A BEATA
ALEXANDRINA MARIA DA COSTA

« Eu chamo-me
Alexandrina Maria da Costa, nasci na freguesia de Balasar, concelho da Póvoa de
Varzim, distrito do Porto, a 30 de Março de 1904, numa quarta-feira santa e fui
baptizada a 2 de Abril do mesmo ano, era então sábado de Aleluia.

Serviram de
padrinhos um tio de nome Joaquim da Costa e uma senhora de Gondifelos
(Famalicão), de nome Alexandrina ».
Balasar foi a sua
terra. Foi aí que viveu quase toda a infância, que aprendeu a catequese, que se
tornou adolescente e jovem, que ensinou também catequese e animou a liturgia com
o canto, que aprendeu a conhecer a natureza e os homens, que sofreu a tentativa
de violação que a acamou; foi aí que muito orou, que teve extraordinárias
revelações, que recebeu milhares e milhares de pessoas; foi daí que voou para o
Céu.
Lembremos o
fatídico episódio ocorrido no Calvário e que havia de contribuir decisivamente
para a sua paralisia :
« Uma ocasião,
estando eu, minha irmã e uma pequena mais velha do que nós, a trabalhar na
costura,
avistámos
três homens: o que tinha sido meu patrão, outro casado, e um terceiro solteiro.
Minha irmã, percebendo alguma coisa e vendo-os seguir o nosso caminho, mandou-me
fechar a porta da sala. Instantes depois, sentimos que eles subiam as escadas
que davam para a sala e bateram à porta. Falou-lhes minha irmã. O que tinha sido
meu patrão mandou abrir a porta, mas, como não tivesse lá obra, não lhe abrimos
a porta. O meu antigo patrão conhecia bem a casa, e subiu por umas escadas pelo
interior da habitação, e os outros ficaram à porta onde tinham batido. Ele, não
podendo entrar pelo interior, por um alçapão que estava fechado e resguardado
por uma máquina de costura, pegou num maço e deu fortes pancadas nas tábuas até
rebentar o alçapão, tentando passar por aí. Minha irmã, ao ver isto, abriu a
poria da sala para fugir e conseguiu escapar-se, apesar de a prenderem pela
roupa. A outra pequena foi a segunda a fugir, mas essa ficou presa. E eu, ao ver
tudo isto, saltei pela janela que estava aberta e que deitava para o quintal.
Sofri um grande abalo, porque a janela distava do chão quatro metros. Quis
levantar-me logo, mas não pude porque me deu urna forte dor na barriga. Com o
salto caiu-me um anel, que usava, sem dar por ela. Cheia de coragem, peguei num
pau e entrei pela porta do quintal para o eirado, onde estava a minha irmã a
discutir com os dois casados. A outra pequena estava na sala com o solteiro. Eu
aproximei-me deles e chamei-lhes « cães » e disse que ou deixavam vir a pequena
ou então gritava contra eles. Aceitaram a proposta e deixaram-na sair. Foi nesta
altura que dei pela falta do anel e disse-lhes de novo : — Seus cães, por vossa
causa perdi o meu anel. Um deles, que trazia os dedos cheios de anéis,
disse-me : — Escolhe daqui um. Mas eu, toda zangada, respondi : — Não quero !
Não lhes demos mais confiança. Eles retiraram-se e nós continuámos a trabalhar.
De tudo isto não contámos a ninguém, mas minha mãe veio a saber tudo. Pouco
depois, comecei a sofrer mais, e toda a gente dizia que foi o salto que dei. Os
médicos também afirmaram que muito concorreria para a minha doença. »
Mas o lugar que
Balasar ocupou na sua vida não diminui a importância, relativa sem dúvida, que
outras terras tiveram para ela. A Póvoa de Varzim, por exemplo. Foi lá que
primeiro conheceu um meio urbano e — o mar. O mar, a pesca e as actividades que
a rodeavam, que depois usará muitas vezes como imagem. Um exemplo :
« Mudou-se o cenário
das minhas trevas ; até agora infundia-me nelas, nelas caminhava, mas sempre em
terreno duro. Agora, ó meu Jesus, são mares, universos delas, mas mares sem
fundos e eu sem saber nadar !
Aprofundo-me nelas,
queira não queira, mas tenho que caminhar sempre, sempre para diante. Vou
mergulhando, mergulhando como peixe que não pode nadar, como avezinha sem voos,
que ao chão tem que cair. Caminho nesta horrorosa obscuridade de espírito como
criancinha que não pode, nem sabe andar. »
A Beata refere-se
com alguma frequência à Póvoa. Esteve lá, em casa do carpinteiro Pedro Teixeira
Novo, na
rua
da Junqueira, durante pouco mais de um ano, quando frequentou a primária, na
escola « Mónica Cardia » (Humberto Pascoal). Vejamos dois pequenos textos em que
nos fala desses tempos :
« Continuei a ser
muito traquinas : agarrava-me aos “americanos” e deixava-me ir um pouco e depois
atirava-me ao chão e caía, atravessava a rua quando eles iam a passar, sendo
preciso o condutor deles acusar-me à patroa. Muitas vezes fugia de casa e ia
apanhar sargaço para a praia, metendo-me ao mar como fazem as pescadeiras,
trazia-o para casa e dava-o à patroa que o vendia depois aos lavradores. Com
isto, afligia a patroa, pois fazia isto às escondidas, embora rapidamente ».
« Uma vez — conta a
Alexandrina — estive das 10 horas da noite às 4 horas da manhã, na Póvoa de
Varzim, a tomar conta de quatro juntas de bois, porque o patrão e um seu amigo
ausentaram-se de mim e eu, cheia de medo, lá passei aquelas horas tristíssimas
da noite. Enquanto vigiava o gado, ia contemplando as estrelas que brilhavam
muito e serviam de minhas companheiras... O patrão era um perfeito carrasco...
Envergonhava-me sem causa, fosse diante de quem fosse, e eu sentia-me humilhada.
Apesar de estar no princípio da minha mocidade, não sentia alegria com aquele
triste viver. »
A propósito da sua
Primeira Comunhão, recebida aos sete anos, na Matriz da Póvoa, escreveu :
« Foi o Sr. Padre
Álvaro Matos quem me perguntou a doutrina, me confessou e me deu pela vez
primeira a Sagrada Comunhão... Quando comunguei, estava de joelhos, apesar de
pequenina, e fitei a Sagrada Hóstia, que ia receber, de tal maneira que me ficou
tão gravada na alma, parecendo-me unir a Jesus, para nunca mais me separar d’Ele.
Parece que me prendeu o coração. A alegria que eu sentia era inexplicável... A
encarregada da minha educação levava-me a comungar diariamente. »
Ainda da sua
passagem pela Póvoa, conta o seguinte :
« Lembro-me que
tinha muito respeito pelos sacerdotes. Quando estava sentada à porta da rua
(isto na Póvoa de Varzim) só ou com minha irmã e primas, levantava-me sempre à
sua passagem e eles correspondiam, tirando o chapéu, se era de longe, ou
dando-me a bênção, se passavam junto de mim. »
Da Póvoa ela
recorda o seu carinho pela igreja da Senhora das Dores. Num peditório em
benefício desta igreja, chega a ir até à Aguçadoura.
Em Vila do Conde,
recebeu o Crisma, como conta também :
« Foi
em Vila do Conde (na Matriz), que recebi o sacramento da Confirmação, ministrado
pelo Ex.mo e Rev.mo Sr. Bispo do Porto. Lembro-me bem desta cerimónia e recebi-o
com toda a consolação. No momento em que fui crismada, não sei o que senti :
pareceu-me ser uma graça sobrenatural que me transformou e me uniu cada vez mais
a Nosso Senhor. Sobre isto queria exprimir-me melhor, mas não sei. »
Já apareceu atrás o
nome de Gondifelos. Escutemos este curioso episódio lá decorrido :
« Fui eu, a
Deolinda e a minha prima Olívia a Gondifelos, onde Sua Rev.a (Fr. Manuel das
Chagas) se encontrava, e lá nos confessámos todas três. Levámos merenda e
ficámos para de tarde, à espera do sermão. Esperámos algumas horas, e recordo-me
que não saímos da igreja para brincar. Tomámos o nosso lugar junto do altar do
Sagrado Coração de Jesus, e eu pus os meus soquinhos dentro das grades do altar.
A pregação desta tarde foi sobre o inferno. Escutei com muita atenção todas as
palavras de Sua Rev.a mas, a certa altura, ele convidou-nos a ir ao inferno em
espírito. Como não compreendesse o sentido das suas palavras, e ouvia dizer que
o Sr. Frei Manuel era santo, julgava que íamos todos ao inferno ver o que por lá
ia. Para mim mesma disse: Ao inferno é que eu não vou. Quando todos se dirigirem
para lá, eu vou embora. E tratei de pegar nos soquinhos. Como não vi ninguém
sair, fiquei também, não largando mais os soquinhos. »
A Alexandrina foi
uma vez a Braga, por causa de um congresso eucarístico. Talvez essa visita lhe
tenha deixado forte e duradoira impressão. É que, já o pudemos ver, a montanha
tem nos seus escritos um lugar de algum relevo. Talvez lhe ficasse dessa viagem
a mais convincente imagem da montanha.
Foi
ainda ao Porto a consulta médica e ao Refúgio de Paralisia Infantil. A viagem
para o Porto levava-a por Famalicão e Trofa. Foi importante uma paragem na Trofa,
em casa do Dr. Sampaio, onde foi fotografada e até conseguiu dar alguns passos.
Aos três anos foi
assistida em Viatodos pelo farmacêutico Sr. Oliveira, da Farmácia da Isabelinha,
por causa de um golpe que fizera no rosto, ao cair sobre uma malga partida.
Da sua passagem por
Matosinhos, recordemos estas palavras :
« Quando chegámos a
Matosinhos o médico levantou a cortina da janela da auto-maca para eu ver o mar.
Então um silêncio enorme se apoderou do meu coração e, ao ver o movimento
contínuo das ondas e a sua vinda até à praia, eu pedi a Jesus que o meu amor
fosse também assim sem interrupção e duradoiro ».
Se não erramos, são
estas as terras que se podem orgulhar de algumas vez terem tido a presença da
Beata Alexandrina, terras onde ela ampliou o seu modesto conhecimento das
pessoas e do mundo, indispensável para a missão que foi a sua.
Estas experiências
transparecem depois nos seus escritos. Vimos como no parágrafo anterior o mar de
Matosinhos se tornou símbolo, vimo-lo já propósito da montanha ou da parelha dos
bois que puxam a charrua. O encanto que para ela possuía a natureza era estrada
que a erguia até à contemplação de Deus e da sua grandeza.
José Ferreira
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