra dos
altares.
Aos poucos, 12
conventos espalharam-se ao redor de Subiaco, cada um com 12 monges e um
superior, tendo Bento a supervisão de todos eles.
Entre os 12
conventos, três ficavam na encosta da montanha, onde não havia água. Seus monges
tinham que descer as escarpadas encostas para buscá-la no lago, embaixo. Isso
não só era muito cansativo, mas apresentava riscos. Por isso os monges pediram
autorização a Bento para mudar-se para lugar mais propício. O santo quis que
eles esperassem. Acompanhado do menino Plácido, subiu a montanha, escolheu um
local perto dos conventos e marcou-o com três pedras. No dia seguinte os monges
notaram que do local jorravam filetes de água, que logo formaram um regato
descendo montanha abaixo.
Outro milagre
realizado por essa época foi com um godo convertido, que entrara como noviço em
um dos conventos. Bento deu-lhe como função capinar em redor do lago, para
acabar com as pragas. O noviço pôs tanto empenho no trabalho que, estando perto
do lago, a lâmina da enxada saltou para dentro da água, num lugar profundo.
Contrito e
humilhado, o noviço procurou Mauro para que este, que era o discípulo
predilecto, pedisse a São Bento que lhe desse uma penitência. Ao saber do
ocorrido, o santo foi até a beira do lago com o noviço e, enfiando a ponta do
cabo na água, a lâmina subiu das profundezas e foi encaixar-se perfeitamente a
ele.
Noutra ocasião, o
menino Plácido foi pegar água no lago e caiu, sendo arrastado pela água. Bento,
por visão profética, viu o que se passava e mandou que Mauro corresse em socorro
do menino. O jovem obedeceu prontamente e ao pé da letra: correu sobre a água e
pegou Plácido pelos cabelos, arrastando-o para a margem. Só então se deu conta
do milagre de correr sobre a água, e o atribuiu a São Bento, que lhe disse que
fora antes um prémio da pronta obediência.
Fundação do mosteiro de Monte
Cassino
Vendo o bem que
fazia Bento, e consentindo numa tentação do demónio, um sacerdote que morava nas
proximidades, Florêncio, encheu-se de ódio pelo santo. Tentou matá-lo,
enviando-lhe um pão envenenado, mas São Bento, conhecendo-o por revelação,
ordenou a um corvo que levasse o pão para um lugar onde não pudesse causar dano
a ninguém.
O clérigo não
cessou seus ataques, chegando ao cúmulo de introduzir num dos mosteiros sete
jovens debochadas para tentar os monges.
Sabendo São Bento
que o objecto de toda a ofensiva era ele, resolveu retirar-se, levando consigo
alguns discípulos. E chegou à região de Monte Cassino, onde havia as ruínas de
uma cidade na qual tinha sido venerado o deus Apolo. No lugar, plantou uma cruz
e começou a construção do mosteiro que tanto bem faria ao mundo daquele tempo.
Regra beneditina: “suma do
cristianismo”
Querendo que seus monges unissem a
vida activa à contemplativa, no Ora et Labora (Reza e Trabalha), São Bento
escreveu sua Regra, obra-mestra destinada à perpetuidade. Ela é, de acordo com
Bossuet, uma “suma do cristianismo, resumo douto e misterioso de toda a
doutrina do Evangelho, das instituições dos Santos Padres, de todos os conselhos
de perfeição, na qual se alcança, no seu cimo mais alto, a prudência e a
simplicidade, a humildade e o valor, a severidade e a doçura, a liberdade e a
dependência: na qual a correcção tem toda sua firmeza, a condescendência todo
seu encanto, a voz de mando todo seu vigor, a sujeição todo seu repouso, o
silêncio sua gravidade, a palavra sua graça, a força seu exercício, e a
debilidade seu apoio”?
São Bento faleceu
em 21 de março de 543.
Plinio Maria
Solimeo

|