3 de
Abril de 1945
Não
vivi, não ressuscitei com Jesus. Os meus olhos não viram, os meus
ouvidos não ouviram, o meu coração não amou, o meu corpo nada mais
sentiu a não ser a dor. O olhar dos meus olhos não era meu, nem o
ouvir dos meus ouvidos, nem o sentir do meu corpo, nem o amor do meu
coração, nem o sorriso que tudo isto encobria, nem esse era meu. A
quem pertencia? Jesus o sabe, nada sei dizer. As alegrias são para
quem Jesus quer, menos para mim. Mas eu estou contente; eu não vivo,
que viva Ele com a Sua vida divina nas almas. Eu não ressuscitei,
que elas ressuscitem para Jesus. Não tenho amor, não tenho que
oferecer ao meu Senhor, que Ele aceite o amor de todos os corações e
a oferta total de todas as Suas criaturas. Não tenho língua para
louvá-l’O, que Ele aceite todo o louvor da terra e do céu. Toda a
terra e céu O louvam e bendizem; só eu, pobrezinha, fui excluída,
estou de parte. Não posso juntar-me aos bem-aventurados do céu, aos
justos da terra. Toda a maldade e miséria do mundo são minhas. Que
vergonha, que horror! Perdi o meu Jesus. Que perda eterna! Nunca
mais, nunca mais O posso ver. Não há remédio para esta perda. Não
posso pensar. A minha alma não resiste a esta dor; perder a Jesus,
perdê-l’O para sempre. Por vezes o fogo no meu coração parece
incendiar todo o meu ser. Posso dizer que em momentos é quase
insuportável.
Nota
– Já cheguei a ter isto antes da Paixão… Agora tem aumentado muito…
Parece que me tira a vida. No dia dos meus anos, presentes umas
pessoas, vi-me aflita. (Nota do Padre Humberto, que lhe pediu
explicações).
Quantas
vezes a este fogo vem juntar-se a grande confusão, o grande martírio
de não resistir aos ardores de tal fogo sem panos de água fria.
Sofro ao ver-me rodeada das pessoas e ter de manifestar e dar a
conhecer este fogo que me abrasa. Confio, se o meu Jesus me der
força, a tudo resisto e com a Sua graça escondo. Muitas vezes,
durante as noites, tenho visto Jesus, a Mãezinha e S. José. Jesus
não aparece sempre duma forma. Raras vezes o tenho dito, porque só o
fazia quando tinha a certeza de que não era sonho; de contrário,
calava-me e nada dizia, com receio de não dizer a verdade. Nesta
noite, vi Jesus muito brilhante, cheio de luz, mas com a Sua
santíssima cabeça cercada com uma coroa de agudíssimos espinhos.
Parecia-me não ser sonho e, na dúvida de ser ou não, pensava não
dizer nada, deixar oculto. No decorrer da manhã, estava sozinha,
unida a Jesus a fazer as minhas orações. Veio o demónio, raivoso,
malicioso, com ameaças apavoradoras. Enquanto podia, ofereci-me logo
a Jesus e à Mãezinha em favor das almas. Que receio tão grande de
pecar, estava cheia de medo. Ele dizia-me coisas feias e que
desconheço. Parecia-me estar entregue aos maiores prazeres, aos
maiores crimes.
— Jesus, valei-me, não quero pecar.
Juntou-se ao gozo uma dor de morte; o coração sufocou-se, eu não
podia respirar. Ele bailava com satisfação, como se estivesse a
ganhar a batalha. Fiquei um pouco mergulhada na dor e sem saber se
teria ou não pecado. Parecia-me que aquilo não se tinha passado
comigo; contudo, estava tristíssima. Veio o meu Jesus.
— Minha
filha, amada do meu Divino coração, não pecaste, estive contigo,
acompanho-te na dor, no amor, nas lutas com o demónio. Sou contigo
neste abismo, neste mar imenso do martírio em que estás mergulhada.
Sorri em teus lábios, escondendo assim a dor e a amargura em que
estás sepultada.
— Ó meu
Jesus, confio que me acompanhais, que tudo venceis em mim. Mas
porque é que, mesmo a falar conVosco, sinto tanta dor?
— Para
ser completa a minha consolação, minha filhinha amada; para ser
completo o teu martírio, a tua reparação. Só assim tiro todo o
proveito para as almas. Mas estou sempre, sempre em ti. Olha, minha
filha, sempre que te apareço e por vezes acompanhado, não é sonho, é
sempre a realidade. Quando me vês coroado, é nos momentos em que os
homens me crucificam mais.
Nota
– Tem-lhe acontecido de ver Nosso Senhor, muita vez e há muitos
anos, nesta atitude, de dia e de noite. (Nota do Padre Humberto).
— Quando te apareço, espalhando raios abundantes do meu Divino
Coração, é para saciar a sede que tenho de ti e para te dar a
abundância do meu amor, que distribuía às mesmas almas. Quando venho
com a minha Bendita Mãe e S. José, é para provar-te que todo o céu
te acompanha, que as maiores personagens do céu estão sempre
contigo. É o céu a amar-te, é o céu a acompanhar-te no teu
inigualável calvário. Sofre contente, o céu não demora, chega o teu
gozo eterno.
— Já
que assim é, meu Jesus, consolai-Vos, alegrai-Vos na minha dor. Não
quero a minha alegria, mas a Vossa; não quero o meu triunfo, mas o
triunfo das almas. Aceitai o meu martírio e fazei que a minha morte
seja a vida do mundo, e a minha cegueira a luz dos corações. Quero
que só para Vós ele viva, que só a Vós, pobre mundo, veja, ame e
bendiga. Ó meu Deus, ai quanta agonia no meu coração, oh quantas
ânsias de partir, nadando em dor, banhada em sangue à conquista das
almas. Aceitai, Jesus, os meus desejos, já que outra coisa não
tenho. Vinde à minha tristeza buscar alegria.
5 de
Abril de 1945 – Sexta-feira
Continuo a sentir duas coisas ao mesmo tempo: a perda de Jesus e a
perda das almas. A perda de Jesus faz-me sentir tal horror e revolta
que não se pode explicar. Quero amaldiçoar esta perda e amaldiçoar a
terra. Parece que me atormentam todos os horrores do inferno. Sinto
que era melhor perder tudo e tudo sofrer do que perder a Jesus. Só a
Sua perda basta para ser o maior martírio do corpo e da alma.
— Meu
Jesus, perder-Vos! E sobre esta grande dor cai o peso da Vossa
justiça divina.
Que
tormento e dor sem igual. E a perda das almas! Ai quanto custa! O
meu coração corre atrás delas. Que ternura e amor lhes dispensa. A
alma com os seus olhares vê a sua fugida. Que agonia! Não há amor
que as prenda, não há palavras que as comova, nem ouvidos que as
escutem. Correm, correm para a perdição. Oh, que dor a de Jesus. E
que dor a minha, sentindo isto. Não posso consentir que as almas se
percam. Esta manhã, com a vinda de Jesus ao meu coração,
levantaram-se em mim novas ânsias que deram princípio dum novo mundo
dentro em meu coração. É um edifício mundial a construir-se. As
ânsias são de pureza e de amor; o edifício é levantado com isto. Que
chamas ardentes, que fogo abrasador. Esta pureza e este amor não são
meus, não me pertencem; pertencem ao edifício, pertencem ao mundo.
Meu Deus, que ânsias consumidoras. Queria falar ao mundo inteiro,
queria falar só em amor e pureza; só destas riquezas queria que ele
vivesse. Durante a tarde, senti-me no grande convívio, nuns grandes
laços da mais estreita amizade. De manhã, senti um novo mundo de
amor. Ao cair da tarde, a grande ceia do amor. Amor, que grande
ingratidão recebeu. Com esta ingratidão vi e senti a cruz
atravessada em meu coração; era regada com o sangue que momento a
momento jorrava dele. a cada respiração saía uma golfada de sangue.
Dolorosa quinta-feira, tão cheia de espinhos. A dor tirava-me a
vida. Já de noite, veio o demónio, maldoso como sempre.
Figurou-se-me que, com os seus dentes, retalhava o meu corpo e punha
em bocadinhos o terço e levava para longe a imagem da Mãezinha.
Foram só as manhas dele, depois da luta, tudo tinha junto de mim.
Que estrondo fazia o meu coração.
— Queres gozar? Oh, quanto vale o prazer! Posso sossegar. Oh, como
tu pecas!
Quando
ele bailava de satisfação, veio juntar-se ao gozo, que ele chama
gozo à dor a que só com um milagre de Jesus se pode resistir. Com
muito custo chamei por Jesus, chamei muitas vezes, a afirmar-Lhe
sempre que não queria pecar. Os demónios com caras muito feias
afirmavam o contrário. Veio Jesus, e à Sua voz divina eles fugiram.
Ele chamou:
— Anjo
bendito, suaviza a dor da minha esposa, da minha vítima, da minha
crucificada; leva-a ao seu lugar: é vítima da pureza, vítima do meu
amor, vítima das almas.
Depressa tomei a minha posição, sem esforço, sem sentir dores.
Depressa vieram as nuvens negras, as dúvidas de ter ofendido
gravemente a Jesus.
6 de
Abril de 1945 – Sexta-feira
Continua em mim o edifício mundial e os desejos, ânsias de amor e
pureza. Quero o mundo em fogo de amor, em pureza de corpo, alma e
coração. Levanto os meus olhos ao céu e brado muitas vezes:
— Que
fazer a isto, meu Jesus? O que posso fazer para que o mundo inteiro
se purifique, arda e só viva o Vosso amor divino?
Com
estas ânsias saí da prisão, percorri muitos caminhos, abraçando
fortemente a minha cruz; amava com todo o amor os espinhos que toda
a minha cabeça cercavam. Do capacete de espinhos saía um capacete de
sangue, corria pelo meu corpo, regava a terra. Sentia que a Mãezinha
andava louca à minha procura, ou melhor, à procura do Seu Jesus.
Rompia por entre as multidões a ver onde O poderia encontrar. O Seu
santíssimo Coração estalava, desfazia-se em dor e fazia estalar e
desfazer O de Jesus. Em momentos deste sofrimento, veio o demónio
aumentá-lo ainda mais. Atormentou-me ao máximo.
— Ao
prazer vais tu; pecar, pecas sem remédio. Deus não existe, porque,
se Ele existisse, salvação não tinhas: tal é a maldade dos teus
actos. Serve-me, adora-me, prostra-te diante de mim.
Eu
parecia-me dizer: “não quero Jesus, não quero a Mãezinha”.
Que
aflição a minha! Consegui dizer muitas vezes: “Jesus, Jesus, não
quero pecar”. Quando eu dizia isto, parecia-me já ter pecado e muito
gravemente. Senti a dor de que já muitas vezes tenho falado.
Parece-me que esta dor não pode ser humana, tal é a sua agudeza;
parece tirar a vida. Será a dor que causamos a Jesus com as nossas
maldades? Jesus veio dar-me a vida, perdida por essa dor.
— Coragem, minha filha, coragem, minha esposa, coragem, minha
vítima. Não pecaste, não pecaste. É o teu calvário. São os demónios
os teus algozes, são eles que te açoitam e crucificam. Sofre por meu
amor, sofre pelas almas. Une a tua dor à minha e à da minha Bendita
Mãe. A dor dela é a minha, a tua é a reparação dos filhos meus.
No
calvário, sentia a alma do bom ladrão a expirar dentro do meu
coração. Com que paz ele dava a sua alma a Jesus! Caiu a noite sobre
o calvário, todo o solo estremeceu e fez estremecer a cruz. Jesus
entregava o Seu espírito ao Eterno Pai, enquanto um grande número de
curiosos, aterrados, desciam como formigas o alto da montanha. Veio
Jesus suavizar a grande dor e retirar de mim o pavor que tudo isto
me causava.
— Minha
filha, universo de dor, universo de pureza, universo de amor. A tua
dor, pureza e amor, são de redenção. Que dor, minha filha, sente o
meu Divino Coração por ver as minhas divinas graças perdidas! O que
opero em ti destinei-o para as almas: é remédio eficaz, é remédio
divino. Está escondido, está oculto por causa da cegueira e maldade
dos homens. A tua vida observada, lida e pregada, vai ser o maná
celeste, vai ser um mundo de amor, um mundo de vida e de salvação. É
este o edifício que em ti levantei. Tu és um anjo de pureza, porque
aos anjos te assemelhas. És serafim de amor, porque com igual amor
me amas. É à tua imitação que no futuro o mundo me amará. É com a
tua pureza que ele se purificará. Os homens não deixam que o
remédio, que destinei para as almas, lhes seja dado; o que eles não
proíbem, porque não podem, é a continuação das minhas maravilhas em
ti. Que belezas! Que encantos! Eu sou o artista divino, trabalho em
ti e em ti opero os maiores prodígios. Quem te contempla, contempla
Jesus; quem te ama, ama a Jesus; quem te imita, imita a Jesus.
Retratei-me em ti, és a cópia mais fiel de Cristo crucificado. O
mundo exultará de alegria ao ter conhecimento do que foi a tua vida
na terra.
— Ó meu
Jesus, que falassem assim aqueles que não me conhecem e não sabem o
muito que Vos ofendi; mas falardes Vós, que tudo conheceis, a quem
nada da minha vida foi oculto, que vergonha e confusão a minha!
Remediai Vós todo o mal, purificai-me e enchei-me de amor, cobri-me
com a Vossa graça, para que eu possa ser o remédio que quereis que
seja para as almas.
— O teu
martírio aumenta, o peso da tua cruz redobrará. O perfume das tuas
virtudes encherá, irradiará o mundo. O céu desceu sobre ti,
rodeiam-te os anjos por seres anjo em carne. Abrasa-te o amor dos
serafins por ao mesmo amor seres assemelhada. É com este amor que o
mundo se salvará; é neste fogo que ele se abrasará. O céu dá-me
louvor pelo teu martírio, por aquelas almas que, se te conhecessem,
me podiam dar. Supre o céu o lugar da terra; fazem os anjos o que os
homens não deixam. Salva-me as almas. Toma conforto, descansa em
mim.
Inclinada ao rosto de Jesus, descansei um pouco. Recebi fortemente o
Seu divino amor. O coração não me cabia no peito, se Jesus não o
retira depressa, o coração não resistia, não aguentava tal fogo.
Sinto-o a arder, apesar de já passarem algumas horas. Este fogo não
me dá alegria, dá-me força, muita força na minha amargura. Posso
lutar, posso levar a minha cruz com mais amor. É o que eu desejo:
sofrer tudo com perfeição, para consolar Jesus.
7 de
Abril de 1945 – Primeiro sábado
Raiou o
dia, só na minha alma não. A noite não me deixa, as trevas são
sempre negras, aterradoras. Bendito seja o Senhor que não tem
permitido que eu perca a serenidade e a paz. Temo todo o martírio,
mas amo com todo o amor tudo o que é dor. Vejo no sofrimento só o
amor do meu Jesus. Tenho tantas saudades do céu! Faço tanto
sacrifício por não pedir a Jesus para se apressar a levar-me para
lá! Quantas vezes no meio de outros pedidos vou a dizer: “depois
disto, Jesus, vinde buscar-me para o céu”. Lembro-me da promessa que
fiz de não Lhe pedir mais. Faço violência sobre mim mesma e
digo-Lhe: “realizai em mim os Vossos divinos desejos”. Parece-me que
seria para mim um alívio, se eu pudesse pedir a Jesus que abreviasse
a minha partida para a minha Pátria. Seja que não seja, prometi não
Lhe pedir, não quero faltar. O que será de mim, quando já não tiver
Jesus para Ele comigo e eu com Ele desabafarmos as nossas mágoas?
Que espada que de tão longe e tão dolorosamente já está a ferir o
meu coração! Poucos momentos depois de Jesus descer ao meu pobre e
indigno coração, desapareceram as trevas da alma, e aqueceu-me no
fogo do Seu divino amor. A Sua divina voz, mais suave que a música
dos anjos, fez-se ouvir.
— Minha
filha, rasgam-se as nuvens, brilham os raios do sol, com o seu calor
aquecem, suavizam e cicatrizam as dores, as feridas do teu coração.
Sou eu o sol, o calor e o amor. Sou bálsamo salutar, sou remédio da
tua alma tão imolada por mim, tão sacrificada pelas almas.
Jesus
falava e o meu coração crescia, crescia, pareceu-me sair do peito e
elevar-se à maior altura. Oh! como ele era grande!
— O que
é isto, meu Jesus? Que grandeza é esta que sinto em mim?
— Minha
filhinha amada, é o edifício do amor, é a grandeza do teu amor ao
meu divino Coração e às almas. É com este amor que eu quero ser
amado, é com este amor que o mundo será salvo. Está próxima a hora
da paz. Se o mundo, repito, e mais ainda Portugal, souber agradecer
a graça que lhe foi dada, a paz será duradoira. Reinarei entre os
homens, entre eles estará sempre a minha paz divina. Se não me
agradecerem, não fizerem oração e penitência, não se levantarem dos
seus grandes crimes, depressa Portugal sentirá cair sobre ele não o
fogo das armas, mas o fogo da justiça divina; não a destruição dos
homens, mas a destruição do poder e majestade de Deus.
— Ó meu
Jesus, fiquei tão triste, quando Vos pedi para ficar aqui até ao fim
da guerra, mas Vós bem sabeis que só quero a Vossa vontade.
— Fui
eu, filha querida, fui eu que permiti que me pedisses para prolongar
por mais tempo a tua existência na terra e para provar mais
claramente que os homens se opuseram à minha divina vontade. É
bendita a tua dor, é bendito o teu martírio, é bendito o teu amor. É
com estas pérolas preciosas que vão construir-se nos corações tronos
grandiosos de amor para a minha habitação. Com o perfume das tuas
virtudes, com o néctar das flores angélicas, que no jardim da tua
alma cultivei, vão ser cicatrizadas as chagas da pobre humanidade.
Que felicidade para o mundo, se souber corresponder-me! Diz, amada
minha, ao teu paizinho que lhe mando os meus olhares divinos, as
minhas ternuras, o meu Coração cheio de amor. É a prova da minha
loucura por ele, é a prova da sua inocência, são os meios para ele
prender as almas. Pouco depois de terminada a guerra, ele virá para
junto de ti ajudar-te a chegar ao cimo do calvário, dizer o
consummatum est e oferecer a mim a tua alma. Diz ao teu médico,
à grande loucura do meu Divino Coração, que o que mais desejo dele
agora é que opere comigo milagres, cuidando de ti a sério e da minha
divina causa. As palavras dele ainda não fizeram estremecer tanto
como o castigo que lhes será dado por mim, castigo merecido pela
cegueira e mais que cegueira ainda. Castigo-os para os convidar à
verdade, castigo-os para verem a luz, castigo-os para arrepiarem
caminho. Que grande estorvo para as minhas graças divinas, que
grande prejuízo para as almas! São tão grandes as minhas maravilhas!
É tão grande o meu amor! Coragem, filhinha! Oferece-me os teus
sofrimentos pelos sacerdotes: ofendem-me tanto e por tantas formas!
Fazem tão mal às almas. São tantos, tantos os que não são dignos do
nome de meus discípulos! Coragem, coragem na tua dor. Minha Bendita
Mãe, ajuda-me com o teu conforto, para darmos vida à nossa vítima
inocente, a esta filhinha.
Veio a
Mãezinha, Ela e Jesus abraçavam-me e cobriam-me de carícias.
— Minha
filha, minha filha, estrela do meu Jesus, rosa branca, rosa pura,
rosa que brota de espinhos, sofre contente, dá almas ao teu Jesus.
Com as
últimas carícias acrescentou Jesus:
- Vai,
filhinha, vai escrever tudo. Tens sempre em ti a acção e a luz do
Divino Espírito Santo. Dentro em breve vou dizer-te o nome de mais
algumas almas que vão para o céu sem sofrerem no Purgatório.
— Obrigada, meu Jesus, obrigada, minha querida Mãezinha.
Pouco
depois, veio a noite, veio a dor, a grande dor. O demónio não me
atormentou da forma do costume, mas atormenta-me o pensamento de que
estou em pecado, e a causa deste sofrimento foi um fumo que hoje se
levantou, à cabeceira da minha cama, parecia sair de debaixo dela.
Este fumo foi visto pelas pessoas que estavam no quarto, assim como
o cheiro ao fogo ou não sei ao quê. Por vezes, a minha cama
estremece, parecendo-me abalo que a terra tem. Isto sinto-o eu só e
não as pessoas. Causa-me tanta dor! Meu Deus, estarei em pecado?
Parece-me fogo e abalos do inferno.
Nota – Interroguei três pessoas
presentes sobre o fenómeno inexplicável do fumo, acontecido em hora
em que o fogo da casa estava apagado, o que elimina, portanto, a
possibilidade de coisa natural, e envolvendo só a cama da doente. E
elas estão prontas a jurar o que viram pelo espaço talvez de um
quarto de hora, em que tiveram tempo de averiguar que a origem do
fumo e cheiro não tinha origem de um fogo. (Padre Humberto)
10 de
Abril de 1945
É tão
grande o edifício que sinto em mim! Parece-me chegar dum lado ao
outro, aos confins do mundo. Todo ele arde em chamas e eu ardo
também com ele. Por entre as chamas, aparecem dum e outro lado
grandes enleios de espinhos. São tantos e tão agudos! O fogo a todos
destrói, transformam-se em chamas. Aparecem também muitos, muitos
rastos de sangue, mas este sangue não apaga o fogo. Tudo são chamas,
grandes chamas. Eu não estou satisfeita. Sinto, vejo que este fogo
não atingiu a verdadeira altura. Quero ver o mundo numa só chama,
que chegue da terra ao céu. Eu brado no meio deste fogo: quero amor,
amor, mais amor. Quero amar a Jesus, quero amar a Mãezinha e vê-Los
por todo o mundo amados. Este fogo não é meu, e as ânsias minhas não
são. Perdi a Jesus, perdi a Mãezinha, de meu só tenho o pecado.
Perdi todos os que me são queridos. Quando sei que eles vêm junto de
mim, parece-me que sou assaltada por um bando de assassinos. Para
onde foi o amor a Jesus, à Mãezinha e a estima pelas pessoas
queridas! Contudo, confio em Jesus, que O não perdi, que O possuo
ainda e que a minha estima pelas pessoas, que Ele colocou em meu
coração, em lugar tão alto, não terá diminuído, antes pelo
contrário, será cada vez mais intensa. Não quero usar de ingratidão
nem para o céu nem para a terra. Não quero usar do instrumento que
tanto feriu a Jesus.
— Meu
Deus, o mundo perde-se! As almas lá fogem pelos caminhos da maior
perdição. E eu vejo tudo! Quero ir ao encontro delas. Quero
percorrer todos os caminhos e prendê-las. E como prendê-las a Jesus?
Só com cadeias de amor. Meu Deus, como? Esse amor existe, mas, como
não é meu, não me pertence. Tende dó, Senhor, dai remédio a tudo
isto, meu Jesus. Eu morro, não posso resistir. Não posso ver o Vosso
Divino Coração ferido, meu Jesus! Eu não posso consentir que as
almas se percam eternamente. Nunca mais verem a Jesus! E Jesus ficar
sem elas, depois de as comprar pelo preço do Seu divino sangue. Meu
Deus, que será de mim? Dai-me força, perco a vida. Ai, que mais
posso eu fazer pelas almas, para lhes dar o céu?
O
demónio apareceu-me só com um olho. Mas era tão grande! Tinha um
olhar de tanta malícia, tinha toda a maldade infernal. (Eu sei lá o
que é olhar de malícia… Mas nele o compreendo. Grava-se aquele olhar
no coração. E aquele olhar é capaz de prender tudo). Dentro desse
olho estava um demónio em tamanho natural, de baixo a cima,
completo. Aquele olhar tão maldoso atraía, prendia a si todos os
corações que por tal maldade se levavam. Noutro ataque mais
violento, ele me dizia que ia ter uma noite de prazer e que valia a
pena perder tudo para gozar desta forma. Eu parecia-me arrumar para
longe todos os objectos religiosos e dizia: “não os quero, quero
gozar”. Mas não, a verdade não era esta. Eu, sempre que podia,
oferecia-me a Jesus e pedia-Lhe por tudo para não pecar. Os
insultos, as palavras feias eram tantas! Eu estava tão triste!
Vieram os momentos mais aflitivos. Ele mostrava-se satisfeitíssimo e
afirmava-me eu pecar. Veio uma dor tão grande: desfazer aquilo que
me parecia gozo. E logo principiei a sentir pena de aquela dor me
vir tirar tão grande satisfação. Meu Deus, que horror! Fiquei
desalentada, mas confiada, à espera de auxílio. Depois de bradar
muitas vezes por Jesus, Ele veio e disse-me:
— Minha
filha, o meu sopro divino basta para levar-te à tuas almofadas.
Senti
que esse sopro passou sobre mim e logo fiquei na minha posição a
ouvir a voz de Jesus, que continuou:
— Não
pecaste, minha filha. Esses desejos, essa pena não te pertencem. É o
que sentem as almas depois dos seus crimes. Não se sentem
satisfeitas, entristecem-se, querem outros meios de satisfazerem as
suas paixões e nada encontram no mundo que as satisfaça. A dor é
minha, é a dor que elas causam ao meu Divino Coração. Anima-te,
filhinha, confia, não pecaste. E, como prova de que é falso tudo o
que o demónio te diz e afirma, oferece-me todos os dias a mim a à
minha Bendita Mãe uma e muitas vezes a tua virgindade, a tua pureza.
Que grande consolação e alegria nos dás! Oferece-ma por aquelas que
de tão boa vontade a perdem, perdendo a graça, manchando a alvura da
sua alma. Não acredites em Satanás, confia em mim que sou Jesus.
Renova, renova muitas vezes o teu voto de virgindade e pureza.
— Renovo-o já. Aceitai, Jesus, aceitai, Mãezinha. purificai-me com
tudo o que é Vosso, para que possais receber da minha oferta a maior
reparação, consolação e alegria. Jesus, Mãezinha, tudo o que faço,
tudo o que sofro é por Vós e pelas almas.
12 de
Abril de 1945
Que
fogo no meu coração! Queima-me tanto, parece destruí-lo! Quanto
daria eu, quanto sofreria eu para conseguir que este fogo me
pertencesse e fosse fogo de amor a Jesus. Quero amor, quero amor.
Quero amor para dar ao mundo, para que ele ame todo, só a Jesus.
Pobrezinha, não tenho que lhe dar, não sei como conquistá-lo, não
sei como entregá-lo a Jesus. Lá o vejo fugir, foge deste mundo para
outro mundo predição. Eu fico de braços abertos e olhos no céu.
— Meu
Jesus, como remediar este mal? Olhai o mundo que me destes, o mundo
que me entregastes; olhai o mundo que é Vosso, só Vosso, Jesus.
Dai-me o Vosso amor, só com ele poderei prendê-lo. Que ânsias tão
grandes chegam da terra ao céu! Meu Deus, vejo as almas tão cheias
de podridão! E os corpos a desfazerem de lepra, consequências do
pecado. Que luz esta, que me obriga a ver tudo! Como está o mundo! E
Vós, doce Jesus, o Vosso Divino Coração já não pode mais.
Lá
estou entre o mundo e Jesus, para evitar que as maldades dos homens
vão ferir mais o Seu Coração tão amante. Vêm bater a mim os açoites,
os espinhos, todos os maus tratos. Eu não O vejo, mas sinto como se
Ele estivesse abatido, cheio de medo, e ver quando cai sobre Ele
esta chuva de maldades. Que pena eu tenho de Jesus! Que agonia a
minha por não poder fazer terminar o pecado! Sinto-O como um mendigo
a tiritar de fome e de frio. A causa de tudo isto somos nós, é o
pecado.
— Ó meu
Deus, ó meu Deus, que grande é a minha dor por não poder
aliviar-Vos, por não poder saciar a Vossa fome e aquecer-Vos ao
calor do meu amor!
Nesta
tarde, veio o demónio. Parece transformar-me a mim em demónio
também. Maldito ele seja! Que inferno de maldade! Muito sorridente e
a afirmar-me que eu tinha pecado, dizia-me, entre outras coisas, que
eu era dele, estava nas mãos dele. Parece-me que ele me tapou a boca
para eu não poder invocar o nome de Jesus e dizia-me: “chama por
mim, ama-me”. Ao terminar o perigo tão horroroso, senti que podia
mover os meus lábios e fiquei por muito tempo a repetir: “valei-me,
Jesus, valei-me, Mãezinha”. E ele, mais ao longe, bailava e dizia:
“chama-Os agora, desde que pecaste, desde que estás satisfeita”. Com
uma gargalhada repetiu: “estás nas minhas mãos”. Veio o meu Jesus a
confortar a minha alma.
— Não
pecaste, minha filha, não estás nas mãos do demónio, mas sim nas
minhas divinas mãos. Sempre te trouxe em meus braços, como a
criancinha nos da sua mãe, meiga e carinhosa. Estiveste sempre nas
minhas mãos nos perigos, estás sempre nas minhas divinas mãos nas
lutas com o demónio e nelas estás na tua contínua imolação.
Anima-te, continua a reparar. És mártir de dor, és mártir de amor,
és mártir de toda a humanidade. Diz, minha filha, ao meu querido
Padre Humberto que dele recebi muita consolação. É assim que eu
quero: para acudir às almas vencem-se todas as dificuldades,
suportam-se todos os sacrifícios. Como recompensa de tudo e prova do
meu grande amor, diz-lhe que ele é do número dos que vão para o céu
sem penar no Purgatório.
— Recompensai-o a ele, meu Jesus, e a todos os que sofrem pela minha
causa.
— Não é
por tua causa, minha filha, fui eu que assim o permiti. Escolhi
aqueles a quem mais amo, para os associar à tua dor, e cuidarem da
minha divina causa. Associei os que me são queridos ao martírio da
que tenho na terra de mais querida.
Deixei
de ouvir a Jesus e logo continuei abraçada à minha cruz, arrastada,
ou como que arrastada por fortes cadeias de amor, amor que me
sujeitava ao maior do sacrifício. Era já noite. Oh! quem me dera que
Jesus falasse por mim agora, para honra e glória Sua e bem das
almas. Oh! Quem me dera que nestas linhas ficasse bem gravado o que
se passou na minha alma. Sem pensar na Ceia de Jesus com os Seus
apóstolos, sentei-me à mesa. O meu coração era o cálice, era o
vinho, era o pão. Todos vinham comer e beber a este cálice. Dali em
diante, toda aquela cena seria renovada. Mas, oh! que horror o que
eu vi! Tantos Judas a comerem e a beberem indignamente! Que línguas
tão sujas! Mas mais horror ainda: mãos tão indignas a distribuírem
este pão e este vinho! Mãos indignas, corações cheios de demónios.
Que horror, que horror de morte! Senti tanta dor que de dor e horror
parecia-me rasgar a alma e despedaçar o coração. Não sei exprimir-me
melhor, o que sei é dizer que de tudo quanto tenho visto, sofrido e
sentido, é este caso o mais tremendo e aterrador. E, sobre tudo
isto, o amor de Jesus, amor indizível, amor que, só sendo sentido,
se pode avaliar!
— Meu
Jesus, perdoai-me, que nada disse.
13 de
Abril de 1945 – Sexta-feira
Com o
coração em sangue e a alma desfeita de dor pelos sofrimentos
causados na ceia de ontem à noite, naquele convívio de amigos e de
traição, despertei dum leve sono esta manhã e logo me senti presa
pela cinta, arrastada pelos cabelos, açoitada, coroada de agudos
espinhos que me causavam tão grandes dores que me parecia toda a
cabeça arder em fogo. Caí repetidas vezes, caí sobre pedras; dos
joelhos e do rosto ficavam nelas pedacinhos de carne e rastos de
sangue. Um amor irresistível, saído do coração, prendia-me mais e
mais à cruz. O amor ultrapassava todas as dores. No calvário, no
alto da cruz, que dores tão violentos por ter que estar com a cabeça
unida à cruz! Os espinhos penetravam cada vez mais fundo, a dor
atingia o seu auge. Depois de muita agonia e de horrível abandono,
senti o movimento e o abrir da terra e o estalar das pedras. Tudo
estremeceu. Fiquei como se a alma me deixasse e eu não tivesse vida.
O coração foi aberto, deu as últimas gotas de sangue e água, e assim
fiquei, sem viver da terra, sem viver do céu. Depois de um bom
pedaço de tempo, veio o meu Jesus, veio e disse-me:
— Minha
filha, vida do amor, luz do Evangelho. És a vida do amor, porque o
incendeias em muitos corações, neles o fazes nascer, neles o fazes
viver. É esse o edifício da tua alma, é edifício mundial. És a vida
e a rainha do amor. É desse edifício da tua alma que ele se espalha
por toda a humanidade. Este edifício está guarnecido com as
guarnições das tuas virtudes. Como elas são belas! És luz do
Evangelho, porque a tua vida, tão cheia de maravilhas, mostra mais
claramente o que foi a minha vida na terra: a minha paixão, a minha
misericórdia, a minha ternura, a loucura do meu divino amor. Mostra
o quanto sofri e quanto te assemelhei a mim. Foram infinitos os meus
sofrimentos, infinitos são também os teus, pois estás transformada
no infinito. É a redentora transformada no seu Redentor. Só assim
podias salvar almas aos milhares, aos milhões. Aceito todos os teus
sofrimentos e com eles salvo as almas em todo o universo. Em breve
te direi, minha filha, uma por ti salva. Não foste lá salvá-la com
as tuas palavras, com os teus exemplos e virtudes, mas fui eu tão
longe com os teus sofrimentos perdoar-lhe, chamá-la a mim.
— Jesus, Jesus, sabeis de quem falais? Sabeis o que eu sou? Ou
esquecestes a minha miséria? Que vergonha, que tremenda confusão a
minha! Quem sois Vós e quem sou eu! Que dizeis Vós deste abismo de
miséria?
— Sossega, sossega, amada minha. Não te disse eu que os teus
sofrimentos são infinitos por estarem transformados no infinito? Não
te disse que és redentora por estares transformada no Redentor? Tudo
o que fazes é por mim, é certo que com a tua correspondência à
Graça. És poderosa com o Todo-Poderoso. Não é à sombra do arvoredo
que os homens se abrigam e deliciam? Também eu à sombra das tuas
misérias me escondo; debaixo delas opero maravilhas e grandes
prodígios. É das tuas misérias que eu recebo grande consolação e
alegria. Não é verdade que, ao lembrares-te delas, te levantas, unes
e abraças a mim com todo o amor? Permiti que passasses coisas na tua
vida, para poderes dar-me a reparação que me dás. Permiti-as sem a
perda da tua inocência. Não podias dar-me esta reparação sem
conheceres a gravidade dos crimes, as ofensas feitas a mim.
Caminhaste sobre espinhos sem te envenenares deles; caminhaste por
entre o fogo sem te queimares, sem ficar em ti a mais pequenina
mancha. Coragem, coragem, minha filhinha, nada temas. Eu não deixo
de te falar sem antes te prevenir. Mãe, Mãe, minha Bendita Mãe, vem
comigo confortar esta nossa filhinha; vem comigo curar as chagas
deste coração e desta alma, chagas causadas com a dor da minha
divina paixão e com a maldade dos homens.
Senti
que a Mãezinha se aproximou e disse:
— Aqui
me tens, meu filho, meu querido Jesus.
Senti
no meu coração como se recebesse do Coração de Jesus e da Mãezinha
fortes injecções de amor. Todo o meu peito ardia em chamas. À nossa
frente estava um lindo jardim: tinha muitas flores. Por entre elas,
a colhê-las, andavam anjos em tamanho natural com asas brancas.
Jesus e a Mãezinha continuavam como que a injectar-me o coração.
Jesus dizia:
— Andam
os anjos no teu jardim, jardim que eu cultivei, jardim divino,
porque o jardineiro é divino, a colher as flores que nasceram dos
espinhos.
Continuou a Mãezinha:
— Minha
filhinha, esposa do meu Jesus. As flores são levadas pelos anjos ao
trono divino; é adornado com elas. São as flores das tuas heróicas
virtudes. O seu aroma e perfume angélico são espalhados do céu para
a terra pelos mesmos anjos, enquanto que os homens não deixam que a
tua vida chegue aos confins do mundo. As criaturas nada podem contra
o seu Deus. Oh! como é grande a misericórdia do Senhor! Como Ele
imola as Suas vítimas, para que as almas sejam salvas. Coragem,
minha filha amada, dá ao teu Jesus tudo quanto Ele te pedir.
— Obrigada, Mãezinha, não me falteis nunca. Obrigada, meu Jesus.
ecebi por último novas carícias de Jesus e da Mãezinha
e, por espaço talvez de uma hora, senti o fogo abrasador no meu
coração. A dor dele e da alma foi suavizada, e sentia em mim maior
conforto. Depois de uma hora, pouco mais ou menos, voltei de repente
ao mesmo estado. E já passaram tantas horas e sinto que tenho o
coração, a alma e todo o peito em ferida. Que dor! Que dor! Seja
tudo por Jesus e pelas almas.
17 de
Abril de 1945
O meu
peito arde, queima-me o coração. Que fogo abrasador! O edifício
continua dentro em mim, é ele que está em labaredas, é ele que
fortemente arde e queima. Sinto de novo que sobre este edifício foi
colocado um rochedo mundial. Eu bato nele, rodeio-o por todos os
lados, tenho que fazê-lo estremecer. As labaredas do edifício ardem
debaixo e à sua volta. O fogo não se apaga e o rochedo dum lado e do
outro, aqui e acolá, vai-se abrindo, vai descarnando como acha de
lenha, posta em bocadinhos. Sinto o deslizar das pedrinhas do
rochedo. Mas, meu Deus, é com tanto custo! Há tanto que fazer! Este
fogo não pode parar. Este rochedo tem de ser todo transformado em
moledo e em fogo divino.
— Meu
Jesus, só queria ver fogo, fogo nos corpos, nos corações e nas
almas.
O meu
pobre coração está cansado, cansado de tanto arder, cansado de
tantas ânsias. Jesus tem de ser amado. Jesus não pode ser ofendido.
O Seu divino Coração não pode resistir a tanto sofrimento, a tantas
maldades.
— Meu
Deus, que quereis que eu faça? Meu Jesus, que posso fazer? Sinto o
que quero, sei o que Vós quereis. Quero que todos os corações Vos
amem, quero evitar o pecado. E Vós, meu Jesus, quereis que toda a
humanidade seja salva. Que bondade, que ternura, que misericórdia,
que amor o do Vosso Divino coração! É a Vossa vingança, é o Vosso
castigo sobre a nossa ingratidão: quererdes salvar-nos a todos. Se
eu pudesse, meu Jesus, dar-Vos essa consolação! Aqui me tendes, sou
Vossa, estou pronta para tudo. Nada mais sei dizer-Vos.
Vou
caminhando apressada, cada vez mais, para as trevas mais
aterradoras. A minha alma apavora-se. Tenho que fundir-me, tenho que
mergulhar-me no abismo da maior escuridão. A minha alma sente-o, já
o divisa a correr para mim e eu para ele. Ó meu Deus, o que vai ser
de mim! São trevas que eu nunca vi, que eu nunca passei; é o abismo
onde ainda não fui mergulhada. A minha alma ainda não perdeu o
ferimento da quinta-feira passada. Que dor me causaram aquelas
línguas impuras e mãos indignas! Oh! como somos ingratos para Jesus.
O demónio da cada vez vai inventando mais os seus actos e as suas
lições maliciosas. Grande horror! Depois de elas ensinadas e postas
em prática, deixou-me a mim sozinha num fogo de maldades. Enquanto
pude, pedi sempre a Jesus e à Mãezinha para não pecar. E ele, cheio
de malícia, um pouco retirado de mim, muito satisfeito e muito
enojado, dizia-me:
— Pecas
sozinha, não tens com quem pecar; todos te abandonaram e nem eu nem
os meus camaradas te querem.
Não
digo as palavras nem as coisas que ele fazia. Depois da luta, fiquei
insatisfeita; queria e não sabia o quê, queria entregar-me sempre
aos vícios. Eu não era quem queria, era o que sentia. Estava tão
triste! A esta tristeza desceu o meu Jesus.
— Minha
filhinha, não pecaste, o que sentes não te pertence. São as almas
que depois dos seus crimes não encontram satisfação, querem viver só
daquelas maldades, não querem outra vida, querem satisfazer-se seja
como for. Ai daquelas que se entregam ao pecado! Ai daquelas que
pensam encontrar no mundo a satisfação! Coragem, filhinha amada! Por
que estás tão abatida e em tanta dor?
— Meu
Jesus, bem sabeis que é o receio de pecar.
— És
vítima, é só isso. Confia no teu Jesus, que não pecaste. Confia
naqueles que em meu nome te dizem que não pecas. Eu falo em seus
lábios, e são inspirados, iluminados pelos Divino Espírito Santo.
Coragem! Não temas os sofrimentos que pressente a tua alma. Eu estou
sempre contigo, e a teu lado terás sempre quem te ampare e guie.
Quanto mais se aproximar de ti este sofrimento, quanto mais te
mergulhares nessas trevas, mais o céu se aproxima, e a luz clara da
eternidade. Depressa virei buscar-te.
Não
ouvi mais o demónio, e Jesus ficou em silêncio. O martírio da minha
alma continua. Sinto como se estivesse sempre de olhos fitos no céu
a implorar de Jesus compaixão.
19 de
Abril de 1945
Sinto
tantos abalos! A minha alma está em sobressaltos. Não sei o que ela
pressente. Virão por acaso mais miminhos de Jesus? Curvo-me diante
da Majestade divina: é o meu sinal de aceitação. Abraço a minha cruz
por mais penosa que ela seja. Arde o edifício, as labaredas
atingiram a altura do rochedo, vai-se desfazendo a pouco e pouco.
Mas como penetrá-lo todo? Impossível ser todo transformado em
chamas, alguns pedaços ficam sem que o fogo os consuma. Sobre o
rochedo estou eu, mas não sou eu. Todo ele é regado com as lágrimas
que caem dos meus olhos; são as lágrimas de dor e de amargura, são
lágrimas de compaixão. E não são minhas estas lágrimas, elas saem de
mim, mas vêm do alto; rolam nas minhas faces, mas brotam dos olhos
de Jesus. Oh que pena, tanta dor e tanto amor perdido! O demónio
veio desesperado formar assaltos ao meu corpo e atormentar-me a
alma. Oh quantas coisas feias, só vindas do inferno! Parece-me
prender-me os lábios, para eu não invocar os nomes de Jesus e da
Mãezinha. Depois da luta, fiquei em tanto sofrimento que me parecia
que, ainda que viesse todo o céu a afirmar-me que eu não tinha
pecado, não acreditava. Meu Deus, depois de tudo isto, como pode ser
eu não ter pecado? Nesta angústia, veio o meu Jesus.
— Minha
filha, dá-me as tuas dúvidas e os teus receios, quero utilizar-me de
todo o teu sofrimento pelas almas que correm loucas pelos caminhos
do inferno. Quero as tuas dúvidas para aqueles que as não têm depois
de me ofenderem gravemente. Quero os teus receios para aquelas almas
que trilham sempre o caminho da impureza sem receio de me ofenderem
e de se perderem eternamente. Confias que não me ofendes?
— Meu
Jesus, meu amor, creio na Vossa divina palavra, confio em Vós. Só
temo a minha fraqueza e miséria.
— Fica
em paz. São manhas do demónio. É a reparação que exijo de ti. És
minha, só minha.
Pouco
depois deste colóquio com Jesus, sentia-O na minha alma e via-O com
olhar tristíssimo a derramar as Suas lágrimas sobre a cidade de
Jerusalém, que dentro em mim também habitava. Prolongaram-se por
tanto tempo estas lágrimas e tristes olhares de Jesus, acompanhados
com palavras de chamamento e ameaça. Já de noite sentira como se
tivesse a minha roupa colada ao corpo e banhada em sangue. Sentia o
romper das veias e agonia de morte. Via as oliveiras do Horto, o
luar empalecido e o brilho das estrelas triste, como triste estava o
Coração divino de Jesus. Tudo aparecia por entre a folhagem das
oliveiras, mas com tal tristeza que só convidava ao silêncio e ao
retiro. Senti depois, como já em outros tempos senti, o beijo de
Judas e o cair por terra dos soldados, o desembainhar da espada, que
assim ao vivo nunca tinha sentido, no que se refere à espada. Se eu
pudesse mostrar a ternura, a mansidão e o amor de Jesus para com
todos os que O ofendiam… Não há nada na terra que se possa comparar
a Ele. Remediou o mal de S. Pedro com tanta doçura e com a mesma
doçura se deixou prender e se entregou aos malfeitores. Que coisas
tão tristes e que tanto cansam o meu corpo e a minha alma!
20 de
abril de 1945 – Sexta-feira
Custou-me tanto resistir aos sofrimentos desta manhã. Sentia ainda o
cansaço e o ferimento dos de ontem. Antes de tomar a cruz, lá vinha
eu de mãos atadas. Já a caminho do calvário, não podia abrir os
olhos devido ao sangue que da cabeça me corria. Caminhava a todo o
custo. Sentia que não eram forças nem vida humana que levavam a
cruz, porque os sofrimentos passados já me tinham causado a morte, e
quantas vezes. No cimo do calvário e já ao alto a cruz e eu cravada
nela, sentia o meu peito aberto e do meu coração via sair uns raios
tão brilhantes que se estendiam a iluminar todo o calvário. Digo o
que vi e senti, mas sei que nada disto era meu, era Jesus que estava
em mim. Era Ele que tinha o peito aberto e ansiava que todos
entrassem nele e fossem ao Seu Divino Coração, e para isso os
iluminava com os raios do Seu divino amor. Cheia destes tão grandes
sofrimentos, veio o demónio aumentá-los ainda mais. Que desespero o
dele e que maldade sem fim!
— Faço
de ti o que quero e faço em ti o que quero. Estás nas minhas mãos,
pecas gravemente, não esperes salvação.
E disse
mais, ainda mais. Quando pude dizer alguma coisa, chamar por Jesus e
pela Mãezinha, fiquei a murmurar numa incerteza do que se tinha
passado.
— Meu
Deus, como foi isto? Como posso passar sem Vos ofender? Passou-se em
mim? Fui causadora? Bem sabeis, Jesus, que não quero ofender-Vos.
O meu
coração parecia ter sobre ele as ânsias da morte. Veio o meu Jesus e
disse-me:
— Minha
filha, não pecaste. Não vês que estou em ti? Não sou eu perfeito,
não sou impecável? Não vês que estou transformado em ti? E nesta
transformação não podes ofender-me. Diz-me, diz-me, acreditas?
Confias?
— Confio, Jesus, porque Vós o dizeis e porque falais de Vós,
perfeição sem igual. Se não falásseis de Vós, não confiava.
Parece-me Jesus, era impossível não Vos ofender.
— Confia, confia, sou puro e venho à tua pureza buscar reparação
para os impuros. Dá-me o que peço. Tem coragem.
Deixou-me Jesus, e a amargura e agonia continuaram. No alto da cruz
sentia que muitos dos que me rodeavam ainda me escarravam no rosto.
Por cima desses escarros caíam as lágrimas de Jesus, juntavam-se às
da Mãezinha, e Ele, cheio de amor, ainda pedia para todos perdão ao
Eterno Pai. Jesus mal podia mover Seus lábios para bradar ao Eterno
Pai, mas o Seu Divino coração estava num brado contínuo. Que linda
lição deu Jesus no meio de tanto abandono do céu e da terra,
abandono pavoroso! Terminou a agonia com a entrega da alma, ficando
o peito sempre aberto e os raios do coração a iluminarem a terra,
enquanto o sol, como que envergonhado, se escondia entre as nuvens,
que estremeciam juntamente como solo do calvário. Fiquei assim por
algum tempo a estranhar a demora de Jesus: Ele não vinha, não se
apressava. Quando veio, falou-me assim:
— Demorei, minha filha, porque estou a preparar-te para me retirar,
ou melhor, esconder-me em ti. Está cultivado o terreno, prepara-te
para um novo martírio, para o martírio dos martírios: é martírio sem
igual. Está firme o terreno preparado, tenho toda a confiança em ti.
No meio dele vais mostrar às almas a intensidade do teu amor, a
loucura, a maior loucura de amor por mim. Se soubesses quanto amas o
meu Divino Coração e as almas! Vou receber do teu último martírio a
maior glória, o maior proveito para as almas. Tens em tantos pontos
o título de rainha! Quantos ceptros em tuas mãos! És a rainha do
mundo, és rainha do amor, és a rainha dos sacrifícios, a rainha das
cruzes. Quantas coroas de pedras preciosas numa só cruz, na cruz
mais pesada, na cruz de mais amor! São coroas vindas dos
sofrimentos, são coroas de virtudes. Tantas cruzes com variadas
crucifixões se vêm reunir à maior das cruzes, à cruz da crucificada
sem igual, da esposa e vítima de Jesus. Levei ao longe as cadeias do
teu amor, os raios brilhantes das tuas virtudes. Quantos abalos dei
com essas cadeias ao Presidente da América, quantas vezes o chamei!
Foi salvo por ti. Que responsabilidade era a sua! E quantas almas
foram salvas ao mesmo tempo! Aproveitei-me da oferta dos teus olhos
para a salvação dos que governam as nações. Um já está salvo, e
prometo-te salvar ainda mais. Não te tirei a luz dos olhos, mas
tirei-te a lua da alma. É por isso que estás nas trevas aterradoras.
Aceito tudo quanto me dás. És generosa em me ofereceres, e eu em
aceitar. Que prova de amor do meu Divino Coração para com o teu e do
teu para com o meu.
— Querido Jesus, só Vós sabeis a dor que me causa o nomeares o nome
de qualquer alma. Que grande tormento! Aceitai-o. Seja mais um meio
de salvação.
— Para
ti é dor e humilhação, para mi é glória e amor. Que tesouros imensos
de riquezas possuis em ti! Tens universos de amor, universos de
pureza. É ao calor deste amor que o mundo há-de aquecer-se. É com as
chamas deste edifício que tens em ti que o rochedo há-de
transformar-se. O rochedo é o mundo, está sobre o edifício do amor.
O amor transforma, o fogo purifica. De rochedo passará a oiro
finíssimo. Se houver amor, se houver pureza, será salvo o mundo. Os
pedaços, que sentes não serem transformados, são aquelas almas que
não deixam penetrar em si o fogo do meu Divino Amor, que não se
purificam. Cegas à luz, não se deixam iluminar. As almas que através
dos tempos não se incendiaram e purificaram neste edifício de pureza
e amor hão-de incendiar-se no fogo da justiça divina e condenar-se
eternamente. O que será a destruição deste exílio! Vê, filhinha
amada, quanto sofre este coração de pai. Tudo faço, emprego todos os
meios para salvar os meus filhos, e eles tudo fazem e todos os meios
empregam para se perderem. Ó mensageira, ó redentora das almas, ó
transportadora de tantos milhões delas para o meu Divino Coração,
para a Pátria eterna! Alegra-te, sofre tudo, salva-mas, salva-mas.
Cada
palavra de mais amor que Jesus dizia, beijava-me, acariciava-me. Mas
mesmo assim sentia-me confortada e triste ao mesmo tempo.
— Meu
Jesus – disse-Lhe eu – estou triste por não poder ocultar parte das
coisas que me dizeis. A minha miséria não pode enfrentar este tão
terno e doce colóquio. Tende dó de mim, vede como sou pequenina.
Salvai as almas, Vós dois o poder, a sabedoria e o amor; sois toda a
medicina, curai-as.
— Gosto, minha filha, das almas pequeninas; comigo elas sobem às
maiores alturas.
— Obrigada, meu Jesus.
Depois
de umas poucas de horas do colóquio com Jesus, sinto a minha alma a
agonizar. Não queria escrever nada, não posso ver as trevas que se
aproximam de mim, causam-me pavor. Não posso lembrar-me que Jesus
vai deixar-me. Sinto que O perdi, sinto que todos os queridos do meu
coração me abandonaram e são bandidos e feras furiosas
contra mim. O demónio está com tanta raiva! Diz-me que todos os meus
enganos vão ser desfeitos, porque o Presidente da América não
morreu; que está vista a minha falsidade.
— Jesus, Jesus, sou a Vossa vítima. Valei-me, se não, a minha alma
não resiste a tanto. Meu Deus, meu Deus.
24 de
Abril de 1945
Por
vezes parece-me morrer queimada. As chamas do fogo consomem-me o
peito e o coração. Sinto que as labaredas atingem tal altura que a
vista humana não pode alcançar. O que será de mim? Não sei dizer o
que me vai na alma. Tudo quero e nada faço. Não queria fazer outra
no mundo a não ser amar a Jesus e à Mãezinha e salvar todas as
almas. Elas correm no caminho da perdição. E o mundo foge-me, não
posso prendê-lo com as prisões do amor de Jesus. Que espadas que me
cortam continuamente! Que mundo de espinhos me ferem sempre, sempre!
Esta dor ter-me-ia tirado a vida milhões de vezes, se não fosse
Jesus. E as trevas da minha alma! Que tremendo horror! Até todo o
meu corpo é trevas! Sinto que um céu de trevas caiu sobre mim. Ai,
meu Deus, nem do céu posso esperar luz! E da terra nada tenho que
esperar. Perdi tudo, tudo. Deixaram-me os queridos do meu coração.
Não digo bem: não me deixaram, sinto como se me deixassem e até
fosse por eles odiada. No meio de tudo isto desabafo com Jesus. Ele
segreda-me muito no íntimo da alma:
— Coragem, filhinha, não fugi, não estou ausente, não posso estar
mais presente e unido a ti. Prenderam-nos os mais fortes laços de
amor.
O
demónio não sossega, não deixa de atormentar-me o meu espírito e a
minha alma. A minha cama vai estremecendo. Ele vem sempre com as
suas palavras feias e ameaçadoras. Tive um ataque tão forte! Tantas
coisas maliciosas! Tantos insultos! Pôs-me mais baixa do que a lama.
Dizia-me:
— Para
que te moves? Eu não te toco. E ainda dizes que não queres pecar.
Parecia-me que estava presa pela garganta, nada podia dizer a Jesus;
nem ao menos o terço podia ter nas mãos. Que horror, tremendo
horror! Parecia-me que queria pecar, e pecava mesmo, ainda que visse
diante de mim Jesus. Parecia-me que O queria mesmo desafiar,
ofendendo-O gravemente diante dos Seus divinos olhos. Ao terminar o
grande perigo, principiou o malvado novamente:
— Depois de o burro estar satisfeito, nada quer comer; depois de
pecares, de te satisfazeres, já não queres mais.
Com que
tristeza eu fitei Jesus crucificado! Que receios e dor no meu
coração! Veio o meu Jesus.
— Não,
não pecaste, minha filha. Confia, acredita no que te diz Jesus. A
reparação que te peço é por aqueles que, entregues às paixões, pecam
e sabem que pecam, conhecem a maldade dos seus actos e tentam até
desafiar a minha divina justiça. Coragem, filhinha! Que loucura a do
teu amor ao meu Divino Coração. És o encanto dos meus olhos, a honra
e a glória do meu eterno Pai, és a glória de todo o céu. Estás cheia
não de pecar, como diz Satanás, mas cheia de amor e de dor; amor e
dor sem igual. Sem um milagre operado em ti, não podias resistir.
Calou-se Jesus, e eu fiquei na cruz, na cruz que eu amo, na cruz que
só quero por amor d’Ele. Depressa vieram os receios e todas as
dúvidas.
— Meu
Deus, não posso estar neste mundo, sinto-o todo revoltado contra
mim. Que medo, Jesus, que medo, Mãezinha! Tende dó de mim.
26 de
Abril de 1945
Existirá alegria no mundo? Em algum dia da minha vida, por acaso
conheceria eu o que era alegria? Se alguma vez a experimentei,
morreu para mim de tal forma como se nunca a conhecesse. O
pensamento de aceitar e cumprir do coração e da alma a vontade de
Jesus dá-me um pouco de alento. Mas logo este pensamento me aflige:
estou eu a cumprir a vontade do Senhor? E daqui grandes agonias e
tristezas para a minha alma. Estou esmagada entre o céu e a terra,
toda transformada e embebida em trevas. Tremendo horror, meu Jesus!
Tenho medo de mim mesma. Quem poderá aguentar tanta aflição a não
ser Jesus? Quem poderá viver e caminhar por tão negra escuridão a
não ser com os olhares de Jesus? Morro, morro, meu Deus, morro
despedaçada, esmigalhada na tremenda noite. O meu coração, tão
oprimido pela dor, faísca raios de lume. Esses pedacinhos de raios,
que eu sinto e vejo sair dele, espalham-se pelo mundo; todo ele é
fogo. Queria ver estes raios irem ferir todos os corações, e este
fogo, que do meu sai, incendiar a todos, para que só no mundo
existisse o fogo do amor de Jesus. Quero gritar e gritar sempre,
enquanto viver neste exílio. Custe o que custar, esteja nas trevas
que estiver, abandonada em tudo e de todos, gritarei sem cessar:
quero amar Jesus, quero consolá-Lo, salvar-Lhe as almas, dar-Lhe o
mundo inteiro. Não sei dizer a Jesus, não sei pedir-Lhe meios para O
alegrar, meios para melhor salvar as almas.
— Jesus, bem vedes o que o meu coração quer. Só por Vós e aceito a
cruz.
Que
alívio para a minha alma, que conforto para o meu coração, se eu
pudesse dizer a minha dor, não para que saibam quanto sofro e vejam
as ânsias do meu coração, mas para glória do meu Deus e bem de toda
a humanidade. Não sou eu quem sofre, não sou eu quem resiste à dor,
mas sim Jesus, só Jesus, que sofre pelos filhos Seus. Para mim era
impossível suportar tão grande martírio. E o demónio aumenta-mo. Que
fúria a sua, que maldade sem igual! Que tristeza não poder fazer que
todas as almas a conheçam, para não se deixarem guiar por ele.
Dizia-me hoje num penoso combate, quando eu clamava pelo meu Jesus.
— Não
pronuncies esse nome, somos inimigos odiosos. Ele odeia-me a mim e
eu a Ele. Diz comigo que O odeias e que O não queres. Comigo tens o
gozo e o prazer nesta vida e uma eternidade feliz. Com Ele sofres
aqui e lá. Estou a pecar contigo, levo-te ao prazer para O ofenderes
gravemente. Diz comigo que queres pecar, que queres ofendê-Lo.
Como
eu, sempre que podia, chamava por Jesus e Lhe renovava a oferta de
vítima e Lhe dizia não querer pecar, ele, enraivecido, insultava-me,
tentava escarrar-me até dentro da boca e procurava novos meios
maliciosos. Que tristeza, meu Deus, que aflição a minha! Ao terminar
da luta, o meu coração parecia rebentar, o meu corpo estava banhado
em suor, e os meus olhos tentavam desfazer-se em copiosas lágrimas.
Triste e mais do que envergonhada, fitei Jesus na cruz sem poder
dizer palavra. Ele veio a confortar a minha alma.
— Não
pecaste, não, minha filha, pomba branca, arminho puro. A tua pureza
não se manchou nem manchará. A tua alma é bela, é encantadora.
Criei-te para mim com encantos atraentes. Dá-me toda esta reparação.
Não chores com o receio de me teres ofendido, porque não pecaste.
Oferece-me as tuas lágrimas por aqueles que me ofendem. Os desejos
de pecar, as ânsias insaciáveis do prazer não são teus, é a
reparação daqueles que, depois do gozo, do gozo passageiro,
enganador e traiçoeiro, querem novo gozo, nova satisfação,
atraiçoando assim o meu Coração divino. Coragem! Estou satisfeito
com o teu amor e com tudo o que me dás.
— Ai,
meu Jesus, se eu pudesse convencer-me sempre que não Vos tinha
ofendido! Mas depressa caio nas minhas dúvidas. Tende dó de mim.
— Vive
em paz, filhinha amada, pois estou contigo mesmo nas tuas trevas.
— Obrigada, meu Jesus.
Ai de
mim! Perdi amigos, perdi Jesus, não posso mais encontrá-Lo nesta
escuridão. Perdi a vida, perdi tudo, tudo. A morte rodeia-me,
avizinha-se de mim; traz consigo os maiores horrores, a maior
escuridão. E eu sem conforto do céu e da terra. Os que me são
queridos, por mais que se esforcem, não me dão um momento de
alegria. As mais pequeninas coisas abismam-se cada vez mais na
profundeza da minha dor. Perdi o meu Jesus, ou sinto que O perdi e
não O queria perder. Queria possuí-Lo, mas sem colóquios com Ele.
Triste noite da quinta-feira! Oh! como Jesus me associa às Suas
dores, à Sua paixão divina! Sinto ânsias de atravessar por cima de
todos os espinhos, de ir ao encontro da cruz, abraçá-la e com ela
seguir para a morte. Sobre o meu peito sinto o discípulo querido,
sinto o seu sono de paz, a tranquilidade do seu coração e da sua
alma, e sobre ele o amor terno de Jesus. Sinto em mim a braseira e
os que a ela se aqueciam. Sinto, retirado um pouco, que está alguém
aterrado e tímido, mas vai-se aproximando e vai negar Jesus. Sinto
as suas lágrimas de arrependimento. Sinto o cantar do galo e o abrir
do bico em meu coração. Sinto sobretudo a dor infinita de Jesus e o
Seu amor e mansidão para com todos. Quanta amargura, quantas mágoas
em Seu Coração, naquele Cordeirinho inocente! Não posso ir ao fim da
dor de Jesus, não resisto a mais.
27 de
Abril de 1945 – Sexta-feira
Quando
esta manhãzinha despertava dum sono leve e passageiro, eram de tal
forma as trevas que eu sentia na minha alma que me parecia ver com
os olhos do meu rosto, à minha frente, uma grande muralha negra;
assustei-me, o meu corpo estremeceu. Não era nada, os olhos do rosto
nada viam, os da alma, esses viam e aterravam-se. A pouco e pouco,
fui-me envolvendo mais e mais nessas trevas assustadoras.
Preparei-me para receber Jesus em meu coração. Entrou para a
escuridão e na escuridão ficou. Pobre Jesus, onde baixou Ele! Sem
luz, mas muito unidinha a Ele, fui percorrendo o caminho do meu
calvário. Caía e sobre mim caía a cruz. Era arrastada e arrastada
comigo era ela também. Ao cair sobre a terra, os espinhos
cravavam-se, penetravam cada vez mais fundo. Que dores horríveis!
Ainda as sinto. Da minha boca sentia como se saíssem golfadas de
sangue, vindas do coração, resultado das grandes quedas, de bater
com o peito em pedras. E tudo isto se passou sem luz, sempre a cada
passo a ser envolvida num rolo de trevas. Eu pensava que não podiam
ser mais aterradoras, mas vejo que dia a dia mais me assustam. Ó meu
Deus, tudo por Vós! Veio o maldito com as suas artes. Empregou todos
os meios maliciosos para me obrigar a pecar. Chamei por Jesus.
— Não
chamas por Ele, é por mim que tu chamas, é a mim que tu queres. Da
terra és por todos abandonada, nenhuns querem pecar contigo, têm
nojo de ti. Olha em que estado tu estás! Eu peco, mas peco como nojo
para tu ofenderes o inimigo que eu odeio.
Que
grande luta! Estava sem vida, banhada em suor. Fiquei a dizer muitas
vezes:
— Que
grande martírio, meu Jesus, que grande martírio! Eu não quero pecar,
sou a Vossa vítima.
Disse-me o meu Jesus:
— É
grande o martírio, ó minha filha, eu bem o sei, é martírio de amor,
é martírio de reparação. Só podia receber da tua alma bela e pura,
só podia do teu corpo virginal receber esta consolação, esta
reparação. Custa-te muito? Só assim é que me dás tudo. Coragem! Tu
não me ofendes.
— Lanço-me nos Vossos divino braços, ó Jesus, neles quero estar
sempre, mesmo nas lutas com Satanás. Sozinha tenho medo, aí estou
livre de Vos ofender.
Fiquei
desfalecida e continuei nos sofrimentos do calvário. Todo o corpo
era sangue. Sentia uma sede abrasadora e o maior dos abandonos. Ouvi
do meu coração sair este brado: “tenho sede, tenho sede”. Compreendi
que era Jesus e lembrei-me que Ele tinha sede das almas. No mesmo
instante, senti passar nos meus lábios uma esponja, uma e outra vez.
A sede dos lábios ficou na mesma e a do coração aumentou. O brado
continuava:
— Não é
a sede dos lábios que quero saciada, mas sim a sede do coração, a
sede das almas.
Nesta
sede e neste abandono fiquei por muito tempo como se estivesse com
os olhos fitos no céu e o corpo esmagado com o peso de toda a
humanidade. E Jesus não vinha, demorou tanto! Esperei, esperei. Veio
então e disse-me:
— O rei
habita no seu palácio com a sua grandeza, poder e amor, mesmo que a
rainha não o veja, não o sinta. Custa muito, minha filha, o esposo
separar-se da sua esposa. Mas a minha separação não é real, fico
escondido em ti. Fico a governar a nação da tua alma pelos lábios de
quem escolhi para te amparar e dirigir. Todos os que te amparam,
todos os que te guiam, fui eu que os trouxe a teu lado. Coragem,
filhinha. Vem cá, vem ao meu coração, vem receber vida; estás
desfalecida, necessitas dela para ires à conquista das almas. Vem,
vem, ó conquistadora da humanidade, vem receber o sangue do meu
divino Coração; necessitas da vida divina, porque momento a momento
perdes a vida humana. Vives milagrosamente, vives do meu divino
sangue; é ele o meu alimento.
Jesus
uniu o Seu divino Coração ao meu; sentia-o e via-o cheio de raios de
amor e ao lado uma grande chaga. Principiou a deitar do d‘Ele para o
meu o Seu divino sangue e o meu, tão pequenino, principiou a
dilatar-se, parecia não me caber no peito. Jesus uniu os Seus divino
lábios aos meus para me acariciar e continuou:
— Estão
os anjos, minha filha, a verem este grande milagre, as minhas
maravilhas em ti.
Uma
grande multidão deles batia as suas asinhas brancas e entoava um
cântico harmoniosíssimo, só cântico do céu. Pronunciavam estas
palavras:
Nós
Te adoramos, nós Te adoramos, ó grande Deus e Senhor, e entoamos
hinos de glória, agradecimento e amor. Deus nosso e Criador, nós Te
adoramos por tão grande prodígio e prova de amor.
Era
arrebatadora a harmonia dos anjos. Retiraram-se eles, e ficou Jesus
a continuar o Seu terno colóquio.
— Corre
em tuas veias, minha filha, o sangue de Cristo: como não hás-de ser
tu redentora! Corre em tuas veias o sangue virginal de Cristo: como
não hás-de ser tu virgem pura, angelical e vítima sem igual! Corre
em tuas veias o sangue do Todo-Poderoso: como podes deixar tu de ser
poderosa! És poderosa para tudo. Perdes o teu sangue por meu amor, e
eu por teu amor passo para ti o meu. Perdes o teu sangue para dares
vidas, e eu, para te dar a vida, te dou o meu. Pede-me o que
quiseres. Cada prece que elevares ao céu em favor dum pecador logo
será escrito no livro da ciência divina o nome de salvação. Quando
estiveres no céu, e o teu nome for invocado em favor deles, no mesmo
momento em que prostrares diante de mim a pedires para eles perdão,
todos os eleitos ao mesmo tempo te acompanham na mesma prece, e
serás atendida. Coragem, esposa amada, está próxima a vitória. A tua
cruz, o teu martírio é de redenção. Triunfa a minha divina causa,
aproxima –se o céu para te conduzir a ele. Tu és, minha filha, rosa
que brota de espinhos, rosa de amor, nascida da dor. Nada temas,
filhinha amada. O terreno está preparado, pertence-me, foi cultivado
por mim. É terreno das almas, o seu produto é para as almas. São
frutos de amor, são para o teu Jesus e teu redentor.
— Obrigada, meu Jesus, nada mais sei dizer-Vos. Sede sempre a minha
força e deixai-me entrar no Vosso divino Coração com todos os que me
são queridos, para que os recompenseis por mim, dando-lhes todas as
Vossa graças e todo o Vosso amor. Deixai-me entrar com todos os
sacerdotes, para que aprendam do Vosso divino Coração e se
assemelhem a Vós. Deixai-me entrar com todos os pecadores, para que
se convertam e não Vos ofendam mais. Deixai-me entrar com todos os
que me têm ofendido, para lhes perdoardes e dardes por mim também o
perdão. Deixai-me entrar com o mundo inteiro, para que todo ele seja
salvo, pois dentro em Vosso divino Coração não corre mais perigo.
Vou separar-me de Vós, meu Jesus. Quanto me custa esta separação! E
quanto me custa ter de escrever tudo isto!
— Vai,
flor pura, flor mimosa do jardim divino. Tem coragem! Vai dar ao
mundo o perfume das tuas virtudes, enquanto o céu não chega.
Fiquei
com mais vida, mas por tão pouco tempo! Depressa vieram as trevas
esconder tudo.
— Meu
Deus, parece-me que nem os meus olhos vêem. Ó cruz do meu Jesus,
abraço-te por amor na terra, abraço-te para não mais te deixar no
tempo e na eternidade. Aceitai, Jesus, a minha tristeza e
desconsolação por ter ditado tudo isto.
30 de
Abril de 1945
Como
hei-de caminhar! Como hei-de vencer tão grande dor! Como hei-de
suportar tão aterradoras trevas! Só Jesus poderá valer-me, só Ele
pode aguentar o peso da minha cruz. Passo horas e horas num brado de
socorro. Apavorada de horrores e trevas e sem conseguir um momento
de conforto e a sentir a alma rasgar-se, despedaçar-se em dor. De
longe a longe, Jesus vai dando à minha alma um pouquinho de
suavidade, dizendo-me do íntimo do coração:
— Coragem, filhinha, cá estou eu a deliciar-me na tua dor. O teu
Jesus não te falta com a sua graça e o seu conforto.
— Ó meu
Jesus, é bem doce sofrer por Vós; é bem doce o Vosso conforto, mas
tudo desaparece nas trevas, tudo passa como se não fosse para mim.
Parece-me que Vós existis só para me condenares e não para me
salvares. Não há para mim mimos do céu nem da terra; para mim tudo
morreu, tudo desapareceu na negra escuridão da noite. É sempre
noite, em todo o mundo noite. Sinto todo o mundo a tremer apavorado;
lá se vai ele a mergulhar no abismo da perdição. Eu quero
acudir-lhe, quero salvá-lo e não posso. Sinto a sua perda, mas não o
vejo para o agarrar, não vejo as almas, não vejo as prisões, as
trevas não me deixam. Meu Deus, perdi a luz, perdi a vida. Pobre do
meu coração em dor e em ânsias: dor por Jesus ser ofendido, dor por
as almas se perderem; ânsias de amar a Jesus, ânsias de O ver amado,
ânsias de salvar as almas. Agora não tenho só fogo no peito e no
coração; incendiou-se todo o meu corpo; arde, arde sempre. Sinto que
as labaredas sobem às alturas, chegam ao céu. Este fogo, estas
chamas não dão luz nas minhas trevas, mas sim aumentam o meu
martírio. Ardo e não incendeio. Era este fogo que eu queria ver nas
almas. São estas labaredas que sinto, que eu queria incendiar em
todos os corações. Que fogo consumidor! Sinto o estalar do rochedo
por onde o fogo vai penetrando. Mas ah! é impossível estas chamas
incendiarem tudo. E eu só enrolada, mergulhada sempre na negrura
mais aterradora. Quando mais não posso, levanto os olhos ao céu e
digo:
— Meu
Jesus, sei, acredito, confio que estais em mim e sabeis que só a Vós
quero amar e não Vos quero ofender.
E,
descendo para baixo, imagino ver toda a humanidade e digo-lhe:
— Ó
mundo, quero salvar-te, por ti, pela tua entrega a Jesus, quero
sofrer tudo.
Dito
isto, fico de braços caídos, como se no meu corpo não existisse gota
de sangue. Nada feito, do mundo nada consigo. A minha prece não
chegou ao céu, Jesus não a ouviu. Mas ah! tenho aqui um coração que
palpita por Ele e Ele bem o sabe. Confio, confio; é Jesus e a
Mãezinha que vão vencer as minhas trevas. São Eles que vivem, são
Eles que sofrem em mim. Os ceguinhos que não têm olhos no corpo
também se salvam. Eu perdi a luz da minha alma, maior será a
compaixão de Jesus. Hei-de salvar-me e com Jesus hei-de salvar
muitas almas. O demónio rodeou-me tanto durante a noite! Não foi um,
foram muitos. Assustava-me tanto pelas formas com que se
apresentavam! Um deles tinha uma tão grande e tão feia, quase me
tocava com ela. O meu corpo ficou como se fosse uma casa com janelas
por todos os lados; estas todas fechadas, mas todas rodeadas por
eles. São como feras que querem lançar-se à presa, são ladrões que
querem assaltar a casa, assassinos que querem matar quem nela
habita. Que olhares tão maliciosos! Que gestos de tanta maldade!
— Não
pecarei eu, meu Jesus? Tirais disto alguma consolação para Vós,
algum proveito para as almas? Sou a Vossa vítima, guardai para Vós o
meu coração, o meu corpo e a minha alma. Tende dó de mim, meu Jesus.
Parece-me que em nada falei verdade. |