3 de Abril de 1953 – Sexta-feira
Meu Deus, como
poderei eu dizer alguma coisa, como poderei mover os meus lábios se não me
ajudais e assistis com a Vossa força e graça? Quanto eu sofro! O martírio do meu
corpo só por Vós pode ser compreendido. Sinto-me feliz na dor e sem ela, meu
Jesus, não posso viver, o dia seria noite, o sol não teria o seu brilho. Sem a
dor não posso nem sei viver. Mas custa tanto, tanto, meu Jesus! Mas é no
sacrifício e na imolação, na incompreensão da minha vida, num abandono completo,
que eu quero repetir noite e dia: amo-Vos, meu Jesus, ai, eu Vos amor, sou a
Vossa vítima; abraço a minha cruz, abraço-a por Vós, abraço-a pelas almas. Todo
o meu ser rasteja na lama e no lodo imundo, todo o meu ser se mergulha na
podridão mundial; mas, mesmo assim desfeita pelos vícios e paixões, roída pela
lepra das maldades, lanço-me em Vosso braços envergonhada e confusa, mas sempre
confiada. Ainda que eu ouvisse dos Vossos lábios a sentença de condenação
eterna, não os largaria jamais. Quanto eu amo a dor, Jesus, quanto eu amo as
almas, quanto Vos amor a Vós! Não me importo que a inutilidade me roube tudo,
mesmo tudo, como tem roubado, não me importa o pavor da minha vida, nem o
sentimento de Vos amar, sofrer por Vós, viver para Vós. O que importa é querer o
que Vós quereis, abraçar tudo quanto me dais. Tenho tido sempre presente no meu
coração a Mãezinha dolorosa, atravessada pelas setas, ora de pé junto da cruz,
ora sentada a recebê-Lo morto em Seus braços, a cobri-Lo de carícias, a cuidar
das Suas feridas. Que agonia a minha! Quantos suspiros, quantas lágrimas
interiores! Num excesso de loucura fui por vezes também uma Madalena chorosa,
abraçada ao pé da cruz. Meu Deus, que cena dolorosa se passou dentro em mim! Foi
assim o meu horto de ontem. Eu não sei, não sei exprimi-lo. Eu esqueci-o e
fugi-lhe tanto e fui não sei como ao seu encontro. Eu esqueci-o e até o odiava e
levava-o com todas as suas cenas dentro em meu peito. Já de noite, Jesus
chagado, ferido, coroado de espinhos, sangrava dentro do meu coração. Fui presa
e espancada com Ele e com Ele num sofrimento atroz passei a noite na prisão.
De manhã, com todos
os sofrimentos que atrás ficam ditos, segui para o calvário a correr para a
morte e ela para mim. O cimo da montanha ia no meu coração. A cruz ia n’Ele como
um vaso ali plantado. Jesus regava-me com o Seu Sangue, nele mergulhava e lavava
o mundo das minhas iniquidades. Nas três horas de agonia as chagas do meu Jesus
sangravam tanto como nunca ou quase nunca as vi sangrar. O Seu Coração Divino
batia dentro do meu, fortemente. A cada brado que dava, parecia parar e perder a
vida. Ó mundo, ó almas! Como Jesus nos amou! Amemo-Lo também. Não chega a ser
nada a nossa dor em comparação da Sua. Foi dor infinita, foi dor de um Deus
feito homem. Amemo-Lo, amemo-Lo sem cessar, amemo-Lo noite e dia. O meu coração
anda como a avezinha perdida a mendigar amor, sempre amor para Jesus. Ele
expirou na mais tremenda agonia. O meu espírito foi entregue ao Pai com o d’Ele.
Houve o silêncio da morte, mas bem depressa Jesus veio cheio de vida e amor e
falou-me assim:
— “Jesus vive e não
morrerá jamais. Jesus vive e dá a Sua vida. Jesus quer que as almas vivam com
Ele eternamente. Jesus está aqui. Neste coração tem as suas delícias. Estou
aqui, sim, minha filha. Estou aqui por amor. Estou aqui para chamar, para
salvar. Este calvário é calvário das misericórdias do Senhor. Fiz deste calvário
um calvário de salvação como outrora foi o meu. É deste calvário que eu brado
pelos lábios da minha vítima: vinde a Mim, vinde a Mim, filhos meus! Vinde a Mim
que só por amor vos criei, só por amor vos dei o Céu. Eu sou o Jesus da Galileia.
Eu sou o Filho da Virgem Maria. Eu sou o Jesus que foi imolado. Eu sou o Jesus
que por vós dei todo o Sangue. Criei este calvário, coloquei nele a minha vítima
para a continuação da mesma obra redentora, da mesma obra de salvação. Os
pecadores, os pecadores, minha filha! Ó como me ferem os pecadores!...”
— Caí sobre os meus
braços, Jesus, e não sobre a terra nua. Eu Vos estreito ao meu coração. Quem Vos
feriu assim?...
— “Os homens, os
homens, os pecadores com os seus crimes!”
— Ó Jesus, ó Jesus,
eu queria mundos e mundos, Céus e Céus de amor para Vos oferecer neste momento.
Quero consolar-Vos, quero sofrer tudo por Vós. Quero dizer-Vos duma vez para
sempre como se a cada momento repetisse: amo-Vos! Sou a Vossa vítima! Amo-Vos e
quero com esses mundos e Céus de amor sarar as Vossa chagas, ser bálsamo para
toda a Vossa dor. O que daria eu, Jesus, para evitar o pecado? Renunciaria ao
Céu, se o pudesse conseguir. Eu queria ver todas, todas as almas irem para o Céu
sem Vos ofenderem. Claro, meu Jesus, sempre por Vosso amor! Eu ficava sozinha
neste vale de lágrimas, como um insectozinho perdido, mas a dar-Vos honra,
glória, louvor e amor, se com todas essas almas eu subisse ao Paraíso.
— “Louca, louca de
Jesus, louca da Eucaristia! Olha como já estou belo, sem nenhum ferimento!
Consolaste-me, saraste-me as feridas. Se o mundo soubesse! Se as almas te
conhecessem e se aproveitassem das riquezas que por ti lhe são dadas! Coragem,
coragem, minha filha! O que dizem de ti, de Mim o disseram, e tantos ainda hoje
de Mim o dizem. Coragem, coragem, florinha eucarística, louquinha do amor
divino. Prepara-te, recolhe-te um momento, vais receber o teu Jesus, o Jesus da
Eucaristia. O anjo da tua guarda supre a voz do sacerdote. “Viaticus Corpus
Nostrum Jesum Christum”. (Viu-se que pôs a língua de fora da boca). Já estou
sacramentado em teu coração. Recebe agora a gota do meu Sangue. Passou a gotinha
do Sangue divino, enquanto os anjos, formando alas, inclinados, me adoram e
bendizem. Passou a vida que te faz viver, passou o maná celeste que por ti é
espalhado e infundido nos corações e nas almas.”
— Ó Jesus, que
perfume angelical!... Que vida, que vida tão celeste! Parece que nem tenho
corpo! Todo o meu ser é um sopro mergulhado na vida divina. Bendito sejais, meu
Jesus. O meu eterno obrigada, sempre, sempre, noite e dia. Obrigada, obrigada,
Jesus, na consolação e na dor, na vida e na morte. Não Vos esqueçais, Jesus. Eu
Vo-lo peço pela Vossa sagrada Paixão. Atendei às minhas grandes intenções, a
todas as minhas intenções. Enchei de Vós todos os que me são queridos. Enchei de
Vós e perdoai à humanidade inteira.
— “Vai em paz,
minha filha, fica na cruz. Permite que para ti não acabe a Quaresma. Sofre,
sofre por meu amor, sofre, sofre pelo mundo inteiro. Chama-o ao bom caminho.
Transmite-lhe as ameaças de Jesus. Diz-lhe que é o Pai que o chama e o quer
salvar.”
— Obrigada, meu
Jesus. Chamai sempre e sempre perdoai, meu Amor.
4 de Abril de 1953 – Primeiro
Sábado (de Aleluia)
Este dia foi um
verdadeiro calvário. Senti uma tristeza mortal, uma indizível agonia. A Mãezinha
fez-me compreender bem o quanto Ela sofreu junto da cruz. Eu ansiava a vinda de
Jesus e temia que Ele viesse. Ansiava que Ele ressuscitasse e me fizesse
ressuscitar com Ele, e parecia-me que a minha morte jamais me deixaria
ressuscitar. Veio o meu Amado, era já quase noite. Deu entrada no meu coração.
Fez-me logo sentir a Sua paz. Pouco depois encheu-me de amor e muito docemente
principiou a falar-me assim:
— “Minha filha,
minha filha, derramo no teu coração todas as riquezas do meu. Quero renovar
muitas e muitas vezes este acto, esta prova do meu infinito amor. Minha filha,
minha querida filha, dou-te tudo, mesmo tudo. Enriqueço-te com todas as minhas
riquezas. Faço isto, porque te amo. Enriqueço-te para que tu enriqueças as
almas. Como são belos os desígnios do Senhor sobre ti! Que encantos, que
encantos! Minha filha, abraso-te no meu amor. Enriqueço-te para enriqueceres.
Fortaleço-te para mais e mais dolorosa e pesada cruz. Sofre para salvares o
mundo. Sofre para reparares o meu Divino Coração. Dá ao teu Paizinho todas as
riquezas que hoje mesmo no teu coração depositei. Dá-lhe todo o meu amor.
Diz-lhe que o mestre e guia das almas eleitas tem que estar cheio, sempre cheio
de tudo o que é meu. Diz-lhe que o amo com a maior loucura de amor, que confie e
espere em Mim. Eu não falho às minhas divinas promessas. Dá ao teu médico esta
infusão de amor com que enchi e abrasei o teu coração. Diz-lhe que lhe dou a
minha paz, que lhe dou as minhas riquezas, que lhe dou como sempre a minha chuva
de graças. Diz-lhe que o seu jardim florido está guardado no meu Divino Coração.
Diz-lhe que é prémio da minha parte pelo seu heroísmo, pela sua fidelidade em
amparar e defender a minha divina causa. Dá-lhe amor, amor, amor. Vem, minha
bendita Mãe. Estreita ao teu Coração a Nossa filhinha. Cobre-a das tuas
carícias.”
— “Minha filhinha,
minha filhinha, tens de novo junto de ti a Mãe Celeste, a Mar das Dores. Venho
renovar o pedido de Jesus. Venho como Mãe das Dores para que sofras as minhas
dores. São as dores de Jesus. Deixa, deixa que a tua Quaresma continue. o mundo,
o mundo necessita de tudo. É urgente, é urgente reparar, aplacar a justiça do
Senhor.”
— Ó Jesus, ó
Mãezinha, tudo aceito, tudo aceito. Sede a minha força.
— “Recebe, filha
querida, as carícias e o amor de Jesus, as carícias e o amor de Maria. Dá tudo
em Nosso nome aos que amas, aos que te rodeiam, aos que se aproximam de ti. Faz
como que um sopro se espalhe no mundo inteiro. Fica em paz. Fica na tua cruz.
Coragem! Coragem!”
— Obrigada, Jesus!
Obrigada, Mãezinha. Não esqueçais as minhas intenções todas, todas. Amo-Vos! Sou
a Vossa vítima.
10 de Abril de
1953 – Sexta-feira
A minha Páscoa
dolorosa continua ainda. Jesus não ressuscitou para mim. Aquelas ânsias da
Ressurreição, de O ver triunfante, acabaram-se sem que a alma gozasse das
alegrias da Aleluia. Continua a minha dor, o meu calvário. Mas é tão triste e
tão doloroso que não sou capaz de descrever a minha dor, nem as densas trevas em
que estou submergida. Parece que as nuvens se desfazem todas em mil farrapos; e
são de tal forma negras que parecem encobrir o sol e a luz do dia. Toda a
humanidade perdeu o seu brilho, luz e encantos da natureza. Toda a terra está
pobre e nojenta. Eu sou o mundo desta podridão, eu sou a revolta do Céu, desafio
a justiça do Senhor. Não sei como remediar tanto mal. O meu corpo, trapo imundo
e desfeito, não sente outra coisa senão dor, vícios e crimes. Tudo faço subir ao
Céu. Atiro-me para os braços de Jesus, mesmo assim miserável, para que Ele com o
Seu amor e fogo ardente consuma todos os meus crimes e os faça desaparecer.
Parece que nada é aceite e que eles ficam sempre, sempre a aumentarem cada vez
mais, hora a hora, momento a momento. As dores do meu corpo são tantas, tantas,
as agonias da alma, que são indizíveis, faço-as subir ao Céu como incenso. Mas a
inutilidade rouba tudo, não as deixa lá chegar. Meu Deus, meu Deus, o que hei-de
fazer, meu Senhor? Abrir os meus braços e deixar-me crucificar na cruz por Vosso
amor. Compadecei-Vos de mim; o meu coração brada sempre, mas o meu brado não
chega até Vós.
Foi celebrada mais
uma vez no meu quarto a Santa Missa. Devia ser para mim uma hora de alegria;
estava rodeada de pessoas tão queridas! Mas nem ao menos isso Jesus me deixou
saborear. Que Ele me alegre e console na minha tristeza e dor. Tive também um
miminho de Jesus com notícias do meu santo P. novos espinhos vieram logo
ferirem-me, novo tormento para o meu grande tormento. Sofro tanto por não saber
nem poder dizer o que ma vai na alma! Que necessidade imensa de desabafar! Mas
não sou capaz de saber exprimir-me! Estou tão longe de Deus! Parece que nunca
mais posso chegar ao Seu reino. Ó Jesus, ó Mãezinha, só Vós podeis valer-me e
vir em meu auxílio. Depois de sentir que passei uma vida inteira sem querer
saber e até escarnecer do Calvário, fiquei ontem sobre o solo do Horto. Num
furor desabrido, num rancor desumano e infernal, calquei aos pés o Sangue do
inocentíssimo Jesus ali derramado. Que horror, que desespero de perdição. Digo
desespero, mas este não era meu, porque tudo isto era na superfície; no íntimo a
alma mantinha-se em paz.
Hoje segui para o
Calvário. Confesso, não caminhei por mim, fiz tudo para lhe fugir o mais que
pude. Alguém me esforçou a ir ao encontro de Jesus e só no cimo da montanha eu
me uni a Ele. Na cruz crucificada, todo o Seu divino Corpo era o meu. O meu
pobre coração era uma frágil casquinha na qual o d’Ele se introduziu. A mesma
dor, a mesma vida, o mesmo amor pertencia ao meu. Não eram dois corações, era um
só. Os mesmos espinhos o cercavam, a mesma lança o atravessou. As palpitações
dolorosas eram as mesmas e o brado de agonia nos mesmos sentimentos ao Pai eram
como se saíssem dum só lábio. Que ânsias de me dar, de morrer para fazer viver!
O Sangue corria por todo o Calvário e o brado fazia-o estremecer e abrir-me em
fendas. O sol escondeu-se como que envergonhado. Jesus expirou. A morte reinou.
Senti como se ela reinasse em toda a humanidade, mas bem depressa Jesus
ressuscitado ressuscitou tudo, deu-me a Sua vida com toda a Sua luz e falou-me
assim:
— “Desceu o Céu,
desceu o Senhor sobre este calvário de salvação. A morte, a podridão do mundo
são a causa do teu sofrer. Os pecadores, mortos pelo pecado e os pecadores
apodrecidos na lepra dos seus vícios, levam-te, minha filha, à maior imolação,
ao maior martírio. Escutai, escutai; reparai bem! É o Senhor que chama. Escutai,
escutai, reparai bem! É Jesus que avisa. Ai do mundo, ai dos pecadores. Ai das
almas que não atendem ao seu Deus. Eu falo, sim, minha filha, eu falo no teu
coração. Eu chamo, eu chamo. É por ti que Eu aviso. És a missionária do Rei
divino. És o porta-voz de Jesus. A tua vida é uma pregação contínua. A tua vida
é um farol luminoso para a humanidade. É por ti que Eu previno, é por ti que Eu
chamo os filhos meus. Atendei, atendei ao Coração terníssimo de Jesus. É o Pai
que chama e quer avisar todos os seus filhos. É o Pai que chama e quer
estreitá-los ao Seu Coração. Filhos meus, filhos meus, se conhecêsseis o meu
amor!... Mostro-vos o meu divino Coração chagado, ferido, todo em sangue!...
Fostes vós, fostes vós, filhos amados, que me feristes assim!...”
— Ó Jesus, ó Jesus,
que abismo tão profundo, que abismo sem fim é a chaga do Vosso divino Coração.
Eu vejo, compreendo bem que toda a humanidade pode entrar nele. Vós quereis, meu
Amor, mais uma vez lavar-nos com o Vosso Sangue divino. Eu não quero mais, meu
Jesus. Eu não posso ver-Vos sangrar mais, mas não sei o que me obriga. Sinto-me
forçada a abraçar o mundo e a entrar com ele dentro desse abismo de amor. É o
Céu, é o Céu do Vosso divino Coração. Eu não quero ver-Vos sofrer, mas peço-Vos,
meu doce Amor, mais uma vez Vo-lo peço: lavai de novo a pobre humanidade. Lavai
todas as feridas nojentas. Curai, curai todos os corações apodrecidos de vícios.
Mudai-os, Jesus! Fazei que nasçam todos para a Vossa graça, para o Vosso amor.
— “Coragem,
coragem, filhinha! Sentes-te atraída com a minha atracção. A tua missão é esta:
abraçar o mundo, abraçar os pecadores, conduzires a Mim o rebanho, as ovelhas
tresmalhadas. Coragem, coragem! Deixa sangrar misticamente os teus pés, as tuas
mãos, o teu coração, a tua cabeça, todo o teu ser. Crucifiquei-te, porque me
consentiste. Preparei-te para este acto heróico, para esta aceitação.
Correspondeste, foste e serás sempre fiel ao teu Senhor. Filhinha, filhinha, ó
esposa minha, fala, fala com clareza. Diz, diz que Jesus está triste com as
ameaças de seu Pai. Não quero que os meus filhos sejam punidos. Mas eles,
pobrezinhos, não atendem a tantos, tantos repetidos pedidos. Vem, minha filha,
vem, minha filha, receber a gota do meu divino Sangue. Os anjos uniram os nossos
corações e, enquanto a gotinha do Sangue passou, eles em torno entoaram seus
hinos. Maravilha, maravilha que encanta o Céu. Passou a gotinha do Sangue,
passou a tua vida. Passou a gotinha de Sangue, passou a paz, o conforto, toda a
graça do teu Jesus. Vejo o tabernáculo da minha habitação. É deste tabernáculo
permanente que Eu por ti me dou às almas. Elas são enriquecidas por ti, quantas
de ti se aproximarem. Coloquei-te neste calvário para luz, farol e para
salvação. Recebe a efusão do meu amor. Fica mais forte para a tua cruz. Fica
mais forte e com este amor desempenha docemente a tua missão. Coragem, coragem!
Vai em paz!”
— Obrigada, Jesus,
pelo Vosso amor. Obrigada por tudo o que me dais. Lembrai-Vos de todas as minhas
intenções. Lembrai-Vos do mundo inteiro. É Vosso, é Vosso. Vede nele o Vosso
Sangue.
— “Pede, pede
sempre, louquinha, louquinha da Eucaristia. Pede, pede sempre e vai em paz.”
— Obrigada, Jesus,
obrigada, Jesus!
17 de Abril de
1953 – Sexta-feira
Do profundo do
abismo clamei a Vós, Senhor! Quantas vezes a mina alma brada ao Céu num abismo
infindo sem conseguir que o meu clamor, o meu brado chegue até Deus. Distância
entre mim e o infinito! Que Céu de grandeza, pureza e amor! Que abismo de
podridão, de crimes e de nojo. O mundo pesa sobre mim com toda a grandiosidade
dos seus vícios. O Céu, a justiça do Senhor pesa sobre ele. E eu tenho de ser
esmagada pelo Céu e pela terra e é isto que me leva ao pavoroso abismo donde eu
brado sem conforto, sem auxílio:
Senhor, Senhor,
ouvi a minha voz; não olheis às minhas iniquidades, nem ao mundo de pecado e de
podridão que tenho em mim; olhai para Vós, para a Vossa grandeza, perdão e
misericórdia. Pobre coração, pobre alma, não têm luz, não têm guia, não têm amor
para Jesus.
Ai de mim, Senhor,
ai de mim, Senhor, se me fazeis comparecer na Vossa divina presença. Eu sou nada
e estou sem nada de bom. Eu quero ir para Vós e temo esse momento. Eu quero voar
e quero não ter voos. A inutilidade roubou-me tudo. Como posso comparecer na
presença do Senhor?
Anseio amá-Lo,
consumir-me a ponto de desaparecer, mas nada faço. Quero dar-Lhe almas mesmo que
aqui ficasse até ao fim do mundo, por uma só que fosse, mas parece que não tenho
um movimento, uma acção, uma caridade para a salvação dessas mesmas almas. Quero
dá-las todas, todas ao meu Senhor.
Fico sempre nisto:
tudo anseio, tudo me roubam; tudo quero e nada faço. Não quero dizer nada da
minha vida e sinto a necessidade de desabafar.
O meu coração está
como um foco, quer ir reflectir-se em todos os corações, em todo o mundo, ao
mesmo tempo que quer esconder-se. Não sei dizer, não sei fazer compreender a
minha dor, esta minha ansiedade.
Por tudo seja
bendito o meu Senhor! Que Ele seja louvado e exaltado nesta minha humilhação de
me ver tão visitada. Só Jesus sabe e compreende quanto eu sofro. Seja tudo por
Seu amor.
O meu horto é muito
diferente do que era. Lembro-me dele e fujo dele. Vivo no mundo e estou fora do
mundo. Sofro e não é a minha dor. Conheço, ouço falar do Horto e fujo, vivo como
se nada soubesse, nada conhecesse. Era de noite, e eu fiquei naquele solo duro.
Vi Jesus pregado na cruz no alto do Calvário. Ele estava pregado em mim e o
Calvário era eu. Da chaga do Seu divino Coração saiu um fontanário de sangue. De
seguida, uma chuva de água. O sangue corria por mim e a chuva sobre mim caiu ao
mesmo tempo que os olhos da alma tudo viam à sua frente. No meio do meu
sofrimento bem doloroso, passei a noite, o mais que pude bem unida a Jesus.
Estive com Ele na paixão. De manhã, segui para o Calvário. Não sei exprimir o
que foi esta viagem. Segui, mas não foi com Jesus; segui por outro mundo que não
era este. Era um mundo perdição, só perdição. Enquanto eu assim caminhava, subia
Jesus a encosta do Calvário. Eu, sem seguir com Ele, sentia a Sua dor, sofria
indizivelmente. Enquanto Ele sofria na cruz e nela derramava o Seu Sangue
divino, eu andei sempre perdida nesse mundo de perdição. Só momentos antes de
Ele expirar, quando Ele pronunciou as palavras Consummatum est, é que eu
vim ao Seu encontro a viver a Sua vida, a expirar com Ele. Depois de uns
momentos mortais, voltei de novo à vida. Foi Jesus que ma deu e falou-me assim
no meu coração:
— “Como é belo,
como é belo o coração que me ama! Como são belas e encantadoras as almas puras!
Venho do Céu, sou do Céu! Sou Jesus, sou amor e venho pedir amor. Quero ser
amado com o amor mais puro e ardente. Quero ser reparado com a maior reparação.
Venho dar amor e pedir amor. Venho pedir dor, muita dor à vítima querida deste
calvário. O Senhor está triste! Jesus é ofendido! O Senhor está triste! O mundo
peca; a justiça divina cai sobre a terra. Escutai, escutai; quem fala é Jesus
pelos lábios da Sua esposa, da Sua vítima querida. Quero amor, quero amor.
Mendigai amor para Jesus. Minha filha, minha querida filha, missionária do Rei
divino, o teu leito é um campo mundial. É aqui, sim, aqui que a tua sublime
missão é desempenhada. Daqui és a escora, daqui és o farol, daqui és tudo para
Jesus e para as almas. Coragem, coragem! Coragem, minha filha, florinha
eucarística. Coragem! Avante sempre! Este calvário é o calvário de grande
salvação. Este calvário é o maior calvário depois do meu Calvário. Este calvário
é a continuação da minha obra redentora. Tu és, minha filha, sim, confia em
Jesus, és a missionária dos missionários. Fazes mais no teu leito de dor do que
todos os missionários na humanidade.”
— Ó Jesus, não sou
eu, sois Vós, sois Vós, meu Amor, sempre Vós que completais a Vossa obra. Sois
Vós, Jesus, a vítima de sempre. Sois Vós quem fala, sois Vós quem sofre. Sois
Vós, sempre Vós quem leva a minha cruz. Sois Vós, Jesus, ainda Vós a amá-la e a
abraçá-la. Quero e não posso, meu Amor, mas confio sempre, sempre, na Vossa
graça, no Vosso poder.
— “Minha filha,
minha querida filha, tesouro, cofre das minhas riquezas! És tesouro, és cofre de
tudo o que é meu. Distribui o meu amor, distribui as minhas graças. Faz, faz que
elas se espalhem na humanidade inteira. Deixa, deixa que as almas se abeirem de
ti para as receber. Faz, faz que elas voem por todo o mundo. Não te preocupes
com o silêncio. Fala, fala às almas. Se soubesses o bem que por ti lhes é
dado!... Criei-te, criei-te para isto, só para isto. A tua ansiedade do silêncio
é silêncio. Confia, confia. Eu não permito que percas a união comigo. Falando,
falando a minha divina vontade, vives mais unida a Mim do que se estivesses
sozinha, no mais profundo recolhimento. Operei e opero na tua alma as maiores
maravilhas.”
— Seja, Jesus, como
Vós quereis. Faça-se, meu Amor, como dizeis. Sou a Vossa vítima. Se sempre
estivesse mergulhada neste abismo de amor!... Não temia a dor, não temia a cruz!
Que abismo diferente daquele em que vivo!
— “Coragem,
coragem, minha pomba bela. É a recompensa do teu sofrimento, é força para
sofreres mais, mais, muito mais. Vem receber a gota do meu divino Sangue.
Uniram-se por si os nossos corações. Assim o ordenei. Estão os dois num só. A
gotinha do Sangue divino comunicou-se a todo o teu coração. Fez nova vida para
viveres, para com nova vida sofreres. Vive, vive e faz viver. Ama, ama e faz
amar. Viver a minha vida, amar o meu divino Coração.”
— Ó Jesus,
estreito-Vos ao meu pobre coração. Assim, neste abraço, nesta união divina,
quero dizer-Vos vezes sem cessar: aceitai, Senhor, aceitai, Jesus, como se a
cada momento milhões e milhões de vezes Vos pudesse repetir: amo-Vos, Jesus,
amo-Vos, Jesus, amo-Vos por mim, amo-Vos por todos os que me são queridos.
Amo-Vos pelos que Vos não amam. Sou a Vossa vítima. Mergulho neste amor as minha
intenções, as minhas primeiras intenções, todas as intenções, a humanidade
inteira.
— “Fica na cruz,
minha filha, fica na cruz. Vai continuar nela a tua missão, missão dolorosa, a
mais dolorosa, mas sublime, a mais sublime. Dá-me dor, dá-me dor e diz ao mundo:
Jesus chama-te, Jesus quer abraçar-te. Vai para Ele, se não queres sofrer o
peso, todo o peso da justiça do eterno Pai. – Coragem! Coragem! Vai em paz!”
— Obrigada,
obrigada, Jesus. Perdoai, perdoai e esperai, meu Amor.
24 de Abril de
1953 – Sexta-feira
Sinto-me ora de
joelhos implorando, ora correndo, louca pela humanidade, de mãos postas, no
mesmo brado a implorar sempre, a querer não sei quê, mas sinto que quem implora
não sou eu, e este querer meu não é também; parece-me que é o querer de Jesus,
que é Ele que me leva, que me dá impulsos fortíssimos, até impulsos infinitos de
pedir a todas as almas para virem ao Seu divino Coração. Jesus quer, e a Sua
ansiedade divina não me deixa sossegar. Ai de mim! Jesus quer, e eu também quero
dar-Lhe as almas, dar-Lhe o mundo inteiro. Mas não passo além dos desejos, além
desta ansiedade. Que tormento, que angústia para a minha alma. Não sou nada e
nada dou. Sofro tanto, tanto, e a inutilidade tudo me rouba. Jesus e as almas
nada recebem de mim. Sinto a fadiga, o cansaço, como se pudesse correr o mundo
inteiro a cada momento. Tudo isto à conquista das almas. Parece que nada adianta
este meu tormento. É tal a minha pobreza, que empobreço a todos, rouba-me a mim
mesma. Não digo o que se passa em mim, porque não sei. É indizível tal
ignorância, são indizíveis tais sofrimentos. Queria abraçar o mundo, trazer num
molho todas as almas para Jesus e ao mesmo tempo quero fugir delas; queria
esconder-me num ermo, num lugar solitário onde não pudesse ser vista nem falar a
ninguém. Ai o meu calvário, ai o meu calvário! Que pavor ver-me assim visitada!
Jesus me perdoe o grande número das minhas faltas. Nem sempre tenho paciência
nem caridade. A vontade está pronta para abraçar a cruz do Senhor, mas a
natureza é tão fraca! Eu sem a dor não saberia viver, sou louca por ela. Ou
sofrer, ou morrer, meu Jesus! Bem sabeis que não sei sofrer, mas que anseio toda
a perfeição para Vos consolar. Não sei que sinto que não me deixa sossegar.
Parece que tudo vem contra mim. Que revolta, meu Deus, que revolta, que
humilhações que me esmagam. Será algum sofrimento de novo que vai surgir, ou é
mais uma parcela da Vossa cruz? Seja feita a Vossa divina vontade. Jesus, sou a
Vossa vítima.
Ontem a visão do
Calvário levou-me ao Horto. Eu era uma bola a ser esmagada por um e outro. Ali
agonizava e dava a vida. Ali tinha a vida da terra, de todo o pecado, de toda a
podridão. E, como por um canal, estava ligada ao Céu e tinha a mesma vida do
Pai. Passei a noite unida a Jesus nos sacrários, unida a Jesus na prisão. Sofri
em silêncio com Ele. Segui hoje para o Calvário, triste, mais triste que a noite
e a morte. Eu caminhei porque alguém caminhava em mim. Fui arrastada e
barbaramente chicoteada, porque Jesus todos estes sofrimentos sofria. Ele, em
tamanho natural, com a cruz aos ombros, cabia e caminhava dentro do meu peito.
Como sangrava a Sua sacrossanta cabeça! Meu Deus, como caíam a meus pés as Suas
carnes santíssimas retalhadas! E eu, em impulsos raivosos, cega e louca,
esmagava-as aos pés sem dó nem piedade. Jesus ia expirando alagado em suores
frios, ao terminar da montanha. Ai quanto sofreu Jesus com os meus pecados!
Quanto Ele sofreu por nosso amor. Se eu pudesse e soubesse fazer compreender
isto! No alto do Calvário continuo o meu sofrimento, a minha agonia indizível,
acompanhada duma esmagadora humilhação. Acompanhavam-me numerosas pessoas que
sem querer aumentavam o martírio do meu calvário. Se não fosse Jesus, se não
fossem as almas, recusava-me a tudo. Sentia como se o meu coração estivesse
preso por fortes argolas e cadeias a um mundo de rochedo. Estas argolas e
cadeias não eram de ferro, mas sim de amor. Vinham do Coração divino de Jesus.
Ele não podia desligar-se de nós. Que amor, que loucura de amor, que amor
infinito! Ele expirou e eu com Ele. Prolongou-se por bastante tempo este
silêncio mortal. Jesus demorou-se a dar-me novamente a vida. Quando me fez
ressuscitar, falou-me assim:
— “Ouvi a voz de
Jesus sumida e quebrantada com o peso dos crimes da pobre humanidade! Jesus
sofre através das suas vítimas. Jesus imola, noite e dia, a vítima deste
calvário. É o amor, só o amor que leva Jesus a esta imolação. Quero salvar o
mundo, quero salvar os filhos meus. Vê, minha filha, repara bem: um mar imenso
de sangue que sai do meu divino Coração!...”
— Ó Jesus, ó Jesus,
parece que me afogo. Queria aparar o Vosso Sangue divino. Eu não queria que ele
caísse e não o posso nem sei aparar. Que fazer, meu Jesus? Eu nada posso!
Aceitai o meu pobre coração, pobrezinho como é. Vós tudo podeis. Nada Vos é
impossível. Fazei que este mar de sangue possa ser encerrado todo dentro do meu.
Se assim for, Jesus, e eu for calcada por toda a humanidade, é o meu coração que
sofre e não é pisado o Vosso Sangue divino. Sofrer, Jesus, eu sempre, eu, mas
que o Vosso Sangue divino esteja resguardado, Jesus, para não ser calcado por
pés imundos, por pés criminosos, meu Amor.
— “Desapareceu o
Sangue, minha filha; foram os teus desejos, foram as tuas ânsias. Não é calcado
o Sangue que o meu divino Coração derramou. Tudo em ti me consola. Toda a tua
vida me desagrava. Sabes bem, minha filha, já te tenho dito, mostro-me sofredor
para ser por ti consolado. Mostro-me sofredor para ser por ti reparado.
Mostro-me sofredor para te levar mais e mais à compaixão por Mim. Sofre, sofre!
Dá-me a tua dor. É Jesus, é o Mendigo do amor e da dor a pedir-te, a pedir-te
sempre. Sofre, sofre, para aplacar a justiça do meu Pai. Ama-me, ama-me e faz
que eu seja amado. Não duvides, minha filha, não duvides. A tua vida, toda a tua
vida é a cópia mais fiel, mais exacta de Jesus crucificado. A tua missão é
árdua, a mais árdua, mas a mais sublime. As almas, as almas custaram e custam
dor e sangue. Os pecadores não querem converter-se. O mundo corre para um abismo
de perdição. Eu, que tudo vi e vejo, lancei e lanço mãos à obra. Coragem,
coragem! Continua a mesma obra de salvação. Que mar de crimes, que mar de
crimes!... As ondas dos vícios tocam no Céu a desafiar a justiça do meu Pai.
Coragem, escora firme, coragem, farol de luz luminosa. Coragem, florinha
eucarística, coragem na tua missão. Fala de Mim às almas. Diz-lhes as minhas
queixas. Fala de Mim ao mundo, diz-lhe que o quero salvar.”
— Ó Jesus, Jesus,
eu não sei dizer nada e nada sei sofrer. Queria ir para o Céu. Jesus, parece-me
que não posso mais. Só a vontade está louca por mais e mais sofrer, mas a minha
pobre natureza sente-se sucumbida. As humilhações esmagam-me. Só vejo em mim
miséria e sou a causa de tantas misérias. Se Vós ao menos, meu Jesus, me
repreendêsseis na Vossa sabedoria, esclarecêsseis as minhas faltas, não sentia
tanto a humilhação.
— “Confia, minha
filha, tudo é por Mim, é para Mim. Jesus não mente, Jesus não mente. Não posso
dizer aquilo que tu não fazes. As tuas faltas são próprias dos justos, dos meus
eleitos. O teu céu está perto. Conservo-te neste calvário só por amor à
humanidade. Anseias por Mim: Eu anseio por ti. O Céu está perto. Vem receber a
gota do meu divino Sangue. Uniram-se os nossos corações e a gotinha do Sangue
passou. Levou a vida necessária ao teu corpo e à tua alma. Nova vida para mais e
mais sofreres, para mais e mais amares. Vai em paz! Fica na cruz! Dá a minha
paz! Distribui o meu amor, distribui as minhas graças. Felizes, ditosos os que
as recebem!”
— Jesus, agora não
queria deixar-Vos. Tenho mais força e tenho mais luz. Obedeço, mas antes disso
lembro-Vos como sempre todos os que me são queridos, com as minhas primeiras
intenções, todas as minhas intenções, com a humanidade inteira. Salvai a todos,
meu Jesus! Perdoai a todos!
— “Vai em paz! Vai
em paz! Vai em paz e confia!”
— Obrigada, Jesus,
obrigada, Jesus. O meu eterno obrigada!
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